Os dois primeiros anos são muito importantes para as crianças, mas a adolescência é mais

Junho 25, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 5 de junho de 2019.

Adolescentes, esse mistério para o pais

Novembro 5, 2015 às 7:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Notícias Magazine a Maria do Céu Machado no dia 23 de outubro de 2015.

Fotografia de Diana Quintela Global Imagens

Por: Cláudia Pinto

A pediatra Maria do Céu Machado acaba de lançar o ensaio «Adolescentes». E tenta decifrá-los

De repente, os filhos crescem e tornam-se praticamente desconhecidos. A transição para o «mundo dos adultos» nem sempre é pacífica e torna o relacionamento com os pais mais complexo. Por isso todas as ajudas são bem-vindas para ajudar a decifrar o misterioso mundo dos adolescentes. Como a da pediatra Maria do Céu Machado. Quando começa e acaba a adolescência?

Começa cada vez mais cedo e acaba cada vez mais tarde. O início da adolescência é biológico e acontece no começo da puberdade com as alterações do crescimento e a diferenciação sexual. No século xix, a adolescência durava sete a oito anos. Hoje acontece mais cedo devido ao excesso de peso e à obesidade, uma vez que as hormonas sexuais derivam do colesterol. O fim da adolescência é sociocultural e exige a independência económica, cada vez mais tardia. A adolescência dos dias de hoje chega a durar vinte anos.

Considera que a maioria dos pais não sabe lidar com os adolescentes?

Eu própria, que lido com adolescentes, tanto com os meus netos (cinco dos sete já são adolescentes) como na consulta de pediatra, por vezes dou por mim a pensar antes de «ralhar» ou de demonstrar que têm atitudes de risco. O que muitas vezes acontece com os pais é que não sabem manter a autoridade e discutem com os filhos como se fossem todos adolescentes. Em algumas situações, há que responder que «é assim porque eu quero» sem perder muito tempo em grandes explicações ou justificações. Deve haver uma negociação até para os adolescentes perceberem que as suas opiniões são respeitadas e que se encontram numa transição para «crescidos», e que lhes é dada independência progressiva. Mas aos 14 anos não podem ter a mesma liberdade que terão aos 17.

O relacionamento entre pais, amigos e adolescentes é possível?

É possível, mas sempre dando uma autonomia ao adolescente e tendo uma vigilância sobre as atividades e os amigos. É preferível convidar os amigos para vir a nossa casa do que deixar sistematicamente os filhos irem a casa dos amigos. Obviamente que eles gostam mais de ter atividades em grupo do que com os pais. Ir de férias com um casal amigo que tem filhos da mesma idade é uma forma de tudo correr bem.

Os pais e a escola podem ser parceiros?

A ligação dos pais às escolas começa a ser maior, mas não é tão significativa em Portugal, ao contrário do que acontece noutros países. Tenho ido a algumas reuniões dos meus netos e assisto muitas vezes a uma forma de estar dos pais que culpam a escola e os professores pela falta de disciplina dos filhos. Não é incomum os pais considerarem que a escola substitui a educação em casa. Os professores e pais têm de ser parceiros e é saudável envolver os adolescentes. Em África, dizia-se que era preciso toda uma aldeia para educar uma criança. Na minha opinião é necessária toda uma sociedade para educar um adolescente. Ainda assim, 85 a 90 por cento dos nossos adolescentes são completamente saudáveis, tanto física como psicologicamente.

Os problemas de saúde mental têm aumentado nos adolescentes?

Sim, e essa é uma situação muito preocupante. Os problemas de saúde mental têm aumentado porque há muitos pais no desemprego e os media mostram regularmente as dificuldades do mercado de trabalho em jovens, o que leva os adolescentes a pensar que não podem ter um projeto de vida. Há um programa irlandês para o desenvolvimento de crianças e adolescentes que se chama Better Outcomes, Brighter Future que tem três pilares: health, education and jobs (saúde, educação e emprego). Como podemos pedir a um adolescente que estude, que tire o seu curso, que cresça, que crie a sua independência, se em simultâneo mostramos que não há emprego para os jovens?

São também mais medicados do que os adolescentes de gerações anteriores…

Atualmente, é frequente o pai, a mãe, os avós e até os próprios adolescentes serem medicados com ansiolíticos ou antidepressivos e existe medicação disponível em toda a casa. Muitas vezes, são os próprios pais que dão acesso a calmantes e dizem aos filhos para tomar um ou meio comprimido por dia quando se sentirem mais nervosos. Tenho recebido no serviço de pediatria do Hospital de Santa Maria casos de automutilação que estava muito descrita em literatura mas que não era frequente em consulta de pediatria geral. Existem adolescentes que sentem uma angústia tal ou estão de tal forma deprimidos que se magoam e se cortam, numa tentativa de que a dor física supere a psíquica. Estas situações são angustiantes porque para se chegar a este ponto significa que a dor física já é completamente insuportável. Numa fase inicial, os pais banalizam a tristeza e a angústia do filho considerando tal atitude normal para a idade.

Quais os perigos da «linguagem eletrónica»?

As pessoas estão sempre com o telemóvel, já não conversam. Esta tendência piorou muito com os tablets e os smartphones. Algumas professoras já têm dificuldade em ensinar as crianças, no início da escola, a segurar no lápis porque estão demasiado habituados ao gesto de tocar no ecrã destes dispositivos. Por um lado, esta linguagem eletrónica pode ser um fator desestabilizador da concentração porque se habituam a ser estimulados a muita cor e muito movimento. Por outro, conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo. A partir dos 3, 4 anos, mesmo que tenham acesso a dispositivos eletrónicos, nunca deve ser mais do que meia hora a uma hora por dia. Associado ao tempo que estão com um jogo e a ver televisão, nunca devem aceder mais de duas horas por dia, independentemente da idade. Os pais chegam a casa cansados, têm imenso que fazer e já não há tanto tempo para brincar com as crianças.

Além desta tendência, os hábitos de sono também já não são os mais adequados…

Pelo menos uma hora antes de irem para a cama, devem desligar-se todos os aparelhos eletrónicos porque o cérebro fica alerta quando os utilizam. O autor Marc Prensky caraterizava as gerações como «nativos digitais» e «imigrantes digitais». Os adolescentes já nasceram na era digital e nós não estamos preparados para esta revolução. Estamos ainda a aprender a adequar o ensino e a forma como permitimos que os filhos utilizem estes dispositivos. Quase todos os adolescentes vão para a escola de carro ou de autocarro e já não vão a pé. Não raras vezes ficam dentro da sala de aula nos intervalos e apanham pouca luz solar de manhã. A luz matinal origina a síntese da hormona reguladora do sono – a melatonina – e à noite quando devem ter menos luminosidade é quando estão agarrados aos computadores, à televisão, aos telemóveis. A noite é interessante porque os faz sentir «crescidos».

Os pais devem dar o exemplo…

Os pais queixam-se de que eles passam o dia no computador, mas na verdade não lhes dão grandes alternativas. Devem promover atividades ao ar livre não os habituando desde muito pequenos a fazer birra pelo iPad. Ainda há escolas sem atividade física, principalmente a partir do 10.º ano, o que também não é admissível.

É importante impor limites?

É muito importante impor limites, como a hora a que o adolescente tem de estar em casa. Se a criança ou o adolescente não ganhar resiliência (capacidade de aceitar as contrariedades) e se teve sempre as vontades satisfeitas, a sua autonomia e independência podem ficar comprometidas mais tarde. É preciso aprender a educar a criança desde pequena e, apesar disso, o adolescente torna-se um verdadeiro desconhecido para os pais e a autoridade é encarada como injustiça. Costuma dizer-se que só saímos da adolescência e nos tornamos adultos quando nos esquecemos das ofensas que os nossos pais nos fizeram.

É talvez por isso que um adolescente lhe disse em consulta que «a adolescência é a fase em que os pais se tornam difíceis»?

É uma brincadeira, pois os pais costumam dizer que é difícil lidar com o filho adolescente. O que o meu adolescente queria dizer (e eu concordo) é que para eles também não é fácil lidar com os pais.

Considera que os adolescentes deviam ter mais ocupações durante as férias de verão?

Em Portugal, faz-me confusão que os adolescentes façam pouco voluntariado e não invistam em empregos de verão. O período de férias é enorme e sinto-os completamente aborrecidos. Vou todos os anos aos Estados Unidos e é frequente ver estudantes universitários ou estudantes dos últimos anos antes da entrada na universidade a trabalhar em restaurantes, o que lhes permite ganhar autonomia e independência.

Como surgiu a oportunidade de escrever o livro Adolescentes?

Com a idade, a minha clínica desviou-se um pouco para o lado da adolescência. Os recém-nascidos cresceram e os adolescentes constituem neste momento o grupo mais forte que acompanho na consulta. Sempre gostei do contacto com eles. Aceitei então o convite da Fundação Manuel dos Santos para escrever sobre a adolescência, li bastante sobre o assunto e optei por escolher pequenas histórias, não só da clínica como dos meus netos, e fiquei satisfeita com o resultado final. Não é fácil – sobretudo para quem é médico – escrever deixando a linguagem científica de fora. Gosto dos adolescentes e sinto que confiam em mim, mas, por vezes, o diálogo não é fácil. Escrever este livro fez-me pensar na adolescência e nas suas múltiplas facetas, e espero que ajude os pais e os professores «a tornarem-se menos difíceis.

Maria do Céu Machado é médica pediatra, diretora do departamento de pediatria do Hospital de Santa Maria e professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Foi alta-comissária da Saúde entre 2006 e 2011, tem duas filhas e sete netos. Acaba de lançar o ensaio Adolescentes, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

 

Saúde mental das crianças é mal tratada em Portugal

Junho 26, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://economico.sapo.pt  de 19 de junho de 2015.

economico

Irina Marcelino

O acesso a ansiolíticos e antidepressivos por crianças e adolescentes é preocupante, considera Maria do Céu Machado.

As crianças portuguesas têm mais alergias, mais asma e doenças como a de Chron, infecção crónica dos intestinos que se pensava que apenas atingiam os adultos.

A asma está à cabeça das doenças crónicas nas crianças. A doença terá aumentado na ordem dos 20% nos últimos dez anos, segundo Maria do Céu Machado, pediatra, professora da Faculdade de Medicina na Universidade de Lisboa e responsável pelo serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria.

O aumento deste tipo de doenças crónicas é, afirma, “o preço a pagar por termos um país desenvolvido”. Nos restantes lugares da “tabela” elaborada por Maria do Céu Machado, que foi Alta Comissária para a Saúde, surgem ainda doenças como a obesidade, que dá origem a problemas como a diabetes, a doença inflamatória intestinal, a doença pulmonar crónica, a epilepsia e, ainda, as doenças mentais. “Em Portugal dá-se muito pouca importância a esta área. Uma criança ou um adolescente com uma doença mental vai dar um adulto com problemas de saúde mental”, considerando que esta é uma área relativamente à qual tem uma grande preocupação.

A especialista lembrou a propósito o caso da Islândia, que em plena crise lançou um programa de acompanhamento da saúde mental das suas crianças e adolescentes. “Na altura achei um exagero, mas agora compreendo. Essas crianças e adolescentes eram os filhos da maioria dos casais que caíram no desemprego”. Um estudo recente concluiu que a aposta islandesa resultou. E que o país conseguiu evitar os efeitos negativos que a crise podia ter tido nos seus jovens.

Em Portugal, a forma como se trata a saúde mental das crianças e adolescentes não tem comparação. “Não temos uma organização de psiquiatria na infância e na adolescência, como devíamos ter em Portugal”, considera. Além da falta de profissionais especializados, há, também, falta de camas nos hospitais. “Para toda a zona Sul, de Lisboa e Vale do Tejo, ao Alentejo e ao Algarve temos dez camas no Hospital de D. Estefânia para crianças e adolescentes com problemas de saúde mental”. E apenas os casos mais graves acabam por ser atendidos. “Ou seja, os casos ligeiros são recusados. Mas os ligeiros eram os que a longo prazo podiam ser tratados de forma a não terem problemas. Se investíssemos neles teríamos adultos saudáveis”.

Um dos problemas que destaca diz respeito ao acesso a ansiolíticos e antidepressivos.

“Não há nenhum dia na urgência que não apareça um adolescente que tenha tomado 10 ou 15 comprimidos, não para se suicidar mas porque está medicado e não aguenta quando lhe passa o efeito dos medicamentos. O acesso aos medicamentos é mais grave do que a doença mental em si”.

Sobre a saúde infantil, Maria do Céu Machado defendeu que também a área de cuidados continuados devia ser acautelada nesta fase da vida. “Com o aumento das doenças crónicas nas crianças, as camas dos hospitais são ocupadas por estes doentes, quando deviam ser tratados em cuidados continuados”, refere, lembrando tam ém a possibilidade de haver cuidados continuados de curta duração “para dar aos pais destas crianças a oportunidade de descansar”.

Os cuidados de saúde para crianças deviam também ser melhorados. “Devia haver um gestor do doente. Há um problema com a multiplicação de consultas e de exames em dias diferentes, que resultam em faltas na escola e no trabalho que podiam ser evitadas”.

Maria do Céu Machado defendeu ainda a necessidade de construção de Centros de Referência. “Espero que em breve saiam as regras e que possamos construir Centros de Referência. Mas é preciso que estes centros tenham uma política de RH diferente da actual”.

 

 


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