Mortalidade infantil aumenta sem explicação

Maio 13, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Notícia e imagem do Expresso de 19 de abril de 2019.

Vera Lúcia Arreigoso

Estudo não identificou causas para a subida de 26% nos óbitos entre 2017 e 2018. Idade tardia das mães é uma suspeita.

Não há uma causa concreta que tenha levado à morte mais 60 crianças no primeiro ano de vida em Portugal. Os peritos da Direção-Geral da Saúde (DGS) não conseguiram identificar qualquer explicação para o aumento de 229 para 289 óbitos entre 2017 e 2018. O estudo realizado revelou, ainda assim, que há um novo padrão de gravidez entre as portuguesas.

“Não se identificaram causas que justifiquem o aumento. Não há uma relação causal, mas sim algumas tendências que estão a mudar os padrões de gravidez, com consequências nos recém-nascidos”, garantiu a diretora-geral da Saúde no Parlamento, no início da semana. Graça Freitas adiantou que a principal suspeita recai sobre a idade tardia das mães.

A tendência para o adiamento da maternidade está a empurrar as mulheres para técnicas de procriação medicamente assistida, “com uma estabilização no serviço público e um aumento nas unidades privadas”, e a fomentar mais gestações de gémeos, a prematuridade e o baixo peso à nascença. Ou seja, a potenciar o nascimento de bebés com algum risco.

Graça Freitas sublinha que “os números são muito pequenos e sem relevância estatística”, mas permitiram, ainda assim, detetar algumas particularidades. Por exemplo, a mortalidade infantil foi maior nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Algarve e Açores, “embora sem ter sido encontrado um padrão causal”, e entre as mães com residência no estrangeiro, sobretudo em países africanos e do Leste europeu.

Outra das conclusões é a falta de informação e o excesso de mortes inconclusivas. O estudo revelou registos omissos, com regiões do país onde nem sequer se sabe qual foi o tipo de acompanhamento que a mulher teve durante a gravidez. Na verdade, ironiza a diretora-geral da Saúde, “a única causa que aumentou nos certificados de óbito foi a ‘causa desconhecida’, que não devia constar” e que leva as autoridades de saúde a pensar em “tornar obrigatórios alguns campos para que outros não fiquem por preencher”.

Os números relativos às mortes nos primeiros 12 meses de vida registadas já este ano “revelam o mesmo padrão dos anos anteriores, isto é, uma estabilidade nos três óbitos por mil nados vivos”, adiantou Graça Freitas. “Para este primeiro trimestre, só vamos conseguir calcular a taxa de mortalidade no final do mês quando tivermos os dados do Instituto Nacional de Estatística.”

Em 2018, quando a mortalidade infantil aumentou 26%, a taxa subiu de 2,7 para 3,3, gerando grande alarme social por poder ser um indicador da degradação dos cuidados nas unidades públicas de saúde. O ano anterior tinha sido um marco por ter colocado o país num patamar de excelência, isto é, abaixo dos três óbitos por mil nados vivos. O recorde absoluto foi batido em 2010, com uma taxa de 2,5. Também aqui não foi possível apurar explicações. “Estudámos tudo, como estudamos sempre, e não encontrámos uma causa”, admite a médica.

“Com números tão pequenos, não se podem tirar conclusões precipitadas. Há sempre o fenómeno da variabilidade dos pequenos números”, afirma Graça Freitas. Já com justificação e bem conhecida, é a reduzida taxa de mortalidade infantil em Portugal. Os números traduzem a evolução do sistema de saúde e da própria evolução social que há décadas colocam o país entre os melhores classificados em todo o mundo.

 

 

Quase um terço das mulheres com filhos são mães tardias em Portugal

Dezembro 14, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Notícia do Público de 28 de novembro de 2018.

Muitos fetos crescem no útero “como se passassem fome”, conclui investigador, face ao cada vez maior número de bebés que nascem com baixo peso em Portugal, perto de 9% do total em 2015.

Alexandra Campos

As mulheres são mães cada vez mais tarde em Portugal. O aumento da proporção de “mães tardias” (como convencionamos designar as mulheres que têm filhos com 35 ou mais anos) não é de agora, mas o mais impressionante é o ritmo a que está a acontecer em Portugal. Em 2015, as mães nestas idades mais avançadas representavam já quase 30% do total, colocando Portugal na quinta posição da União Europeia (UE) a este nível, revela o European Perinatal Health Report, que esta segunda-feira é divulgado.

E a tendência continua a agravar-se: em 2016, de acordo com os cálculos do PÚBLICO a partir dos dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística, a proporção de mães tardias terá ultrapassado já os 31%, quando em 2010 não chegava a 22%.

 “Ter filhos tarde é uma tendência geral na Europa. Apenas em quatro países (Alemanha, Estónia, Holanda e Suécia) aconteceu o inverso, com um decréscimo entre 2010 e 2015″, mas em Portugal e Espanha verificou-se um aumento da ordem dos oito pontos percentuais, destacam os autores deste relatório, em que se traça um retrato da saúde materna e neonatal em 31 países da Europa (os da UE mais a Suíça, a Islândia e a Noruega) com base nos dados relativos a cinco milhões de partos ocorridos em 2015, comparando-os com os números de 2010.

“É interessante verificar que foi nos países mais afectados pela crise económica e financeira que as mulheres mais adiaram a maternidade”, destaca Henrique Barros, presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), o parceiro nacional do projecto europeu (Euro-Peristat) que esteve na base deste documento. Além de Portugal, no grupo dos países que a percentagem de mães tardias disparou entre 2010 e 2015 estão justamente a Grécia e a Irlanda e também Espanha e Itália.

“Encorajar a maternidade em idades mais jovens implica políticas de suporte às mães e pais trabalhadores. E os serviços de saúde em países com mães com maiores percentagens de mães em idades mais avançadas têm que garantir que as suas necessidades durante a gravidez são asseguradas”, sublinham os autores do documento.

Henrique Barros enfatiza a importância de olhar para este tipo de dados, comparando vários períodos e países, para se poder perceber com maior profundidade o que está a acontecer e, assim, poder definir políticas de saúde pública.

Quantas grávidas fumam?

A percentagem de mães com 35 ou mais anos é apenas um dos múltiplos indicadores que surgem no extenso relatório, que é o quarto elaborado pelo Euro-Peristat desde 2004. A boa notícia é que Portugal está bem posicionado em muitos dos indicadores considerados, como o da maternidade infantil e o da maternidade na adolescência (antes dos 20 anos), mas o reverso é que há alguns, também relevantes, em que a situação se tem agravado.

Os dados indicam, por exemplo, que estão a nascer no país cada vez mais crianças que não foram adequadamente nutridas no útero das mães, frisa Henrique Barros. A percentagem de bebés que nascem com baixo peso (menos de 2500 gramas) em Portugal ascendia já a 8,9% em 2015, uma das proporções mais elevadas dos países da União Europeia e que se pode justificar apenas em parte pelo aumento da maternidade tardia e pelo maior número de gémeos, devido ao crescente recurso a técnicas de procriação medicamente assistida.

Para se ter uma ideia das disparidades a este nível, em países como a Islândia, a Suécia, a Finlândia e a Estónia, a taxa de bebés com baixo peso à nascença era inferior a 4,5%. E em vários países até decresceu neste período de forma significativa, como aconteceu na Noruega e na Áustria. Em Portugal já era elevada em 2010 e ainda aumentou mais, colocando o país na quarta posição desta lista, apenas suplantado nesse ano pelo Chipre, pela Bulgária e pela Grécia.

Muitos são bebés que nascem com menos peso do que seria de esperar para a sua idade gestacional, acentua o investigador. “Temos demasiadas mulheres a fumar durante a gravidez, a não fazer uma nutrição adequada, a engravidar com doenças crónicas”, elenca, em jeito de explicação. “São bebés gerados em condições semelhantes à de passar fome”, ilustra.

Este é justamente um dos indicadores que merecia uma análise mais aprofundada, sugere Henrique Barros, reflectindo que, se temos “menos bebés pré-termo” e mais de baixo peso, “alguma coisa se está a passar com os aspectos nutricionais”. Face à ausência de indicadores que seriam importantes para se perceber melhor a situação, “resta-nos especular, em vez de explicar”, lamenta. “Não sabemos quantas mães fumaram durante a gravidez, quantas tinham excesso de peso antes de nascer, quantas foram às consultas.”

Sem dados sobre o tabagismo durante a gravidez em Portugal, o relatório inclui números de 19 países. E as disparidades são enormes. Em Espanha, por exemplo, 18,3% das grávidas fumavam, enquanto na Noruega isso acontecia com menos de 5%.

Quanto às taxas de mortalidade neonatal (até 28 dias após o parto), estas variavam entre 1.5 por mil nados-vivos ou menos na Eslovénia, Islândia, Finlândia, Noruega, República Checa, Estónia e Suécia e 3.5 na Irlanda, Malta, Roménia e Bulgária. No geral, a situação melhorou, tendo as taxas baixado cerca de 10% face a 2010.

Portugal está bem colocado, mas tem havido oscilações e há países em que os números são mais baixos, o que significa que “há espaço para melhorar”, acentua Henrique Barros. “Precisamos de saber não só quantos morrem mas em que circunstâncias morrem”, reclama. A agravar, diz, desconhecemos os dados dos hospitais e maternidades privadas, onde são feitos já “cerca de 15%” dos partos: “É como se as nossas estatísticas ignorassem 15% da população”.

Quanto à percentagem de partos por cesariana, neste período a situação melhorou em Portugal, apesar da ligeira inversão verificada em 2017 (quando a proporção de partos cirúrgicos nos hospitais públicos subiu para 27,7%, ainda assim menos de metade do que acontece nas unidades privadas). Seja como for, defende, os números continuam a ser demasiado elevados.

Mais informações no link:

http://www.europeristat.com/index.php/reports/european-perinatal-health-report-2015.html

Mãe depois dos 35 anos

Maio 21, 2011 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Notícia do i de 13 de Maio de 2011.

Fotografia de Ricardo Meireles

Fotografia de Ricardo Meireles

por Maria Catarina Nunes

Os últimos números do Plano Nacional de Saúde mostram que as mulheres têm filhos cada vez mais tarde. O objectivo era inverter a tendência

A boa notícia chegou quando Cristina Gonçalves já tinha dado o caso por encerrado. Há muito que tentava engravidar e não conseguia. Foi por isso que suspendeu os tratamentos de fertilidade a que se submetia há sete anos e decidiu que ia adoptar uma criança. No dia em que Cristina Gonçalves e o marido, Carlos Nunes, foram à primeira (e única) reunião de adopção, fizeram uma descoberta inesperada: Cristina estava grávida de sete semanas. “Nem queria acreditar. Só quando fui ao médico e ouvi o coração do Afonso bater é que tive a certeza.” Cristina, 39 anos, ia ser mãe pela primeira vez, fruto de uma gravidez natural.

O Plano Nacional de Saúde (PNS) estabeleceu, para 2010, uma meta inferior a 14,6 nascimentos por cem nados vivos em mulheres com 35 anos ou mais. Mas os resultados não são os esperados e os casos de maternidades tardias são cada vez mais frequentes. A taxa de nascimentos em mulheres com mais de 35 anos aumentou em todas as regiões de Portugal Continental. De acordo com dados do PNS, em 2004 nasceram 15,7 bebés de mães a partir dos 35 anos. Em 2009 esse número já tinha atingido os 20,6 nascimentos, por cada cem nados vivos.

O investigador do serviço de genética da Faculdade de Medicina do Porto, Mário de Sousa, explica que o mais preocupante nas gravidezes tardias é o envelhecimento dos ovócitos. Recordando que uma mulher perde, a partir da primeira menstruação, cerca de 20 a 30 ovócitos todos os meses, o especialista em medicina de reprodução mostra-se mais preocupado, não com a sua diminuição, mas com o facto de serem mais velhos: “Estão lá desde que a mulher nasce. Se ela tem 35 anos, é essa a idade dos ovócitos.” E se nós envelhecemos e desenvolvemos doenças, os ovócitos podem originar erros genéticos, que estão na base das trissomias.

Mário de Sousa defende que as mulheres “devem ter filhos, mas desde que a vida assim o permita”. É por isso que afirma: “O governo fez um país onde isto não pode acontecer. Não há dinheiro, nem famílias, nem filhos mais cedo”, argumenta.

O Afonso tem apenas um mês de idade e Cristina fala ao i com o filho ao colo, entre choros de bebé e hesitações próprias de ser mãe pela primeira vez. Confessa que a gravidez foi regada com muita ansiedade: “Não pelo parto, mas porque nesta idade há mais possibilidade de o bebé vir a ter problemas”, admite.

O maior medo das mulheres que optam por ter filhos depois dos 35 anos é, de facto, a probabilidade de a criança não nascer perfeita. Tal como Mário de Sousa, o presidente do Colégio de Obstetrícia e Ginecologia, Luís Graça, explica ao i que existem riscos de duas naturezas: o fetal e as doenças que aparecem à medida que vamos envelhecendo, sejamos de um ou de outro sexo. “O maior perigo para o bebé é a hipótese de existirem alterações de cromossomas”, assegura. Em segundo plano põe os problemas de diabetes e de hipertensão arterial, e em terceiro lugar sublinha os riscos de partos anómalos – porque a estrutura dos ossos e da bacia tem mais idade -, os prematuros, as cesarianas e os abortamentos. “Depois dos 35 anos não é o momento óptimo”, afiança o obstetra.

Mário de Sousa já o tinha referido. São muitas as mulheres que escolhem adiar a maternidade, já que desejam estabilidade financeira (e emocional) para educar as crianças com conforto. Foi o caso de Susana Dionísio. Apesar de ter uma relação amorosa séria e um emprego seguro há muito tempo, a gestora bancária de 40 anos acredita que “nunca existe uma altura ideal para engravidar, porque há sempre uma insegurança”. Talvez seja a razão para que Susana e Guilherme só tenham decidido ter um filho há dois anos. A Laura nasceu em Julho, com a mãe perto dos 38 anos. “Aconteceu assim, foi quando achámos que tínhamos as condições necessárias”. Apesar de tudo, quando era mais nova, Susana dizia que queria ser mãe em tenra idade: “A minha mãe tinha 39 anos quando eu nasci e por vezes achava que ela não me entendia bem”, conta ao i.

No entanto, Susana acredita que hoje em dia as mulheres são jovens por mais tempo e com uma boa dose de mente aberta e aceitação, conseguirá acompanhar a filha sem que a diferença geracional seja um problema: “Ainda vou sair à noite com ela”, atira em tom de brincadeira.

Um dos maiores problemas das mulheres que querem adiar a gravidez é a infertilidade. “Se o corpo envelhece, o útero também”, lembra Mário de Sousa. De acordo com o especialista, as taxas de gravidez com Reprodução Medicamente Assistida (RPM), são tanto mais positivas, quanto mais nova é a mãe.

Foi também o caso da irmã de Susana, a advogada Cristina Dionísio, que teve de fazer fez vários tratamentos. Com 42 anos, Cristina foi mãe há dois: “São acasos da vida. Só queria ter filhos depois de uma relação estável e depois disso demorou muitos anos até que engravidar” Cristina conta que a sua gravidez foi tranquila, mas que ia às consultas regularmente: “Não estava com medo, apenas mais alerta. Sentia-me muito confiante, mas havia a consciência de que estava a ser mãe mais tarde.” Os médicos não recomendaram “nada de extraordinário. Só os cuidados normais que uma grávida deve ter”, conta. O Frederico nasceu sem qualquer complicação e Cristina acredita que têm mais maturidade, conhecimento e paciência para o educar: “Além disso, como tenho estabilidade e liberdade profissional é muito mais fácil.

Há dez anos, quando trabalhava numa empresa com horários extremamente rigorosos, acho que não teria tanta disponibilidade.” Cristina e Manuel querem ter mais filhos. No seu caso, como no de muitas mulheres, é necessário recorrer aos tratamentos de fertilidade, “que em Portugal são muito caros. O Estado não apoia em nada”. É por isso que sublinha: “O país precisa de mais crianças, mas as famílias precisam de apoio.” Mesmo com uma vida estável a nível financeiro, o casal não se sente minimamente apoiado.

Na óptica de Mário de Sousa, são vários os obstáculos à maternidade: a falta de dinheiro, os estudos mais longos, querer progredir na carreira e as relações pouco estáveis. Por outro lado, o obstetra Luís Graça esclarece que a taxa natural de concepção máxima é maior nas mulheres que têm entre 20 e 32 anos: “É o período de máxima fertilidade e de maior tranquilidade na gravidez. Há uma idade própria para tudo”, conclui. A meta do PNS foi estabelecida, mas a evolução dos números tem sido no sentido contrário dos objectivos.


Entries e comentários feeds.