Separar alunos para melhorar os resultados? Nestas escolas resulta

Janeiro 2, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 17 de dezembro de 2018.

Projecto piloto criado há três anos em duas escolas da Madeira tem obtido resultados animadores. Taxas de retenções caíram a pique e notas mais altas subiram.

Márcio Berenguer

Em três anos, a Escola Básica dos 2.º e 3.º ciclos do Caniço baixou a taxa de retenção de 20,8% para 4%. No Estreito de Câmara de Lobos, nos mesmos três anos, a EB 2/3 local viu a taxa de sucesso evoluir de 89% para 96,9% — e a de insucesso baixar de 11% para 3,1%.

O resultado dos projectos pedagógicos destas duas escolas da Madeira, que dividiram os alunos por turmas de acordo com o desempenho académico dos anos anteriores (separando os que têm mais dificuldades dos que se saem melhor), não é mensurável apenas nas estatísticas. O sucesso, extravasa os números. “Muitos encarregados de educação têm vindo à escola pedir para os filhos entrarem para o programa”, diz, de sorriso aberto, Armando Morgado, presidente do conselho executivo da EB 2/3 do Caniço, uma cidade dormitório, paredes meias com o Funchal.

No início do ano lectivo de 2015/2016, quando os projectos “Caniço +” e “Estreito +” foram apresentados, as reacções foram muitas, e todas desfavoráveis. Entre a desconfiança dos encarregados de educação e as críticas abertas do sindicato dos professores e dos partidos da oposição ao governo social-democrata de Miguel Albuquerque, os programas foram alvo de grande escrutínio. A principal falha que lhe apontavam era os riscos de os alunos se sentirem discriminados. Outros, acusavam mesmo o sistema de estar a desistir das crianças com menor aproveitamento escolar.

“Pelo contrário.” António Mendonça, director da EB 2/3 do Estreito de Câmara de Lobos, uma freguesia rural a Oeste do Funchal, repete ao PÚBLICO o que vem dizendo nos últimos três anos. “Se houve discriminação, foi pela positiva. As turmas de recuperação [onde os alunos com maiores dificuldades foram colocados], sempre tiveram mais meios pedagógicos do que as restantes.” Toda a comunidade educativa, continua António Mendonça, percebeu isso. “Depois da relutância inicial, temos agora pais a pedirem para os filhos entrarem.”

O “Estreito +” começou por actuar no início de cada ciclo escolar, em duas turmas do 5.º e duas turmas do 7.º ano. Com um máximo de 16 alunos em cada, foram formadas turmas de desenvolvimento (para os que apresentavam um bom histórico académico) e de recuperação (para os que denotavam mais dificuldades). Ambas tinham a mesma mancha gráfica horária e contavam com dois professores por disciplina.

“Os resultados foram bastante positivos, com os alunos a terem melhor desempenho e vontade de aprender mais”, explica António Mendonça, dizendo que o projecto foi sendo alargado.

No arranque deste ano lectivo, a EB 2/3 do Estreito de Câmara de Lobos, tinha duas turmas “mais” no 5.º, duas no 6.º, seis no 7.º, e duas no 8.º e no 9.º. “Estamos a monitorizar os alunos que estiveram neste programa e entretanto saíram para outras escolas, para percebermos melhor o alcance a longo prazo deste programa”, acrescenta, dizendo que outras escolas da região têm procurado saber mais sobre o projecto.

A Secretaria Regional de Educação, que desafiou ambas as escolas a tentarem novas abordagens para reduzir o insucesso escolar, faz também um “balanço muito positivo” dos três anos do projecto. “Os dados disponíveis confirmam que é possível conceber e implementar com sucesso alternativas para manter a maioria dos alunos no ensino regular, como aconteceu no caso destas escolas”, diz ao PÚBLICO o gabinete de Jorge Carvalho, secretário regional de Educação.

No Estreito de Câmara de Lobos, desde que o programa chegou à escola, a taxa de retenção caiu de 11% para 3,1%. No Caniço, a taxa global de sucesso subiu de 79,2% (no final de 2014/2015) para os 96% do ano lectivo passado. Em anos mais sensíveis, como o 7.º ano, a taxa de retenção tornou-se residual: 2,6%, quando antes era de 15,2%.

“É sabido que cada pessoa aprende de forma diferente. Não pode, portanto, a escola que se afirma democrática, ensinar de forma igual para todos”, argumenta a secretaria regional, sustentando que a escola “apenas se constituirá como lugar de realização de justiça”, se conseguir que todos os alunos sejam bem sucedidos. “Senão o fizer, a desigualdade social será perpetuada e naturalizada.”

Foi com essa ideia, e com a certeza de que aplicando a mesma receita dificilmente os resultados serão diferentes, que o Estreito de Câmara de Lobos e o Caniço desenharam as turmas mais. No Caniço, de um total de 35 turmas, 14 integram o programa. Um número reduzido de alunos, bolsas de explicação e dividir a turma nas aulas de dois blocos (alternadamente metade vai para Português, a outra para Matemática) tem significado bons resultados.

“Tirando um caso ou outro, todos os alunos completaram o 3.º ciclo em três anos”, diz Armando Morgado, acrescentando outro dado. No ano passado, a escola ficou em primeiro lugar na Madeira no exame final de 9.º ano, entre os estabelecimentos com mais de 50 provas.

Estes resultados, não se esgotam nas turmas “mais”. A escola do Estreito de Câmara de Lobos tem aproveitado a liberdade proporcionada pelo Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular (PAFC) para mexer nos currículos e adaptar a carga horária. No Caniço, além do PAFC, não faltam outras estratégias. Desde a robótica aplicada à Matemática, ao xadrez (obrigatório no 5.º ano), à aposta no clube de cultura, que agrega teatro, dança, música e outras disciplinas.

“Queremos apostar na cultura, como já apostamos no desporto”, explica Armando Morgado, encostado ao fundo do ginásio, onde no palco improvisado os alunos vão dando corpo aos fantasmas do Natal passado de Mr. Scrooge (personagem de Charles Dickens). Mas no Caniço, como no Estreito de Câmara de Lobos, não é preciso Dickens para lembrar como eram os anos lectivos passados. Nem ninguém quer regressar a eles.

Hoje em dia o telemóvel faz parte dos talheres

Agosto 16, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal da Madeira de 4 de agosto de 2018.

 

Oficina de construção em madeira, 9 junho no Museu Bordalo Pinheiro‎ em Lisboa

Junho 5, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/255869775154848/

 

Quando a violência vai à escola

Janeiro 23, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Reportagem da http://www.rtp.pt/noticias/ de 11 de janeiro de 2017.

dr

Ouvir a reportagem no link:

http://www.rtp.pt/noticias/grande-reportagem/quando-a-violencia-vai-a-escola_a975200

Sérgio Freitas Teixeira – Antena 1

10% das crianças e jovens da Madeira são vítimas de bullying. É o dado principal do único estudo sobre violência nas escolas, realizado pela Universidade da Madeira. Entre Janeiro e Novembro do ano passado, 38 queixas de ofensas e ameaças à integridade física, envolvendo menores, deram entrada na Polícia. O repórter Sérgio Freitas Teixeira percorreu estes caminhos, no concelho da Ponta do Sol, para nos dar a conhecer a violência escolar e os comportamentos de risco nos jovens.

«Quando a violência vai à escola» grande reportagem de Sérgio Freitas Teixeira, com pós produção áudio de Paulo Reis e João Carrasco.

 

Menos crianças em instituições é boa notícia

Dezembro 8, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do site http://www.dnoticias.pt/ de 30 de novembro de 2016.

joana-sousa

Número de crianças acolhidas em instituições caiu para metade numa década

Miguel Fernandes Luís

O número de crianças e jovens acolhidos em instituições caiu para metade em cerca de dez anos. Uma “boa notícia”, conforme referiu ontem, no Funchal, a procuradora da República Helena Gonçalves, que lembrou que a melhor forma de defender os direitos dos menores é integrá-los numa família.

Numa intervenção no Encontro Nacional de Avaliação da Actividade das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, que decorre no Funchal, Helena Gonçalves sublinhou que “promover os direitos das crianças e jovens e protegê-los significa dar prevalência à sua integração numa família biológica ou adoptiva ou diligenciar por outra forma de integração familiar estável que se mostre apta a assegurar a todos o seu pleno crescimento”. Por isso, a procuradora congratulou-se com o facto de se ter registado um substancial decréscimo no número de crianças em situação de acolhimento institucional/residencial – se em 2004 havia 15.118 crianças institucionalizadas em Portugal, hoje temos 8.600 crianças nessa situação.

Com a Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal, e diversos outros responsáveis do Ministério Público a participar neste evento, o magistrado que coordena o MP na Região apontou a Comarca da Madeira como um exemplo para o resto do país em matéria de protecção de menores. O segredo? Nuno Gonçalves explicou: “A Madeira tem essa sorte da especialização. Nós temos uma Secção de Família e Menores na Instância Central que abrange toda a ilha da Madeira. Isto não era assim. A justiça na Madeira relativamente à protecção e promoção dos menores tem imensa qualidade porque conseguimos ter esta relação não só com as CPCJ [comissões de protecção de crianças e jovens] mas também com as entidades oficiais”. O procurador descreveu como na Comarca da Madeira há o cuidado de olhar para cada processo de família e menores de uma forma especial: “É um processo de um jovem ou uma criança que vai ser acompanhada e que nos vai preocupar durante todo o tempo em que careça que os seus direitos sejam promovidos e defendidos e que possam ter palavra”.

A advogada Paula Margarido confirmou a versão apresentada pelo representante do MP. “Na Madeira, graças a Deus, as coisas correm muito bem. Ou seja, como advogada, quando me chega um processo de família às minhas mãos entro em contacto com alguns dos técnicos para perceber qual é a verdade daquela criança, porque a verdade que me chega pelas mãos da minha cliente pode não ser – e não é muitas vezes – a verdade da criança. Falo com os técnicos, vou bater à porta do senhor procurador, que está sempre disponível para me acolher e para que possamos todos concertar qual é a melhor medida para aquela criança”, descreveu a profissional liberal.

O Encontro Nacional de Avaliação da Actividade das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, subordinado ao tema ‘Direitos Humanos da Criança – Novas perspectivas e exigências de um sistema integrado para sua promoção e protecção’, teve início na segunda-feira e encerra esta tarde, no Centro de Congressos (Casino). A secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, participa na sessão de encerramento. A presença da governante estava prevista no programa inicial do evento, depois foi cancelada mas ontem foi reconfirmada.

A secretária de Estado também vai aproveitar a deslocação à Região para visitar instituições de acolhimento de crianças. Antes de integrar o Governo de António Costa, Ana Sofia Antunes era presidente da Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO).

 

Um terço dos jovens na Madeira começa a consumir bebidas alcoólicas aos 13 anos

Junho 20, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 7 de junho de 2016.

Homem Gouveia

A secretária da Inclusão e Assuntos Sociais da Madeira, Rubina Leal, revelou hoje, no Funchal, que um terço dos jovens na região autónoma inicia a ingestão de bebidas alcoólicas aos 13 anos, embora em termos gerais o consumo tenha diminuído.

“Temos de trabalhar cada vez mais cedo, e de forma precoce e contínua, as questões da prevenção e só assim podemos minimizar algumas situações”, afirmou a governante durante a apresentação do Programa de Prevenção das Dependências em Contextos Socais Vulneráveis, que começa no verão e se prolonga até 2019.

O projeto visa “promover a resiliência” ao nível individual, familiar e comunitário em bairros sociais localizados em seis concelhos da Madeira – Funchal, Santa Cruz, Machico, Câmara de Lobos, São Vicente e Ribeira Brava -, num total de 5.000 fogos, onde residem 15.000 pessoas.

“No âmbito da nossa intervenção e no âmbito da inclusão social consideramos que era essencial criarmos um programa de prevenção das dependências em contextos sociais vulneráveis”, salientou Rubina Leal, explicando que a iniciativa envolve diversos parceiros, nomeadamente os institutos de Administração da Saúde e Assuntos Sociais e da Segurança Social, bem como a empresa pública Investimentos Habitacionais da Madeira.

A população alvo do Programa de Prevenção das Dependências em Contextos Socais Vulneráveis são as famílias, as crianças e os jovens.

 

 

Escola da vila mais pobre da Madeira é uma das melhores do país

Março 24, 2016 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do Público de 19 de março de 2016.

Gregório Cunha

Márcio Berenguer

Contra todas as probabilidades, uma escola no lugar mais isolado da Madeira teve a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano. Tem 300 alunos, não tem campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batem certo com os do autocarro.

Na freguesia mais pobre da Madeira e uma das mais carenciadas do país, onde 92% dos alunos têm Acção Social Escolar e a internet não faz parte das prioridades da maioria das famílias, existe algo supreendente. Numa vila enterrada num vale profundo, onde a única ligação com o resto do mundo faz-se por um túnel com quase 2,5 quilómetros, existe uma escola onde cabem todos os sonhos.

A Escola Básica 123 do Curral das Freiras teve, em 2015, a terceira melhor média nacional no exame de Português do 9.º ano. Os 4,4 de média – a escala vai até 5 – colocaram este estabelecimento de ensino como a melhor escola pública neste ranking. No exame de Matemática, embora menos brilhantes, os resultados foram igualmente surpreendentes. Os alunos do 9.º ano tiveram uma média de 3,6, colocando a escola no 12.º lugar do ranking entre as públicas e dentro das 100 melhores em termos gerais.

Tudo isto numa escola com pouco mais de 300 alunos, onde metade dos professores são contratados, que fica esquecida no meio do maciço central da ilha da Madeira, servindo uma população que ronda as 1500 almas. “Esta escola tem 150 professores colocados, mas apenas 74 estão cá a leccionar. São poucos os que querem vir para cá trabalhar, por causa do isolamento, do frio… e eu compreendo”, explica Joaquim Sousa, director da escola desde que esta abriu as portas, há seis anos.

É um estabelecimento muito particular. Vai da creche até ao 12.º ano, e Américo Sá, 18 anos, é o aluno mais antigo. Quer ser militar de carreira. Ou queria. “Agora já não sei bem”, conta ao PÚBLICO, sorrindo com o título de ‘aluno número 1’ com que o director da escola o apresenta. “É bom estudar aqui. Todos se conhecem, somos amigos, temos boas condições e sentimos que os professores acreditam em nós”, sintetiza, cruzando os braços sobre a mesa do Conselho Executivo, onde também cabem André Santos e Daniel Caires, ambos a frequentar o 9.º ano.

André é o melhor aluno da escola, mas nem isso o livra de uma espécie de raspanete do professor. “Não deixes o queixo caído sobre as mãos, não inspira confiança. Se colocares a mão assim, os outros vão ver que estás atento”, aconselha Joaquim Sousa, desenhando um ‘L’ com os dedos de uma mão, junto à boca. André que ser médico. Desejo raro no Curral das Freiras, onde a esmagadora maioria da população vive da agricultura.

“Foi isso que quis desmistificar, quando cá cheguei. A ideia de que filho de lavrador tem de ser lavrador”, diz o director da escola, revelando o discurso que faz aos professores no início de cada ano lectivo. “Estes alunos têm sonhos, têm direito a ter todos os sonhos do mundo e cabe a nós ajudá-los”, conta o director, numa espécie de adaptação da Tabacaria, de Álvaro de Campos.

Até agora, os sonhos de Joaquim Sousa e da equipa que lidera têm-se concretizado. Quando chegou, a escola ficou em 1207 no ranking, e estabeleceu logo metas: colocar a escola entre as melhores da Madeira, e reposicioná-la depois a nível nacional. “Disse que queria tornar a escola a melhor do país, se calhar estiquei-me um pouco…”, diz sorrindo alto, sentado junto a uma parede forrada de recortes de jornais onde a 123 do Curral das Freiras surge em destaque.

Foi feita uma pequena revolução. O grau de exigência foi elevado – “porque estes alunos, pelo contexto social onde vivem, só têm uma oportunidade” -, com a componente saber (conhecimento da matéria) a passar a contar 90% contra os 10% do estar (comportamento, assiduidade, participação). Antes, a proporção era de 60/40, mas esta exigência não significa uma pressão acrescida sobre os alunos.

Foram ajustes simples. A escola não tem campainha. A que existia avariou, e não havia dinheiro para uma nova. Agora que há, continua sem haver toques. “Há uma maior responsabilização, e acabaram-se as tolerâncias”, explica. As turmas são pequenas, por falta de alunos e todas têm apoio inserido no horário lectivo. Não há trabalhos para casa – “os miúdos têm de ter vida para além da escola” -, e os métodos de ensino são adaptados a cada um deles. “Nem todos podem ser doutores, mas todos podem e devem sair daqui preparados para enfrentar o mercado de trabalho”, argumenta, enumerando as dificuldades que os alunos enfrentam para vir à escola. “São verdadeiros heróis.”

Daniel Caires é um deles. Está no 9.º ano e todos os dias sai de casa às 6h30 e só regressa já perto das oito da noite. Vive em Câmara de Lobos, e quis fugir às escolas do concelho. “Sabia que lá não ia ter muitas hipóteses de sucesso, o ambiente não ia ajudar”, diz ajeitando os óculos de massa escuros. Daniel, ou Dani, como todos os chamam nos corredores da escola, foi aconselhado por um primo, que frequenta a escola. “Queria ter oportunidade de estudar num bom ambiente, e não me arrependi”, garante, dizendo que vale a pena o sacrifício diário e as horas passadas no autocarro.

A escola, explica Joaquim Sousa, adapta-se às necessidades dos alunos. Numa vila com uma orografia difícil, a única forma dos jovens irem à escola é de autocarro. “Nós alteramos os horários, adaptando-os às horas dos autocarros, tendo em conta as necessidades dos alunos”, diz o director. Por isso, a taxa de abandono é reduzida, e quando acontece é por motivos de emigração, devido a elevada taxa de desemprego do Curral das Freiras. Mesmo agora, que acabou o 2.º período e começam as férias, a biblioteca e a sala de informática são sempre um local de encontro para os alunos. “Numa terra onde 80% não tem livros em casa e mais de metade não tem computador ou internet, é nosso dever dar isso”.

“Vamos buscar os alunos a casa se for preciso”, garante. Já aconteceu. Em 2010, quando a ilha foi assolada por um temporal que matou mais de trinta pessoas, e a vila ficou uma semana isolada, Joaquim Sousa e Marco Melo, presidente do Conselho da Comunidade Educativa, foram com o próprio carro buscar os alunos a casa. “Queríamos mostrar que a escola, principalmente naqueles dias terríveis, era um lugar seguro”, conta Marco Melo. E é. Já aconteceu os alunos terem que passar lá a noite, devido ao mau tempo que tornavam intransitáveis as pequenas estradas que serpenteiam o vale. Américo Sá, não esconde um sorriso cúmplice ao recordar a experiência. “Foi engraçado”, conta.

Todos riem. Até Albany Rodrigues, que chegou há dois anos da Venezuela, esboça uma gargalhada. Com carências a português, e tímida por natureza, Albany foi alvo de uma atenção especial, que já começou a dar frutos. “Fui a melhor aluna de geografia da Madeira”, diz, baixinho. “Tentamos que ela encontrasse aqui um lugar seu, depois de uma mudança tão radical como é a de mudar de país”, explica o director da escola.

Também Dina Ascenção sempre sentiu a escola como sua. Esteve ali cinco “bons” anos, e hoje, a estudar no Funchal, é um exemplo para os outros alunos. Fez parte do 9.º ano que alcançou a terceira melhor média nacional a Português, mas foi a Matemática que mais se destacou. Foi a única, na Madeira, a ter 100% no exame nacional. “No meu último ano nesta escola, desconhecida ou até mesmo desprezada por muitos, eu e a minha turma alcançámos um excelente lugar entre as escolas públicas nos exames de 9º ano”, recorda, dizendo que este resultado mostra que “não interessa de onde viemos, mas sim onde nos leva a nossa persistência”.

Joaquim Sousa abana a cabeça que sim. Que nada é impossível, e que os alunos têm o direito de sonhar.

 

 

 


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