Workshop “Meditação para Crianças: Como implementar em sala de aula” – 10 novembro em Évora

Novembro 5, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A meditação que salvou os rapazes tailandeses também cá ajuda nas escolas

Julho 25, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 15 de julho de 2018.

Alunos mais calmos, menos ansiosos e concentrados. Em Portugal há projectos de meditação e ioga aplicados às salas de aula.

Susana Pinheiro

Silêncio, chiu! Ao sinal do toque na taça tibetana, duas dezenas de crianças, com quatro e cinco anos, já sabem que os próximos minutos são para meditar. Sentadas no chão, pernas cruzadas, têm os olhos fechados à excepção de duas ou três, e inspiram e expiram devagar. Seguem viagem pela floresta até ao arco-íris guiados pela voz da educadora da creche para depois “regressarem” à sala em Miramar, Vila Nova de Gaia. Estão a meditar tal como milhares de crianças já fazem em contexto de sala de aula em Portugal. E com resultados: mais calmas, menos ansiosas e com mais concentração.

Por estes dias, muito se falou na importância da meditação com o mundo de olhos postos no resgate dos rapazes da equipa de futebol e do seu treinador de uma gruta de Thuam Lang, no Norte da Tailândia. Esta gestão emocional terá sido importante para os jovens e para o professor manterem a calma e controlarem a ansiedade perante o perigo que viveram por mais de duas semanas. Como evitar ataques de pânico e não ter medo? Com o mindfulness – um “ramo” da meditação –, “as pessoas aprendem a controlar e desenvolver a atenção, a estabilizar o estado mental, o que lhes permite ter mais consciência dos seus pensamentos e emoções que influenciam as suas respostas e comportamentos”, defende o presidente da Associação Portuguesa para o Mindfulness (APM), o psiquiatra José Pinto Gouveia. Logo, sublinha, “a ansiedade e a depressão são menores”, o que pode ter sido o caso dos rapazes da equipa de futebol.

A meditação também poderá ter ajudado a não se deixarem sucumbir aos pensamentos negativos, como por exemplo a possibilidade de morrerem, enquanto estavam presos na gruta. “A meditação treina-nos para não considerar o pensamento como sendo realidade”, explica Dulce Gonçalves, mentora do projecto Mentes Sorridentes, que começou há quatro anos com alunos de educação especial, do agrupamento de escolas João Villaret, em Loures, e que já se alargou a outras escolas como em Odivelas e Póvoa de Varzim.

Neste último ano, Dulce Gonçalves avaliou o projecto na Escola Secundária da Ramada, em Odivelas, com o apoio da APM. E constatou que o grupo de alunos do 3.º ciclo e secundário, com uma média de 15 anos de idade, que praticou mindfulness conseguiu controlar os pensamentos. Este grupo experimental concretizou o projecto durante oito semanas a fazer mindfulness, uma vez por semana, e havia um outro grupo de controlo que não fez. Nesta avaliação também se constatou o aumento do bem-estar físico e qualidade das relações sociais entre os jovens. “O mindfulness  é uma atitude de vida, há uma consciência do que está a acontecer sem que nos deixemos ser controlados pelos pensamentos porque, ao meditar, vou focar-me, por exemplo, na respiração ou nos sons que ouço”, explica Dulce Gonçalves, com uma pós-graduação em terapias cognitivo-comportamentais.

Também Tomás de Mello Breyner, mentor do projecto O Pequeno Buda, defende que a meditação “é uma ferramenta que ajuda a controlar as flutuações mentais cada vez que surge um pensamento negativo e [ajuda] a estar calmo”, de maneira a não reagir a quente e de forma precipitada. No caso dos rapazes da Tailândia poderá ter sido essencial, acredita. Mello Breyner já pôs dez mil crianças a meditar em escolas de todo o país, como o que acontece no Colégio do Sol dos Pequeninos, em Vila Nova de Gaia.

Como lidar com a raiva e a frustração

As aulas de ioga e meditação chegaram às escolas com o objectivo de ajudar as crianças. Tomás de Mello Breyner quis “ensinar o que não se ensina na escola: a perceber o que é a nossa mente”. “Vivemos numa sociedade muito agitada, com um ritmo de vida acelerado que é imposto às crianças, que lhes causa ansiedade e falta de concentração e, como consequência, algumas acabam por sentir frustração e baixa auto-estima, o que muitas vezes leva à medicação”, descreve.

Além disso, continua, há “a imensa carga de trabalhos de casa e avaliações, uma elevada carga horária e um excesso de estímulos da era digital” que também contribui para o stress e ansiedade. O projecto O Pequeno Buda “não vai fazer desaparecer os elementos causadores de stress, mas sim ensinar aos alunos uma técnica que lhes vai permitir fazer uma melhor gestão intelectual e emocional” da vida, defende. Como? Através do “Quiet Time”, ou seja, um momento em que as técnicas de meditação e de relaxamento são aplicadas, de modo a que as crianças e os jovens fiquem mais calmos, concentrados, empáticos entre si e em relação ao professor.

Também o projecto de mindfulness da Mentes Sorridentes, que é aplicado por uma equipa multidisciplinar de professores, psicólogos e médicos, em escolas de Norte a Sul do país, “treina o desenvolvimento de uma atenção estável e focada no presente, na consciência das sensações, sentimentos e pensamentos que emergem na mente”, elucida Dulce Gonçalves, que foi finalista do prémio Melhor Professor de Portugal.

É o treino da mente, tal como se vai ao ginásio para exercitar o corpo. “O mindfulness é um treino mental estudado cientificamente. Nos EUA há estudos que mostram que ajuda os miúdos com défice de atenção e hiperactividade”, sublinha o presidente da APM, que aplica esta metodologia em determinadas situações clínicas. Um dos projectos, que dura oito semanas, chama-se Kg-free, pensado para mulheres obesas, que sofrem de distúrbio de ingestão alimentar compulsivo. “Os resultados são positivos em meia centena de mulheres”, informa José Pinto Gouveia. No contexto da psicologia, o mindfulness surge, então, defende, como uma ferramenta importante para a psicoterapia. “Como psiquiatra defendo que o mindfulness pode ser uma ferramenta útil nas escolas quando bem utilizado. Temos aplicado e avaliado. É preciso informar as pessoas, explorar o que é”, considera, ressalvando que “os professores não devem fazer este tipo de meditação sem terem formação e que devem fazer dela uma prática regular”.

Também o professor de Educação Física Sabino Soares, que foi finalista do prémio de Melhor Professor de Portugal, usa o mindfulness para trabalhar as emoções, melhorar o desempenho escolar e o comportamento dos alunos na escola n.º 6 de Olhão, situada num bairro social algarvio, com muitos alunos com dificuldades de aprendizagem e falta de concentração nas aulas. Chama-lhe Pausa M, que acontece duas vezes por dia, também para atenuar conflitos, pois ensina os alunos a “fazer stop, respirar fundo duas a três vezes quando estão perante uma situação que não é fácil, para não reagirem a quente e não baterem, chamarem nomes ou gritarem”, elucida. No caso dos meninos tailandeses fazer stop pode ter ajudado a evitar uma precipitada tomada de decisões e a não correrem risco de vida.

“Uma perda de tempo”

Também o projecto-piloto de ioga no Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar, em Lisboa, dado pela Confederação Portuguesa de Yoga e que foi proposto à escola pela Câmara Municipal de Lisboa, procura ajudar as crianças a ficarem mais serenas e concentradas.

Todos estes projectos, ressalvam os responsáveis, não têm qualquer vínculo com religiões ou crenças; são exercícios que servem para o desenvolvimento natural de todos. “O mindfulness é uma técnica, treino da mente, que não tem nada de esotérico nem sequer mexe com energias. Gostaríamos que fosse levado mais a sério, pois estamos a avaliar cientificamente os dados”, salvaguarda Dulce Gonçalves. “Já tive casos de miúdos que se automutilavam e tinham ataques de pânico e o sucesso resulta de sermos uma equipa multidisciplinar”, assegura.

João Lopes, professor da Universidade do Minho na área da psicologia da educação, contrapõe, baseando-se em três tipos de artigos publicados sobre o assunto nos EUA. E diz que existe uma “fraca evidência” na utilização do mindfulness para reduzir a ansiedade e depressão. Os estudos não encontram ganhos significativos em comportamentos sociais em pessoas que foram sujeitas a este tipo de metodologias, afirma. “Em relação às escolas é uma perda de tempo, porque enquanto se está a fazer isto, não se está a fazer outras coisas”, avalia. Mais ainda, questiona, “havendo tanta gente a queixar-se que não tem tempo para dar os programas lectivos, por que é que têm tempo para fazer este tipo de actividade que a literatura não mostra melhorarem os comportamentos agressivos e a ansiedade?”.

A evidência científica não pode assentar em opiniões das pessoas e para haver estudos deste género é preciso haver um grupo de controlo, acrescenta João Lopes. Dulce Gonçalves, das Mentes Sorridentes, diz serem feitas avaliações da aplicação do projecto e haver um grupo de controlo. “Avaliamos o impacto com um conjunto de testes certificados cientificamente, aplicados por psicólogos e há uma avaliação pré e pós-intervenção.” Ao fim dos três anos, constataram melhorias da gestão emocional na relação com os outros. “Em termos científicos, não podemos dizer que as notas melhoraram por causa do mindfulness, [não podemos] estabelecer uma relação directa, mas melhoraram”, acrescenta a professora. O psicólogo João Lopes não acredita que seja possível as notas subirem com a utilização de métodos de relaxamento.

Também o psicólogo José Morgado, do ISPA-Instituto Universitário, em Lisboa, “não acredita em receitas milagrosas. Nenhuma criança é a igual a outra. As crianças não vêm com um manual de instruções”. Contudo, o especialista em psicologia educacional considera boas as ferramentas do ioga e da meditação. “Se as ferramentas se encaixam, óptimo. Mas não pensemos que vêm revolucionar”, considera. “Sou mais reservado em centrar numa única resposta só pela capacidade de achar que há muitas variáveis que mexem com o comportamento das crianças”, justifica.

Morgado confessa ter “alguma reserva em relação à utilização de recursos exteriores à sala de aula”. A solução está em toda a gente, já que “para educar uma criança é preciso uma aldeia, uma comunidade educativa”, logo, defende que o ideal é criar ambientes com menos agitação para as crianças. Tudo começa em casa, “se der mais atenção ao meu filho, se estou mais tempo com ele, se o estímulo mais vou notar benefícios”, exemplifica. Também João Lopes, da Universidade do Minho, que costuma ir às escolas fazer acções de formação aos professores, em que ensina técnicas de gestão e organização da sala de aula, crê que não é a meditação que vai resolver tudo, é preciso, sim, “estabelecer rotinas”, reforça. “Tenho pena que a educação seja uma área em que o experimentalismo é a palavra de ordem”, lamenta. O professor considera que a meditação nas escolas é “uma moda que dentro de algum tempo irá ser substituída por outra”.

A “taça do silêncio”

Numa sala cheia de brinquedos, com todo tipo de distracções, as crianças do Colégio Sol dos Pequeninos conseguem estar sossegadas à espera do toque da “taça do silêncio” como a educadora de infância Diana Alves Costa chama ao objecto de metal. Umas esfregam os olhos com as mãos, outras cerram-nos com toda a força enquanto a educadora de infância os vai guiando: “Pomos as nossas costas numa posição confortável, sentimos o ar entrar no nosso corpo, inspiramos e expiramos. Vamos imaginar que está muito quentinho e vamos dar um passeio pela floresta…” No final, pede-lhes: “Devagarinho podemos abrir os nossos olhinhos e espreguiçar.” É vê-los de braços esticados no ar, alguns deles a bocejar, os olhinhos a abrirem-se devagar com um enorme sorriso. “Imaginei-me mesmo na floresta a pisar as folhas e até ouvia o barulho delas. Estava a meditar”, conta Carla Mónica, cinco anos, com um ar muito sério. Os meninos com quem o P2 falou decidiram baptizarem-se com nomes fictícios de que gostam.

Mas afinal o que é isso de meditar? “É tipo relaxar, acalmar a nossa cabeça, ficar mais descansada, e inspirar e expirar muito tranquila”, responde logo a Madalena, de cinco anos, com um enorme sorriso, interrompida por Carlos Tiago, olhos verdes grandes, seis anos de reguila, para explicar: “Pomos as pernas à chinês, fechamos os olhos e depois só vejo preto enquanto respiro fundo, mas gosto”, e ri-se perdido. “É acalmar o nosso corpo e tanto acalmo que estava quase a dormir”, acrescenta Matilde, cinco anos. Tomás de Mello Breyner, mentor do projecto Pequeno Buda, diefine a meditação como “a repetição contínua da mesma acção”.

Meditação é coisa que Martim de três diz perceber bem: “Faço tom tom na taça e sinto assim uma coisa cá dentro e depois entra e sai oxigénio.” A mãe, Vânia Guedes, graceja: “Em casa, o Martim toca numa taça parecida com esta que há aqui na creche e depois deita-se a meditar. Às tantas diz a ele próprio: ‘Martim já te podes levantar’.” A mãe acha-lhe piada e diz que desde que começou a meditação na creche está muito mais relaxado e concentrado.

Vânia Guedes é educadora de infância noutro espaço mas já fez um workshop de meditação, ministrado pelo projecto Pequeno Buda. “Foi importante como estratégia para usar com o meu filho e na minha profissão junto dos meninos em momentos de birras e quando estão agitados”, justifica. Sónia Aires, directora do Sol dos Pequeninos, diz que o projecto vem responder à missão do colégio de “trabalhar os valores, a humanização e a identidade das crianças”. E nota que estão mais calmas e concentradas.

Há alguns anos, numa das muitas viagens à Índia, “ao passar por uma escola na cidade de Kanpur, os miúdos antes de começarem as aulas iam para o ginásio fazer dez minutos de meditação. Aquilo mexeu comigo e disse para mim mesmo que, quando regressasse a Portugal, queria fazer o mesmo”, recorda Tomás de Mello Breyner. Assim foi. “Começámos, em 2014, com uma escola de Lisboa e aos poucos o projecto foi-se alargando”. No fundo, “é um sonho tornado realidade, é a prova de que a mudança da consciência global está a manifestar-se e isso é uma grande alegria”, realça.

Mais a Norte, no Agrupamento Cego do Maio, na Póvoa de Varzim, há uma sala propositadamente preparada para acolher os primeiros participantes do projecto Mentes Sorridentes. Estamos em Janeiro – o P2 acompanhou o início do projecto na escola com alunos do 3.º ciclo – e a professora Ana Ribeiro vai dizendo: “Em casa podem fazer sentados, deitados. Hoje, vamo-nos colocar numa postura que nos ajude. Corpo direito, mais descontraído, pernas paralelas e afastadas, pés assentes no chão.” E eles anuem, alguns mais calados, outros com risos, mas seguem as orientações de um áudio: “Feche os olhos ou fixe um ponto perto de si sem desviar o olhar. Inspire tranquilamente o ar pelo nariz e liberte-o sem pressa pelo nariz ou boca. Inspire tranquilamente. Expire devagar”. Uns fazem-no, outros ainda mantêm os olhos abertos, como que um pouco desconfiados. “É natural que a sua mente fuja e traga pensamentos”, ouve-se. No final, os alunos começam a mexer os pés e as mãos devagar, e a abrir os olhos. E escutam: “Sorria! Vai tornar-se uma mente sorridente!”

A professora Ana Ribeiro pergunta-lhes o que sentiram. “Fechei os olhos e senti-me um bocado aliviada; acho que vou melhorar na escola e em casa. Vim para descontrair, organizar as ideias e acalmar, porque tenho alguma dificuldade de concentração na sala de aula”, responde Maria, nome fictício, 14 anos, do 8.º ano. Ao seu lado, Miguel, nome fictício, 15 anos, suspira e acrescenta: “Tenho bicho-carpinteiro (risos) e até senti um formigueiro nos pés, mas gostei de fazer esta experiência orientada. Aconselharam-me a participar para melhorar o meu comportamento e as notas.” A professora aconselha-os: “Há pessoas que se assustam no início por causa das sensações novas, mas tentem fazer em casa uma vez por dia, durante dez minutos. Vão ver que funciona.”

Ana Ribeiro acrescenta ainda: “Quando se enervarem, respirem. Inspirem e expirem antes de darem uma resposta torta.” Oito semanas depois, o P2 regressa à escola e volta a estar com os alunos que relatam estar mais calmos e concentrados nas aulas. “Adquiriram ferramentas para aplicar em qualquer situação da vida. Se se tornar uma rotina, funciona”, conclui a professora.

A psicóloga e psicoterapeuta Joana Vaz, de O Pequeno Buda, diz que, “ao nível da neuropsicologia está provado que o cérebro muda ao fim de alguns anos de meditação; a paciência é muito trabalhada, é um treino”. Logo, acaba por ser, reconhece, “uma forma diferente de estar na vida” que permite parar para pensar.

 

“Ohmm…” E se as crianças meditassem na escola?

Outubro 3, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 9 de setembro de 2017.

O projeto “Mentes Sorridentes” arrancou no ano letivo 2015-2016.
Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

Ana Cristina Marques

A meditação está a chegar às salas de aula um pouco por todo o país. Com o regresso à escola, fomos perceber como funcionam os programas de mindfulness e quais são, afinal, as suas vantagens.

No início, Zé achava aquilo tudo uma “treta”. O aluno do quinto ano gozava com os colegas quando, em aula, chegava a vez de meditar por alguns minutos. As caretas que os colegas faziam eram, para este rapaz de 11 anos, irresistíveis. Não havia como não fazer pouco do que estava a ver. Ele mesmo o admite, numa confissão gravada para fins académicos. No vídeo não se vê a cara do jovem, apenas o sorriso maroto e a linguagem corporal que ajuda a validar as respostas quando conta que, afinal, estava errado. As coisas mudaram quando Zé começou a praticar mindfulness no segundo período, exercícios de concentração que deixavamo-no cada vez mais relaxado e apto a trabalhar. Agora, custa-lhe menos fazer o sumário e já não há tanta energia para gastar.

Meditar na sala de aula

Zé é um dos alunos do Agrupamento Escolas João Villaret, em Loures, que usufrui do projeto “Mentes Sorridentes”, criado há coisa de dois anos não pelos melhores motivos. Os ataques de pânico entre os miúdos eram frequentes, tão frequentes que Dulce Gonçalves decidiu agir em nome do bem-estar dos alunos e trocar a medicação pela meditação. “Tinha de haver outra resposta que não enviar os miúdos diretamente para o hospital”, conta ao Observador a professora de Educação Especial na Escola João Villaret. O início do projeto não foi fácil. O preconceito ou, se quisermos, a descrença entre colegas era óbvia e até a direção torceu o nariz, pelo que o conceito “meditação” foi imediatamente posto de lado e substituído por “mindfulness” que, hoje, cai melhor em conversa — uma troca que consistiu numa “estratégia de marketing para diluir a resistência”.

No ano letivo 2015-2016, o Agrupamento de Escolas João Villaret passou a ter um projeto de mindfulness aplicado a um grupo piloto composto por 30 alunos com graves níveis de ansiedade, indisciplinados e com dificuldade em lidar com as próprias emoções. Durante a hora de almoço, e num espaço exterior à sala de aula, os alunos tinham sessões de 10 a 15 minutos, sendo que, primeiramente, era explicado o funcionamento básico do cérebro. O programa de oito semanas e de carácter facultativo acabou por pegar bem mais depressa do que Dulce Gonçalves alguma vez sonhou.

Dois anos depois, o formato original continua a existir e chega, inclusive, às salas de aula na forma de meditações tão diárias quanto o possível, após o intervalo da manhã e o da tarde. Só no ano passado, mais de 500 alunos, desde o jardim de infância ao nono ano, beneficiaram do projeto que é feito em parceria com a equipa de neurociência do Hospital Beatriz Ângelo. “Nós trabalhamos com alunos, docentes e funcionários. Somos uma equipa multidisciplinar que avalia cientificamente os resultados”, garante Dulce Gonçalves. Nem de propósito, o Ministério da Educação — que assegura que a implementação de projetos deste género “cabe no âmbito da autonomia de cada escola” — usa o agrupamento escolar em causa, e os seus “resultados muito animadores”, como um bom exemplo.

E que resultados são esses? Segundo os artigos científicos disponibilizados por Dulce Gonçalves, os alunos reportaram “melhoria no controlo da ansiedade de desempenho”, melhoria na concentração, diminuição da impulsividade e maior prazer nas relações e maior sentido para a vida”. Na conclusão assinalada no trabalho “Mentes Sorridentes – Uma proposta de promoção da saúde mental em meio escolar” lê-se, então, que as “técnicas de mindfulness, aplicadas num protocolo simples e curto, obtêm resultados positivos na gestão emocional que permite a disponibilidade para as aprendizagens e a melhoria da qualidade de vida dos alunos”.

Mais a norte, Fernando Emídio dá a cara pelo “Mind Up”, destinado ao primeiro ciclo do Agrupamento de Escolas da Marinha Grande. São mais de 500 os alunos que beneficiam do programa que se divide em dois: se por lado há 15 sessões durante 15 semanas, cujos temas vão variando (as aulas iniciais são dedicadas às bases da neurociência), por outro há práticas de meditação em plena sala de aula. “Os exercícios são à volta do som e da respiração, e são idealmente postos em prática três vezes por dia: de manhã, depois de almoço e ao final da tarde”, explica Fernando Emídio ao Observador. Os resultados de trazer a atenção dos mais novos para o “aqui e agora” são palavras também repetidas por Dulce Gonçalves: redução significativa da impulsividade, dentro e fora da sala de aula, e menos ansiedade nos testes. “Há essa capacidade de manter a atenção sustentada durante mais tempo e menos ansiedade quando se faz isto antes dos testes.”

O projeto “O Pequeno Buda”, que o criador Tomás de Mello Breyner diz ser, por enquanto, o único 100% nacional (os outros dois derivam de conceitos existentes além-fronteiras), também começou em 2015, o que ajuda a provar que este é um “movimento”, se assim o pudermos chamar, particularmente recente. A ideia foi implementada numa primeira escola e, um ano depois, outras 19 se seguiram, a maior parte delas privadas e situadas em Lisboa, embora já existam parcerias no Porto e no Algarve. “Trabalhamos com a Associação de Escolas João de Deus, que é semi-privada, e estamos agora a trabalhar com o município de Coruche”, explica ao Observar Tomás de Mello Breyner. O homem que começou por estudar gestão de marketing viu a sua vida mudar quando foi diagnosticado com síndrome de Ménière (doença incurável que afeta os ouvidos, sendo que um dos sintomas passa pela perda de audição). O caminho para a aceitação do que era inevitável passou pelo ioga e, mais tarde e de forma espontânea, pela… meditação.

“O Pequeno Buda” funciona em três passos. O primeiro consiste na formação dos professores, para que estes estejam capacitados a fazer exercícios de meditação na sala de aula, e o segundo no facto de ser Tomás e a própria equipa a iniciar as técnicas de meditação entre os mais novos. “Depois, passado um determinado tempo, fazemos visitas. No fundo, é uma espécie de controlo de qualidade”, diz, referindo-se à última etapa. A máxima, garante o criador, é tirar um pouco o pé do acelerador e deixar que os Budas em formato mini sintam o “poder do silêncio, da respiração e da paz”.

Os benefícios e os principais desafios da meditação

Segundo alguns estudos, tal como se lê no livro “Filosofar e Meditar Com as Crianças” (editora Arena), a capacidade de concentração das crianças não vai além dos oito segundos — para muitos pais, arriscamo-nos a dizer, talvez não sejam precisas quaisquer conclusões científicas para atestar a ideia, basta vê-los correr pela casa em resposta ao “vamos fazer os TPC”. Para Rosário Carmona e Costa, que já antes falou ao Observador sobre o perigo das novas tecnologias, a meditação (ou as práticas a ela associadas) pode ser uma resposta à contínua exposição dos mais novos aos muitos estímulos existentes. “A meditação faz com que o nosso pensamento acalme e nós só aprendemos quando estamos calmos e disponíveis. Não só na escola, mas também ao nível do comportamento e no regular das emoções”, explica a psicóloga clínica.

Miúdos com défice de atenção ou que sofram de ansiedade podem, na opinião de Rosário Carmona, beneficiar deste tipo de práticas, até porque uma criança que esteja habituada a parar consegue criar mais facilmente tolerância à frustração, além de ser capaz de se autoregular melhor. “Ganhos secundários passam pela maior empatia e menor agressividade”, continua a também autora do livro “iAgora”.

Investigações feitas lá fora sugerem o mesmo. Num artigo do The New York Times, datado de maio de 2016, dão-se conta de pelo menos três estudos com conclusões semelhantes. A título de exemplo, um deles, de 2015, focou-se em alunos do quarto e quinto ano que, findo um programa de meditação de quatro meses, revelaram melhorias ao nível das funções executivas — controlo cognitivo e flexibilidade cognitiva –, além dos significativamente melhores resultados a matemática.

Apesar dos benefícios apontados — que, em última análise, consistem na redução dos níveis de stress — é difícil implementar hábitos de meditação entre a família. Não é só uma questão de logística do dia-a-dia, com os pais a não saberem como e quando começar a meditar, mas em causa está também a falta de informação. “Muitas vezes está associada a uma coisa mais esotérica. Há a ideia de que a meditação precisa de tempo e de espaço”, acrescenta Rosário Carmona. João Paula, professor de mindfulness, concorda. “Há muita ignorância”, atira. “Há quem ache que vamos levitar.” O objetivo de quem dá aulas de mindfulness não passa por criar o hábito da meditação diária, explica. A ideia é simplesmente dotar os alunos de uma ferramenta para a vida.

Um dos principais argumentos a favor da meditação é o facto de miúdos e graúdos viverem num mundo cada vez mais digital, onde há um excesso de informação de tal ordem que as crianças perdem a capacidade de desfrutar do presente. Se, de facto, existem estudos que sugerem que uma criança tem uns escassos oito segundos de concentração, há outros que defendem que, por dia e em média, existem 80.000 pensamentos a entrar e a sair da nossa cabeça como se esta fosse uma autoestrada concorrida. A meditação surge, neste contexto, como um kit de primeiros socorros, mas é preciso assegurar que, segundo o livro “O Pequeno Buda”, algumas regras sejam cumpridas:

  • quanto mais longa for a meditação, mais calma ficará a nossa mente;
  • apenas um praticante pode ensinar uma criança a meditar;
  • uma prática de meditação para uma criança de 5 anos não é a mesma para uma de 12;
  • é preciso distinguir o objetivo da meditação: o “relaxamento”, que está relacionado com a capacidade de induzirmos na criança um aumento dos níveis de tranquilidade e bem-estar, destina-se a praticantes mais novos, enquanto o “aumento da capacidade de foco”, que assenta na concentração e atenção, destina-se aos mais velhos.

Depois da meditação, a filosofia?

Frédéric Lenoir já deu workshops filosóficos a centenas de crianças em todo o mundo francófono, de Paris a Montreal, no Canadá, passando por Genebra, na Suíça, e Guadalupe, nas Caraíbas. A aventura levou-o a escrever o livro “Filosofar e Meditar com as crianças”, recentemente publicado em português pela editora Arena. Nele escreve que as crianças têm “a extraordinária capacidade de questionar o mundo, de se interrogarem, de se maravilharem, de confrontarem os seus raciocínios, em suma, de se entregarem à filosofia”. É com base nos workshops que lecionou em diferentes escolas, e seus resultados, que Lenoir defende que a aprendizagem da filosofia deveria começar logo na escola primária, ao invés de arrancar no ensino secundário.

Considerando as crianças do ensino pré-escolar, é preciso ter em conta que estas não deverão ser capazes de desenvolver verdadeiras argumentações logo nas primeiras sessões, mas a evolução tende a ser progressiva com o tempo. A filosofia, e os métodos que dela derivam, têm como principal objetivo permitir que a criança desenvolva o seu pensamento pessoal e aprenda a discutir com terceiros.

“A outra vantagem dos ateliers de filosofia no ensino pré-escolar é permitir que as crianças aprendam a escutar-se e a trocar pontos de vista do mundo construtivo. Quando animei um primeiro atelier de filosofia em Genebra, a escola La Découverte, reparei que as crianças do ensino pré-escolar que já praticavam este tipo de discussão com a sua educadora tinham as regras bem interiorizadas: cada uma dá a sua opinião livremente, escuta as outras e exprime o seu acordo ou o seu desacordo”, escreve Frédéric Lenoir.

De referir que os ateliers do autor começavam sempre com uma pequena sessão de exercícios associados à meditação: “Ao fim de duas ou três sessões na aula, a maioria dos alunos continuou espontaneamente a praticar meditação em casa, muitas vezes para se acalmarem quando se sentiam dominados por uma emoção, como a cólera, por exemplo”. A ideia de escrever o livro veio, então, da necessidade de partilhar com pais e professores as “virtudes da meditação e dos debates filosóficos para as crianças”.

O livro em causa é feito, na sua maioria, com relatos de crianças e estas são algumas das suas conclusões sobre a prática da meditação:

  • Violette (9 anos): “Serve para acalmar a minha raiva quando vou ralhar com a minha irmã mais nova”;
  • Castille (9 anos): “Faz-me esquecer todas as coisas que me enervam, que me stressam”;
  • Clarrise (10 anos): “A mim, ajuda-me quando estou furiosa. Faço isso, e ajuda-me a já não fazer movimentos bruscos”;
  • Édouard (9 anos): “A mim, ajuda-me a adormecer, porque, na verdade, adormeço a fazer meditação”;
  • Hector (9 anos): “Às vezes, quando estou a fazer revisões e penso noutra coisa ao mesmo tempo, bem, isto ajuda-me a acalmar-me e a concentrar-me”.

mais imagens no link:

http://observador.pt/especiais/ohmm-e-se-as-criancas-meditassem-na-escola/

Curso para Facilitadores de Meditação com Crianças

Abril 24, 2012 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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