“E se o meu filho for gay…?”

Outubro 25, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no https://ionline.sapo.pt/ de 3 de outubro de 2017.

É tempo de acabar com os preconceitos homofóbicos. A orientação do desejo sexual não é uma escolha, é uma característica determinada geneticamente.

Seria bom que, daqui a uns anos, só as crianças tivessem de fazer esta pergunta. Todavia, muitos adultos ainda andam confundidos quanto ao que é a homossexualidade, conotando-a com pedofilia, perversão, manias ou mesmo doença. Ou rindo-se, com ar superior, de quem acha que ser “hétero” (straight, que significa “direito”, como os anglo-saxónicos designam, o que só por si diz tudo) é ser superior a ser “homo”.

Primeiro que tudo, convém definir claramente o que a palavra significa: homossexualidade é a atração sexual, emocional e afetiva de pessoas de um género por pessoas do mesmo género, como parte de um continuum da expressão sexual, ou seja, a orientação do desejo sexual faz-se na direção de uma pessoa do mesmo sexo.

A orientação sexual, apesar de genética, estabelece-se (ou consolida-se) no final da adolescência, e muitos dos homens e mulheres homossexuais tiveram as suas primeiras experiências nesta idade, embora ter este tipo de relações neste grupo etário não tenha, só por si, qualquer valor preditivo (muitos heterossexuais têm experiências “homo” por uma questão das chamadas condutas de experimentação ou de ensaio).

Embora alguns relatórios tenham indicado estimativas em adultos de cerca de 4% para os homens e 2% para as mulheres, desconhece-se a taxa na adolescência e estes dados variam de região para região e de comunidade para comunidade, dependendo muito do grau de aceitação social e política que condiciona a resposta..

Sempre existiu homossexualidade na sociedade, só que, por razões que a antropologia facilmente explica, associadas ao desígnio de contribuir a todo o custo para a continuação da espécie, esta forma de orientação sexual foi quase sempre reprimida ou, pelo menos, olhada de esguelha. Para tal veio a contribuir, de forma decisiva, a posição das religiões e as condenações e culpabilizações inerentes a quem cometia esse “pecado”. Em muitos países, ser homossexual é correr o risco de pena de morte ou prisão, ou pelo menos ser-se ostracizado na sociedade.

Com o evoluir das sociedades, quando, hoje em dia, o facto de não ter filhos não lança ninguém no opróbrio, quando as liberdades, direitos e garantias individuais são promovidas, e não apenas as da comunidade como um todo, a questão da homossexualidade, tal como muitas outras, tornou-se objeto de debate e de discussão.

Se, por um lado, ainda se observam frequentemente atitudes segregacionistas e de exclusão (algumas vezes de autoexclusão), é crescente a normalidade com que, felizmente, o assunto é encarado. Não se trata de dizer, de modo paternalista, que o que cada um faz é da sua conta, mas de muito mais: o de entender que a sociedade é composta por indivíduos diferentes na cor, no tamanho, nas capacidades e também nas orientações sexuais.

Há 20 anos, a homossexualidade era definida como uma “doença mental” por academias de psiquiatria tidas como cientificamente irrepreensíveis – afinal, demonstraram que não o eram e atualmente ainda se assiste a classificações deste tipo nas mais variadas situações.

Não se escolhe ser homo, hétero ou bissexual. É-se, apenas e tão-só, e embora permaneçam desconhecidos os determinantes dessa orientação, sabe-se que são genéticos. O que entra no capítulo das opções é a forma de comportamento e os estilos de vida que as pessoas, homossexuais ou não, adotam, designadamente o tipo de experimentação sexual, mas isso é do foro íntimo de cada um desde que não colida com os direitos dos outros – e tanto se aplica aos homo como aos hétero ou bissexuais.

Por razões várias, para muitos pais é um choque ter um filho homossexual. Não temos espaço para aprofundar as razões que os assistem, mas o que importa referir é que os pais, ao saberem da homossexualidade dos filhos, devem em primeiro lugar dar todo o apoio – são os filhos, não são ET’s que apareceram de um momento para o outro – e ser empáticos com o eventual sofrimento que o filho possa estar a ter.

Quando os pais sentem que o filho tem elevadas probabilidades de não ter filhos porque não consegue estabelecer uma relação conjugal com uma pessoa do sexo oposto – pesem as alternativas todas que a realidade portuguesa agora permite – sentem que o seu próprio futuro está ameaçado, em termos conceptuais, e que todo o projeto imaginado desde a infância cai por terra… o que não é verdade, mas está na cabeça das pessoas… para lá do estigma social, da falta de hábito de receber em casa “o genro, casado com o meu filho” ou “a nora, casada com a minha filha”. Acresce que a desinformação sobre o que é a homossexualidade e a constatação bem real de que um jovem homossexual terá a vida social dificultada, apesar de todas as evoluções sociais, ainda assustam mais os pais e aumentam o “sentimento de desilusão”.

Estas angústias têm de ser compreendidas e os pais, ao saberem da homossexualidade dos filhos, devem, em primeiro lugar, dar todo o apoio – são os filhos! – e ser empáticos. Por outro lado, não devem esconder e remeter o filho para a clandestinidade, mas ajudá-lo e ajudar-se, assumindo o facto como normal e não fazendo tabu do assunto – assim, o diz-que-diz acaba e o filho tem mais hipóteses de se sentir bem e de ter um percurso de vida social normal. Finalmente, devem apoiar-se um no outro, não considerar que os outros filhos é que são bons, tentar esclarecer estes e pedir ajuda – a um médico, a um psicólogo -, se necessário, para ultrapassarem sentimentos, libertar angústias e obter esclarecimentos e informação importante.

Se, pelo contrário, os pais optarem por uma atitude “cavernícola”, quase irradiando o filho, estarão a maltratá-lo, a maltratar-se a si próprios e a agir de uma forma porventura emocional, mas muito pouco racional, inteligente, justificada e eficiente. Os nossos filhos serão sempre os nossos filhos.

É tempo de acabar com os preconceitos homofóbicos. A orientação do desejo sexual não é uma escolha, é uma característica determinada geneticamente. Todas as pessoas devem poder expressar os seus afetos, desde que dentro do que é considerado pela lei como aceitável, e homens amarem homens ou mulheres amarem mulheres é normal. O amor é sempre belo quando é genuíno e é amor. Afinal, o que interessa saber quem dorme com quem? Excluindo casos abusivos ou forçados, a cama de cada um (e quem por lá passa) só a cada um (e a quem lá passa) pertence…

Pediatra

Escreve à terça-feira 

 

 

 

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Mário Cordeiro: “O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar”

Setembro 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://visao.sapo.pt/ a Mário cordeiro no dia 19 de dezembro de 2016.

Teresa Campos

Entrevista publicada na VISÃO 1240 de 8 de dezembro

“Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo ‘lado negro da força’, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior”, diz o pediatra, em entrevista à VISÃO

Sentado num cadeirão do seu consultório, em Lisboa, o conhecido médico segura, orgulhoso, o seu mais recente livro: “Os nossos adolescentes e a droga”. É o 35º, contabilizando os que partilhou a autoria, em mais de 30 anos de dedicação às crianças e à promoção da saúde uma produção num ritmo alucinante, associada aos cinco filhos e à atividade médica. Aos 61 anos, não é a primeira vez que Mário Cordeiro escreve a pensar na segunda década de vida dos mais novos, a fase em que se desenvolvem as melhores ferramentas para enfrentar o futuro com mais segurança e resiliência. Desta vez, quis fazer uma espécie de manual para pais, com contexto, glossário e experiências contadas na primeira pessoa para esclarecer dúvidas que possam surgir sobre as diversas drogas, álcool incluído.

O objetivo, sempre, é informar. Porque mais vale prevenir do que tratar.

Já tinha escrito sobre adolescentes. O que o fez voltar ao tema?

Achei que valia a pena revisitar este tema porque deixou de se falar nele. Mas [o problema] existe. Há uns anos, verifiquei que o consumo comparado entre alunos da escola privada e da pública eram similares, o que contraria a ideia de que uns estão mais protegidos de determinadas experiências. O que faz sentido, se pensarmos bem nisso: um dealer vai investir mais junto de um público que tem mais dinheiro, certo?

A dada altura, lê-se: “Educar não é difícil, é ter momentos terríveis.” É isso que os pais de adolescentes devem esperar?

Os adolescentes trazem muitas alegrias e muitas dores de cabeça, no sentido de termos muitas dúvidas. Mas isso acontece a nós e a eles, porque o processo tem dois lados. O mais comum é, a partir de um sentimento de frustração, haver birras e não saber geri-las. E isso, claro, também acontece na adolescência. Um filho dá–nos recompensas extraordinárias, mas também imensas dores de cabeça. Além disso, idealizamos sempre os nossos filhos, e às vezes esquecemos que eles têm de fazer o percurso de vida deles.

Eles não são nossos. Podemos ser uma espécie de polícias-sinaleiros a indicar o melhor caminho, mas o automobilista é que decide se vai por ali ou não. E às vezes os filhos desiludem-nos, fazem escolhas que não faríamos e nem sempre é fácil lidar com isso. Tantas vezes oiço de alguns pais: “Mas nós demos a melhor educação, o máximo de carinho…”, quando descobrem que o filho anda a mentir ou a consumir tabaco e álcool e tem só 13 anos. Ao que respondo sempre que isso não é um passaporte para tudo. Há diferenças tremendas até entre irmãos. O melhor é dar o exemplo do que é o respeito, a ética e a disciplina, em vez de andarmos a dar sermões.

Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo “lado negro da força”, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior do que se não tiver azimutes nenhuns.

Isso leva-nos à ideia da criança-rei que se torna o adolescente tirano. As questões que se levantam na adolescência têm sempre a génese na infância?

O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar. É uma fase que a criança começa aos 15 meses, quando já tem uma imensa autonomia e percebe que os outros podem ser manipulados, e passa a agir de acordo com a ideia do “quero tudo já”. Só com limites é que vai perceber que terá de trabalhar para conseguir o que quer. Há depois uma terceira fase, quando percebem que não são deuses e passam à condição humana, em que agradecem não ter tudo, para assim apreciarem melhor a conquista. A liberdade, a verdadeira liberdade, reside na escolha, em ter de escolher.

É por isso que a superproteção leva a excessos?

Claro, porque não se permitem as escolhas. Cada um precisa de saber os seus limites. Muito importante também é estar informado, porque isso pode ajudar a escolha. Reparamos hoje que há overdose de informação mas, ao mesmo tempo, falta de conhecimento. Outro problema deste viver muito fugaz é a falta de sabedoria. Porque a sabedoria exige tempo, reflexão, e esse processo é muito lento, não pode ser tudo no calor do momento. Se queremos tudo já, saber tudo já, isso muitas vezes armadilha-nos.

É isso que acontece com a superproteção: os pais tem a informação mas não têm sabedoria?

Sim. Querem respostas rápidas. Sou o maior fã da tecnologia, mas a forma como a usamos tem de ser adequada. É preciso ainda ouvir outros, porque nem sempre o que nos chega é o todo.

Ouvir relatos e experiências muitas vezes ultrapassa a pura informação. Quantas vezes em manuais se escreve “faça-se assim”, mas depois a experiência diz-nos algo mais. Veja-se os livros de dietas e afins a prometerem “seja feliz em três dias”. Dá-me vontade de rir, porque os próprios títulos matam logo o prazo.

E isso cria ansiedade, claro.

É aquilo a que chamo a “urgentificação de tudo”, e vê-se nas idas às urgências, para resolver qualquer problema. Recebo imensas mensagens e percebo que os pais estejam preocupados, mas em muitos casos é preciso saber esperar.

Hoje, sentimos que, seja o que for que queiramos saber, basta fazer clique.

Temos de aprender a abrandar. Este “quero tudo já” pode estragar tudo e não nos deixa apreciar momentos bons.

É o que, depois, na adolescência leva a uma insatisfação imensa…

É. A geração de jovens de que falo no livro nasceu e cresceu com esta ânsia de comunicação e de estar presente, que muitas vezes funde os fusíveis às pessoas, porque faz com que deixemos de saber conviver com a solidão, e isso é indispensável. A realidade ser tão voraz leva a doenças físicas, ao ataque à nossa imunidade, ao aumento do cancro, tudo também muito relacionado com o nosso modo de vida. Tornámo-nos escravos do telefone e deste modo de estarmos sempre contactáveis. Se não tivermos cuidado, deixamo-nos massacrar, e isso vai levar à falta de espaços privados, nossos. Esta invasão constante do telefone, durante as refeições e em qualquer conversa, é o exemplo maior da má educação. É uma fuga ao momento presente. É também isso que leva ao consumo de droga, que começa por não se saber encarar a realidade, não saber apreciar o que há de bom, subvalorizar o que não corre tão bem. Perante uma realidade que se acha horrível, e sem armas para dar a volta, o nosso desejo é de nos eclipsarmos. Se tivermos ao alcance uma substância, seja droga ou álcool, que nos permite fazê-lo, isso é muito tentador.

Quando é suposto falarmos com os nossos filhos sobre droga?

Não pode ser como antigamente, em que os pais sentavam os filhos e lhes diziam que precisavam de ter uma conversa. Não pode ser assim porque não surte efeito é por isso que sou contra a disciplina de Educação Sexual, porque é ridículo que se trate do assunto à terça-feira, das 11 à uma. Pode aproveitar-se um texto de Língua Portuguesa, ou a estatística, na Matemática, para falar de demografia, ou em Ciências, para falar da nossa biologia, ou em História, que é em si um repositório imenso de casos para todos os gostos. O mesmo se aplica às drogas: pode-se falar em vários momentos. Os pais têm de saber comunicar os filhos e têm de estar informados e não podem ficar-se pelo “Ele, ou ela, não fala comigo”. Tem é de ser numa linguagem que não seja desconfortável para nenhum dos dois, e tem de ser crível.

Podíamos resumir tudo a duas ideias: “Não vale a pena dizer que a droga mata” e “se experimentares é natural que gostes, mas deixa-me falar do resto.” É isso?

Não vale a pena dizer que mata porque, em si, é uma mentira, ou só é verdade a longo prazo. É como os maços de tabaco trazerem inscrito que fumar mata. A frase que mais gosto, mesmo, é “Os fumadores morrem prematuramente”, quando o que devia dizer é “Os fumadores têm maior probabilidade de morrerem prematuramente”. Aí já não há quem possa argumentar com o tio-avô que fumou cinco maços por dia e viveu até aos cem anos. Já é mesmo preciso pensar se quero aumentar a probabilidade de morrer mais cedo. É o mesmo com a droga. Por isso elenquei no livro os efeitos de cada uma e incluí depoimentos que não procuram julgar pessoas quem sou eu para julgar as pessoas? Às vezes, quem caiu naquele buraco pode ser só alguém que não encontrou na sua rede o suporte para dar a volta aos problemas e encontrar a felicidade em outro lado.

É também a forma de lhes dizer que há um dia seguinte, porque, como vivemos na tal voracidade, falamos demasiadas vezes apenas do hoje. Temos de lhes dizer que o que construímos, no amanhã, depende do que acontecer hoje. É essa pedagogia que muitas vezes falta. Quando falo com os meus filhos para cultivarem a excelência, não é pelas notas em si, mas porque ficam mais bem posicionados para, no futuro, poderem escolher à vontade o que querem.

Fala no desporto, no voluntariado, na cultura. Isso também lhes dá ferramentas para lidar com as adversidades?

Dá-lhes uma experiência de vida muito mais variada. Estas atividades, feitas com gozo, libertam endorfinas, que são as nossas morfinas. Pensar que temos essa possibilidade de nos “drogarmos” sem droga, e que a esquecemos… Quem faz desporto, ou se dedica às artes, ou outras atividades, tem uma probabilidade muito menor de cair nas drogas. E isso faz uma diferença abissal.

Que sinais de risco é que a família deve saber reconhecer para pedir ajuda?

É preciso dizer que não é por se encontrar papel de prata no quarto de um filho que se vai concluir que ele anda a queimar heroína. Se calhar, andou apenas a comer uma tablete de chocolate. Temos de ter noção de que os nossos filhos adolescentes precisam do seu espaço e de refletirem sobre a sua vida. Às vezes há pais que falam com uma ansiedade… “Ele/ela vai entrar na adolescência, não é?!”. Costumo dizer que eles não caíram na chaminé, atirados pelo Pai Natal, na véspera. Foram educados por aqueles pais, eles conhecem-nos.

Se fizeram um bom trabalho, podem aceitar esta fase com um mínimo de segurança. Há que acreditar nos filhos, permitir que tenham a sua identidade, e que não pensem exatamente como os pais pensam. Agora, quando o isolamento é exagerado, quando há uma vida seca, amarga, desistente das atividades que são boas, quando as notas caem sem razão aparente (às vezes podem só estar apaixonadíssimos!), aí os pais devem pedir ajuda. E aqui ressalvo: o álcool, e o seu consumo excessivo e prematuro, também é uma droga.

Os consumos dos adultos podem passar mensagens erradas?

Beber um copo por dia, à refeição, não é ter um comportamento de risco.

O problema é o consumo fora de horas, em excesso, e sobretudo para esconder alguma coisa. Uma coisa é beber um copo para acompanhar a refeição, outra é, sozinho, engolir uma garrafa inteira. Falar das coisas com verdade não é torná-las banal. Um pai uma vez disse-me que sentia que não tinha autoridade para falar com os filhos sobre os malefícios do tabaco porque ele também fumava.

Disse-lhe logo que não estava nada de acordo: se a verdade científica é que não faz bem à saúde, se acha que o seu filho não devia fumar, diga-lhe. Diga-lhe até porque começou, mostre-lhe até algumas das suas fraquezas. Queira ou não deixar de fumar, pode na mesma achar que aquilo é errado para o filho e que, se ele o fizer, pode dar cabo da sua saúde. Um pai tem tanta liberdade de escolher como um filho e aí está a dar-lhe armas para escolher. Isso é perfeitamente legítimo.

E isso também se aplica em relação à droga?

Um dos casos que relata no livro é de uma mulher de 50 anos que conta os seus consumos.

Sim, sem dúvida. A essa mulher, as anfetaminas não só lhe permitiam estudar horas a fio, sem dormir, como ainda a faziam emagrecer. Não é por acaso que tinham nomes como Libriu ou Valium, que fazem lembrar liberdade ou valor… Parece que sempre andámos à procura da felicidade sem esforço, não é? Mas digo também que este esforço e trabalho, que é necessário, não devem ser vistos como um calvário, como nos diz a nossa tradição galaico-cristã. Isto não é a via sacra. Trata-se de aprender a gerir a nossa liberdade de escolha. Falamos também muito de litigância (“porque tu não fizeste, não ligaste…”) mas dizemos pouco “gosto de ti”. Precisamos de fazê–lo com urgência, e sobretudo com os nossos filhos, que não são estranhos. Às vezes, o que se passa é que o filho gosta tanto dos pais que, para se diferenciar, arranja um pretexto qualquer para entrar em conflito. Os pais não podem ceder a essa pressão.

 

 

 

“A Verdade e a Mentira das Vacinas”, o livro que Mário Cordeiro gostaria de não ter escrito

Setembro 25, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 7 de setembro de 2017.

Diz que devia ser óbvio que as vacinas só fazem bem mas que o surto de sarampo que este ano custou a vida a uma adolescente mostrou que ainda há dúvidas. Em livro, Mário Cordeiro responde a todas.

Da descoberta de Edward Jenner no século XVIII à moda atual da não vacinação, passando pela ligação ao autismo e pelos casos raros das vacinas que, ao contrário de outras, “não são para tomar” — Mário Cordeiro explica em A Verdade e a Mentira das Vacinas (edições Desassossego, do grupo Saída de Emergência) tudo aquilo que é preciso saber (ou esquecer) sobre a questão que em abril voltou à ordem do dia em Portugal.

Meses depois do surto de sarampo que custou a vida a uma adolescente de 17 anos e levou ao internamento de dezenas de outras pessoas, o pediatra, defensor da não obrigatoriedade da vacinação, escreve o livro que, assume no prefácio, gostaria que já não fosse necessário escrever e ao longo de 244 páginas, desfaz mitos, teorias da conspiração, fake news e ideias erradas.

No final, parafraseia o médico Arnaldo Sampaio (pai do antigo presidente da República) e admite que existem três hipóteses à disposição dos pais, que é a quem compete tomar uma decisão sobre o assunto: “Vacinar, vacinar e vacinar!”.

O Observador faz a pré-publicação do capítulo 4: “Doze mitos perigosos, que é preciso desfazer, sobre as vacinas”.

1. As melhorias das condições de higiene e sanitárias fizeram desaparecer as doenças e, portanto, não há necessidade nenhuma em vacinar, mas sim investir em infraestruturas…

FALSO! Enganosamente falso.

As doenças evitáveis pela vacinação foram controladas ou desapareceram exatamente porque se vacinou em massa. Claro que ter boas condições sanitárias (água potável, saneamento básico, rede de refrigeração de alimentos, controlo da cadeia alimentar, etc.) é indispensável para prevenir muitas doenças infeciosas, designadamente as relacionadas com a qualidade da água, moscas e outros insetos, etc. No entanto, mesmo nos países mais desenvolvidos, como a Alemanha ou França, por exemplo, nas regiões onde há grande resistência à vacinação continua a haver estas doenças, apesar dos excelentes padrões de vida. Assim, se a melhoria sanitária geral de um qualquer país é uma prioridade e permite controlar muitas doenças infeciosas, não evita, todavia, a circulação dos microrganismos causadores das doenças evitáveis pela vacinação. Só a vacinação, da população toda ou, pelo menos, de 95% dela, consegue evitar a ocorrência destas doenças, levando ao seu controlo ou mesmo eliminação, como foi o caso da varíola.

Há infeções que se podem prevenir com medidas tão simples como lavar bem as mãos ou usar máscara se se está constipado e a espirrar, ou não tossir para cima dos outros, mas para as doenças evitáveis pela vacinação, como o nome indica, o que as controla e evita é… a vacinação. É por isso que não se podem abrir brechas ou esmorecer — se isso acontecer, as doenças voltarão.

Por outro lado, em países com condições sanitárias terríveis, foi possível erradicar, por exemplo, a varíola ou controlar totalmente a poliomielite… mesmo sem água corrente e com esgotos a céu aberto — isto graças apenas às vacinas.

2. As vacinas têm imensos efeitos secundários e até alguns a longo prazo que não se conhecem. Há pessoas que dizem que sem vacinas não teríamos cancros. E podem causar a morte!

FALSO! Rotundamente falso!

As vacinas são extraordinariamente seguras. Comparadas com os medicamentos em geral, são ainda mais seguras! Todos os estudos e dados estatísticos o comprovam. Quantas vezes será preciso repetir isto?

Obviamente que podem causar reações, mas são leves e temporárias, como dor no local da injeção ou febre ligeira. Aliás, há um enorme controlo das reações secundárias moderadas ou graves, de modo a suspender de imediato o lote que possa eventualmente estar envolvido… mas não é isso que acontece com tudo o que utilizamos?

Não são, volta não volta, recolhidos brinquedos, mobiliário ou algumas séries de modelos de automóveis? Não acontece comprarmos um quilo de belas laranjas ou maçãs e, por dentro, uma ou outra estarem estragadas? Só que, neste caso, a hipotética laranja estragada é uma entre milhões e milhões de laranjas. As vacinas são inofensivas. O risco de uma criança ter uma reação adversa a uma vacina é muito, mas mesmo muito, inferior ao risco de uma complicação grave da doença que essa vacina previne. Além disso, não é possível saber, antecipadamente, quais as crianças em que a doença poderá ser grave ou matar. O que faz adoecer e mata são as doenças. A maioria das pessoas, no mundo ocidental, dado que as doenças evitáveis pela vacinação quase desapareceram, já não se lembram do que é uma meningite, uma pneumonia, surdez ou encefalite do sarampo, asfixia pela difteria, insuficiência respiratória por tosse convulsa, paralisia infantil pela poliomielite ou o que é morrer por varíola ou tuberculose.

Aliás, ao longo da história do Programa Nacional de Vacinação português, houve a preocupação de introduzir vacinas que tivessem cada vez menos efeitos secundários, como aconteceu, por exemplo, com a vacina contra a tosse convulsa.

As vacinas, tal como qualquer medicamento, são alvo de um sistema de vigilância apertado, garantindo que qualquer reação anormal seja exaustivamente investigada, o que, com tantos anos de experiência e muitos milhões — sim, centenas de milhões! — de vacinas administradas em todo o mundo, permite afirmar que as vacinas têm um elevado grau de segurança, eficácia e qualidade. O sistema está tão bem gizado que a notificação oficial de reações adversas às vacinas pelos profissionais de saúde é obrigatória. As vacinas atualmente são muito seguras e eficazes. É preciso escrever outra vez?

3. As vacinas podem causar a síndroma da morte súbita do lactente…

FALSO! Comprovadamente falso!

A síndroma da morte súbita do lactente nada tem a ver com vacinas, embora, quando se começou a estudar a síndroma, a hipótese de associação tivesse academicamente de ser colocada, mas como o foi relativamente a tudo o que se passava na vida dos bebés dessa idade… todavia, rapidamente se constatou que não era o caso e que não havia qualquer relação entre uma coisa e outra.

O facto de este tipo de morte súbita surgir nos primeiros meses de vida, quando um bebé «leva» muitas vacinas, fez surgir a ideia de que estas seriam as responsáveis… mas é errado, e afirmar isso é tão tonto como dizer que o aleitamento materno causa a morte súbita!

Além disso, quando há mais de 25 anos se decidiu que as crianças deveriam dormir de barriga para cima, a síndroma da morte súbita diminuiu para um quarto… e «por acaso» a percentagem de vacinação até aumentou. Então, se fosse verdade, agora deveriam morrer muito mais bebés com morte súbita…

4. Certo… as vacinas são uma coisa boa, mas estar a gastar dinheiro e tempo com doenças que já não existem é um bocado idiota, não é? Com tanta coisa que há a fazer…

FALSO! Demagogicamente falso!

Como já foi referido — mas nunca é de mais sublinhar —, as doenças evitáveis pela vacinação que foram sendo sucessivamente controladas diminuíram e até desapareceram de alguns países. Todavia, salvo a varíola que, essa sim, foi erradicada do mundo e já dispensa a vacinação no planeta, todas as outras doenças que podem ter pouca ou nenhuma expressão no nosso país ainda existem em muitos outros.

Veja-se o sarampo. Existe endemicamente em Angola e há surtos em Espanha, Alemanha, França, Itália e muitos outros países. Como não se vive num mundo de fronteiras fechadas, se chegar a Portugal um cidadão de outro país com sarampo e encontrar uma população vacinada, nada se passa — foram apenas casos «importados» que não significam um título de jornal a dizer: «Sarampo em Portugal».

Infelizmente, em 2017, como a taxa de vacinação tem vindo a diminuir desde há uns anos, já surgiu um surto «português» com pelo menos uma morte, e já foi, infelizmente, «abertura de telejornal».

Por outro lado, se os portugueses não estiverem vacinados, arriscam-se a apanhar a doença — sarampo ou outra — quando, por exemplo, viajarem para outro país.

curioso como, em tempos de globalização, haja pessoas a pensar em termos de «Condado Portucalense» (e mesmo nesses tempos, eram milhares os cidadãos de outras paragens que cá vinham ter, por terra e mar). As doenças atualmente evitáveis pela vacinação ainda ocorrem em diversas partes do mundo, incluindo a Europa.

Há, assim, dois motivos principais para vacinar: a proteção individual, porque, apesar de algumas destas doenças serem raras em Portugal, qualquer pessoa não protegida pode contraí-la ou, se se deslocar a um local onde a doença é endémica, terá fortes probabilidades de a «apanhar» — e, no regresso, trazer a doença para a comunidade; mas também porque vacinar dá uma proteção à comunidade, a chamada «imunidade de grupo». Nos países e regiões com elevadas coberturas vacinais, a comunidade toda acaba por estar protegida, porque os microrganismos como que encontram uma «barreira» que não os deixa «explodir» e atingir, por exemplo, seja aqueles que ainda não têm idade para se vacinar, seja os que, por qualquer razão clínica ou até social, não o podem fazer.

Numa altura em que se fala de prevenção, evitar doenças e sentimentos solidários e comunitários, custa a entender como um gesto que pode proteger o próprio e os outros é, por vezes, desdenhado.

5. A administração simultânea de várias vacinas pode aumentar o risco de efeitos secundários e sobrecarregar o sistema imunitário, abrindo portas a outras doenças.

FALSO! Cientificamente falso!

Todos os estudos científicos mostram que a administração simultânea de vacinas não causa qualquer problema, dado que a imunidade que cada uma estimula é independente. Aliás, todos os dias a imunidade dos bebés e crianças é estimulada por inúmeros vírus e bactérias com as quais eles contactam, designadamente quando os pais lhes dão beijinhos!

O simples ato de ingerir um alimento provoca respostas imunitárias muito maiores do que uma vacina — aliás, a maioria das bactérias vivem na boca e no nariz das pessoas e não na seringa da vacina, onde não há nenhuma!

Para lá disso, há que ver os aspetos práticos de não ter de ir ao centro de vacinação tantas vezes, de lhe serem administradas menos injeções, e também de se poder elaborar um calendário/programa vacinal que deixa a criança defendida numa idade precoce; caso contrário, se fosse uma a uma, quando se tivesse vacinado totalmente, a criança já teria apanhado a doença!

Um dos objetivos do PNV é a proteção precoce… esperar por tempos mais tardios seria a inutilidade total… e a morte de muitas crianças.

A administração simultânea de várias vacinas, repito, não aumenta as reações secundárias. Como referi, no dia a dia a criança está exposta a inúmeros estímulos infeciosos, estando o sistema imunitário preparado para lidar com todos eles e sendo até muito benéfico… os pais queixam-se do «infectário», porque muitas crianças, no infantário, «estão sempre doentes», mas rapidamente descobrem que, pelos 3-4 anos de idade, a criança deixa de ter infeções e fica «sã como um pero».

Acresce que a tecnologia permitiu o aumento do número de componentes das chamadas vacinas combinadas, ou seja, a proteção contra várias doenças com uma única injeção, diminuindo o número de injeções que a criança teria de receber e a melhor adesão aos esquemas vacinais, principalmente no primeiro ano de vida.

6. Veja o exemplo da gripe. Ter gripe é uma coisa normal e, além disso, a vacina é fraca e até muita gente que é vacinada tem gripe por causa da vacina.

FALSO! Ridiculamente falso!

Em primeiro lugar, a gripe pode ser grave. Muito grave. As consequências da gripe, para lá do incómodo e da baixa do estado geral da pessoa, podem ser pneumonias mortais, sobretudo em idosos e em pessoas com a imunidade diminuída, como nas que estão a ser tratadas para cancros. Uma gripe na grávida pode levar a um aborto espontâneo ou a um parto prematuro, e uma gripe num recém-nascido é muito grave.

A maioria das vacinas da gripe produz imunidade para as três estirpes de vírus desse ano (e elas mudam de ano para ano, daí a vacina de um ano ser diferente da do ano anterior, embora haja estirpes que vão e vêm, como a gripe A).

Uma pessoa vacinada para a gripe não tem gripe. Mas, atenção (e é este o motivo da confusão): chamamos «gripe» a qualquer constipação ou situação viral em que há febre, mal-estar, dores musculares… mas pode ser outro vírus ou apenas aquilo a que os anglo-saxónicos chamam, com muita propriedade, uma «common cold» — um resfriado. Para esses vírus, a vacina da gripe não serve… mas esses vírus não provocam, felizmente, doenças tão graves como a que a gripe pode provocar.

7. Se ter as doenças faz com que a pessoa fique defendida para a vida toda, então é melhor ter a doença do que vacinar com vírus atenuados e coisas do género, não?

FALSO! Perigosamente falso!

A «pequena» grande diferença é que, enquanto a doença causa imunidade, de facto, mas pode levar a consequências desastrosas e à morte, para lá dos dias em que se está doente (ou até reativações a prazo, como a zona, que é consequência da varicela), a vacina desenvolve a mesma imunidade, mas sem essa parte indesejável. Assim sendo, não se percebe este mito.

Acresce que, ao argumento de que as vacinas são caras — e algumas são-no, efetivamente —, as doenças também custam muito dinheiro ao Estado e às famílias, através dos medicamentos, internamentos, anos de vida perdidos, e custos como os do absentismo escolar e laboral, para lá, evidentemente, do sofrimento ou da morte, que não têm preço.

A vacinação é segura, porque é controlada, estudada, «feita à medida»do que o sistema imunitário pede e não, como a doença, com um caráter aleatório e, por vezes, brutal.

8. As vacinas têm mercúrio… pois se ele até está a ser retirado dos termómetros porque é um metal pesado e polui os oceanos…

FALSO! Exageradamente falso!

O tiomersal, que algumas vacinas têm como conservante do princípio ativo, principalmente nas vacinas que são dadas em múltiplas doses, não está presente em quantidades que ponham em risco a saúde humana.

A dose que uma criança recebe durante a vacinação é igual à que recebe durante os 4-6 meses de aleitamento materno, e essa dose é 250 vezes inferior a uma dose que pudesse causar problemas. 250 vezes!

Muitos leitores leem as bulas ou recorrem à Internet e ficam assustados com o que leem. É normal, porque, não sendo profissionais de saúde, e ao mesmo tempo sabendo nós que os espaços cibernéticos estão carregados de fake news, ficam assustados.

Se ficam assustados, é porque querem o melhor para os filhos. Então, leitor, acredite, não apenas na minha palavra, mas em todas as autoridades nacionais e mundiais de Saúde. Acha, sinceramente, que, como cantava o Rui Veloso, «o mundo todo se uniu para o tramar»? Porquê dar ouvidos a vendedores da banha da cobra e não acreditar, por uma vez, nos cientistas?

As vacinas salvam mais vidas do que qualquer outro tratamento médico — incrível, não é? Já temos décadas de utilização generalizada mundial para poder afirmar isto com «letras garrafais», através dos resultados e da inacreditável diminuição das mortes, internamentos e doença, não tendo, em contrapartida, efeitos indesejáveis de relevo. Ainda acredito, leitor, que surja o dia em que uma das maiores descobertas e avanços da Humanidade não seja olhada de esguelha… eu, por mim, agradeço às vacinas a hipótese de eu e os meus filhos e netos não termos morrido por uma doença evitável pela vacinação.

9. Apanhar muitas vacinas no mesmo dia faz mal…

FALSO! Embora se entenda, porque «pai é pai e mãe é mãe»!

Obviamente que custa pensar que o nosso bebé vai levar tantas «picas», mas, garanto-lhe, leitor ou leitora, não há qualquer risco acrescido de reações secundárias quando se administram simultaneamente as vacinas recomendadas para determinada idade — e até podem ser bastantes.

Atrasá-las é que é perigoso e deixa-se o bebé vulnerável a essa doenças. O ideal é cumprir o esquema recomendado, que está estudado para dar a melhor proteção, o mais cedo possível e de acordo com a idade da criança.

Aliás, alguma vez a DGS e os serviços de saúde iriam colocar em risco a saúde do bebé? Nos primeiros anos de vida, o que custa a um bebé é saber que vai ao centro de saúde, não o número de «picas» — se for «às pinguinhas», acaba por ser mais traumático, já sem falar dos dias perdidos, do contacto com pessoas eventualmente doentes, da maçada…

Portanto, leitor ou leitora, não se sinta um «monstro» por «sujeitar» o seu bebé a este «suplício» — pense quão bom pai ou mãe é, em dar-lhe o que há de melhor e como está a prevenir doenças que o poderiam afetar muito, inclusivamente matar… mesmo que, obviamente, como mãe ou pai, lhe custe ver o seu bebé a «apanhar» tantas «picas».

9. As vacinas causam autismo. Toda a gente sabe, e até tenho um sobrinho que…

FALSO! Mentirosamente falso!

O estudo de 1998 que suscitou inquietação acerca de uma possível relação entre a vacina antissarampo, parotidite e rubéola (VASPR) e o autismo era uma fraude. Sim, uma fraude. O autor foi obrigado a retratar-se, dado ter cometido enormes irregularidades metodológicas, para lá da reduzidíssima amostra, e obrigado a deixar de exercer medicina.

Também nos Estados Unidos, um médico que era um dos principais detratores das vacinas, Jeff Bradstreet, pai de uma criança autista, lançou essa ideia e acabou por se suicidar em 2015, ao que se crê devido a um eventual remorso pelas suas atitudes. Outro caso foi o de Andrew Wakefield, um médico que forjou os resultados de um pretenso estudo em que relacionava a VASPR com o autismo; o estudo foi publicado na prestigiada revista Lancet e causou mossa, mesmo depois de um jornalista, Brian Deer, ter investigado o caso e descobrir que tudo era mentira e o médico acabar por ser irradiado da Ordem e deixar de exercer; a revista publicou um pedido de desculpas, cerca de dois anos depois.

O mal estava feito. Nos EUA, o conhecido ator Robert de Niro, pai de uma criança autista, deu voz a essa relação entre as vacinas e a doença, porventura para tentar ter uma explicação para o infortúnio do filho, mas com isso conseguiu que milhares de crianças não fossem vacinadas e muitas tivessem morrido. É compreensível que alguns pais tentem arranjar uma explicação para fenómenos que não são explicáveis, ou para os quais a ciência ainda não descobriu uma razão. Na falta de uma explicação, e para não nos culparmos a nós próprios, aos nossos genes, a culpa «judaico-cristã» leva a que se arranje um bode expiatório. As vacinas, por serem tão «vagas», desempenham um bom papel…

As vacinas são seguras e eficazes e todas as crianças e adultos devem cumprir os esquemas de vacinação recomendados para a sua idade e estado de saúde. O autismo, desculpe o leitor o coloquialismo, «não é para aqui chamado!».

11. Como toda a gente se vacina, escuso de vacinar o meu filho… assim, não tenho, nem a doença, nem os eventuais efeitos secundários da vacina…

FALSO! Arriscado, traiçoeiro e… horrendamente egoísta!

Quem pensa assim pensa errado, por várias razões, entre as quais: é de um enorme egoísmo querer que os outros nos protejam e nós não façamos o mesmo, dado que não estaremos a contribuir para a imunidade de grupo. É como não pagar impostos ou outra coisa qualquer de espírito comunitário — uma atitude abjeta do ponto de vista social.

Por outro lado, todas as crianças devem ser vacinadas nas idades recomendadas desde que não tenham uma verdadeira contraindicação (o que será determinado pelo médico-assistente), porque qualquer criança não vacinada ficará suscetível às doenças e suas complicações (que podem ser muito graves e não se consegue prever em quem surgirão) por não ter imunidade natural (uma vez que não teve a doença) ou adquirida (pela vacinação).

A recusa individual da vacinação compromete o interesse coletivo, já que uma criança não vacinada por opção dos pais se adoecer, pode contagiar outras crianças não vacinadas por contraindicação médica comprovada ou por ainda não terem idade para ter iniciado ou completado a vacinação. Mas, mais, quem lhe garante que o seu filho não irá, daqui a uns anos, viajar para países onde as doenças ainda são endémicas — tuberculose, sarampo… — ou entrar em contacto com alguém doente que veio desses países? Não pretende que ele ou ela vivam num bunker, certamente, até porque isso seria impossível com a globalização da vida das pessoas.

Assim, se optar por não vacinar o seu filho, deverá ter bem ciente que está a fazê-lo correr riscos desnecessários quanto à saúde e quanto à vida — já agora, porque é que não o transporta no carro deitado no banco de trás, sem cadeirinha, ou não o expõe ao sol, sem protetor, durante oito horas seguidas num dia de verão? É exatamente o mesmo tipo de atitude!

Caso tome essa opção — o que espero sinceramente que não faça depois de ler este livro —, há alguns cuidados a ter, nomeadamente: se o seu filho adoecer e tiver de recorrer a um serviço de saúde, deve avisar imediatamente os profissionais de saúde que a criança não recebeu todas ou algumas das vacinas recomendadas para a sua idade, uma vez que é necessário, nestes casos, considerar que a criança pode ter uma doença evitável pela vacinação. Se aparecer na escola alguma criança com uma doença evitável pela vacinação, o seu filho terá de cumprir um período de afastamento da escola e de outras atividades de grupo até haver a certeza que não contraiu a doença e não a irá disseminar.

Esse período varia conforme a doença (que pode ser de dias ou semanas). Se o seu filho viajar, é bom ter a noção de que muitas das doenças que estão controladas no nosso país ainda existem «à grande» noutros países, como, por exemplo, o sarampo, pelo que o seu filho não estará protegido. Para além de adoecer, pode trazer de novo a doença para Portugal quando regressar e contagiar outras crianças não vacinadas. Quanto maior for o número de pais que optam por não vacinar os filhos, maior é o risco de disseminação das doenças evitáveis pela vacinação. Ao decidir não vacinar, não põe só o seu filho em risco, mas também toda a comunidade.

Todavia, sei que o leitor ou leitora é inteligente e que, se ainda não vacinou o seu bebé, irá vaciná-lo, quanto mais não seja, porque o ama e quer o melhor para ele.

12. Os ministérios da Saúde estão feitos com as multinacionais, com a alta finança e com os países ricos que exploram os mais pobres… aliás, são as multinacionais que disseminam as doenças, para depois venderem medicamentos e vacinas.

FALSO! Se não fosse tão grave, dava para rir.

É… e nos séculos XIII, XIV, XV e XVI, quando houve epidemias de peste negra, tuberculose, sífilis, ou gripe «espanhola» já em 1918, para só citar algumas, eram seguramente os índios americanos, organizados em multinacionais (apesar de não haver aviões nem Internet) que faziam isso tudo. Depois, com o que ganhavam, compravam amuletos e faziam totens…

Se o ridículo matasse, haveria muita gente que já tinha ido… o pior é que, com base nestes mitos e fake news, propalados pelas redes sociais, muitas pessoas de carne e osso morrem porque acreditam nestes profetas que dizem as maiores mentiras impunemente.

Claro que uma multinacional que fabrica vacinas quer recuperar o investimento de milhões que fez, e ao mesmo tempo, numa sociedade de economia de mercado, quer dar aos investidores e acionistas o maior rendimento possível. Isso acontece tanto com vacinas, como, por exemplo, com sapatos ou lâmpadas.

A questão, aqui, é mais o que os Estados podem e devem fazer, já que se trata de uma questão de saúde pública, em termos de regularizar preços, negociar condições e realizar concursos públicos internacionais em que se podem conseguir custos de cerca de um terço de uma compra simples de «venda ao público». Quanto aos Estados produzirem vacinas, torna-se impossível por se exigir uma tecnologia que não têm e as vacinas passarem a ser incrivelmente mais caras e menos fiáveis.

 

 

Mário Cordeiro: “Na escola primária há menos tempo de recreio do que numa prisão a sério”

Setembro 16, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://ionline.sapo.pt/ a Mário Cordeiro no dia 30 de agosto de 2017.

Marta F. Reis

Pediatra admite-se apreensivo com as gerações mais novas e com a sociedade do agora. Para a rentrée, prescreve mais filosofia.

Aos 61 anos, Mário Cordeiro mantém o consultório na Av. Guerra Junqueiro, mas são variados os interesses. Dos projetos editoriais aos passeios com a Tenrinha, passando pela paixão pela história de arte, conversar é outras das coisas que gosta de fazer. Foi assim, ao sabor do tempo, numa manhã de verão em Lisboa.

Pai de cinco filhos, três a passar pela adolescência, o pediatra admite que a pedalada é diferente e os desafios também, mas a idade trouxe-lhe mais calma e sabedoria. Nos últimos tempos, sente-se um bocado pessimista com o rumo da sociedade e um certo umbiguismo dos mais novos. Disciplina-se desde cedo, avisa, sob pena de estarmos a criar uma geração de narcisistas.

É médico pediatra há mais de 30 anos. Tem cinco filhos, cinco netos. Ainda se surpreende com as saídas das crianças?

Acho que sim. Surpreendo-me sempre com o ser humano e com a sociedade, em constante mutação, com coisas inimagináveis há meia dúzia de anos. Como as pessoas resultam muito da sua interação com o contexto em que vivem, é natural que acabem por mudar.

Com toda a informação e estímulos, podemos dizer que hoje os miúdos estão mais espertos?

Não acho que isso seja verdade. Se calhar, para os nossos avós que só tinham uma telefonia, sabermos agarrar num comando de televisão e mudar de canal, mesmo antes desta parafernália de canais, era capaz de gerar a mesma reação de espanto que hoje temos com as coisas que os miúdos são capazes de fazer. Mas não acho que os miúdos sejam mais inteligentes. Têm um enorme acesso a informação, muitas vezes de mais. Uma informação que não chega a pouco e pouco, vem em catadupa. Coisas de menor de dimensão, não digo um acidente na Madeira, mas algumas coisas que hoje chegam na hora demorariam uma semana a ser conhecidas.

E isso traz consigo o quê?

Há um apelo maior a estarem informados, a procurar informação. Agora perceber o que se está a passar, saber relativizar, aí é que falha e isso não mudou. Mesma a relação com a tecnologia não terá nada de especial. Muitas vezes ouvimos dizer que o cérebro funciona como o computador… É o computador que funciona como cérebro. É uma extensão do cérebro em termos de funcionamento e isso leva a que quando estamos a pensar em alguma coisa, se pudermos materializar esse raciocínio puxando o rato para um lado ou deslizando o dedo, vamos fazê-lo. É intuitivo, os nossos avós e bisavós é que não o tiveram.

Ainda assim, uma das constatações dos mais velhos é que hoje os recém-nascidos até abrem os olhos mais cedo.

As pessoas é que não estavam despertas para que um bebé pudesse abrir os olhos tão cedo. Há pais que me perguntam: “Quando é que o nosso bebé começa a ver?” Vê ainda antes de ter nascido. É um dado cientifico irrefutável. Os bebés não mudaram, as pessoas é que não lhes ligavam como ligam hoje. O conceito era: o bebé come e dorme, interessa que esteja quentinho, mudar a fralda e dar-se uns miminhos, mas nos primeiros tempos era um sujeito passivo do amor dos pais. Só mais tarde, quando sua excelência começava a barafustar, ali a partir dos seis meses, é que se dizia que o bebé espevitava, isto quando desde o início vê, ouve, tem competências. A sociedade hoje dá mais atenção às crianças e, com isso, elas começam cedo a apreender tudo. Um bebé está aqui e olha para esta lata de Coca-Cola. Se nunca lhe disser o que é, não sabe. Se convive com os pais, se vê o pai pedir uma cola, vai identificando a lata, ligando as coisas. As crianças hoje têm esta excelente oportunidade de conviver com o mundo adulto, os pais falam mais com elas e elas vão pescando mais informação. Antes ninguém lhes explicava nada, é só essa a diferença.

Sente que já existe essa perceção generalizada da mais valia dos estímulos? Às vezes até aquela pressão do “se não fizer isto o meu filho vai ser um burro”?

Cada vez mais, às vezes em excesso. Poderá haver exceções, mas acho que a maior parte dos pais já sabe que uma criança tem bastante para dar e se, puxar por ela, terá mais hipóteses. Como um jogador de futebol ou qualquer talento: é preciso treino para dar alguma coisa.

A partir de que idade é que uma criança começa a ser manipuladora?

Desde cedo, mas isso é o normal. Em qualquer situação, uma pessoa tenta ver como conseguir o melhor para si. Um bebé a partir dos nove meses, um ano – quando já passou à história aquela angústia de saber se vai comer ou não, se estão garantidas as suas necessidades básicas – começa a sentir maior autoestima. Começa a perceber que consegue fazer muitas coisas em termos corporais, que consegue comunicar mesmo que atabalhoadamente. De repente sente: “Afinal não sou um suplente da equipa B, estou em campo na equipa A”, e isso dá-lhe uma pujança ao ego incrível. Numa fase em que uma criança se vê a partir de si, em que acredita que o seu umbigo é o centro de tudo e que é a pessoa mais importante do universo, começa essa manipulação. E depois quando os adultos pedem uma gracinha, para bater palminhas, o artista sente-se ainda mais no centro do palco e vai tentando fazer o que quer. Percebe que há um caminho a percorrer, coisas a conquistar e começa a ver os trunfos que tem. Aquele arzinho, o choro, a tossezinha para interromper o pai e a mãe quando sente que não é o centro das atenções, os guinchos. É tudo para testar até que ponto é capaz de manipular. Vê-se muito quando caem e reforçam a situação de fragilidade com aquele “dói dói dói”.

Educa-se a partir dessa idade ou é deixar passar essas primeiras fitas?

Acho que deve haver traços de educação coerente e consistente ao longo do tempo. Não é por acaso que uma pessoa aos 18, 20 ou 30 anos se revela ou se constitui uma pessoa narcisista, sem empatia.

Mas esse traço de personalidade já nasce em parte connosco, não? Qual é o peso da educação?

Toda a gente pode ser um narcisista. Claro que há fatores intrínsecos ou extrínsecos que podem levar isso a agravar-se ou não, mas vem sobretudo da falta de limitação externa. Todos nós somos candidatos, uns mais ou menos, mas todos preenchemos o papel de candidatura para sermos tiranos. Felizmente, depois, os nossos pais, a sociedade e até o nosso superego, o nosso polícia interno, intervêm: as pessoas aprendem que não é caminho e percebem que, além disso, não se iam sentir muito felizes. Agora isto reprime-se desde cedo.

Como?

O tal bebé que comeu, que está bem disposto no chão a brincar. Os pais finalmente vão para a mesa jantar e estão descansados. O bebé vê aquela cena e pensa qualquer coisa do género: “Olha-me aqueles meus dois escravos a libertarem-se” e começa numa guincharia. Aí não há hipótese: os pais têm de dizer “xiu, caluda. Agora estou a falar com a mãe e tu estás calado”. E mesmo que a criança continue a chorar, naquela vitimização de que ninguém gosta dela, os pais devem continuar a conversar sem dar muita atenção, sem se enervarem muito nem entrarem também naquelas grandes explicações: “não vês que eu tive um dia muito difícil no trabalho, etc..”

Não é pedagógico? Às vezes há essa tentação de falar com eles como se fossem mais crescidos.

Entrar nessas explicações que a criança não percebe não é muito produtivo, não percebe.

Depois, quando os pais são mais assertivos em público, acabam por surgir uns olhares recriminadores. Por exemplo, se uma criança desata aos berros no supermercado e se tenta dizer “parou”. É como se estivesse instalada uma certa vigilância…

Há uma certa vigilância que me parece idiota. Lá estão as mudanças na sociedade. Passou-se de um país onde se podia bater, zurzir e queimar crianças que ninguém se metia – e os vizinhos até sabiam mas “era lá com eles” – para um país onde há leis e regras contra os maus tratos infantis mas as pessoas estão muito mais indignadas e intrometidas. Exagerou-se. Passou-se de ver um pai espancar um filho e ninguém intervir para ver-se um pai que fala mais rispidamente e meterem-se logo na conversa a perguntar se aquele pai não esta a ser demasiado duro com o filho.

De onde vem essa inversão?

De uma certa vontade de fazer o bem, certamente, mas também de protagonismo e de necessidade de censurar o outro.

Acha que as redes sociais, tendo dado microfone a toda a gente, acabaram por alimentar essa imiscuição na vida dos outros?

Também. As pessoas gostam de ser justiceiras. Apanham ali uma cena que nem viram desde o início mas fazem logo o seu statement e depois voltam as costas com ar de Lucky Luke.

Há uma tentativa maior de proteção das crianças do que havia no passado. Tem o efeito desejado?

Acho que com a voragem do tempo e com a autonomia que conquistam nas redes sociais está a haver um certo paradoxo: têm muita informação mas esquecem-se de que a informação, só por si, não vale nada. Precisam de experiência e sabedoria. E depois acham que sabem muito, e como sabem muito, podem atuar pensando pela sua cabeça, mas não podem porque não têm maturidade. Há crianças de 12 anos que são mais altas do que a Marta. Porque não podem conduzir um automóvel? Se calhar usavam melhor toda a tecnologia. Não podem porque não têm uma visão sistémica: esqueciam-se da pessoa que vai atravessar a estrada, do semáforo. Essa visão de ecossistema não é algo que um adolescente possa ter. E, de facto, eles conseguem fazer tudo nos computadores, mas depois falta-lhes essa visão e esse filtro. A autonomia a navegar não é acompanhada de uma autonomia no pensar, no estruturar ideias e na tomada decisões. Resultado: temos bebezolas enormes convencidos de que sabem tudo e que vivem muito no hoje, no agora. É levantarem-se de manhã, aguentar uns “stôres” pelo caminho e depois dominar nas redes sociais e as mensagens.

E os pais?

Muitos pais deixam andar e vai faltando uma visão mais a médio prazo. É importante um jovem ter noção de que o seu percurso escolar se dirige algures e o que é que pretende desse algures. Tomar decisões, pensar a médio prazo não é compatível com querer viver só o hoje.

Os adolescentes não foram sempre um bocado inconsequentes?

Não tanto, parece-me. Os pais acabavam por estar mais disponíveis para coisas tão simples como ensinar a mudar um pneu de um carro ou a construir um móvel e aplicar bondex. Há coisas que se perderam.

Mas não será também porque hoje os sonhos parecem mais difíceis de concretizar, maior precariedade no trabalho.

Não creio. O que acho é que se contemporiza hoje mais com a falta de rigor e com o “tanto faz como fez”. Em coisas pequenas. Ali perto de casa há uma zona de calçada portuguesa que tinha um desenho simétrico. Quando vieram arranjar umas caixas e foi preciso calcetar de novo, puseram tudo à balda. Nem é uma questão de esforço, porque pôr as pedras de uma maneira ou de outra ia dar ao mesmo, mas é uma questão de brio e de perceber que havia ali um desenho que era importante completar. Mesmo que isso não interessasse nada ao calceteiro.

De onde acha que vem essa erosão do brio da sociedade?

Odeio generalizações, mas vem muito da família, da escola e da sociedade, deste viver apenas o hoje. É uma sociedade que se está a demitir de reconhecer o brio, desde miúdos. Limita-se a estas coisas dos rankings, dos quadros de honra, que são sempre instrumentos muito enviesados dependentes de duas ou três disciplinas e que não avaliam o estudante como pessoa.

Vive perto de uma escola pública que este ano esteve no centro de uma polémica na altura de inscrições, com suspeitas de moradas falsas. Como vê esta corrida ao Liceu D. Filipa de Lencastre?

Há outros casos assim em Lisboa, no Porto ou em Coimbra. São escolas que atingiram patamares de excelência educativa, mesmo que os alunos digam sempre que há “stôres” horríveis. O facto é que há escolas e escolas e esta é uma boa escola. Conheço bem, os meus filhos estudaram lá.

Percebe os pais que sentem a tentação de apresentar uma morada falsa?

Percebo que exista uma tentação de pensar em fazê-lo. Sobretudo se uma pessoa até vive perto e vai demorar mais tempo no trânsito para pôr o filho na escola dele e que nem tem tantas atividades. Se o critério é a morada, deixa-me cá arranjar… As pessoas obviamente fazem-no. Não é legal, mas como toda a gente faz… E sobretudo porque há uma sensação de injustiça: se morar naquela rua pode e naquela outra já não pode.

Não é preocupante que se formem depois estes guetos de bons alunos, escolas muito concorridas e outras que ficam com os alunos que sobram?

Acho que não se formou um gueto. Estive na associação de pais durante nove anos e o que conseguimos foi desenvolver muitas atividades extracurriculares em conjunto e ir além das disciplinas centrais.

E isso é replicável em todas as escolas, mesmo em bairros mais problemáticos? Esta é uma zona de Lisboa com maiores rendimentos.

Creio que aqui mais de 90% dos pais têm licenciatura, mas acredito que é possível. Não é uma licenciatura que dá capacidade de empatia, de solidariedade. É preciso olhar mais para os alunos, perceber de que é que eles precisam, repensar a forma como se dá aulas. Parece-me que a imaginação dos professores tem de melhorar um bocadinho em muitos casos. E depois os pais podem formar associações, mobilizar-se. Em Lisboa há protocolos com as câmaras para financiar as atividades extracurriculares. Se a escola não tiver ninguém disponível para fazer esse trabalho, vai contratá-lo a uma empresa, que cobra x por esse serviço. Se a associação de pais gerir esse dossiê já sobra mais dinheiro para aplicar nas atividades.

Mas pais de uma boa escola se calhar estão mais motivados.

Isso tem muito que se lhe diga. Quando estava na associação de pais da EB1 eram 400 alunos, 800 pais e mães, e apareciam à roda de 10 a 15 pessoas. E digo-lhe, muitas vezes era angustiante. Éramos mais da associação do que os pais a aparecer. Os pais nunca foram muito às reuniões. Gostam que se faça, mas não aparecem. Claro que às vezes a pessoa pensa: para que estou aqui em vez de ir para casa? É o tal espírito de missão. E quando há ideias giras e isso tem algum eco na direção das escolas, mais motivação ainda.

No fim do ano letivo, uma das suas crónicas no i condenava a postura de Mário Nogueira e da FENPROF por terem feito greve num dia com exames. Vê nos professores um dos problemas do ensino?

Conheço professores excelentes e professores horríveis. Acho que a posição do sindicato é constantemente de defesa de uma série de coisas que compreendo que precisem de ser defendidas, mas se calhar devia haver uma Ordem dos Professores, para se focar mais na parte pedagógica e académica, para ver como os alunos poderiam aprender mais.

São, ainda assim, uma profissão um pouco maltratada. Suportar grandes deslocações, estarem até a última sem saber onde ou se vão ser colocados.

Isso sem dúvida, relatos como vemos de professores que se levantam às 5 da madrugada para ir dar aulas são inacreditáveis. E não percebo como é que estamos para começar as aulas e nem os professores sabiam onde iam estar colocados, nem os pais sabem os horários. Sendo o número de alunos algo bastante previsível, tirando uma criança ou outra que emigra ou muda de escola, em abril devia-se fazer logo tudo para que as pessoas, quando fossem de férias, soubessem mais ou menos com o que contar.

Esta instabilidade não contribuirá para uma depreciação do papel do professor?

Parece-me que contribui para uma certa desvalorização. Mas há muitas coisas que deviam mudar. Em primeiro lugar é errado que continue a chamar-se Ministério da Educação e que não seja Ministério do Ensino e da Aprendizagem. Isso fazia logo a diferença. Educar remete para uma relação paternalista quando não é isso que se pretende. Depois creio que as matérias deveriam ser reduzidas no sentido de perceber o que interessa saber. Multiplicar potências: para que é que isso serve em termos práticos?

Podemos sempre argumentar para que servem outras matérias em termos práticos, a História…

É diferente. A História serve de contexto, mostra como o ser humano interage em sociedade. Agora, multiplicar potências… Depois é preciso acabar com aquelas aulas de hora e meia em que os alunos, coitados… Quando vou às reuniões de pais sento-me naquelas cadeiras e, passado uma hora, é uma sova de cadeira.

Quanto tempo é que um miúdo está concentrado?

Uns 16 a 18 minutos.

Isso também não dava para nada.

Não era preciso acabar a aula, mas fazer uma pausa ali ao fim de um quarto de hora, dizer agora vamos lá espreguiçar-nos, falar de outra coisa qualquer. Um bom professor não tem de ter medo de estar a falar de matemática e parar para comentar um golo do Ronaldo no dia anterior, o atentado em Barcelona.

Tem um professor que o marcou?

Tive vários. Tive o Rómulo de Carvalho no Pedro Nunes, que fazia as coisas assim. O Jaime Leote a Matemática.

Porquê esses e não outros?

Íamos para as aulas deles com gozo. Íamos aprender.

Hoje os miúdos conseguirão ter esse sentimento? Conseguem ir à internet ver tudo.

A internet não ensina. Permite saber tudo, mas não fornece as ligações. Antes o professor era a fonte principal de informação. Uma pessoa que soubesse ler, escrever e contar tinha mais hipóteses de passar de uma profissão no campo para outra com melhores perspetivas. Bastava. Isso hoje é um dado adquirido, o ensino tem de mudar. O que é preciso é dar competências, potenciar os talentos. Porque é que os alunos têm todos as mesmas matérias? Porque é que não há mais aulas interligadas? Não fazia mais sentido as Invasões Francesas serem dadas pelos professores de História, Português e Francês em conjunto? Creio que é necessário interligar mais as coisas. Porque se é só para despejar a informação, é como diz, há a internet. E depois acho que seria preciso refletir sobre onde é que estes miúdos que têm hoje 15, 16, 17 anos vão estar daqui a 20 anos e de que é eles vão precisar.

As profissões do futuro?

Sim. Podemos falhar nessa análise, mas já temos alguma noção. Tivemos alguma disrupção, mas mesmo na tecnologia ultimamente não tem havido nada de muito novo. E mais assustador para mim: há décadas que não há uma ideia filosófica nova. Produzem-se teorias económicas, produzem-se vipes do “morte ao estrangeiro/venha o estrangeiro”…

Como a turismofobia em Lisboa.

Sim. Esta discussão do “és pró ou contra” turistas é um disparate.

Não se deixa contaminar?

Não, pelo contrário. Pois se eu adoro ser turista, não havia de gostar que os turistas viessem ao meu país? Na minha rua já há oito alojamentos locais. A passear a Tenrinha à noite era o deserto total e agora é menos, sinto uma maior segurança. Mas o que queria dizer é que temos estas reações umas atrás das outras e menos reflexões de fundo sobre quem somos, para onde vamos. Está-se a viver o dia a dia sem pensar globalmente. Era preciso mais Eduardos Lourenços.

O que mudou?

As pessoas distraíam-se menos.

Não eram tão forçadas a pensar sobre os casos que se sucedem, sobre o debate do momento.

Às tantas cansa.

Vivemos este verão o drama dos incêndios. Perdeu um familiar bombeiro.

Vivi-o de perto e sinto que muitas vezes a discussão devia ser mais contida. Como no terrorismo. Mesmo antes de Barcelona todos os dias havia uma notícia de fulano que esfaqueou, atropelou. À boleia do terrorismo noticia-se tudo e questões como a violência doméstica, que continua a existir, ficam para um segundo plano.

A discussão mediática diz alguma coisa às famílias enlutadas?

São esferas diferentes. É evidente que tem de se perceber tudo o que se passou para que não se repita, como em qualquer coisa que corre mal, mas isto evidentemente demora tempo. O timing das famílias não é nem podia ser o timing da investigação. Para a família, a dor é tão grande que a pessoa tenta arranjar explicações, responsabilidades, como quando se tem um cancro e se pensa se o médico não podia ter visto mais cedo a massa. Mas é demais. Veja-se o caso do avião que aterrou na praia. No próprio dia passados minutos já havia especialistas em brevês a dizer tudo e mais alguma coisa, como se pudessem saber ao certo o que se passou.

Esta discussão piora o luto das famílias?

Piora, sem dúvida. Para não falar de quando dá ideias, basta ver os casos em que pessoas com problemas mentais copiam ataques com facas e carros, mesmo sem uma intenção terrorista. Ou a transmissão dos fogos nos casos dos pirómanos. Uma vez vi um pirómano falar do prazer de ver as labaredas. Ele não via a floresta a ser destruída, falava do cheiro da lenha a queimar, daquele crepitar, uma experiência sensorial que lhe dava prazer. A televisão ao transmitir isto, na minha opinião, potencia novos casos. E há outros efeitos colaterais. As pessoas ficam assustadas e até se sentem quase complexadas de estar a desfrutar das férias. E depois tudo o que é em overdose dessensibiliza. O nosso sistema imunológico funciona assim. As pessoas estão muito alérgicas aos ácaros fazem vacinas até saturar o mecanismos de resposta. Aqui acontece exatamente o mesmo.

Qual é o perigo da dessensibilização?

É a banalização do mal de que falava Hannah Arendt. Um certo alheamento. Esta repetição até exaustão das mesmas imagens não faz nada bem. Andamos a dizer aos pais que deve haver poucos estímulos antes de ir dormir, uma história para adormecer e depois os adultos vão para a cama assustadíssimos à espera que rebente a bomba. Dormem mal, andam irritáveis. Isto é acentuado no meio urbano. No meio rural, acha que aquelas pessoas estiveram a noite toda a ver os debates na televisão quando têm de acordar cedo para ir para o campo?

Estamos a terminar o período de férias. Parece um paradoxo, mas para muitas famílias são um período de stress.

São. As férias não deviam ser uma repetição da vida do dia a dia. Deviam ser um polo endorfínico, de calma, para quem tem um polo adrenalínico no dia a dia. Ou o contrário, para quem tem um dia a dia mais tranquilo. O que se passa é que as pessoas organizam muito mal as férias. Planeiam tudo, o hotel, a praia, o sítio, mas não pensam naquilo de que estão a precisar física e psicologicamente. Parece que há uma vergonha de dizer não fui ao Algarve, não fiz uma viagem, não fui às Seychelles. E depois esgotam-se nisso, mais no dinheiro que têm de arranjar. Como vivemos numa época de muito show off, de selfies, de mostrar nas redes sociais onde estamos, dizer que estou no Gerês tem menos sucesso do que dizer que estou nas Seychelles. Então se a pessoa puser que ficou em casa a dormir ou foi passear o cão…

Pensam que está deprimida.

Possivelmente. E depois, como as pessoas vão ver o número de likes e comentários, o “ah que lindo”, “que inveja”, com não sei quantos “eeee”, é uma ditadura terrível. As pessoas não são verdadeiramente livres: só sabem o que foi bom ou mau consoante os likes que têm.

Perde muito tempo com as redes sociais?

Zero. Tenho uma página de Facebook onde não meto nada, as pessoas é que de vez em quando metem lá coisas.

Nem a seguir os seus filhos?

Os mais velhos não metem grandes coisas, os mais novos menos. É mais o Instagram, gostam de fotografia.

Os mais novos já têm telemóvel?

Os mais novos têm 14, já têm. Mas tento passar-lhes que há mais coisas a fazer, nomeadamente ler, ir passear o cão, conversar. Interagir.

É fácil fazer a gestão enquanto pai?

Tem de ser pelo exemplo. Nem eu nem a minha mulher andamos no Facebook nem agarrados ao telefone à hora das refeições.

Já teve aquela cena de ter pai, mãe e criança de telemóvel na mão na consulta.

Já. Numa das crónicas no i escrevi sobre uma adolescente que não largava o telemóvel.

Foi na crónica em que falava dos pais-multibanco.

Muitas crianças veem os pais assim. É “o pai dá, o pai compra”. Como não sabem a história da família, não têm sequer ideia do custo das coisas. Que o avô ou bisavô nasceu numa aldeia, que ia de bicicleta na neve para a escola. Não lhes interessa sequer saber. “Lá vem a história do pobrezinho”. Acho mesmo que os jovens estão a recuperar uma faceta narcísica do “tenho direito a tudo”.

Não será um gap geracional… está a ficar mais velho, menos tolerante com as falhas das gerações mais novas.

Talvez, mas existem diferenças. Quando éramos miúdos tudo era uma oportunidade para nós. Quando fazíamos InterRail era com pouco, íamos ao supermercado comprar comida, ficamos sentados a conversar, a observar as pessoas. Hoje os miúdos querem mais coisas e ao mesmo tempo são muito mais apegados aos pais.

Sente isso nos seus filhos mais novos?

Sim, talvez. Este ano tentámos mandá-los para campos de férias, fazer coisas diferentes. Se não depois cria-se uma rotina em que eles acomodam-se a este conforto – terem cama e roupa lavada, terem televisão, acesso à internet – e para eles é o status natural da humanidade.

Uma proposta nas suas crónicas era mais trabalhinhos de verão.

Sim, não faz mal a ninguém. Uma das tarefas deles foi andarem a pintar umas paredes lá de casa, a apanhar o lixo. Tem de ser. Podia pagar a alguém, mas havia tinta e, em vez de chamar alguém, fizeram eles. Até para eles perceberem que quando tiverem a sua independência económica não vão ter dinheiro para tudo, a menos que ganhem o euromilhões ou façam algum negócio escuro. É fazê-los perceber de alguma forma que não vão ter um T4 com vista para o Tejo, vão arranjar um T1 ranhoso algures e fazer a sua evolução e isso não tem de os fazer infelizes. Se tiverem uma vida interior intensa, uma vida cultural e relacional, serão felizes na mesma. Mas confesso-lhe que estou apreensivo com as gerações mais novas…

Pessimista?

Sim, um bocado pessimista com o desinteresse e ignorância que se vem instalando.

O que lhe faz mais confusão no consultório?

Às vezes a ignorância de pais e filhos sobre factos ou até palavras da língua portuguesa. Wittgenstein tinha razão quando dizia que o que mostrava a evolução das sociedades era a evolução da palavra. Desde os “grunfes” da pré-história, o ser humano teve necessidade de arranjar designações para as coisas que conhece, de construir frases elaboradas. A escolha da palavra numa sociedade evoluída não é à balda. E hoje muitos adolescentes estão com uma linguagem paupérrima.

Sempre houve o calão, o bué.

Não é o bué, é o que fica para lá disso. E o que fica é um discurso muito pobre. Não há aspetos metafóricos, não há associação a memórias. Acho que antes havia mais imaginação e criatividade.

Os mais pequenos têm-na.

Sim, mas depois perdem. Acabam formatados por uma escola que não estimula a criatividade nem o pensar pela cabeça. E depois diz-se que há muitos miúdos hiperativos: havê-los há, mas há sobretudo muitos miúdos que não conseguem estar ali encerrados naquela prisão, onde há menos recreio do que uma prisão a sério. As horas de recreio numa prisão são superiores às horas de recreio numa escola primária.

Depois das férias, como se desacelera os miúdos?

Muitos estarão com vontade de regressar. As férias para as crianças tornam-se um bocado repetitivas. Para os mais novos são totalmente disruptivas: mudanças de casa, de pessoas, come-se quando se come. E por isso é importante, uns dias antes do regresso, começar a haver um reset, entrar nos ritmos de dormir. E depois eles dizem “mas amanhã não tenho aulas”. É começar a deitar mais cedo, gradualmente. E começar a refrescar a memória sobre as matérias dadas no ano anterior. Não é estudar, mas reler para que haja alguma sequência. Não vai tirar mais que meia hora por dia.

A última vez que falámos com mais vagar há dois anos ia aprender violino para acompanhar um dos filhos mais novos. Conseguiu?

Aprendi, comecei no final desse verão, tenho aulas e tento todos os dias estudar um bocadinho.

É muito diferente ser pai de um adolescente aos 60 do que aos 30?

Começam logo por ser realidades diferentes: os anos 80 são diferentes de 2017. Mas é sempre um desafio. Já não tenho aquela pedalada enorme, mas tenho uma calma e sabedoria maior.

Qual é o projeto para a rentrée?

Vou publicar um livro sobre vacinas. Estou a escrever outro sobre “pais sem pressa”.

O seu estilo?

Sim. Será sobre como contrariar esta corrida para nenhures, uma maratona sem meta à vista que não faz qualquer sentido. E dar dicas para, no dia a dia, viver com mais calma sem ser preciso enfiarmo-nos numa gruta na Serra da Estrela. A nível pessoal tenho dois livros de poesia mas há ideias para peças de teatro, romance. E depois leio livros e livros de História de Arte.

Concluiu há poucos anos o curso.

Sim e muda a perspetiva. Ainda agora em Salamanca… Não é que tenha alguém para impressionar, mas percebendo porque é que há umas igrejas mais escuras e outras mais claras, o porquê dos arcobotantes, tira-se mais das coisas.

Onde gostava de ir?

Itália, é um repositório de arte. Gostava de voltar à Toscana.

E em Lisboa, quais são as suas paragens prediletas?

Em termos de museus, o Museu de Arte Antiga, o Museu do Azulejo e agora quero ver se vou à Cordoaria ver a exposição dos guerreiros. Também queria ver a do Van Gogh. Foi um dos primeiros museus que visitei no InterRail, em Amesterdão. Lembro-me que escrevi um poema muito emotivo sobre a vida dele.

Ter sido um pintor incompreendido.

Sim, estava lá sentado e foi uma reflexão sobre aquela dicotomia de estarmos ali num museu moderno a admirar as obras ignorando o sofrimento da vida dele.

Sente-se mais sensível hoje a essas ironias?

Sempre gostei muito de refletir e de ler compulsivamente o que me faz talvez irónico, às vezes sarcástico. Felizmente a minha mulher partilha essa paixão comigo e os miúdos também vão crescendo nesse ambiente.

Que livro o tocou este verão?

Gostei imenso de um que é em homenagem à minha parceira, um livro sobre um beagle, “Uma Prenda para Bertie”.

Sente que a Tenrinha é como um filho?

Não é… Mas que sinto que faz parte da família sim. E que respeitar os animais e natureza é uma melhor forma de respeitar a humanidade. Não ponho cães aqui e humanos ali, é tudo parte da natureza. Um dia que tivemos de abater uma árvore na Lourinhã quase que chorámos. É um bocado pueril, mas ponho-me a pensar o que é que esta oliveira já viveu, há quantos séculos está aqui. E acho que a natureza faz-nos ver o quão ridículos somos. Entrei na faculdade com 16 anos. É um bocado disto que falo. Os tempos eram outros, mas com a idade dos meus filhos já debatíamos a existência de Deus, as questões metafísicas, a guerra do Vietname e hoje acho que conversam menos sobre estas questões. Não éramos um grupo de contestatários, mas discutir aquelas coisas dava-nos um gozo enorme, exercitar a teorização, filosofar, debruçarmo-nos sobre a vida.

É a prescrição para a rentrée?

Sim, muito mais filosofia, procurar perceber o outro, não rotular logo e olhar mais para a beleza natural e possível à nossa volta, sabendo que o mundo tem coisas más. É bom compensar esse lado agressivo com a beleza, as folhas que começam a cair. Deleitarmo-nos com a nossa existência. Não é no leito de morte que vamos ter tempo para isso

 

 

 

O valor do trabalho – pais-multibanco

Agosto 20, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mário Cordeiro publicado no https://ionline.sapo.pt/ de 8 de agosto de 2017.

O conceito de pais-multibanco está a pegar… e o desfasamento entre o conforto em que muitos adolescentes vivem e o valor do trabalho que proporciona todas essas benesses é cada vez maior. Basta só pedir (ou exigir) porque o pai paga.

Há dias, numa consulta, uma jovem de telemóvel ligado, mesmo depois de os pais, timidamente, lhe dizerem para desligar, estando-se ela completamente nas tintas para o que eles diziam, e de eu próprio me ter imposto, aí com um bocadinho mais de sorte, dizia que não entendia porque é que não lhe davam o telemóvel e que precisava dele. “Para quê?”, perguntei. Ela olhou para mim, para os pais, e disse: “Para ao menos estar a ver o que os meus amigos postam no Insta ou ver o que há no Face… Podem estar a passar-se bué de coisas e eu aqui…”

Os pais abriram a boca para, durante largos minutos, desabafarem, dizerem que não conseguiam fazer nada dela (entretanto, já a mãe, para a calar, lhe tinha dado o seu próprio telemóvel) e que estava ligada todo o santo dia à internet.

Perguntei aos pais o que é que aquela adolescente, em férias desde meados de junho, iria fazer até às aulas. “Nada”, foi a resposta. “Está em casa e irá connosco para a aldeia duas semanas, que é o que podemos tirar lá na loja.” A miúda olhou sobranceiramente para os pais e disse: “E já que tenho de aturar esta seca, ao menos podiam comprar-me o novo iPhone! Sinto-me uma nerd, com uma coisa tão cota.”

Resolvi acabar com aquela conversa e disse à miúda que a queria observar, e quando ela estava deitada na marquesa, depois de lhe medir a tensão arterial, deixei-a lá, com o aparelho colocado, e peguei no meu telemóvel e fingi estar a ligar-me à net.

Passado um bocado bem largo em que os pais e ela mantiveram o silêncio, ela reagiu: “Eh! Então? Posso sair daqui?” Fiz um gesto a pedir silêncio e disse: “Não, não podes que ainda não acabou. Mas agora tenho de ver o que os meus amigos colocaram no Face e ainda responder a umas coisas no WhatsApp.”

Consegui manter-me no telemóvel enquanto a via cada vez mais perdida e irritada, até que disse: “E não é a altura da minha consulta? Acha bem estar com o telemóvel na minha consulta? Está a dar cabo dela e a atrasar-me.”

Pousei o telemóvel e disse: “Ora viva quem acordou! Pois a primeira a tentar dar cabo da tua consulta e atrasá-la foste tu porque, que eu saiba, desde que aqui chegaste, não se falou de outra coisa nem tu largaste o telemóvel.” E aproveitei para perguntar, enquanto retomava a consulta: “O que vais fazer nas férias?” Ela olhou para mim com ar triste (não parecia a mesma miúda arrogante e pespineta de há minutos) e exclamou: “Não tenho nada para fazer!” Enfim, perante a passividade total dos pais, verifiquei que, de facto, aquela jovem não tinha mesmo nada para fazer. Não lia um livro, não tinha um trabalho nem se encontrava com os amigos porque viviam em locais distantes, ou seja, apenas lhe restavam os ecrãs como entretenimento e comunicação. Três meses, salvo duas semanas em que, na aldeia, tudo seria provavelmente igual.

Porque não um trabalhinho nas férias? Os jovens de hoje dão por adquirido terem uma série de coisas, desde as férias (merecidas) aos telemóveis, iPads, acesso à internet e tudo o mais. Vivem (e ainda bem), salvo raras exceções, com níveis superiores de conforto, disponibilidade de bens alimentares, consumo e lazer. Frequentam a escola e os pais ainda lhes proporcionam atividades lúdicas, que muitos tratam como um frete, apesar de terem sido eles a dizer que as desejavam.

Como o futuro reside longe, e ainda por cima lhes é dito ser tão imprevisível, muitos, mas mesmo muitos, nem se dão ao trabalho de pensar nele, acreditando que “choverá” por certo um emprego ou qualquer coisita, ou que os papás continuarão a alimentá-los até aos confins dos tempos, pagando-lhes de bom grado as contas dos telemóveis, as roupas de marca que exigem e tudo o mais.

Pois bem… estou em crer que o que está a acontecer é o descrédito do valor do trabalho. O trabalho como dignificação da pessoa, fonte de rendimento, possibilidade de adquirir bens de consumo e de conforto (são os pais que trabalham, claro, para os adolescentes usufruírem das coisas…) ou realização social de uma pessoa integrada na comunidade.

Acabadas as aulas e os exames, e com o bom tempo e os dias prolongados, felizmente, muitos adolescentes começam a pensar em fazer algum tipo de trabalho para ganharem “uns trocos” ou para, simplesmente (e muito positivamente), ajudarem os pais e outras pessoas.

Aprovo totalmente que os jovens, no seu horário de lazer, façam recados e tarefas pelas quais podem até ser remunerados. Fazer jardinagem, distribuir jornais, passear cães, lavar o carro, ajudar a limpar a casa, colaborar com as juntas de freguesia no apoio aos idosos acamados, ajudar em associações de proteção animal, a dar comida ou fazer companhia, apanhar fruta das árvores, fazer babysitting… tanta coisa pode ser feita! Os restantes exemplos ficam ao vosso critério e imaginação – as escolas e as autarquias deveriam ter programas que facilitassem este “dar valor ao trabalho”.

Por outro lado, para muitas famílias, o auxílio que os adolescentes podem dar é importante; sendo parte do agregado, não deverão estar ausentes desse processo: quem come e vive na casa dos pais tem de contribuir para a “causa familiar”, mesmo que isso implique tirar o rabinho do sofá e os olhos do telemóvel, do tablet ou da televisão.

Isto não é trabalho juvenil! É aprendizagem social e até profissional, e reverterá a favor desses adolescentes, mais tarde, no seu percurso de vida.

Andamos a tratar os adolescentes de uma forma esquizoide: ora os colocamos horas e horas em escolas onde são sujeitos a um ensino maçador, repetitivo, em que muito se espreme e tão pouco sai, em que não há ligação entre as disciplinas e, pior, entre estas e a vida real e os percursos de vida futuros; ora lhes damos todas as mordomias, sendo por vezes capachos deles e não instituindo o valor do trabalho como um dos valores essenciais da humanidade. A adolescente que mencionei no início deste texto não fazia a menor ideia de que o que tinha era fruto do trabalho dos pais e achava “indecente” eles só tirarem duas semanas de férias, mas não se interrogava sobre as razões para tal ou se poderia ajudá-los na loja. O conceito de pais-multibanco está a pegar…

Chegadas as férias, e além do descanso, gozo, reposição do sono, saídas e conversa com amigos, desporto, leitura (tão pouca, infelizmente…), praia, TV, redes sociais e tanta outra coisa, considero fundamental haver “uns minutos” para pequenos trabalhos que não deslustram ninguém e até podem mostrar aos jovens que o conforto e a facilidade em que vivem são circunstanciais, efémeros, e que sem o valor do trabalho se arriscam a perder tudo e a não chegar a parte alguma.

Pediatra

Escreve à terça-feira

 

Alguma vez falou (a sério) sobre drogas com o seu filho?

Julho 7, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site https://lifestyle.sapo.pt/

O tema deve ser abordado em casa, sem tabus, defende o pediatra Mário Cordeiro que, em entrevista à Prevenir, ensina como o podemos fazer para a mensagem sair reforçada.

Pais, é um facto. Facilmente, os adolescentes podem cruzar-se com drogas. Cerca de 25% dos jovens têm contacto com o álcool, tabaco ou substâncias ilícitas, revela o «Relatório Europeu sobre Drogas 2016: Tendências e Evoluções». Os dados indicam que a sociedade e, em particular, os educadores não devem menosprezar o facto de poder haver consumo, mesmo que seja uma experiência fugaz, sublinha Mário Cordeiro, pediatra.

«Temos de abordar o tema com frontalidade, para melhor se aprender e ensinar a lidar com esta questão. Mesmo não se tornando toxicodependentes, os jovens que usam este tipo de substâncias podem vir a ter problemas na gestão da sua vida quotidiana, na escola, no seu círculo de amizades e em família», alerta o especialista.

«Quando a droga passa a ser refúgio, entramos numa dimensão diferente, mais preocupante», sublinha. «As drogas iludem a realidade, dão uma falsa e curta noção de bem-estar e esse imediatismo tem consequências terríveis», afirma também. «Os jovens desconhecem os efeitos das drogas», alerta ainda o pediatra, autor do livro «Os Nossos Adolescentes e a Droga – Realidades, Mitos, Verdades e Estratégias», publicado pela editora A Esfera dos Livros.

O que o levou a escrever este livro?

Tenho acompanhado, sobretudo como representante de uma associação de pais de um agrupamento, casos preocupantes que me levam a pensar que ainda existe muito desconhecimento sobre o assunto. O tema das drogas tem sido muito debatido e têm-se conseguido avanços, nomeadamente no que toca à despenalização das drogas leves, mas a abordagem não tem sido a melhor.

Para se conseguir um discurso eficaz não basta dizer «Não à droga!». É essencial trabalhar a mensagem e, claro, conhecer os destinatários pois os adolescentes estão numa fase da vida que tem características  e preocupações muito vincadas. O problema da toxicodependência na adolescência é importantíssimo para a sociedade.

A minha intenção, com este livro, foi aliar informação geral a esclarecimentos científicos e dar voz a testemunhos, aos factos deste flagelo. Moveu-me a vontade de dar ferramentas aos pais para conseguirem abordar o tema, explicando os tipos de drogas que existem e quais os seus efeitos e malefícios.

O que leva hoje um adolescente a experimentar drogas?

A adolescência é uma fase de novas competências e experiências, onde se desenvolve a autonomia e a identidade. O jovem sente-se pronto para experimentar o menu da vida, evitando o controlo dos pais, sendo a escola (e a pressão dos rituais de grupo) o cenário ideal para aceder a novas perspetivas, nas quais se incluem substâncias como o álcool, o tabaco e as drogas. É aqui que entra um fator decisivo. A informação. Essa é uma ferramenta essencial para fazer a triagem entre o que interessa ou não.

Por norma, em que idades acontece o primeiro contacto?

Por volta dos 13, 14 anos, os jovens sentem-se preparados para tudo, refugiam-se numa hipotética invencibilidade, têm uma curiosidade inata para quase tudo e o álcool, o tabaco e as drogas são temas apelativos.

Que drogas são mais usadas?

A ingestão de álcool ou o consumo de canábis são os vícios mais frequentes e podem causar sérios problemas de fígado, gastrites e lesões cerebrais. O alcoolismo continua a ser a forma de toxicodependência por excelência e existe uma espécie de tolerância errada, face, por exemplo, aos efeitos na saúde provocados pela canábis. A nível comportamental, podem provocar comportamentos agressivos e perda do autocontrolo.

Há um extremo desconhecimento entre os jovens sobre estas substâncias, apesar da facilidade de acesso a tanta informação. No caso do álcool, esse desconhecimento é gritante, para mais tratando-se de uma substância legal. Aos 14, 15, 18 anos, pensa-se que se sabe muito, mas não se viveu o suficiente para tal.

O álcool representa um perigo semelhante a outras substâncias, mas está mascarado pela legalidade. O seu consumo pode servir de isco para o uso de outras substâncias e levar a uma habituação face a essa forma de vencer problemas ou por mera diversão.

Quais são as substâncias mais perigosas?

Sobretudo a cocaína, o crack e o ecstasy, ainda que o álcool, o tabaco e a canábis sejam também muitíssimo perigosas. Convém reforçar que a questão da dependência não tem apenas que ver com a droga mas também com o seu utilizador ou a razão que  o levou a fazer. Se o objetivo é fugir da realidade, a dependência vai ser cada vez maior pois os jovens encaram-na como uma forma de facilitar a vida.

Muitas das substâncias promovem elevados graus de extroversão e levam a descuidos nas relações sexuais, como a rejeição de proteção e, mais tarde, invariavelmente, arrependimento. Outras das consequências graves são a sensação de vazio sentido depois de passado o efeito ou a angústia de não se lembrar do que aconteceu.

Como devem os pais lidar com este tema?

Tornar o assunto um tabu é um erro. Dizer apenas que «É mau porque sim» é uma má abordagem, uma atitude pouco sensata, assim como fazer uso de um discurso moralista ou preconceituoso, associando o estatuto de drogado a perfis marginais (tipo arrumadores ou pessoas sem-abrigo). Devemos, sim, explicar o que é a droga, que ninguém está imune aos seus efeitos, antes de dizer «Filho, não te metas nisto!».

É preciso transmitir aos jovens que ninguém precisa destas substâncias para viver ou para ultrapassar alguma situação menos boa. Eles têm de aprender que a vida tem momentos bons e maus e que é o ensinamento que deles retiramos que nos torna pessoas melhores, mais humanas.

A que sinais, que indicam que os jovens podem estar a consumir drogas, devem os pais estar atentos?

O facto de o jovem parecer estar alheado da vida, isolar-se, tornar-se indiferente em relação a algo por que demonstrava um interesse assinalável, registar alterações do padrão de sono ou desleixo com a aparência são alguns alertas. A rispidez comportamental e a perda do controlo emocional, por vezes associada à violência, são outros sinais.

Como reagir se a hipótese se confirmar?

Deve evitar-se um interrogatório agressivo, ainda que convenha confrontar o jovem com a situação, e, no caso de existirem evidências fortes do consumo, não as ignorar. Enquanto pais, temos a obrigação de interferir, de perceber o que se passa e de zelar pela saúde do jovem.  Num primeiro plano, o assunto deverá ser tratado no âmbito familiar e com recurso a ajuda médica.

Mas sempre deixando explícito o nosso amor pelo jovem e que é esse sentimento que nos leva a preocupar-nos, a tentar ajudar. Deve também evitar-se fazer julgamento da questão e concentrar as atenções na própria ajuda, reforçando que, quer queiram quer não, os pais são os responsáveis pelas suas vidas e a experiência que possuem pode ajudar a resolver situações e prevenir cenários que hoje parecem positivos, mas que vão tornar-se pesadelos.

A escola deve ter algum papel neste processo?

Principalmente a nível da prevenção e informação. Deveria existir um programa mais organizado ainda que seja completamente contra disciplinas específicas sobre drogas, à semelhança da educação sexual. Defendo que, por exemplo, a partir do sétimo ano, se utilize as disciplinas já existentes pois conferem a oportunidade de falar sobre drogas, algo que atinge a sociedade.

Por exemplo, na matemática, por via das estatísticas de exposição e consumo. Em história, explicando os conflitos que surgiram devido ao tráfico. Na geografia, ao elucidar as rotas do tráfico. Em química, por referência às suas fórmulas. Nas ciências, ao indiciar os danos cerebrais provocados…

Como abordar o tema

Siga este guião, inspirado em dados fornecidos por Mário Cordeiro, pediatra:

– A preparação

Antes de ensinar é importante aprender. Prepare-se antes de abordar o tema com o seu filho, recolhendo dados de fontes fidedignas que ofereçam dados científicos.

– O contexto

Um bom pretexto para falar sobre o tema pode ser, por exemplo, uma notícia sobre o tema associado a artistas ou desportistas.

– O tom e o conteúdo

Fale com o seu filho sem medos. Seja frontal. Não esconda o facto de ser possível que eles possam vir a ter contacto com essa realidade na escola, numa festa ou reunião de amigos. O excesso de informação pode ser contraproducente. O mais importante é que o adolescente entenda os perigos associados ao consumo.

– A reação

Mesmo que o adolescente reaja à conversa com um encolher de ombros, esse gesto não significa necessariamente desinteresse. Enquanto pais, somos erradamente levados a crer que os nossos filhos já não nos ouvem ou amam. Isso é falso, continuam a fazê-lo, mas de outra forma, com outro distanciamento, e aquilo que dizemos vai ser interiorizado e sentido.

Sinais de alarme

O comportamento do seu filho pode dar-lhe pistas importantes sobre a possibilidade de estar a consumir drogas:

– Alheamento da vida e isolamento

– Alterações do padrão de sono

– Indiferença em relação a algo por que demonstrava um interesse assinalável

– Desleixo com a aparência

– Rispidez comportamental

– Perda do controlo emocional, por vezes associada à violência

Texto: Carlos Eugénio Augusto

 

 

As casas de banho escolares – falar disto agora para resolver até setembro…

Abril 26, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário cordeiro publicado no https://ionline.sapo.pt/ de 11 de abril de 2017.

Pouco se fala do assunto, mas as consequências podem ser graves. Depois de ler este artigo, o leitor, seja pai, professor, diretor de escola ou meramente cidadão, faça o que puder para que as coisas melhorem!

As más condições das casas de banho escolares são um problema frequente no dia–a-dia das crianças. A maioria das crianças evitam usar a casa de banho da sua escola, muitas delas durante todo o dia.

As razões apontadas – e que poderiam sê-lo por qualquer leitor – incluem: cheiro desagradável, sujidade, portas que não fecham e falta de privacidade, sanitas partidas, ausência de papel higiénico, vandalismo e graffiti nas casas de banho, localização inconveniente das mesmas, o facto de estas se encontrarem por vezes trancadas e, em muitas escolas, só se poderem usar nos intervalos, em que a chusma de crianças a necessitar de ir à casa de banho é grande e, naqueles escassos 15-20 minutos, muita outra coisa há a fazer.

A falta de privacidade é o problema principal referido pela maioria das crianças; num estudo que fizemos, 70% relataram existência de urina e fezes no chão, paredes ou assento da sanita. Neste mesmo estudo, perto de quatro quintos das crianças referiram que as casas de banho eram “sujas, desagradáveis, a cheirar mal, assustadoras e locais de bullying”.

A retenção urinária e fecal por recusa de usar as casas de banho escolares são causa de problemas de saúde, psicológicos e educacionais significativos. No primeiro ciclo, as crianças estão a aprender os hábitos higiénicos, pelo que é fundamental adquirir comportamentos visando autonomia, intimidade e uma boa sexualidade, o que obriga a um nível mínimo de qualidade das instalações sanitárias.

Ao longo do tempo, a retenção pode levar a uma situação conhecida como síndroma de eliminação disfuncional, com um padrão alterado de micção e defecação, e com obstipação, micção infrequente ou síndroma da bexiga preguiçosa. Esta situação pode dar dor abdominal, levar a não conseguir reter as fezes (encoprese), infeções urinárias recorrentes, urgência miccional, enurese, refluxo vesico-ureteral e até lesões renais.

É sabido, também, que a melhor posição para o esvaziamento da bexiga é a posição sentada, com apoio para as coxas e os pés, e o corpo ligeiramente dobrado para a frente. Pois… mas, na prática, 85% das mulheres que usam as casas de banho públicas normalmente agacham-se quando o fazem, resultando num aumento de cerca de uma vez e meia do volume urinário residual. Do mesmo modo, em escolas com sanitas sujas e sem assentos, as meninas tendem a agachar-se para não tocarem nas sanitas, o que pode levar a uma micção incompleta e aumentar o volume residual urinário, com aumento do risco de disfunção vesical e infeção urinária.

Por outro lado, a pressa que as crianças têm de se “despachar”, entre outras razões para evitar o contacto com o assento da sanita, faz com que se verifiquem situações em que a urina reflui para a zona vulvovaginal, molhando depois as cuecas quando se levanta, o que é uma situação muito desagradável do ponto de vista psicológico.

Algumas crianças referem beber menos líquidos, com vista a terem de ir menos à casa de banho, mas isso pode levar a uma leve desidratação, que resulta em menor atenção, irritabilidade, mau humor e falta de concentração, e também aumentar o risco de infeção urinária ou obstipação.

Além destes efeitos físicos, os problemas causados por casas de banho escolares inaceitáveis podem provocar ansiedade e vergonha, especialmente nas crianças que acabam por sofrer de incontinência, podendo ser vítimas de bullying, o que afeta o rendimento escolar, com mais baixa autoestima, pior desempenho e mal-estar na escola.

Sabe-se igualmente que uma em oito meninas (cerca de 12,5%) tem o primeiro período menstrual (menarca) durante o 1.o ciclo e a ausência de condições sanitárias das casas de banho escolares, desde a falta de privacidade (casas de banho mistas) a outros pormenores, como a ausência de caixotes de lixo, pode tornar a menstruação uma experiência traumática que afeta a criança e perturba o desenvolvimento de uma sexualidade saudável.

É ainda de referir a importância das condições higiénicas na disseminação de doenças, designadamente gastroenterites e hepatite A, através da utilização de assentos, sabonetes ou torneiras contaminadas, ainda por cima quando sabemos que a utilização é feita nos intervalos, altura em que as crianças comem os lanches da manhã e da tarde, bem como antes das refeições principais, o que facilita a contaminação se houver má higiene.

Muitos pais “bramem”, nas reuniões de pais, por causa do “tamanho da maçã” ou porque “o Manel deu um encontrão ao Zé”, mas raramente referem as condições das casas de banho como um problema – e muitas direções escolares assobiam para o lado e ignoram a questão. Além disso, existe uma lacuna na legislação, a nível europeu. Em Portugal apenas existem algumas recomendações da responsabilidade do Ministério da Educação, que são escassas e insuficientes, e uma breve referência na Circular Normativa do Ministério da Saúde.

É necessário, pois, falar deste assunto sem papas na língua e que os jornalistas façam reportagens, pressionem e levantem questões a quem de direito – não esqueçamos que estamos a falar de crianças do 1.o ciclo, que ainda estão numa fase inicial da aprendizagem das regras de promoção de saúde e num contexto que deve ser eminentemente educativo e modelar.

Só para dar um exemplo de medidas que se podem tomar se se quiser fazer alguma coisa: num país escandinavo verificou–se que os meninos gostavam de pegar na sua “mangueirinha” e “regar” em todas as direções. Resposta: para lá de sermões, conselhos e normas, pintaram-se alvos em círculos, dentro da sanita. Resultado: as crianças passaram a querer acertar no “100” e deixaram de molhar o resto. Simples, não é? Aqui fica, à atenção de quem de direito. Com imaginação, criatividade e colaboração dos próprios alunos, conseguir-se-ão grandes avanços… mas só depois de reconhecer esta situação como um verdadeiro problema de saúde pública.

 

 

Não vacinar crianças. “Memória demasiado curta e arrogância demasiado grande”

Abril 19, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://rr.sapo.pt/ de 17 de abril de 2017.

É “altura de a sociedade não ter medo de denunciar esta ‘ciência do Facebook’”, defende o pediatra Mário Cordeiro, para quem os pais que não vacinam os filhos são negligentes e deveriam ser responsabilizados.

Mário Cordeiro lamenta a negligência dos pais que não vacinam os seus filhos e lembra que, até há pouco tempo, se morria de sarampo.

“Dizer mal das vacinas é um luxo de um país que já não tem, como há bem pouco tempo tinha, casos diários de meningite ou mortes por sarampo, como [aconteceu] em 1994. A memória é demasiado curta e a arrogância demasiado grande”, diz à agência Lusa.

Segundo o pediatra, o fenómeno de pais que não querem vacinar os seus filhos deve-se a uma mistura de mal-entendidos e teorias da conspiração, associados a uma ignorância história e fraca memória.

O surto de sarampo que atinge neste momento a Europa tem sido relacionado com casos de pessoas que não querem vacinar os filhos. Em Portugal, foram notificados 23 casos desde Janeiro. Onze foram confirmados pelo Instituto Ricardo Jorge e os restantes estão em fase de investigação.

Actualmente, o Programa Nacional de Vacinação constitui uma recomendação das autoridades de saúde, mas as vacinas não são obrigatórias.

“Não é possível, porque qualquer obrigatoriedade exige apuramento de responsabilidades, o que é muito complexo numa situação destas, e também coimas ou equivalentes, que iriam penalizar os mais desfavorecidos ou menos abrangidos pela informação”, explica o médico, que chegou a fazer parte de um grupo de trabalho na Direcção-Geral da Saúde para estudar a possibilidade de tornar obrigatórias as vacinas.

A solução passa, por isso, por ser mais incisivo em “desmontar as enormidades e falsidade que se dizem e propagam pelas redes sociais contra as vacinas”.

“Acho que é altura de se mostrar que estas teorias e estas pessoas são, também, responsáveis por estes surtos [como o do sarampo]. Chegou a altura de a sociedade não ter medo de denunciar esta ‘ciência do Facebook'”, sugere Mário Cordeiro, para quem a Direcção-Geral da Saúde (DGS) tem feito um bom trabalho nesta área da vacinação e dos alertas à população.

Alguns pais usam o argumento de que as vacinas “mexem” com a imunidade das crianças, usando-o como justificação para não as vacinarem. Mário Cordeiro explica que é isso mesmo que se pretende, sublinhando que se trata de algo positivo, porque a criança fica com a imunidade para a doença sem sofrer os malefícios dela.

“Aliás, todos os dias, a criança contacta com ‘N’ agentes microbianos na escola, em casa, na sociedade, que ‘mexem’ com a sua imunidade e a fortalecem”, exemplifica.

Morte por negligência?

O pediatra questiona: “Se morrer alguma criança não vacinada porque os pais não quiseram, não será isso passível de acusação de ‘morte por negligência, como seria se morresse por andar de carro sem cadeirinha ou cinto de segurança?”

Mário Cordeiro lamenta que Portugal, que sempre teve elevadas taxas de vacinação, volte a ter casos de sarampo.

“É pena que um país que foi declarado ‘livre de sarampo’ há cerca de seis meses e que foi apontado como um exemplo na Europa e no mundo, volte a ter um surto de sarampo autóctone. Mais cedo ou mais tarde ter-se-ia de pagar o preço da ignorância e do ‘não-te-rales'”.

Este ano, já foram reportados mais de 500 casos de sarampo na Europa, que afectam pelo menos sete países, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A Direcção-Geral de Saúde (DGS) faz esta segunda-feira, pelas 18h30, um comunicado pormenorizado sobre o surto em Portugal. O director-geral da Saúde, Francisco George já veio sublinhar a importância da vacinação.

“Não há liberdade individual que possa justificar a ausência de vacinação das crianças”, frisa.

Apesar de não ser obrigatória, a maior parte dos pais vacina os seus filhos (95%, segundo o “Diário de Notícias, com base nas estimativas da DGS). Por vacinar ficam, por ano, cerca de 4000 crianças.

A ideia lançada pelo estudo norte-americano, apesar de falsa, instalou-se na Europa e o movimento antivacinação virou moda em várias parte do mundo, tendo já provocado várias vítimas mortais na Europa, nomeadamente na Alemanha.

 

Pais que não vacinem os filhos devem ser responsabilizados, afirma pediatra

Abril 18, 2017 às 4:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 17 de abril de 2017.

PAULO RICCA / PUBLICO

Mário Cordeiro lamenta falta de vacinação por parte dos pais e considera que a solução passa por desmitificar as falsas afirmações que se propagam pelas redes sociais contra a vacinação.

Lusa

O pediatra Mário Cordeiro lamenta a negligência dos pais que não vacinam os seus filhos, considerando que deviam ser responsabilizados pelas consequências dos seus actos, apesar de reconhecer que é difícil instituir a obrigação de vacinar. “Se morrer alguma criança não vacinada porque os pais não quiseram, não será isso passível de acusação de ‘morte por negligência, como seria se morresse por andar de carro sem cadeirinha ou cinto de segurança?”, questiona Mário Cordeiro em declarações à Lusa.

Actualmente, o Programa Nacional de Vacinação constitui uma recomendação das autoridades de saúde, mas as vacinas não são obrigatórias. O surto de sarampo que está a atingir a Europa tem sido relacionado com casos de pessoas que não querem vacinar os filhos.

O pediatra fez parte de um grupo de trabalho que estudou na Direcção-Geral da Saúde a possibilidade de tornar obrigatórias as vacinas. “Não é possível, porque qualquer obrigatoriedade exige apuramento de responsabilidades, que é muito complexo numa situação destas, e também coimas ou equivalentes, que iriam penalizar os mais desfavorecidos ou menos abrangidos pela informação”, afirmou o médico.

Mário Cordeiro acredita que a solução não passa por tornar obrigatório, mas antes por ser mais incisivo em “desmontar as enormidades e falsidade que se dizem e propagam pelas redes sociais contra as vacinas”. “Dizer mal das vacinas é um luxo de um país que já não tem, como há bem pouco tempo tinha, casos diários de meningite ou mortes por sarampo, como [aconteceu] em 1994. A memória é demasiado curta e a arrogância demasiado grande”, declarou à Lusa.

Segundo o pediatra, o fenómeno de pais que não querem vacinar os seus filhos deve-se a uma mistura de mal-entendidos e teorias da conspiração associados a uma ignorância história e fraca memória. “Acho que é altura de se mostrar que estas teorias e estas pessoas são, também, responsáveis por estes surtos [como o do sarampo]. Chegou a altura de a sociedade não ter medo de denunciar esta ‘ciência do Facebook’”, sugere Mário Cordeiro, para quem a Direcção-geral da Saúde (DGS) tem feito um bom trabalho nesta área da vacinação e de alertas à população.

Alguns pais usam o argumento de que as vacinas “mexem” com a imunidade das crianças, usando-o como justificação para não as vacinarem. Perante isto, Mário Cordeiro explica que é isso mesmo que se pretende, mas indicando que se trata de uma coisa positiva, porque a criança fica com a imunidade para a doença sem sofrer os malefícios dela. O especialista recorda que, “aliás, todos os dias, a criança contacta com ‘N’ agentes microbianos na escola, em casa, na sociedade, que ‘mexem’ com a sua imunidade e a fortalecem”.

Mário Cordeiro lamenta ainda que Portugal, que sempre teve elevadas taxas de vacinação, volte a ter casos de sarampo: “É pena que um país que foi declarado ‘livre de sarampo’ há cerca de seis meses, e que foi apontado como um exemplo na Europa e no mundo, volte a ter um surto de sarampo autóctone. Mais cedo ou mais tarde ter-se-ia de pagar o preço da ignorância e do ‘não-te-rales’”.

Desde Janeiro foram notificados 23 casos de sarampo em Portugal e mais de 500 casos de sarampo foram reportados só este ano na Europa, afectando pelo menos sete países, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

 

 

Hiperatividade, ciência versus facebook

Abril 11, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mário Cordeiro http://www.paisefilhos.pt/ publicado na a 7 de fevereiro de 2017.

Nem tudo o que mexe é hiperativo, nem todos os que sonham têm défice de atenção. Mas destruir um fármaco com “cultura de facebook” é demasiadamente leviano

Houve um aumento na prescrição de metilfenidato para o dobro, entre 2010 e 2014. Podem existir várias explicações, desde exagero de prescrições até melhor diagnóstico e medicação de crianças e jovens que necessitavam mas não o estavam a tomar. Por outro lado, o melhor conhecimento dos problemas de dispersão, falta de concentração e atenção, e de hiperatividade pode justificar o aumento. Especulação à parte, o que se sabe, sim, é que embora haja crianças medicadas inutilmente, é grande o número das que precisam e não estão medicadas e, entre as que estão, a esmagadora maioria colhe benefícios.

Recomenda-se este fármaco quando há uma perturbação da concentração e atenção que afete a vida das crianças de forma significativa, para lá do normal cansaço, má gestão dos estímulos artificiais que desviam a atenção ou da irrequietude natural das crianças e jovens, sobretudo do sexo masculino. Nem tudo o que mexe é hiperativo, nem todos os que sonham têm défice de atenção! As crianças, vivendo num mundo “entre quatro paredes”, precisam de se expandir, de se mexer. No entanto, a incapacidade de concentração num estímulo, sobretudo abstrato, desviando–se para “qualquer mosca que passe” faz com que a criança retire muito pouco das aulas, se sinta mais distante do “filme” que está a passar na sala de aula e invente outras coisas, mexendo-se, perturbe os outros e se comporte de modo hiperativo, sendo disruptivo para a aula e prejudicando gravemente o seu próprio processo de aprendizagem, ou então mergulhe na sua vida interior e se abstraia. Acresce que estar constantemente a ser admoestado e de castigo, ver as notas aquém do que sabe ser possível, ler apenas metade do cabeçalho e responder impulsivamente de modo incompleto, diminuem a autoestima, causam tristeza e geram problemas sociais e psicológicos.
Os benefícios da terapêutica, que pode ser instituída por um pediatra ou neuropediatra e que não necessita de ser baseada em testes e exames, vão ajudar o processo de aprendizagem e permitir à criança o desenvolvimento das suas capacidades.

O argumento de que “é um químico” é anedótico porque o cérebro funciona, exatamente, com mediadores químicos, e nos casos de hiperatividade e défice de atenção, dispersão e impulsividade, esse mediador está em falta. Com o crescimento o cérebro arranjará outras formas de funcionamento e não é precisa medicação para a vida toda, como alguns ignorantes dizem. Além disso, é boa prática as crianças interromperem a medicação nas férias letivas; a ideia de que se fica “preso a uma droga” é mais um dos mitos urbanos veiculados na Internet.
Quanto a contraindicações, nas redes sociais há pessoas que gostam muito de dizer que “é veneno”. Dá vontade de rir – leiam a bula do ibuprofeno ou do paracetamol, que dão aos vossos filhos e verão a “galeria de horrores”. Com o metilfenidato os efeitos colaterais são raros e, salvo exceções, resumem-se a situações transitórias e breves de baixa de apetite ou pequenas insónias.

O metilfenidato não dá “superpoderes”, apenas faz render melhor as capacidades naturais a estas crianças. Não ficarão engenheiros, pianistas ou escritores com o medicamento se não tiverem esses talentos, mas podem nunca vir a ser engenheiros, escritores ou pianistas, tendo esses talentos, por não conseguirem estudar, concentrar-se e andarem toda a escolaridade a saltitar de “mosca para mosca”, irritando os professores, enervando os pais e diminuindo a sua autoestima. E se pensássemos numa coisa chamada Ciência? Talvez valha mais do que o diz-que-diz das redes sociais…

 

 

 

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