Crianças devem lutar? Entrevista Carlos Neto

Janeiro 1, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://www.gazetadopovo.com.br a Carlos Neto no dia 18 de dezembro de 2015.

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Por Adriano Justino exclusivo para Gazeta do Povo

O professor português Carlos Neto não foge a temas polêmicos relacionados ao desenvolvimento infantil. Em entrevista por email à Gazeta do Povo, ele fala sobre a importância das brincadeiras de luta entre crianças, vistas como nocivas por pais e especialistas:

Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, o português Carlos Neto .

Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, o português Carlos Neto não foge a temas polêmicos relacionados ao desenvolvimento infantil. Em entrevista por email à Gazeta do Povo, ele fala sobre diversos temas, em cinco capítulos que iremos publicar em nosso site, um por semana, relacionados a desafios da formação das crianças de hoje. Neste primeiro trecho da entrevista, ele fala da importância das brincadeiras de luta entre crianças, ainda hoje vistas como nocivas por pais e especialistas:

Como os jogos influenciam a formação das crianças?

O processo de desenvolvimento humano ocorre entre duas dinâmicas opostas e complementares: a procura de proximidade (segurança) e a necessidade progressiva de distanciamento (autonomia). As crianças menores procuram afeto e as mais velhas independência. Este é um fenômeno que acontece em quase todas as espécies animais. Trata-se de uma questão de sobrevivência e de aquisição de ferramentas muito úteis para se tornar adulto.

Este mecanismo adaptativo é ainda mais particular no ser humano por ter uma infância relativamente longa e necessitar assegurar a sua sobrevivência através de uma relação muito complexa entre mudanças que ocorrem no seu corpo e no seu ambiente. O desenvolvimento do jogo e da motricidade permite uma conquista progressiva de autonomia do homem através de referências biológicas e culturais.

As brincadeiras de luta também são importantes na infância?

Elas são uma das mais fascinantes linguagens do corpo em uma perspectiva evolutiva. Os comportamentos de jogo de luta a brincar (play-fighting), jogo de perseguição e caça (play-chasing) e jogo de luta a sério (real-fighting) têm sido largamente estudados no comportamento animal e humano. Todas as crianças saudáveis têm necessidade de brincar de lutas ou de jogos de perseguição. São atividades ancestrais que devem fazer parte das culturas lúdicas na infância.

É correto os pais proibirem as lutas?

O contato físico através dessas brincadeiras e a consequente perseguição, são comportamentos que não devem ser proibidos. Pelo contrário, devem ser implementados entre pais e filhos em casa, entre as crianças no recreio ou em jogo livre nos espaços exteriores. Reprimir este tipo de brincadeira é um erro estratégico do ponto de vista educativo e terapêutico. No entanto, devemos ter atenção quando assistimos a lutas a sério de forma repetida em crianças (principalmente nos recreios escolares), porque isso pode denotar comportamentos de “bullying”.

Como os brinquedos bélicos podem interferir no desenvolvimento?

Se as famílias e as escolas não fornecerem brinquedos bélicos às crianças, elas terão a ocasião de encontrar objetos que imitarão esse tipo de brincadeira. Estes brinquedos bélicos naturais, artesanais ou industriais (como a maior parte de jogos de guerra eletrônicos) são fundamentais para o desenvolvimento motor, cognitivo e social da criança. Elas brincam de guerra (faz-de-conta) de forma simbólica e adquirem várias competências muito importantes: noção de ataque, defesa, território, fuga, simulação, sobreviver, morrer.

As lutas não estimulariam comportamentos agressivos?

Estas formas de brincar são muito importantes durante a infância e uma estratégia decisiva em interiorizar e humanizar os impulsos agressivos que fazem parte da natureza humana. As nossas pesquisas têm vindo a demonstrar que os jogos de luta e a utilização de brinquedos bélicos têm um estereótipo predominantemente masculino e não se verificaram nas crianças estudadas alterações ou aumento de comportamentos antissociais ou agressivos entre pares. Devemos ainda lembrar que os brinquedos bélicos têm uma existência muito significativa em todos os estudos realizados em pesquisas etnográficas sobre jogos tradicionais na infância, em diversos continentes e culturas. Existem muitos benefícios no desenvolvimento da criança na utilização destes objetos lúdicos, apesar da polêmica científica e pedagógica ainda existente sobre o papel nocivo dos brinquedos bélicos.

 

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