“Todas as crianças do mundo merecem avós portugueses”. Esta é a conclusão do homem que estuda felicidade

Março 22, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Responsável por colocar o Hygge nas bocas do mundo, Meik Wiking está de volta à escrita com ‘O Livro do Lykke’. Mais do que uma reflexão sobre a vida e a felicidade, esta obra debruça-se sobre os seis elementos da felicidade humana e de que forma é que a podemos alcançar através de dicas práticas. O escritor dinamarquês esteve em Lisboa para a apresentação do livro e esteve à conversa com o SAPO Lifestyle.

‘O Livro do Hygge’ focou-se no Hygge que, para além de ser uma parte importante da identidade cultural da Dinamarca, é descrito como o segredo dinamarquês da felicidade. O novo livro explora o conceito Lykke – que em português quer dizer felicidade – e revela os segredos das pessoas mais felizes do mundo. O que o motivou a escrever ‘O Livro do Lykke’?

O segundo livro fala sobre aquilo que eu faço enquanto Presidente do Happiness Institute Research e qual o meu objetivo de vida: tentar perceber o que leva à felicidade. Há cinco anos fundei este think tank porque tinha curiosidade sobre determinadas questões. “Por que é que algumas pessoas são mais felizes do que outras?”, “Como podemos melhorar a nossa qualidade de vida?”, “Por que é que a Escandinávia tem uma boa posição no ranking da felicidade?” Toda a pesquisa que fiz nessa área está neste livro. Tentei torná-lo acessível e apresentar os dados que analisámos às pessoas.

No livro afirma que é muito mais fácil para as pessoas focarem-se nas coisas negativas do que na beleza e no bem do mundo em que vivemos. Não considera que isso é uma consequência da forma como os meios de comunicação retratam o mundo que nos rodeia?

Sim, é exatamente isso. Nós vemos morte, terrorismo e desemprego nas notícias porque é assim que os meios de comunicação social funcionam. Somos expostos a conflitos diários mas se olharmos para os dados de como o mundo está a evoluir constatamos o seguinte: existem retrocessos mas, de uma forma geral, o mundo é muito melhor hoje em dia do que há 50 anos. Há mais igualdade entre géneros, menos mortalidade infantil, mais esperança média de vida e menos pessoas a viver em pobreza. Há muitas coisas boas a acontecerem mas temos tendência a focar-nos nas coisas negativas.

O Meik Wiking afirma que Portugal tem os pais mais felizes do mundo. Como é que chegou a essa conclusão?

Ter filhos é ótimo para a dimensão da felicidade que está relacionada com o nosso propósito de vida. Quando as pessoas têm filhos sentem que estes dão propósito, direção e significado à vida. Mas quando se analisam os níveis de satisfação de forma imparcial, vemos diferentes resultados dependendo dos pais. Nos Estados Unidos 12% dos pais são menos felizes do que aqueles que não têm filhos. No Reino Unido são 8% menos felizes. Do outro lado do espectro temos Portugal. Aqui, os pais são mais felizes do que as pessoas que não têm filhos. Uma das explicações centra-se no facto de os progenitores serem melhores a incorporar a geração dos avós no crescimento dos filhos. Todas as crianças merecem avós portugueses e políticas escandinavas favoráveis à família. [Risos]

Comparativamente com a Dinamarca, Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer quando o assunto é felicidade. Que aspetos é que podemos melhorar de forma a subirmos no ranking dos países mais felizes do mundo?

Portugal é um país curioso porque ocupa a 89ª posição no Relatório Mundial da Felicidade. Há lugar para melhorias e acho que a questão da empregabilidade é um importante fator em Portugal. Mas acho que todos os países, incluindo a Dinamarca, podem ter um melhor desempenho nos seis fatores analisados no livro: convívio, dinheiro, saúde, liberdade, confiança e bondade.

O ser humano move-se em torno de um objetivo comum: ser feliz. Por que razão é que muitas pessoas acham que a fama e a fortuna são imprescindíveis para atingir a felicidade?

Nós procuramos a felicidade porque é bom [Risos]. Uma das razões pelas quais buscamos fortuna é porque entendemos que o dinheiro é importante para a felicidade. É verdade que para fugir à pobreza e à miséria é necessário dinheiro e muitos de nós pensamos que essa dependência se mantém ao longo da nossa vida. Nós não entendemos algo a que os economistas chamam de Lei da Utilidade Marginal Decrescente: quanto mais temos de uma coisa menos prazer retiramos dela. Quando comemos uma fatia de bolo sabe-nos bem, mas à quinta fatia isso já não acontece. E o mesmo se passa com o dinheiro. O facto de ganhamos mais ao final do mês não vai impactar a nossa satisfação com a vida, o nosso propósito ou as emoções que sentimos diariamente. Outra razão prende-se com o facto de o dinheiro ser fácil de comparar, deixando que isso pese demasiado na nossa vida. O terceiro fator pelo qual buscamos dinheiro mais do que devemos tem que ver com o facto de sermos seres sociais: estamos sempre a fazer comparações e queremos sempre o que os outros têm e mais.

Outro dos temas abordados no livro prende-se com o uso excessivo das redes sociais e na forma como os dispositivos eletrónicos afetam a felicidade, a satisfação com a vida e as relações sociais. De que forma é que podemos contornar este problema?

Diariamente somos confrontados com imagens editadas de vidas perfeitas. Mas a verdade é que as imagens que postamos no Instagram são highlights da nossa vida e não a nossa vida real. Talvez seja necessária mais transparência e abertura quando se fala em redes sociais pois ninguém tem uma vida perfeita e isenta de problemas. Temos de aprender a usar esta nova tecnologia de forma mais benéfica. É difícil porque estamos a falar de gratificação instantânea e a vida, de certa forma, é uma luta constante entre objetivos a longo prazo e gratificação instantânea. Gostava muito que as escolas, as famílias e as comunidades tentassem encontrar soluções para afastar as pessoas dos telefones. Há um colégio interno dinamarquês que tira os aparelhos aos estudantes que só os podem utilizar durante uma hora por dia. Ao fim de seis meses, os alunos votaram se o colégio deveria implementar este método ou se os telefones deveriam ser devolvidos. A conclusão foi que 80% optou pela permanência deste sistema porque criaram uma comunidade com as pessoas que estavam à sua volta. E acho que este caso é uma ótima inspiração para as famílias e as comunidades se juntarem durante algumas horas. Acho que este é o caminho a seguir.

Um dos estudos apresentados refere que as pessoas que trabalham por conta própria são mais felizes do que aquelas que trabalham por conta de outrem. Que conselho daria a quem não se sente realizado profissionalmente mas tem medo de arriscar?

Acho que é uma decisão difícil de tomar. Não sei se tenho um conselho para dar mas posso usar a minha história como exemplo. Durante sete anos trabalhei como diretor de um think tank direcionado para a economia sustentável. Ganhava bem mas não era apaixonado por aquilo que fazia. E para além disso senti que a minha aprendizagem tinha estagnado. Em 2012 comecei a ver o que estava a acontecer com os estudos globais sobre a felicidade, diferentes governos começaram a medir a qualidade de vida e percebi que queria trabalhar nessa área. Queria perceber como podíamos medi-la, porque é que havia pessoas mais felizes que outras e por que razão a Dinamarca se destacava no Relatório Mundial da Felicidade. Achei que alguém deveria criar um think tank sobre a felicidade e foi aí que pensei: “Eu deveria fazer isso.” Foi um risco muito grande porque não sabia se podia viver disso. Isto foi depois da recessão económica e na altura em que um amigo meu morreu com cancro, aos 49 anos. No momento eu tinha 34 e apercebi-me de que faltavam 15 anos até completar 49. Foi aí que pensei “O que é que eu vou fazer durante este tempo que me resta? Vou ficar neste emprego que não me preenche ou vou criar o think tank que, apesar de ser uma ideia louca, pode ser muito divertido”? No meu caso, a coragem para mudar a minha vida partiu da ideia de que o tempo é limitado e que temos de saber aproveitá-lo da melhor forma. Se as pessoas souberem de outro caminho, que as fará mais felizes, é uma boa direção.

No livro ressalva a importância do convívio e das relações pessoais, afirmando que “quantas mais pessoas tivermos com quem possamos falar de assuntos particulares, mais felizes seremos.” A felicidade humana é determinada pela existência de um parceiro ou pelo casamento?

Se formos dividir as pessoas que estão casadas/numa relação e as pessoas que são solteiras concluímos que as pessoas que são casadas são, em média, mais felizes. Mas isso nem sempre quer dizer que o casamento nos proporcione mais felicidade. Claro que há sempre uma causa e efeito mas quando observamos as pessoas vemos o seguinte: as pessoas mais felizes, otimistas e positivas têm mais facilidade em atrair um parceiro mas também é possível aumentar a felicidade através do casamento. Em muitos países, isto afeta mais os homens do que as mulheres porque os homens buscam o companheirismo e a partilha no casamento enquanto as mulheres conseguem isso sem um homem ao seu lado. E no caso do casamento vemos que as pessoas que sentem que o seu parceiro é o seu melhor amigo são ainda mais felizes. Mas será que podemos ser felizes sem o casamento? Claro que sim, mas acho que todos precisamos de ter alguém que nos apoie, que nos compreenda e que nos oiça. E por vezes isso vem na forma de um marido ou de outra coisa.

Aceitar que todos temos bons e maus dias é fundamental para sermos pessoas mais felizes?

Sim e isso é uma coisa que eu e os meus colegas salientamos nas nossas apresentações porque as pessoas acham que nós, pesquisadores da felicidade, estamos sempre felizes. E isso nem sempre é assim. Nós também temos preocupações, ficamos frustrados, stressados, cansados, furiosos, tristes e isso faz parte da vida. Acho que é importante que as pessoas reconheçam isso e que percebam que não existe um nível constante elevado de felicidade.

O que mais o surpreendeu durante o processo de pesquisa para escrever “O Livro do Lykke”?

Ao longo destes cinco anos uma das maiores surpresas foi o elemento genético. Nos Estados Unidos gémeos idênticos foram adotados por dois casais e a partir desses estudos conseguimos ver que os gémeos idênticos, com materiais genéticos idênticos, tem níveis de felicidade muito parecidos. Existe uma dimensão genética semelhante quando olhamos para o campo da saúde mental, como é o caso da depressão, esquizofrenia e ansiedade. Outra coisa que me surpreendeu foi ter consciência de que acima de tudo somos humanos e conseguimos ver nos dados que a mesma coisa que leva à felicidade em Lisboa é igual em Calcutá e em Tóquio. E chegar a essa conclusão é algo maravilhoso especialmente nesta altura.

A felicidade total existe ou é um mito?

Talvez exista num momento específico mas é algo bastante difícil de manter por um longo período de tempo. Na Dinamarca temos uma expressão que diz o seguinte: “Não devemos deixar que a perfeição seja inimiga das coisas boas”. E acho que isso é uma boa filosofia de vida. Vão existir sempre coisas melhores mas não devemos deixar que nada roube o nosso prazer momentâneo. É uma estratégia que devemos adotar em vez de almejar algo impossível.

O que pretende que as pessoas retirem deste livro?

Gostava que as pessoas percebessem o que leva à felicidade. Este livro explica que a Dinamarca não tem o monopólio da felicidade e que podemos encontrá-la em outras partes do mundo. É um menu com dicas e ideias que as pessoas podem implementar na sua vida. Se o leitor implementar uma dessas dicas na sua vida já ficava feliz.

 


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