Alguma vez falou (a sério) sobre drogas com o seu filho?

Julho 7, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site https://lifestyle.sapo.pt/

O tema deve ser abordado em casa, sem tabus, defende o pediatra Mário Cordeiro que, em entrevista à Prevenir, ensina como o podemos fazer para a mensagem sair reforçada.

Pais, é um facto. Facilmente, os adolescentes podem cruzar-se com drogas. Cerca de 25% dos jovens têm contacto com o álcool, tabaco ou substâncias ilícitas, revela o «Relatório Europeu sobre Drogas 2016: Tendências e Evoluções». Os dados indicam que a sociedade e, em particular, os educadores não devem menosprezar o facto de poder haver consumo, mesmo que seja uma experiência fugaz, sublinha Mário Cordeiro, pediatra.

«Temos de abordar o tema com frontalidade, para melhor se aprender e ensinar a lidar com esta questão. Mesmo não se tornando toxicodependentes, os jovens que usam este tipo de substâncias podem vir a ter problemas na gestão da sua vida quotidiana, na escola, no seu círculo de amizades e em família», alerta o especialista.

«Quando a droga passa a ser refúgio, entramos numa dimensão diferente, mais preocupante», sublinha. «As drogas iludem a realidade, dão uma falsa e curta noção de bem-estar e esse imediatismo tem consequências terríveis», afirma também. «Os jovens desconhecem os efeitos das drogas», alerta ainda o pediatra, autor do livro «Os Nossos Adolescentes e a Droga – Realidades, Mitos, Verdades e Estratégias», publicado pela editora A Esfera dos Livros.

O que o levou a escrever este livro?

Tenho acompanhado, sobretudo como representante de uma associação de pais de um agrupamento, casos preocupantes que me levam a pensar que ainda existe muito desconhecimento sobre o assunto. O tema das drogas tem sido muito debatido e têm-se conseguido avanços, nomeadamente no que toca à despenalização das drogas leves, mas a abordagem não tem sido a melhor.

Para se conseguir um discurso eficaz não basta dizer «Não à droga!». É essencial trabalhar a mensagem e, claro, conhecer os destinatários pois os adolescentes estão numa fase da vida que tem características  e preocupações muito vincadas. O problema da toxicodependência na adolescência é importantíssimo para a sociedade.

A minha intenção, com este livro, foi aliar informação geral a esclarecimentos científicos e dar voz a testemunhos, aos factos deste flagelo. Moveu-me a vontade de dar ferramentas aos pais para conseguirem abordar o tema, explicando os tipos de drogas que existem e quais os seus efeitos e malefícios.

O que leva hoje um adolescente a experimentar drogas?

A adolescência é uma fase de novas competências e experiências, onde se desenvolve a autonomia e a identidade. O jovem sente-se pronto para experimentar o menu da vida, evitando o controlo dos pais, sendo a escola (e a pressão dos rituais de grupo) o cenário ideal para aceder a novas perspetivas, nas quais se incluem substâncias como o álcool, o tabaco e as drogas. É aqui que entra um fator decisivo. A informação. Essa é uma ferramenta essencial para fazer a triagem entre o que interessa ou não.

Por norma, em que idades acontece o primeiro contacto?

Por volta dos 13, 14 anos, os jovens sentem-se preparados para tudo, refugiam-se numa hipotética invencibilidade, têm uma curiosidade inata para quase tudo e o álcool, o tabaco e as drogas são temas apelativos.

Que drogas são mais usadas?

A ingestão de álcool ou o consumo de canábis são os vícios mais frequentes e podem causar sérios problemas de fígado, gastrites e lesões cerebrais. O alcoolismo continua a ser a forma de toxicodependência por excelência e existe uma espécie de tolerância errada, face, por exemplo, aos efeitos na saúde provocados pela canábis. A nível comportamental, podem provocar comportamentos agressivos e perda do autocontrolo.

Há um extremo desconhecimento entre os jovens sobre estas substâncias, apesar da facilidade de acesso a tanta informação. No caso do álcool, esse desconhecimento é gritante, para mais tratando-se de uma substância legal. Aos 14, 15, 18 anos, pensa-se que se sabe muito, mas não se viveu o suficiente para tal.

O álcool representa um perigo semelhante a outras substâncias, mas está mascarado pela legalidade. O seu consumo pode servir de isco para o uso de outras substâncias e levar a uma habituação face a essa forma de vencer problemas ou por mera diversão.

Quais são as substâncias mais perigosas?

Sobretudo a cocaína, o crack e o ecstasy, ainda que o álcool, o tabaco e a canábis sejam também muitíssimo perigosas. Convém reforçar que a questão da dependência não tem apenas que ver com a droga mas também com o seu utilizador ou a razão que  o levou a fazer. Se o objetivo é fugir da realidade, a dependência vai ser cada vez maior pois os jovens encaram-na como uma forma de facilitar a vida.

Muitas das substâncias promovem elevados graus de extroversão e levam a descuidos nas relações sexuais, como a rejeição de proteção e, mais tarde, invariavelmente, arrependimento. Outras das consequências graves são a sensação de vazio sentido depois de passado o efeito ou a angústia de não se lembrar do que aconteceu.

Como devem os pais lidar com este tema?

Tornar o assunto um tabu é um erro. Dizer apenas que «É mau porque sim» é uma má abordagem, uma atitude pouco sensata, assim como fazer uso de um discurso moralista ou preconceituoso, associando o estatuto de drogado a perfis marginais (tipo arrumadores ou pessoas sem-abrigo). Devemos, sim, explicar o que é a droga, que ninguém está imune aos seus efeitos, antes de dizer «Filho, não te metas nisto!».

É preciso transmitir aos jovens que ninguém precisa destas substâncias para viver ou para ultrapassar alguma situação menos boa. Eles têm de aprender que a vida tem momentos bons e maus e que é o ensinamento que deles retiramos que nos torna pessoas melhores, mais humanas.

A que sinais, que indicam que os jovens podem estar a consumir drogas, devem os pais estar atentos?

O facto de o jovem parecer estar alheado da vida, isolar-se, tornar-se indiferente em relação a algo por que demonstrava um interesse assinalável, registar alterações do padrão de sono ou desleixo com a aparência são alguns alertas. A rispidez comportamental e a perda do controlo emocional, por vezes associada à violência, são outros sinais.

Como reagir se a hipótese se confirmar?

Deve evitar-se um interrogatório agressivo, ainda que convenha confrontar o jovem com a situação, e, no caso de existirem evidências fortes do consumo, não as ignorar. Enquanto pais, temos a obrigação de interferir, de perceber o que se passa e de zelar pela saúde do jovem.  Num primeiro plano, o assunto deverá ser tratado no âmbito familiar e com recurso a ajuda médica.

Mas sempre deixando explícito o nosso amor pelo jovem e que é esse sentimento que nos leva a preocupar-nos, a tentar ajudar. Deve também evitar-se fazer julgamento da questão e concentrar as atenções na própria ajuda, reforçando que, quer queiram quer não, os pais são os responsáveis pelas suas vidas e a experiência que possuem pode ajudar a resolver situações e prevenir cenários que hoje parecem positivos, mas que vão tornar-se pesadelos.

A escola deve ter algum papel neste processo?

Principalmente a nível da prevenção e informação. Deveria existir um programa mais organizado ainda que seja completamente contra disciplinas específicas sobre drogas, à semelhança da educação sexual. Defendo que, por exemplo, a partir do sétimo ano, se utilize as disciplinas já existentes pois conferem a oportunidade de falar sobre drogas, algo que atinge a sociedade.

Por exemplo, na matemática, por via das estatísticas de exposição e consumo. Em história, explicando os conflitos que surgiram devido ao tráfico. Na geografia, ao elucidar as rotas do tráfico. Em química, por referência às suas fórmulas. Nas ciências, ao indiciar os danos cerebrais provocados…

Como abordar o tema

Siga este guião, inspirado em dados fornecidos por Mário Cordeiro, pediatra:

– A preparação

Antes de ensinar é importante aprender. Prepare-se antes de abordar o tema com o seu filho, recolhendo dados de fontes fidedignas que ofereçam dados científicos.

– O contexto

Um bom pretexto para falar sobre o tema pode ser, por exemplo, uma notícia sobre o tema associado a artistas ou desportistas.

– O tom e o conteúdo

Fale com o seu filho sem medos. Seja frontal. Não esconda o facto de ser possível que eles possam vir a ter contacto com essa realidade na escola, numa festa ou reunião de amigos. O excesso de informação pode ser contraproducente. O mais importante é que o adolescente entenda os perigos associados ao consumo.

– A reação

Mesmo que o adolescente reaja à conversa com um encolher de ombros, esse gesto não significa necessariamente desinteresse. Enquanto pais, somos erradamente levados a crer que os nossos filhos já não nos ouvem ou amam. Isso é falso, continuam a fazê-lo, mas de outra forma, com outro distanciamento, e aquilo que dizemos vai ser interiorizado e sentido.

Sinais de alarme

O comportamento do seu filho pode dar-lhe pistas importantes sobre a possibilidade de estar a consumir drogas:

– Alheamento da vida e isolamento

– Alterações do padrão de sono

– Indiferença em relação a algo por que demonstrava um interesse assinalável

– Desleixo com a aparência

– Rispidez comportamental

– Perda do controlo emocional, por vezes associada à violência

Texto: Carlos Eugénio Augusto

 

 

As casas de banho escolares – falar disto agora para resolver até setembro…

Abril 26, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário cordeiro publicado no https://ionline.sapo.pt/ de 11 de abril de 2017.

Pouco se fala do assunto, mas as consequências podem ser graves. Depois de ler este artigo, o leitor, seja pai, professor, diretor de escola ou meramente cidadão, faça o que puder para que as coisas melhorem!

As más condições das casas de banho escolares são um problema frequente no dia–a-dia das crianças. A maioria das crianças evitam usar a casa de banho da sua escola, muitas delas durante todo o dia.

As razões apontadas – e que poderiam sê-lo por qualquer leitor – incluem: cheiro desagradável, sujidade, portas que não fecham e falta de privacidade, sanitas partidas, ausência de papel higiénico, vandalismo e graffiti nas casas de banho, localização inconveniente das mesmas, o facto de estas se encontrarem por vezes trancadas e, em muitas escolas, só se poderem usar nos intervalos, em que a chusma de crianças a necessitar de ir à casa de banho é grande e, naqueles escassos 15-20 minutos, muita outra coisa há a fazer.

A falta de privacidade é o problema principal referido pela maioria das crianças; num estudo que fizemos, 70% relataram existência de urina e fezes no chão, paredes ou assento da sanita. Neste mesmo estudo, perto de quatro quintos das crianças referiram que as casas de banho eram “sujas, desagradáveis, a cheirar mal, assustadoras e locais de bullying”.

A retenção urinária e fecal por recusa de usar as casas de banho escolares são causa de problemas de saúde, psicológicos e educacionais significativos. No primeiro ciclo, as crianças estão a aprender os hábitos higiénicos, pelo que é fundamental adquirir comportamentos visando autonomia, intimidade e uma boa sexualidade, o que obriga a um nível mínimo de qualidade das instalações sanitárias.

Ao longo do tempo, a retenção pode levar a uma situação conhecida como síndroma de eliminação disfuncional, com um padrão alterado de micção e defecação, e com obstipação, micção infrequente ou síndroma da bexiga preguiçosa. Esta situação pode dar dor abdominal, levar a não conseguir reter as fezes (encoprese), infeções urinárias recorrentes, urgência miccional, enurese, refluxo vesico-ureteral e até lesões renais.

É sabido, também, que a melhor posição para o esvaziamento da bexiga é a posição sentada, com apoio para as coxas e os pés, e o corpo ligeiramente dobrado para a frente. Pois… mas, na prática, 85% das mulheres que usam as casas de banho públicas normalmente agacham-se quando o fazem, resultando num aumento de cerca de uma vez e meia do volume urinário residual. Do mesmo modo, em escolas com sanitas sujas e sem assentos, as meninas tendem a agachar-se para não tocarem nas sanitas, o que pode levar a uma micção incompleta e aumentar o volume residual urinário, com aumento do risco de disfunção vesical e infeção urinária.

Por outro lado, a pressa que as crianças têm de se “despachar”, entre outras razões para evitar o contacto com o assento da sanita, faz com que se verifiquem situações em que a urina reflui para a zona vulvovaginal, molhando depois as cuecas quando se levanta, o que é uma situação muito desagradável do ponto de vista psicológico.

Algumas crianças referem beber menos líquidos, com vista a terem de ir menos à casa de banho, mas isso pode levar a uma leve desidratação, que resulta em menor atenção, irritabilidade, mau humor e falta de concentração, e também aumentar o risco de infeção urinária ou obstipação.

Além destes efeitos físicos, os problemas causados por casas de banho escolares inaceitáveis podem provocar ansiedade e vergonha, especialmente nas crianças que acabam por sofrer de incontinência, podendo ser vítimas de bullying, o que afeta o rendimento escolar, com mais baixa autoestima, pior desempenho e mal-estar na escola.

Sabe-se igualmente que uma em oito meninas (cerca de 12,5%) tem o primeiro período menstrual (menarca) durante o 1.o ciclo e a ausência de condições sanitárias das casas de banho escolares, desde a falta de privacidade (casas de banho mistas) a outros pormenores, como a ausência de caixotes de lixo, pode tornar a menstruação uma experiência traumática que afeta a criança e perturba o desenvolvimento de uma sexualidade saudável.

É ainda de referir a importância das condições higiénicas na disseminação de doenças, designadamente gastroenterites e hepatite A, através da utilização de assentos, sabonetes ou torneiras contaminadas, ainda por cima quando sabemos que a utilização é feita nos intervalos, altura em que as crianças comem os lanches da manhã e da tarde, bem como antes das refeições principais, o que facilita a contaminação se houver má higiene.

Muitos pais “bramem”, nas reuniões de pais, por causa do “tamanho da maçã” ou porque “o Manel deu um encontrão ao Zé”, mas raramente referem as condições das casas de banho como um problema – e muitas direções escolares assobiam para o lado e ignoram a questão. Além disso, existe uma lacuna na legislação, a nível europeu. Em Portugal apenas existem algumas recomendações da responsabilidade do Ministério da Educação, que são escassas e insuficientes, e uma breve referência na Circular Normativa do Ministério da Saúde.

É necessário, pois, falar deste assunto sem papas na língua e que os jornalistas façam reportagens, pressionem e levantem questões a quem de direito – não esqueçamos que estamos a falar de crianças do 1.o ciclo, que ainda estão numa fase inicial da aprendizagem das regras de promoção de saúde e num contexto que deve ser eminentemente educativo e modelar.

Só para dar um exemplo de medidas que se podem tomar se se quiser fazer alguma coisa: num país escandinavo verificou–se que os meninos gostavam de pegar na sua “mangueirinha” e “regar” em todas as direções. Resposta: para lá de sermões, conselhos e normas, pintaram-se alvos em círculos, dentro da sanita. Resultado: as crianças passaram a querer acertar no “100” e deixaram de molhar o resto. Simples, não é? Aqui fica, à atenção de quem de direito. Com imaginação, criatividade e colaboração dos próprios alunos, conseguir-se-ão grandes avanços… mas só depois de reconhecer esta situação como um verdadeiro problema de saúde pública.

 

 

Não vacinar crianças. “Memória demasiado curta e arrogância demasiado grande”

Abril 19, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://rr.sapo.pt/ de 17 de abril de 2017.

É “altura de a sociedade não ter medo de denunciar esta ‘ciência do Facebook’”, defende o pediatra Mário Cordeiro, para quem os pais que não vacinam os filhos são negligentes e deveriam ser responsabilizados.

Mário Cordeiro lamenta a negligência dos pais que não vacinam os seus filhos e lembra que, até há pouco tempo, se morria de sarampo.

“Dizer mal das vacinas é um luxo de um país que já não tem, como há bem pouco tempo tinha, casos diários de meningite ou mortes por sarampo, como [aconteceu] em 1994. A memória é demasiado curta e a arrogância demasiado grande”, diz à agência Lusa.

Segundo o pediatra, o fenómeno de pais que não querem vacinar os seus filhos deve-se a uma mistura de mal-entendidos e teorias da conspiração, associados a uma ignorância história e fraca memória.

O surto de sarampo que atinge neste momento a Europa tem sido relacionado com casos de pessoas que não querem vacinar os filhos. Em Portugal, foram notificados 23 casos desde Janeiro. Onze foram confirmados pelo Instituto Ricardo Jorge e os restantes estão em fase de investigação.

Actualmente, o Programa Nacional de Vacinação constitui uma recomendação das autoridades de saúde, mas as vacinas não são obrigatórias.

“Não é possível, porque qualquer obrigatoriedade exige apuramento de responsabilidades, o que é muito complexo numa situação destas, e também coimas ou equivalentes, que iriam penalizar os mais desfavorecidos ou menos abrangidos pela informação”, explica o médico, que chegou a fazer parte de um grupo de trabalho na Direcção-Geral da Saúde para estudar a possibilidade de tornar obrigatórias as vacinas.

A solução passa, por isso, por ser mais incisivo em “desmontar as enormidades e falsidade que se dizem e propagam pelas redes sociais contra as vacinas”.

“Acho que é altura de se mostrar que estas teorias e estas pessoas são, também, responsáveis por estes surtos [como o do sarampo]. Chegou a altura de a sociedade não ter medo de denunciar esta ‘ciência do Facebook'”, sugere Mário Cordeiro, para quem a Direcção-Geral da Saúde (DGS) tem feito um bom trabalho nesta área da vacinação e dos alertas à população.

Alguns pais usam o argumento de que as vacinas “mexem” com a imunidade das crianças, usando-o como justificação para não as vacinarem. Mário Cordeiro explica que é isso mesmo que se pretende, sublinhando que se trata de algo positivo, porque a criança fica com a imunidade para a doença sem sofrer os malefícios dela.

“Aliás, todos os dias, a criança contacta com ‘N’ agentes microbianos na escola, em casa, na sociedade, que ‘mexem’ com a sua imunidade e a fortalecem”, exemplifica.

Morte por negligência?

O pediatra questiona: “Se morrer alguma criança não vacinada porque os pais não quiseram, não será isso passível de acusação de ‘morte por negligência, como seria se morresse por andar de carro sem cadeirinha ou cinto de segurança?”

Mário Cordeiro lamenta que Portugal, que sempre teve elevadas taxas de vacinação, volte a ter casos de sarampo.

“É pena que um país que foi declarado ‘livre de sarampo’ há cerca de seis meses e que foi apontado como um exemplo na Europa e no mundo, volte a ter um surto de sarampo autóctone. Mais cedo ou mais tarde ter-se-ia de pagar o preço da ignorância e do ‘não-te-rales'”.

Este ano, já foram reportados mais de 500 casos de sarampo na Europa, que afectam pelo menos sete países, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A Direcção-Geral de Saúde (DGS) faz esta segunda-feira, pelas 18h30, um comunicado pormenorizado sobre o surto em Portugal. O director-geral da Saúde, Francisco George já veio sublinhar a importância da vacinação.

“Não há liberdade individual que possa justificar a ausência de vacinação das crianças”, frisa.

Apesar de não ser obrigatória, a maior parte dos pais vacina os seus filhos (95%, segundo o “Diário de Notícias, com base nas estimativas da DGS). Por vacinar ficam, por ano, cerca de 4000 crianças.

A ideia lançada pelo estudo norte-americano, apesar de falsa, instalou-se na Europa e o movimento antivacinação virou moda em várias parte do mundo, tendo já provocado várias vítimas mortais na Europa, nomeadamente na Alemanha.

 

Pais que não vacinem os filhos devem ser responsabilizados, afirma pediatra

Abril 18, 2017 às 4:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 17 de abril de 2017.

PAULO RICCA / PUBLICO

Mário Cordeiro lamenta falta de vacinação por parte dos pais e considera que a solução passa por desmitificar as falsas afirmações que se propagam pelas redes sociais contra a vacinação.

Lusa

O pediatra Mário Cordeiro lamenta a negligência dos pais que não vacinam os seus filhos, considerando que deviam ser responsabilizados pelas consequências dos seus actos, apesar de reconhecer que é difícil instituir a obrigação de vacinar. “Se morrer alguma criança não vacinada porque os pais não quiseram, não será isso passível de acusação de ‘morte por negligência, como seria se morresse por andar de carro sem cadeirinha ou cinto de segurança?”, questiona Mário Cordeiro em declarações à Lusa.

Actualmente, o Programa Nacional de Vacinação constitui uma recomendação das autoridades de saúde, mas as vacinas não são obrigatórias. O surto de sarampo que está a atingir a Europa tem sido relacionado com casos de pessoas que não querem vacinar os filhos.

O pediatra fez parte de um grupo de trabalho que estudou na Direcção-Geral da Saúde a possibilidade de tornar obrigatórias as vacinas. “Não é possível, porque qualquer obrigatoriedade exige apuramento de responsabilidades, que é muito complexo numa situação destas, e também coimas ou equivalentes, que iriam penalizar os mais desfavorecidos ou menos abrangidos pela informação”, afirmou o médico.

Mário Cordeiro acredita que a solução não passa por tornar obrigatório, mas antes por ser mais incisivo em “desmontar as enormidades e falsidade que se dizem e propagam pelas redes sociais contra as vacinas”. “Dizer mal das vacinas é um luxo de um país que já não tem, como há bem pouco tempo tinha, casos diários de meningite ou mortes por sarampo, como [aconteceu] em 1994. A memória é demasiado curta e a arrogância demasiado grande”, declarou à Lusa.

Segundo o pediatra, o fenómeno de pais que não querem vacinar os seus filhos deve-se a uma mistura de mal-entendidos e teorias da conspiração associados a uma ignorância história e fraca memória. “Acho que é altura de se mostrar que estas teorias e estas pessoas são, também, responsáveis por estes surtos [como o do sarampo]. Chegou a altura de a sociedade não ter medo de denunciar esta ‘ciência do Facebook’”, sugere Mário Cordeiro, para quem a Direcção-geral da Saúde (DGS) tem feito um bom trabalho nesta área da vacinação e de alertas à população.

Alguns pais usam o argumento de que as vacinas “mexem” com a imunidade das crianças, usando-o como justificação para não as vacinarem. Perante isto, Mário Cordeiro explica que é isso mesmo que se pretende, mas indicando que se trata de uma coisa positiva, porque a criança fica com a imunidade para a doença sem sofrer os malefícios dela. O especialista recorda que, “aliás, todos os dias, a criança contacta com ‘N’ agentes microbianos na escola, em casa, na sociedade, que ‘mexem’ com a sua imunidade e a fortalecem”.

Mário Cordeiro lamenta ainda que Portugal, que sempre teve elevadas taxas de vacinação, volte a ter casos de sarampo: “É pena que um país que foi declarado ‘livre de sarampo’ há cerca de seis meses, e que foi apontado como um exemplo na Europa e no mundo, volte a ter um surto de sarampo autóctone. Mais cedo ou mais tarde ter-se-ia de pagar o preço da ignorância e do ‘não-te-rales’”.

Desde Janeiro foram notificados 23 casos de sarampo em Portugal e mais de 500 casos de sarampo foram reportados só este ano na Europa, afectando pelo menos sete países, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

 

 

Hiperatividade, ciência versus facebook

Abril 11, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mário Cordeiro http://www.paisefilhos.pt/ publicado na a 7 de fevereiro de 2017.

Nem tudo o que mexe é hiperativo, nem todos os que sonham têm défice de atenção. Mas destruir um fármaco com “cultura de facebook” é demasiadamente leviano

Houve um aumento na prescrição de metilfenidato para o dobro, entre 2010 e 2014. Podem existir várias explicações, desde exagero de prescrições até melhor diagnóstico e medicação de crianças e jovens que necessitavam mas não o estavam a tomar. Por outro lado, o melhor conhecimento dos problemas de dispersão, falta de concentração e atenção, e de hiperatividade pode justificar o aumento. Especulação à parte, o que se sabe, sim, é que embora haja crianças medicadas inutilmente, é grande o número das que precisam e não estão medicadas e, entre as que estão, a esmagadora maioria colhe benefícios.

Recomenda-se este fármaco quando há uma perturbação da concentração e atenção que afete a vida das crianças de forma significativa, para lá do normal cansaço, má gestão dos estímulos artificiais que desviam a atenção ou da irrequietude natural das crianças e jovens, sobretudo do sexo masculino. Nem tudo o que mexe é hiperativo, nem todos os que sonham têm défice de atenção! As crianças, vivendo num mundo “entre quatro paredes”, precisam de se expandir, de se mexer. No entanto, a incapacidade de concentração num estímulo, sobretudo abstrato, desviando–se para “qualquer mosca que passe” faz com que a criança retire muito pouco das aulas, se sinta mais distante do “filme” que está a passar na sala de aula e invente outras coisas, mexendo-se, perturbe os outros e se comporte de modo hiperativo, sendo disruptivo para a aula e prejudicando gravemente o seu próprio processo de aprendizagem, ou então mergulhe na sua vida interior e se abstraia. Acresce que estar constantemente a ser admoestado e de castigo, ver as notas aquém do que sabe ser possível, ler apenas metade do cabeçalho e responder impulsivamente de modo incompleto, diminuem a autoestima, causam tristeza e geram problemas sociais e psicológicos.
Os benefícios da terapêutica, que pode ser instituída por um pediatra ou neuropediatra e que não necessita de ser baseada em testes e exames, vão ajudar o processo de aprendizagem e permitir à criança o desenvolvimento das suas capacidades.

O argumento de que “é um químico” é anedótico porque o cérebro funciona, exatamente, com mediadores químicos, e nos casos de hiperatividade e défice de atenção, dispersão e impulsividade, esse mediador está em falta. Com o crescimento o cérebro arranjará outras formas de funcionamento e não é precisa medicação para a vida toda, como alguns ignorantes dizem. Além disso, é boa prática as crianças interromperem a medicação nas férias letivas; a ideia de que se fica “preso a uma droga” é mais um dos mitos urbanos veiculados na Internet.
Quanto a contraindicações, nas redes sociais há pessoas que gostam muito de dizer que “é veneno”. Dá vontade de rir – leiam a bula do ibuprofeno ou do paracetamol, que dão aos vossos filhos e verão a “galeria de horrores”. Com o metilfenidato os efeitos colaterais são raros e, salvo exceções, resumem-se a situações transitórias e breves de baixa de apetite ou pequenas insónias.

O metilfenidato não dá “superpoderes”, apenas faz render melhor as capacidades naturais a estas crianças. Não ficarão engenheiros, pianistas ou escritores com o medicamento se não tiverem esses talentos, mas podem nunca vir a ser engenheiros, escritores ou pianistas, tendo esses talentos, por não conseguirem estudar, concentrar-se e andarem toda a escolaridade a saltitar de “mosca para mosca”, irritando os professores, enervando os pais e diminuindo a sua autoestima. E se pensássemos numa coisa chamada Ciência? Talvez valha mais do que o diz-que-diz das redes sociais…

 

 

 

Crianças “mimadas” – Mário Cordeiro

Janeiro 30, 2017 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto de Mário Cordeiro publicado na http://www.paisefilhos.pt/ de 16 de janeiro de 2017.

mario

Um ser que se julga omnipotente e o umbigo do mundo não aceitará facilmente ser contrariado. Pelo pediatra Mário Cordeiro

Que fique claro que o mimo não faz mal a ninguém, pelo que “mimada” está entre aspas, referindo o que os ingleses designam por “spoiled” (estragada), porque o mimo sem aspas nunca é moeda de troca, de chantagem, nunca proporciona falta de regras ou comportamentos de exigência.

O que se designa muitas vezes por “criança mimada” é outra coisa: é aquela que cresce impondo a sua vontade, pelo medo e pressão (birras), e que não converte a omnipotência natural dos 9-18 meses em respeito, solidariedade e capacidade de enfrentar a frustração.

A culpabilização dos pais, por exigirem de si próprios um desempenho que não conseguem, ou por terem expectativas muito diferentes da realidade, leva a que tentem compensar o que consideram não estar a dar aos filhos. Este complexo de culpa raramente tem razão de existir, porque os filhos não precisam da presença física constante dos pais, mas sim de disponibilidade e entrega no tempo que existe, e de carinho, estímulos positivos e regras, mais do que brinquedos, chocolates ou qualquer outra coisa material.

A rentabilização do tempo é outra questão: muitos pais são incapazes de mudar de “fuso horário”, quando chegam a casa. As crianças fazem muito melhor essa separação – por isso é que comem tudo na escola, sozinhos, e em casa querem tudo passado e dado pelos pais: a escola é o espaço de crescimento, a casa o de regressão. Com os adultos deveria ser o mesmo. Se fizermos um esforço para definir claramente esses compartimentos, a casa e os filhos terão mais hipóteses de ser vistos como espaço de colo e de libertação, e não como mais um espaço de guerrilha e de exigência. Não é fácil mas compensa promover um ambiente caseiro que seja pacificador e relaxante para todos.

O terceiro conceito que urge desmistificar é o de que mimo e ternura se opõem a regras e educação. Ou que é por tudo ser permitido que as crianças gostam mais dos pais ou se sentem mais seguras. A imposição de limites vai criar, naturalmente, frustração e reações de negação. Um ser que se julga omnipotente e o umbigo do mundo não aceitará facilmente ser contrariado. Todavia, só assim estará a aprender as regras de convivência e a entender que os limites são necessários aos caminhos, e estes à definição e segurança do percurso de vida. Se estivermos no deserto sem qualquer indicação de rumo, será angustiante. Pensamos ser livres para irmos onde queremos mas ficamos perdidos.

O “estragar” pode vir de muitas atitudes, desde hiperproteger e não dar autonomia, até ceder perante as birras ou até antecipar o desagrado, oferecendo logo doces e presentes.

A frustração é necessária ao desenvolvimento de uma personalidade equilibrada. A criança também precisa de espaços próprios, de tempo para estar consigo mesma, de exercitar a autonomia, mesmo que revele algum receio. Muitos pais não conseguem dar essa liberdade aos filhos, o que conduz a criança a uma grande insegurança e dualidade, entre querer ser ela própria a ter certos desempenhos, mas a sentir que é mais fácil, cómodo e prático serem os pais a cuidar de tudo. Este comportamento reforça também a omnipotência e aumenta a dificuldade em socializar.

O reflexo natural dos pais é blindar a relação com os filhos e evitar que evoluam na sua responsabilidade e autonomia. Todavia, é nesse esforço e nessa dádiva que nos assumimos como pais; no fundo, respeitando os filhos e sabendo que o percurso de vida deles… terá mesmo de ser deles. Aproveitemos o Dia da Criança para refletir um pouco sobre o que desejamos para os nossos filhos.

 

O teu filho é “um mimado”? 10 sinais para perceberes

Janeiro 15, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 5 de janeiro de 2016.

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Então, estragaste o teu filho com mimo?

Dar mimo é uma das melhores coisas que podemos dar aos nossos filhos. Transmite-lhes segurança, autoconfiança, ensina-os a ser afectuosos e a aceitar o afecto. Anima-os nos dias tristes e dá-lhes aconchego para a noite. Segundo o pediatra Mário Cordeiro, “não há mimo a mais” O mimo é sempre positivo. No entanto é importante saber distinguir o mimo de outras situações que muitos pais recorrentemente confundem com mimo. Falamos de chantagem emocional, de subornos, de promessas em troca da realização de qualquer tarefa que seria suposto a criança realizar sem contrapartidas. Esta situação permite que a criança ganhe força, e se torne num pequeno Hitler dentro da sua casa. Manipula os pais para comer, para se vestir, para tomar banho e para ir dormir. E os pais, cansados, acabam por ceder porque só querem que as coisas fiquem feitas e que o menino seja feliz.

Se não há mimo a mais, podemos (e devemos) andar com os nossos bebés ao colo, dormir com eles, dar-lhes banhos prolongados, ler e cantar para eles até adormecerem, beija-los nos pés e nas pálpebras sempre que quisermos sem os “estragar de mimo.” Mas como é óbvio, não podemos fazer isso quando eles tiverem 16 anos. Nem 6. Porque a nossa função de pais, além de criar crianças felizes é criar adultos capazes. E para isso, a autonomia tem de começar desde cedo a ser trabalhada. Com a autonomia as regras, os limites e as responsabilidades. Sempre com muito amor e muito mimo, mas com firmeza para não descambar. Porque nos arriscamos a que o nosso bebé se transforme numa criança malcriada.

É fácil apontar os miúdos “mimados” na escola ou no parque, mas conseguiremos ter um olhar crítico sobre os nossos filhos?

A Pop Sugar fez uma lista de 10 sinais evidentes para perceberes se o teu filho é “um mimado”?

1. Faz birras por tudo e por nada

Já todas passamos por uma birra em casa ou no supermercado, mas se o teu filho usa este trunfo sempre que quer alguma coisa quer dentro de casa, quer na rua, então este é um bom indicador de que possa ser um mimado.

2. Nunca está completamente satisfeito

As crianças mimadas não ficam satisfeitas com o que têm e querem sempre ter o que vêem nos outros.

3. Não ajuda nem que ajudar nas tarefas.

São poucas as crianças voluntariosas nas tarefas domésticas. Mas a partir de uma certa idade já devem estar habituados a ajudar a arrumar os seus brinquedos e quartos entre outras coisas. Um mimado não quer ajudar em tarefa nenhuma, e se for preciso usa o trunfo birra para se escapar a esta obrigação.

4. Tenta controlar os adultos

As crianças mimadas não distinguem os pares dos adultos e esperam controlar os pais como muitas vezes controlam os pares.

5. Não partilham

A partilha é um conceito difícil para uma criança adquirir, mas a partir dos 4 anos, e aprendendo através do exemplo, as crianças devem estar aptas e gostar de partilhar com os amigos e irmãos.

6. Tens de implorar para que realize uma tarefa

Os pais são figuras de autoridade a quem as crianças devem obedecer quando lhes é feito um pedido. Não é suposto implorares ao teu filho para que realize uma tarefa.

7. Ignora-te

Nenhuma criança gosta de ouvir a palavra “não”, mas se o teu filho te ignora não é bom sinal.

8. Recusa-se a brincar sozinho

Aos 4 anos, uma criança deve estar disposta (e capaz) de brincar sozinha por um período de tempo. Exigir sempre a presença de um pai ou amigo para brincar nem que seja por 5 minutos demonstra sua necessidade de atenção.

9. Tens de suborna-lo

Os pais não devem ter que subornar os filhos quer seja com dinheiro, brinquedos, ou doces para que realizem tarefas rotineiras

10. Envergonha propositadamente os pais em público

Um deslize aqui e ali é normal, mas quando uma criança envergonha propositadamente os pais em público para obter atenção, a situação vai para lá de um ato isolado passando a ser uma atitude manipuladora de criança mimada.

 

 

Mário Cordeiro em entrevista: Valores e limites como arma contra “o lado negro da força”

Dezembro 23, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Mário Cordeiro à http://visao.sapo.pt/ de 18 de dezembro de 2016.

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“Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo ‘lado negro da força’, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior”, diz o pediatra, em entrevista à VISÃO

Sentado num cadeirão do seu consultório, em Lisboa, o conhecido médico segura, orgulhoso, o seu mais recente livro: “Os nossos adolescentes e a droga”. É o 35º, contabilizando os que partilhou a autoria, em mais de 30 anos de dedicação às crianças e à promoção da saúde uma produção num ritmo alucinante, associada aos cinco filhos e à atividade médica. Aos 61 anos, não é a primeira vez que Mário Cordeiro escreve a pensar na segunda década de vida dos mais novos, a fase em que se desenvolvem as melhores ferramentas para enfrentar o futuro com mais segurança e resiliência. Desta vez, quis fazer uma espécie de manual para pais, com contexto, glossário e experiências contadas na primeira pessoa para esclarecer dúvidas que possam surgir sobre as diversas drogas, álcool incluído.

O objetivo, sempre, é informar. Porque mais vale prevenir do que tratar.

Já tinha escrito sobre adolescentes. O que o fez voltar ao tema?

Achei que valia a pena revisitar este tema porque deixou de se falar nele. Mas [o problema] existe. Há uns anos, verifiquei que o consumo comparado entre alunos da escola privada e da pública eram similares, o que contraria a ideia de que uns estão mais protegidos de determinadas experiências. O que faz sentido, se pensarmos bem nisso: um dealer vai investir mais junto de um público que tem mais dinheiro, certo?

A dada altura, lê-se: “Educar não é difícil, é ter momentos terríveis.” É isso que os pais de adolescentes devem esperar?

Os adolescentes trazem muitas alegrias e muitas dores de cabeça, no sentido de termos muitas dúvidas. Mas isso acontece a nós e a eles, porque o processo tem dois lados. O mais comum é, a partir de um sentimento de frustração, haver birras e não saber geri-las. E isso, claro, também acontece na adolescência. Um filho dá–nos recompensas extraordinárias, mas também imensas dores de cabeça. Além disso, idealizamos sempre os nossos filhos, e às vezes esquecemos que eles têm de fazer o percurso de vida deles.

Eles não são nossos. Podemos ser uma espécie de polícias-sinaleiros a indicar o melhor caminho, mas o automobilista é que decide se vai por ali ou não. E às vezes os filhos desiludem-nos, fazem escolhas que não faríamos e nem sempre é fácil lidar com isso. Tantas vezes oiço de alguns pais: “Mas nós demos a melhor educação, o máximo de carinho…”, quando descobrem que o filho anda a mentir ou a consumir tabaco e álcool e tem só 13 anos. Ao que respondo sempre que isso não é um passaporte para tudo. Há diferenças tremendas até entre irmãos. O melhor é dar o exemplo do que é o respeito, a ética e a disciplina, em vez de andarmos a dar sermões.

Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo “lado negro da força”, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior do que se não tiver azimutes nenhuns.

Isso leva-nos à ideia da criança-rei que se torna o adolescente tirano. As questões que se levantam na adolescência têm sempre a génese na infância?

O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar. É uma fase que a criança começa aos 15 meses, quando já tem uma imensa autonomia e percebe que os outros podem ser manipulados, e passa a agir de acordo com a ideia do “quero tudo já”. Só com limites é que vai perceber que terá de trabalhar para conseguir o que quer. Há depois uma terceira fase, quando percebem que não são deuses e passam à condição humana, em que agradecem não ter tudo, para assim apreciarem melhor a conquista. A liberdade, a verdadeira liberdade, reside na escolha, em ter de escolher.

É por isso que a superproteção leva a excessos?

Claro, porque não se permitem as escolhas. Cada um precisa de saber os seus limites. Muito importante também é estar informado, porque isso pode ajudar a escolha. Reparamos hoje que há overdose de informação mas, ao mesmo tempo, falta de conhecimento. Outro problema deste viver muito fugaz é a falta de sabedoria. Porque a sabedoria exige tempo, reflexão, e esse processo é muito lento, não pode ser tudo no calor do momento. Se queremos tudo já, saber tudo já, isso muitas vezes armadilha-nos.

É isso que acontece com a superproteção: os pais tem a informação mas não têm sabedoria?

Sim. Querem respostas rápidas. Sou o maior fã da tecnologia, mas a forma como a usamos tem de ser adequada. É preciso ainda ouvir outros, porque nem sempre o que nos chega é o todo.

Ouvir relatos e experiências muitas vezes ultrapassa a pura informação. Quantas vezes em manuais se escreve “faça-se assim”, mas depois a experiência diz-nos algo mais. Veja-se os livros de dietas e afins a prometerem “seja feliz em três dias”. Dá-me vontade de rir, porque os próprios títulos matam logo o prazo.

E isso cria ansiedade, claro.

É aquilo a que chamo a “urgentificação de tudo”, e vê-se nas idas às urgências, para resolver qualquer problema. Recebo imensas mensagens e percebo que os pais estejam preocupados, mas em muitos casos é preciso saber esperar.

Hoje, sentimos que, seja o que for que queiramos saber, basta fazer clique.

Temos de aprender a abrandar. Este “quero tudo já” pode estragar tudo e não nos deixa apreciar momentos bons.

É o que, depois, na adolescência leva a uma insatisfação imensa…

É. A geração de jovens de que falo no livro nasceu e cresceu com esta ânsia de comunicação e de estar presente, que muitas vezes funde os fusíveis às pessoas, porque faz com que deixemos de saber conviver com a solidão, e isso é indispensável. A realidade ser tão voraz leva a doenças físicas, ao ataque à nossa imunidade, ao aumento do cancro, tudo também muito relacionado com o nosso modo de vida. Tornámo-nos escravos do telefone e deste modo de estarmos sempre contactáveis. Se não tivermos cuidado, deixamo-nos massacrar, e isso vai levar à falta de espaços privados, nossos. Esta invasão constante do telefone, durante as refeições e em qualquer conversa, é o exemplo maior da má educação. É uma fuga ao momento presente. É também isso que leva ao consumo de droga, que começa por não se saber encarar a realidade, não saber apreciar o que há de bom, subvalorizar o que não corre tão bem. Perante uma realidade que se acha horrível, e sem armas para dar a volta, o nosso desejo é de nos eclipsarmos. Se tivermos ao alcance uma substância, seja droga ou álcool, que nos permite fazê-lo, isso é muito tentador.

Quando é suposto falarmos com os nossos filhos sobre droga?

Não pode ser como antigamente, em que os pais sentavam os filhos e lhes diziam que precisavam de ter uma conversa. Não pode ser assim porque não surte efeito é por isso que sou contra a disciplina de Educação Sexual, porque é ridículo que se trate do assunto à terça-feira, das 11 à uma. Pode aproveitar-se um texto de Língua Portuguesa, ou a estatística, na Matemática, para falar de demografia, ou em Ciências, para falar da nossa biologia, ou em História, que é em si um repositório imenso de casos para todos os gostos. O mesmo se aplica às drogas: pode-se falar em vários momentos. Os pais têm de saber comunicar os filhos e têm de estar informados e não podem ficar-se pelo “Ele, ou ela, não fala comigo”. Tem é de ser numa linguagem que não seja desconfortável para nenhum dos dois, e tem de ser crível.

Podíamos resumir tudo a duas ideias: “Não vale a pena dizer que a droga mata” e “se experimentares é natural que gostes, mas deixa-me falar do resto.” É isso?

Não vale a pena dizer que mata porque, em si, é uma mentira, ou só é verdade a longo prazo. É como os maços de tabaco trazerem inscrito que fumar mata. A frase que mais gosto, mesmo, é “Os fumadores morrem prematuramente”, quando o que devia dizer é “Os fumadores têm maior probabilidade de morrerem prematuramente”. Aí já não há quem possa argumentar com o tio-avô que fumou cinco maços por dia e viveu até aos cem anos. Já é mesmo preciso pensar se quero aumentar a probabilidade de morrer mais cedo. É o mesmo com a droga. Por isso elenquei no livro os efeitos de cada uma e incluí depoimentos que não procuram julgar pessoas quem sou eu para julgar as pessoas? Às vezes, quem caiu naquele buraco pode ser só alguém que não encontrou na sua rede o suporte para dar a volta aos problemas e encontrar a felicidade em outro lado.

É também a forma de lhes dizer que há um dia seguinte, porque, como vivemos na tal voracidade, falamos demasiadas vezes apenas do hoje. Temos de lhes dizer que o que construímos, no amanhã, depende do que acontecer hoje. É essa pedagogia que muitas vezes falta. Quando falo com os meus filhos para cultivarem a excelência, não é pelas notas em si, mas porque ficam mais bem posicionados para, no futuro, poderem escolher à vontade o que querem.

Fala no desporto, no voluntariado, na cultura. Isso também lhes dá ferramentas para lidar com as adversidades?

Dá-lhes uma experiência de vida muito mais variada. Estas atividades, feitas com gozo, libertam endorfinas, que são as nossas morfinas. Pensar que temos essa possibilidade de nos “drogarmos” sem droga, e que a esquecemos… Quem faz desporto, ou se dedica às artes, ou outras atividades, tem uma probabilidade muito menor de cair nas drogas. E isso faz uma diferença abissal.

Que sinais de risco é que a família deve saber reconhecer para pedir ajuda?

É preciso dizer que não é por se encontrar papel de prata no quarto de um filho que se vai concluir que ele anda a queimar heroína. Se calhar, andou apenas a comer uma tablete de chocolate. Temos de ter noção de que os nossos filhos adolescentes precisam do seu espaço e de refletirem sobre a sua vida. Às vezes há pais que falam com uma ansiedade… “Ele/ela vai entrar na adolescência, não é?!”. Costumo dizer que eles não caíram na chaminé, atirados pelo Pai Natal, na véspera. Foram educados por aqueles pais, eles conhecem-nos.

Se fizeram um bom trabalho, podem aceitar esta fase com um mínimo de segurança. Há que acreditar nos filhos, permitir que tenham a sua identidade, e que não pensem exatamente como os pais pensam. Agora, quando o isolamento é exagerado, quando há uma vida seca, amarga, desistente das atividades que são boas, quando as notas caem sem razão aparente (às vezes podem só estar apaixonadíssimos!), aí os pais devem pedir ajuda. E aqui ressalvo: o álcool, e o seu consumo excessivo e prematuro, também é uma droga.

Os consumos dos adultos podem passar mensagens erradas?

Beber um copo por dia, à refeição, não é ter um comportamento de risco.

O problema é o consumo fora de horas, em excesso, e sobretudo para esconder alguma coisa. Uma coisa é beber um copo para acompanhar a refeição, outra é, sozinho, engolir uma garrafa inteira. Falar das coisas com verdade não é torná-las banal. Um pai uma vez disse-me que sentia que não tinha autoridade para falar com os filhos sobre os malefícios do tabaco porque ele também fumava.

Disse-lhe logo que não estava nada de acordo: se a verdade científica é que não faz bem à saúde, se acha que o seu filho não devia fumar, diga-lhe. Diga-lhe até porque começou, mostre-lhe até algumas das suas fraquezas. Queira ou não deixar de fumar, pode na mesma achar que aquilo é errado para o filho e que, se ele o fizer, pode dar cabo da sua saúde. Um pai tem tanta liberdade de escolher como um filho e aí está a dar-lhe armas para escolher. Isso é perfeitamente legítimo.

E isso também se aplica em relação à droga?

Um dos casos que relata no livro é de uma mulher de 50 anos que conta os seus consumos.

Sim, sem dúvida. A essa mulher, as anfetaminas não só lhe permitiam estudar horas a fio, sem dormir, como ainda a faziam emagrecer. Não é por acaso que tinham nomes como Libriu ou Valium, que fazem lembrar liberdade ou valor… Parece que sempre andámos à procura da felicidade sem esforço, não é? Mas digo também que este esforço e trabalho, que é necessário, não devem ser vistos como um calvário, como nos diz a nossa tradição galaico-cristã. Isto não é a via sacra. Trata-se de aprender a gerir a nossa liberdade de escolha. Falamos também muito de litigância (“porque tu não fizeste, não ligaste…”) mas dizemos pouco “gosto de ti”. Precisamos de fazê–lo com urgência, e sobretudo com os nossos filhos, que não são estranhos. Às vezes, o que se passa é que o filho gosta tanto dos pais que, para se diferenciar, arranja um pretexto qualquer para entrar em conflito. Os pais não podem ceder a essa pressão.

 

 

 

Clubes e crianças – Artigo de opinião de Mário Cordeiro

Novembro 16, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro de 27 de setembro de 2016 publicado no http://assinatura.ionline.pt/

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As pessoas mudam de religião, de partido político, de cônjuge, de amante e de vida. De profissão e de cidade. Até de sexo. Mas depois dos dez anos, não mudam de clube.

A propósito do início de mais uma temporada futebolística e motivado por uma conversa com os pais de um recém-nascido, surgiu a ideia de abordar este assunto: inscrição de bebés em clubes de futebol pelos pais ou pelos avós e tios, sem a anuência dos pais.

Os clubes de futebol são (sempre foram) grupos de pertença com muita força e uma irracionalidade que desafia qualquer lógica ou tentativa de explicação do fenómeno – basta ver como o jogador A, que era um dos “nossos”, fantástico e amado, passa a ser um “traidor”, ignóbil e odiado no momento em que decide vestir as cores do adversário.

Embora estes fenómenos tenham flutuações, vive-se agora uma fase “em alta”, talvez porque restem poucos sinais aglutinadores de um povo – pertencer ou ser adepto de um determinado clube gera uma teia de cumplicidade e de irmandade com os do mesmo clube e, quase que diria, ódio relativamente aos rivais. Muita gente tem como objetivo prioritário para o seu clube ficar à frente do outro clube, mais do que ganhar (e muito menos assistir a um bom espetáculo de futebol), desejando que, independentemente das “nossas” vitórias, existam muitas e pesadas derrotas para “os outros”. Nos jogos que não têm a ver com qualquer campeonato comum torce-se pelos estrangeiros ou por quaisquer outros, desde que seja contra o nosso rival – assumo isso, para os leitores não pensarem que sou um santo, e isto apesar de ter filhos de clubes diferentes! Coitado do barão de Coubertin quando, tão ingenuamente, dizia que o principal era participar e não vencer. Talvez devesse ter dito que o principal era vencer mas, porventura nos dias de hoje, que “o principal é que os outros clubes percam, não que o meu clube ganhe” – o interessantíssimo (e assustador) fenómeno sociológico e antropológico que são as claques de futebol (e todas as suas liturgias, slogans, hinos, gritos de guerra e modos de atuar) é um exemplo que valeria a pena ser estudado profundamente, para lá das limitações que deveriam ser impostas aos seus frequentes atos violentos e intimidatórios.

Assim, e tendo em conta que o futebol divide amigos e famílias, afasta as pessoas, gera discussões e atiça raivas, inscrever uma criança num clube de futebol sem os pais saberem ou contra a sua vontade, muito especialmente quando não é o clube dos pais, é, quanto a mim, uma manobra absolutamente suja e indecente. É provocar uma divisão e criar conflitos graves entre pais e filhos. Para gáudio dos avós e dos tios, acredito, que são dessa equipa, mas não deixa de ser uma manobra manhosa. Os meninos, esses ficam divididos entre a fidelidade aos tios e avós (e ao peso de ser “sócio” e de já lhe terem oferecido um equipamento do clube X) e a ligação aos pais, que são do clube Y.

Defendo que as crianças possam ter um clube (mas o clube que querem, sem pressões, mesmo que não seja o nosso) e que sejam adeptos convictamente, nas derrotas e nas vitórias, nos bons e nos maus momentos, com uma dose razoável de subjetividade na apreciação dos factos e de irracionalidade na discussão, mas não perdendo nunca o respeito pelos outros e por si próprias e sabendo “engolir” a realidade quando, por exemplo, as imagens televisivas mostram à saciedade que os factos não foram exatamente aquilo que desejávamos – deturpar a verdade é, no fim de contas, alinhar em mentiras. 

É saudável ter um clube, mas não esquecer a liberdade que nos faz tolerar os outros e precisar deles, mesmo com uma gama de opções diametralmente oposta. Todavia, pressionar até ao limite antes de as crianças saberem sequer falar, quando isso é contra a vontade dos pais e joga contra aquilo em que estes acreditam (sim, para todos os efeitos, o futebol é uma religião, uma paixão, uma coisa que não se explica…), não me parece correto, nem entendo como é que os clubes aceitam inscrições de pessoas menores sem o consentimento informado de ambos os pais. As pessoas mudam de religião, de partido político, de cônjuge, de amante e de vida. Mudam de nome e de sexo. Mudam de profissão. Mas não mudam de clube, pelo menos depois dos dez anos de idade. A inscrição num clube deveria sempre sem feita por maiores de idade ou, no caso de menores, com o consentimento escrito e informado de ambos os pais ou tutores. É pena que o legislador nunca tenha pensado nisso. Mas podem estar certos de que os litígios e os conflitos provocados pelo futebol são muito maiores do que os de qualquer outra área, mesmo as filosóficas, religiosas e dogmáticas. 

Creio que valerá a pena refletir um pouco sobre este assunto, num país que tem mais de quatro décadas de democracia e ainda tantas coisas para resolver…

P.S. A propósito do artigo da semana passada sobre as vantagens de ter um animal de companhia, designadamente um cão, e os cuidados a ter antes de o arranjar, o espaço não deu para falar dos donos dos cães que são porcalhões – eles, os donos, não os canídeos.

Infelizmente, quando passeamos pelas ruas das nossas cidades e vilas, somos confrontados com constantes armadilhas que são os cocós de cães espalhados pelo passeio. Se em termos de sujidade e ecológicos não há sequer questão, em termos de saúde, como é? 

Um estudo feito no Reino Unido estimou em cerca de 250 mil toneladas o cocó que os cães fazem por ano. Em Portugal temos seis vezes menos habitantes mas, como temos proporcionalmente mais cães, se calhar poderemos admitir um valor de um terço. Fiquem, portanto, com os números redondos: 80 mil toneladas de cocó de cão em cada ano que passa, ou seja, nove por hora ou 150 kg por minuto. O cocó de cão não só é nojento e malcheiroso – isso só já bastaria para os donos dos cães (eles, sim, são os verdadeiros “porcalhões”) terem mais cuidado – como pode também contaminar–nos com diversos parasitas que, nos infantários, escolas e lares, passam de pessoa para pessoa, dos sapatos e pés para as mãos, daí para a boca e para as fezes das pessoas, num ciclo muito difícil de interromper. Em certas cidades há casas de banho na rua para cães. Mas mesmo sem estes requintes, não custava nada aos donos dos cães levarem uns sacos de plástico para apanhar o cocó dos seus animais. Compram-se nas lojas “baratas” por um euro e meio, com um dispositivo preso à trela. Há papeleiras e caixotes por todo o lado.

Para quando uma maior censura social, pelo menos quando a lei (que existe) não é ainda aplicada? Não são os cães que são porcalhões – são os donos!

 

 

Uma história ao adormecer… ou para adormecer

Novembro 6, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto de Mário Cordeiro publicado no http://ionline.sapo.pt/  de 18 de outubro de 2016.

mario

Quem não gosta de ouvir histórias? Quem não gosta de contar histórias? Aprende-se melhor qualquer matéria se for ensinada como se conta uma história, para lá de o enredo poder ser divertido, engraçado, ensinar muita coisa sobre a vida e o percurso de vida, e permitir exercitar a imaginação e a criatividade de pais e de filhos. E é um bom momento em família…

Uma história ao adormecer é uma oportunidade daquelas que não se podem desperdiçar. É uma mistura de ternura, alegria, repouso, encaminhar para o sono e criatividade, e uma excelente ocasião para, estando a criança já deitada, os pais se abstraírem da intrusiva televisão ou do computador, telemóveis e afins, e terem o prazer (e fruí-lo) de estar com os filhos, até porque, inclusivamente, a maioria dos pais referem estar pouco tempo com eles. Além do mais, a história para adormecer é um momento reconfortante, securizante e, portanto, encaminhador para um bom sono… de filhos e de pais.

É já sabido que dormimos melhor quando nos sentimos seguros. A presença dos pais, através da voz e dos códigos interpessoais, ajuda a desenvolver a parte sensível do cérebro, potenciando a tão badalada inteligência emocional. Aliás, é engraçado ver que pai e mãe têm maneiras geralmente diferentes de contar a mesma história: as mães seguem mais o livro e não alteram tanto a voz. Leem, pois (o que já não é nada mau!). Os pais, pelo contrário, talvez dando largas à imaturidade e infantilidade que caracterizam o sexo masculino, inventam e dramatizam, com piadas e vozes teatrais. Não dizem “depois veio o lobo mau”, mas sim “depois, sabes, veio um lobazão enorme, sabes, grrrrrr, com umas dentuças de todo o tamanho; se ele aparecer aqui, a gente dá-lhe um pontapé que ele vai parar ao Japão”.

Por outro lado, do ponto de vista da rotina, em termos de organizar a hora de ir para a cama e ter um sono regular, atendendo a que muitas crianças resistem na hora do deitar, as histórias para adormecer têm um efeito benéfico. A maioria das crianças resistem a ir para a cama por dois motivos: por um lado, o receio de desligar, de perder o controlo, de se entregar ao destino; por outro, porque têm tanta coisa que querem fazer que dormir será encarado como uma perda de tempo. Ainda há os que querem ficar para “deitar os pais”, ou seja, por considerarem que têm tantos direitos como os pais, incluindo a hora de deitar.

Podemos questionar se as crianças de hoje desaprenderam de dormir, eventualmente por excesso de estímulos e pelos horários tardios a que os pais chegam a casa. Não sei se isto acontece mais ou menos agora do que antes, mas sei que os problemas do sono são encarados com maior rigor e é-lhes dada maior importância. Em todas as idades, diga-se. Antes, porventura, fechava-se a porta e a criança que berrasse até adormecer, o que causava desamparos e traumas de vária índole (aliás, alguns pediatras ainda advogam esse “método” que, para mim, é escabroso e trará muitos problemas de desamparo… ou seja, obrigará a outros “divãs” uns anos mais tarde, no gabinete do psicanalista); hoje está-se mais atento às inseguranças infantis, mesmo que por vezes se caia no extremo oposto.

Os horários escolares e laborais e os malfadados TPC não ajudam, acrescidos da intrusividade dos ecrãs e da televisão, que roubam positivamente o tempo todo do serão e ainda ocupam a hora da refeição (se as famílias caírem nessa!). Falando das famílias, aliás, é bom de vez em quando parar para pensar acerca do tempo da sua vida em casa, que pode ser seguramente mais bem organizado, e não consumido com coisas redundantes, sem significado, a ver pela enésima vez as notícias, e atendendo aos ritmos e desígnios dos seus vários elementos.

Curiosamente, as crianças insistem muitas vezes em ouvir as mesmas histórias repetidas vezes, e os contos podem ajudar no sentido de respeitarem o seu limite intelectual e a lidar com a agressividade, a rejeição, os medos, os dilemas, a justiça, a morte e os problemas próprios da idade. Ouvir várias vezes a história é tentar compreender todo o seu enredo e, depois de uma primeira apreciação mais global, ter em atenção os pormenores, que são tão importantes como o tema de fundo. As histórias ensinam-nos muito sobre a vida, o percurso de vida, o bem e o mal, a luta e os conflitos éticos, os medos, etc., mas através de outros heróis que não diretamente a criança. As histórias permitem também aliviar tensões e emoções, e compreender sentimentos e como o mundo funciona, em termos de responsabilidade do que fazemos e do impacto que tem sobre os outros.

Será que um final feliz pode dar a uma criança a segurança de que necessita para dormir com menos angústias? Se sim, como é que depois as ensinamos a lidar com as frustrações do dia-a-dia? Um final feliz dará a certeza de que o bem vence o mal e que a normalidade fica reposta, mas à custa de trabalho, drama, vencendo receios e tendo uma estratégia para a vida. Lidar com a frustração e as contrariedades do dia-a-dia é fundamental, e quase todas as histórias nos ensinam isso, bem como os limites e a ideia de que não podemos ter tudo e que mesmo o que podemos ter não será já. Assim se aprendem a viver as angústias.

Uma outra questão será a de saber como contar histórias aos filhos, antes de dormir, sem que seja uma seca, mas por outro lado sem que se entre num autêntico carnaval. Há um empolgamento que é natural e que não excita, mas diverte. Advogo, pois, que se conte a história com a criança já deitada e pouca luz, para consagrar a mudança do registo que já deve vir de antes da história…

Que temas para as histórias, perguntarão? Bom, a temática vai depender do que elas estiverem a viver na altura e o facto de se privilegiar a história ao deitar prende-se sobretudo com o facto de a família estar mais disponível para desfrutar da companhia uns dos outros e abordar temas do quotidiano, para lá das histórias consagradas dos contos e fábulas infantis.

Qualquer história vale, desde as tradicionais, que devem primeiro ser contadas como foram escritas, ou seja, o bem vence o mal e liquida-o, e depois inventando outras personagens que permitem aos pais enviar recados aos filhos, e a estes, quando se apoderam também da capacidade de delinear enredos, veicularem mal-estares ou até referirem situações pelas quais estejam a passar e que tenham medo de referir abertamente.

As histórias para adormecer são, pois, uma oportunidade e podem ser um momento de gozo, diversão, entretenimento e também de terapia individual e familiar. Vamos a elas?

Pediatra, Escreve à terça-feira

 

 

 

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