Mãe, sempre ela…

Agosto 30, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mário Cordeiro publicado no dia 24 de agosto de 2016 no site http://www.paisefilhos.pt/

pais filhos

Durante toda a vida formamos com os nossos pais um triângulo, psicologicamente muito forte, que resiste a praticamente todas as intempéries. Podem acontecer separações, divórcios, até mortes, mas a presença da família parental psicológica é quase perene. São raros os casos em que não temos, dentro de nós, ambos os progenitores – inclusivamente nos casos em que há maus tratos ou rejeição das crianças, estas mantêm uma ligação psicológica muito forte, além do que é verbalizado, com os pais.

E se com três letrinhas apenas se escreve a palavra pai, também a palavra avó, tio ou outras se escrevem assim, como não, sim, ou… mãe.

As mães são mães. Sempre. E é quem nos ocorre quando algo não está bem, quando nos apercebemos do perigo. É, dizem, a última palavra que alguém pronuncia antes de morrer.

As mães geraram-nos e cuidaram de nós, deram-nos mimo e afeto – e é para dentro da barriga delas que queremos regressar, sempre que nos sentimos tristes, desconfortáveis ou em risco, doentes ou com medo. Se estiver frio, deitamo-nos enroscados. Se alguém nos ameaçar, encolhemo-nos. Em situações de graves carências alimentares ou afetivas, voltamos à forma de girino. A posição fetal poderá não passar de uma ilusão de segurança, mas tão forte que funciona na nossa mente, pelo menos o suficiente para nos esquecermos do resto, do que nos ameaça.

As mães são calor, são fortes e são segurança. Estudos recentes revelam que os mamíferos precisam de ver a mãe, nos primeiros anos de vida, como farol de securização. Mal nascem deveriam ser postos a mamar, abraçados pela mãe mas tantas maternidades recusam à tríade esta opção, sem qualquer razão científica que o justifique. Nunca é demais relembrar: os ‘assaltos à mão armada’ que todos os dias se dão nas salas de parto, contrariando expectativas de mães, pais e bebés, que nem têm oportunidade de, nesse momento transcendente, tocar-se, cheirar-se, ver-se. O senhor ministro da Saúde está a milhas deste facto, certamente, e deve achar que isto são maluqueiras de um pediatra, mas é pena que tudo continue na mesma que as leis e o Estado, nisso e em tanta outra coisa, não compreendam o que a Ciência mostra, ao analisar os comportamentos humanos, designadamente os nossos próprios e das nossas crias.

 O DESEMPENHO DAS MULHERES

Na sociedade portuguesa, até há bem pouco tempo, era esperado de uns e outros, homens e mulheres, o desempenho de papéis marcadamente diferentes. Simplificando, às mulheres competia genericamente cuidar dos filhos e da casa e aos homens sair para trabalhar e ganhar dinheiro. Era esperado, das mulheres, que fossem gentis e submissas, enquanto a dureza e a ambição ficava para os homens. Apesar de não ter sido há muitos anos que se deu a viragem, esses tempos já parecem felizmente longínquos e espera-se que nunca mais regressem. Mas também não podemos considerar a tarefa acabada.

A bem dizer, não é verdade que antes das sociedades urbanas e do pós-Guerra as mulheres só estivessem a olhar para os bebés. Nada de mais falso. Além de trabalharem (em meio rural, desde amanhar fazendas, apanhar frutos ou dar de comer à criação e ao gado), faziam a lida da casa, tinham vida social (a ‘intriga’, com o seu papel fundamental, era garantida pelas mulheres), iam à venda todos os dias (não havia frigoríficos nem métodos de armazenagem que não o sal) e dedicavam-se a artes e ofícios (bordar, pintar, etc).

A diferença é a escala e o modo com que se faz o mesmo, mas também não se imprimem livros como na era de Gutemberg, com a mais-valia de as mulheres se preocuparem com a segurança das crianças, com a sua saúde e com a prevenção. E com o acréscimo de lhes darem mimo, afeto, brincadeira e educação.

Se as mulheres não se devem fazer de vítimas (dos homens, geralmente) como algumas feministas difundem, também não devem assumir culpas que não são suas, nem deixar que os arquétipos mais devastadores da moral judaico-cristã – a auto-flagelação psicológica – tome conta delas. São vencedoras. Felizmente. Mas com os homens, na mesma caminhada, e não contra os homens.

 DEPOIS DO PRIMEIRO ANO

Após os nove meses de idade, há uma nítida sensação de que os filhos fogem por entre os dedos das mães.

O surto de desenvolvimento que começa nessa idade, e que se prolonga pelo menos até ao ano e meio, faz-se no sentido da autonomia, embora com o correspondente contrapeso da regressão. No primeiro componente é o pai o principal motor, no segundo a mãe.

O instinto maternal, que não desapareceu só porque os estilos de vida mudaram, quanto muito amansou-se, leva a que as mulheres sejam ‘programadas’ para terem muitos filhos, mesmo que não os tenham ou decidam não os ter. Mas há que diferenciar o que é genético e antropológico, do que é social. O que é emocional do que é racional.

Ao longo de centenas de milhar de anos, quando a criança começava a crescer, no sentido dessa explosão autonómica, devidamente puxado pelo pai, a mãe já estaria à espera de outro bebé ou pelo menos a programá-lo para breve, e assim seria até ter uma dezena de filhos e ver totalmente preenchido o seu sentimento de maternidade, passando então ao desejo de ser avó.

Isto não acontece hoje, pelas múltiplas razões conhecidas, o que leva a que as avós muitas vezes vejam nos netos os filhos que já não tiveram, e as mães sintam que este crescimento dos filhos e a sua “fuga” dói. E dói muito. E às vezes a vontade de os manter pequeninos é grande – como provam todas as crianças com mais de um ano que mamam durante a noite ou quando fazem uma birra. Estes lutos são difíceis, como qualquer luto. Sofre-se. Dói. Mas não se lhes pode fugir, se se quer atingir a tranquilidade.

“Eu acho que já saí da vida dela!” – a frase foi proferida como se estivesse no teatro. Só que não estávamos, mas sim no consultório.

“Da vida de quem?” – parecia-me um diálogo de telenovela.

“Da minha filha, da Gina.”

“Porque é que sente isso?”

“Porque no fundo perguntei a mim própria: se eu desaparecesse, ela tinha tudo o que precisava… já deixou de ser bebé…”

Aquela mãe estava órfã. Órfã de filha, se assim se pode dizer.

Mas não tinha razão para ser tão dura com ela própria. Em primeiro lugar, porque era normal sentir a ausência de um bebé que pudesse considerar como completamente dependente, quase como se estivesse dentro da sua barriga. Depois, porque esse processo não tinha a ver com o crescimento e com a necessidade que a Gina tinha de ter sempre mãe, não apenas como lugar de refúgio, mas também como fator de crescimento, segurança e indutora da autonomia.

“O seu bebé há-de ser sempre o seu bebé, mesmo quando tiver quarenta anos de idade.”  Há que ultrapassar esse momento através, exatamente, de constatar o bom trabalho que já tinha feito e o que a Gina ainda precisava dela. “Se está a carpir as suas mágoas é que depois não tem disponibilidade para ela. E ela precisa muito de si… todos os filhos precisam das mães.”

Passado um tempo já tinha conseguido reposicionar-se, gracejando: “quando tenho muitas saudades dela em bebé vou ver as fotografias que tenho no computador.”

 MÃES E MAMÃS…

Se uma criança passa mais tempo com outra mulher, será que há razões para as mães temerem ser colocadas em segundo lugar e os afeos se dirigirem às pessoas que passam com elas praticamente todo o tempo em que estão acordadas (pelo menos nos dias úteis)?

Algumas crianças, no início do segundo ano de vida, podem chamar “mamã” às educadoras, amas ou até às avós. Mas uma coisa é a mãe, outra a mamã. Se a primeira é a verdadeira, a única, já a segunda tem outros significados para a criança, como mulher, prestadora de cuidados essenciais, amiga e companheira de brincadeiras. Mas as mães que não se preocupem porque mãe há só uma, como diz o ditado, embora mamãs possam passar pela vida da criança sem que isso as faça esquecer a sua real progenitora.

“Corre!” – gritou o pai da Inês, de dois anos e meio, mal chegaram ao grande relvado do parque onde tinham ido passear.

“Cuidado!” – gritou simultânea e instintivamente a mãe.

Incongruência? Dissensão familiar? Não, pelo contrário, A complementaridade que exige que exista, para a criança, um pai e uma mãe.

O que ficará na sua cabeça é a expressão “Corre… com cuidado”, ou seja, exercita as tuas capacidades, gere o teu risco mas de forma controlada e cautelosa.

Pais e mães são necessários.

Abaixo os juízes, os pais e as mães que recusam, em caso de separação, e sem razão justificável, esta conjunção astral. São maus profissionais, são maus pais, são más mães. E não vou estar com papas na língua ou com rodeios num assunto que é do superior interesse da criança.

 HOMENAGEM ÀS MÃES

Na consulta dos dois meses, costumo dizer aos parceiros das mães que amamentam, que, quando o bebé tiver dois meses e dois dias, terão que dar um presente à mãe, pela ‘quinhentésima’ mamada. A sete por dia, é o que dá. E, em geral, os pais assumem o ónus, riem-se e dizem: “prometido!”

As mães são realmente formidáveis. Geram, amamentam, cuidam, sossegam, cantam com as palavras, securizam. E trabalham, vão às compras e sabem o que é o melhor para a família.

Na sociedade romana, a mãe era a encarregada de manter a chama da lareira da casa acesa, com a lenha que o pai trazia diariamente. O deus Lar era o protetor das casas, e é daí que vem a palavra lareira, e também a designação das habitações como “fogos”. A lareira ficava no centro da habitação, e aquecia os adultos e crianças residentes, permitindo também cozinhar e reunir as pessoas à sua volta.

O papel da mãe no lar, lugar eminentemente regressivo e apaziguador, securizante e calmante, não deve ser subestimado, nem denegrido porque algumas mulheres consideram que o lar é sinónimo de “tachos e panelas”, opressão machista e outras coisas mais. Para a criança, a mãe significa psicologicamente a regressão (mesmo que esse puzzle seja composto pela própria mãe e por muitas mais peças) e o pai a ousadia.

Por outro lado, as mães têm também uma simbologia de organização, calma e pensamento a prazo, ao contrário dos pais, mais ousados, exteriorizantes mas imediatistas e tantas vezes imaturos e inconsequentes (notem, sem que isto seja necessariamente mau, se complementado pela influência das mães). O triângulo funciona se os vértices forem equilibrados e a influência dos pólos Mãe e Pai eficiente e adequada.

Mas hoje, que falamos de mães, prestemos homenagens a elas. Recordo a minha, com saudade. Mesmo cá já não estando, está. Como aquela que dá um beijo, aconchega os cobertores e diz: “dorme bem, meu querido!” Não está, mas está. Sempre!

 

 

Estudo conclui que filhos de mães pouco escolarizadas tendem a ser obesos

Março 19, 2016 às 6:34 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 11 de março de 2016.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Impact of Low Maternal Education on Early Childhood Overweight and Obesity in Europe

LUSA

Em Portugal, 21% das crianças têm excesso de peso e 6,5% são obesas.

Dois investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) participaram num estudo internacional que conclui que os filhos de mães com baixa escolaridade apresentam um risco maior de terem excesso de peso e obesidade.

De acordo com um comunicado sobre o estudo enviado pelo ISPUP, no qual participam os investigadores Henrique Barros e Sofia Correia, da Unidade de Pesquisa de Epidemiologia daquele instituto, em Portugal registaram-se “percentagens elevadas e excesso de peso e de obesidade e uma percentagem elevada de mães pouco escolarizadas”.

Apesar das desigualdades de género terem sido semelhantes às observadas em outros países europeus, a diferença absoluta na proporção de excesso de peso entre os extremos de escolaridade foi “particularmente elevada nas raparigas”, acrescenta.

Portugal apresentou uma percentagem de 21% de crianças com excesso de peso (resultado parecido com o observado em Espanha e Reino Unido), variando entre 9% na Holanda e 24% na Grécia e em Itália, lê-se na nota informativa. Em relação à obesidade, o estudo mostrou variações entre 1% em França e 6.5% em Portugal.

Para a investigação Impacto da Baixa Escolaridade Materna no Excesso de Peso e Obesidade na Primeira Infância na Europa foram recolhidos dados de 11 estudos europeus de coorte – projectos prospectivos em que os participantes são avaliados ao longo do tempo.

Esses estudos, iniciados em fases “muito precoces”, levaram a num total de 45 413 crianças entre os 4 e os 7 anos, tendo os dados nacionais sido recolhidos no âmbito do projecto Geração XXI, coorte que segue mais de 8500 crianças desde o nascimento (em 2005-2006).

“Independentemente de outras características, o risco de excesso de peso em crianças de mães pouco escolarizadas foi cerca 1.6 vezes superior ao daquelas no topo da hierarquia”, valor que aumentou para 2.6 quando avaliado o risco de obesidade, explicou Sofia Correia. “Em termos absolutos, verifica-se uma diferença média entre os extremos de escolaridade na proporção de excesso de peso e de obesidade de quase 8% e 4%, respectivamente”, acrescentou.

Durante o estudo foram também observadas diferenças sociais na composição corporal das crianças em diferentes países europeus, o que pode contribuir para “perpetuar a desvantagem social” em saúde nos próximos anos, informa ainda o comunicado.

Os autores do estudo concluem que estes resultados “reforçam a urgência de uma intervenção precoce, mesmo antes do nascimento, no sentido de alcançar equidade em saúde”.

10 Mães de 10 nacionalidades revelam as diferenças na forma como educam os filhos

Agosto 10, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto da http://activa.sapo.pt de 19 de julho de 2015.

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Por Catarina Fonseca

Zoe Tsang |CHINA| duas filhas de 2 anos

As minhas gémeas são tudo para mim. Em Honk Kong, é moda ter uma empregada doméstica o dia todo para tratar da casa e para tomar conta das crianças. Eu também tenho, mas prefiro tratar das minhas filhas eu própria. Eu e a minha irmã temos a nossa própria escola de inglês, e isso torna possível que tenhamos horários mais flexíveis. Os laços de família são muito importantes para os chineses. Tentamos apoiar-nos uns aos outros e funcionamos como uma unidade. Lembro–me que na Dinamarca, onde cresci, a maioria dos adolescentes sai de casa à volta dos 18 anos. Aqui, em Hong Kong, só deixamos a nossa família para casar, e isso não é malvisto. Há mesmo quem continue a viver em casa dos pais depois do casamento, escolhendo funcionar como uma família maior. Mas hoje em dia já há pessoas mais novas que vivem de forma mais ‘ocidentalizada’, e já saem mais cedo de casa para viverem sozinhos. Como chinesa, acho que a minha responsabilidade é ensinar às minhas filhas o valor da família como um todo, para que possam viver uma vida feliz e harmoniosa.

Olga Volodymyrivna | Ucrânia | um filho de 4 anos

Uma coisa que as mães ucranianas fazem é: nunca obrigamos as crianças a comer. Não quer, não come. Outra diferença: é impossível, na Ucrânia, alguém que tenha um bebé a gatinhar deixar entrar pessoas em casa sem tirar os sapatos. Também acho isso um bocado exagerado. As ucranianas limpam o chão duas vezes por dia, se for preciso. As crianças ucranianas costumam ser boas alunas porque os pais as ensinam a levar a escola muito a sério. Os pais estão em contacto constante com os professores e ajudam as crianças no seu percurso escolar.

Maria José Benito | Espanha | dois filhos de 11 e 14 anos

Na minha opinião, as mães portuguesas não fazem grande diferença das espanholas, porque as nossas sociedades são cada vez mais parecidas e isso faz com que a educação que damos aos filhos também seja cada vez mais similar. Se calhar, nós somos mais expansivas. Eu, como mãe espanhola, diria às portuguesas para exprimirem mais os sentimentos aos filhos, não só com palavras, mas também com beijos, abraços, festas… porque isso pode fazer milagres! E quando temos de ralhar com eles, que seja também para ralhar mesmo! Também lhes diria para ensinarem aos filhos a valorizar mais o facto de serem portugueses, a defender a sua cultura, a sua língua e a terem orgulho neles próprios.

Mikaela Öven | Suécia | três filhos entre 7 e 11 anos

As mães suecas são descontraídas. Não temos medo do frio, nem da criança se sujar, nem de cair do baloiço. Só se estiver um tempo mesmo mesmo impossível é que não saímos de casa, estamos habituados a sair e a brincar lá fora com todo o tipo de tempo. Também temos uma relação muito forte com a natureza, não gostamos de estar fechados. As mães portuguesas vestem as crianças de maneira muito arranjadinha (risos). Nós damos prioridade ao conforto acima de tudo. O que interessa é que a criança consiga brincar e esteja confortável. As mães suecas dão muita liberdade às crianças, não andam sempre em cima delas. Elas vestem o casaco se quiserem. Respeitamos muito a individualidade delas. Temos uma relação muito de igual para igual, mas isso faz parte da cultura sueca, que sempre foi muito democrática. Temos muita confiança neles, não andamos sempre à espera que façam qualquer coisa de errado, esperamos sempre o melhor. Na Suécia, se alguém der uma palmada a uma criança pode ir preso. Também ralhamos com os nossos filhos, claro, mas não é com a impulsividade do sul, não o fazemos de maneira agressiva. Os pais homens têm uma relação bastante forte com os filhos, porque partilham o tempo de licença de maternidade, que é um ano e meio (na pior das hipóteses). São muito desenrascados, fazem tudo o que as mães fazem, e as mães suecas confiam bastante neles.

Hiroko Gamito | Japão | um filho de 22 anos

As crianças japonesas respeitam muito o espaço dos outros, são educadas para não incomodar. Se uma criança portuguesa sai do baloiço, ainda continua lá à frente, e as outras crianças não podem brincar. São pouco educadas a ter limites e a respeitar os outros. Também me parece que as mães portuguesas gostam muito de exibir os filhos e de falar muito bem deles, quando a realidade não é bem assim. Uma coisa muito boa que existe em Portugal: há muito convívio entre as gerações. No Japão, as crianças são educadas para usar todas aquelas fórmulas tradicionais de respeito para com os mais velhos, mas depois na prática é raro ver um adolescente a acompanhar um idoso. Em Portugal, isso vê-se muito, e é muito bonito de ver.

Penélope Martins | Brasil | dois filhos de 9 e 13 anos

Penso que o calor melhora as relações humanas. Menos roupa para prender os movimentos, menos medo de se molhar e apanhar resfriado, mais pés descalços, mais cantoria. O calor é colorido, e a mãe brasileira tem esse calor. É claro que uma mãe brasileira carrega hábitos portugueses, mesmo que não perceba. Talvez um dos mais fortes seja a constante reunião familiar na cozinha. Alimentamos nossas crianças o tempo todo. E se o arroz com feijão é diferente do hábito português, a mania de empurrar comida nos filhos não é. Eu cresci ouvindo ‘tens fome?’ e ‘já comeste?’ Somos mães habituadas a andar mais tempo descalças dentro e fora de casa, brincamos mais com água, agachamos no chão, no parque fazemos bolinhos de terra. Esse pé no chão, terra e água, talvez seja o legado indígena. Além disso, pé no chão faz barulho, batuque de palma da mão também faz. A mãe brasileira é barulhenta. Pudera, somos também misturados por diversas africanidades. A música é um refúgio de comunicação para a mãe brasileira dizer a vida aos seus filhos; a gente canta para dar comida, canta para brincar, canta para contar história e na hora de dormir a gente canta. Por um lado, não criar silêncios profundos pode ser nossa maior dificuldade. O silêncio é precioso, e faz falta. Por outro lado, a musicalidade é desenvolvida desde sempre.

Carla David | Angola | dois filhos de 4 e 9 anos

As angolanas são mais rígidas que as portuguesas, acho eu. Eu recomendo que não cedam aos caprichos das crianças e que não tenham medo de se fazer obedecer. Nós, angolanas da minha geração, que tenho 38 anos, crescemos sem espaço de manobra. Não sei se era das sequelas da guerra, de pais que estavam pouco tempo connosco e portanto tinham de se concentrar no que era essencial, mas a educação em nossas casas sempre teve muita rigidez. Crescemos com a ideia de que os nossos pais eram a autoridade máxima, e isso nunca nos fez confusão. Levávamos palmadas, e havia mesmo quem levasse chicotadas, mas na realidade só era preciso um olhar para obedecermos. Crescia-se com o fantasma do chinelo (às vezes não era só o fantasma). Eu não sou tão rígida com os meus filhos porque os tempos também são outros, mas mantenho essa ideia de que os pais são a autoridade máxima, que partilham com os professores (a educação, acho eu, deve ser um trabalho conjunto). E os meus filhos também obedecem a um olhar meu. Eles não fazem birras em casa, não choram no hipermercado. Nem é preciso levarem uma palmada – o meu olhar é desafiador. E isto não significa falta de carinho. Eles amam-me na mesma porque eu estou com eles em todas as alturas importantes da vida deles. Acho que os pais não deviam ter tanto medo de que os filhos deixem de gostar deles, porque a nossa posição de pais já está mais do que garantida. Ainda hoje, quando o meu pai me diz Tu vê lá!, eu ainda oiço. Criei meus miúdos com sons que povoavam os dois lados do Atlântico. E sim, sempre brincando com água. E terra. E vestindo uma mistura de cores.

Régine Campagnac | França | uma filha de 8 anos

Portugal tem uma coisa muito boa: as mães são muito carinhosas com os filhos. Outras coisas acho que podiam aprender mais com os franceses: responsabilizar-se pelos seus atos e sentir-se parte ativa da sociedade, são aspetos que os franceses levam mais a sério. Em Portugal, toda gente culpa os outros dos problemas mas escolhe poucas vezes responsabilizar–se. Em França, as pessoas queixam–se, mas agem. Parece-me que uma educação geral mais atenta e firme das crianças permitiria melhorar a eficiência da sociedade portuguesa. Assisto diariamente nos adultos a hábitos antiprodutivos: chegar atrasado, não respeitar prazos, fazer as coisas sem grandes cuidados, envolver-se o menos possível no trabalho para evitar “chatices”. Seria útil ensinar limites aos filhos: ser pontual, ter responsabilidades em casa, esperar a sua vez para falar, saber ficar calmo quando é preciso, falar mais baixo, não dizer palavrões, etc. Ensiná-los a encarar os desafios de forma otimista também me parece valioso nestes tempos difíceis, e é preciso determinação para isso. Promover a cultura, sem dar demasiada importância à cultura de massas (Disney, etc.), e sensibilizá-los para o respeito às diferenças: inclusive as das próprias crianças. Acho que é uma forma de respeito deixar o seu filho desenvolver a sua personalidade, independentemente dos nossos desejos de mãe. Por exemplo, deixar-lhe a opção de escolher as suas opções espirituais: não o batizar nem inscrevê-lo na catequese. Uma ideia bem francesa: promover a leitura de bandas desenhadas. São divertidas, espertas, e há para todos os gostos e idades. Os pais franceses costumam deixar algumas na casa de banho, que é um ótimo sítio de leitura! Outra ideia divertida é assistir a espetáculos de comédia ou ‘one man show’. Costumo ouvir na internet a estação de rádio “Rire et Chansons”, e a minha filha fica logo bem disposta! E, finalmente, informo que em França comem-se croissants sem fiambre nem queijo! Seria comparável a comer um pastel de nata com fiambre ou com queijo!

Sabine Halbich | Alemanha | uma filha de 8 anos

É verdade o que se diz, que as crianças alemãs são mais independentes e responsabilizadas, sim. Desde a primeira classe que vão sozinhas para a escola. Quatro semanas antes de a escola começar, há avisos da televisão e nos jornais sobre como ensinar as crianças a andarem sozinhas na rua, mesmo nas cidades. Há uma rede de escolas públicas muito grande, por isso a grande maioria das crianças vive perto da sua escola, mas mesmo as que vivem longe vão de autocarro sozinhas. Nunca temos a sensação de que estão em perigo, porque existem os vizinhos. Portanto, elas movem-se sempre em comunidade. E, por exemplo, se os pais estão num restaurante, as crianças entretêm-se a brincar lá fora e os pais não estão constantemente a olhar para ver o que elas estão a fazer ou se está a chover ou se têm o casaco vestido… Na Alemanha, o ensino é consistente. As coisas não estão sempre a mudar e não se tenta ensinar-lhes tudo desde bebés. As coisas são aprendidas se calhar mais devagar mas de maneira mais sólida. Fica tudo na cabeça. As aulas acabam ao meio dia e as crianças têm tempo para fazer os seus TPCs sozinhas. Quanto à ideia de que as mães alemãs são organizadas, também é verdade. Somos mesmo. Ensinamos as crianças a respeitar o espaço e o tempo dos outros, a cumprir as regras. Têm de ser pontuais. Não toleramos atrasos, porque é uma falta de respeito. Deixar o carro mal estacionado ou passar com um sinal vermelho, porque não há ninguém, são ‘exemplos’ que não damos aos nossos filhos. Também é muito importante que tenham as suas coisas arrumadas e organizadas. Uma coisa engraçada: gostamos muito de rituais. Na Páscoa, cozemos e pintamos ovos, fazemos bolos em forma de coelhos, construímos ninhos. O Natal é uma enorme festa, toda a família se junta para fazer bolachas. Mas em geral a responsabilidade individual e o respeito para com os outros são as bases da educação alemã.

Ana Rocha Leite | portugal | três filhos entre 4 e 9 anos

Não sei se é característica de quem é portuguesa, mas eu sou…GALINHA! E com muito gosto… Sou cuidadosa, stressada, exigente, chego a ser um bocado intransigente. Gosto de regras, de horas, de ter tudo sentado à mesa a jantar em família, de os chamar e que eles me respondam à primeira, gosto que digam “bom dia” a quem chega, que cumprimentem com um beijinho, que agradeçam e digam se faz favor, que façam uma grande festa quando veem os avós e os tios, e que, ainda assim, sejam o mais descontraídos possível! Não vou em conversas do não se deve obrigar as criancinhas…eu obrigo e exijo. Tenho a mania de os vestir de igual (isto é muito ‘tuga’). As características de uma mãe portuguesa? Passamos aos nossos filhos aquilo que nos passaram a nós, cultura, educação, e temos sangue na guelra, caramba! Eu sou um bocado “vai tudo à frente”, e às vezes não consigo manter a calma. E eles já sabem que quando a mãe se passa, de vez em quando salta um tabefe! Mas nada disso impede que tenha uma relação muito próxima com eles, dou beijos apertados e abraços esborrachados, brinco e digo parvoeiras, toco viola e canto com eles, dou-lhes conselhos, estudo com eles (ok, esta parte chateia-me um bocadinho, esta obrigação de, irrita-me! Alguma vez os nossos pais?… enfim), vou com eles às compras de roupa, deixo-os opinar q.b. Só espero que os meus filhos cresçam felizes, que saibam escolher o melhor caminho para eles (com as minhas indicações, luzes, e apoio), que ganhem asas quando tiver que ser… e voem… (para perto!)

 

 

As mães que trabalham têm impacto positivo nos filhos

Julho 1, 2015 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.noticiasaominuto.com de 25 de junho de 2015.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Mums the Word! Cross-national Effects of Maternal Employment on Gender Inequalities at Work and at Home

 “A sociedade diz constantemente às mães trabalhadoras para se sentirem mal pelo facto de passarem menos tempo com os filhos para trazer um salário adicional”, sublinha o site Vox, antes de apresentar um novo estudo, realizado por investigadores da Harvard Business School, que promete aliviar a consciência de muitas mulheres.

Afinal, o facto de as mães trabalharem tem efeitos positivos nos filhos. Segundo as conclusões deste estudo, as filhas de mães trabalhadoras têm maiores probabilidades de ter emprego, de ocupar cargos de supervisão e de ter um salário mais alto, por oposição às filhas de mães domésticas. Também os filhos homens de mães com trabalho fora de casa são mais propensos a tomar conta de familiares e a tratar das tarefas domésticas.

Por outras palavras, como descreve o site Vox, ter uma mãe trabalhadora ajuda não só a reduzir os estereótipos associados ao género, como permite às crianças estar em contacto com um conjunto de capacidades de índole profissional.

Kathleen McGinn, professora na Harvard Business School e a principal investigadora no estudo, garante que a mensagem principal extraída das conclusões é esta: o facto de as mães trabalharem tem efeitos positivos a longo prazo nos filhos, porque ajuda a criança a perceber que há muitas oportunidades para ela.

O estudo recorreu, entre outras fontes de informação, a dados de 24 países recolhidos em 2002 e 2012

 

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