Infâncias de vitrine

Julho 22, 2014 às 10:35 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Reportagem do Público de 20 de julho de 2014.

vitrine2

 

Catarina Gomes (Texto), Daniel Rocha (Fotografia) e Vera Moutinho (Vídeo)

Durante um quarto de século, existiu no centro de Portugal uma “ridente aldeia” para onde era levado à força quem tinha lepra. Nesse sítio, onde as flores tapavam o arame farpado, os filhos dos doentes eram retirados às mães no exacto momento em que nasciam, para não lhes poderem tocar.

Quem atentasse naquelas crianças, nos dias em que eram levadas na carrinha cinzenta de capot arredondado, veria meninas de saia de pregas cinzenta, camisa branca de gola com casaco de malha, soquetes e sapatinhos de fivela, laçarote na cabeça, os meninos de calção, camisa e casaco de malha, meia e sapatinho de atacadores, muito aprumados. Sem nada saber sobre a história daquelas crianças perceberia, só de olhar, que aquela devia ser uma ocasião especial. E era.

Antes de chegarem já estavam cheios os bancos de madeira de um lado e de outro, ocupados por quem os queria ver, como se estivessem à espera de um espectáculo, de uma entrada em cena. Abria-se a porta e os meninos bem vestidos entravam naquele rectângulo central com paredes de vidros transparentes dos dois lados, como se fosse uma montra, numa espécie de aquário onde os colocavam com periodicidades variáveis, alguns uma vez por semana, outros uma vez por mês, duas vezes por ano, uma vez por ano, uma vez na vida. Nunca.

Lá dentro, as vigilantes que traziam os meninos indicavam aos pais, sentados naquela espécie de plateia familiar do outro lado do vidro, quem eram os seus filhos; aos meninos apontavam-lhes quem eram os seus pais. Alguns pais manifestavam vontade de lhes fazer festas, de os beijar. As funcionárias faziam-lhes a vontade: aos mais pequeninos pegavam ao colo e aproximavam-lhes os rostos do vidro, à altura dos pais, para que eles os beijassem, a alguns espalmavam-lhes as mãozinhas no vidro para que os pais pusessem as suas no mesmo sítio mas do outro lado da superfície. 

Aos mais velhinhos os pais já faziam perguntas, que lhes chegavam abafadas através dos pequenos orifícios perfurados no vidro, até parecia que lhes estavam a falar de longe e não dali: então estás bem? Tens comido bem? Tens-te portado bem? Tratam-te bem? As perguntas clássicas. E eles, bem comportados, respondiam que “sim” a todas as perguntas. E os pais ficavam consolados. No final do visionamento, alguns pais mostravam aos filhos as prendas que tinham para levarem com eles e, com aqueles mimos, se lembrarem deles longe da vista. Duas camisolas tricotadas à mão, uma amarela, outra rosa, amêndoas pela Páscoa, rebuçados, uma caneta preta de tinta permanente. E estava terminada a visita às pessoas que lhes diziam que eram os seus pais.

Os meninos eram então retirados do rectângulo envidraçado, a porta fechava-se e voltavam a entrar na carrinha Peugeot cinzenta, a fazer o percurso inverso e a regressarem ao sítio que ficava ali muito perto, a dois quilómetros, mas que parecia tão longe. Era onde viviam todos juntos, no meio da floresta.

ler o resto da reportagem e visualizar fotografias e vídeos aqui


Entries e comentários feeds.