As madrastas também são mães

Maio 18, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 6 de maio de 2018.

Não são três letrinhas apenas, são oito as que “madrasta” tem. Não é grande nem pequena, tem o tamanho que tem. Carregam o peso de serem as “malvadas” das histórias tradicionais, mas as madrastas cuidam dos filhos das outras como cuidam dos seus. Hoje é Dia da Mãe. E nem sempre há só uma.

RITA PIMENTA

Manuel, 17 anos, não gosta da palavra “madrasta” e refere-se à namorada do pai como “boadastra”; Carolina, 15 anos, não sabe muito bem definir a relação com Sílvia, mas sente “o coração aconchegado” e escolheu-a para encarregada educação; Alexandra evita a palavra “enteado” e fala do filho do seu companheiro como “o meu puto”; Sílvia desespera por Carolina ser “desarrumada”, mas admira-a profundamente; Teresa assinala a diferença entre o filho biológico e os enteados porque destes não viveu a gravidez, “o resto é igual”; Eugénia diz que a mãe da filha do marido “é excelente” e assume-se como uma “mãe de bónus”.

Os nomes são fictícios, as famílias não. Uns são filhos e outros enteados, mas todos recebem igual tratamento, porque a biologia não é para aqui chamada. “Dia da Mãe também devia ser Dia da Madrasta”, diz o psiquiatra Mário Cordeiro. E convida os enteados a oferecerem-lhes presentes.

“As madrastas foram sempre tidas como as ‘más da fita’, na linha tradicional das histórias infantis centenárias, porque simbolicamente não tinham a representação real de ‘nova mulher do pai’”, começa por explicar o especialista ao PÚBLICO numa mensagem enviada por email.

Há-de escrever mais adiante que, “hoje, na vida real, existem muitas madrastas, ainda bem, dado que, com a natural e normal dissolução das relações conjugais, é bom a criança crescer em dois lares onde, se possível e se adequado, existam ambos os vértices: paternal e maternal”.

Não é fácil obter dados sobre quantos casais têm guarda partilhada nem saber quantas crianças ficam entregues ao pai. Consegue-se apurar apenas, cruzando diferentes fontes, que há mais de 20 mil divórcios por ano e que em 2016 havia 436.375 famílias monoparentais, sendo 86,9% mães com filhos.

O PÚBLICO escutou quatro madrastas e dois enteados. Resumo das suas histórias.

Alexandra

Manuel (17 anos) e Luísa (9 anos)

Quando Alexandra conheceu Ricardo, o filho dele, Manuel, tinha seis anos. “Demo-nos logo muito bem, houve uma empatia e cumplicidade muito boa. Até mais do que com a Luísa [filha biológica de nove anos].”

O rapaz tem agora 17 anos e, como não gosta da palavra “madrasta”, chama-lhe “boadrasta”. Ela também costuma andar às voltas para fugir à palavra “enteado” e diz “o meu puto” ou “o meu miúdo”. Nunca ouviu uma resposta como “não és minha mãe” ou “não tens o direito de opinar”.

Produtora de publicidade, diz terem “uma relação muito natural, agora mais ainda porque ele foi estudar vídeo, está muito ligado à minha área, temos cada vez mais assuntos em comum, o que é uma coisa fixe”. Acrescenta ainda: “É muito carinhoso. Tem um metro e oitenta e tal e anda pendurado em mim, dá-me muitos abraços.”

São uma família de quatro. “Quando acabou o 9.º ano, quis mudar de escola e de vida. Foi corajoso e veio viver connosco em Lisboa. Tinha 14/15 anos. Até a asma lhe passou.” Costuma visitar regularmente a mãe, que vive na região Centro e que já tem outros dois filhos.

Alexandra e Ricardo já antes haviam cuidado de uma miúda, numa lógica de família de acolhimento, mas informal. “Quando quisemos formalizar o assunto, porque ela vinha de um ambiente muito desregulado, correu mal.” Foi-se embora.

Este contacto com a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens fê-la “detestar” a expressão “mãe é mãe”, e explica: “Há mães e pais que te deixam os piores traumas da tua vida. Há muitos tios e muitos vizinhos que são melhor a fazer o papel de mães. Há muitas que ficam cegas com as suas próprias frustrações e não conseguem ouvir os filhos.”

Por isso custa-lhe aceitar certas decisões dos tribunais: “Há coisas que são flagrantes, vê-se que a criança não é feliz, não está bem tratada. Vale mais uma criança feliz na casa dos tios ou dos avós. Não estou a dizer que deve ser alienada dos pais, não se pode é ter como tábua rasa esta coisa da relação biológica, só isso não chega.” Para concluir: “Há vínculos mais fortes que o biológico. Amar é cuidar.”

E lembra: “Basta um casal não se entender e ir para tribunal que a criança tem os primeiros dez anos de vida feitos num inferno. Marcas para sempre. Fora as questões de dinheiro, também sempre envolvidas.”

Orgulha-se da relação do “seu miúdo” com a mana Luísa: “São apaixonados um pelo outro.” E conta que ele entrou num filme e que assistiram todos à antestreia. Depois, ele subiu ao palco. “Luísa virou-se para nós e disse assim: ‘Está tão crescido.’ Ela é muito protectora com ele.”

 

Há uma questão que a faz pensar: “A legitimidade sobre os enteados. Se acontecesse qualquer coisa ao Ricardo, o pai dele, até que ponto é que eu conseguiria ficar com o Manuel ou manter contacto.”

Neste caminho de relacionamentos, diz ter aprendido a pôr-se no lugar dele e a não se esquecer de que ele era uma criança. “O meu marido, mais velho e experiente, ajudou-me muito a encontrar esse equilíbrio.” No entanto, não facilita: “Não deixei de exigir dele aquilo que eu sei que ele consegue dar. Ele é muito talentoso. Estamos à espera que entre agora na faculdade.”

E que tem o Manuel a dizer sobre Alexandra?

“Eu já conheço a Alexandra, mais ou menos, há 12 anos, portanto já me conhece demasiado bem para ser só uma madrasta. Para mim, já é como uma segunda mãe”, conta ao PÚBLICO por email. E prossegue: “Lembro-me de algumas coisas do primeiro dia em que a conheci, espreitava, atrás das pernas do meu pai todo envergonhado. Desse dia para a frente, sempre nos demos bem, por acaso tive sorte com a minha ‘madrasta’ e com o meu ‘padrasto’, também nunca percebi estes nomes feios.”

Relata ainda a cumplicidade que se foi gerando: “Sempre nos relacionámos muito bem. Logo desde cedo percebeu os meus gostos, como eu era, e também a minha cabeça, que às vezes nem eu sabia como era. Até hoje sempre foi uma madrasta impecável, que me ajudou em muita coisa, que me ralhou também em muita coisa, que me ensinou muita coisa e até me ajudou a perceber realmente o que eu queria seguir como carreira profissional.”

Sobre as madrastas em geral, este jovem de 17 anos também tem algo a dizer: “Se as madrastas tratarem bem os enteados, não para as mães ficarem invejosas, mas para ficarem felizes de terem uma pessoa do outro lado que trata bem e que gosta do(s) seu(s) filho(s), [é bom]. Também conheço algumas pessoas que ou não gostam dos padrastos ou das madrastas, ou porque não lhes ligam, ou porque é indiferente, ou porque não os tratam bem, e isso sim é que é mau, aí sim é que se devem preocupar.”

E conclui: “Claro que mãe vai ser sempre mãe, mas segundas mães também são muito importantes.” Por isso, dirige um desejo à sua “boadastra”: “Espero que continuemos a ter esta relação, porque gosto muito. Vai ser sempre a minha segunda mãe!”

Teresa

Mário (13 anos), Gabriel (12) e Gastão (4)

Primeiro foi madrasta e só depois foi mãe. “Quando casei com o meu marido, o mais novo ainda não tinha feito dois anos e o mais velho tinha três e pouco.” O mais novo passou depois a ser o “filho do meio” porque entretanto Teresa teve um filho seu.

Estão juntos há nove anos. Começou por ser guarda partilhada, mas há cerca de dois anos o pai obteve a guarda total. “Fui viver para a casa do meu marido, para que os miúdos se mantivessem no seu espaço e não sentissem mais uma mudança nas suas vidas.” Agora já moram numa casa nova.

Visitam a mãe biológica em fins-de-semana alternados e, às segundas-feiras, ela vai buscá-los à escola e janta com eles.

“Sempre achei que haveria de tratar um filho meu da mesma forma que tratei os outros, a todos os níveis: da educação que devem ter, do ralhar quando tenho de ralhar, do dar beijinhos quando acho que devo dar.”

Diferença só a de não ter estado grávida dos mais velhos. “Costumo dizer que tenho três filhos.” Tratam-na pelo nome. “Sabem que em casa eu sou a figura maternal e falam comigo sobre o que precisam. Têm isso bem assimilado.” Até hoje, nunca lhe disseram “não és minha mãe”.

“Somos uma família comum, com o quotidiano de escola, futebol, treinos, jogos e também com as nossas divergências.” Os conflitos maiores surgem no momento de fazer os trabalhos de casa. “Aí é quando a ‘madrasta’ vem ao de cima”, relata bem-disposta. “Somos uma família jovem, pelo que também se estabelece uma dinâmica engraçada.” Teresa tem 34 anos e é directora de uma agência de comunicação. O marido tem 38 anos e é informático. Vivem em Lisboa.

Sílvia

Carolina (15 anos) e José (9)

Comecemos por contar a história de Sílvia e Carolina pela voz da enteada. Vivem na mesma casa há 3/4 anos, mas já se conhecem há mais tempo, antes mesmo de o pai da Carolina começar a namorar com Sílvia.

“Quando a Sílvia entrou na minha vida, não foi logo como madrasta. Quando nos cruzámos estavam só a conhecer-se e ainda não tinham entrado no lado romântico. Foi tudo muito pacífico”, começa por dizer. Nessa altura, Carolina ainda vivia uma semana com o pai e uma semana com a mãe.

“À medida que a fui conhecendo, fui gostando dela como pessoa e gostava muito de falar com ela. Considerei-a uma boa amiga.” Sílvia já nos tinha relatado que logo nos primeiros encontros se entenderam muito bem. “Dei-lhe alguns livros e falávamos sobre eles e sobre autores. Ela lê bastante e é muito boa aluna”, recordou a madrasta, mostrando-se orgulhosa.

Quando foram viver juntas, não foi assim tão fácil. “É muito giro quando falamos com uma pessoa de vez em quando, mas, quando temos de conviver todos os dias, é mais complicado. Rotinas e maneiras de pensar diferentes, o dia-a-dia, o quotidiano. Foi um grande choque para as duas”, admite Carolina.

Mas foram-se adaptando uma à outra. “A nossa convivência fez com que me tivesse tornado uma pessoa melhor e com que ela também se tivesse tornado uma pessoa melhor. Aprendi a ver as coisas de outra forma.”

Não sabe definir muito bem a relação com a namorada do pai, mas tenta explicar: “Ela funciona comigo como uma psicóloga, uma terapeuta, quase como uma mãe. Eu não tenho a minha mãe todos os dias comigo nem todas as semanas, ela não susbtitui a minha mãe, como é óbvio, mas é uma coisa diferente. É diferente de um pai, de uma mãe, mas não é como se fosse uma amiga, uma avó, uma tia. É uma coisa diferente, mas é uma coisa muito boa.”

Sobre a dinâmica familiar e o relacionamento com José (filho biológico de Sílvia, mas de uma relação anterior a esta), conta: “Quando era mais nova queria ter um irmão, e de um momento para o outro ganhei três [um da Sílvia e dois da parte da mãe]. Foi difícil, mas acho que finalmente encontrámos a nossa harmonia.”

Sílvia, jornalista, contara-nos anteriormente que, de início, Carolina e José eram “gato e rato”.

Mas a enteada quer realçar: “A Sílvia não faz distinção entre mim e o José. Eu tenho os dois lados da história e sinto muita distinção quando estou com a minha mãe e o meu padrasto nas férias e fins-de-semana. Magoa muito sentir essa distinção tão grande, quase que se metem paredes entre as pessoas. Tu és isto e tu és isto. Uma distinção entre os que são filhos e os que não são filhos. E eu aqui em casa não sinto nada disso.”

Mas têm os conflitos normais de família. “Há uns dias pacíficos, depois temos zangas, depois estamos bem outra vez uns com outros. A Sílvia gosta muito de arrumações e eu não gosto nada…”, conta e ri-se.

Depois, volta a falar nas diferenças: “Mimo de mãe é mimo de mãe, mas sinto que a Sílvia funciona como grande apoio para mim. Dá-me um colo diferente. Não é uma pessoa de muitos toques e mimos, mas dá-me um grande apoio emocional e psicológico. Eu acho que ela me influenciou mais na parte racional e eu na outra parte. Conseguimos assim chegar a um meio-termo harmonioso que nos faz sentir bem uma com a outra.”

Nas relações sociais, para simplificar, refere-se a Sílvia como sua mãe e escolheu-a para encarregada de educação. Depois de conhecer melhor as pessoas, lá lhes conta que tem “uma mãe biológica e uma mãe adoptiva”. Também não gosta do termo “madrasta”.

Diz não ter saudades dos tempos em que viveu com o pai e a mãe, mas tem saudades do sítio onde vivia e dos amigos mais próximos. Teve de atravessar o Tejo e preferia viver na outra margem. “O ambiente aqui, em Oeiras, é totalmente diferente, as pessoas são totalmente diferentes. A experiência negativa foi maior que a positiva. Mas dentro de casa é muito mais estável e calmo. Ter a Sílvia na minha vida melhorou tudo. Mas não gosto do sítio onde vivemos. Eles sabem.”

Antes de terminar, Carolina quer contar um episódio: “Fomos a Trás-os-Montes para conhecer a família da Sílvia que ainda lá vive. E um amigo dela que não a via há muito tempo, depois de estarmos um bocado a conversar e ele a ver como funcionávamos bem como família, disse: ‘A tua filha é mesmo parecida contigo.’ Foi uma coisa que eu adorei ouvir.”

E tenta de novo pôr por palavras esta ligação: “A minha relação com ela é tão unida, uma mistura de mãe com uma grande, grande, grande amiga. Uma relação de amizade que não posso ter com a minha mãe por variadíssimas razões.” Mas diz sentir o “coração muito aconchegado”. Quanto às arrumações, acredita, “com o tempo, isto vai lá”. E despede-se com uma gargalhada genuína e feliz.

Eugénia

Bárbara (19 anos), Júlio (15), Sally (11)

Quando começaram a namorar, Eugénia e o actual marido já tinham prole e ambos pensavam assim: “Se os meus filhos não gostarem de ti, já foste!”, conta ao PÚBLICO com um desembaraço divertido. A verdade é que foram bem aceites pelos miúdos e estão juntos há sete anos.

Bárbara, a filha do marido, tem agora 19 anos e estuda no Porto, mas vivia com eles em Ovar. “Ela tem uma excelente mãe. Não a quero substituir. Eu sou uma mãe de bónus.”

O pai dos filhos de Eugénia (Júlio, 15 anos, e Sally, 11) é estrangeiro e vive fora do país. Eles viajam para os visitar três vezes por ano. Já aconteceu o pai vir cá e trazer a filha que tem de uma nova ligação. “Foi uma festa”, conta. “Nós entendemo-nos bem.” Mas nem toda a gente compreende. “Eugénia e os seus dois maridos”, houve quem dissesse. No entanto, não se deixa intimidar. O pensamento que a norteia é: “Se nos acontecer alguma coisa, eles ficam bem. Têm uma mãe e uma família de reserva.”

Ali não há diferenças de tratamentos, “beijos e ralhetes são iguais para todos”. As distinções que há decorrem simplesmente “das diferentes idades”. Eugénia não tem dúvidas de que quanto mais cedo se começa a viver com os miúdos, melhor. “Ganha-se muito amor, vamo-nos afeiçoando cada vez mais.” E lembra um provérbio popular para desmistificar a ligação biológica: “Parir é dor, criar é amor.”

Quando acontece juntarem-se todos, “é uma casa cheia, ponho-me lá a pensar se este é meu e aquele é teu”. E conclui: “A casa cheia e o coração também.”

Voltemos ao pedopsiquiatra Mário Cordeiro e às histórias infantis, que “têm um fio condutor simbólico (adequado à idade em que são contadas, três-seis anos) e, para lá de muitas mais coisas, falam-nos da necessidade de ‘as mães morrerem’, para que a criança no fundo saiba que vai ter de crescer sem a eterna protecção/regressão do pólo maternal, e quando tenta, com o medo do crescimento, ousadia e autonomia, arranjar ‘uma outra mãe’, surge a madrasta, que tem de ser, para a simbologia fazer sentido, ‘muito má’”.

Aliás, diz, “esse caminho de regresso, que a criança tanto deseja (porque crescer implica perigos e uma vida de luta contra o mal e aliar-se ao bem), no caso da Casinha de Chocolate, é impedido pelos passarinhos, os melhores amigos de João e de Maria, que comem as migalhas que eles deixaram para marcar o caminho”. Alerta ainda para a própria linguagem estar inquinada, “quando se menciona, por exemplo, como azar, uma ‘sorte madrasta’”.

Actualmente, “as madrastas representam, não uma substituição da mãe, mas uma pessoa que entra no puzzle-mãe, como entra o próprio pai quando desempenha funções maternais e muitas outras pessoas (familiares, educadores, etc.). Faça-se jus e honra às madrastas que ‘herdam’ muitas vezes crianças que, por elas não serem mães, acham que as podem desrespeitar ou que são personagens de segunda categoria: errado”.

E realça o seu papel fundamental: “As madrastas (como os padrastos) são fundamentais na nova arquitectura da família (que, em breve, será maioritária nas crianças a partir dos dez anos de idade).”

Mário Cordeiro está convencido de que, “na maioria dos casos, madrastas e enteados dar-se-ão bem e que o velho arquétipo de ‘aquela que veio roubar o lugar’ ou da madrasta da Branca de Neve já passou à história… à história infantil de onde nunca deveria ter saído, dado que, aí, como disse, tem um papel essencial e tem mesmo de ser assim!”

Para o pedopsiquiatra, “o Dia da Mãe nem deveria existir, mas, existindo, não deveria ser apenas da mãe biológica, mas de todas as figuras que a criança reconhece como maternais, designadamente as madrastas”.

E espera que os enteados que lerem este texto “reconheçam nas suas madrastas o estímulo ao crescimento, ao mimo, ao modelo a seguir, aos cuidados que têm… enfim, a tanta coisa que as crianças, hoje, parecem esquecer ou desconhecer”. E conclui: “Dia da Mãe é e deve ser, para mim, também, Dia da Madrasta.”

 

Crianças têm melhor desempenho se viverem com o pai biológico

Abril 24, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site https://zap.aeiou.pt/ de 10 de abril de 2017.

As conclusões podem parecer polémicas, mas o estudo nasceu apenas da intenção de perceber a realidade social das famílias britânicas.

Ou melhor, da possibilidade de ‘fracasso’ dos padrastos em ajudar as famílias às quais passam a pertencer, e que foi baseada nos registos de vida de mais de mil crianças nascidas de mães solteiras na viragem do Milénio.

Se o pai biológico viver com elas, as crianças são mais saudáveis e mais propensas a crescer com uma boa educação e a obter um desempenho melhor na escola, conclui o estudo, realizado por três investigadores da LSE – London School of Economics.

Segundo o estudo, que verificou relatórios de saúde, inteligência e habilidades sociais de crianças até aos 7 anos, os mesmos benefícios não se aplicam no caso do padrasto.

“As mães solteiras, quando acompanhadas pelo pai biológico, conseguem que as crianças tenham um desempenho tão estável como as que vivem com os dois pais”, diz Elena Mariani, investigadora da London School of Economics e co-autora do estudo, publicado o mês passado no European Journal of Population.

“Já quando um padrasto se junta a uma família dirigida por uma mãe solteira, então os menores são susceptíveis a crescer com os mesmos problemas que as crianças de famílias que continuam a ser lideradas por uma progenitora sozinha”, acrescenta a investigadora.

“Além de serem menos propensos a ter um bom rendimento na escola ou a manter um emprego, as crianças são mais propensas a engravidar na adolescência ou a entrar no mundo do crime quando o pai biológico não está presente”, conclui a investigadora.

O estudo, o primeiro a usar evidências de um levantamento em grande escala para analisar a influência dos padrastos no Reino Unido, segue uma série de apontadores menos académicos que sugeriram que as famílias podem enfrentar problemas quando os pais não biológicos mudam de residência.

O ano passado, uma pesquisa para o serviço de aconselhamento ‘Relate’ disse que mais de 30% dos padrastos e mais de 40% das madrastas duvidam da força dos seus laços com as crianças que estão ajudando a criar.

Segundo o ‘Relate’, as suas conclusões “indicam alguns dos desafios que as famílias podem enfrentar após a rutura de um relacionamento e durante a união de diferentes famílias.”

“Este relatório mostra como os pais biológicos são importantes para o desenvolvimento dos seus filhos”, disse Laura Perrins, editora do site da Mulher Conservadora, ao Daily Mail.

Não são só as figuras paternas que importam, mas os pais em si. A constante destruição da família nuclear por parte dos governos teve um impacto negativo sobre as crianças e deve parar agora”, salientou Perrins.

 

 

 

A “sorte madrasta” pode ser a sorte grande… Mário Cordeiro

Novembro 5, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mário Cordeiro publicado no site http://www.paisefilhos.pt/ a 28 de setembro de 2016.

As famílias são unidades dinâmicas, pelo que é uma asneira científica, social e antropológica pensar que existe uma “família tradicional”: há vários tipos de família e, por exemplo, o número elevado de separações leva a que muitas crianças vivam em família “dupla”, com o pai e com a mãe em diferentes casas.

Como o casamento ou a união de facto não estão em crise, muitos pais separados reconstroem a vida, em novos caminhos para a felicidade. Porém, as crianças das anteriores ligações terão de viver com uma (ou duas) “outras pessoas”, sendo estas mais do que “amigos do pai ou da mãe”. Estas situações podem amedrontar os intervenientes ou causar embaraços, se não forem antecipadas e bem geridas.

As palavras padrasto e madrasta estão mentalmente associadas a situações de incompatibilidade; recordamo-nos das histórias de infância, de padrastos a zurzir nos enteados, ou madrastas que, como na Cinderela, humilhavam e punham em segundo lugar os filhos “herdados”, face aos seus. “Sorte madrasta!” – diz-se. À luz da evolução social e dos novos paradigmas, temos de rever estes conceitos: os padrastos não andam de chicote em punho, nem as madrastas são velhas com dentes salientes e caras de bruxa.

Todavia, podem surgir ciúmes ou mau entendimento do que se está a passar, levando a competição entre a criança e o padrasto ou madrasta. As crianças, sendo manipuladoras, podem tentar aproveitar alguma coisa com a “indefinição” da situação, explorando a eventual fragilidade dos que agora começam a “jogar o jogo”. É então que dizem algo como “não sabes nada disso porque não vivias connosco”, “não és o meu pai” ou “é natural que não te lembres porque isso aconteceu ainda não eras para aqui chamada”.

Da parte dos padrastos e madrastas pode haver dúvidas quanto ao investimento a fazer, quer afetivo, quer temporal e económico, para lá de alguns casos de competição com os pais biológicos do mesmo sexo: se um filho é um projeto a dois, um enteado é um projeto adotado, depois de concebido e realizado por outros. Todavia, nada nos diz que não possamos amar e gostar tanto desse “projeto”, para lá do fortíssimo elo de ligação que é o progenitor biológico com quem se vive.

Enteados e padrastos/madrastas não têm de se adorar… mas essa relação positiva surge na esmagadora maioria dos casos. Com o tempo, uns e outros abrem o coração e aprendem a amar-se, e a saber entender o papel do outro. O que não é admissível são, de qualquer das partes, faltas ao respeito, intrigas, chantagens, espiar, invadir a intimidade ou diminuir perante terceiros.

Os padrastos e madrastas dão muito e não podem ter medo de educar mesmo não sendo os progenitores. Esse “karma” não os pode inferiorizar.

Finalmente, sublinho que estou plenamente de acordo com a legislação que dá aos padrastos e madrastas o poder de, caso seja sua vontade e o outro progenitor ou o tribunal aceitem, continuarem a viver com os enteados no caso de morte ou incapacidade do progenitor com quem vivem. Afastar pessoas que, muitas vezes, vivem com as crianças quase desde que estas nasceram e com as quais desenvolveram, reciprocamente, laços de afeto e educativos, será, na minha opinião, uma agressão e um maltrato à criança… e uma indecência para esses adultos que tanto deram e podem dar a essa criança.

 

 

 

Padrastos com sorte madrasta

Outubro 7, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 24 de julho de 2016.

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ALEX GOZBLAU

Carolina Reis

Criam as crianças como se fossem seus filhos. Perdem-lhes o rasto depois do divórcio. São pais ‘apenas’ do coração, sem direitos.

Um dia Pedro bateu com a porta. Passaram pouco mais de dez anos desde esse dia. O ponto de rutura de uma relação que estava quase a fazer uma década. Nuns segundos decidiu que aquela era a última discussão que ia ter com Elisa. O casamento tinha acontecido cedo, Elisa era ciumenta, Pedro imaturo. A soma das partes foi um tumulto quase desde o início até ao fim. Pelo caminho duas crianças. Miguel, filho de Elisa, que ainda não tinha dois anos quando a relação começou, e Tomás, o filho biológico do casal.

“O pai do Miguel já vivia fora do país quando eu os conheci. Telefonava, mandava presentes e estava com ele quando vinha a Portugal, mas fui eu que fiz as tarefas de pai”, conta Pedro Borges, hoje casado pela segunda vez e pai de três adolescentes. Foi Pedro quem ensinou Miguel a andar de bicicleta, quem acordou de noite para lhe acalmar os pesadelos, quem se sentou ao fim da tarde a ajudar a fazer os trabalhos de casa, quem lhe aguentou as birras, primeiro as da infância, depois as da pré-adolescência, quem guardou fotografias dos primeiros dias em cada escola. Miguel tinha o pai que estava em França e o pai de todos os dias, aquele a quem era mais chegado. Pedro tratava os filhos por igual, nunca lhe passou pela cabeça que apenas um fosse o seu filho verdadeiro. “Que designação é essa? Como é que alguém que eu crio não é meu filho?!”

Depois daquela discussão, de ter decidido que a relação chegava ao fim, que aquela porta batia definitivamente, Pedro procurou um advogado para discutir as guardas e direitos de visitas dos filhos. E foi aí que, pela primeira vez, sentiu que, afinal, não era pai de Miguel. “Sobre o seu enteado não há nada a fazer, não é seu filho, não tem direito a manter qualquer tipo de contacto com ele. Não é seu filho, não tenha sequer qualquer tipo de expectativa”, disse-lhe o advogado. Tantos anos volvidos, Pedro repete as vezes que forem precisas a frase de forma igual. Como se fosse hoje. “E eu ali, sentado, sem perceber muito bem o que se estava a passar. Ainda me passou pela cabeça voltar para casa e fingir que não se tinha passado nada, mas não me era possível”, conta Pedro, um consultor de informática agora com 47 anos.

Hoje, novamente casado e pai de mais duas meninas, recorda com tranquilidade os momentos bons, mostra as fotografias dos dias felizes, descreve a infância de Miguel e Tomás. Fala sempre dos dois como se fossem filhos, mesmo que não tenha contacto filial com Miguel há quase uma década. A relação entre Pedro e Miguel começou a acabar no dia em que acabou a de Pedro e Elisa.

O divórcio foi uma guerra. Um conflito silencioso que se alimentou de rancor e ódio. De um lado Pedro a querer os rapazes, do outro lado a mãe a fazer tudo para que isso não acontecesse. Primeiro houve um acordo sobre Tomás, e se Pedro se “portasse bem” aquelas visitas de 15 em 15 dias ao fim de semana e o jantar de quarta-feira podiam estender-se a Miguel. Mas Pedro não se portou bem. Nunca percebeu bem porquê, mas aos poucos foi perdendo o contacto com os filhos. “Ia buscá-los e eles estavam sempre em festas de anos ou tinham ido para fora de Lisboa com os avós. À quarta-feira estavam sempre no médico, eu aparecia e não estava ninguém em casa, ligava e havia discussão com a Elisa que se desculpava com idas ao dentista ou ao pediatra.” Os rapazes começaram a deixar de lhe atender o telefone. “Estava cansado de depender da vontade da minha ex-mulher para estar com os meus filhos.”

Pedro quis ir às últimas consequências. Mudou de advogado e descobriu a palavra alienação parental — um conceito definido nos anos 80 e que consiste nas tentativas de um progenitor em não permitir que os filhos tenham acesso ao outro progenitor —, e encontrou uma associação que ajuda quem passa pelo mesmo. E é aí que lhe dizem, de novo, o que para ele ainda era tão estranho: “Tu não és pai do Miguel, só do Tomás. Não podes pedir nada porque não tens direito.” Não havia nada a fazer, o que contava era o nome do pai escrito no papel e não aquele que tinha criado. Foi aí que desistiu. Os laços de sangue sobrepunham-se aos do amor. Vale mais partilhar o ADN e o apelido do que acolher uma criança no coração. A lei vai avançando na valorização dos afetos, da chamada família afetiva, porém continua a dizer que só é pai quem perfilha e que só assim há direito de visitas e convivência.

Direito é das crianças

“Coloco a questão ao contrário. Deve ser o direito das crianças a estar em causa. A criança tem o direito de se dar com quem gosta e com quem lhe faz bem. De acordo com o direito ao livre desenvolvimento da personalidade, que está consagrado na Constituição, a criança tem direito a conviver com todas as pessoas que fazem bem ao seu desenvolvimento”, defende Maria Perquilhas, juíza do Tribunal de Família e Menores. A magistrada sustenta a sua tese com o exemplo dos direitos de visita e convívio de avós e irmãos. Não são estes que têm direito, são os progenitores que não o podem impedir, salvo razões muito fortes, em prol do bem-estar e desenvolvimento do menor.

Na prática, em casos como o de Pedro Borges, a primeira barreira acontece logo quando se inicia o processo de regulação das responsabilidades parentais. Isso é apenas para pais e mães de sangue. “Advogados e Ministério Público têm uma cultura muito legalista e não veem na perspetiva do direito das crianças”, defende João Pedroso, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Uma lei aprovada o ano passado, que partiu de projetos-lei do CDS e do PS, veio reforçar a importância dos laços biológicos e dar alguns direitos a padrastos e madrastas. Em caso de impedimento, incapacidade, morte ou ausência de um dos progenitores ou de desaparecimento dos dois, os padrastos ou madrastas podem pedir a regulação das responsabilidades parentais. Sem qualquer consequência de filiação ou herança. É pouco e não se aplica a casos de divórcio, contudo é um caminho no reconhecimento da importância dos laços afetivos. Algo que tem vindo a ser reconhecido pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH). A Convenção Europeia faz uma análise do conceito de família diferente da do direito português, que assenta na biologia. Com base nos direitos das crianças já considerou que os laços afetivos contam como família e com base nisso ordenou direitos de visita, de modo a evitar o sofrimento dos menores. “Deve haver convívio desde que lhe traga vantagens, não é preciso privá-la para ver se é benéfico”, sublinha Maria Perquilhas.

António Santos, 52 anos, fechou, há sete meses, a mesma porta de Pedro. A história comum do divórcio, o mesmo problema separado por dez anos. “Hesitei muito até tomar a decisão final, por causa da Carolina, a minha filha”, diz António, fazendo questão de não substituir o filha por enteada. A menina que criou desde os 14 meses, apesar de nunca ter sonhado com a paternidade, trata-o por pai. No dia em que decidiu que o casamento chegava ao fim, António chamou Carolina, sentou-a ao colo e disse-lhe: “Independentemente do que aconteça a partir de agora vou gostar sempre muito de ti”. A menina de oito anos ouviu em silêncio e aguentou as lágrimas com força. “Gostava de cumprir a promessa que lhe fiz e, por isso, pedi ao meu advogado para ser criativo e ver a que consenso consigo chegar com a mãe dela.”

Antes de formalizar o pedido de divórcio, já a decisão estava tomada na sua cabeça, António viveu num limbo. Entre manter a vida conjugal infeliz que tinha e ser pai ou recomeçar, procurar ser feliz com outra pessoa, e ‘perder’ a filha. “Nos meus tempos de solteiro ouvi histórias de amigos que diziam que não se separavam por causa dos filhos, eu criticava-os, achava que eram cobardes, que as crianças não precisavam de ter os pais juntos, que tudo se arranjava… Mas afinal, estive prestes a fazer o mesmo.” Há alguns anos que António e a mulher viviam uma relação de aparência, para fora, em nome da “filha”. Carolina conhece o pai biológico, trata-o pelo nome próprio, mas sempre foi difícil ter uma relação saudável com ele.

Aos quatro anos, já ela morava com António, o pai desapareceu da sua vida, devia ter ido buscá-la num fim de semana mas nunca foi. “Lembro-me da relação entre aquelas famílias ser difícil. Os pais dele culpavam a mãe de ter engravidado de propósito para o prender, essa acusação estava sempre presente. Depois de casarmos já não o diziam abertamente, porém mantinha-se no ar”.

António nunca se meteu na guerra, ocupou o espaço que o pai biológico deixou vazio e não explicou a Carolina que era “apenas” um pai afetivo quando ela lhe chamou pai pela primeira vez. Naquele Dia do Pai em que ela chegou a casa de braços abertos, com uma minimão feita em cartolina e lhe ofereceu o presente com um: “Adoro-te, pai”, abriu-se uma nova fase da relação. António percebeu que o valor que Carolina dava a tudo o que ele fazia com ela, para a menina era a prova de que não havia nada mais claro na vida dela. “Senti o peso da responsabilidade pela primeira vez, até aí sabia que gostava muito dela mas o peso, aquela sensação de que aquele ser pequenino dependia de mim aterrorizou-me, fui a correr abrir-lhe uma conta-poupança no banco para quando crescesse. “O casamento de sonho, por esta altura, começava a desmoronar-se. As discussões tinham subido de tom, desconfiada a mulher passou a ligar-lhe diretamente para a extensão na empresa. As horas extraordinárias a trabalhar começaram por ser verdadeiras, mas aos poucos foram-se tornando um escape para não estar tanto tempo em casa. Eram um balão de oxigénio para ganhar forças e voltar a enfrentar o lar. “Toda a gente me dizia que os casais passam por crises. E também que não se desiste assim tão facilmente.” Enquanto o casal se desunia, António e Carolina tornavam-se mais cúmplices, as dificuldades a matemática eram colmatadas com a ajuda dele que fazia por chegar mais cedo alguns dias para a ajudar nos trabalhos de casa.

Por agora, vigora um acordo de boa vontade entre António e a mulher de quem se está a divorciar. Ao contrário de Pedro, António bateu o pé ao advogado. Pediu-lhe criatividade, que ajudasse a dar a volta à lei, a ver por onde poderia encontrar uma brecha que lhe desse um direito. Mas do outro lado, da vontade da mãe, não sabe por quanto mais tempo durará a boa vontade. “Estamos no início de uma fase nova. É tudo temporário. Posso ir ver a Carolina à escola e almoçar com ela um sábado de vez em quando, tento que seja uma vez por mês.” Esta relação de pai e filha está nas mãos da mãe que faz questão de dizer que só a ela lhe pertencem os direitos.

Uma nova realidade familiar

“É verdade que perante a lei os padrastos e madrastas não têm direitos, mas pode ser do superior interesse das crianças continuar a conviver com eles. E, se assim for, não há nada que impeça um juiz de atribuir direitos de visita com base em laços afetivos. Só que como não está na lei, não se criou essa cultura social”, defende João Pedroso, mestre em sociologia, que tem estudado a composição das famílias.

A família é um conceito em rápida mutação. No ano passado, 16,3% dos bebés portugueses nasceram de pais não casados e que não vivem na mesma casa. São os ‘novos’ filhos fora do casamento. O divórcio tornou-se um ato natural, segundos casamentos aumentam, o conceito de família é redefinido. Os meus, os teus e os nossos. Quando os filhos biológicos de um casal são criados pelos maridos/mulheres dos pais trazem novos laços de afetividade que são benéficos para as crianças. “Quando a relação entre o progenitor e o padrasto/madrasta termina, não deve ser por isso que o espaço psicológico e relacional com a criança deva ser cortado. O “puzzle-pai” e o “puzzle-mãe” da criança englobam quantas pessoas forem, no que estas representam de afeto, crescimento, mimo, estruturação, ensino, aprendizagem. Uma pessoa que entra na vida da outra e que com ela estabelece uma relação de amor e de empatia não pode ser escorraçada sem mais, apenas porque “não lhe pertence” — as crianças também não pertencem aos próprios pais…são pessoas, com autonomia e identidade própria”, defende o pediatra Mário Cordeiro. E frisa que os padrastos e madrastas não são figuras decorativas numa relação.

Mudam-se os tempos, muda-se o conceito de família, muda a visão negativa dos padrastos e das madrastas, os maus dos filmes e contos infantis que vimos desde crianças. “A madrasta é sempre a outra. A raiz tradicional vem daí”, conta Isabel Parreira, professora e autora do livro “A Madrasta”. A história que lançou em 2012 conta, de forma irónica e sarcástica, as aventuras de uma madrasta e veio preencher uma lacuna. “Na altura não havia nada sobre o tema.” A inspiração veio de muitos casos que foi conhecendo a dar aulas. “Há uma diferença entre ser padrasto ou madrasta, apesar de as funções serem as mesmas. As mulheres são sempre as velhacas, eles são as boas pessoas.”

“Prefiro dizer família afetiva do que padrastos e madrastas. É sempre um termo que tem uma conotação pejorativa”, defende Rui Alves Pereira, advogado especialista em direito de família e presidente da Associação A Voz da Criança. Desde os tempos da Disney que os padrastos e as madrastas são os maus, os que estão a mais na relação, os que causam problemas, aqueles que querem afastar os pais verdadeiros dos filhos. Os padrastos e as madrastas têm um privilégio. “Estão suficientemente próximos da criança para serem seus confidentes e amigos, mas distanciados para poderem recolher queixas e dar apoio que, por vezes, os próprios pais não conseguem dar”, frisa Mário Cordeiro.

Rita Monteiro sentiu-se ligeiramente julgada quando foi viver com o ex-companheiro, tinha ele acabado de se divorciar da mulher e com dois filhos de dois e quatro anos. “Diziam-me, ah, e a mãe não se importa que esteja lá em casa? Ela deixa-te tomar conta deles? Ignorei estes comentários, como é óbvio.” De boa vontade abdicou de um namoro e vida inicial só a dois. Naquele apartamento estavam sempre a dormir ou a entrar e a sair duas crianças com as quais criou uma afinidade imediata. “Eles tinham um regime acordado fora dos tribunais que variava consoante quem saía mais cedo do trabalho, faziam questão de que as crianças estivessem durante a semana tanto com o pai como com a mãe.”

Na teoria funcionava bem, era o acordo ideal. Feito em nome das crianças, para conviverem com os dois progenitores todo o tempo. Na prática não havia divisão entre a vida da mãe e a nova vida do pai. Tinham a chave de casa um do outro, eram os melhores amigos, namorados desde a faculdade, a primeira relação a sério um do outro. “Eu estava a mais.” A separação tornou-se uma evidência. “Eu só apressei as coisas.” Dois anos depois de Rita ter saído de casa, as crianças entraram na pré-adolescência. “O mais velho fez-me um pedido de amizade no Facebook. E eu, que tinha tantas saudades deles, não fui capaz de aceitar. Era como se me estivesse a meter de novo entre eles e a mãe.” Na carteira ainda guarda as fotografias tiradas na escola no início do ano.

Os laços afetivos não se definem de forma linear. “Já entreguei crianças a padrastos e madrastas em processos de proteção de menores. Nestas situações, os menores podem ficar com tios, padrinhos, madrastas, padrastos, avós. E se ao fim de 18 meses, o tempo que duram os processos, os pais voltam a ter capacidade para os ter, o que acontece a estas pessoas que serviram para ficar com eles? Que funcionaram como família?”, diz Maria Perquilhas. Enquanto a conceção de família muda, a do direito vai-se mantendo.

Laços afetivos chegam aos tribunais

“É um percurso que nos faz falta fazer. O direito deve adaptar-se à nossa sociedade”, frisa Rui Alves Pereira. O advogado considera que o legislador deveria tomar em conta a figura afetiva, mas que cada caso deve ser analisado um a um. Não é possível generalizar e medir a afetividade entre uma criança e um padrasto ou madrasta. “Ao fim de quanto tempo é que se mede? Tem de ser casuístico. Se o legislador disser que é a partir de a idade X então pode estar a cometer um erro.”

João Pedroso recorda um caso decidido, recentemente, por um tribunal do centro do país. “Um pai tinha a guarda do filho e a mãe, que vivia no estrangeiro, direitos de visita. Um dia, na discussão do divórcio, ela veio dizer que ele, afinal, não era o pai da criança. O tribunal ordenou testes de ADN e a acusação confirmou-se.” De pai passou a nada na vida da criança que criava sozinho desde pequeno, mas a justiça entregou-lhe a regulação dos poderes parentais na mesma e manteve os direitos de visita à mãe. “A lei processual permite coisas aos juízes que a lei substantiva não permite. Tem é de se provar que é do interesse da criança.”

O caminho da família afetiva continuará a fazer-se, à semelhança dos direitos dos avós que só em 1995 passaram a estar contemplados, legalmente, na convivência dos netos. Até aí, poderiam socorrer-se de uma norma do Código Civil, alegando que os menores estariam em risco se não convivessem com a família mais alargada. “É o chamado superior interesse da criança — que pode parecer um termo vago — mas que se pode usar para manter o contacto com a família afetiva”, sublinha Rui Alves Pereira.

Aos poucos, também a sociedade vai tomar consciência de algo que é natural e normal. Os laços de sangue não significam nada, a não ser que também existiam afetos. “E quantos pais e quantas mães biológicas, no seu narcisismo e distanciamento, não querem saber dos filhos ou apenas querem para os exibir como ‘troféus de caça’ quando fazem algo de espantoso, mas não promovendo a estabilidade relacional que deveriam”, conta Mário Cordeiro, sublinhando que não nos devemos esquecer que o narcisismo é a doença social mais frequente.

A vida de Pedro resolveu-se. Voltou a casar-se e teve mais duas filhas, no entanto há um buraco no meio da última década que é reavivado ao contar a história. “Eu pensava que já tinha arrumado tudo na minha cabeça, que já tinha dado a volta à minha vida, mas ao falar é como voltar a viver tudo outra vez e perceber quanto isto foi cruel para o Miguel, o meu filho.” O rapaz, agora jovem adulto, teve dificuldade em adaptar-se ao longo deste tempo. Chumbou várias vezes, fez amigos em dificuldade, houve até um dia em que fugiu de casa. Zangou-se com Pedro. Ainda hoje acha que a culpa de tudo o que aconteceu é dele. Pedro não se importa de arcar sozinho com a responsabilidade. Independentemente do que diz a lei, no seu coração habitam os sentimentos de pai.

 

 

 

Madrastas e padrastos vão ter poderes de pais

Agosto 6, 2015 às 11:15 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 6 de agosto de 2015.

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