Quando o racismo dos outros fica entalado na garganta

Março 30, 2015 às 11:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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texto do Público de 23 de março de 2015.

Cláudia Bancaleiro

Vídeo do Centro para os Direitos Humanos da Letónia quer alertar para abusos que cidadãos de outras raças sofrem no país.

O Centro para os Direitos Humanos da Letónia decidiu criar um vídeo a alertar para o racismo que existe num país, onde “milhares de pessoas são alvo de abusos todos os dias por a sua cor de pele ser diferente”, como sublinha a organização. Durante cerca de cinco minutos meio, o vídeo mostra um homem negro a pedir que lhe traduzam uma mensagem que foi publicada no seu Facebook. A maioria das pessoas recusaram-se a lê-lo em voz alta.

O vídeo é uma experiência social. Um grupo de lituanos vai a um casting, separadamente, e a cada um deles é pedido para aguardar num sofá, onde já se encontra um jovem negro que alegadamente também vai ao casting. De sublinhar que não há nenhum casting. É apenas um pretexto para realizar a experiência.

A cada uma das pessoas que se vai sentando no sofá, incluindo uma criança, o jovem estende o seu tablet e pede para lhe traduzirem para inglês uma mensagem publicada no seu Facebook, em lituano. Diz não conseguir perceber o que está escrito, que não conhece a pessoa que escreveu o post e que está na Lituânia há apenas duas semanas.

Nos minutos que se seguem, e quase sem variações, surgem as reacções de cada uma das pessoas a quem é pedido o favor. O constrangimento e desconforto por algo que não escreveram são esmagadores. Alguns ficam emocionados com a violência das palavras, que incluem ameaças físicas. Praticamente todos se recusam a traduzir o texto, dizendo ao homem que não conseguem repetir o que leram.

Um dos lituanos pede mesmo desculpa por alguém do seu país ter escrito uma mensagem com aquele teor. “Não vou lhe vou traduzir isto. É muito humilhante”, diz uma das mulheres. Após alguma insistência do homem, alguns acabam por ler a mensagem. Saem algumas palavras como “macaco”, “escravo” e “volta para África”.

A directora do Centro para os Direitos Humanos da Letónia, Birute Sabatauskaite, explica ao site DELFI que o objectivo do vídeo é alertar para os abusos que muitas pessoas vivem no país devido à sua raça, etnia, religião ou orientação sexual. Segundo a responsável, apesar de haver pessoas que não contribuem para discriminação estas nada fazem para combater o problema. “O objectivo do vídeo é encorajar-nos a todos a não sermos indiferentes ao abuso e ao ódio que muitas pessoas sofrem diariamente, enquanto falhamos em vê-lo e denunciá-lo”, disse Birute Sabatauskaite.

A directora explica que apesar da vida na Lituânia estar a melhorar, ainda existem casos de pessoas no país que “vivem experiências homofóbicas, racistas, de abuso, todos os dias”. “A nossa meta não é apenas dizer às pessoas que reajam mas também dar-lhes alguns conselhos”, concluiu a responsável.

Esta segunda-feira, o vídeo já tinha sido visualizado mais de 850 mil vezes.

 


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