A solução para as cólicas pode estar no mimo. “A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito”

Julho 3, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 12 de abril de 2018.

As cólicas são um dos dramas de quem acabou de ter um bebé. Pediatras explicam o que são, como se podem atenuar e dão conselhos úteis.

São uma das maiores inimigas dos novos pais. As cólicas dos bebés, que geralmente surgem ao final do dia, provocam desconforto à criança, fazendo-a chorar durante longos períodos, o que lhe gera um elevado grau de irritação, que não ajuda a que se acalme. Mas afinal, o que são as cólicas e o que é que as causa?

“Na verdade, não se sabe muito bem o que as causa”, diz à MAGG Hugo Rodrigues, pediatra, que acrescenta que se calcula que estas “estejam relacionadas com alguma imaturidade do intestino e acumulação de gases”.

A definição médica das cólicas baseia-se na chamada “regra dos 3”, como explica o pediatra — se os bebés choram mais de três horas por dia, mais de três dias por semana e mais de três semanas por mês.

“Na prática, consideramos que um bebé tem cólicas quando tem episódios de choro que não têm causa evidente e se fora desses episódios, a criança estiver bem”, afirma o especialista.

No entanto, existem outras teorias, e uma das mais consistentes assenta na premissa de que as cólicas dos recém-nascidos são apenas mais uma etapa do desenvolvimento cerebral do bebé.

As cólicas são tão comuns como gatinhar ou sentar

O pediatra Miguel Fragata Correia acredita que as cólicas são uma etapa do desenvolvimento das crianças, tão comum como aprender a gatinhar.

“O cérebro dos recém-nascidos, ainda muito imaturo, tem uma perceção alterada dos estímulos dos intestinos e reage aos mesmos com um choro excessivo.”

“O bebé passa por um desenvolvimento cerebral e as cólicas são o reflexo disso mesmo. O cérebro dos recém-nascidos, ainda muito imaturo, tem uma perceção alterada dos estímulos dos intestinos e reage aos mesmos com um choro excessivo.”

O especialista afirma que as cólicas permanecem um mistério, dado que todos os estudos feitos no sentido de perceber a razão das mesmas se revelaram inconsistentes.

“Existe uma associação geral com os gases, e que é de facto um contributo (dado que quanto mais gás temos nos intestinos, maior é o desconforto), mas não é a razão principal”, refere o pediatra.

A obstipação das crianças também costuma ser um fator apontado por muitos pais como a causa mas, mais uma vez, o especialista desmente. “Se esse fosse o caso, não teríamos bebés que fazem cocó três e quatro vezes por dia e sofrem imenso com as cólicas.”

“Acredito que não fazem mal ao bebé, só à família”

Apesar do enorme desconforto que causa nas crianças, Miguel Fragata Correia acredita que as cólicas não são prejudiciais para a saúde. “Acredito que as cólicas não fazem mal

ao bebé, só à família. São um período muito complicado, de extremo cansaço, muito stressante e os pais passam muitas horas sem dormir”, salienta o pediatra.

Débora Grilo Esteves, produtora, tem 30 anos e é mãe de duas crianças: Frederica, de dois anos, e Lopo, com apenas 10 semanas. “A Frederica nunca sofreu com cólicas por isso não fazia ideia do que me esperava. Nos primeiros dias o Lopo era um anjinho, dormia dia e noite e só acordava para mamar”, conta Débora.

Mas não demorou muito para o cenário se alterar. Com cerca de duas semanas, o filho de Débora e do companheiro de quase dez anos, Sebastião, começou a sofrer muito com cólicas. “Por volta das 19 horas começava a ficar irrequieto. De repente acordava a chorar, aos gritos mesmo, muito encarnado e não acalmava com nada. Tentava dar mama, colo, mimos — mas nada funcionava. E ficava assim horas e horas.”

As cólicas do filho mais novo foram complicadas de decifrar para Débora, e a produtora chegou a pensar se Lopo teria fome. ”Estás num tal estado de desespero que pensas em tudo e equacionei que o meu leite não fosse suficiente para o alimentar. Mas percebi numa consulta que estava a aumentar bem de peso e acabei por descartar essa hipótese.”

A produtora concorda que a fase das cólicas, que ainda atravessa no presente, é um período muito duro, principalmente para os pais, privados de sono e exaustos ao limite.

“Já ouvi várias vezes que é uma fase, que geralmente termina por volta dos três, quatro meses e estou aqui em countdown.”

“Já ouvi várias vezes que é uma fase, que geralmente termina por volta dos três, quatro meses e estou aqui em countdown. São semanas muito complicadas. Quando a Frederica nasceu, aproveitava os momentos em que ela dormia para descansar mas agora a realidade é outra.”

Com uma criança de dois anos e um bebé de dez semanas em casa, Débora confessa que a gestão do tempo é desafiante e que o apoio do companheiro é crucial — assim como os momentos a dois para respirar.

“Os meus filhos não gostam de dormir ao mesmo tempo. Quando consigo adormecer o Lopo, a Frederica acorda e está super ativa, o que é completamente normal para a idade dela. Quer brincar, ver filmes, o que for. Mas o meu tempo de descanso desaparece. Acabámos por nos organizar por turnos: de noite eu fico responsável pelo bebé, de manhã o Sebastião cuida da nossa filha para eu dormir mais, por exemplo.”

O cansaço e a noites sem dormir também podem causar danos no casal, como explica o pediatra Miguel Fragata Correia, que considera que alguns pais até “podem ter de fazer terapia de casal. É um facto, as cólicas de uma criança podem alterar a dinâmica familiar.”

No caso de Débora e do companheiro, a exaustão também gera conflitos, apesar de o casal conseguir reconhecer facilmente a razão porque está a discutir.

“Estamos tão exaustos que começamos a discutir por tudo e por nada. Mas pouco depois conseguimos parar um bocadinho e perceber que o cansaço é o culpado de todas essas brigas. E tentamos também ter espaço para nós. De vez em quando recorremos aos avós ou às nossas irmãs e arranjamos forma de ir jantar com amigos ou a dois. É importante ter três horas para estarmos um com o outro, sem falar nem pensar em bebés.”

Há uma luz ao fundo do túnel: as cólicas, como qualquer fase, também passam

Patrícia Ferreira Ramos, blogger e assessora de imprensa, tem 35 anos e é mãe de dois filhos. Mas foi com a filha mais velha, de quatro anos, que passou pelo pesadelo das cólicas.

“A Leonor teve imensas até aos dois meses. Usámos todas as gotas e mais algumas, como o Aero-Om, e até pedimos a uma amiga da Irlanda para nos trazer umas especiais que não se vendiam em Portugal”, conta Patrícia.

A filha não dormia, os pais também não — e não sabiam mais o que fazer. Chegaram a ir ao hospital e passavam noites com a bebé ao colo e a fazer muitas massagens.

“Os nossos esforços aliviavam-na um pouco mas, de repente, as cólicas desapareceram por completo com cerca de dois meses.”

Os pediatras concordam: as cólicas têm uma linha de tempo. “Geralmente, começam por volta das três semanas, têm o seu pico nas seis, oito semanas, e terminam aos três ou quatro meses”, explica Miguel Fragata Correia, que acrescenta que ”são uma fase que todos os bebés passam, apenas existem uns que se manifestam mais que outros. E nunca vi casos de cólicas que não passassem, há que explicar isso aos pais.”

Enquanto não se atinge a marca dos quatro meses, que geralmente representa o fim desta saga, há que não desesperar — e existem técnicas para tentar acalmar o seu bebé.

A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito.”

“O mais importante é o contacto físico com os pais, porque tranquiliza os bebés”, afirma o pediatra Hugo Rodrigues. “Para além disso, devem sempre tentar-se as massagens ou dobrar as pernas do bebé sobre a barriga, para ver se ajuda.”

Miguel Fragata Correia é um apologista do colo para acalmar os bebés e vai mais longe — há que abandonar a ideia de que este pode ser prejudicial.

“A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito e, até aos cinco meses, nenhuma criança ganha manhas. Há sim que acalmar o bebé com colo, é mais fácil e as crianças respondem melhor. Se colocarmos um recém-nascido sozinho num berço, este não vai ter capacidade para se acalmar.”

O especialista acrescenta que, apesar de não existirem fórmulas precisas e cada criança ser diferente, as técnicas que acalmam mais os bebés são aquelas que recriam o ambiente do útero.

“Um ambiente calmo, quente, em que a mãe encoste o bebé a si fazendo um contacto pele a pele e embrulhado numa manta podem ser ferramentas úteis, bem como as massagens na barriga a cada muda da fralda”, afirma Miguel Fragata Correia, que acredita que há que “acalmar os bebés para acalmar os pais.”

Hugo Rodrigues conclui: ”Por fim, e se mesmo assim não se conseguir resolver a situação, existem alguns medicamentos no mercado com uma eficácia considerável. Faz sentido que os pais tentem testá-los para atenuar o desconforto do seu filho, desde que sempre aconselhados pelo médico pediatra.”

 

O leite de fórmula causa mais cólicas que o materno?

Existem vários mitos à volta do tema das cólicas, sendo a alimentação um dos mais recorrentes. Afinal, existe alguma validade na ideia de que os bebés alimentados a leite artificial sofrem mais de cólicas do que os bebés amamentados?

O pediatra Miguel Fragata Correia garante que não existe verdade nessa ideia. “Se assim fosse, todos os bebés alimentados a fórmula, que são bastantes, iriam ser os únicos a ter cólicas, o que não é a realidade. Essa ideia surgiu porque os bebés que não são amamentados bebem o leite através do biberão, que pode causar mais ingestão de ar, o que gera gases e que se acreditava serem o motivo das cólicas”, explica o especialista.

Da mesma forma, o médico pediatra também desmistifica a ideia de que a alimentação das mães pode ser um fator.

“Já existiram vários estudos a tentar encontrar uma ligação entre a alimentação das mães e a amamentação mas todos se revelaram inconclusivos”, afirma Miguel Fragata Correia.

 

 

 

 

O mimo não estraga as crianças. A falta de limites, sim

Abril 6, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e foto do site http://uptokids.pt/

Ser criança é muitas vezes concebido como um pano de fundo em que tudo parece perfeito, ou pelo menos, quase perfeito… Mas, Ser criança, não é sempre um arco-íris, cheio de cor, de vida e bem- estar, às vezes, ser criança é cinzento, umas vezes mais claro, outras cinzento escuro, quase negro, sem pontos de luz… Mas, afinal, que bicho papão é esse que parece tirar a cor à infância? Que bicho papão é esse que, às vezes, se torna tão grande dentro de cada criança que parece contamina-la em todas as áreas?

Quais os ingredientes para uma criança feliz?

A criança nasce e precisa de protecção, que cuidem dela e garantam o seu correcto desenvolvimento, é dependente! Mas se cuidarmos fisicamente do bebé, e depois nos esquecermos de lhe dar amor, a criança entra naquilo a que os técnicos de saúde mental chamam de ‘depressão analítica’, um estado que reflecte a não satisfação da necessidade de um amor seguro e incondicional.

O coração de mãe e também o coração de pai (sim, porque não nos podemos esquecer que o pai pode ter um coração tão grande como o da mãe, temos de deixar de o subestimar!) sabe bem no seu intimo que o principal ingrediente para uma criança feliz é o Amor. O amor seguro e incondicional, o afeto e o mimo – como só os pais de alma e corpo cheio sabem dar!

O mimo não estraga as crianças. A falta de limites, sim.

O mimo não estraga as crianças. Nunca uma criança ficou estragada por ter mimo a mais, ou amor a mais! O mimo e o amor funcionam como o combustível que nos faz mover, não só em criança, mas ao longo de toda a nossa vida. É o amor que nos prende à vida e só quando o amor nos segura podemos alcançar a felicidade.

Mas, então, o que é isso de “ele é mimado, ninguém faz nada dele”?, que ‘mimo mau’ é esse que afecta tantas das nossas crianças?

É a falta de limites.

Os Pais são capazes de sentir no seu intimo que só com limites claros a criança cresce segura de si! Quase todos os pais conseguem senti-lo, mas só os Pais conscientes, os que estão seguros de si, de alma e corpo cheio conseguem fazê-lo; só esses pais conseguem estabelecer as balizas sem resvalar para um lado de ‘general autoritário’, sem parecerem mais assustadores do que seguros.

A criança precisa de limites

Os limites – embora na fase inicial uma criança os rejeite – atribuem-lhe segurança e robustez. É como se o pai e a mãe lhe dissessem ao coração: “avança, que nós estamos aqui para garantir que tens o caminho seguro. Aconteça o que acontecer, nós não te vamos deixar cair”.

Uma criança sem limites é uma criança em auto-gestão que, mesmo que sinta com o coração todo, ainda não sabe onde pode pisar ou não, explorando, aos poucos, o mundo de forma assustada, sempre com a ideia que um dia, se for preciso, pode ninguém estar lá para a proteger.

Uma criança sem amor ou sem limites será sempre um adulto em apuros. Se queremos crianças felizes, precisamos de uma boa dose de amor em equilíbrio com uma boa dose de limites. Assim, de falha em falha, como só os bons pais se permitem a falhar, subtraímos birras, multiplicamos sorrisos e somamos felicidade em cada criança, em cada família.

Por Escola do Sentir, Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas

 

Mimo a mais não estraga uma criança. A falta de limites sim

Dezembro 18, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://p3.publico.pt/ de 6 dezembro de 2017.

Uma criança sem limites é uma criança em auto-gestão. Uma criança sem amor ou sem limites será sempre um adulto em apuros

Texto de Cátia Lopo e Sara Almeida

Ser criança é muitas vezes visto com um pano de fundo em que tudo parece perfeito ou, pelo menos, quase perfeito. No entanto, ser criança não é sempre um arco-íris, cheio de cor, de vida e bem-estar; às vezes, ser criança é cinzento, umas vezes mais claro, outras cinzento escuro, quase negro, sem pontos de luz. Afinal, que bicho papão é esse que parece tirar a cor à infância? Que bicho papão é esse que, às vezes, se torna tão grande dentro de cada criança que parece contaminá-la em todas as áreas? Quais os ingredientes para uma criança feliz?

A criança nasce e precisa de protecção, que cuidem dela e garantam o seu correcto desenvolvimento. É dependente! Mas se cuidarmos fisicamente do bebé e depois nos esquecermos de lhe dar amor, ele entra naquilo a que os técnicos de saúde mental chamam “depressão analítica”, um estado que reflecte a não satisfação da necessidade de um amor seguro e incondicional.

O coração da mãe e o coração do pai — sim, porque não nos podemos esquecer que o pai pode ter um coração tão grande como o da mãe, temos de deixar de o subestimar! — sabem bem no seu íntimo que o principal ingrediente para uma criança feliz é o amor. O amor seguro e incondicional, o afecto, o mimo, como só os pais de alma e corpo cheio sabem dar!

Não, não é verdade que o mimo estraga as crianças, nunca uma criança ficou estragada por ter mimo a mais ou por ter amor a mais! O mimo e o amor funcionam como o combustível que nos faz mover, não só em criança, mas ao longo de toda a nossa vida. É o amor que nos prende à vida e só quando o amor nos segura podemos alcançar a felicidade.

Mas, então, o que é isso de “ele é mimado, ninguém faz nada dele”? Que “mimo mau” é esse que afecta tantas das nossas crianças? É a falta de limites. De novo, os pais são capazes de sentir no seu íntimo que só com limites claros a criança cresce segura de si! Quase todos os pais conseguem senti-lo, mas só os pais conscientes, os que estão seguros de si, de alma e corpo cheio, conseguem fazê-lo; só esses pais conseguem estabelecer as balizas sem resvalar para um lado de “general autoritário”, sem parecerem mais assustadores do que seguros. Os limites — embora na fase inicial uma criança os rejeite — atribuem-lhe segurança e robustez. É como se o pai e a mãe lhe dissessem ao coração: “Avança, que nós estamos aqui para garantir que tens o caminho seguro. Aconteça o que acontecer nós não te vamos deixar cair”.

Uma criança sem limites é uma criança em auto-gestão que, mesmo que sinta com o coração todo, ainda não sabe onde pode pisar ou não, explorando, aos poucos, o mundo de forma assustada, sempre com a ideia que um dia, se for preciso, pode ninguém estar lá para a proteger. Uma criança sem amor ou sem limites será sempre um adulto em apuros. Se queremos crianças felizes, precisamos de uma boa dose de amor em equilíbrio com uma boa dose de limites. Assim, de falha em falha, como só os bons pais se permitem a falhar, subtraímos birras, multiplicamos sorrisos e somamos felicidade em cada criança, em cada família.

 

 

Crianças “mimadas” – Mário Cordeiro

Janeiro 30, 2017 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto de Mário Cordeiro publicado na http://www.paisefilhos.pt/ de 16 de janeiro de 2017.

mario

Um ser que se julga omnipotente e o umbigo do mundo não aceitará facilmente ser contrariado. Pelo pediatra Mário Cordeiro

Que fique claro que o mimo não faz mal a ninguém, pelo que “mimada” está entre aspas, referindo o que os ingleses designam por “spoiled” (estragada), porque o mimo sem aspas nunca é moeda de troca, de chantagem, nunca proporciona falta de regras ou comportamentos de exigência.

O que se designa muitas vezes por “criança mimada” é outra coisa: é aquela que cresce impondo a sua vontade, pelo medo e pressão (birras), e que não converte a omnipotência natural dos 9-18 meses em respeito, solidariedade e capacidade de enfrentar a frustração.

A culpabilização dos pais, por exigirem de si próprios um desempenho que não conseguem, ou por terem expectativas muito diferentes da realidade, leva a que tentem compensar o que consideram não estar a dar aos filhos. Este complexo de culpa raramente tem razão de existir, porque os filhos não precisam da presença física constante dos pais, mas sim de disponibilidade e entrega no tempo que existe, e de carinho, estímulos positivos e regras, mais do que brinquedos, chocolates ou qualquer outra coisa material.

A rentabilização do tempo é outra questão: muitos pais são incapazes de mudar de “fuso horário”, quando chegam a casa. As crianças fazem muito melhor essa separação – por isso é que comem tudo na escola, sozinhos, e em casa querem tudo passado e dado pelos pais: a escola é o espaço de crescimento, a casa o de regressão. Com os adultos deveria ser o mesmo. Se fizermos um esforço para definir claramente esses compartimentos, a casa e os filhos terão mais hipóteses de ser vistos como espaço de colo e de libertação, e não como mais um espaço de guerrilha e de exigência. Não é fácil mas compensa promover um ambiente caseiro que seja pacificador e relaxante para todos.

O terceiro conceito que urge desmistificar é o de que mimo e ternura se opõem a regras e educação. Ou que é por tudo ser permitido que as crianças gostam mais dos pais ou se sentem mais seguras. A imposição de limites vai criar, naturalmente, frustração e reações de negação. Um ser que se julga omnipotente e o umbigo do mundo não aceitará facilmente ser contrariado. Todavia, só assim estará a aprender as regras de convivência e a entender que os limites são necessários aos caminhos, e estes à definição e segurança do percurso de vida. Se estivermos no deserto sem qualquer indicação de rumo, será angustiante. Pensamos ser livres para irmos onde queremos mas ficamos perdidos.

O “estragar” pode vir de muitas atitudes, desde hiperproteger e não dar autonomia, até ceder perante as birras ou até antecipar o desagrado, oferecendo logo doces e presentes.

A frustração é necessária ao desenvolvimento de uma personalidade equilibrada. A criança também precisa de espaços próprios, de tempo para estar consigo mesma, de exercitar a autonomia, mesmo que revele algum receio. Muitos pais não conseguem dar essa liberdade aos filhos, o que conduz a criança a uma grande insegurança e dualidade, entre querer ser ela própria a ter certos desempenhos, mas a sentir que é mais fácil, cómodo e prático serem os pais a cuidar de tudo. Este comportamento reforça também a omnipotência e aumenta a dificuldade em socializar.

O reflexo natural dos pais é blindar a relação com os filhos e evitar que evoluam na sua responsabilidade e autonomia. Todavia, é nesse esforço e nessa dádiva que nos assumimos como pais; no fundo, respeitando os filhos e sabendo que o percurso de vida deles… terá mesmo de ser deles. Aproveitemos o Dia da Criança para refletir um pouco sobre o que desejamos para os nossos filhos.

 

O teu filho é “um mimado”? 10 sinais para perceberes

Janeiro 15, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 5 de janeiro de 2016.

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Então, estragaste o teu filho com mimo?

Dar mimo é uma das melhores coisas que podemos dar aos nossos filhos. Transmite-lhes segurança, autoconfiança, ensina-os a ser afectuosos e a aceitar o afecto. Anima-os nos dias tristes e dá-lhes aconchego para a noite. Segundo o pediatra Mário Cordeiro, “não há mimo a mais” O mimo é sempre positivo. No entanto é importante saber distinguir o mimo de outras situações que muitos pais recorrentemente confundem com mimo. Falamos de chantagem emocional, de subornos, de promessas em troca da realização de qualquer tarefa que seria suposto a criança realizar sem contrapartidas. Esta situação permite que a criança ganhe força, e se torne num pequeno Hitler dentro da sua casa. Manipula os pais para comer, para se vestir, para tomar banho e para ir dormir. E os pais, cansados, acabam por ceder porque só querem que as coisas fiquem feitas e que o menino seja feliz.

Se não há mimo a mais, podemos (e devemos) andar com os nossos bebés ao colo, dormir com eles, dar-lhes banhos prolongados, ler e cantar para eles até adormecerem, beija-los nos pés e nas pálpebras sempre que quisermos sem os “estragar de mimo.” Mas como é óbvio, não podemos fazer isso quando eles tiverem 16 anos. Nem 6. Porque a nossa função de pais, além de criar crianças felizes é criar adultos capazes. E para isso, a autonomia tem de começar desde cedo a ser trabalhada. Com a autonomia as regras, os limites e as responsabilidades. Sempre com muito amor e muito mimo, mas com firmeza para não descambar. Porque nos arriscamos a que o nosso bebé se transforme numa criança malcriada.

É fácil apontar os miúdos “mimados” na escola ou no parque, mas conseguiremos ter um olhar crítico sobre os nossos filhos?

A Pop Sugar fez uma lista de 10 sinais evidentes para perceberes se o teu filho é “um mimado”?

1. Faz birras por tudo e por nada

Já todas passamos por uma birra em casa ou no supermercado, mas se o teu filho usa este trunfo sempre que quer alguma coisa quer dentro de casa, quer na rua, então este é um bom indicador de que possa ser um mimado.

2. Nunca está completamente satisfeito

As crianças mimadas não ficam satisfeitas com o que têm e querem sempre ter o que vêem nos outros.

3. Não ajuda nem que ajudar nas tarefas.

São poucas as crianças voluntariosas nas tarefas domésticas. Mas a partir de uma certa idade já devem estar habituados a ajudar a arrumar os seus brinquedos e quartos entre outras coisas. Um mimado não quer ajudar em tarefa nenhuma, e se for preciso usa o trunfo birra para se escapar a esta obrigação.

4. Tenta controlar os adultos

As crianças mimadas não distinguem os pares dos adultos e esperam controlar os pais como muitas vezes controlam os pares.

5. Não partilham

A partilha é um conceito difícil para uma criança adquirir, mas a partir dos 4 anos, e aprendendo através do exemplo, as crianças devem estar aptas e gostar de partilhar com os amigos e irmãos.

6. Tens de implorar para que realize uma tarefa

Os pais são figuras de autoridade a quem as crianças devem obedecer quando lhes é feito um pedido. Não é suposto implorares ao teu filho para que realize uma tarefa.

7. Ignora-te

Nenhuma criança gosta de ouvir a palavra “não”, mas se o teu filho te ignora não é bom sinal.

8. Recusa-se a brincar sozinho

Aos 4 anos, uma criança deve estar disposta (e capaz) de brincar sozinha por um período de tempo. Exigir sempre a presença de um pai ou amigo para brincar nem que seja por 5 minutos demonstra sua necessidade de atenção.

9. Tens de suborna-lo

Os pais não devem ter que subornar os filhos quer seja com dinheiro, brinquedos, ou doces para que realizem tarefas rotineiras

10. Envergonha propositadamente os pais em público

Um deslize aqui e ali é normal, mas quando uma criança envergonha propositadamente os pais em público para obter atenção, a situação vai para lá de um ato isolado passando a ser uma atitude manipuladora de criança mimada.

 

 

Crianças que recebem colo dos pais se tornam adultos mais confiantes

Julho 26, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site http://revistacrescer.globo.com/ de 26 de fevereiro de 2016.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

The evolved developmental niche in childhood: Relation to adult psychopathology and morality

mais informações na notícia:

‘Snuggles matter’ — new research links child cuddling to being ‘more productive adults’

revistacrescerglobo

Pesquisa realizada pela Universidade de Notre Dame com 600 pessoas concluiu que acalentar bebês não faz mal. Pelo contrário: tem benefícios que ficam para sempre

Por Vanessa Lima

Dez entre dez pais ou mães já ouviram conselhos como: “Deixa essa criança no berço! Você fica pegando toda hora. Ela vai ficar mal-acostumada”. No entanto, quem tem filhos sabe que é impossível ignorar o choro de um bebê que implora por um toque. Vários pediatras e especialistas em puericultura discordam do conceito de que o colo “estraga” o bebê, difundido desde o tempo das nossas avós. Agora, há mais uma prova disso. Realizado por pesquisadores da área de psicologia da Universidade de Notre Dame, um novo estudo concluiu que adultos que receberam carinho e colo à vontade na primeira infância são menos ansiosos e têm uma saúde mental melhor.

Para chegar a esse resultado, os especialistas convidaram 600 adultos para responder questionários sobre quando eles eram crianças e também sobre a vida atual. Além de descobrir que, entre os participantes, aqueles que haviam sido mais acalentados pelos pais quando pequenos tinham uma probabilidade menor de desenvolver distúrbios psíquicos, o estudo também confirmou o que muitas famílias já sabem por instinto, mas é sempre bom lembrar: crianças que recebem atenção e mais tempo de qualidade junto dos pais se tornam adultos mais saudáveis e com mais habilidades sociais.

Atitudes dos pais influenciam crianças até a vida adulta

De acordo com os pesquisadores, o que os pais fazem nesses primeiros meses e no primeiro ano de vida dos filhos influencia na maneira como o cérebro deles se desenvolve pelo resto da vida.  “Que os pais os abracem, que os toquem, que os embalem. Isso é que os bebês esperam.  Eles crescem melhor dessa maneira. Isso os mantém calmos porque todos os sistemas corporais e neuronais ainda estão se estabelecendo, descobrindo como vão funcionar. Se os adultos deixam que os bebês chorem muito, esses sistemas desenvolverão um gatilho fácil para o estresse. Por isso, os adultos que tiveram menos contato e menos carinho costumam ter reações de estresse mais vezes e sentem dificuldades para se acalmar”, diz Darcia Narvaez, professora de psicologia da Universidade de Notre Dame e líder da pesquisa .

Por que dizer que o colo faz mal?

Ainda que hoje vários estudos e profissionais desmintam a ideia de que o colo faz mal, muita gente continua oferecendo esse tipo de palpite aos pais, principalmente os de primeira viagem. “Infelizmente, essa ideia vem das pessoas que não entendiam ou não conheciam os principais princípios psicoemocionais do desenvolvimento infantil nos primeiros dois anos”, explica o pediatra José Martins Filho, titular emérito de pediatria da Universidade de Campinas (Unicamp – SP) e presidente da Academia Brasileira de Pediatria.

Ter filhos dá trabalho. Além dos cuidados básicos, é preciso encontrar tempo para dedicar carinho e atenção a eles e isso nem sempre é fácil porque, no mundo moderno, os pais acumulam uma série de tarefas. Muitas vezes, o cansaço e a impaciência acabam vencendo. Hoje, é menos comum que pais e mães consigam ficar em casa por muito tempo com as crianças. Por isso, no tempo em que eles estão por perto, não dá para negar um colo quando choram. Até porque, quando se está no olho do furacão pode não parecer, mas essa fase passa rápido demais.

“Hoje, que sabemos que o vínculo, o afeto e o carinho são importantes na prevenção de problemas emocionais futuros, as coisas, felizmente, estão mudando, embora ainda vejamos, às vezes, pessoas falando esses absurdos”, reflete o especialista.

Mais tempo de qualidade com os filhos

Como, então, os pais podem passar mais tempo de qualidade com as crianças? Tanto para quem trabalha fora e fica o dia inteiro longe, como para quem fica em casa, mas passa o dia tentando cumprir todas as tarefas, que não costumam ser poucas, o jeito é focar na qualidade desse tempo em família. O período pode ser mais curto do que os pais gostariam, mas, nessa hora, é importante se entregar realmente à criança. “É preciso oferecer um colo calmo, paciente e carinhoso porque pegar uma criança com irritação e demonstrando impaciência é ruim. Sacudindo e falando alto acaba assustando mais do que acalentando”, explica Martins Filho. Todo mundo sabe que, hoje, não é fácil, mas o ideal é deixar o celular de lado, pelo menos por um tempo, para garantir que você está ali por inteiro.

 

 

 

Adolescentes não têm mimos a mais, têm mimos maus

Fevereiro 4, 2016 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto publicado no http://lifestyle.publico.pt de 26 de janeiro de 2016.

Ricardo Silva

Por Inês Garcia

O caso do adolescente norte-americano com “affluenza” trouxe preconceito contra as famílias ricas. Miúdos mimados ou com falta de mimos?

Em 2013, o adolescente Ethan Couch, de 16 anos, provocou a morte de quatro pessoas e feriu nove, enquanto conduzia embriagado no Texas, Estados Unidos. Os seus advogados alegaram que o jovem sofria de uma condição chamada “affluenza” para justificar a sua não-culpabilidade, argumentando de que a falta de valores morais e limites se devia à permissividade dos pais. Detido no fim de 2015 por ter violado a sua liberdade condicional e a aguardar julgamento, surgem as opiniões – “miúdo mimado”, “reflexo de negligência parental” ou “culpa de um vírus”?

O termo “affluenza” vem das palavras inglesas “influenza” (“gripe”, em português) e “affluence” (“influência, riqueza”), foi popularizado nos anos 1990 e refere-se a jovens que nunca terão aprendido a ser responsáveis nem a medir as consequências dos seus actos. A culpa disto seria dos pais, que teriam mimado os jovens em demasia. Mas esta condição nunca foi reconhecida pela Associação Americana de Psicologia – “há um conjunto de comportamentos e criou-se o termo para falar disso, mas não corresponde a um diagnóstico clínico, a comunidade não o aceita como tal”, atesta José Morgado, especialista em psicologia de educação, em conversa telefónica com o PÚBLICO.

A utilização desta condição foi uma estratégia de defesa de Couch – tentar provar a instabilidade perante um crime pesado em que o arguido é culpado é “comum” – mas “a América tem um contexto muito particular nas questões jurídicas, com meandros muito diferentes dos nossos”, lembra Morgado. “Não tenho a certeza se um caso com esse figurino teria o mesmo final num país da Europa, o modelo de justiça é muito diferente”.

Morgado admite, porém, que há crianças e jovens que crescem com alguma desregulação ao nível dos valores e dos limites. Há aqui algo que a sociedade não deve ignorar, defende Suniya Luthar, professora de psicologia na Universidade do Estado de Arizona num artigo para a agência Reuters intitulado Às vezes as ‘pobres criancinhas ricas’ são mesmo pobres criancinhas ricas, citado pela CNN. “Há provas crescentes de que os filhos dos ricos estão-se a tornar cada vez mais perturbados, irresponsáveis e auto-destrutivos”, defende Luthar, que investiga as vidas de crianças privilegiadas há 25 anos. José Morgado defende, no entanto, que “não há uma relação directa entre ter muito dinheiro e ter um determinado tipo de comportamento” por “uma razão simples: se houvesse uma relação causa-efeito, todas as pessoas teriam o mesmo comportamento na mesma circunstância e isso não se verifica”.

“São mais os estilos de vida que podem estar ligados a determinado tipo de condição, determinados tipos de exercício profissional, pouca presença familiar… Estes estilos podem reflectir-se ao nível do estabelecimento da educação, os miúdos ficam mais sós, com menos regras, com menos orientação, menos níveis de comunicação”, explica Morgado, que trabalha directamente com pais e professores de vários colégios e ouve queixas de determinado tipo de comportamentos. “Há pais muito ausentes que, como têm dinheiro, compram o serviço educativo, não o exercem. Não porque queiram ser maus pais”, continua, “mas não têm tempo, têm horários exigentes”.

Mas isto não está relacionado, frisa o especialista, com “mimo a mais”. “Tira-me do sério a expressão dos miúdos que têm mimos a mais. Não há ninguém que tenha mimos a mais, são é maus mimos”, diz, sublinhando o mimo como um bem imprescindível na vida das pessoas em qualquer idade. “Se não lhe dão mimo, se deixam fazer tudo o que a criança ou o jovem quer, isto não é mimo, é mau mimo, é um mau serviço prestado à criança”, enfatiza José Morgado.

Os miúdos a quem chamam “muito mimados” são crianças “mal-educadas”, diz José Morgado. “São miúdos sem regulação nos valores e nos limites”, que precisam de ouvir mais “nãos”.

As crianças e jovens “precisam e querem que lhes digam o que está certo e o que está errado e aprender a serem responsáveis e as consequências das suas acções”, frisa o psicólogo norte-americano Harris Stratyner à CNN. “O que as pessoas não percebem é que, para as crianças, os limites são necessários para que se sintam seguras. Elas não são cognitivamente capazes de definir limites para si próprias por isso precisam que nós, pais, lhes digamos ‘ok, é aqui que estou a traçar a linha. Não podes ultrapassá-la e haverá consequências se o fizeres’”, acrescenta Suniya Luthar.

Comunicação é essencial

“É preciso arranjar formas de comunicação com os miúdos”, reconhece José Morgado. Mas também é preciso “sermos realistas”: “Não posso dizer a um pai, que tem um trabalho e horários exigentes, para arranjar tempo. É preciso é adaptar o tempo às suas circunstâncias de vida. Há menos tempo mas o tempo de que dispõem tem de ser para comunicar com os miúdos”, aconselha, lembrando que a educação é feita com base na relação e só há relação se houver comunicação. “É isto que os pais não se podem esquecer”.

É preciso sermos “proactivos” e ter atenção, realça o psicólogo. “Quando chegamos a casa devemos perguntar aos jovens como correu o dia. Podem não querer falar, há a idade em que preferem falar com os amigos dos seus grupos, mas é importante os pais perguntarem e mostrarem que estão lá” para qualquer eventualidade, continua.

A psicoterapista norte-americana Eileen Gallo, co-autora do livro Silver Spoon Kids: How Successful Parents Raise Responsible Children, chama a atenção para as conversas dos pais com os filhos não só sobre os dias de escola dos miúdos mas também para contar os seus dias de trabalho. As conversas são “tão importantes” nestes casos, diz à CNN, “provavelmente ainda mais nos dias de hoje” – em que o contacto é feito através de chamadas ou troca de mensagens nas redes sociais em vez de conversas cara-a-cara.

Os níveis de deliquência entre pobres e ricos são “comparáveis”, diz Suniya Luthar. Independentemente dos rendimentos e do seu lar, há sentimentos de ansiedade, depressão, crimes – e é essencial haver figuras a seguir (role models) e comunicação. A única diferença pode ser a forma de quebrar as regras: nos lares das famílias de classe média-alta “o dinheiro é abundante, por isso os jovens têm mais dinheiro para comprar drogas, álcool e arranjar sofisticados bilhetes de identidade falsos e os pais têm dinheiro para pagar a advogados bons”.

“Não é fácil. É confuso. Isto de ser um pai ‘bom o suficiente’ é desconcertante. E pensar que só por que temos mais estudos ou mais dinheiro temos as respostas certas, que sabemos a melhor coisa a fazer para continuar a fazê-la, é um equívoco”, refere Luthar.

 

 

 

 


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