Escolas que mais reutilizam manuais recebem 10 mil euros

Janeiro 25, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 24 de janeiro de 2019.

Bárbara Reis

Governo lança esta quinta-feira uma campanha para promover a reutilização dos livros escolares, que inclui um prémio para as 20 escolas com taxas de reutilização mais elevada e um selo para distinguir 100 escolas como exemplos de boas práticas.

As 20 escolas públicas que mais manuais escolares reutilizarem vão passar a receber dez mil euros no início de cada ano lectivo, disse ao PÚBLICO Alexandra Leitão, a secretária de Estado adjunta e da Educação que desde 2016 conduz a nova política de gratuitidade e reutilização.

O prémio foi criado pelo Governo para “dar um impulso à medida e fazer a reutilização avançar”, disse Alexandra Leitão. Está integrado na campanha Escola Mega Fixe, que além do prémio em dinheiro também vai atribuir um selo para distinguir cem escolas cujas práticas de reutilização sejam exemplos. “Queremos pôr todas as escolas a lutar pela reutilização.”

No fim das aulas deste ano, o ministério fará o ranking das 20 escolas que mais reutilizaram — o cálculo é feito a partir do número de manuais que cada escola regista no portal dos manuais, a plataforma Mega, onde são feitas as “encomendas”. No início do ano lectivo 2019/20, cada uma das 20 melhores recebe dez mil euros e tem liberdade para decidir onde investir o dinheiro.

Se este ano cada um dos 811 agrupamentos escolares reutilizar mais dez livros do que no ano passado, são mais 8110 livros reutilizados em Portugal — e menos 8110 livros que o Estado tem de comprar para entregar nas escolas em Setembro. Se cada agrupamento reutilizar mais cem livros, são 81 mil. No ensino básico, no qual os manuais são mais baratos, um livro custa em média oito euros. Multiplicar oito por 81 mil dá 648 mil euros.

Os 200 mil euros do prémio são uma gota no investimento que o Governo de António Costa está a fazer. Mesmo assim, há expectativa de que seja absorvido sem dificuldade.

As escolas portuguesas reutilizam cada vez mais manuais escolares (o que reduz o investimento), mas há três anos que o executivo aumenta o universo de alunos abrangidos (aumentando o investimento).

O Governo começou a política em 2016, quando deu manuais escolares aos alunos do 1.º ano do 1.º ciclo do ensino básico; a seguir alargou a todo o 1.º ciclo (2017/18); depois a todo o 2.º ciclo (2018/19), e para o ano alargará a todo o ensino obrigatório, do 1.º ao 12.º anos (2019/20).

Em investimento previsto, isto custou ao Estado três milhões de euros em 2016/17; 11 milhões em 2017/18; 40 milhões em 2018/19, e poderá custar 160 milhões 2019/20.

“O objectivo é chegarmos a um ponto em que o investimento é muito mais pequeno. Este é o esforço necessário nos primeiros anos da nova política”, diz Alexandra Leitão. “É difícil dizer qual vai ser o ano da velocidade de cruzeiro, mas face às taxas de reutilização altas que muitas escolas já têm, acreditamos que o gasto do Estado vai ser cada vez mais pequeno.”

Em teoria, será progressivamente mais fácil. Nos níveis de ensino mais avançados, há mais disciplinas e os manuais são mais caros, mas os alunos são mais maduros e é mais fácil reutilizar.

Qual é o truque?

“Sabemos que a reutilização depende da vontade das escolas”, diz a secretária de Estado. “Pelo menos um quarto das cinco mil escolas portuguesas fez 0% de reutilização no ano passado. Mas há escolas em lugares difíceis que reciclam muito.” No ano lectivo em curso, 110 mil livros escolares estão a ser reutilizados pelos alunos.

Qual é o truque de Maria da Conceição Mateus, directora do agrupamento Cardoso Lopes, na Amadora, onde há 1355 alunos, 45,8% dos quais com apoio da Acção Social Escolar e que tem taxas de 100% de reutilização? “Isto não tem truques. Começámos a reutilizar manuais em 2003 e passados três ou quatro anos quase não comprávamos livros”, diz a professora ao PÚBLICO. “É uma coisa que se foi entranhando. Como a importância de poupar água, luz e papel, ideias centrais do nosso projecto educativo.”

O mesmo se passa no agrupamento do Vale de S. Torcato, em Guimarães, onde já se reutilizavam manuais antes da nova política do Governo. “No início não era em grandes quantidades, mas fomos mentalizando a comunidade: alunos, pais e professores”, diz o director António Joaquim Sousa. Nesta quinta-feira tem taxas de reutilização entre os 70% e os 100%, nos dois ciclos de ensino.

Nas próximas semanas, a secretária de Estado vai reunir-se com todos os directores de escolas do país em cinco sessões. Vai lançar a campanha, apresentar o novo Manual de Apoio à Reutilização de Manuais Escolares, que é publicado nesta quinta-feira em Diário da República, explicar como funciona o prémio e os selos, e apelar à mobilização dos estabelecimentos de ensino.

As sessões são em Lisboa e no Bombarral (nesta quinta-feira), em Faro e Évora (dia 25), em Vila Real (dia 29), Coimbra (5 de Fevereiro) e Porto (7 de Fevereiro).

Directores com níveis de reutilização elevados foram convidados a contar aos colegas como fazem nas suas escolas. “Queremos evidenciar que a reutilização sistemática e organizada pelas escolas é possível e pode ser muito bem sucedida”, diz Alexandra Leitão. “Queremos dar sistematização e robustez à reutilização.”

 

 

 

Porto Editora explica corte em poema de Álvaro de Campos com pedofilia

Janeiro 15, 2019 às 7:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 14 de janeiro de 2019.

Editora afirma que a versão integral do poema Ode Triunfal está no livro reservado aos professores e diz que corte de três versos no manual para os alunos não é censura.

Lusa

A Porto Editora omitiu de um manual de Português do 12.º ano versos de um poema de Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, por possuir “linguagem explícita” e abordar a pedofilia, defendendo que cabe aos professores decidir se estudam os referidos versos.

Três versos do poema Ode Triunfal, de Álvaro de Campos, foram substituídos por um tracejado no manual Encontros do 12.º ano, da Porto Editora. O caso foi revelado neste domingo pelo semanário Expresso.

Por opção editorial desapareceram os seguintes versos: Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas; E cujas filhas aos oito anos  e eu acho isto belo e amo-o! –Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.

Segundo uma declaração assinada pela equipa de autores do manual e enviada para a Lusa pela Porto Editora, o poema “está disponível na íntegra no livro escolar Encontros  12.º ano, na versão do professor”. A Porto Editora também já publicou um esclarecimento na sua página electrónica.

Os autores do manual escolar acrescentam que na versão do professor estão sinalizados os versos omitidos na edição do aluno e, assim, “os docentes podem decidir se abordam em contexto de sala de aula — e de que forma — versos que têm linguagem explícita e se relacionam com a prática da pedofilia”.

A Porto Editora assume que retirou os versos, mas sublinha que “a indicação de que os versos foram cortados é visível tanto graficamente (linhas a tracejado) como através da numeração das linhas”.

Para os autores do manual, deve ser o docente, tendo em conta “as características específicas de cada turma”, a decidir se têm condições para abordar os versos em falta.

“Os professores conhecem as suas turmas e conhecem o poema integralmente, pelo que saberão também se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários, uma vez que podem, obviamente, constituir factor de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos”, acrescentam em resposta à Lusa.

A Porto Editora recusa que tenha havido qualquer tentativa de censura da obra de Fernando Pessoa, garantindo que se tratou “apenas e tão somente de uma preocupação didáctico-pedagógica — seguida pela generalidade dos manuais existentes — que permite aos professores decidirem livremente sobre a abordagem mais adequada junto dos seus alunos”.

 

 

 

Europa quer que manuais escolares passem a contar a história dos Descobrimentos incluindo “a discriminação e a violência”

Outubro 24, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 2 de outubro de 2018.

Clara Cardoso

Um relatório europeu publicado esta terça-feira recomenda a Portugal “repensar o ensino da história e, em particular, a história das ex-colónias” e defende que o “contributo dos afrodescendentes, assim como dos ciganos, para a sociedade portuguesa deve ser tratado” nos manuais escolares.

Se nos últimos cinco anos foram vários os “progressos” registados em Portugal pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (ECRI), há ainda várias “questões preocupantes”, lê-se no relatório publicado esta terça-feira pelo Conselho da Europa.

O organismo exorta as autoridades portuguesas a “repensar o “ensino da história e, em particular, a história das ex-colónias”, defendendo a inclusão do “papel que Portugal desempenhou no desenvolvimento e, mais tarde, na abolição da escravatura, assim como a discriminação e a violência cometidas contra os povos indígenas nas ex-colónias”.

“A narrativa da ‘descoberta do novo mundo’ deve ser colocada em questão e a história e contributo dos afrodescendentes, assim como dos ciganos, para a sociedade portuguesa devem ser tratados”, considera a ECRI. “As autoridades deveriam ainda melhorar os manuais escolares seguindo estas linhas de orientação”, conclui, sobre este ponto.

A ECRI analisa a situação em cada um dos Estados membros do Conselho da Europa no que respeita ao racismo e à intolerância e formula sugestões e propostas para o tratamento dos problemas identificados.

No caso português, a comissão destaca, entre outros pontos positivos, que “os comentários racistas, homofóbicos ou transfóbicos pelos políticos são raros e condenados publicamente”, que “muito poucas pessoas ciganas e negras foram vítimas de violência motivada pelo ódio” e que “a grande maioria da população portuguesa pensa que as pessoas LGB devem ter os mesmos direitos que os heterossexuais”.

No entanto, “há ainda algumas preocupantes”, sublinha o relatório, que aponta o dedo, por exemplo, às medidas “insuficientes” e às sanções “não dissuasoras” para combater o discurso de ódio no país.

A instituição lamenta ainda que não tenham sido reunidas as “inúmeras as acusações graves de violência racista cometida por agentes da polícia”, nem levado a cabo um “inquérito eficaz para determinar se são ou não verdadeiras”.

O abandono escolar das crianças afrodescendentes (três vezes maior), o número cinco vezes inferior de alunos de origem africana na universidade, o desemprego elevado entre adultos afrodescendentes e a segregação resultante dos programas de realojamento são outras das dificuldades apontadas no documento, que classifica também como “profundamente preocupante” a situação das crianças de etnia cigana, com 90% a abandonarem a escola.

 

 

Oferta de manuais feita pela internet. Famílias carenciadas terão apoio na escola

Julho 17, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 16 de julho de 2018.

Pedro Sousa Tavares

Vai chamar-se MEGA o portal, a lançar em agosto, para gerir entrega de manuais a 500 mil alunos, do 1.º ao 6.º ano. O registo na plataforma “é necessário” para ter acesso aos livros sem custos, avisa Ministério da Educação.

O registo num novo portal criado pelo Ministério da Educação – a plataforma MEGA – será “necessário para quem pretenda adquirir os manuais gratuitamente”, informa em comunicado o gabinete do ministro Tiago Brandão Rodrigues. Em causa está a oferta dos manuais a cerca de meio milhão de alunos das escolas públicas, do 1.º ao 6.º ano de escolaridade.

A nova plataforma, agora anunciada, estará online a partir de agosto, e foi criada com o objetivo de operacionalizar o novo sistema de “vouchers”, que permitirá às famílias escolherem as livrarias onde pretende adquirir os livros dos filhos.

No passado, recorde-se, as compras dos manuais oferecidos pelo Ministério vinham a ser geridas diretamente pelas escolas, que optavam frequentemente pelas compras em lotes. Uma situação que gerou muitos protestos dos pequenos livreiros, que anunciaram dezenas de falências relacionadas com essa prática.

Agora, explica o Ministério, “após registo efetuado, será criado um código, associado ao número de contribuinte do encarregado de educação do aluno, que permitirá o levantamento dos manuais em qualquer uma das livrarias aderentes”. Para aderirem, as livrarias precisam “também elas, se registarem na plataforma”.

Antecipando possíveis queixas de famílias com maior dificuldade na utilização das novas tecnologias, ou sem acesso á Internet, o Ministério acrescenta que “as escolas terão condições de prestar apoio aos encarregados de educação, no que diz respeito à utilização da nova ferramenta”.

Lisboa entra com 6 milhões de euros

A Câmara Municipal de Lisboa anunciou, entretanto, um complemento à oferta do Ministério da Educação, através do gabinete de Ricardo Robles, vereador da Educação e dos Direitos Sociais.

Garantem na mesma plataforma (MEGA), os vouchers dos alunos e alunas de Lisboa até ao 12º ano da rede escolar pública.

O vereador estima que o apoio vai chegar a 45 mil alunos, num investimento total em manuais escolares e fichas de apoio (1º e 2º ciclo) na ordem dos seis milhões de euros.

Notícia atualizada às 21:25 com informações sobre a CML

 

 

Manuais Escolares Gratuitos 2018/2019 – 1.º ao 12.º ano das Escolas Públicas de Lisboa

Julho 13, 2018 às 9:18 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Manuais Escolares Gratuitos 2018/2019
A Câmara Municipal de Lisboa apela aos Encarregados de Educação que não comprem os manuais escolares.
A CML, em colaboração com o Ministério da Educação, oferecerá “vouchers” para serem trocados por manuais escolares nas livrarias habituais. Estes “vouchers” poderão ser descarregados a partir de uma plataforma eletrónica que será divulgada nas próximas semanas.
Mais informações: www.cm-lisboa.pt/manuaisescolaresgratuitos

Os livros devem ser “lidos, explorados, anotados, sublinhados e guardados”

Janeiro 10, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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snews

 

Artigo de Sara Oliveira para o site EDUCARE, em 21-09-2017.

Os hábitos de leitura sofrem com as novas tecnologias? A relação do livro com os mais novos está a mudar? O que se pode fazer? Como devem ser usados os manuais escolares? Sublinhar ou não sublinhar? Jorge Ascenção, Manuel Pereira, Filinto Lima e Paulo Guinote partilham as suas opiniões sobre estes assuntos.

Ler, livros, leitura. Juntar palavras, construir frases, contar ou inventar histórias. Descobrir novos mundos, entrar no reino da fantasia, acompanhar vidas reais ou imaginárias. Aprender, descobrir, pensar. Ler, sonhar, refletir. Construir valores, consolidar princípios. Crescer. Os hábitos de leitura mudam, as novas tecnologias estão para ficar, os alunos leem menos, qual a importância do livro nos primeiros anos da escola? Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, e Paulo Guinote, professor de Português, responderam a várias questões sobre leitura e o que está à sua volta.

“Uma criança que cresce com os livros, que aprende a ‘saboreá-los’ e a senti-los será uma pessoa da arte, da cultura e da cidadania. Será gente e com gente. Será seguramente alguém que vive para além de si e que melhor compreenderá o mundo e a humanidade, vivendo e fazendo parte ativa da sua construção social.
O livro é uma janela para o mundo que tem que se abrir e fechar conforme as circunstâncias. Ajuda-nos a construir uma visão do mundo, a conhecê-lo e a integrá-lo ao mesmo tempo que nos faz saber estar protegidos desse mesmo mundo”. É desta forma que Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), fala do livro e do que ele representa para quem descobre o mundo.

O livro é a base da construção de valores, do valor do trabalho, do afeto, do respeito, da amizade e do amor. Dos valores que fazem da vida um bem maior de experiência e de felicidade. Mas os hábitos de leitura têm vindo a sofrer alterações. São as mudanças tecnológicas, a alteração de estímulos, e outras coisas. “A pressão programática dos extensos currículos escolares, as metas e a obsessão por resultados escolares quase limitados à obtenção de uma nota classificativa (quem há anos atrás falava ou relevava os rankings) e a cada vez maior competitividade sem que se valorizem outras aspetos da formação e do desenvolvimento pessoal, onde o que importa é estar melhor e não o ser bom, são alterações dos últimos tempos que influem nos hábitos de leitura”, refere o presidente da CONFAP.

O livro é um amigo, um manual escolar também. A política de reutilização dos livros escolares no 1.º Ciclo do Ensino Básico condicionará a sua utilização, já que os manuais são cedidos gratuitamente com a indicação de serem devolvidos no final do ano escolar. Como deve então ser esta apropriação do manual escolar no primeiro nível de ensino? “Quando falamos de livros escolares, estamos a falar de um livro de trabalho, por isso lhe chamamos manuais. Um manual é para manusear e adequar ao estudo de quem o utiliza. Por isso não faz sentido impor regras de utilização comuns e uniformes”, refere Jorge Ascenção. Sublinhar ou não sublinhar? Sublinhar a lápis, a caneta, a marcadores de várias cores? “Para muitas crianças do 1.º ano do 1.º Ciclo este manual é o seu início de contacto com o livro e deve ser uma experiência inesquecível de afeto e de prazer com o cheiro e o folhear do livro.” Uma experiência que se quer inesquecível e, por isso, o dirigente da CONFAP defende que tudo deve ser feito para que esses primeiros livros sejam guardados na memória e em casa. “Esta deve ser uma das missões da escola e as políticas devem-no permitir e potenciar. Doutra forma poder-se-á estar a condicionar o gosto pelo livro e até o percurso académico de algumas crianças”, observa.

“O livro é para usar e abusar. Com respeito e responsabilidade, o que não significa necessariamente que não se possa sublinhar ou tomar notas. Depende do livro e do que se pretende com a sua utilização. Percebo o discurso do não estragar, no sentido em que devemos estimar o livro e não maltratá-lo, mas com as crianças temos que ter cuidado com as palavras para não se sentirem coagidas”, avisa. A ideia é que percebam que o livro é um suporte para o seu conhecimento e desenvolvimento. “O discurso de não estragar vai acabar por prejudicar os que mais precisam de ser incentivados por razões que todos entendem. Outra coisa é o estragar sem utilizar ou o negligenciar o cuidado com o livro, isso deve ficar claro em qualquer circunstância e nomeadamente se o livro é oferecido pelo erário público. Mas não se pode penalizar a utilização do livro de acordo com as respetivas necessidades de aprendizagem.”

Pequenas notas são “semáforos da memória”

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), faz suas as palavras do escritor Mário Cláudio que afirma que tem de haver colo para ler. E ler é essencial na formação da personalidade, na mecânica da leitura, na aquisição de vocabulário para expor ideias, para o sentido crítico, para argumentar, comentar o mundo, desenvolver a criatividade e a imaginação, para adquirir valores. “Uma família que não lê não forma para a leitura.”

Muitas vezes, o primeiro contacto com os livros acontece no primeiro ano de escola. “Estudar pressupõe sublinhar, fazer apontamentos. Se o aluno não o pode usar como instrumento de trabalho logo desde os primeiros anos da sua escolaridade, não será também assim que o vai encarar nos anos mais avançados.” Para Filinto Lima, um manual é para ser usado. “Impedir que os alunos sintam o livro como instrumento de trabalho pode ser prejudicial. Não sabemos como será o ensino no futuro, mas seja qual for o suporte de informação deverá ser permitido que se façam anotações (mesmo nos livros digitais, já há processos de anotar, fazer notas laterais, esquemas para estudo), porque é assim que se estuda, se faz a seleção da informação que se pretende para cada caso.”

Os livros de estudo devem, portanto, ser usados como sempre foram. “Lidos, explorados, anotados, sublinhados e guardados. Sempre há qualquer coisa que podemos aprender nos nossos velhinhos livros. Mesmo quando acharmos que já nada podem fazer por nós, os bons livros sempre trazem à memória ensinamentos, métodos de aprendizagem e pequenas coisas que nos escaparam quando fomos estudantes”.

O livro é um amigo no processo de socialização das crianças e jovens, um instrumento de desenvolvimento, de conhecimento, de habilidades de escrita, de criatividade, de interpretação. Um amigo que ajuda a conhecer melhor o mundo. “A apropriação do livro como instrumento de crescimento e aprendizagem, desde muito cedo, garante um maior equilíbrio nas aprendizagens e promove o sucesso formal e informal nas mesmas. Nesse sentido, o livro, de acordo com o nível etário, deve ser sempre visualmente estimulante, colorido em idades mais precoces e estruturado de forma apelativa, oferecendo manchas gráficas motivadoras e conteúdos que vão ao encontro da necessidade reprodutiva da imaginação das crianças e jovens. O livro, para os jovens, deve ser sempre o primeiro contacto estruturado com o mundo que fica para além das fronteiras visíveis”, refere Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE).

Manuel Pereira pertence a uma das gerações que se habituaram a usar os livros de estudo como bloco de notas. Para sublinhar, fazer apontamentos, notas de rodapé. Mais do que um hábito, uma estratégia promovida como boa prática. Os livros académicos estavam noutro patamar, protegidos de tais práticas, quase como uma questão cultural. Na sua opinião, os livros, nomeadamente no Ensino Básico, devem continuar a ser instrumentos a apropriar pelos utilizadores.

“Sublinhar ou colorir informações são estratégias difíceis de substituir. Registar pequenas notas é como colocar semáforos de memória na informação marcante ou mais relevante dos aprendentes. Daí que, percebendo o princípio que enforma a política de empréstimo de manuais escolares, não deixamos de registar, contudo, a enorme dificuldade que é essa mudança de paradigma. Admitimos a necessidade de reformular o conceito de livro académico, nomeadamente ao nível do Ensino Básico porque, de facto, a estrutura dos mesmos propicia as práticas tradicionais que agora se pretendem alterar”, adianta o presidente da ANDE e diretor do Agrupamento de Escolas de Cinfães.

Nada se muda de um dia para outro, mas Manuel Pereira considera que é necessário repensar o conceito de manual escolar. “Talvez esse, um passo a ser experimentado antes, para depois se poder estimular a devolução de manuais para posterior reutilização. O livro não pode ser um objeto intocável, antes deve ter uma relação quase quinestésica com os seus utilizadores e nesse sentido deve ser usado, manuseado e utilizado”, defende.

Para onde caminhamos nesta relação com os livros, nestes novos hábitos de leitura? “Os mais novos nascem agarrados ao suporte digital. Normalmente para jogos ou coisas mais supérfluas, como as redes sociais, ou mesmo para comunicarem entre si. Hoje os seus espaços de encontro são no computador, telefone ou tablet. Poderemos nós impor outros gostos ou relações? Mesmo que o pudéssemos fazer não teríamos o resultado pretendido, porque ninguém se desenvolve sem liberdade de escolha. O que precisamos é de ser capazes de descobrir e perceber como incentivar a leitura através de propostas que desafiem a criatividade e o espírito crítico das crianças e dos jovens”, refere Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP).

O que pode ser feito? Estimular a relação com a leitura, respeitando vontades e capacidades dos mais novos. Trabalhar de forma transversal as diferentes áreas do conhecimento. Trabalhar mais nas bibliotecas. Explicar a importância do livro na compreensão do dia a dia. “O aroma do livro insere-se no nosso cérebro e enraíza-se na nossa memória fixando a vontade de voltar ao seu contacto”, sublinha o dirigente da CONFAP.

As novas tecnologias vieram para ficar, facilitam o acesso à informação e às histórias, exigem pouco esforço, e os jovens não sentem a necessidade de ler. “A escola, por vezes, também mata a vontade de ler ou não seduz para a leitura. Ou a impõe, e a obrigatoriedade é meio caminho para a rejeição, ou retira o tempo necessário para o fazer priorizando outras competências, ou não seduz para ela: o docente que não lê não motiva para a leitura”, observa Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). “Atrevo-me a dizer que os fracos hábitos de leitura serão nefastos para os homens e mulheres do amanhã já que lhes vai ser exigida a criatividade, o empreendedorismo e atualização de conhecimentos ao longo da vida. Só quem dominar a leitura e souber transformá-la em conhecimento conseguirá intervir de forma responsável na sociedade”, acrescenta.

Mas há coisas a fazer. Apostar na leitura, educar as famílias nesse sentido, incutir na sociedade que é fundamental valorizar esse hábito. “Se a escola encarar a leitura como uma mais-valia para a formação global da criança ou jovem dando-lhes tempo para ler e encarar a leitura não como um enfado, mas como uma fonte de prazer e fruição, então não teremos razões para alarme porque eles voltam.” Eles voltam a ler.

Os hábitos de leitura têm vindo a sofrer alterações substanciais ao longo dos últimos anos, nota-se um certo declínio da leitura como instrumento tradicional. Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), olha para tudo isso não como problemas, mas como oportunidades. “A leitura não perdeu importância nem o livro perdeu espaço. Motivar para a leitura requer, hoje, dinâmicas motivacionais diferentes e o recurso a novos estímulos menos formais e mais próximos das vivências experienciadas de cada um”, realça.

“O aparecimento de novos centros de interesse também se constitui como oportunidade na medida em que o próprio livro se consegue reinventar e oferecer, ele próprio, novos caminhos. Quando até há uns anos, o livro não tinha qualquer concorrência no processo motivacional proposto por pais e educadores, surgindo como o arquétipo do conhecimento, hoje, as novas tecnologias propostas pela Internet e por todas as valências a ela associadas oferecem um manancial de espaços motivacionais estimulantes, e mesmo viciantes, que não deixam espaço para o regresso ao livro, entendido, claro, como instrumento tradicional de leitura”. “É claro que o livro e a leitura não perderam o seu papel fundamental. Continuam a ser opções fundamentais na construção académica estruturada do conhecimento e da formação pessoal”, acrescenta o dirigente da ANDE.

Uma chave para novos mundos

Para Paulo Guinote, professor de Português, licenciado em História e doutorado em História da Educação, que durante anos geriu o blogue A Educação do Meu Umbigo, um dos mais lidos sobre temas educativos, os livros de estudos são como amigos que não magoamos, mesmo quando brincamos com eles. “Como qualquer outro ‘utensílio’ que usamos para uma função, mas não deitamos fora depois desse uso. Os livros de estudo são companheiros e, em simultâneo, cápsulas do tempo dos seus utilizadores, para quem podem constituir um inestimável e indispensável elemento de construção da memória e identidade pessoal. Os livros de estudo ajudaram-nos e ajudam-nos a sermos o que somos”.

Promover a leitura no suporte tradicional e tornar os livros mais acessíveis, com preços adequados, são caminhos possíveis. “O aumento dos níveis de leitura não passa por campanhas em que se anunciam futuros apenas digitais, desmaterializados e em que o objeto-livro de torna financeiramente pouco acessível. Há que adaptar o preço da oferta de forma a alargar a base da procura e não investir apenas num nicho estável de compradores recorrentes. O preço de certos livros para crianças e jovens é demasiado elevado, bastando comparar com o que é praticado em outros países (e estou a ter em conta a necessidade de pagar a tradução e os pagamentos de direitos de autor). Há livros a 12-15 euros de autores já no domínio público, quando em Inglaterra essas coleções têm preços de 3-5 euros. A inserção de algumas ilustrações não justifica a discrepância”, conclui.

Paulo Guinote olha para um livro como “uma chave que abre o acesso a um mundo novo, seja de conhecimentos sobre um dado tema, seja da imaginação dos autores”. “Um livro deve ser um ‘objeto’ que, quando aberto e interpretado, permite a transformação do seu leitor, trazendo-lhe uma mais-valia que deve ser mais do que meramente utilitária, contribuindo para o seu bem-estar e felicidade”.

Nunca gostou de escrever nos livros, a menos que fosse obrigado. Em seu entender, a apropriação do livro não passa necessariamente por sublinhar ou fazer anotações, práticas que, em seu entender, podem não interferir na relação com os livros. “Acho mais perigosa a ideia de ‘desmaterializar’ os manuais escolares, tornando-se algo imaterial e não manuseável pelos alunos. O livro foi ao longo do tempo um ‘espaço’ para o diálogo entre o seu conteúdo e o leitor, não sendo as anotações o mais importante. Acho que o ‘fim’ dos livros físicos é um atentado muito maior a essa relação de familiaridade”, comenta.

“O não estragar os livros nunca pode ser uma mensagem errada. O que deve sublinhar-se é uma utilização correta e responsável dos materiais escolares. Foi graças a isso que pude manter os meus livros da ‘Primária’ e ainda os ter, décadas depois. Mesmo se resolvi neles alguns exercícios. O livro não deve ser ‘sacralizado’ da forma errada. É um objeto que manuseamos, que exploramos, mas que não devemos estragar de forma desnecessária.”

O fim anunciado dos livros em suporte físico preocupa Paulo Guinote, mas, apesar da ameaça dos meios digitais, o professor verifica que a área infanto-juvenil é dos setores editoriais que mantêm maior dinamismo. “Uma coisa boa foi a promoção ativa da leitura a partir das escolas, o PNL é das medidas menos controversas na área da Educação, outra a permanência do gosto dos ‘miúdos’ por lerem num suporte tido como tradicional; por fim, uma terceira coisa boa é a qualidade média do que é editado, seja nacional ou importado. E não é apenas o fenómeno ‘Harry Potter’. O fenómeno menos bom é a insistência num discurso que parece estar sempre a anunciar o fim do livro tradicional e o suporte digital como o único ou dominante ‘no século XXI’. Quem isso faz, para além de objetivamente prejudicar o livro, é mais prisioneiro de algumas modas do que propriamente um profeta certeiro”, refere.

Fonte

 

Governo diz que pais devem fazer queixa se receberem manuais estragados

Setembro 19, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 19 de setembro de 2017.

O Estado conseguiu reutilizar pelo menos 15 mil manuais do 1.º ano com a nova política de reutilização, mais os 15 mil manuais que passaram de mão no âmbito da Acção Social Escolar. Números “bastante encorajadores”, diz Alexandra Leitão.

Bárbara Reis

Se recebeu manuais escolares usados e considera que não estão em condições de poderem ser utilizados pelo seu filho do 1.º ano do ensino básico, o melhor solução é falar com a sua escola, aconselha a secretária de Estado Adjunta e da Educação Alexandra Leitão.

Ao ministério não chegaram protestos sobre o estado dos manuais escolares redistribuídos neste “ano zero” da nova política de gratuitidade e reutilização, lançada no ano passado pelo Governo de António Costa. Mas há casos — ninguém sabe quantos ou se são representativos —, em que as escolas deram aos pais, no início deste ano lectivo, manuais manifestamente impróprios para serem utilizados uma segunda vez: têm a escrita a lápis das crianças, as correcções a esferográfica dos professores, autocolantes colados e desenhos pintados com várias cores que cobrem páginas inteiras.

Livros que estejam nessas condições não devem ser reutilizados, diz a secretária de Estado. E, nesses casos, os pais “devem fazer o mesmo que fazem sempre que consideram que alguma coisa não corre de acordo com o que está regulamentado: contactar a escola e a Direcção-Geral de Estabelecimentos Escolares”.

“Se houver razão para isso, poderá equacionar-se a entrega de um manual novo”, diz a secretária de Estado. Por antecipar uma taxa de reutilização pequena nesta fase inicial, o Governo tem orçamento disponível para, se necessário, cobrir 100% dos alunos do 1.º ano. Havendo essa verba, “a escola pode vir a requerer se os pais se queixarem”.

“A indicação que demos às escolas foi a de que pedissem a verba integral para o 1º ano”, diz Alexandra Leitão. “Atendendo à idade das crianças e às características dos manuais, sempre dissemos que as expectativas de reutilização eram baixas.” As crianças são muito pequenas (entre os cinco e os sete anos) e os manuais são construídos para serem escritos, recortados e pintados da primeira à última página.

Neste momento, há um paradoxo evidente. Por um lado, o Governo deu instruções às escolas para fazerem “uso pleno” e trabalharem com os manuais “normalmente”, por outro, se os manuais existentes no mercado forem usados de forma “plena” deixam de poder ser reutilizados.

Desde 2006, com uma lei da então ministra socialista Maria de Lurdes Rodrigues, que os manuais têm de durar seis anos. É por isso necessário que os livros que agora estão em vigor cheguem ao fim do seu ciclo de vida e sejam substituídos por manuais sem tantos “espaços livres” para escrever para que a taxa de reutilização aumente.

No ano passado, a actual secretária de Estado fez um despacho (n.º 13331-A/2016), reforçando legislação anterior no sentido de obrigar as editoras a publicarem manuais “amigos da reutilização”. Desde 2016, esclarece o artigo 7 do despacho, que “os manuais escolares destinados ao 1.º ciclo do ensino básico e os manuais escolares de Língua Estrangeira dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico podem conter ‘espaços livres’, desde que a edição esteja concebida por forma a garantir a sua reutilização durante o período de vigência da respectiva adopção”.

O mesmo despacho diz também que “em nenhuma circunstância a existência de ‘espaços livres’ pode ser concebida por forma a impedir ou dificultar a reutilização do manual”. “Nós sabemos que começámos pelo mais difícil — os manuais do 1.º ano”, diz Alexandra Leitão. “Mas se não começarmos agora, quando estas crianças chegarem ao 3.º e 4.º ano, idade em que a reutilização já será muito mais fácil, a mentalidade não mudou e a mudança não acontece.”

Só metade dos agrupamentos de escolas deu feedback ao ministério sobre o número de manuais que conseguiu reutilizar a partir dos que recebeu no fim do ano lectivo anterior e que entregou aos alunos que entraram agora no 1.º ano. Dos dados existentes, o Governo sabe que foram reutilizados 15 mil manuais dentro da nova medida de gratuitidade. E que, a esses 15 mil, devem somar-se outros 15 mil manuais reutilizados no âmbito do programa de gratuitidade e reutilização da Acção Social Escolar (ASE), criado há seis anos, ou seja, 30 mil manuais reutilizados no conjunto do 1.º ciclo do ensino público. “É pouco, mas é bastante encorajador”, diz a secretária de Estado. Por uma razão matemática: só no 1.º ano, reutilizaram-se tantos livros como no conjunto dos outros três anos cobertos pela ASE.

Este ano lectivo 2017/18, a medida de gratuitidade abrange já todo o 1.º ciclo do ensino público — potencialmente os 320 mil alunos inscritos, num investimento de 12 milhões de euros.

galeria das imagens no link:

https://www.publico.pt/2017/09/19/sociedade/noticia/governo-diz-que-pais-devem-fazer-queixa-se-receberem-manuais-estragados-1785861#&gid=1&pid=1

 

 

“Não é de menor importância o tipo de imagens que transmitimos às nossas crianças”

Agosto 30, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Entrevista da http://sicnoticias.sapo.pt/ a Teresa Fragoso no dia 24 de agosto de 2017.

Visualizar o vídeo da entrevista no link:

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2017-08-24-Nao-e-de-menor-importancia-o-tipo-de-imagens-que-transmitimos-as-nossas-criancas-1

As vendas de dois blocos de atividades para rapazes e raparigas, dos 4 aos 6 anos, lançados pela Porto Editora, foram suspensas após recomendação do Governo. A presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género, Teresa Fragoso, explicou, na Edição da Noite, as razões que levaram à recomendação para que a venda fosse suspensa.

 

“Se todos seguissem Setúbal, o problema dos manuais estava resolvido”

Agosto 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 14 de agosto de 2017.

Enric Vives Rubio

Distrito tem 30 pontos de recolha e 30 funcionários públicos que mantêm bancos de troca abertos durante todo o Verão.

Bárbara Reis

Henrique Trigueiros Cunha, fundador do Movimento Reutilizar, não tem dúvida: “Se todos os distritos de Portugal seguissem o exemplo de Setúbal, o problema dos manuais escolares estava resolvido.”

No distrito de Setúbal, que tem quase um milhão de habitantes e concelhos grandes como o Seixal, Almada e Barreiro, a associação de municípios regional inspirou-se no Seixal — que em 2005 lançou o projecto “Dar a Volta” na sua biblioteca municipal — e estendeu-o a todo o distrito em 2013, criando uma rede de bancos de troca de manuais nas 30 bibliotecas públicas e respectivos pólos. “É um caso exemplar”, diz Trigueiros Cunha, que desde 2011 é um empenhado activista da troca gratuita de manuais, ano em que abriu o banco-sede do movimento na Avenida da Boavista, no Porto.

“Não conheço nenhum outro distrito a trabalhar em rede”, diz. “Imagine se a Área Metropolitana de Lisboa, que tem [quase três milhões de habitantes] e 44 bancos de troca, funcionasse em rede?” Hoje, “só em Lisboa, há bancos a funcionar em juntas, bibliotecas, paróquias, clubes de futebol, associações religiosas, associações de moradores, casas de juventude…”, diz Trigueiros Cunha. “Como cada banco funciona à sua maneira, há queixas, sobretudo de que não cumprem os horários anunciados.”

Liliana Cunha, que trabalha no projecto coordenado pela Associação de Municípios da Região de Setúbal, explica que 3600 famílias recolheram manuais usados na rede distrital em 2015, num total de 4200 alunos beneficiados. A troca implica gastos, embora não directamente para as famílias, uma vez que há mais de 30 funcionários públicos que trabalham nas bibliotecas durante o Verão, para receber, fazer a triagem e entregar os livros. “É um serviço muito importante para a população, pois envolve poupança, respeito pelo ambiente, combate ao desperdício e solidariedade. Está tudo interligado.”

 

 

De que adiantam os manuais digitais se as escolas não investirem em tecnologia?

Agosto 22, 2017 às 6:00 am | Publicado em Livros, Recursos educativos | Deixe um comentário
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Texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 2 de agosto de 2017.

Professores e escolas consideram positivo o recurso a manuais escolares digitais, mas alertam que é necessário dotar as escolas com as ferramentas necessárias, uma vez que o equipamento tecnológico existente está obsoleto.

Texto de Lusa | Fotografia de Shutterstock

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou na terça-feira um diploma da autoria do Partido Ecologista Os Verdes (PEV), que visa fomentar a desmaterialização dos manuais escolares, abandonando progressivamente os materiais em papel.

«Esta medida é muito bem-vinda» e «será muito bem acolhida pelas escolas», a questão «é como se vai implementar este processo», disse à agência Lusa a presidente da Associação Nacional de Professores, Paula Carqueja, que observa que «há muito equipamento tecnológico nas escolas, mas que está obsoleto».

Esta posição é partilhada pelo presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, que também considera a «medida positiva», mas defende que «é preciso haver um investimento nas novas tecnologias».

«Já há manuais digitais desde 2013, mas o que não há nas escolas é computadores e tablets suficientes para serem usados» pelos alunos, disse Filinto Lima à Lusa. Além de serem poucos, «os computadores das escolas públicas estão obsoletos», adiantou, defendendo que, antes de «a medida ser universalizada» é preciso dotar as escolas com estas ferramentas.

Para Filinto Lima, devia ser criado um «programa tecnológico de educação» semelhante ao que existiu há «alguns anos» e «dotou as escolas de bons computadores». «Não podemos começar a construir a casa pelo telhado, tem de ser pelos alicerces, que é dotar as escolas de material para que possam ter acesso posteriormente aos manuais digitais», disse Filinto Lima, sublinhando que, «sem isso, não vale a pena dar esse passo, que é um passo de futuro».

Paula Carqueja alertou também para o facto de o acesso à internet não ser uniforme em todo o país, afirmando que há regiões do interior que nem têm rede. «Quando falamos da desmaterialização e da utilização dos materiais digitais é preciso atender que há locais onde a internet é um bocadinho escassa e a ligação também», advertiu.

Outras questões apontadas por Paula Carqueja prendem-se com «quem vai equipar as escolas», que ferramentas serão utilizadas (‘tablet’, ‘ipad’ ou computador) e como.

Deve ser a escola a emprestar o meio eletrónico, que «a criança só utilizará na sala de aula», defendeu a presidente da Associação Nacional de Professores, advertindo que este encargo não pode ser pedido aos pais.

Para Filinto Lima, a aposta na tecnologia tem de ser feita pelo Estado e deve ser considerada uma prioridade, para que a escola possa acompanhar a evolução da sociedade. Se todos os setores «já estão a trabalhar com novas tecnologias, a escola não pode ficar para trás», defendeu.

Para Paula Carqueja, a medida exige também uma formação contínua dos professores para que possam acompanhar a permanente atualização dos meios tecnológicos.

Outros pontos positivos apontados por Paula Carqueja e Filinto Lima são a diminuição dos gastos das famílias com os manuais escolares e as melhorias para a saúde das crianças, ao aliviar o peso que transportam nas mochilas.

«O avanço para o digital é importante, tendo em conta o peso das mochilas, porque iria diminuir drasticamente os quilos de livros que levam para a escola», sublinhou Filinto Lima.

O diploma, que foi aprovado por maioria a 07 de julho, apenas com abstenção do CDS-PP, assenta em três pontos: poupança de recursos naturais, facilitar a gratuitidade dos manuais a todo o ensino básico e secundário e aliviar os estudantes dos pesos que transportam diariamente para a escola.

 

 

 

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