Os castigos na formação das crianças

Junho 22, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de José Morgado publicado na Visão de 8 de junho de 2016.

Mais do que discursos radicais em torno dos castigos, seria desejável reflectir sobre a forma como estamos a proceder na acção educativa, familiar e escolar.

A questão dos castigos impostos às crianças, em contextos familiares ou institucionais, é regularmente objecto de discussão e análise na nossa vida profissional.

É também frequente a imprensa referir casos deste âmbito. Há poucos dias foi noticiada uma situação extrema de uma criança de 10 anos que os pais mantinham acorrentada no quintal como forma de castigo. A criança for retirada à família com intervenção da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens.

Na abordagem à questão dos castigos às crianças, os castigos corporais assumem maior relevo e complexidade. Mesmo quando são objecto de processos judiciais surgem decisões que causam alguma perplexidade.

Recordo a título de exemplo que em 2014 o Tribunal da Relação do Porto absolveu pais que comprovadamente agrediram o filho de 11 anos com um cinto infligindo danos corporais de alguma gravidade. A razão do comportamento do rapaz prendeu-se com resultados escolares e o facto de fumar. Cito da imprensa da altura “Os juízes desembargadores entenderam que embora sendo “o comportamento dos pais de censurar”, não pode ser considerada a “forma qualificada” no crime de ofensa à integridade física por não haver “aquele acrescido e especial juízo de reprovação, indispensável” para o considerar como tal. Assim, sendo apenas aceite a “forma simples” da agressão, o Ministério Público não poderia ter deduzido acusação, os pais foram absolvidos.”

A verdade é que a questão da administração de castigos é sempre algo em aberto, em família, quase sempre de forma mais recatada e discreta, ou em contextos institucionais, mais mediatizados, nos quais se espera que os técnicos, justamente porque são técnicos, intervenham de forma mais racional, informada e menos reactiva em termos emocionais que os pais.

Neste quadro e como disse, a experiência no trabalho com pais mostra que a aplicação de castigos é sempre uma matéria com grande latitude de opiniões sendo que de forma geral os pais os entendem como algo necessário. Assim sendo, tanto como discutir a utilização, ou não, de alguma forma de castigo, fará sentido alguma reflexão sobre a natureza e limites do que poderá ser um castigo.

Do meu ponto de vista e por princípio, privar ou dificultar o acesso a necessidades básicas ou ferir direitos como é o uso da violência física não serão, evidentemente, o caminho mais ajustado.

Parece-me também que o recurso que alguns adultos fazem de castigos que envolvem uma forte dimensão emocional, sobretudo em crianças pequenas, deve ser evitado pelas implicações eventuais na segurança e confiança dos miúdos em si e nos adultos. Refiro-me ao uso de afirmações como “não prestas”, “não gostamos de ti” ou outras da mesma natureza

É ainda de considerar que algumas pessoas afirmam e defendem que um “tabefe” ou uma tareia “dada a horas faz milagres” e que não lhes faz mal (aos miúdos) aprender assim.

Quando trato estas questões sempre relembro uma história pessoal pois também me tocou o castigo corporal na escola. Recordo que mais do que a dor física da reguada, me incomodava o sentir-me tremendamente humilhado por estender a mão a alguém, um adulto e professor, que friamente me batia tantas vezes quantos os erros no ditado ou em consequência de ter falado com meu colega quando era suposto estar calado. Lembro-me ainda do especial requinte de um professor que em vez de ser ele a bater, encarregava um de nós de o fazer levando do professor se batesse devagar no colega. Não vejo grande vantagem educativa neste tipo de acções que acredito terem desaparecido.

É verdade que muitas pessoas, pais ou mesmo técnicos, assustadas com as grandes dificuldades que experimentam com os comportamentos das crianças, sentir-se-ão tentadas por estas abordagens mas talvez seja de recordar que o comportamento gera comportamento, ou seja, a violência gera e alimenta a violência. Bater por rotina educativa não faz sentido, não é, definitivamente, uma prática educativa,

No entanto e dito tudo isto, também entendo que comportamentos inadequados ou incompetentes não significam necessariamente que estejamos perante maus pais ou pais incompetentes. Todos nós, alguma vez, agimos de uma forma reactiva, menos ajustada ou adequada com os nossos filhos e isso não nos transforma em pessoas más, significa que somos apenas pessoas e que devemos reflectir sobre o que fazemos.

Também não simpatizo com a aplicação de castigos que estejam associados a tarefas que devem ser realizadas regularmente e em contextos positivos. Dou-vos um exemplo curioso para tentar ilustrar esta ideia. Numa escola que conheci, os alunos que se portavam mal iam para a biblioteca. Não será difícil imaginar que os alunos passassem a perceber a biblioteca como uma “cela prisional” e, estranhamente, não gostassem de a frequentar.

Dito isto, mais do que discursos radicais em torno dos castigos, seria desejável reflectir sobre a forma como estamos a proceder na acção educativa, familiar e escolar à imprescindível tarefa de tentar fornecer aos miúdos a construção das regras e limites de que eles precisam, tanto como de comer ou respirar.

Também me parece que dedicar mais atenção, elogiar quando corre bem, reforçar e fazer sentir o apreço por comportamentos adequados, expressar confiança nas crianças, podem ser contributos para minimizar o risco de ficar tentado pelo castigo depois de algo correr mal.

Finalmente, sublinho que este entendimento não tem nada a ver com laxismo, promoção da impunidade face a comportamentos desadequados ou com a ausência de regras. São dimensões fundamentais e imprescindíveis na formação das crianças.

O que afirmo tem exclusivamente em conta a natureza dos processos utilizados em educação, a sua eficácia e o respeito pelos direitos das crianças.

(Texto escrito de acordo com a antiga ortografia)

José Morgado

Doutorado em Estudos da Criança. Professor no Departamento de Psicologia da Educação do ISPA – Instituto Universitário. Membro do Centro de Investigação em Educação do ISPA – Instituto Universitário. Colaborador e consultor regular de Programas de Formação de Professores e de Projectos de Investigação e Intervenção. Colaborador regular em Programas de Orientação Educativa para Pais. Autor de diversas publicações nas áreas da qualidade e educação inclusiva, diferenciação pedagógica, etc.

Blogue – http://atentainquietude.blogspot.com

 

 

 

Guimarães: criança viu o contrário do pai herói e polícia amigo – Excerto da entrevista de Melanie Tavares do IAC na TVI 24

Maio 19, 2015 às 12:30 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da Dra. Melanie Tavares, Coordenadora dos Sectores da Actividade Lúdica e da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança do Instituto de Apoio à Criança, à TVI24 no dia 18 de maio de 2015. Visualizar o excerto da entrevista no link:

http://www.tvi24.iol.pt/pesquisa/videos/pai/guimaraes-crianca-viu-o-contrario-do-pai-heroi-e-policia-amigo/555a14560cf2d0faf049311a/1

Melanie Tavares, do Instituto de Apoio à Criança, esteve na TVI24 e identificou dois problemas, em especial para o filho mais novo do homem agredido, que terá certamente perturbações no seu desenvolvimento emocional depois das agressões a que assistiu no final do jogo V. Guimarães-Benfica

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Abuso psicológico pode causar traumas mais profundos que agressão física ou sexual

Novembro 18, 2014 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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notícia do site   http://www2.uol.com.br de novembro de 2014.

o estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Press release

Childhood Psychological Abuse as Harmful as Sexual or Physical Abuse

estudo

Unseen wounds: The contribution of psychological maltreatment to child and adolescent mental health and risk outcomes

Orange studio Shutterstock

Violência psicológica contra crianças e adolescentes pode provocar danos mais graves do que a agressão física ou o abuso sexual, segundo estudo publicado na Psychological Trauma: Theory, Research, Practice, and Policy.

O psicólogo clínico Joseph Spinazzola e sua equipe do Centro de Trauma do Instituto de Recursos da Justiça, em Massachusetts, utilizaram informações da Rede Nacional de Traumas e Estresse Infantil (NCTSN, na sigla em inglês) para analisar dados de 5.616 crianças e adolescentes com histórico de abuso psicológico, físico e sexual.

Aproximadamente 62% tinham histórico de maus-tratos psicológicos; cerca de um quarto deles, 24%, sofreram exclusivamente esse tipo de violência, que abarca, de acordo com os pesquisadores, assédio moral por parte do cuidador, imposição de medo extremo, controle coercitivo, insultos graves, humilhações, ameaças, exigência extrema, rejeição e isolamento.

Os pesquisadores constataram que aqueles que passaram por esse tipo de experiência tendiam a sofrer de ansiedade, depressão, baixa autoestima, sintomas de estresse pós-traumático e a apresentar risco de suicídio em maior nível do que os que sofreram violência física ou sexual. Entre os três tipos de agressão, a psicológica foi a mais fortemente associada com transtorno depressivo, distúrbio de ansiedade social e generalizada, dificuldade de formar vínculos afetivos e abuso de substâncias.

Esse tipo de violência provoca danos emocionais tão graves quanto a agressão física e sexual juntas, alertam os pesquisadores. “Profissionais dos serviços de proteção podem levar mais tempo para reconhecer a negligência emocional porque ela não deixa marcas visíveis, além de não ser considerada socialmente tão grave”, aponta Spinazzola. “Precisamos de iniciativas de sensibilização para ajudar o público a entender os prejuízos psicológicos severos provocados por esse tipo de abuso.”

Crianças com gaguez podem ser alvo de bullying

Outubro 22, 2014 às 10:55 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Açoriano Oriental de 13 de outubro de 2014.

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Maus-tratos a crianças estão mais sofisticados

Outubro 16, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Jornal de Notícias de 13 de outubro de 2014.

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Prevenção de Maus Tratos a Crianças – Infografia da OMS

Setembro 29, 2014 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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descarregar a infografia no link:

http://www.euro.who.int/en/health-topics/Life-stages/child-and-adolescent-health/data-and-statistics/infographic-prevent-child-maltreatment-download

 

Weapons of Choice: palavras que deixam marcas

Junho 3, 2014 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do P3 do Público de 26 de maio de 2014.

mais fotos aqui

Richard Johnson

Richard Johnson

 

autoria Richard Johnson

O abuso verbal não deixa marcas mas pode magoar tanto como o abuso físico. Foi com esta ideia que o fotógrafo Richard Johnson partiu para o trabalho “Weapons of Choice”: se as palavras provocassem marcas físicas levaríamos o abuso verbal mais a sério? As imagens podem ser chocantes — e a ideia é essa mesma: mostrar que provocam dor. Com a ajuda de um maquilhador, foram escritas nos corpos dos modelos palavras associadas à agressão. “Prestamos muita atenção quando um pai abusa de um filho, filha ou mulher, mas acho que a questão é mais profunda. Antes de eles partirem para a agressão física, há um abuso verbal”, disse ao Huffington Post. As fotografias podem ser utilizadas para organizações sem fins lucrativos que apoiam vítimas de violência doméstica, contra crianças ou bullying. “Espero que possam utilizar estas fotos para consciencializar mais gente para este problema”, explica no site dedicado ao projecto.

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Richard Johnson

Bullying pode afetar saúde de crianças a curto e longo prazo

Março 5, 2014 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site da Veja de 18 de Fevereiro de 2014.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Peer Victimization in Fifth Grade and Health in Tenth Grade

Thinkstock

Estudo mostra que efeitos negativos do assédio moral podem ser cumulativos e se agravar com o tempo

Quanto mais longo o período em que uma criança sofrer bullying, mais grave e duradouro será o impacto sobre a saúde da vítima. Essa é a constatação do primeiro estudo a avaliar os efeitos do assédio moral ao longo do segundo ciclo do ensino fundamental, em crianças e adolescentes de 10 a 15 anos. A pesquisa foi publicada nesta segunda-feira no periódico Pediatrics.

“Nosso estudo mostrou que o bullying afeta severamente a saúde geral da criança a longo prazo e que seus efeitos negativos podem ser cumulativos e piorar com o tempo”, afirma a líder da pesquisa, Laura Bogart, do Hospital Infantil de Boston. “É preciso combater o bullying com mais veemência. Quanto mais cedo impedirmos que uma criança sofra assédio, menor é o risco de ela ter sua saúde prejudicada.”

Laura e sua equipe acompanharam 4 297 crianças e adolescentes do quinto ao décimo ano do ensino americano. Periodicamente, eles entrevistaram os participantes sobre sua saúde física e mental e sobre experiências com assédio moral. Os cientistas descobriram que, em qualquer idade, sofrer bullying estava associado a um pior estado mental e físico, sintomas depressivos e baixa autoestima.

Leia também:
Vítimas de violência familiar são mais suscetíveis ao bullying
Um em cada cinco adolescentes pratica bullying no Brasil

Participantes assediados cronicamente reportaram maiores dificuldades de correr e praticar esportes. Os que foram intimidados no passado também apresentavam índices inferiores de saúde no presente.

Laura e seu time dizem que mais pesquisas precisam ser feitas para desenvolver e testar métodos de prevenção e intervenção contra assédio moral. “Não há uma única abordagem que funcione no caso do bullying”, afirma Laura. “Mas fornecer a professores, pais e médicos práticas baseadas em evidências pode ajudá-los a ensinar crianças a lidar com este grave problema e a diminuir seu prejuízo.”

Professora relata inferno que vive dentro da sala de aulas

Fevereiro 25, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Açoriano Oriental de 16 de Fevereiro de 2014.

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Faltam instituições especializadas para casos mais extremos

Novembro 1, 2013 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Açoriano Oriental a Pedro Vaz Santos no dia 20 de Outubro de 2013.

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