Dia da Mãe – INE

Maio 6, 2019 às 1:30 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Imagem retirada daqui

 

Crianças também vítimas se pais morrem ou matam

Março 23, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 9 de março de 2019.

Pais podem sofrer de privação do sono até seis anos após nascimento do primeiro filho

Março 12, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 26 de fevereiro de 2019.

Efeitos são piores nas mulheres. Mesmo quando os filhos crescem, há novos fatores de stress e preocupação

Primeiro, há as preocupações básicas. O bebé acaba de nascer, acorda muitas vezes de noite, precisa de ser alimentado e de atenção redobrada. Depois vai crescendo, mas surgem novos motivos de stress: os pesadelos, o medo do escuro, as noites mal dormidas. Um conjunto de fatores que se prolonga ao longo dos anos pode perturbar o sono dos pais até seis anos depois do nascimento do primeiro filho, aponta um novo estudo.

A investigação, da universidade britânica de Warwick e publicada pela revista científica “Sleep”, foi elaborada na Alemanha, com base em entrevistas a 2541 mulheres e 2118 homens. Os participantes no estudo foram questionados anualmente, entre 2015 e 2018, sobre a qualidade e quantidade do seu sono após o nascimento do primeiro, segundo ou terceiro filho. Mas, se era de esperar que os inquiridos indicassem problemas relativos ao sono sobretudo depois de serem pais pela primeira vez, a verdade é que os resultados que indicam uma degradação da qualidade e quantidade de sono a maior prazo surpreenderam os próprios investigadores.

“Não esperávamos este resultado, mas acreditamos que há muitas mudanças nas responsabilidades que se tem [quando se é pai ou mãe]”, diz ao jornal “The Guardian” Sakari Lemola, um dos cinco co-autores do estudo. Ou seja, quando se tem um filho as preocupações não deixam de surgir, mesmo que este seja menos dependente, e é preciso contar com noites mal dormidas bem além dos primeiros meses de vida – seja graças a doenças, pesadelos, noites interrompidas ou simplesmente o stress de se ser pai.

A investigação conclui que, no caso do primeiro filho, estes efeitos negativos poderão durar, sobretudo no caso das mulheres, até depois de quatro a seis anos após o nascimento. Mas a privação de sono também se prolonga depois dos segundos e terceiros filhos, embora por menos tempo.

No caso das mulheres, as mais afetadas por esta privação, a perda de sono é de mais de uma hora por noite nos meses depois do nascimento do primeiro filho, reduzindo-se esse tempo para quarenta minutos quando passa o primeiro ano. Mas podem passar-se anos até que se restabeleça o padrão normal de sono e se recuperem as horas (bem) dormidas.

 

 

Entre as mulheres que foram mães, 5% arrependeram-se

Março 1, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 13 de fevereiro de 2019.

Natália Faria

Estudo mostra ainda que 13% das mulheres não se sentem felizes no seu papel de mães. Crianças difíceis de educar, muitas vezes em contextos de monoparentalidade, podem ajudar a explicar este grau de insatisfação.

Já se sabia que nem todas as mulheres acalentam a vontade de ser mães. O que não se sabia é que, entre as que o foram, a percentagem de arrependidas chega aos 5%. E, no grupo das mulheres que se declaram “esgotadas” e “frustradas”, que representam cerca de 10% das 2428 mulheres inquiridas no estudo As mulheres em Portugal, hoje: quem são, o que pensam e como se sentem, a percentagem das que se arrependeram de terem tido filhos é ainda superior: 9%.

Às “mães arrependidas”, que declararam que não teriam tido os seus filhos se soubessem o que as esperava, somam-se aquelas que os autores do estudo classificam como mães “não realizadas”. São 13% as que afirmam que a maternidade não foi o que esperavam, não obstante garantirem que, apesar de não se sentirem felizes como mães, teriam voltado a ter os filhos.

A insatisfação de “arrependidas” e “não realizadas”, que alastra a 18% das mulheres com filhos, tem hipóteses explicativas apontadas no estudo: além de se sentirem pouco orientadas para a maternidade, enfrentaram sozinhas ou sem grande apoio o processo de educação e os cuidados aos filhos, quer por estes terem nascido de uma relação que entretanto fracassou quer por terem sido forçadas a criá-los no seio de uma família monoparental.

“Uma coisa é a idealização que as mulheres fazem da maternidade e outra são as condições que as mães têm à sua disposição, em termos monetários, dos equipamentos socioeducativos na sua zona de residência, a disponibilidade afectiva. Há variáveis que importaria perceber melhor”, destrinça Sara Falcão Casaca, investigadora do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), da Universidade de Lisboa, para quem “a percentagem expressiva de mulheres que considera que não foi fácil educar os filhos” pode dever-se “à percepção de que lhes faltaram condições objectivas para o investimento que gostariam de ter feito nos filhos e não propriamente a qualquer noção de arrependimento em relação às crianças”.

Efectivamente, 38% das mães assumiram que educar os filhos esteve longe de ser uma tarefa fácil, contra as 62% para quem a educação dos filhos decorreu tal como imaginavam ou que até foi mais fácil do que o previsto.

De resto, o facto de a maioria das mães se declarar feliz nesse papel, não retira validade à afirmação segundo a qual a maternidade não é garantia de felicidade. Isto porque, sublinham os autores do estudo, “a felicidade que essas mulheres experimentam com a maternidade está muito pouco relacionada com o grau de felicidade que sentem nos restantes aspectos da vida”.

Da amostra, resulta que 27% das mulheres entre os 18 e os 64 anos de idade não têm filhos mas têm intenção de ser mães (a percentagem sobe para os 34%, no subgrupo das mulheres em idade fértil). E até são optimistas em relação ao número de filhos que virão a ter: 83% querem ter mais do que um, acima das 52% das mulheres efectivamente somaram mais filhos ao primeiro.

Na categoria das mulheres que não são mães, somam-se às 27% que pretendem vir a sê-lo, 10% que gostariam de ter tido filhos mas já não os terão, por já não terem idade para isso, e as 9% de mulheres que nunca quiseram ter filhos. Resulta daqui que 46% das mulheres estudadas não são mães, contra as 53% que o são e as 1% que estavam grávidas na altura do inquérito.

Entre as que ainda pretendem vir a ser mães, 17% dizem-se dispostas a tê-los mesmo sem terem um parceiro estável, quando considerarem que “chegou a altura certa”.

Em casal, são mais 24 minutos de trabalho

A partilha das tarefas de cuidados aos filhos nos casais em que ambos trabalham revela desequilíbrios. São as mães que levam os filhos ao médico, vão às reuniões da escola, levantam-se de noite e que os transportam, alimentam e estudam com eles em 69% dos casos, enquanto os pais se ficam pelos 26%. Os restantes 6% destas tarefas são assegurados por familiares ou por ajuda remunerada.

Por outro lado, “com a chegada de filhos ou filhas, a colaboração do pai nas tarefas domésticas reduz-se, quer a mulher tenha trabalho pago quer não tenha. “A colaboração do companheiro no cuidado com as crianças costuma ficar a anos-luz do que a mulher tinha inicialmente imaginado”, notam os autores do estudo.

Tudo somado, com a chegada das crianças “as mulheres passam a necessitar de destinar às tarefas familiares (domésticas, compras para a casa e cuidados aos filhos) quase duas horas a mais por dia, em média. Já os homens aumentam o seu tempo de dedicação, sim, mas em apenas 42 minutos. “As mães tendem a absorver 78% das novas tarefas familiares que resultam do nascimento da criança enquanto os pais se limitam a assumir 22%”, precisa o estudo, para concluir: “Não é de espantar que a avaliação que muitas mulheres fazem do companheiro depois da chegada do primeiro filho ou da primeira filha seja inferior à que faziam antes de a criança nascer”.

De resto, o documento precisa que as mulheres que têm de conciliar vida de casal, filhos e trabalho pago trabalham 13 horas e 24 minutos por dia, enquanto as mulheres que, tendo também filhos e trabalho pago, não vivem em casal trabalham apenas 13 horas. “As mulheres que têm trabalho pago e filhos ou filhas ficam ainda mais sobrecarregadas se tiverem um parceiro do que se viverem sozinhas”, afirmam taxativamente. São 24 minutos de uma diferença que reforça aquilo que, segundo Sara Falcão Casaca, vinha sendo apontado em diversos estudos: “Os homens ganham tempo para si com o casamento e as mulheres perdem-no”.

Descarregar o estudo mencionado na notícia  As mulheres em Portugal, hoje: quem são, o que pensam e como se sentem

Peso das crianças imita o das mães

Dezembro 17, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site MAGG de 27 de novembro de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero

Estudo norueguês afirma também que a obesidade da mãe pode até influenciar o nível de educação das crianças.

De acordo com um estudo norueguês divulgado este mês de novembro, o peso das crianças varia conforme o das mães, existindo uma espécie de “efeito espelho” com o ganho ou perda de quilos destas. A investigação da Universidade de Ciências e Tecnologia de Trondheim (Noruega), que analisou os níveis de atividade de 4,400 crianças e dos seus pais durante 11 anos, descobriu esta ligação.

Citada pelo jornal “The Telegraph”, Marit Næss, uma estudante de doutoramento ligada ao estudo, explica que “o peso dos pais tem um grande impacto na saúde e estilo de vida de uma criança, os comportamentos que conduzem à obesidade são facilmente transmitidos pelos pais”.

Marit Næss acrescenta que as mães que reduzem o seu nível de atividade física durante o período de crescimento dos filhos, acabam por ver estes terem um índice de massa gorda (IMG) elevado na adolescência. No entanto, não existe relação entre o peso dos filhos e o dos pais. Esta disparidade é justificada pelos investigadores devido a serem principalmente as mulheres as responsáveis pelo planeamento de atividades e pela alimentação da família.

Mas a ligação existe apenas quando falamos de ligeiros ganhos ou perdas de peso — caso exista uma mudança drástica no peso da mãe, o filho não imita este comportamento, dado que uma grande alteração está normalmente ligada a uma doença ou a uma dieta alimentar muito específica, que acaba por não envolver os restantes elementos da família.

De acordo com a investigação norueguesa, o peso das mães também tem um impacto na educação das crianças, sendo que os filhos de mães não obesas e com hábitos mais saudáveis, acabam por continuar os estudos durante mais tempo.

“De uma forma geral, famílias com uma educação superior têm índices de massa gorda mais baixos do que famílias com menos estudos”, salienta Kirsti Kvaloy, uma das especialistas da investigação, que acrescenta que uma redução de peso por parte das mães “influencia positivamente os IMG’s das crianças nas famílias com mais estudos”.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Implications of parental lifestyle changes and education level on adolescent offspring weight: a population based cohort study – The HUNT Study, Norway

 

 

Como se diz a um filho que a mãe tem cancro?

Novembro 22, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Expresso de 12 de novembro de 2018.

Joana Nunes Mateus

Debate: pouco se fala do impacto emocional que o cancro tem na família do doente oncológico, desde o cônjuge, aos pais mais velhos ou aos filhos mais novos.

Se há momento que toda a mãe com cancro guarda para sempre na memória é aquele em que disse ao filho que estava doente. Que o diga a advogada Cristina Nogueira, que foi diagnosticada com um cancro na mama quando o seu filho tinha acabado de fazer cinco anos: “Eu soube que tinha cancro às três da tarde e só pensava que, daqui a uma hora, tinha de ir buscar o meu filho ao infantário. O que é que eu faço?! Não fiz. Não fui capaz”.

Sem guião para enfrentar o “pesadelo total” de falar com um filho tão pequeno sobre uma doença tão complicada, Cristina lá foi aproveitando as revistas que faziam capa com a atriz Sofia Ribeiro para explicar que também tinha aquela doença e que também iria perder o cabelo. “Mas vais ficar careca para sempre? E vais morrer?”, perguntou o filho. “Acho que não. Vou fazer tudo para não morrer!”, respondeu Cristina. Apesar de ser tratada num dos hospitais mais reputados na luta contra o cancro, esta doente oncológica lamenta nunca lhe ter sido oferecido qualquer apoio psicológico. Nem a ela, nem à família, nem ao filho.

Lidar com um stresse tão grande
Não é fácil ver a mãe, que fazia tudo com ele, perder as forças devido à quimioterapia: “Pegar nele ao colo, cambalhotas, andar de bicicleta… Tudo isso passou a ser ficção científica para mim!”, diz Cristina, que acabou por procurar apoio psicológico no privado. “Comecei a notar algumas características que não eram típicas dele: alguma agressividade, sinais de nervosismo, roer as unhas, mais rebelde em termos escolares… Tudo isso me foi explicado que são formas normais das crianças, em idade precoce, lidarem com um stresse tão grande”.

Também a presidente da associação Evita, Tamara Milagre, contou a sua história pessoal na terceira conferência “Tenho Cancro. E Depois?” promovida, esta semana, no IPO Coimbra, pela SIC Notícias e Expresso, em parceria com a Novartis.

Tamara Milagre era uma adolescente de 14 anos quando a sua mãe de 44 descobriu o cancro. “Ela era uma mulher muito bonita e a autoimagem dela caiu completamente ao chão. Ficou careca, inchada, sem mama, e a vida tornou-se dramaticamente diferente. Como filha de uma doente oncológica, tive uma reação completamente oposta ao lógico: eu fiquei revoltada com a minha mãe porque ela não estava a funcionar e eu precisava muito dela. A casa não estava tão limpa, eu tinha de fazer mais coisas e a minha mãe não estava lá para me dar atenção… Anos mais tarde, lavada em lágrimas, pedi desculpa à minha mãe”.

Só passada a adolescência, é que esta filha percebeu a razão da sua raiva: “Depois é que percebi melhor. Na realidade, era o medo enorme dela morrer que me estava a revoltar. E eu vivi isso com muita ansiedade e sofrimento”. Hoje Tamara Milagre é presidente da Evita e acompanha famílias onde a comunicação é ainda mais complexa: são as famílias com cancro hereditário que, não só têm mais casos de cancro, como os enfrentam em idade mais precoce.

“As crianças não gostam de mentiras”, diz Margarida Damasceno, oncologista há mais de 30 anos, aos pais que não sabem como falar do cancro aos filhos. Diretora do serviço de oncologia do Centro Hospitalar São João e presidente eleita da Sociedade Portuguesa de Oncologia, Margarida Damasceno avisa como dizer a verdade: “Uma verdade com final feliz, abrindo sempre a luz ao fundo do túnel”.

70% de divórcios
O cancro também se abate sobre a vida do casal. “Portugal tem uma triste estatística na taxa de divórcio após diagnóstico do cancro onde lideramos destacados com 70%”, alerta a doente oncológica Cristina Nogueira. “Penso que a maioria dos divórcios corresponde aos maridos que abandonam”, acrescenta a oncologista Margarida Damasceno. É que, perante a doença, a maioria das mulheres “tem aquele lado maternal, vai deixar de ser a mulher do doente para ser a mãe do doente, vai aceitá-lo como um filho”. Já a maioria dos maridos não reage assim: “Não sabe lidar com a situação e, ou desaparece ou então fica de tal maneira alheio à situação que a própria mulher não consegue lidar com um marido que não a compreende”.

Neste debate dos desafios familiares, Margarida Damasceno deixou uma proposta a todos os hospitais: a criação da figura do “gestor hospitalar do doente”, para que os doentes oncológicos e os seus familiares saibam com quem podem contar.

Mais psicólogos
“Quando pensamos num doente oncológico, temos de pensar no desequilíbrio que vai a nível físico, psicológico, existencial. E isto é muito complexo. São necessárias equipas multidisciplinares. É necessário mais psicólogos”, pediu também a coordenadora regional da rede de cuidados continuados, Maria José Ferros Hespanha.

A presidente do IPO Coimbra, Margarida Ornelas, deixou vários exemplos do que está a ser feito naquela instituição para apoiar as famílias a melhor enfrentarem o desafio do cancro. É o caso do programa Humaniza, financiado pela fundação La Caixa, que irá permitir ao IPO Coimbra ter, não apenas um psicólogo, mas mais dois psicólogos e dois assistentes sociais. É também o caso da consulta de onco-sexologia para o casal tirar dúvidas. Os familiares são ainda convidados a participar em todas as fases do processo, desde o acolhimento do doente oncológico até às consultas, podendo mesmo acompanhá-lo 24 horas nos cuidados paliativos.

Estatuto do Cuidador já

“O Estatuto do Cuidador Informal deve ser uma prioridade deste Governo nesta legislatura”, defende Margarida Damasceno, diretora do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar São João e presidente eleita da Sociedade Portuguesa de Oncologia. Maria José Ferros Hespanha, coordenadora regional da Rede Nacional de Cuidados Continuados, diz que, sem este Estatuto, “vamos ter as urgências hospitalares entupidas de pessoas que podiam resolver os seus problemas com os cuidadores informais”. Margarida Ornelas, presidente do IPO Coimbra, alerta que “a taxa de incidência do cancro, a crescer a 3% ao ano no nosso país, vai exigir necessidades assistenciais cada vez maiores ao nível dos profissionais e das condições dos serviços. É importante que o Estatuto do Cuidador Informal seja reconhecido, à semelhança de outros países. Os cuidadores informais devem ter apoio informacional, apoio emocional e apoio instrumental ao nível da prestação dos cuidados”.

Textos originalmente publicados no Expresso de 10 de novembro de 2018

 

Estudo mostra que sofrimento mental materno está associado a stress dos filhos

Agosto 8, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 26 de julho de 2018.

LUSA

Um estudo desenvolvido por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) mostra que o sofrimento mental materno se associa a biomarcadores de stress nos filhos, deixando-os em maior risco de desenvolver síndrome metabólico e obesidade.

“Desde o nascimento que o bebé começa a estabelecer uma relação de vinculação com o adulto que lhe assegura o seu conforto e sobrevivência, o seu neurodesenvolvimento, regulação emocional e resposta ao stress”, escreve a instituição de ensino superior em comunicado.

Segundo a FMUP, quando a qualidade das relações de vinculação está comprometida, podem ser espoletados mecanismos na criança que levam a variações nos níveis de cortisol, a hormona do stress responsável pelo controle dos níveis de açúcar no sangue, e a alterações comportamentais, ao nível do sono e do apetite.

Este estudo envolveu os pais e cerca de 100 crianças que frequentavam a consulta de obesidade no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, e mostra uma correlação significativa entre o estado mental materno e os níveis alterados de cortisol nos filhos, associação encontrada mais frequentemente nas raparigas.

Foram igualmente analisadas as diferenças entre os vários tipos de vinculação entre progenitores e os filhos, destacando-se as estratégias de vinculação insegura que se desenvolvem quando “a qualidade da relação, que implica a sensibilidade e capacidade de resposta contingente do cuidador principal, está comprometida”, explica a investigadora Inês Pinto.

A responsável pelo trabalho concluiu que as filhas que apresentavam estratégias de relação insegura do tipo “evitante”, na qual uma situação de depressão da mãe pode fazer com que esta não seja tão responsiva a alguns sinais de sofrimento da criança, acabam por não ser capazes de se regularem emocionalmente, “podendo recorrer aos alimentos para se confortar”.

“Esta criança interpreta que o choro é algo negativo e suprime-o, seja para manter a mãe por perto ou porque sente que não surte efeito”, lê-se na nota da FMUP.

Estas são crianças que “raramente pedem ajuda e que tentam resolver tudo sozinhas”, sendo também “as que menos aparecem nas consultas”, porque “aprendem que tudo o que é emocional não pode ser verbalizado”.

De acordo com a também médica pedopsiquiatra no hospital Beatriz Ângelo, em Loures, este processo pode culminar num cenário de compensação através em desregulações hormonais.

Já nas estratégias de vinculação insegura do tipo ansioso, as crianças percebem “que nem sempre as mães estão presentes, mas que podem forçar a resposta materna, se exagerarem os seus estados”. “São essas que mais aparecem na consulta, que pedem ajuda, mas nas quais não foram encontradas associações com as hormonas do stress”, referiu.

Para a investigadora, a intervenção dos profissionais de saúde deve ser adaptada consoante o tipo de vinculação. Enquanto na relação de vinculação insegura do tipo evitante é necessário ajudar as crianças a verbalizar os sentimentos, no grupo ansioso é preciso auxiliá-las a distinguir “uma dor real daquela que não é”.

Mais populares

Os resultados desta investigação, desenvolvida no programa doutoral em Metabolismo: Clínica e Experimentação da FMUP e orientada pelo professor catedrático Rui Coelho sublinham a importância da qualidade da relação de vinculação entre a mãe e o filho, do funcionamento familiar e do estado mental de pais e filhos quando se estuda a obesidade infantil.

“Deste modo, ao protegerem os seus filhos do stress excessivo e que perturba o funcionamento e o desenvolvimento dos sistemas neurofisiológicos, contribuem para a redução do risco da obesidade infantil”, acrescentou a investigadora.

Notícia da FMUP:

Depressão materna pode influenciar obesidade infantil

 

 

Mãe saudável, filho com menos probabilidades de ser obeso

Julho 18, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 9 de julho de 2018.

As crianças cujas mães têm um estilo de vida saudável são menos propensas a serem obesas do que aquelas cujas mães são menos saudáveis, revelam investigadores norte-americanos. “Viver um estilo de vida saudável pode não apenas ajudar os adultos a melhorar a sua saúde e a reduzir o risco de desenvolver doenças crónicas, mas também pode trazer benefícios à saúde dos seus filhos”, defende Qi Sun da Escola de Saúde Pública de Chan, em Boston.

A equipa da universidade de Boston usou informações de dois estudos já desenvolvidos para perceber se existe uma associação entre o estilo de vida da mãe durante a infância e a adolescência dos filhos e o risco de obesidade entre os 9 e os 18 anos. Para isso, observaram cinco factores de estilo de vida de baixo risco: dieta saudável, índice de massa corporal na faixa normal, não fumar, consumo leve a moderado de álcool e actividade física moderada ou vigorosa pelo menos 150 minutos por semana.

Individualmente, cada factor de estilo de vida das mães, excepto a dieta saudável, foi associado a um risco significativamente menor de obesidade na sua descendência. O risco de obesidade diminuiu com cada factor de estilo de vida adicional. Por exemplo, os filhos de mulheres que seguiram três comportamentos de baixo risco (dieta saudável, actividade física e consumo leve a moderado de álcool) tiveram 23% menos chances de serem obesos, em comparação com crianças cujas mães não tinham nenhum factor de baixo risco.

Os investigadores observaram ainda que os filhos de mães que obedeciam aos cinco critérios tinham 75% de menos probabilidades de serem obesos do que filhos de mães que não tinham nenhum dos factores de estilo de vida de baixo risco.

Contudo, neste estudo, os estilos de vida saudáveis das mães não se traduziram necessariamente em estilos de vida saudáveis das crianças, mas quando o fizeram, os filhos tiveram um risco 82% menor de serem obesos, comparados a mães e crianças que tinham estilos de vida de alto risco.

“Este estudo sugere que as mães, vivendo um estilo de vida saudável e criando assim um ambiente saudável para os seus filhos, podem ajudar a reduzir o risco de obesidade infantil”, declara Sun. Assim sendo, “mães e pais devem apostar em melhorar o seu estilo de vida, de maneira a manter uma boa saúde para si e para a próxima geração”, conclui.

 

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Association between maternal adherence to healthy lifestyle practices and risk of obesity in offspring: results from two prospective cohort studies of mother-child pairs in the United States

De onde vem a ideia de que as meninas são mais próximas dos pais e os rapazes das mães

Julho 8, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 13 de abril de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero

Duas mães concordam com esta ideia, mas os especialistas acreditam que a aproximação com os pais depende da relação que têm com os filhos.

A ideia de que as filhas são mais ligadas aos pais, enquanto os rapazes têm uma melhor relação com as mães, é antiga e tem origem na teoria clássica freudiana. Hoje em dia, quase ninguém parece ter dúvidas disso.

“Esta foi uma teoria que revolucionou o modo de conhecer a sexualidade”, afirma à MAGG Beatriz Matoso, psicóloga clínica e psicanalista. “Efetivamente, o conceito de ‘complexo de Édipo’, que explica como as meninas são mais atraídas pelo pai e os meninos pela mãe, veio demonstrar que a sexualidade não tinha início na puberdade mas sim numa fase mais precoce do desenvolvimento.”

“O meu filho é completamente obcecado por mim”

Joana Pratas é consultora de comunicação, tem 36 anos e é mãe de duas crianças: Maria Teresa, de cinco anos, e António Maria, de três. “A minha filha é mais neutra em relação aos pais, embora tenha uma forte ligação com o avô materno. Já o meu filho é completamente obcecado por mim”, confessa à MAGG.

Embora o filho mais novo de Joana e do marido, João, recorra ao pai para brincadeiras e atividades relacionados com o exterior, o pequeno António Maria tem uma ligação muitíssimo forte com a mãe — tanto que já causa algum desconforto à filha do casal.

Estávamos a tentar perceber como gerir esta situação quando a minha filha me diz ‘Mãe, o mano está sempre colado a ti. Se vou para o teu colo, começa a chorar e vais logo ter com ele’.”

“Lembro-me de uma semana em que eles ficaram os dois doentes, o António primeiro e a Teresinha a seguir. Ele já estava a recuperar e tive de pedir ao meu marido para arranjar atividades para fazer com o António, dado que estava a chover e as brincadeiras habituais fora de casa não eram possíveis. Estávamos a tentar perceber como gerir esta situação quando a minha filha me diz: ‘Mãe, o mano está sempre colado a ti. Se vou para o teu colo, começa a chorar e vais logo ter com ele’.”

Joana conta que esta frase da filha foi um alerta e que, desde então, tem feito um esforço para ser mais neutra e equilibrar-se entre os dois filhos. “Ele também é mais novo, precisa mais de mim e é muito mais mimoso que a irmã. Mas é tudo comigo. Sou eu que adormeço, que dou banho, que dou de comer. Recusa-se mesmo a que seja o pai a realizar essas tarefas”, explica a consultora de comunicação.

A exigência constante da presença da mãe é desgastante e suga a energia de Joana, que admite que há alturas em que chega a ter guerrilhas tontas com o filho para que este permita que seja o pai a dar-lhe de comer, por exemplo — o que é raro acontecer. Mas a mãe de António e Maria Teresa, apesar do cansaço, confessa que não preferia outra situação.

“É desgastante sim, mas cada vez mais quero ter isto. O tempo passa muito depressa, tudo isto é demasiado rápido. É verdade que às vezes sinto que o meu filho me suga toda a atenção, mas prefiro assim. Até porque quando tiverem 10 anos já não vão querer dormir na cama dos pais.”

O que leva uma criança a aproximar-se do pai ou da mãe é a qualidade da relação

Beatriz Matoso acredita que o conceito dos filhos se ligarem mais aos pais consoante o género sexual está ultrapassado e evoluiu bastante da teoria original de Freud.

“O conceito de parentalidade tem cada vez mais importância para compreendermos as relações entre pais e filhos”, afirma a especialista, que acrescenta que este é um processo evolutivo de realização humana, que se inicia no desejo de ter um filho e se constrói pela experiência de “serem pais”.

O que leva uma criança a aproximar-se mais de um ou outro progenitor é a qualidade de relação, isto é, a capacidade de compreender e procurar satisfazer as necessidades dos filhos, de acordo com a sua fase de crescimento.”

“Esta experiência consiste em ir ao encontro da satisfação das necessidades físicas e emocionais do filho, de acordo com o seu grau de crescimento e a fase de vida em que se encontra.”

Se os pais são capazes de descodificar as necessidades do bebé e de as satisfazer de uma forma adequada, a criança sente-se satisfeita e segura, reforça a psicóloga clínica, que acredita que “o que leva uma criança a aproximar-se mais de um ou outro progenitor é a qualidade de relação, isto é, a capacidade de compreender e procurar satisfazer as necessidades dos filhos, de acordo com a sua fase de crescimento. ”

As mães são para as regras, os pais para as brincadeiras

Carolina, de 30 anos, é jornalista e mãe de Clara, de apenas um ano. E apesar da tenra idade da filha, é notória uma clara aproximação ao pai.

“Sempre ouvi dizer que as meninas eram mais apegadas aos pais e, no nosso caso, isso tem-se verificado. A Clara é completamente pai. Mas acho que também tem muito a ver com o tempo que passam juntos, que acaba por ser superior ao meu”, salienta a jornalista.

Devido aos horários do casal, é o companheiro de Carolina que acorda a bebé de um ano e a leva para casa dos pais antes de ir trabalhar, rotina que repete por volta das 18h30, quando apanha Clara e a leva de regresso para casa, lhe dá banho, brinca e, na grande maioria das vezes, dá jantar durante a semana.

“Num dia bom, consigo chegar a casa por volta das 19h30, ainda ajudo no banho ou dou a comida. Mas na grande maioria das vezes, quando chego já tudo isso está feito. A Clara tem horários que devem ser cumpridos, caso contrário fica completamente desrregulada e birrenta. E também já chegou a acontecer chegar a casa e ela já estar a dormir.”

Para além de ser menos presente durante a semana, Carolina acaba por ter uma postura mais rígida com a filha do que o companheiro.

Os pais são mais direcionados para as brincadeiras, enquanto as mães não são tão liberais.”

“Não sou nada dura, não se é dura com uma criança de um ano. Mas ela está numa fase em que adora explorar, que já começa a tentar ficar de pé, a abrir gavetas. E claro que se pode magoar e eu digo não, ela fica magoada e faz birra. Já o pai é mais desligado dessas coisas e, apesar de ter mil cuidados, é mais permissivo, deixa-a mexer em coisas que pode estragar, como os comandos da TV, por exemplo. Mas é um bocadinho frustrante, já passo imenso tempo sem ela e, quando estou, parece que é para lhe ralhar.”

Margarida Alegria, psicóloga clínica, também concorda com a ideia de que as mães, muitas vezes, são vistas como a figura que impõe as regras. “Os pais são mais direcionados para as brincadeiras, enquanto as mães não são tão liberais e costumam apertar mais com as rotinas e regras. No entanto, tem a ver muito com cada caso”, conclui a especialista.

 

As madrastas também são mães

Maio 18, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 6 de maio de 2018.

Não são três letrinhas apenas, são oito as que “madrasta” tem. Não é grande nem pequena, tem o tamanho que tem. Carregam o peso de serem as “malvadas” das histórias tradicionais, mas as madrastas cuidam dos filhos das outras como cuidam dos seus. Hoje é Dia da Mãe. E nem sempre há só uma.

RITA PIMENTA

Manuel, 17 anos, não gosta da palavra “madrasta” e refere-se à namorada do pai como “boadastra”; Carolina, 15 anos, não sabe muito bem definir a relação com Sílvia, mas sente “o coração aconchegado” e escolheu-a para encarregada educação; Alexandra evita a palavra “enteado” e fala do filho do seu companheiro como “o meu puto”; Sílvia desespera por Carolina ser “desarrumada”, mas admira-a profundamente; Teresa assinala a diferença entre o filho biológico e os enteados porque destes não viveu a gravidez, “o resto é igual”; Eugénia diz que a mãe da filha do marido “é excelente” e assume-se como uma “mãe de bónus”.

Os nomes são fictícios, as famílias não. Uns são filhos e outros enteados, mas todos recebem igual tratamento, porque a biologia não é para aqui chamada. “Dia da Mãe também devia ser Dia da Madrasta”, diz o psiquiatra Mário Cordeiro. E convida os enteados a oferecerem-lhes presentes.

“As madrastas foram sempre tidas como as ‘más da fita’, na linha tradicional das histórias infantis centenárias, porque simbolicamente não tinham a representação real de ‘nova mulher do pai’”, começa por explicar o especialista ao PÚBLICO numa mensagem enviada por email.

Há-de escrever mais adiante que, “hoje, na vida real, existem muitas madrastas, ainda bem, dado que, com a natural e normal dissolução das relações conjugais, é bom a criança crescer em dois lares onde, se possível e se adequado, existam ambos os vértices: paternal e maternal”.

Não é fácil obter dados sobre quantos casais têm guarda partilhada nem saber quantas crianças ficam entregues ao pai. Consegue-se apurar apenas, cruzando diferentes fontes, que há mais de 20 mil divórcios por ano e que em 2016 havia 436.375 famílias monoparentais, sendo 86,9% mães com filhos.

O PÚBLICO escutou quatro madrastas e dois enteados. Resumo das suas histórias.

Alexandra

Manuel (17 anos) e Luísa (9 anos)

Quando Alexandra conheceu Ricardo, o filho dele, Manuel, tinha seis anos. “Demo-nos logo muito bem, houve uma empatia e cumplicidade muito boa. Até mais do que com a Luísa [filha biológica de nove anos].”

O rapaz tem agora 17 anos e, como não gosta da palavra “madrasta”, chama-lhe “boadrasta”. Ela também costuma andar às voltas para fugir à palavra “enteado” e diz “o meu puto” ou “o meu miúdo”. Nunca ouviu uma resposta como “não és minha mãe” ou “não tens o direito de opinar”.

Produtora de publicidade, diz terem “uma relação muito natural, agora mais ainda porque ele foi estudar vídeo, está muito ligado à minha área, temos cada vez mais assuntos em comum, o que é uma coisa fixe”. Acrescenta ainda: “É muito carinhoso. Tem um metro e oitenta e tal e anda pendurado em mim, dá-me muitos abraços.”

São uma família de quatro. “Quando acabou o 9.º ano, quis mudar de escola e de vida. Foi corajoso e veio viver connosco em Lisboa. Tinha 14/15 anos. Até a asma lhe passou.” Costuma visitar regularmente a mãe, que vive na região Centro e que já tem outros dois filhos.

Alexandra e Ricardo já antes haviam cuidado de uma miúda, numa lógica de família de acolhimento, mas informal. “Quando quisemos formalizar o assunto, porque ela vinha de um ambiente muito desregulado, correu mal.” Foi-se embora.

Este contacto com a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens fê-la “detestar” a expressão “mãe é mãe”, e explica: “Há mães e pais que te deixam os piores traumas da tua vida. Há muitos tios e muitos vizinhos que são melhor a fazer o papel de mães. Há muitas que ficam cegas com as suas próprias frustrações e não conseguem ouvir os filhos.”

Por isso custa-lhe aceitar certas decisões dos tribunais: “Há coisas que são flagrantes, vê-se que a criança não é feliz, não está bem tratada. Vale mais uma criança feliz na casa dos tios ou dos avós. Não estou a dizer que deve ser alienada dos pais, não se pode é ter como tábua rasa esta coisa da relação biológica, só isso não chega.” Para concluir: “Há vínculos mais fortes que o biológico. Amar é cuidar.”

E lembra: “Basta um casal não se entender e ir para tribunal que a criança tem os primeiros dez anos de vida feitos num inferno. Marcas para sempre. Fora as questões de dinheiro, também sempre envolvidas.”

Orgulha-se da relação do “seu miúdo” com a mana Luísa: “São apaixonados um pelo outro.” E conta que ele entrou num filme e que assistiram todos à antestreia. Depois, ele subiu ao palco. “Luísa virou-se para nós e disse assim: ‘Está tão crescido.’ Ela é muito protectora com ele.”

 

Há uma questão que a faz pensar: “A legitimidade sobre os enteados. Se acontecesse qualquer coisa ao Ricardo, o pai dele, até que ponto é que eu conseguiria ficar com o Manuel ou manter contacto.”

Neste caminho de relacionamentos, diz ter aprendido a pôr-se no lugar dele e a não se esquecer de que ele era uma criança. “O meu marido, mais velho e experiente, ajudou-me muito a encontrar esse equilíbrio.” No entanto, não facilita: “Não deixei de exigir dele aquilo que eu sei que ele consegue dar. Ele é muito talentoso. Estamos à espera que entre agora na faculdade.”

E que tem o Manuel a dizer sobre Alexandra?

“Eu já conheço a Alexandra, mais ou menos, há 12 anos, portanto já me conhece demasiado bem para ser só uma madrasta. Para mim, já é como uma segunda mãe”, conta ao PÚBLICO por email. E prossegue: “Lembro-me de algumas coisas do primeiro dia em que a conheci, espreitava, atrás das pernas do meu pai todo envergonhado. Desse dia para a frente, sempre nos demos bem, por acaso tive sorte com a minha ‘madrasta’ e com o meu ‘padrasto’, também nunca percebi estes nomes feios.”

Relata ainda a cumplicidade que se foi gerando: “Sempre nos relacionámos muito bem. Logo desde cedo percebeu os meus gostos, como eu era, e também a minha cabeça, que às vezes nem eu sabia como era. Até hoje sempre foi uma madrasta impecável, que me ajudou em muita coisa, que me ralhou também em muita coisa, que me ensinou muita coisa e até me ajudou a perceber realmente o que eu queria seguir como carreira profissional.”

Sobre as madrastas em geral, este jovem de 17 anos também tem algo a dizer: “Se as madrastas tratarem bem os enteados, não para as mães ficarem invejosas, mas para ficarem felizes de terem uma pessoa do outro lado que trata bem e que gosta do(s) seu(s) filho(s), [é bom]. Também conheço algumas pessoas que ou não gostam dos padrastos ou das madrastas, ou porque não lhes ligam, ou porque é indiferente, ou porque não os tratam bem, e isso sim é que é mau, aí sim é que se devem preocupar.”

E conclui: “Claro que mãe vai ser sempre mãe, mas segundas mães também são muito importantes.” Por isso, dirige um desejo à sua “boadastra”: “Espero que continuemos a ter esta relação, porque gosto muito. Vai ser sempre a minha segunda mãe!”

Teresa

Mário (13 anos), Gabriel (12) e Gastão (4)

Primeiro foi madrasta e só depois foi mãe. “Quando casei com o meu marido, o mais novo ainda não tinha feito dois anos e o mais velho tinha três e pouco.” O mais novo passou depois a ser o “filho do meio” porque entretanto Teresa teve um filho seu.

Estão juntos há nove anos. Começou por ser guarda partilhada, mas há cerca de dois anos o pai obteve a guarda total. “Fui viver para a casa do meu marido, para que os miúdos se mantivessem no seu espaço e não sentissem mais uma mudança nas suas vidas.” Agora já moram numa casa nova.

Visitam a mãe biológica em fins-de-semana alternados e, às segundas-feiras, ela vai buscá-los à escola e janta com eles.

“Sempre achei que haveria de tratar um filho meu da mesma forma que tratei os outros, a todos os níveis: da educação que devem ter, do ralhar quando tenho de ralhar, do dar beijinhos quando acho que devo dar.”

Diferença só a de não ter estado grávida dos mais velhos. “Costumo dizer que tenho três filhos.” Tratam-na pelo nome. “Sabem que em casa eu sou a figura maternal e falam comigo sobre o que precisam. Têm isso bem assimilado.” Até hoje, nunca lhe disseram “não és minha mãe”.

“Somos uma família comum, com o quotidiano de escola, futebol, treinos, jogos e também com as nossas divergências.” Os conflitos maiores surgem no momento de fazer os trabalhos de casa. “Aí é quando a ‘madrasta’ vem ao de cima”, relata bem-disposta. “Somos uma família jovem, pelo que também se estabelece uma dinâmica engraçada.” Teresa tem 34 anos e é directora de uma agência de comunicação. O marido tem 38 anos e é informático. Vivem em Lisboa.

Sílvia

Carolina (15 anos) e José (9)

Comecemos por contar a história de Sílvia e Carolina pela voz da enteada. Vivem na mesma casa há 3/4 anos, mas já se conhecem há mais tempo, antes mesmo de o pai da Carolina começar a namorar com Sílvia.

“Quando a Sílvia entrou na minha vida, não foi logo como madrasta. Quando nos cruzámos estavam só a conhecer-se e ainda não tinham entrado no lado romântico. Foi tudo muito pacífico”, começa por dizer. Nessa altura, Carolina ainda vivia uma semana com o pai e uma semana com a mãe.

“À medida que a fui conhecendo, fui gostando dela como pessoa e gostava muito de falar com ela. Considerei-a uma boa amiga.” Sílvia já nos tinha relatado que logo nos primeiros encontros se entenderam muito bem. “Dei-lhe alguns livros e falávamos sobre eles e sobre autores. Ela lê bastante e é muito boa aluna”, recordou a madrasta, mostrando-se orgulhosa.

Quando foram viver juntas, não foi assim tão fácil. “É muito giro quando falamos com uma pessoa de vez em quando, mas, quando temos de conviver todos os dias, é mais complicado. Rotinas e maneiras de pensar diferentes, o dia-a-dia, o quotidiano. Foi um grande choque para as duas”, admite Carolina.

Mas foram-se adaptando uma à outra. “A nossa convivência fez com que me tivesse tornado uma pessoa melhor e com que ela também se tivesse tornado uma pessoa melhor. Aprendi a ver as coisas de outra forma.”

Não sabe definir muito bem a relação com a namorada do pai, mas tenta explicar: “Ela funciona comigo como uma psicóloga, uma terapeuta, quase como uma mãe. Eu não tenho a minha mãe todos os dias comigo nem todas as semanas, ela não susbtitui a minha mãe, como é óbvio, mas é uma coisa diferente. É diferente de um pai, de uma mãe, mas não é como se fosse uma amiga, uma avó, uma tia. É uma coisa diferente, mas é uma coisa muito boa.”

Sobre a dinâmica familiar e o relacionamento com José (filho biológico de Sílvia, mas de uma relação anterior a esta), conta: “Quando era mais nova queria ter um irmão, e de um momento para o outro ganhei três [um da Sílvia e dois da parte da mãe]. Foi difícil, mas acho que finalmente encontrámos a nossa harmonia.”

Sílvia, jornalista, contara-nos anteriormente que, de início, Carolina e José eram “gato e rato”.

Mas a enteada quer realçar: “A Sílvia não faz distinção entre mim e o José. Eu tenho os dois lados da história e sinto muita distinção quando estou com a minha mãe e o meu padrasto nas férias e fins-de-semana. Magoa muito sentir essa distinção tão grande, quase que se metem paredes entre as pessoas. Tu és isto e tu és isto. Uma distinção entre os que são filhos e os que não são filhos. E eu aqui em casa não sinto nada disso.”

Mas têm os conflitos normais de família. “Há uns dias pacíficos, depois temos zangas, depois estamos bem outra vez uns com outros. A Sílvia gosta muito de arrumações e eu não gosto nada…”, conta e ri-se.

Depois, volta a falar nas diferenças: “Mimo de mãe é mimo de mãe, mas sinto que a Sílvia funciona como grande apoio para mim. Dá-me um colo diferente. Não é uma pessoa de muitos toques e mimos, mas dá-me um grande apoio emocional e psicológico. Eu acho que ela me influenciou mais na parte racional e eu na outra parte. Conseguimos assim chegar a um meio-termo harmonioso que nos faz sentir bem uma com a outra.”

Nas relações sociais, para simplificar, refere-se a Sílvia como sua mãe e escolheu-a para encarregada de educação. Depois de conhecer melhor as pessoas, lá lhes conta que tem “uma mãe biológica e uma mãe adoptiva”. Também não gosta do termo “madrasta”.

Diz não ter saudades dos tempos em que viveu com o pai e a mãe, mas tem saudades do sítio onde vivia e dos amigos mais próximos. Teve de atravessar o Tejo e preferia viver na outra margem. “O ambiente aqui, em Oeiras, é totalmente diferente, as pessoas são totalmente diferentes. A experiência negativa foi maior que a positiva. Mas dentro de casa é muito mais estável e calmo. Ter a Sílvia na minha vida melhorou tudo. Mas não gosto do sítio onde vivemos. Eles sabem.”

Antes de terminar, Carolina quer contar um episódio: “Fomos a Trás-os-Montes para conhecer a família da Sílvia que ainda lá vive. E um amigo dela que não a via há muito tempo, depois de estarmos um bocado a conversar e ele a ver como funcionávamos bem como família, disse: ‘A tua filha é mesmo parecida contigo.’ Foi uma coisa que eu adorei ouvir.”

E tenta de novo pôr por palavras esta ligação: “A minha relação com ela é tão unida, uma mistura de mãe com uma grande, grande, grande amiga. Uma relação de amizade que não posso ter com a minha mãe por variadíssimas razões.” Mas diz sentir o “coração muito aconchegado”. Quanto às arrumações, acredita, “com o tempo, isto vai lá”. E despede-se com uma gargalhada genuína e feliz.

Eugénia

Bárbara (19 anos), Júlio (15), Sally (11)

Quando começaram a namorar, Eugénia e o actual marido já tinham prole e ambos pensavam assim: “Se os meus filhos não gostarem de ti, já foste!”, conta ao PÚBLICO com um desembaraço divertido. A verdade é que foram bem aceites pelos miúdos e estão juntos há sete anos.

Bárbara, a filha do marido, tem agora 19 anos e estuda no Porto, mas vivia com eles em Ovar. “Ela tem uma excelente mãe. Não a quero substituir. Eu sou uma mãe de bónus.”

O pai dos filhos de Eugénia (Júlio, 15 anos, e Sally, 11) é estrangeiro e vive fora do país. Eles viajam para os visitar três vezes por ano. Já aconteceu o pai vir cá e trazer a filha que tem de uma nova ligação. “Foi uma festa”, conta. “Nós entendemo-nos bem.” Mas nem toda a gente compreende. “Eugénia e os seus dois maridos”, houve quem dissesse. No entanto, não se deixa intimidar. O pensamento que a norteia é: “Se nos acontecer alguma coisa, eles ficam bem. Têm uma mãe e uma família de reserva.”

Ali não há diferenças de tratamentos, “beijos e ralhetes são iguais para todos”. As distinções que há decorrem simplesmente “das diferentes idades”. Eugénia não tem dúvidas de que quanto mais cedo se começa a viver com os miúdos, melhor. “Ganha-se muito amor, vamo-nos afeiçoando cada vez mais.” E lembra um provérbio popular para desmistificar a ligação biológica: “Parir é dor, criar é amor.”

Quando acontece juntarem-se todos, “é uma casa cheia, ponho-me lá a pensar se este é meu e aquele é teu”. E conclui: “A casa cheia e o coração também.”

Voltemos ao pedopsiquiatra Mário Cordeiro e às histórias infantis, que “têm um fio condutor simbólico (adequado à idade em que são contadas, três-seis anos) e, para lá de muitas mais coisas, falam-nos da necessidade de ‘as mães morrerem’, para que a criança no fundo saiba que vai ter de crescer sem a eterna protecção/regressão do pólo maternal, e quando tenta, com o medo do crescimento, ousadia e autonomia, arranjar ‘uma outra mãe’, surge a madrasta, que tem de ser, para a simbologia fazer sentido, ‘muito má’”.

Aliás, diz, “esse caminho de regresso, que a criança tanto deseja (porque crescer implica perigos e uma vida de luta contra o mal e aliar-se ao bem), no caso da Casinha de Chocolate, é impedido pelos passarinhos, os melhores amigos de João e de Maria, que comem as migalhas que eles deixaram para marcar o caminho”. Alerta ainda para a própria linguagem estar inquinada, “quando se menciona, por exemplo, como azar, uma ‘sorte madrasta’”.

Actualmente, “as madrastas representam, não uma substituição da mãe, mas uma pessoa que entra no puzzle-mãe, como entra o próprio pai quando desempenha funções maternais e muitas outras pessoas (familiares, educadores, etc.). Faça-se jus e honra às madrastas que ‘herdam’ muitas vezes crianças que, por elas não serem mães, acham que as podem desrespeitar ou que são personagens de segunda categoria: errado”.

E realça o seu papel fundamental: “As madrastas (como os padrastos) são fundamentais na nova arquitectura da família (que, em breve, será maioritária nas crianças a partir dos dez anos de idade).”

Mário Cordeiro está convencido de que, “na maioria dos casos, madrastas e enteados dar-se-ão bem e que o velho arquétipo de ‘aquela que veio roubar o lugar’ ou da madrasta da Branca de Neve já passou à história… à história infantil de onde nunca deveria ter saído, dado que, aí, como disse, tem um papel essencial e tem mesmo de ser assim!”

Para o pedopsiquiatra, “o Dia da Mãe nem deveria existir, mas, existindo, não deveria ser apenas da mãe biológica, mas de todas as figuras que a criança reconhece como maternais, designadamente as madrastas”.

E espera que os enteados que lerem este texto “reconheçam nas suas madrastas o estímulo ao crescimento, ao mimo, ao modelo a seguir, aos cuidados que têm… enfim, a tanta coisa que as crianças, hoje, parecem esquecer ou desconhecer”. E conclui: “Dia da Mãe é e deve ser, para mim, também, Dia da Madrasta.”

 

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