“Os filhos são as primeiras vítimas do stress dos pais. E de forma muito violenta”

Abril 5, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e foto do site NIT de 19 de março de 2019.

Não é novidade para ninguém. Cada vez mais parece que a sociedade ocidental vive a um ritmo acelerado, com as pessoas na rua a correrem de um lado para outro, com menos tempo para as refeições, para o lazer, e, em geral, para tudo. Isso faz com que todos fiquemos mais stressados e, como sabemos, o stress é contagiante.

Que o diga o pediatra Mário Cordeiro, especialista na área da saúde infantil e ex-professor universitário. É autor de vários livros e tem um novo trabalho. “Pais Apressados, Filhos Stressados” foi publicado a 15 de fevereiro e é uma edição da Desassossego. Tem 240 páginas e está à venda por 14,94€.

O pediatra dá consultas a muitas crianças que apresentam sintomas de stress por causa da forma como os pais vivem e gerem a sua vida. As refeições à mesa são um dos exemplos que dados no novo livro.

“Curiosamente, numa altura em que tanto se fala do ‘regresso ao básico’ e às dietas do Paleolítico, valha isso o que valer, a hora das refeições parece estar cada vez mais relegada para segundo (ou quinquagésimo segundo) plano”, escreve Mário Cordeiro.

“O pequeno-almoço raramente é tomado e, quando o é, toma-se de pé, a correr, com a escova de cabelo numa mão e a escova de dentes na outra. Ao almoço está cada um em seu lado — as crianças na escola ou sozinhas em casa em frente ao televisor, os pais no emprego, os avós sabe-se lá onde —, o lanche não existe (engole-se meia dúzia de ‘faz-de-conta-que-são-alimentos’ altamente calóricos, mas que se podem comer com as mãos ao volante ou enquanto se leem os jornais nos transportes públicos; desde que sejam doces ou carregados de açúcar, ou então pastéis fritos) e, finalmente, o jantar é muitas vezes um momento em que cada um chega à sua hora e procura qualquer coisa que lhe cale o apetite e que não lhe consuma muito tempo a preparar — o dia já vai longo e são quase horas de o despertador tocar outra vez, além de que cada um precisa ‘urgentemente’ de ir para o seu ecrã, seja computador, televisão, tablet ou telemóvel. A refeição é vista, assim, como ‘mais uma’ maçada, uma perda de tempo, uma chatice consumada, uma prova da ausência de liberdade para gerirmos o (escasso) tempo de que dispomos. Infelizmente, são cada vez menos os que olham para o espaço-refeição como um espaço de libertação.”

Neste livro, o pediatra dá dicas aos pais para tentarem mudar os hábitos do dia a dia — o objetivo é melhorar a própria qualidade de vida e, claro, a dos filhos. Mário Cordeiro explica de que forma é que o stress dos pais influencia os filhos. A NiT entrevistou o especialista.

É muito comum ter crianças stressadas entre os seus pacientes? Foi por isso que quis escrever um livro sobre este tema?
Creio que andamos todos stressados, em certo grau, mas muitas pessoas ultrapassam os limites da razoabilidade e, sim, encontro muitos pacientes, pais e filhos, muito angustiados, inquietos e descontentes com os seus estilos de vida e com o quotidiano. A observação da sociedade, passatempo que me fascina, revela-me muitas coisas que demonstram este grau de stress, latente e patente, na sociedade e, portanto, nas pessoas, em todos os seus ecossistemas: casa, escola, rua, lojas, empregos… Até nas férias. A razão do livro reside aí, claro, se bem que escreva, também, por prazer e por “upgrading” intelectual, dado que me obriga a “ginasticar os neurónios” e a ler, rever, debater, pesquisar, investigar… O meu lado científico fica radiante com estas coisas, bem como o de escritor e leitor.

Se os pais estiverem stressados, devem esconder isso dos filhos, para não os preocupar e stressar?
Creio que o stress não é passível de esconder. Impossível. Os filhos leem os pais, a alma dos pais, através de tudo: o nosso sistema nervoso autónomo que, como o nome indica, é independente da vontade, gere a produção hormonal das suprarrenais e de outras glândulas: as hormonas adrenalínicas e as endorfínicas. As primeiras, quando produzidas em excesso ou desajustadamente, acabam por produzir stress, manifestando-se numa série de pormenores comportamentais e fisiológicos, do tónus muscular ao brilho do olhar, do timbre de voz à inquietação da própria pessoa. Claro que os pais podem poupar os filhos de várias formas: não andarem stressados para não andarem, consequentemente, irritados, sem paciência, deixando de pensar que “crianças são crianças” e evitando cair até no ridículo que é dizer a um filho de dois ou três anos: “Não sejas criança!” e coisas assim; por outro lado, envolver as crianças em discussões e assuntos com acrimónia, que elas não entendem, apenas sobrará para elas os gritos e berros, mesmo até que a discussão possa ser sobre o Brexit ou sobre o futebol… Finalmente, o stress é contagioso, no sentido em que, quando um elemento da família está “à beira de um ataque de nervos”, todos os outros ficam também em stress, e estou em crer que este estado de coisas, vivido semanas após semanas, meses após meses, mina totalmente o amor, a cumplicidade, o “trabalho de equipa” da família, levando também, estou em crer, a muitos dos divórcios, separações e conflitos entre pais e filhos.

Que dicas práticas costuma dar às pessoas que enfrentam este problema?
As que constam do livro, em que exemplifico amiúde situações de stress no quotidiano. A primeira e mais importante é parar para pensar. Parar para pensar e refletir sobre o dia a dia, sem ter receio do que se pode encontrar mas, pelo contrário, entender que esse processo de análise pode conduzir a encontrar graus de liberdade para ajustamentos – mesmo que pequenos – que levam a uma melhor qualidade de vida e, até, a uma nova hierarquização das prioridades. Por outro lado, há que separar claramente a nossa parte de ação, trabalho, escola, fazer, empreender, etc., e a parte de descanso, lazer, prazer, gozo e afetos… Se isto não se faz, se trazemos tendencialmente para casa as “guerras” do trabalho, do trânsito, do “mundo lá fora”, então estará tudo contaminado e as crianças, claro, serão as primeiras a sofrer com isso e de uma forma muito violenta. É bom ter isso em mente, quando nos interrogamos sobre que tipo de vida queremos ter e proporcionar aos nossos filhos. Andamos a correr, a correr, a correr, arrasando tudo e todos, mas para onde, para quê e porquê?

Quais são as causas mais comuns para o stress dos pais que, por sua vez, passa para os filhos?
A relação laboral, que no nosso País é completamente absurda (e a escolar, nas crianças), ultrapassando o que o trabalho deve constituir: uma forma de dignificação do ser humano, de utilidade social, de realização de talentos e capacidades, e não de escravatura; o trânsito ou, dito de outra forma, as deslocações, os problemas de mobilidade, as horas e horas que se perdem, diariamente, dentro de um automóvel a vociferar com tudo e todos; a crispação relacional, muito comum a todos os níveis, até quando vamos pedir um café numa esplanada ou comprar o jornal no quiosque, e as redes sociais que estimulam o dislate, a agressão, a violência verbal no anonimato e o descarregar catártico de tudo o que há de pior na condição humana. A tecnologia, que prezo e da qual gosto e uso, quando hiper-utilizada e não controlada, também invade o espaço de descanso mental e físico, e “estoira” com o equilíbrio da pessoa e das que a rodeiam. Os filhos, obviamente, são as primeiras vítimas desta situação, não apenas porque são os “sacos de pancada” do stress dos pais, mas porque são forçados, desde o nascimento, a ritmos e hábitos que, muitas vezes, estão em plena contradição com as suas necessidades irredutíveis biológicas, psicológicas e sociais.

Que outros problemas é que o stress costuma desencadear nas crianças?
O mesmo que nos adultos: irritabilidade, desconcentração, incapacidade de escutar o outro e até de reconhecer que ele pode ter razão, obstinação, egocentrismo, falta de paciência, vontade de “emigrar para uma ilha deserta”, má performance escolar… Enfim, um cortejo de atitudes e comportamentos (e sentimentos) que não são nada bons e que se resumem a muita infelicidade, frustração e mais stress.

 

 

 

“Correria infernal” dos pais cria filhos stressados — pediatra Mário Cordeiro

Março 4, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 16 de fevereiro de 2019.

O novo livro do pediatra Mário Cordeiro pede aos pais que pensem em mudanças simples na forma como lidam com “a pressão enorme” do quotidiano, para não criarem filhos “stressados”.

O pediatra Mário Cordeiro convida os pais de hoje em dia a refletir sobre a “correria infernal sem destino”, que tem como consequência filhos ‘stressados’, e pede mudanças simples para melhorar a qualidade de vida.

“Pais Apressados, Filhos Stressados” é o título do novo livro de Mário Cordeiro, obra que é apresentada na segunda-feira em Lisboa e que se debruça sobre a pressa e o ‘stress’ parental.

“A vida quotidiana é uma pressão enorme e o que pretendo com este livro é, exatamente, estimular a pensar. Não é mudar o mundo e implodir o que está feito, mas pedir, quase rogar, que os pais parem para pensar, vejam se têm graus de liberdade para mudar a sua vida, porventura em coisa singelas e que não consomem muito tempo”, explica Mário Cordeiro à agência Lusa.

Para a sociedade em geral, o livro apela também para uma reflexão sobre o tempo, porque o pediatra considera que todos andam a “rosnar e de garras de fora”.

Uma das questões deixadas na obra, em jeito de desafio, é testar a capacidade de estar “uma hora sem ecrãs”, não contando o tempo de sono.

“Excluamos o tempo de dormir e o de trabalho e vejamos, das horas que restam, quantas passamos com um ecrã à frente (…) Parece canja, mas ficar sem SMS, telefonemas, e-mail, ‘tweets’, redes sociais… sem sequer olhar para ver ‘se já chegou alguma coisa’, vai ser muito difícil”, escreve Mário Cordeiro.

O pediatra compara a vida atual e a sua relação com o tempo com a escravatura: “O escravo (…) não tinha vida própria, vontade própria e tempo próprio”, aludindo desta forma à atitude de cobrança para uma disponibilidade permanente através do telefone ou das redes sociais.

Mário Cordeiro entende que deve haver coragem para “afastar a pressão de estar sempre” comunicável, sob pena de fazer sofrer os filhos, que estão “expostos ao comportamento dos pais, como que a radiações”.

O livro sugere ainda que a hora das refeições seja “um momento sagrado, ritualizado, partilhado”.

“Mesmo atendendo ao ritmo de vida das atuais famílias — e do qual estou bem ciente, podem crer, pelo que não pretendo estar aqui com moralismos de pacotilha —, é possível criar o hábito de fazer pelo menos uma refeição por dia em conjunto, com calma, e pelo menos uma mensal de toda a família. O homem é um animal gregário e necessita de o ser. Querer contrariar isso é condená-lo ao fracasso. Não é só o corpo que precisa de alimento”, escreve o autor, que é pediatra e autor de várias obras sobre a infância e a adolescência, além de pai e avô.

Sobre a falta de tempo de pais e famílias, Mário Cordeiro considera que pode induzir ‘stress’ nas crianças e uma “rapidez maior do que a que o ser humano consegue absorver e metabolizar”.

“As crianças não estão, ainda, habituadas a tanto ‘stress’, rapidez, aceleração e, sobretudo, à ausência de ritmos calmos, de lazer”, defende à agência Lusa.

“Ser e estar” em vez de “fazer e ter” é o que advoga o pediatra, para quem viver é fruir, é ter contactos pessoais, é ver o outro com empatia, é ter “o prazer de contemplar”, observar e interagir.

O pediatra considera que não são apenas os pais que têm de se interrogar “para onde vão” na “correria infernal sem destino aparentemente nenhum”.

“Tem um misto de intervenção pessoal e de intervenção estatal e laboral”, responde à Lusa, sublinhando a necessidade de políticas “integrais para a infância e para a família”.

Não se trata de inventar a pólvora, refere Mário Cordeiro, mas antes de olhar para exemplos do que já foi feitos nalguns países nórdicos, além de pensar que “o tempo é escasso e finito”.

“Não somos deuses”, afirma o pediatra, que constata que atualmente se vive com uma atitude de imortalidade e de que o dia tem 240 horas.

 

 

Perguntas (e ingenuidades) de verão – Mário Cordeiro

Agosto 15, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no i de 14 de agosto de 2018.

Aconselho-te a comer refeições leves, ao longo do dia, e cerca de 30 minutos antes de começares a jogar a sério comeres, por exemplo, iogurte ou leite, juntamente com bolachas, pão com doce, cereais ou algo equivalente e, quando terminar o jogo, beberes bastante água.

“Gostava de saber se é bom ou mau comer antes de jogar futebol na praia – é que todos os dias jogamos e é mesmo ‘a partir’.” – João, 15 anos, a passar férias no Algarve.

João: Não se pode pôr as coisas assim tão linearmente, tipo “bom” ou “mau” – depende do que vais comendo nesse dia, da hora do dia, etc. O que te posso dizer é que, se vais ter atividade muscular intensa, vais precisar de consumir mais energia (essencialmente o “açúcar” do teu sangue) e oxigénio. Por outro lado, como os teus músculos, articulações, coração e pulmões vão trabalhar mais, vão precisar de mais sangue. Se não comeres nada antes de praticar desporto, provavelmente vais gastar o teu açúcar e, a meio do jogo, começar a ter quebras de rendimento e sintomas de hipoglicemia (irritabilidade, falta de concentração, falhanços na performance, dores de cabeça, tonturas), e a sentires-te mal, sobretudo se estiver calor, como é de esperar nesta altura do ano. Por outro lado, se comeres demais, o teu aparelho digestivo vai precisar de sangue para realizar a função de digerir e metabolizar o que comeu, pelo que o sangue pode faltar nos tais territórios importantes durante a prática desportiva.

Assim, aconselho-te a comer refeições leves, ao longo do dia, e cerca de 30 minutos antes de começares a jogar a sério comeres, por exemplo, iogurte ou leite, juntamente com bolachas, pão com doce, cereais ou algo equivalente e, quando terminar o jogo, beberes bastante água (e também durante o jogo, se estiver muito calor, mas não em grandes quantidades – pouco e muitas vezes é melhor). Só deverás comer uma refeição mais abundante algum tempo depois.

“É verdade que as abelhas picam com maior probabilidade as pessoas que são doces?” – Vera, 16 anos, a passar uns belos dias de vento e nevoeiro no Baleal.

O que é uma pessoa doce? Um diabético sem controlo? Muitas vezes usa-se este argumento para consolar uma criança que foi picada, no sentido de dizer que foi uma privilegiada… duvido que este argumento te convença, Vera. Todavia, há algum fundo nesta ideia, mas que diz respeito ao odor adocicado, e não ao sabor doce. Alguns desodorizantes, perfumes ou até o cheiro natural adocicado de algumas pessoas pode atrair abelhas, vespas e zângãos. Por outro lado, as cores brilhantes atraem-nos também, pelo que usar uma camisa às flores, tipo Havai, é um risco! Claro que se andares com um gelado na mão, em plena praia, este transforma-se num alvo dos insetos e depois do gelado quem irá ser picada és tu.

“Li num romance que o protagonista, um homem violento, ficava sempre mais violento em dias de sol. Isso tem alguma explicação? Não deveria até sentir–se mais bem-disposto por estar bom tempo?” – Maria, 16 anos, diretamente de Esposende.

Tens alguma razão, Maria. Há muitos estudos que reportam um pico de violência quando o tempo está bom, ou melhor dizendo, no verão. Pode haver diversas razões para tal: por um lado, a baixa de serotonina cerebral que se faz sentir nesses períodos (e não o aumento da testosterona, ao contrário do que muita gente crê) – a serotonina cerebral está, aliás, mais baixa nos soldados mais agressivos, nos agressores e assaltantes e nos suicidas; depois, porque as condições externas são mais propícias: as mulheres, por exemplo, andam mais na rua, mostram mais o corpo, coisas que para um agressor sexual são fatores de encorajamento (atenção: não quer isto dizer que devam ser atenuantes e que andar de minissaia seja um convite para se ser violada! Chega de culpar as vítimas!). Por outro lado, há mais hipóteses de assalto (mais carros estacionados com objetos dentro, mais vivendas ou casas com janelas abertas) e alguns dos assaltos podem correr mal. De igual modo, a possibilidade de fuga é maior no verão do que com chuva ou com pouca gente na rua com a qual o assaltante se possa misturar.

“Devemos respeitar mesmo um intervalo de três horas entre as refeições e a entrada no mar ou na piscina? Mesmo depois do pequeno-almoço ou do lanche? Eu nunca percebi porquê e tenho dificuldades em explicar as razões dessa ideia aos meus filhos.” – Margarida, com três crianças e muito pouco tempo para aproveitar as férias na Costa Alentejana.

Compreendo a sua perplexidade, Margarida. Claro que o que vai ler não deve interferir com as crenças nem convicções. Se a pessoa não se sente confortável em tomar banho antes da “digestão” (está entre aspas, note), não o deve fazer. Mas, sucintamente, é o seguinte: quando comemos, obrigamos o tubo digestivo a trabalhar mais e, por isso, há uma chamada maior de sangue a esse território. As temperaturas extremas – água muito fria, água muito quente (só na banheira!), estar ao sol “a cozer” – causam perturbações na distribuição do sangue, sobretudo ao nível da pele, desviando sangue, o que pode causar a chamada “paragem de digestão”. Mas atenção: é preciso comer mesmo muito (e beber bebidas alcoólicas, também…), o que as crianças não fazem, e entrar na água fria de repente, depois de ter estado deitado ao sol. É um padrão de adulto, e não de criança.

Se comerem pouco (o normal de um pequeno almoço, almoço de praia ou lanche), se não estiverem a “grelhar” ao sol (estão sempre a mexer-se e nunca param quietas) e se a temperatura da água for dentro do normal, não há qualquer problema.

Há um bom indicador para perceber se comemos ou bebemos demais, o que deverá obrigar a esperar – é sentirmo–nos pesados, com vontade de dormir a sesta, sonolentos, com a cabeça “a andar à roda”, a bocejar, sem capacidade de fazer esforços físicos ou de aguentar conversas muito “elaboradas”. Mostra que o nosso aparelho digestivo “roubou” sangue a todos os outros órgãos, designadamente ao cérebro, e que há que esperar.

Todavia, obrigar as crianças a respeitar as três ou quatro horas (há pessoas que controlam pelo relógio!) quando petiscaram coisas poucas e não beberam álcool… é capaz de ser um bocadinho excessivo e até ligeiramente “sádico”…

“O meu bebé tem seis meses. Acha que o posso deixar comer areia?” – Manuel, pai-galinha em férias na praia fluvial de Constância.

A areia não tem, em si, qualquer problema – é terra! Desde que não esteja contaminada, não tenha partículas duras que possam magoar (restos de conchas partidas, etc.), algas ou outras coisas do género, não faz qualquer mal aos bebés comer areia. Na idade em que está, até o pode ajudar a “rilhar” as gengivas e no processo de dentição. A areia que comerá… sairá…

No entanto, há que ter cuidado com uma coisa: as beatas que muitos fumadores (e fumadoras) enterram na areia, sem pensarem um segundo que seja que uma beata, mastigada por uma criança da idade do seu filho, a pode matar. Uma basta. É uma ideia que não está muito disseminada entre nós, mas temos de ter cuidado. Resumindo: se for areia “de qualidade”, deixe-o comer. Se não, tenha cuidado, mas vai ser difícil evitar que ele o faça, na fase de experimentação em que está, e na qual “levar tudo à boca” é uma necessidade fundamental.

Pediatra

 

 

Entrevista ao pediatra Mário Cordeiro: “Os pais têm que deixar de ter tanto medo de tudo”

Agosto 4, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da Conti outra a Mário Cordeiro. Imagem da Conti outra

Por Catarina Fonseca

É um dos mais respeitados pediatras portugueses e afirma que, embora sejamos melhores pais agora, ainda há muito para melhorar. Aqui falamos de culpa, TPCs e stresse, mas também de fins de semana e da mudança.

Somos melhores pais agora?

Somos melhores pessoas, em geral. Tenho fé na humanidade. Acredito que a maioria das pessoas tem coisas muito boas para dar, e a evolução em relação ao bem-estar, aos direitos humanos, às desigualdades, tem evoluído muito. Não é preciso recuarmos séculos. Em 1900 a média de vida em Portugal era de 40 anos. Havia bolo nos dias de festa e no resto do tempo era pão seco.

Vivemos no terror de sermos maus pais, mas nunca se falou tanto em parentalidade nem as pessoas se preocuparam tanto com isso…

Sim, às vezes até demais… (risos) Andamos demasiado preocupados com a nossa ‘performance’ enquanto pais e pelo caminho perdemos espontaneidade, naturalidade e bom senso, que são qualidades muitíssimo importantes. A naturalidade significa não andarmos sempre a pensar no que estamos a fazer ou no que o médico manda.
Quando as pessoas me dizem ‘Eu sigo-o’ dá-me sempre vontade de dizer ‘Não faça isso, que eu não sou um pregador evangélico!’. A espontaneidade é deixar as coisas correr e não ter obrigação de sermos pais ou mães iguais todos os dias. O bom senso é aquilo que nos rege sem regras nem obrigações.

Por que é que temos tanto medo de sermos maus pais?

Porque somos inseguros e estamos sempre preocupados com aquilo que os outros acham de nós. E muitas vezes essa censura social não existe. Às vezes pensamos ‘os outros vão achar que…’ e os outros não acham nada. São mecanismos projetivos: pomos na cabeça dos outros o que se passa na nossa. Outra das razões é por que a ciência nos ensinou que o que nós somos hoje radica na infância. Dantes, antes dos 18 anos a criança andava às ordens dos outros e não havia a noção de uma criança triste ou deprimida. Se estava triste era porque não tinha nada que fazer. Hoje sabemos que as crianças têm emoções e sentimentos, e que o ser humano se constrói desde que nasce.
E nós temos medo de os estragar para sempre e que a culpa seja nossa…
Sim, sim. Às vezes isso para nós, portugueses, também é um sentimento de autoflagelação e culpa, são muitos anos de moral judaico-cristã.

Para que serve a culpa?

Serve para nos redimir de algumas ações. Se eu der uma bofetada ao meu filho e achar que fui injusto, pergunto-me se, de cada vez que olhar para ele, não vou sentir-me mal. A necessidade de reparação é muito importante. É fundamental, quando se é injusto, perceber por que é que exageramos. Nós ainda temos muito a ideia de poder para com as crianças. Como não podemos bater no chefe, ralhamos ao filho. Quando uma pessoa sente que foi injustiçada, arranja um bode expiatório. E não podendo bater no S. Pedro, no governo ou no chefe, mantemos uma raiva latente que nos faz ter de mandar em alguém. E esses poderzinhos são aplicados em quem é mais frágil e mais desprotegido.

Confundimos poder com autoridade?

E autoridade com autoritarismo. Numa família, há um triângulo pai-mãe-filho, em que o filho ocupa o vértice inferior. E qualquer inversão deste esquema dá asneira. Agora, o ter de haver esta hierarquia não quer dizer que a amizade e a compreensão não dominem. Mas há de facto uma autoridade, que não se baseia no autoritarismo. Pais e filhos devem ser educados, saber argumentar, saber escutar e chegar a um consenso. Mas se não se conseguir um consenso, quem tem a última palavra são os pais.

Dê-me um exemplo de um bom castigo e de um mau castigo…

Um bom castigo é justo, equilibrado, e visa o comportamento e não a pessoa. O mau castigo é o contrário disto: pretende valorizar o castigador em vez de ensinar o castigado, e acima de tudo humilha a pessoa em vez de corrigir o comportamento. Por isso é que eu insisto muito que, antes de um castigo, devemos sempre dizer à criança ‘Eu amo-te muito’. Porque assim lhe dizemos duas coisas: não está aqui em causa o meu amor por ti e faço isto porque te amo. Ou seja, temos de passar à criança que o amor por ela nunca está em causa, apesar de eu poder estar zangado naquela altura. Porque a criança é literal, acha que vai ser deitada fora, como acontece quando não queremos qualquer coisa. O castigo deve ser acima de tudo pedagógico. Deve explicar-se o que a criança fez mal, não descarregar a nossa fúria.

Como dantes se davam reguadas na escola, na esperança de que por milagre a criança de repente ‘se lembrasse’ do que não sabia…

(risos) Totalmente. É um exemplo de um castigo absurdo. Felizmente que isso já passou. Mas repare que o que se passa com as crianças passa-se com qualquer um de nós. Se o seu chefe lhe disser ‘Olhe, ó Catarina, neste seu artigo há aqui umas coisas que gostaria que abordasse com mais pormenor, veja lá se eu não tenho razão, você faz isso tão bem”, você vai-se embora toda motivada para emendar o artigo. Agora se eu lhe disser ‘Este seu texto está uma verdadeira porcaria, você acha que eu vou publicar essa porcaria?’, isso só vai gerar ressentimento.

Mas já estamos a educar melhor, não?

Sem dúvida. Houve uma mudança geracional muito grande e muitíssimo repentina, que apanhou a era da internet e a evolução da ciência. As mudanças de paradigma nestes 20 anos foram uma explosão brutal, e é normal que por vezes se ande um bocado confuso com tudo o que nos chega.

O que é que estamos a fazer mal e a fazer bem?

De bem, aprendemos a valorizar as crianças, a estimular a autonomia, o esforço, o rigor (isto quando os miúdos não são abebezados). O que se faz de mau corresponde a um grande paradoxo na nossa sociedade: por um lado, infantiliza-se muito as crianças, por outro, dá-se-lhes um estatuto de ‘crescido’ e de opinativo que não condiz. Mas o pior, para mim, é o stresse diário em que mergulhamos os nossos filhos.

As crianças estão a ter cada vez mais uma vida muito parecida com a nossa, não é? Chama-lhe ‘vida mais-do-mesmo’: levanta, vai à escola, volta, banho, tpcs, cama…

Há duas coisas terríveis: eles trabalham demais na escola e submetemo-los a deslocações enormes. Um estudo provou que se uma pessoa for a caminhar o cérebro vai registando e descodificando as imagens à sua volta. Mas se for à velocidade de um automóvel, as imagens passam tão depressa que fazem o mesmo efeito de uma lâmpada a piscar, e essas imagens são lixo que ocupa o cérebro. A criança quando chega à escola já vai cheia de informação que não é nada. Tudo o que tem na cabeça são vertigens sem sentido, e este ‘lixo informativo’ é altamente stressante e tóxico porque o cérebro tem de se esforçar para perceber onde é que o vai ‘arrumar’… É por isso que muitas crianças chegam estoiradas ao meio da manhã. E depois os pais queixam-se de que elas estão desatentas. Elas não estão desatentas. Elas estão entupidas de informação inútil.

Como se quebra o ciclo do cansaço?

Além de se tentar que as crianças durmam mais e melhor (já agora, repare que investimos balúrdios num carro e ninguém investe num bom colchão) temos de perceber que nós não podemos ter tudo. Estamos habituados a ter o mundo na ponta dos dedos, e o acesso à informação imediata dá-nos uma sensação de omnipotência, de que podemos saber tudo e dominar tudo e ter tudo. Mas não podemos. Portanto, há que fazer concessões e escolhas.

E o que é que podemos fazer?

Por exemplo, podemos organizar-nos num estilo de vida em que as crianças possam ir para a escola de transportes. A partir dos 11, 12 anos podem perfeitamente andar de transportes. Nós é que somos bombardeados todos os dias por medos absurdos. Claro que o ideal é irem a pé para escola. Uma cidade é para se observar, para fruir. Os meus filhos sempre foram a pé. Mas eu dizia-lhes: ‘Se alguma vez vos apanhar a atravessar fora da passadeira, acaba-se logo isto.’ Não há autonomia sem responsabilidade.

O que acha da quantidade de TPCs que muitas crianças levam para casa?

Acho um perfeito disparate. Aceito alguns trabalhos, mas esta história de mais do mesmo é um atestado de menoridade à escola, que não soube ensinar-lhes o que eles precisavam de saber durante o tempo de aulas. Os pais devem proteger as crianças, e se necessário escrever ao professor: ‘O Manel hoje não teve tempo de fazer os TPCs’.

Mas os pais têm medo de que as crianças fiquem para trás…

Ai mas têm de deixar de ter tanto medo de tudo. Temos de ter uma voz mais ativa na educação das crianças. E são esses medos, mais do que o desinteresse, que desapoiam a criança. Devíamos ter associações de pais mais participativas.

Fazia os TPCs com os seus filhos?

Não os fazia com eles, mas sempre estive disponível para fazer revisões ou para tirar dúvidas. Eles sempre andaram e andam numa escola pública, e só tinham trabalhos aos fins de semana, o que eu apoiava. O que eu fazia era revisões antes dos testes. Mas fazer os TPCs com eles, nem pensar. As crianças têm de ser responsáveis pelo que têm de fazer, e os pais têm de estar disponíveis para uma dúvida ou outra, ou por exemplo para ensinar a investigar no Google.

Muitas pessoas querem filhos-troféu?

Querem um filho como um processo narcísico. Em vez de ‘que lindo filho que eu tenho’, pensam ‘que lindo pai que eu sou, que tenho um filho tão lindo’ (risos). Há pessoas que planeiam um filho como parte das ‘coisas’ que querem: uma casa, uma carreira, um carro, um emprego, um filho. Ora isto são domínios completamente diferentes em termos de realização. Um filho não é um bem, como um frigorífico, um filho dá trabalho, e as pessoas têm de se capacitar disso. Temos é de arranjar um equilíbrio entre as ‘peças’ do puzzle da nossa vida. Tanto é mau aquelas pessoas que acham que podem continuar a fazer tudo o que faziam quando não tinham um bebé, como as que se me vêm queixar: ‘Nunca mais fui ao cinema desde que o João nasceu.’ Isso é ser um bom pai ou mãe? Não, não é.

E depois o casamento ressente-se?

Claro. Porque deixamos de ser o Zé e a Maria e passamos a ser o pai e a mãe do João. E a relação conjugal não é a relação parental. Na relação conjugal, os filhos não devem entrar. Mas quando o INE nos diz que mais de metade das mães só terão um filho, as mães agarram-se àquele ser e infantilizam-no para lá do natural.

Por que é que gostamos tanto de manter os filhos bebés?

Porque as mães são o pólo regressivo e os pais o pólo de crescimento. Quando trabalhamos, por exemplo, estamos numa postura de crescimento. Em casa, estamos em ‘regressão’, relaxamos. As mães representam a segurança e proteção, os pais, o desenvolvimento e a progressão, o que não significa que muitas vezes as mães não façam de pais e vice-versa. Por isso, quando um filho cresce, dirige-se para o pai. E a mãe sente isso como uma traição. ‘Olha aquele agora só quer o pai’. Antigamente, quando a criança se dirigia para o pai, a mãe já tinha outro bebé na barriga. Hoje, isso deixa um grande vazio na mãe. E num país com uma das mais baixas taxa de natalidade do mundo, isto é dramático.

E depois culpabilizamo-nos por passarmos pouco tempo com eles…

E comparamo-nos com uma utopia que nunca existiu. Dizemos que as nossas mães passavam mais tempo em casa, mas as portuguesas sempre trabalharam imenso. Elas trabalhavam, tinham vida social, tinham hobbies, só que era tudo feito de modo contínuo. Um bocadinho com os filhos, depois apanhar couves, depois ir à loja, eram ‘bocadinhos’, o que dava uma sensação de continuidade. Não se vivia em ‘blocos’ de 8 horas. Mas a vida mudou radicalmente em pouquíssimo tempo. Tudo estava próximo, mesmo dentro das cidades a vida organizava-se em ‘aldeias’. Hoje isso perdeu-se.

O que podemos fazer?

Aproveitar as férias e os fins de semana para sair do esquema quotidiano, por exemplo. Deixar esse exibicionismo dos automóveis e das roupas e preocuparmo-nos mais com o que é verdadeiramente importante, porque não é isso que nos faz felizes. Mesmo as crianças já valorizam muito as coisas não pelo seu valor em si, mas pelo que custaram. Isto é espantoso! É mesmo isto que queremos passar-lhes? A cultura das marcas? Podíamos conversar mais com eles, discutir ideias e valores, coisa que não estão nada habituados a fazer.

Eles hoje é mais ecrãs?

Eles e nós. A ideia da tecnologia é poupar-nos esforços e libertar-nos. Mas não nos devia libertar para mais do mesmo! Devíamos usar esse tempo que ganhámos para qualquer coisa mais humana, ir passear, conversar, ir a uma esplanada, estar olhos nos olhos. Ou seja, devíamos pensar de vez em quando no que é que queremos da vida e no que pretendemos dos próximos anos. E o que é que podemos fazer para lá chegar. De certeza que haverá uma ou mais coisas que podemos mudar. E ter essa coragem de mudar. Temos muito medo da mudança. Às vezes vejo pais aflitíssimos porque a Rita vai mudar de escola e vai ter professores novos e colegas novos e ai ai ai. Mas qual é o problema? Mudar é saudável, cria-nos aptidões novas. Traz pessoas novas às nossas vidas, em vez de passarmos anos a fio no mesmo sítio, todos iguais uns aos outros e a debitar as mesmas banalidades. Isto é um desperdício da condição humana.

Fonte: ACTIVA

 

Por um verão mais seguro – Mário Cordeiro

Agosto 1, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no i de 31 de julho de 2018.

Todos os verões morrem muitas crianças (e pessoas, no geral), vítimas de acidentes evitáveis. Ficam aqui algumas ideias que vos poderão ajuda a conferir se tudo o que aqui se diz já faz parte da vossa cultura de segurança e das vossas rotinas ou se precisam de “mudar de hábitos”. Tenhamos respeito pelos que morreram por traumatismos, lesões e ferimentos decorrentes de acidentes evitáveis, e tornemos as suas mortes úteis se aprendermos a lição, para não repetir os mesmos erros.

Afogamentos

Portugal continua a ser um país onde as medidas de segurança são frequentemente esquecidas e onde o “facilitismo” acaba por ser a regra. Só que o Diabo não dorme. Quando abrimos os jornais ou ouvimos os telejornais – como tem acontecido ultimamente -, as crianças mortas e feridas devido a acidentes estúpidos e evitáveis entram-nos pela casa dentro.

Desde o início da época balnear, e apesar de o tempo ter estado péssimo para idas à praia e piscina, já são muitos os casos de afogamentos e quase-afogamentos, para lá de todos os casos que tiveram de ir ao hospital por queimaduras solares, golpes de calor e outras coisas no género… e isto, repito, com mau tempo. Se, desta vez, foi uma criança desconhecida, para a próxima poderá ser o nosso filho, se não tomarmos as precauções devidas e continuarmos a considerar que “a nós nada acontece” e que a preocupação com a segurança é “excesso de zelo”.

Podemos mudar isto, ou melhor, temos de mudar isto! Não chega horrorizarmo-nos com os mortos de Pedrógão se, nas piscinas e praias portuguesas, morrem silenciosamente crianças, adolescentes e adultos. Convém relembrar que os afogamentos podem surgir em água doce (piscinas, poços, lagos, albufeiras, rios, praias fluviais) ou salgada e praias de mar. Felizmente, o número só não é maior porque os surfistas, todos os anos, salvam dezenas e dezenas de pessoas.

Há fatores que contribuem para um afogamento: não saber nadar ou, mesmo sabendo, incapacidade para se aguentar numa situação de perigo e de medo; inexperiência; comportamentos de excessivo risco (como nadar para longe); má utilização das boias ou outros elementos; falta de cuidado e de atenção; ignorância do perigo (muitas vezes agravada por uma má avaliação da situação e das condições ambientais); outro tipo de acidentes (como pancadas na cabeça ao mergulhar, traumatismos com remos ou mastros de barcos, etc.); incapacidade de coordenação e atrapalhação na altura da queda à água, ou o desrespeito pelas indicações do nadador-salvador e das bandeiras. Convém relembrar que uma criança de pouca idade pode afogar-se num palmo de água. Sim… em 20 cm de altura!

Chapéus

De preferência um de abas largas, arejado, que proteja o rosto e as orelhas. As radiações solares que se apanham nos primeiros anos de vida são determinantes para o aparecimento de cancros da pele e para o envelhecimento precoce dos tecidos cutâneos, para além das lesões nos olhos que podem causar futuras cataratas. Atenção, pois, às crianças. Ter bom senso aprende-se desde pequenino, sobretudo se as razões forem explicadas às crianças.

Cremes

Relativamente aos mais novos, sempre com fator elevado, de preferência superior a 50 e renovado várias vezes ao longo do dia. Quanto mais clara e sardenta a pele e mais ruivos os cabelos, maior deve ser o fator.

Escolham um creme à prova de água, fácil de aplicar, em spray. Depois da praia, e tomado o banho de água doce, convém aplicar um creme hidratante.

Gastroenterites

O tempo quente é um factor de risco para as gastroenterites provocadas por alimentos deteriorados. Vale a pena, pois, tomar alguns pequenos cuidados: abastecer-se em estabelecimentos com boas condições de limpeza e onde não haja mistura de alimentos, ver os prazos de validade inscritos nas embalagens e o seu estado de conservação, especialmente a carne, peixe, ovos. Não é aconselhável comprar produtos congelados que se apresentem moles ou deformados, pois é sinal que já foram descongelados e voltados a congelar.

Relativamente aos alimentos que sobram, convém conservá-los no frigorífico logo que arrefeçam, de preferência em recipientes herméticos.

Igualmente importante é cozinhar sempre com as mãos bem lavadas e evitar confecionar com ovos crus ou mal passados, por exemplo maioneses e mousses. As saladas e a fruta crua são excelentes alimentos, especialmente apetecíveis nesta época do ano; no entanto, para não se tornarem nocivos, devem sempre ser lavados em água potável e corrente.

Mosquitos, Melgas, etc.

Há crianças que fazem grandes reacções alérgicas às picadas e que, por vezes, têm de ser medicadas no serviço de urgência. Há vários produtos no mercado para o “antes” (sprays, aparelhos de ligar à electricidade, etc.) e para o “depois” (cremes, pomadas). Leve consigo um carregamento e, já agora, não deixe a janela aberta enquanto tem as luzes acesas, nem as tenha no exterior da casa, junto às portas e janelas. É um autêntico convite para os insetos…

Óculos escuros

Os pais usam, as crianças não tanto. Mas as radiações ultravioleta estão na luz, e a luz entra pelos olhos dentro. Além disso, o cristalino dos olhos da criança não filtra estas radiações, até aos 15 anos, tendo como resultado queimaduras irreversíveis da retina.

Se os pais se protegem, então as crianças também deveriam, por maioria de razão, estar protegidas. Não é fácil, requer paciência e persistência, mas que hábito se adquire na infância sem estas virtudes?!

Há várias lojas e farmácias que vendem os óculos. Insistam com as crianças, com convicção. Não se trata de uma moda, apenas de bom senso.

Sol

Um amigo que às vezes é quase um “amigo-da-onça”. A culpa não é dele, mas da estupidez humana que levou à destruição da camada de ozono.

Cremes protetores, fuga às horas com mais radiação (a “hora vermelha” anda pelas 12-16h, mas varia conforme as praias, claro, e há praias onde não se pode estar nas chamadas “horas dos bebés”), enfim, temos de aprender a “dormir com o inimigo”.

Transportes

É obrigatório transportar as crianças corretamente, ou seja, em dispositivos de segurança – cadeiras, assentos, cinto de segurança. Agora também nos transportes coletivos.

Já que vivemos num país que, em termos de estradas e de trânsito, é quase tresloucado, porque não começar já hoje? Transporte o seu filho em segurança. Vai ver que não se arrepende!

Se tomarmos alguns cuidados, as férias vão parecer (e ser) mais tranquilas e a saúde das crianças promovida, em vez de acabarmos num hospital por uma incúria ou um desleixo ao qual só sabemos responder “se eu tivesse feito isto ou aquilo”. Façamos então esse “isto e aquilo” já!

Pediatra

Escreve à terça-feira

 

Crianças e Famílias num Portugal em Mudança – livro de Mário Cordeiro

Julho 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Neste livro traça-se um perfil da situação de saúde e de bem-estar da criança em Portugal, focando especialmente o grupo etário dos 0-9 anos. Com base em diversos indicadores existentes, e na sua evolução, avaliam-se as necessidades de saúde e de bem-estar, bem como as causas de mortalidade, doença e o sucesso das estratégias preventivas, depois de definida a população infantil em termos demográficos e sociais.

Mais informações sobre o livro no link:

https://www.ffms.pt/publicacoes/detalhe/1081/criancas-e-familias-num-portugal-em-mudanca

 

Surto de sarampo : sinal dos tempos e barómetro de uma sociedade – Mário Cordeiro

Março 27, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no site da https://ffms.pt/

É lamentável que, passados estes anos todos em que já foi possível avaliar os efeitos (individuais e coletivos) das vacinas, tenhamos ainda que estar a convencer os pais de que este é um passo necessário.

Infelizmente ainda o é – foi há cerca de um ano e agora novamente: um surto de sarampo num país que estava oficialmente livre de sarampo. Um país que era um exemplo para a Europa e para o mundo!

A sociedade da opulência e da abundância (sim, abundância, sobretudo comparando com mais de metade do planeta) é muito inculta relativamente à Ciência e acredita no que o “grande guru” Facebook ou o senhor doutor Google lhe dizem.

Muitos profissionais têm, de igual modo, contribuído para uma falsa segurança e como a memória nem sequer é curta, é curtíssima (em relação a tudo, porque a noção de História se está a perder), já poucos se lembram do que são sarampo, poliomielite, varíola, difteria, meningites. Assim, muitas pessoas consideram que estamos “imunes” a doenças apenas porque somos “civilizados”… nada de mais errado. Há que, constantemente, relembrar que a luta contra os microrganismos não está ganha: qualquer distração levará a que eles vençam. Não desejo isso para os meus filhos, para os meus netos e para as gerações futuras. Faço uso dos dados científicos, e não de “diz-que-disse”.

Alguns pais são “contra as vacinas”. A decisão última de vacinar os filhos é deles, claro, mas é preciso desfazer os equívocos, e pergunto, se não vacinarem e a criança adoecer, como é que eles se vão sentir?… Para lá de que a criança não é propriedade dos pais. Eles são apenas gestores do seu percurso de vida, e devem ser bons gestores, no melhor interesse dos filhos.

Cada um tem o direito de escolher o que quer fazer, mas convém não esquecer que essa autonomia e esse direito implicam responsabilidade. O que acontecer à criança deverá ser, pelo menos moralmente, atribuível aos pais. Para os que são “contra” as vacinas, pois tenham a coragem de ir a África, por exemplo, e pergunte-se-lhes se não desejariam ter uma vacina que salvasse os filhos de morrer por sarampo. Choca-me a ignorância da sociedade da abundância em que se pensa que o que vem nas redes sociais é mais importante do que os dados e a realidade científica.

Como em todos os procedimentos médicos, poderão existir meia dúzia de casos em que vacinar não é recomendável, mas não são duas ou três exceções que não fazem lei. Nós, cientistas, temos de descartar as mentiras, falsidades, inverdades e ideias feitas que estão erradas. Infelizmente, a moda de “não vacinar” é própria de uma sociedade afluente e rica, sobranceira e jactante, que se esqueceu dos tempos em que se morria de meningite, poliomielite, tosse convulsa, difteria ou sarampo, entre tantas outras doenças, e nada tem a ver com as escassas reais contraindicações à vacinação. O que mata são as doenças. As vacinas salvam vidas!

O método sinistro do mundo das “fake news”, associado à amplificação pelas redes sociais, acríticas e acéfalas leva a que se propaguem mentiras, como foi relacionar-se a vacina do sarampo com o autismo. Neste caso concreto, foi um médico que publicou um estudo, que veio a revelar-se falso, em que sugeria essa associação. Foi mais do que demonstrado que não era verdade, mas a ideia ficou (como as notícias de primeira página que são desmentidas depois num pequeno quadradinho numa página interior) e pouco se falou que o referido médico foi irradiado e expulso, o mesmo acontecendo com um outro médico nos EUA – que mais tarde se suicidou. Nesse aspeto, acho que os meios de comunicação alinham, muitas vezes, nesse “erro histórico”, com consequências gravíssimas para a saúde das pessoas. Repito: as vacinas salvam, as doenças matam!

Portugal é um caso de sucesso, desde que a então diretora-geral da Saúde, drª Maria Luísa Van Zeller, iniciou o PNV. Somos um exemplo para o mundo. Perder isto seria como ter Cristiano Ronaldo e nunca o deixar jogar, com a “pequena” diferença que, se não vacinarmos, milhares de pessoas morrerão. Sim, milhares. Não é força de expressão.

Outro argumento, frequentemente usado, é que as multinacionais “inventam” doenças para “impingirem” vacinas. Se é verdade que as multinacionais e firmas farmacêuticas querem ter lucros (isso acontece com qualquer negócio numa economia de mercado) e se também é verdade que os Estados e a UE têm de ter uma palavra a dizer sobre os preços (e já têm, quando num concurso público internacional os preços caem para cerca de um terço do preço de venda ao público), a ideia de que há uma conspiração e que as vacinas são desnecessárias é absurda, obscurantista e totalmente idiota…. Com efeitos muito graves na vida das pessoas. Quando morreu um terço da população da Europa por peste negra ou sífilis, no Renascimento, não creio terem sido as multinacionais as culpadas. Aliás, quem morreu muito agradeceria ter tido uma vacina que lhes salvasse a vida!

As taxas de vacinação em Portugal continuam razoavelmente elevadas, porque felizmente a maioria dos pais não vai em “cantos de sereia” e não acredita em balelas, mas este surto mostra como estamos a abrir brechas. Há um par de anos houve dois casos de estrangeiros com sarampo e não houve um único português… porque a população estava imunizada e havia a imunidade de grupo, a qual se consegue com uma taxa de cobertura superior a 95% – agora, não foi o caso. Se não defendermos ativamente as vacinas como o bem precioso e a maior conquista civilizacional em termos de saúde, poderemos correr sérios riscos, sim, porque a memória das doenças ficará esfumada. Há razões para ter essa preocupação.

Ainda por cima, existe uma “geração” que já não contraiu a doença “selvagem”, só fez uma dose de vacina – a qual, nos anos 70, também era diferente e menos imunogénica – e está em maior risco de não ter anticorpos para a doença e de, por exemplo, não passar esses anticorpos (porque não os tem) aos filhos durante a gravidez, deixando os bebés expostos desde que nascem – estou a falar da geração entre os 35 e os 45 anos, mais ou menos.

Um país que fica em transe (e bem) por causa dos incêndios, não perceberá que estamos perante um novo “incêndio” que pode provocar até mais vítimas? A última epidemia, há cerca de 25 anos, causou mais de 50 mortes! Está nas nossas mãos defendermos as vacinas e a sua utilidade e bom nome. As vacinas salvam vidas, as doenças matam essas vidas. Para mim, como pai, cidadão, cientista e humanista, faz toda a diferença! Mário Cordeiro é autor do ensaio ‘Crianças e Famílias num Portugal em Mudança’ e, mais recentemente, de ‘A Verdade e a Mentira das Vacinas’ (editora Desassossego, 2017). Escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

“E se o meu filho for gay…?”

Outubro 25, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no https://ionline.sapo.pt/ de 3 de outubro de 2017.

É tempo de acabar com os preconceitos homofóbicos. A orientação do desejo sexual não é uma escolha, é uma característica determinada geneticamente.

Seria bom que, daqui a uns anos, só as crianças tivessem de fazer esta pergunta. Todavia, muitos adultos ainda andam confundidos quanto ao que é a homossexualidade, conotando-a com pedofilia, perversão, manias ou mesmo doença. Ou rindo-se, com ar superior, de quem acha que ser “hétero” (straight, que significa “direito”, como os anglo-saxónicos designam, o que só por si diz tudo) é ser superior a ser “homo”.

Primeiro que tudo, convém definir claramente o que a palavra significa: homossexualidade é a atração sexual, emocional e afetiva de pessoas de um género por pessoas do mesmo género, como parte de um continuum da expressão sexual, ou seja, a orientação do desejo sexual faz-se na direção de uma pessoa do mesmo sexo.

A orientação sexual, apesar de genética, estabelece-se (ou consolida-se) no final da adolescência, e muitos dos homens e mulheres homossexuais tiveram as suas primeiras experiências nesta idade, embora ter este tipo de relações neste grupo etário não tenha, só por si, qualquer valor preditivo (muitos heterossexuais têm experiências “homo” por uma questão das chamadas condutas de experimentação ou de ensaio).

Embora alguns relatórios tenham indicado estimativas em adultos de cerca de 4% para os homens e 2% para as mulheres, desconhece-se a taxa na adolescência e estes dados variam de região para região e de comunidade para comunidade, dependendo muito do grau de aceitação social e política que condiciona a resposta..

Sempre existiu homossexualidade na sociedade, só que, por razões que a antropologia facilmente explica, associadas ao desígnio de contribuir a todo o custo para a continuação da espécie, esta forma de orientação sexual foi quase sempre reprimida ou, pelo menos, olhada de esguelha. Para tal veio a contribuir, de forma decisiva, a posição das religiões e as condenações e culpabilizações inerentes a quem cometia esse “pecado”. Em muitos países, ser homossexual é correr o risco de pena de morte ou prisão, ou pelo menos ser-se ostracizado na sociedade.

Com o evoluir das sociedades, quando, hoje em dia, o facto de não ter filhos não lança ninguém no opróbrio, quando as liberdades, direitos e garantias individuais são promovidas, e não apenas as da comunidade como um todo, a questão da homossexualidade, tal como muitas outras, tornou-se objeto de debate e de discussão.

Se, por um lado, ainda se observam frequentemente atitudes segregacionistas e de exclusão (algumas vezes de autoexclusão), é crescente a normalidade com que, felizmente, o assunto é encarado. Não se trata de dizer, de modo paternalista, que o que cada um faz é da sua conta, mas de muito mais: o de entender que a sociedade é composta por indivíduos diferentes na cor, no tamanho, nas capacidades e também nas orientações sexuais.

Há 20 anos, a homossexualidade era definida como uma “doença mental” por academias de psiquiatria tidas como cientificamente irrepreensíveis – afinal, demonstraram que não o eram e atualmente ainda se assiste a classificações deste tipo nas mais variadas situações.

Não se escolhe ser homo, hétero ou bissexual. É-se, apenas e tão-só, e embora permaneçam desconhecidos os determinantes dessa orientação, sabe-se que são genéticos. O que entra no capítulo das opções é a forma de comportamento e os estilos de vida que as pessoas, homossexuais ou não, adotam, designadamente o tipo de experimentação sexual, mas isso é do foro íntimo de cada um desde que não colida com os direitos dos outros – e tanto se aplica aos homo como aos hétero ou bissexuais.

Por razões várias, para muitos pais é um choque ter um filho homossexual. Não temos espaço para aprofundar as razões que os assistem, mas o que importa referir é que os pais, ao saberem da homossexualidade dos filhos, devem em primeiro lugar dar todo o apoio – são os filhos, não são ET’s que apareceram de um momento para o outro – e ser empáticos com o eventual sofrimento que o filho possa estar a ter.

Quando os pais sentem que o filho tem elevadas probabilidades de não ter filhos porque não consegue estabelecer uma relação conjugal com uma pessoa do sexo oposto – pesem as alternativas todas que a realidade portuguesa agora permite – sentem que o seu próprio futuro está ameaçado, em termos conceptuais, e que todo o projeto imaginado desde a infância cai por terra… o que não é verdade, mas está na cabeça das pessoas… para lá do estigma social, da falta de hábito de receber em casa “o genro, casado com o meu filho” ou “a nora, casada com a minha filha”. Acresce que a desinformação sobre o que é a homossexualidade e a constatação bem real de que um jovem homossexual terá a vida social dificultada, apesar de todas as evoluções sociais, ainda assustam mais os pais e aumentam o “sentimento de desilusão”.

Estas angústias têm de ser compreendidas e os pais, ao saberem da homossexualidade dos filhos, devem, em primeiro lugar, dar todo o apoio – são os filhos! – e ser empáticos. Por outro lado, não devem esconder e remeter o filho para a clandestinidade, mas ajudá-lo e ajudar-se, assumindo o facto como normal e não fazendo tabu do assunto – assim, o diz-que-diz acaba e o filho tem mais hipóteses de se sentir bem e de ter um percurso de vida social normal. Finalmente, devem apoiar-se um no outro, não considerar que os outros filhos é que são bons, tentar esclarecer estes e pedir ajuda – a um médico, a um psicólogo -, se necessário, para ultrapassarem sentimentos, libertar angústias e obter esclarecimentos e informação importante.

Se, pelo contrário, os pais optarem por uma atitude “cavernícola”, quase irradiando o filho, estarão a maltratá-lo, a maltratar-se a si próprios e a agir de uma forma porventura emocional, mas muito pouco racional, inteligente, justificada e eficiente. Os nossos filhos serão sempre os nossos filhos.

É tempo de acabar com os preconceitos homofóbicos. A orientação do desejo sexual não é uma escolha, é uma característica determinada geneticamente. Todas as pessoas devem poder expressar os seus afetos, desde que dentro do que é considerado pela lei como aceitável, e homens amarem homens ou mulheres amarem mulheres é normal. O amor é sempre belo quando é genuíno e é amor. Afinal, o que interessa saber quem dorme com quem? Excluindo casos abusivos ou forçados, a cama de cada um (e quem por lá passa) só a cada um (e a quem lá passa) pertence…

Pediatra

Escreve à terça-feira 

 

 

 

Mário Cordeiro: “O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar”

Setembro 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://visao.sapo.pt/ a Mário cordeiro no dia 19 de dezembro de 2016.

Teresa Campos

Entrevista publicada na VISÃO 1240 de 8 de dezembro

“Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo ‘lado negro da força’, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior”, diz o pediatra, em entrevista à VISÃO

Sentado num cadeirão do seu consultório, em Lisboa, o conhecido médico segura, orgulhoso, o seu mais recente livro: “Os nossos adolescentes e a droga”. É o 35º, contabilizando os que partilhou a autoria, em mais de 30 anos de dedicação às crianças e à promoção da saúde uma produção num ritmo alucinante, associada aos cinco filhos e à atividade médica. Aos 61 anos, não é a primeira vez que Mário Cordeiro escreve a pensar na segunda década de vida dos mais novos, a fase em que se desenvolvem as melhores ferramentas para enfrentar o futuro com mais segurança e resiliência. Desta vez, quis fazer uma espécie de manual para pais, com contexto, glossário e experiências contadas na primeira pessoa para esclarecer dúvidas que possam surgir sobre as diversas drogas, álcool incluído.

O objetivo, sempre, é informar. Porque mais vale prevenir do que tratar.

Já tinha escrito sobre adolescentes. O que o fez voltar ao tema?

Achei que valia a pena revisitar este tema porque deixou de se falar nele. Mas [o problema] existe. Há uns anos, verifiquei que o consumo comparado entre alunos da escola privada e da pública eram similares, o que contraria a ideia de que uns estão mais protegidos de determinadas experiências. O que faz sentido, se pensarmos bem nisso: um dealer vai investir mais junto de um público que tem mais dinheiro, certo?

A dada altura, lê-se: “Educar não é difícil, é ter momentos terríveis.” É isso que os pais de adolescentes devem esperar?

Os adolescentes trazem muitas alegrias e muitas dores de cabeça, no sentido de termos muitas dúvidas. Mas isso acontece a nós e a eles, porque o processo tem dois lados. O mais comum é, a partir de um sentimento de frustração, haver birras e não saber geri-las. E isso, claro, também acontece na adolescência. Um filho dá–nos recompensas extraordinárias, mas também imensas dores de cabeça. Além disso, idealizamos sempre os nossos filhos, e às vezes esquecemos que eles têm de fazer o percurso de vida deles.

Eles não são nossos. Podemos ser uma espécie de polícias-sinaleiros a indicar o melhor caminho, mas o automobilista é que decide se vai por ali ou não. E às vezes os filhos desiludem-nos, fazem escolhas que não faríamos e nem sempre é fácil lidar com isso. Tantas vezes oiço de alguns pais: “Mas nós demos a melhor educação, o máximo de carinho…”, quando descobrem que o filho anda a mentir ou a consumir tabaco e álcool e tem só 13 anos. Ao que respondo sempre que isso não é um passaporte para tudo. Há diferenças tremendas até entre irmãos. O melhor é dar o exemplo do que é o respeito, a ética e a disciplina, em vez de andarmos a dar sermões.

Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo “lado negro da força”, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior do que se não tiver azimutes nenhuns.

Isso leva-nos à ideia da criança-rei que se torna o adolescente tirano. As questões que se levantam na adolescência têm sempre a génese na infância?

O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar. É uma fase que a criança começa aos 15 meses, quando já tem uma imensa autonomia e percebe que os outros podem ser manipulados, e passa a agir de acordo com a ideia do “quero tudo já”. Só com limites é que vai perceber que terá de trabalhar para conseguir o que quer. Há depois uma terceira fase, quando percebem que não são deuses e passam à condição humana, em que agradecem não ter tudo, para assim apreciarem melhor a conquista. A liberdade, a verdadeira liberdade, reside na escolha, em ter de escolher.

É por isso que a superproteção leva a excessos?

Claro, porque não se permitem as escolhas. Cada um precisa de saber os seus limites. Muito importante também é estar informado, porque isso pode ajudar a escolha. Reparamos hoje que há overdose de informação mas, ao mesmo tempo, falta de conhecimento. Outro problema deste viver muito fugaz é a falta de sabedoria. Porque a sabedoria exige tempo, reflexão, e esse processo é muito lento, não pode ser tudo no calor do momento. Se queremos tudo já, saber tudo já, isso muitas vezes armadilha-nos.

É isso que acontece com a superproteção: os pais tem a informação mas não têm sabedoria?

Sim. Querem respostas rápidas. Sou o maior fã da tecnologia, mas a forma como a usamos tem de ser adequada. É preciso ainda ouvir outros, porque nem sempre o que nos chega é o todo.

Ouvir relatos e experiências muitas vezes ultrapassa a pura informação. Quantas vezes em manuais se escreve “faça-se assim”, mas depois a experiência diz-nos algo mais. Veja-se os livros de dietas e afins a prometerem “seja feliz em três dias”. Dá-me vontade de rir, porque os próprios títulos matam logo o prazo.

E isso cria ansiedade, claro.

É aquilo a que chamo a “urgentificação de tudo”, e vê-se nas idas às urgências, para resolver qualquer problema. Recebo imensas mensagens e percebo que os pais estejam preocupados, mas em muitos casos é preciso saber esperar.

Hoje, sentimos que, seja o que for que queiramos saber, basta fazer clique.

Temos de aprender a abrandar. Este “quero tudo já” pode estragar tudo e não nos deixa apreciar momentos bons.

É o que, depois, na adolescência leva a uma insatisfação imensa…

É. A geração de jovens de que falo no livro nasceu e cresceu com esta ânsia de comunicação e de estar presente, que muitas vezes funde os fusíveis às pessoas, porque faz com que deixemos de saber conviver com a solidão, e isso é indispensável. A realidade ser tão voraz leva a doenças físicas, ao ataque à nossa imunidade, ao aumento do cancro, tudo também muito relacionado com o nosso modo de vida. Tornámo-nos escravos do telefone e deste modo de estarmos sempre contactáveis. Se não tivermos cuidado, deixamo-nos massacrar, e isso vai levar à falta de espaços privados, nossos. Esta invasão constante do telefone, durante as refeições e em qualquer conversa, é o exemplo maior da má educação. É uma fuga ao momento presente. É também isso que leva ao consumo de droga, que começa por não se saber encarar a realidade, não saber apreciar o que há de bom, subvalorizar o que não corre tão bem. Perante uma realidade que se acha horrível, e sem armas para dar a volta, o nosso desejo é de nos eclipsarmos. Se tivermos ao alcance uma substância, seja droga ou álcool, que nos permite fazê-lo, isso é muito tentador.

Quando é suposto falarmos com os nossos filhos sobre droga?

Não pode ser como antigamente, em que os pais sentavam os filhos e lhes diziam que precisavam de ter uma conversa. Não pode ser assim porque não surte efeito é por isso que sou contra a disciplina de Educação Sexual, porque é ridículo que se trate do assunto à terça-feira, das 11 à uma. Pode aproveitar-se um texto de Língua Portuguesa, ou a estatística, na Matemática, para falar de demografia, ou em Ciências, para falar da nossa biologia, ou em História, que é em si um repositório imenso de casos para todos os gostos. O mesmo se aplica às drogas: pode-se falar em vários momentos. Os pais têm de saber comunicar os filhos e têm de estar informados e não podem ficar-se pelo “Ele, ou ela, não fala comigo”. Tem é de ser numa linguagem que não seja desconfortável para nenhum dos dois, e tem de ser crível.

Podíamos resumir tudo a duas ideias: “Não vale a pena dizer que a droga mata” e “se experimentares é natural que gostes, mas deixa-me falar do resto.” É isso?

Não vale a pena dizer que mata porque, em si, é uma mentira, ou só é verdade a longo prazo. É como os maços de tabaco trazerem inscrito que fumar mata. A frase que mais gosto, mesmo, é “Os fumadores morrem prematuramente”, quando o que devia dizer é “Os fumadores têm maior probabilidade de morrerem prematuramente”. Aí já não há quem possa argumentar com o tio-avô que fumou cinco maços por dia e viveu até aos cem anos. Já é mesmo preciso pensar se quero aumentar a probabilidade de morrer mais cedo. É o mesmo com a droga. Por isso elenquei no livro os efeitos de cada uma e incluí depoimentos que não procuram julgar pessoas quem sou eu para julgar as pessoas? Às vezes, quem caiu naquele buraco pode ser só alguém que não encontrou na sua rede o suporte para dar a volta aos problemas e encontrar a felicidade em outro lado.

É também a forma de lhes dizer que há um dia seguinte, porque, como vivemos na tal voracidade, falamos demasiadas vezes apenas do hoje. Temos de lhes dizer que o que construímos, no amanhã, depende do que acontecer hoje. É essa pedagogia que muitas vezes falta. Quando falo com os meus filhos para cultivarem a excelência, não é pelas notas em si, mas porque ficam mais bem posicionados para, no futuro, poderem escolher à vontade o que querem.

Fala no desporto, no voluntariado, na cultura. Isso também lhes dá ferramentas para lidar com as adversidades?

Dá-lhes uma experiência de vida muito mais variada. Estas atividades, feitas com gozo, libertam endorfinas, que são as nossas morfinas. Pensar que temos essa possibilidade de nos “drogarmos” sem droga, e que a esquecemos… Quem faz desporto, ou se dedica às artes, ou outras atividades, tem uma probabilidade muito menor de cair nas drogas. E isso faz uma diferença abissal.

Que sinais de risco é que a família deve saber reconhecer para pedir ajuda?

É preciso dizer que não é por se encontrar papel de prata no quarto de um filho que se vai concluir que ele anda a queimar heroína. Se calhar, andou apenas a comer uma tablete de chocolate. Temos de ter noção de que os nossos filhos adolescentes precisam do seu espaço e de refletirem sobre a sua vida. Às vezes há pais que falam com uma ansiedade… “Ele/ela vai entrar na adolescência, não é?!”. Costumo dizer que eles não caíram na chaminé, atirados pelo Pai Natal, na véspera. Foram educados por aqueles pais, eles conhecem-nos.

Se fizeram um bom trabalho, podem aceitar esta fase com um mínimo de segurança. Há que acreditar nos filhos, permitir que tenham a sua identidade, e que não pensem exatamente como os pais pensam. Agora, quando o isolamento é exagerado, quando há uma vida seca, amarga, desistente das atividades que são boas, quando as notas caem sem razão aparente (às vezes podem só estar apaixonadíssimos!), aí os pais devem pedir ajuda. E aqui ressalvo: o álcool, e o seu consumo excessivo e prematuro, também é uma droga.

Os consumos dos adultos podem passar mensagens erradas?

Beber um copo por dia, à refeição, não é ter um comportamento de risco.

O problema é o consumo fora de horas, em excesso, e sobretudo para esconder alguma coisa. Uma coisa é beber um copo para acompanhar a refeição, outra é, sozinho, engolir uma garrafa inteira. Falar das coisas com verdade não é torná-las banal. Um pai uma vez disse-me que sentia que não tinha autoridade para falar com os filhos sobre os malefícios do tabaco porque ele também fumava.

Disse-lhe logo que não estava nada de acordo: se a verdade científica é que não faz bem à saúde, se acha que o seu filho não devia fumar, diga-lhe. Diga-lhe até porque começou, mostre-lhe até algumas das suas fraquezas. Queira ou não deixar de fumar, pode na mesma achar que aquilo é errado para o filho e que, se ele o fizer, pode dar cabo da sua saúde. Um pai tem tanta liberdade de escolher como um filho e aí está a dar-lhe armas para escolher. Isso é perfeitamente legítimo.

E isso também se aplica em relação à droga?

Um dos casos que relata no livro é de uma mulher de 50 anos que conta os seus consumos.

Sim, sem dúvida. A essa mulher, as anfetaminas não só lhe permitiam estudar horas a fio, sem dormir, como ainda a faziam emagrecer. Não é por acaso que tinham nomes como Libriu ou Valium, que fazem lembrar liberdade ou valor… Parece que sempre andámos à procura da felicidade sem esforço, não é? Mas digo também que este esforço e trabalho, que é necessário, não devem ser vistos como um calvário, como nos diz a nossa tradição galaico-cristã. Isto não é a via sacra. Trata-se de aprender a gerir a nossa liberdade de escolha. Falamos também muito de litigância (“porque tu não fizeste, não ligaste…”) mas dizemos pouco “gosto de ti”. Precisamos de fazê–lo com urgência, e sobretudo com os nossos filhos, que não são estranhos. Às vezes, o que se passa é que o filho gosta tanto dos pais que, para se diferenciar, arranja um pretexto qualquer para entrar em conflito. Os pais não podem ceder a essa pressão.

 

 

 

“A Verdade e a Mentira das Vacinas”, o livro que Mário Cordeiro gostaria de não ter escrito

Setembro 25, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 7 de setembro de 2017.

Diz que devia ser óbvio que as vacinas só fazem bem mas que o surto de sarampo que este ano custou a vida a uma adolescente mostrou que ainda há dúvidas. Em livro, Mário Cordeiro responde a todas.

Da descoberta de Edward Jenner no século XVIII à moda atual da não vacinação, passando pela ligação ao autismo e pelos casos raros das vacinas que, ao contrário de outras, “não são para tomar” — Mário Cordeiro explica em A Verdade e a Mentira das Vacinas (edições Desassossego, do grupo Saída de Emergência) tudo aquilo que é preciso saber (ou esquecer) sobre a questão que em abril voltou à ordem do dia em Portugal.

Meses depois do surto de sarampo que custou a vida a uma adolescente de 17 anos e levou ao internamento de dezenas de outras pessoas, o pediatra, defensor da não obrigatoriedade da vacinação, escreve o livro que, assume no prefácio, gostaria que já não fosse necessário escrever e ao longo de 244 páginas, desfaz mitos, teorias da conspiração, fake news e ideias erradas.

No final, parafraseia o médico Arnaldo Sampaio (pai do antigo presidente da República) e admite que existem três hipóteses à disposição dos pais, que é a quem compete tomar uma decisão sobre o assunto: “Vacinar, vacinar e vacinar!”.

O Observador faz a pré-publicação do capítulo 4: “Doze mitos perigosos, que é preciso desfazer, sobre as vacinas”.

1. As melhorias das condições de higiene e sanitárias fizeram desaparecer as doenças e, portanto, não há necessidade nenhuma em vacinar, mas sim investir em infraestruturas…

FALSO! Enganosamente falso.

As doenças evitáveis pela vacinação foram controladas ou desapareceram exatamente porque se vacinou em massa. Claro que ter boas condições sanitárias (água potável, saneamento básico, rede de refrigeração de alimentos, controlo da cadeia alimentar, etc.) é indispensável para prevenir muitas doenças infeciosas, designadamente as relacionadas com a qualidade da água, moscas e outros insetos, etc. No entanto, mesmo nos países mais desenvolvidos, como a Alemanha ou França, por exemplo, nas regiões onde há grande resistência à vacinação continua a haver estas doenças, apesar dos excelentes padrões de vida. Assim, se a melhoria sanitária geral de um qualquer país é uma prioridade e permite controlar muitas doenças infeciosas, não evita, todavia, a circulação dos microrganismos causadores das doenças evitáveis pela vacinação. Só a vacinação, da população toda ou, pelo menos, de 95% dela, consegue evitar a ocorrência destas doenças, levando ao seu controlo ou mesmo eliminação, como foi o caso da varíola.

Há infeções que se podem prevenir com medidas tão simples como lavar bem as mãos ou usar máscara se se está constipado e a espirrar, ou não tossir para cima dos outros, mas para as doenças evitáveis pela vacinação, como o nome indica, o que as controla e evita é… a vacinação. É por isso que não se podem abrir brechas ou esmorecer — se isso acontecer, as doenças voltarão.

Por outro lado, em países com condições sanitárias terríveis, foi possível erradicar, por exemplo, a varíola ou controlar totalmente a poliomielite… mesmo sem água corrente e com esgotos a céu aberto — isto graças apenas às vacinas.

2. As vacinas têm imensos efeitos secundários e até alguns a longo prazo que não se conhecem. Há pessoas que dizem que sem vacinas não teríamos cancros. E podem causar a morte!

FALSO! Rotundamente falso!

As vacinas são extraordinariamente seguras. Comparadas com os medicamentos em geral, são ainda mais seguras! Todos os estudos e dados estatísticos o comprovam. Quantas vezes será preciso repetir isto?

Obviamente que podem causar reações, mas são leves e temporárias, como dor no local da injeção ou febre ligeira. Aliás, há um enorme controlo das reações secundárias moderadas ou graves, de modo a suspender de imediato o lote que possa eventualmente estar envolvido… mas não é isso que acontece com tudo o que utilizamos?

Não são, volta não volta, recolhidos brinquedos, mobiliário ou algumas séries de modelos de automóveis? Não acontece comprarmos um quilo de belas laranjas ou maçãs e, por dentro, uma ou outra estarem estragadas? Só que, neste caso, a hipotética laranja estragada é uma entre milhões e milhões de laranjas. As vacinas são inofensivas. O risco de uma criança ter uma reação adversa a uma vacina é muito, mas mesmo muito, inferior ao risco de uma complicação grave da doença que essa vacina previne. Além disso, não é possível saber, antecipadamente, quais as crianças em que a doença poderá ser grave ou matar. O que faz adoecer e mata são as doenças. A maioria das pessoas, no mundo ocidental, dado que as doenças evitáveis pela vacinação quase desapareceram, já não se lembram do que é uma meningite, uma pneumonia, surdez ou encefalite do sarampo, asfixia pela difteria, insuficiência respiratória por tosse convulsa, paralisia infantil pela poliomielite ou o que é morrer por varíola ou tuberculose.

Aliás, ao longo da história do Programa Nacional de Vacinação português, houve a preocupação de introduzir vacinas que tivessem cada vez menos efeitos secundários, como aconteceu, por exemplo, com a vacina contra a tosse convulsa.

As vacinas, tal como qualquer medicamento, são alvo de um sistema de vigilância apertado, garantindo que qualquer reação anormal seja exaustivamente investigada, o que, com tantos anos de experiência e muitos milhões — sim, centenas de milhões! — de vacinas administradas em todo o mundo, permite afirmar que as vacinas têm um elevado grau de segurança, eficácia e qualidade. O sistema está tão bem gizado que a notificação oficial de reações adversas às vacinas pelos profissionais de saúde é obrigatória. As vacinas atualmente são muito seguras e eficazes. É preciso escrever outra vez?

3. As vacinas podem causar a síndroma da morte súbita do lactente…

FALSO! Comprovadamente falso!

A síndroma da morte súbita do lactente nada tem a ver com vacinas, embora, quando se começou a estudar a síndroma, a hipótese de associação tivesse academicamente de ser colocada, mas como o foi relativamente a tudo o que se passava na vida dos bebés dessa idade… todavia, rapidamente se constatou que não era o caso e que não havia qualquer relação entre uma coisa e outra.

O facto de este tipo de morte súbita surgir nos primeiros meses de vida, quando um bebé «leva» muitas vacinas, fez surgir a ideia de que estas seriam as responsáveis… mas é errado, e afirmar isso é tão tonto como dizer que o aleitamento materno causa a morte súbita!

Além disso, quando há mais de 25 anos se decidiu que as crianças deveriam dormir de barriga para cima, a síndroma da morte súbita diminuiu para um quarto… e «por acaso» a percentagem de vacinação até aumentou. Então, se fosse verdade, agora deveriam morrer muito mais bebés com morte súbita…

4. Certo… as vacinas são uma coisa boa, mas estar a gastar dinheiro e tempo com doenças que já não existem é um bocado idiota, não é? Com tanta coisa que há a fazer…

FALSO! Demagogicamente falso!

Como já foi referido — mas nunca é de mais sublinhar —, as doenças evitáveis pela vacinação que foram sendo sucessivamente controladas diminuíram e até desapareceram de alguns países. Todavia, salvo a varíola que, essa sim, foi erradicada do mundo e já dispensa a vacinação no planeta, todas as outras doenças que podem ter pouca ou nenhuma expressão no nosso país ainda existem em muitos outros.

Veja-se o sarampo. Existe endemicamente em Angola e há surtos em Espanha, Alemanha, França, Itália e muitos outros países. Como não se vive num mundo de fronteiras fechadas, se chegar a Portugal um cidadão de outro país com sarampo e encontrar uma população vacinada, nada se passa — foram apenas casos «importados» que não significam um título de jornal a dizer: «Sarampo em Portugal».

Infelizmente, em 2017, como a taxa de vacinação tem vindo a diminuir desde há uns anos, já surgiu um surto «português» com pelo menos uma morte, e já foi, infelizmente, «abertura de telejornal».

Por outro lado, se os portugueses não estiverem vacinados, arriscam-se a apanhar a doença — sarampo ou outra — quando, por exemplo, viajarem para outro país.

curioso como, em tempos de globalização, haja pessoas a pensar em termos de «Condado Portucalense» (e mesmo nesses tempos, eram milhares os cidadãos de outras paragens que cá vinham ter, por terra e mar). As doenças atualmente evitáveis pela vacinação ainda ocorrem em diversas partes do mundo, incluindo a Europa.

Há, assim, dois motivos principais para vacinar: a proteção individual, porque, apesar de algumas destas doenças serem raras em Portugal, qualquer pessoa não protegida pode contraí-la ou, se se deslocar a um local onde a doença é endémica, terá fortes probabilidades de a «apanhar» — e, no regresso, trazer a doença para a comunidade; mas também porque vacinar dá uma proteção à comunidade, a chamada «imunidade de grupo». Nos países e regiões com elevadas coberturas vacinais, a comunidade toda acaba por estar protegida, porque os microrganismos como que encontram uma «barreira» que não os deixa «explodir» e atingir, por exemplo, seja aqueles que ainda não têm idade para se vacinar, seja os que, por qualquer razão clínica ou até social, não o podem fazer.

Numa altura em que se fala de prevenção, evitar doenças e sentimentos solidários e comunitários, custa a entender como um gesto que pode proteger o próprio e os outros é, por vezes, desdenhado.

5. A administração simultânea de várias vacinas pode aumentar o risco de efeitos secundários e sobrecarregar o sistema imunitário, abrindo portas a outras doenças.

FALSO! Cientificamente falso!

Todos os estudos científicos mostram que a administração simultânea de vacinas não causa qualquer problema, dado que a imunidade que cada uma estimula é independente. Aliás, todos os dias a imunidade dos bebés e crianças é estimulada por inúmeros vírus e bactérias com as quais eles contactam, designadamente quando os pais lhes dão beijinhos!

O simples ato de ingerir um alimento provoca respostas imunitárias muito maiores do que uma vacina — aliás, a maioria das bactérias vivem na boca e no nariz das pessoas e não na seringa da vacina, onde não há nenhuma!

Para lá disso, há que ver os aspetos práticos de não ter de ir ao centro de vacinação tantas vezes, de lhe serem administradas menos injeções, e também de se poder elaborar um calendário/programa vacinal que deixa a criança defendida numa idade precoce; caso contrário, se fosse uma a uma, quando se tivesse vacinado totalmente, a criança já teria apanhado a doença!

Um dos objetivos do PNV é a proteção precoce… esperar por tempos mais tardios seria a inutilidade total… e a morte de muitas crianças.

A administração simultânea de várias vacinas, repito, não aumenta as reações secundárias. Como referi, no dia a dia a criança está exposta a inúmeros estímulos infeciosos, estando o sistema imunitário preparado para lidar com todos eles e sendo até muito benéfico… os pais queixam-se do «infectário», porque muitas crianças, no infantário, «estão sempre doentes», mas rapidamente descobrem que, pelos 3-4 anos de idade, a criança deixa de ter infeções e fica «sã como um pero».

Acresce que a tecnologia permitiu o aumento do número de componentes das chamadas vacinas combinadas, ou seja, a proteção contra várias doenças com uma única injeção, diminuindo o número de injeções que a criança teria de receber e a melhor adesão aos esquemas vacinais, principalmente no primeiro ano de vida.

6. Veja o exemplo da gripe. Ter gripe é uma coisa normal e, além disso, a vacina é fraca e até muita gente que é vacinada tem gripe por causa da vacina.

FALSO! Ridiculamente falso!

Em primeiro lugar, a gripe pode ser grave. Muito grave. As consequências da gripe, para lá do incómodo e da baixa do estado geral da pessoa, podem ser pneumonias mortais, sobretudo em idosos e em pessoas com a imunidade diminuída, como nas que estão a ser tratadas para cancros. Uma gripe na grávida pode levar a um aborto espontâneo ou a um parto prematuro, e uma gripe num recém-nascido é muito grave.

A maioria das vacinas da gripe produz imunidade para as três estirpes de vírus desse ano (e elas mudam de ano para ano, daí a vacina de um ano ser diferente da do ano anterior, embora haja estirpes que vão e vêm, como a gripe A).

Uma pessoa vacinada para a gripe não tem gripe. Mas, atenção (e é este o motivo da confusão): chamamos «gripe» a qualquer constipação ou situação viral em que há febre, mal-estar, dores musculares… mas pode ser outro vírus ou apenas aquilo a que os anglo-saxónicos chamam, com muita propriedade, uma «common cold» — um resfriado. Para esses vírus, a vacina da gripe não serve… mas esses vírus não provocam, felizmente, doenças tão graves como a que a gripe pode provocar.

7. Se ter as doenças faz com que a pessoa fique defendida para a vida toda, então é melhor ter a doença do que vacinar com vírus atenuados e coisas do género, não?

FALSO! Perigosamente falso!

A «pequena» grande diferença é que, enquanto a doença causa imunidade, de facto, mas pode levar a consequências desastrosas e à morte, para lá dos dias em que se está doente (ou até reativações a prazo, como a zona, que é consequência da varicela), a vacina desenvolve a mesma imunidade, mas sem essa parte indesejável. Assim sendo, não se percebe este mito.

Acresce que, ao argumento de que as vacinas são caras — e algumas são-no, efetivamente —, as doenças também custam muito dinheiro ao Estado e às famílias, através dos medicamentos, internamentos, anos de vida perdidos, e custos como os do absentismo escolar e laboral, para lá, evidentemente, do sofrimento ou da morte, que não têm preço.

A vacinação é segura, porque é controlada, estudada, «feita à medida»do que o sistema imunitário pede e não, como a doença, com um caráter aleatório e, por vezes, brutal.

8. As vacinas têm mercúrio… pois se ele até está a ser retirado dos termómetros porque é um metal pesado e polui os oceanos…

FALSO! Exageradamente falso!

O tiomersal, que algumas vacinas têm como conservante do princípio ativo, principalmente nas vacinas que são dadas em múltiplas doses, não está presente em quantidades que ponham em risco a saúde humana.

A dose que uma criança recebe durante a vacinação é igual à que recebe durante os 4-6 meses de aleitamento materno, e essa dose é 250 vezes inferior a uma dose que pudesse causar problemas. 250 vezes!

Muitos leitores leem as bulas ou recorrem à Internet e ficam assustados com o que leem. É normal, porque, não sendo profissionais de saúde, e ao mesmo tempo sabendo nós que os espaços cibernéticos estão carregados de fake news, ficam assustados.

Se ficam assustados, é porque querem o melhor para os filhos. Então, leitor, acredite, não apenas na minha palavra, mas em todas as autoridades nacionais e mundiais de Saúde. Acha, sinceramente, que, como cantava o Rui Veloso, «o mundo todo se uniu para o tramar»? Porquê dar ouvidos a vendedores da banha da cobra e não acreditar, por uma vez, nos cientistas?

As vacinas salvam mais vidas do que qualquer outro tratamento médico — incrível, não é? Já temos décadas de utilização generalizada mundial para poder afirmar isto com «letras garrafais», através dos resultados e da inacreditável diminuição das mortes, internamentos e doença, não tendo, em contrapartida, efeitos indesejáveis de relevo. Ainda acredito, leitor, que surja o dia em que uma das maiores descobertas e avanços da Humanidade não seja olhada de esguelha… eu, por mim, agradeço às vacinas a hipótese de eu e os meus filhos e netos não termos morrido por uma doença evitável pela vacinação.

9. Apanhar muitas vacinas no mesmo dia faz mal…

FALSO! Embora se entenda, porque «pai é pai e mãe é mãe»!

Obviamente que custa pensar que o nosso bebé vai levar tantas «picas», mas, garanto-lhe, leitor ou leitora, não há qualquer risco acrescido de reações secundárias quando se administram simultaneamente as vacinas recomendadas para determinada idade — e até podem ser bastantes.

Atrasá-las é que é perigoso e deixa-se o bebé vulnerável a essa doenças. O ideal é cumprir o esquema recomendado, que está estudado para dar a melhor proteção, o mais cedo possível e de acordo com a idade da criança.

Aliás, alguma vez a DGS e os serviços de saúde iriam colocar em risco a saúde do bebé? Nos primeiros anos de vida, o que custa a um bebé é saber que vai ao centro de saúde, não o número de «picas» — se for «às pinguinhas», acaba por ser mais traumático, já sem falar dos dias perdidos, do contacto com pessoas eventualmente doentes, da maçada…

Portanto, leitor ou leitora, não se sinta um «monstro» por «sujeitar» o seu bebé a este «suplício» — pense quão bom pai ou mãe é, em dar-lhe o que há de melhor e como está a prevenir doenças que o poderiam afetar muito, inclusivamente matar… mesmo que, obviamente, como mãe ou pai, lhe custe ver o seu bebé a «apanhar» tantas «picas».

9. As vacinas causam autismo. Toda a gente sabe, e até tenho um sobrinho que…

FALSO! Mentirosamente falso!

O estudo de 1998 que suscitou inquietação acerca de uma possível relação entre a vacina antissarampo, parotidite e rubéola (VASPR) e o autismo era uma fraude. Sim, uma fraude. O autor foi obrigado a retratar-se, dado ter cometido enormes irregularidades metodológicas, para lá da reduzidíssima amostra, e obrigado a deixar de exercer medicina.

Também nos Estados Unidos, um médico que era um dos principais detratores das vacinas, Jeff Bradstreet, pai de uma criança autista, lançou essa ideia e acabou por se suicidar em 2015, ao que se crê devido a um eventual remorso pelas suas atitudes. Outro caso foi o de Andrew Wakefield, um médico que forjou os resultados de um pretenso estudo em que relacionava a VASPR com o autismo; o estudo foi publicado na prestigiada revista Lancet e causou mossa, mesmo depois de um jornalista, Brian Deer, ter investigado o caso e descobrir que tudo era mentira e o médico acabar por ser irradiado da Ordem e deixar de exercer; a revista publicou um pedido de desculpas, cerca de dois anos depois.

O mal estava feito. Nos EUA, o conhecido ator Robert de Niro, pai de uma criança autista, deu voz a essa relação entre as vacinas e a doença, porventura para tentar ter uma explicação para o infortúnio do filho, mas com isso conseguiu que milhares de crianças não fossem vacinadas e muitas tivessem morrido. É compreensível que alguns pais tentem arranjar uma explicação para fenómenos que não são explicáveis, ou para os quais a ciência ainda não descobriu uma razão. Na falta de uma explicação, e para não nos culparmos a nós próprios, aos nossos genes, a culpa «judaico-cristã» leva a que se arranje um bode expiatório. As vacinas, por serem tão «vagas», desempenham um bom papel…

As vacinas são seguras e eficazes e todas as crianças e adultos devem cumprir os esquemas de vacinação recomendados para a sua idade e estado de saúde. O autismo, desculpe o leitor o coloquialismo, «não é para aqui chamado!».

11. Como toda a gente se vacina, escuso de vacinar o meu filho… assim, não tenho, nem a doença, nem os eventuais efeitos secundários da vacina…

FALSO! Arriscado, traiçoeiro e… horrendamente egoísta!

Quem pensa assim pensa errado, por várias razões, entre as quais: é de um enorme egoísmo querer que os outros nos protejam e nós não façamos o mesmo, dado que não estaremos a contribuir para a imunidade de grupo. É como não pagar impostos ou outra coisa qualquer de espírito comunitário — uma atitude abjeta do ponto de vista social.

Por outro lado, todas as crianças devem ser vacinadas nas idades recomendadas desde que não tenham uma verdadeira contraindicação (o que será determinado pelo médico-assistente), porque qualquer criança não vacinada ficará suscetível às doenças e suas complicações (que podem ser muito graves e não se consegue prever em quem surgirão) por não ter imunidade natural (uma vez que não teve a doença) ou adquirida (pela vacinação).

A recusa individual da vacinação compromete o interesse coletivo, já que uma criança não vacinada por opção dos pais se adoecer, pode contagiar outras crianças não vacinadas por contraindicação médica comprovada ou por ainda não terem idade para ter iniciado ou completado a vacinação. Mas, mais, quem lhe garante que o seu filho não irá, daqui a uns anos, viajar para países onde as doenças ainda são endémicas — tuberculose, sarampo… — ou entrar em contacto com alguém doente que veio desses países? Não pretende que ele ou ela vivam num bunker, certamente, até porque isso seria impossível com a globalização da vida das pessoas.

Assim, se optar por não vacinar o seu filho, deverá ter bem ciente que está a fazê-lo correr riscos desnecessários quanto à saúde e quanto à vida — já agora, porque é que não o transporta no carro deitado no banco de trás, sem cadeirinha, ou não o expõe ao sol, sem protetor, durante oito horas seguidas num dia de verão? É exatamente o mesmo tipo de atitude!

Caso tome essa opção — o que espero sinceramente que não faça depois de ler este livro —, há alguns cuidados a ter, nomeadamente: se o seu filho adoecer e tiver de recorrer a um serviço de saúde, deve avisar imediatamente os profissionais de saúde que a criança não recebeu todas ou algumas das vacinas recomendadas para a sua idade, uma vez que é necessário, nestes casos, considerar que a criança pode ter uma doença evitável pela vacinação. Se aparecer na escola alguma criança com uma doença evitável pela vacinação, o seu filho terá de cumprir um período de afastamento da escola e de outras atividades de grupo até haver a certeza que não contraiu a doença e não a irá disseminar.

Esse período varia conforme a doença (que pode ser de dias ou semanas). Se o seu filho viajar, é bom ter a noção de que muitas das doenças que estão controladas no nosso país ainda existem «à grande» noutros países, como, por exemplo, o sarampo, pelo que o seu filho não estará protegido. Para além de adoecer, pode trazer de novo a doença para Portugal quando regressar e contagiar outras crianças não vacinadas. Quanto maior for o número de pais que optam por não vacinar os filhos, maior é o risco de disseminação das doenças evitáveis pela vacinação. Ao decidir não vacinar, não põe só o seu filho em risco, mas também toda a comunidade.

Todavia, sei que o leitor ou leitora é inteligente e que, se ainda não vacinou o seu bebé, irá vaciná-lo, quanto mais não seja, porque o ama e quer o melhor para ele.

12. Os ministérios da Saúde estão feitos com as multinacionais, com a alta finança e com os países ricos que exploram os mais pobres… aliás, são as multinacionais que disseminam as doenças, para depois venderem medicamentos e vacinas.

FALSO! Se não fosse tão grave, dava para rir.

É… e nos séculos XIII, XIV, XV e XVI, quando houve epidemias de peste negra, tuberculose, sífilis, ou gripe «espanhola» já em 1918, para só citar algumas, eram seguramente os índios americanos, organizados em multinacionais (apesar de não haver aviões nem Internet) que faziam isso tudo. Depois, com o que ganhavam, compravam amuletos e faziam totens…

Se o ridículo matasse, haveria muita gente que já tinha ido… o pior é que, com base nestes mitos e fake news, propalados pelas redes sociais, muitas pessoas de carne e osso morrem porque acreditam nestes profetas que dizem as maiores mentiras impunemente.

Claro que uma multinacional que fabrica vacinas quer recuperar o investimento de milhões que fez, e ao mesmo tempo, numa sociedade de economia de mercado, quer dar aos investidores e acionistas o maior rendimento possível. Isso acontece tanto com vacinas, como, por exemplo, com sapatos ou lâmpadas.

A questão, aqui, é mais o que os Estados podem e devem fazer, já que se trata de uma questão de saúde pública, em termos de regularizar preços, negociar condições e realizar concursos públicos internacionais em que se podem conseguir custos de cerca de um terço de uma compra simples de «venda ao público». Quanto aos Estados produzirem vacinas, torna-se impossível por se exigir uma tecnologia que não têm e as vacinas passarem a ser incrivelmente mais caras e menos fiáveis.

 

 

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