Apresentação do livro ” A Escola e os Cravos” da autoria de Luísa Lobão Moniz, 4 maio na Casa da Cultura dos Olivais

Maio 2, 2019 às 2:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

 

A explicação é cultural?

Março 3, 2019 às 10:30 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Etiquetas: ,

Texto de Luísa Lobão Moniz

A explicação é cultural?

Acontecimentos nas nossas vidas fazem-nos mergulhar num mundo incompleto, só com um habitante, Eu.

O viver para dentro faz do ar que respiramos uma tristeza que nos tolhe e nos isola.

Há um passarinho que pia, uma criança feliz que corre atrás dele, tão brincalhão que surpreende a nossa criança!

A criança pinta-nos em telas de lágrimas feitas uma realidade bela e inocente.

Onde está o passarinho dos milhões de crianças, feitas heroínas, que teimosamente vão sobrevivendo perante a indiferença dos que as deviam proteger?

Onde está o passarinho da criança que é assassinada, tão pequena que ainda não sabe falar, mas tão grande que não pode sobreviver, a sua morte é o castigo para uma mãe que quer a sua custódia, para um pai poderoso que acaba com vidas que lhe são próximas, tão próximas que acaba por se suicidar.

Quem sabe explicar à jovem mãe todas estas mortes?

Não há explicação para ela, para ele nem para a criança!

A explicação é cultural?

A cultura vigente confere ao homem poderes que a mulher, ou seja, todos os que são tidos como mais fracos, não têm.

Já lá vai o tempo em que a mulher tinha que ser submissa porque era o homem quem sustentava a “casa”, hoje a submissão continua com novas nuances, mas a mulher continua a ser um dos  elos mais fracos na estrutura familiar, laboral, social.

Não há quem não se emocione com  imagens de meninos e de meninas que fogem da guerra e da fome, que choram porque o pai bateu na mãe, porque são maltratados, porque não são de ninguém, porque pensam que são a causa de todos os problemas familiares e até escolares…”pois, tinha que ser eu…”

Muitas crianças fogem de casa porque já não aguentam mais.

Muitas crianças são agressivas, violentas, autodestrutivas; agressivas, autodestrutivas são as famílias, as guerras, as fomes, as pessoas…as instituições, de repente é quase o mundo todo que está dentro e fora de cada um.

A Humanidade foi dando passos importantes para ir sobrevivendo, e assim parte dessa Humanidade criou um certo modo de vida em que só uma minoria tem acesso ao conhecimento, ao poder, ao bem-estar.

O bem-estar começa por dominar o Outro, o que é diferente e não tem poder.

Que poder tem a Criança?

Que poder têm os elos mais fracos das famílias e das sociedades: o diferente, a mulher, a criança, os idosos, os deficientes…?

A sensibilidade de algumas pessoas fez com que fossem criadas associações que se viram do avesso para existirem no dia-a-dia, não há verbas, não há recursos humanos, não há agilidade inter-institucional, não há formação para quem trabalha na inclusão dos sem poder.

Fazem-se estudos dos quais se extrai a realidade em que vivemos e da qual os meios de comunicação social mostram até à exaustão.

A sociedade indigna-se e não compreende os factos.

A sensibilidade de outras tantas pessoas faz com que se interessem pela não vida da Criança e dos mais fracos.

Espantam-se com os resultados, como?! Porquê?

Ainda não se reconheceu que os adultos querem ser donos, querem subjugar quem julgam ser menor em idade, em origem cultural, em função e papel na sociedade.

É interessante saber que o Tribunal de Menores (menores em quê?) passou a chamar-se Tribunal de Família.

Andamos escandalizados porque há crianças escravas a fazer bolas de futebol, a trabalhar sem condições, há crianças com fome, frio, dores, doentes que caminham fugindo da violência. Pelo caminho perdem-se da família, são milhares…e algumas morrem.

Há crianças que vão com nódoas negras ensanguentadas pela pancada que levam em casa, pela violação que sofreram caladas “então era amigo do meu pai…”

Na primeira década do século XXI rapazes e raparigas generosamente adoptam animais maltratados e devolvem-lhes a saúde e o bem-estar, dão-lhes nomes de pessoas, falam com eles como se fossem crianças traquinas…passam a vida a ir ao veterinário (ainda bem). Adoram mostrar aos amigos as gracinhas dos seus cães.

É por falta de dinheiro que não querem ter filhos?

Serão imaturos emocionalmente? Porque têm medo da responsabilidade, porque recusam o contacto emocional com o outro ?

O que fizemos, o que transmitimos depois da Revolução de Abril?

É preocupante? Por onde andam as emoções, os sentimentos interpessoais? Estamos a desejar uma sociedade onde o trabalho comanda a vida, onde não há tempo senão para as novas tecnologias, para o outro virtual?

Já esquecemos quantos e quantas morreram, foram torturados para que a liberdade fosse um valor que estivesse sempre presente e nunca posto em causa?

Já nos esquecemos do que é a dignidade humana?

Ninguém tem poder para decidir a morte ou o desgosto “eterno” de ter visto um homem a assassinar uma mulher indefesa, medrosa, submissa…quantas vezes tendo como testemunha os seus próprios filhos.

O mundo dos duelos já acabou e, mesmo assim, era de igual para igual, usavam as mesmas armas, eram do mesmo género, melhor dito, eram sempre homens, as mulheres não tinham honra para defender.

Nascemos e morremos todos da mesma maneira, mas o intervalo chamado vida deixa crescer, à medida que convém à sociedade, os pequenos ou grandes poderes nas mãos de quem se sente, apoiado em leis, com mais poder por ser macho, rico, influenciável socialmente, numa sociedade injusta que divide para reinar criando, ela própria, as circunstâncias para que o lado mais “selvagem” do ser humano se revele.

A crença cultural de que os pais podem e devem bater nos filhos para os educar, a dependência do álcool, o não conseguir gerir as frustrações, o saber que socialmente a violência contra as mulheres não tem sanção pedagógica criam as circunstâncias para que haja violência dentro das famílias. As vítimas desta violência, os que não têm voz nem poder são quase sempre a mulher, a criança, o idoso, quando, por acaso, é outro homem a vítima é porque os machos lutam pela posse da mulher.

 

O Ser Criança é universal – Artigo de Luísa Lobão Moniz do IAC

Outubro 26, 2015 às 3:24 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Artigo de Luísa Lobão Moniz, docente a exercer funções no IAC / SOS-Criança.

O Ser Criança é universal

O IAC, SOS Criança tem desenvolvido um trabalho de sensibilização e de divulgação do número telefónico das crianças maltratadas, ou seja, de qualquer criança que se encontre em risco, 116 111 através do projecto “Bom dia, SOS Criança”.

O projecto tem como base os Direitos da Criança e tem como suporte físico o livro “Menino como eu”, cartões SOS Criança e autocolantes com o nº 116 111.

As conclusões do relatório de avaliação deste projecto, durante o ano lectivo 2014/2015, assemelham-se às considerações feitas pelo Coordenador do SOS Criança, Dr Manuel Coutinho, relativamente à prioridade dada pelas crianças ao motivo que as faz telefonar_ a solidão, o estarem sós, mesmo com alguém por perto.

As nossas crianças e jovens têm uma grande necessidade de comunicar para contar o que lhes vai na alma.

As relações sociais, parentais e familiares têm-se vindo a modificar ao longo dos tempos. Se fizermos uma viagem, ascendente relativamente às nossas famílias, verificamos que os usos e costumes, dentro de uma mesma família, variam conforme as diferentes gerações, do bisavô à bisneta.

As relações adulto/criança não se modificaram porque sim, mas porque as relações sociais também se modificaram e estas também não se modificaram porque sim.

O que tem contribuído para estas modificações tem sido o modelo sócio económico em que vivemos.

Não se imagina as crianças da Idade Média com os problemas das nossas crianças. Haveria solidão?

As crianças estavam sempre acompanhadas por pessoas mais velhas que lhes ensinavam um ofício e que lhes davam atenção, à noite, quando os mais velhos se reuniam para contar histórias à volta de um fogo (fogueira).

As crianças das famílias pobres eram pobres, não tinham roupa adequada, vestiam como os adultos, tanto fazia que chovesse ou fizesse frio que a roupa era a mesma.

Nos anos 80, em Lisboa, encontrei situações de pobreza do século XX idênticas a esta.

O modelo socio económico determina a qualidade de vida das pessoas e em cada época os povos vivem em conformidade com as forças dominantes, ou tentam combater essas forças, criando outras forças, mas de libertação.

As crianças choravam quando se viam afastadas dos pais, para irem servir os senhores do poder.

As mães entristeciam.

Os pais de tristes faziam-se contentes porque a separação, quantas vezes para sempre, ia fazer deles Alguém com um Nome.

As crianças sentir-se-iam sozinhas , com “problemas” que atravessam todas as épocas e todas as crianças?

Todas têm medo de serem abandonadas, que não gostem delas.

Têm medo de desiludir os adultos de quem gosta.

Não havia a linha SOS Criança (só uma sociedade com tanta desigualdade social e tanta exclusão sentiria a necessidade de auxiliar, por via institucional, crianças que se sentem sozinhas, em risco).

Também na Idade Média as crianças fugiam de casa ou iam com desconhecidos. Não havia meios de comunicação, mas havia sofrimento.

Quando se punham em pé, em cima de um caixote, para poderem descascar batatas, quando tinham que obedecer, sem pestanejar, às ordens de uma “mulherona frustrada”, mas com o poder que lhe era conferido por ser a chefe de cozinha, as crianças choravam ou faziam uma traquinice (vêem como ela merece o castigo?).

A vida da Criança tem sido feita de grande sofrimento.

Eram violadas como as do século XXI, mas não havia leis de protecção.

Eram abandonadas, porque a família já não as podiam sustentar.

Acreditava-se que alguém com mais “posses” as encontrassem e tomassem conta delas, sabe-se lá para que futuro.

O Ser Criança é Universal.

As mudanças sociais dão-se todos os dias, a obediência às regras dos mercados não se discutem….mas as Crianças, essas, crescem com sabor amargo na boca, com os olhos rasos de lágrimas, com o corpo dorido, com a alma cheia de medo e sem ter com quem falar.

Neste momento, estão a morrer crianças maltratadas, crianças soldado, crianças refugiadas, crianças com fome;

neste momento, estão pais a sofrer porque não têm nada para dar aos filhos;

neste momento as sociedades, os países estão a ser governados em prol dos lucros económicos e não em lucros para os afectos.

O que seriam os senhores do poder se não houvesse pobreza, se não houvesse dívidas, se o bem-estar das crianças e das famílias fossem quem mais ordenasse?

Haveria crianças com medos, mas haveria tempo para Elas.

Ação de Formação “Nós e a Multiculturalidade” com Luísa Moniz destinada a Educadores de Infância e Professores (Básico, Secundário e Ensino Especial)

Março 27, 2015 às 2:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

sergio

Encontram-se abertas as inscrições para a Ação de Formação “NÓS E A MULTICULTURALIDADE” destinada a EDUCADORES DE INFÂNCIA, PROFESSORES DOS ENSINOS BÁSICO E SECUNDÁRIO E PROFESSORES DE EDUCAÇÃO ESPECIAL

Formadora: LUÍSA MONIZ

 Data Horas

9.04.2015  18h às 21,30

14.04.2015 18h às 21,30

23.04.2015 18h às 21,30

28.04.2015 18h às 21,30

5.05.2015   18h às 21,30

11.05.2015  18h às 21,30

18.05.2015 18h às 22h00

Local de realização: Escola Secundária D. Dinis

N.º de Créditos 25h (1 Crédito)

Custo de frequência 10€ PARA DESPESAS ADMINISTRATIVAS. Pagamento por transferência bancária: NIB 078101120112001266575 -Designação da conta – Escola secundária D. Dinis. Na designação do pagamento deve indicar “NÓS MULTI” Pagamento de Inscrição

Envio de comprovativo de pagamento para o email cfantoniosergio@esddinis.pt, indicando no assunto “NÓS MULTI” – Comprovativo de Inscrição

Inscrições em https://docs.google.com/forms/d/10qWG140-iBVZU2G_0dN_OrLgaJz1vew91fO-c_cV5Ws/viewform

A inscrição só será validada, após recibo de comprovativo de pagamento.

O pagamento deve ser realizado até 10 dias úteis antes do início da da formação. Qualquer desistência 10 dias úteis antes do início da acção implicará o pagamento integral do valor de inscrição.

Em caso de número insuficiente de inscritos, o CF Escolas António Sérgio reserva-se o direito de cancelar  a formação. 

Nota: A calendarização pode vir a sofrer alterações de acordo com as necessidades dos formandos e da formadora.

 Com os melhores cumprimentos

 Joaquim Melro

 (Diretor do Centro de Formação de Escolas António Sérgio)

 http://www.cfantoniosergio.edu.pt/

 https://www.facebook.com/centroformacao.antoniosergio.7

 

 

Nova apresentação do livro “Menino como eu” 28 de março na Arte no Livro em Cascais

Março 27, 2015 às 11:51 am | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

unnamed

 

Ação de sensibilização no Agrupamento de Escolas Quinta de Marrocos com Luísa Lobão Moniz do IAC

Novembro 20, 2014 às 3:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

encontro

Apresentação do livro “A Escola e os Cravos” de Luisa Lobão Moniz com ilustrações de Rita Moniz

Março 24, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

164624_10152246169253150_592135047_n

Luísa Lobão Moniz é docente a exercer funções no IAC / SOS-Criança e é autora do livro Menino como eu.

Sessão de Leitura – “Menino como Eu” de Luísa Lobão Moniz

Dezembro 13, 2013 às 10:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

luisa

A professora Luísa Moniz, destacada no IAC, SOS Criança, é a autora do livro Menino como eu. O livro foi ilustrado por Rita Moniz, designer e editado por Carlos Veiga Ferreira na Editora Teodolito. O livro é um gesto de solidariedade com todas as crianças sofredoras, pois através da história os meninos ficam a conhecer um serviço, que é um direito da Criança – o Direito à informação e a ter voz na construção da sua vida.Os adultos ficam também a conhecer o SOS Criança e o IAC e ficam com uma responsabilidade acrescida, o sinalizar as crianças maltratadas ou com problemas.

LeYa Na Barata

Domingo, 15 de Dezembro de 2013

11:00 até 12:00

Av. de Roma 11 – A, 1049-047 Lisboa

 

Palavra de Cidadã de Luísa Lobão Moniz

Março 22, 2013 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Artigo de opinião de Luísa Lobão Moniz, Mestre em Educação Intercultural – SOS-Criança /Instituto de Apoio à Criança, na Visão Solidária de 21 de Março de 2013.

Na primeira pessoa

Para a professora, os direitos das crianças defendem-se no dia a dia

Teresa Campos

moniz

” – Bom dia, é para o Bairro do relógio, se faz favor.

– Desculpe, mas o que vai fazer para lá? Eu depois das 5 horas não faço serviço para lá. Tenha cuidado.

-Sou professora e fui lá colocada.

E assim foi continuando a minha conversa com o motorista de táxi sobre o marginal Bairro do Relógio, também conhecido pelo “Camboja”.

A escola tinha quatrocentos e tal alunos, todos problemáticos. A turma mais indisciplinada com mais dificuldades de aprendizagem foi-me atribuída.

Quando entrei na sala e vi aqueles meninos de várias origens culturais e étnicas a olharem para mim como quem diz “mais uma…” senti que ia ser um grande desafio profissional. Hoje sei que foi também um grande desafio pessoal porque sou uma pessoa diferente, aprendi muito com estas crianças e com as famílias.

Vi ao vivo e a cores aquilo que só conhecia dos livros e dos filmes… foi doloroso e desafiante.

O Bairro era de casas pré fabricadas onde as mulheres vendiam droga, através dos filhos, os pais eram traficantes… e a escola era obrigatória.

Crianças que iam para a escola com roupa de Inverno quando era Verão e com roupas de Verão quando era Inverno…alguns rapazes seguravam as calças, grandes demais para os seus corpos franzinos, com uma corda fininha, não tinham cuecas. Às vezes até iam com o pijama e uma camisola. As raparigas iam, por vezes, com camisolas de adulto…, com sapatos apertados porque não tinham outros, cortavam a ponta do sapato para, ao menos, terem os dedos mais libertos, já que a auto-estima estava muito apertada.

Era-me impossível ficar indiferente…

Lembro-me de um menino de oito anos que ia drogado para a escola, drogava-se com gasolina e com cola…. Um dia esteve 20 minutos em cima de uma mesa a gritar…

Nessa altura não havia apoios sociais que tratassem destas questões.

Uma das instituições, a que fui bater à porta, respondeu-me, ” pois é, tem razão…enquanto não forem apanhados a roubar ou a agredir pessoas na rua ninguém faz nada e, depois, são menores…”. Todas as portas se fechavam porque não tinham meios para acompanhar estes casos.

Numa tentativa imparável de encontrar quem pudesse ajudar esta criança e a sua família telefonei para a Linha Verde, das Taipas, e graças a ela o menino tornou-se homem, com saúde, e a sua família foi tratada de hábitos de alcoolismo.

Foi um processo doloroso para todos, mas com a vontade inabalável desta criança e a de uma tia analfabeta conseguimos ir até ao fim.

Este exemplo fez-me acreditar ainda, com mais força, de que é possível desviar o rumo para o abismo para um caminho sem pedregulhos.

Não se falava em Direitos da Criança, nem em Direitos Cívicos num bairro que tinha criado os seus próprios Direitos: ser solidário entre eles durante as rusgas da Polícia, as crianças levarem a droga ao consumidor, as mulheres pesarem-na em casa. Era a lei de olho por olho, dente por dente.

Estes meninos andavam numa escola que os acolhia, mas não sabia como lidar com esta realidade, não havia assistentes sociais, não havia psicólogos, não havia formação para gerir estes problemas senão a sensibilidade de cada um.

Era uma Escola com meninos e meninas magoados e maltratados que não confiavam em ninguém. Tinham medo de serem novamente rejeitados. Gostar da professora para quê? Para ela chamar a mãe e dizer que ele não aprende e que se porta mal. Isso não era novidade, mas era o suficiente para levarem grandes tareias…

Os meninos e as meninas deste Bairro tinham agarrado à pele a violência e a necessidade de afecto, tinham fome, mas repartiam o lanche da escola com todos, tinham um sentimento de justiça muito forte e faziam-na com as suas próprias mãos. Diziam palavrões e insultavam alguns professores, mas quando gostavam de algum eram os seus melhores amigos e até os protegiam se houvesse algum problema.

Eram os donos do bairro, andavam pelas ruas sem nome (eram a rua I, a rua L…), tinham cães de orelhas murchas, rabo entre as pernas e olhar triste como se tivessem desistido da sua vida de cão, passavam o dia deitados à espera que alguém lhes desse comida ou afecto tal como os seus pequenos donos.

Estes meninos e meninas respiravam violência e cresciam a saber que, ou eram os líderes

ou tinham que se submeter às leis por aqueles ditadas, estes meninos e meninas com mãos habituadas a fecharem-se  para um soco bem dado, tratavam com carinho os seus cães.

Um dia, na sala de aula, o “Pio”, alcunha dada pelos colegas, levantou-se num ápice, correu para a janela e gritou uma série de palavrões “ó cabrão não, não atravesses agora!” para que o seu pequeno cão, malhado de preto e branco o ” Bolinhas”, não fosse atropelado.

” Oh professora, o Bolinhas não sabe atravessar a rua…”

Este menino era filho de mãe alcoólica cuja aparência era de desleixo, mas para quem o menino corria quando saía da escola. O pai era engraxador no Rossio e batia por tudo e por nada. O “Pio” tinha uma expressão de quem não sabia muito bem o que lhe ia acontecer fosse quando fosse, mesmo na sala de aula…

Esteve desaparecido durante três dias…

Para estes meninos não havia instituições que os protegessem apenas os “colégios” dos quais fugiam.

Quantas vezes me vinha à cabeça o filme “Feios, porcos e maus”!

“Os Direitos da Criança” eram levarem pancada, conviverem com a violência doméstica, irem ver os pais ou as mães à cadeia, era dizerem que o tio estava de precária, que outro tio estava no EPL.

Estes meninos e meninas tinham 8 anos, agora terão 27 anos, alguns deles continuaram a viver uma vida de desconforto, de mal-estar social, de falta de reconhecimento pelos que os marginalizam, de falta de auto-estima, de falta de emprego. Estes meninos agora adultos continuam a sofrer a crise que conheceram ainda na barriga das mães, estas meninas já são mães e já recorreram à Polícia por violência doméstica. Outros estão empregados, não se esqueceram da infância difícil que tiveram, e lutam dia-a-dia para viverem uma vida melhor, e conseguem-no.

É por causa destes e de outros meninos e meninas que continuo a acreditar que não há determinismos históricos, há o conhecimento de que a vida pode ter muitas facetas e eu tenho que lutar pela faceta que em que mais acredito.

A mim, cabe-me o dever de combater a ignorância em nome da dignidade humana daqueles que têm sido excluídos e maltratados.”

 

 

Editora Teodolito oferece receita da venda do livro “Menino como Eu” ao IAC

Janeiro 29, 2013 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , ,

A professora Luísa Moniz, destacada no IAC, SOS Criança, é a autora do livro Menino como eu.

O livro foi ilustrado por Rita Moniz, designer e editado por Carlos Veiga Ferreira na Editora Teodolito.

O livro é um gesto de solidariedade com todas as crianças sofredoras, pois através da história os meninos ficam a conhecer um serviço, que é um direito da Criança – o Direito à informação e a ter voz na construção da sua vida.

Os adultos ficam também a conhecer o SOS Criança e o IAC e ficam com uma responsabilidade acrescida, o sinalizar as crianças maltratadas ou com problemas.

As escolas beneficiam também deste Menino como eu pois salas como a do Marinho há quase por toda a parte.

Foi feita uma sugestão de guião de leitura que tem sido apresentada aos professores de algumas escolas, nomeadamente da Escola EB2,3 de Marvila, na Biblioteca Manuel Alegre.

A receita da venda (mil e setecentos euros) do Menino como eu foi entregue, como o primeiro donativo, em dezembro de 2012.

A autora, a ilustradora e o editor agradecem a todos quantos contribuíram para este donativo.

Luísa Lobão Moniz, Rita Moniz, Carlos Veiga Ferreira não escondem a sua satisfação por terem contribuído para uma causa tão nobre como a defesa dos Direitos da Criança e da implementação da Convenção sobre os Direitos da Criança.

Que o livro continue a ser divulgado e adquirido por mais pessoas é o desejo de todos nós para que um novo donativo possa acontecer.

moniz

Porquê o donativo?

Luísa Maria Lobão da Veiga Moniz, professora do ensino básico, destacada no Instituto de Apoio à Criança, mais precisamente no SOS Criança teve sempre um carinho especial pelo Instituto.
Contactou com o SOS Criança, em 1989, por causa de uma menina mal tratada que hoje constituiu uma família feliz e estruturada.

Desde que surgiu o IAC que desejou colaborar com esta Instituição, pois sempre deu aulas em escolas consideradas problemáticas.

Colaborou em várias iniciativas sendo que aquela que mais a marcou foi ”As Crianças sonham a Europa”.

Quis os acasos da vida que em setembro de 2010 tivesse sido destacada para o IAC.

Nas primeiras reuniões de equipa do SOS Criança, em que participou, sentia-se o desejo da equipa divulgar o número da linha mais perto das crianças.

Ofereceu-se para fazer uma história que pudesse ser lida e refletida pelas escolas e que divulgasse o SOS Criança.

A história foi do agrado da equipa e o Coordenador Dr. Manuel Coutinho deu-lhe toda a liberdade para avançar.

Pensou em fotocopiá-la e fazer um pequeno livrinho.

Contactou com o CEDI que lhe aconselhou um ilustrador, mas a tentativa saiu lograda.

Fez, então, um desafio à sua sobrinha,  Rita Moniz, que estava a acabar o curso de design, para o ilustrar, sabendo ela que não iria receber nada por esse trabalho, a não ser a satisfação de estar a contribuir para uma boa causa.

A ilustração foi avançando e foi do agrado do editor, Carlos Veiga Ferreira, da Teodolito que aceitou, de imediato, lançar-se também neste gesto de solidariedade e publicar o livro graciosamente.

Carlos Veiga Ferreira, numa reunião com o Dr. Manuel Coutinho, no SOS Criança, combinou e acertou detalhes sobre a edição do livro.

Foi, sem hesitação e com muito entusiasmo, que os três, editor, meu marido, ilustradora, minha sobrinha e a autora, eu, abdicaram de qualquer benefício material.

Do que não abdicaram foi da alegria de poderem ser solidários com as crianças que estão em sofrimento e que não sabem que não estão sozinhas no mundo, têm o SOS Criança para as ajudar.

Esta foi a motivação para a edição do livro “Menino como eu” editado pela Teodolito, ilustrado por Rita Moniz e escrito por mim, Luísa Lobão Moniz.

moniz2

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.