Docente cria objectos que põem crianças cegas a brincar com as outras

Janeiro 4, 2012 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 27 de Dezembro de 2011.

Por Nicolau Ferreira

A ideia de inclusão está por trás dos brinquedos que Leonor Pereira criou. Esta docente inventou cubos com cores contrastantes, formas geométricas e texturas, e um tapete com quadrados também com cores, formas e texturas. Joga-se o cubo como se joga um dado e associa-se à forma do tapete. O resultado permite que todas as crianças, invisuais ou não, apreciem os objectos.

“A partir do primeiro minuto começaram a brincar e a dialogar uns com os outros. O interesse deles foi muito engraçado”, disse a professora ao PÚBLICO, recordando o momento em que testou pela primeira vez os objectos numa turma mista com crianças que vêem, outras com dificuldade de visão e outras cegas.

A produção dos objectos fez parte da tese de mestrado que realizou na Universidade do Minho, com a supervisão da investigadora Joana Cunha.

Leonor Pereira dá aulas de Educação Visual a alunos dos 5.º e 6.º ano na Escola Aires Barbosa, em Aveiro, e a ideia de criar brinquedos que pudessem ser utilizados por crianças invisuais ou com dificuldade de visão apareceu quando teve um aluno na aula que via com uma percentagem mínima.

“Fui observando as dificuldades que [ele] tinha em perceber os objectos e representá-los. Se aquela criança tivesse sido estimulada com brinquedos provavelmente teria mais facilidade em expressar-se”, sustenta.

Daí surgiu a ideia de fazer brinquedos que incluíssem todos, um design que também aproximasse as crianças invisuais às crianças que vêem normalmente e que promovesse o convívio. Hoje, este tipo de objectos são quase inexistentes no mercado português. A docente encontrou a turma em que testou os brinquedos através do Centro de Apoio à Intervenção Precoce na Deficiência Visual, em Coimbra, que ajudou na investigação.

Quais as características que Leonor apostou? Cores, porque a maioria dos objectos para crianças cegas eram a preto e branco e isso era “monótono”, e um design sem perigos. “As crianças [cegas] são receosas ao perceber novas texturas. Por isso fizemos objectos fofos, com interiores em esponja, que não sejam aguçados. Mesmo que sejam atirados não vão magoar”, disse, sublinhando a importância de as crianças serem receptivas aos brinquedos.

Os objectos foram pensados para a faixa etária dos três aos seis anos. Além do cubo e do tapete, foi também criado um dominó com menos peças, cujos números sentem-se com o toque. “Quanto mais novos somos, mais facilidade temos em desenvolver a motricidade fina e a percepção táctil. Quanto mais cedo [as crianças] aperceberem-se das diferenças mínimas das texturas, mais depressa vão perceber as diferenças ao lerem Braille”, exemplificou.

Agora, Leonor gostaria de produzir uma linha de brinquedos para pôr no mercado português. “Estou à espera de propostas de empresas que queiram participar neste projectos junto com a Universidade do Minho”, disse.

No horizonte, poderá estar ainda a produção de brinquedos ou jogos para crianças já na idade escolar, sempre com a ideia da inclusão. Segundo a docente, essa é uma realidade que ainda está longe das escolas, onde os espaços e as crianças estão separados. É necessário “arranjar maneira de que todos consigam partilhar as mesmas coisas, quanto mais cedo essa partilha acontecer, mais facilmente convivemos”.

Linha de brinquedos ajuda crianças cegas

Dezembro 30, 2011 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Correio do Minho de 27 de Dezembro de 2011.

São brinquedos coloridos, com texturas e materiais diferentes que foram concebidos “expressamente a pensar em crianças com dificuldades visuais”, explica Leonor Pereira, mestre em Engenharia Têxtil pela Universidade do Minho, que desenvolveu a dissertação ‘Design Inclusivo: Tocar para Ver – Brinquedos para Crianças Cegas e de Baixa Visão’.

Esta linha de brinquedos, completamente inovadora, visa ajudar as crianças a interagir de forma saudável com os restantes colegas. “É incluí-las a todos os níveis, proporcionar-lhes maneiras de brincar, conviver e interagir entre as duas realidades”.

Não basta criar peças de design por si só, esclarece Leonor Pereira, que é professora do ensino básico há vários anos. O objectivo principal é conceber objectos com qualidade estética e táctil, que visa proporcionar uma maior integração das crianças com problemas visuais no meio envolvente. “São brinquedos que elas podem explorar com as mãos, descobrindo as diferentes texturas, reconhecendo as formas, os pormenores, as semelhanças e as dissemelhanças, bem como estimulando a coordenação e a integração dos sentidos”.

Estas peças foram testadas por crianças de um jardim-de-infância do distrito de Aveiro, com idades compreendidas entre os três e os seis anos.
O feedback foi “muito positivo” e os resultados decorrentes desta nova forma de inclusão social foram vantajosos: “a interacção entre as crianças foi extremamente engraçada. Foi muito enriquecedor verificar que elas perceberam o sentido da brincadeira e partilharam a mesma experiência do que as restantes”, certifica a professora. Investigadora garante que “não vivemos propriamente numa sociedade inclusiva”

As peças dos brinquedos foram construídas com base nas texturas, nos relevos e nas cores, recorrendo, por isso, a diferentes malhas e bordados, perceptíveis através do tacto. A investigadora da Universidade do Minho, Leonor Pereira, aproveita para referir a escassez de brinquedos adaptados para este público, obrigando os educadores a construir do zero objectos didácticos, sem terem muitas vezes formação para tal tarefa. A comercialização é uma opção a considerar: “ficamos com uma forte vontade de concretizar este projecto e torná-lo mais real, à disposição de todos”.

A pouca formação dos professores relativamente à educação especial é uma das críticas apontadas pela antiga aluna da Escola de Engenharia da Universidade do Minho. “É muito difícil conseguirmos perceber as necessidades das crianças cegas, autistas ou surdas. Temos sempre o apoio dos professores do ensino especial, que trabalham especificamente com eles, mas nem sempre é suficiente”, explica.

A formação inicial, a aposta em equipamentos e a adaptação dos espaços nas escolas são algumas das dicas deixadas. Esta não é, segundo Leonor Pereira, uma sociedade completamente inclusiva, porque ainda há muitas barreiras: “as crianças com deficiências não usufruem das mesmas oportunidades do que as restantes”, conclui.

 


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