Prefere ler em papel ou no ecrã? A ciência responde: há uma “superioridade do papel”

Março 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Adriano Miranda

Notícia do Público de 26 de fevereiro de 2019.

Ler em papel é mais eficaz do que ler em formato digital, sobretudo quando se tem o tempo contado. Estudo em que foram analisadas as respostas de mais de 170 mil pessoas alerta que é preciso pensar este problema no contexto de sala de aulas. Nos livros de ficção, a diferença é quase nula.

Claudia Carvalho Silva

Há quem prefira ler em papel, mesmo não sabendo bem porquê. Agora, um estudo da Universidade de Valência, em Espanha, pode ajudar a justificar: os investigadores chegaram à conclusão de que existe uma “superioridade do papel” – quando se lê em papel, a compreensão do que é lido é maior, ao contrário do que acontece quando o mesmo conteúdo informativo é lido em ecrãs. E, para surpresa dos cientistas, isto é sobretudo flagrante em crianças, o que exige uma reflexão política sobre os métodos de ensino que devem ser utilizados nas salas de aulas.

O resultado nestas camadas jovens surpreendeu os cientistas: “Não é por as crianças e jovens estarem mais habituadas aos ecrãs que a compreensão é maior — é precisamente o contrário”, alerta o investigador Ladislao Salmerón, um dos autores do estudo. Ao PÚBLICO, ​Salmerón explica que uma das hipóteses para justificar que a compreensão digital seja menor em crianças é a “associação destes dispositivos a interacções curtas e recompensas imediatas”. Isto, por sua vez, torna difícil que os jovens se consigam concentrar na leitura, por não se “desligarem” daquilo que esperam quando estão diante de um ecrã. “Precisamos de estar calmos, concentrados. É altamente incompatível com o uso actual que fazemos da tecnologia”, diz.

Para chegar a estes resultados, foram analisadas as respostas de mais de 171 mil participantes, “uma amostra generalizada e com uma grande variedade de idades, das crianças aos idosos”. Cada participante leu individualmente, em silêncio, na língua que usa no dia-a-dia. Na análise foram só usados estudos que tinham por base textos simples e lineares, tanto no papel como na parte digital (evitando links ou animações que privilegiariam este formato).

Como a amostra não incluiu estudos em Portugal – “pode haver, mas restringimos a nossa pesquisa a estudos publicados em inglês” –, o investigador ressalva que os resultados podem variar no caso português. Para Espanha, foi somente analisado um estudo feito com alunos em que se analisava a compreensão textual em artigos lidos em papel ou em tablets – os investigadores aperceberam-se de que havia um “ligeiro efeito negativo associado ao uso de tablets”.

O grande número de participantes foi conseguido porque este estudo, intitulado “Não se livrem dos livros impressos”, é uma meta-análise (ou seja, combina os dados e conclusões de outros 54 estudos, feitos entre 2000 e 2017). “É mais poderoso do que um só estudo”, esclarece o investigador espanhol, reconhecendo que só não é vantajoso por estarem restringidos por aquilo que os outros investigadores fizeram. Além de Salmerón, o estudo foi levado a cabo por três outros cientistas da Universidade de Valência e uma investigadora do Technion — Instituto de Tecnologia de Israel.

Como se lê no estudo, as pessoas adoptam um “estilo de processamento mais superficial” quando estão a ler num formato digital, podendo também estar envolvida uma falha na qualidade e na capacidade de atenção. Seguindo esta hipótese, “quanto mais as pessoas utilizarem os meios digitais para estas interacções superficiais, mais difícil será usá-los para tarefas desafiantes”, daí que os cientistas recomendem cautela com a utilização de dispositivos electrónicos para leitura na sala de aulas.

Outro dos factores a ter em conta para uma compreensão eficaz é o tempo disponível para a leitura – o que é um “condicionamento clássico”, em salas de aulas. Quanto menos tempo for dado, mais eficaz é a leitura em papel. O investigador espanhol esclarece que isto está relacionado com “a forma como o nosso cérebro gere recursos no processo de leitura”: “Podemos pensar nisto como se fosse uma corrida. Se tivermos de correr 100 metros sem que o tempo conte, podemos ir ao ritmo que quisermos e consegue-se fazê-lo; se só tivermos um minuto, é diferente.” E acautela: “É por isso verdadeiramente importante que os estudantes estejam a gerir recursos de forma eficaz. É por isso que nestas situações se torna crítico que o dispositivo não nos perturbe, ou que nos faça pensar que estamos a ler e a interpretar quando na verdade não estamos.”

O investigador admite que também ele prefere ler em papel, mas por questões profissionais acaba por ler muitos textos no ecrã. “De outra forma, não conseguiria conciliar todos os pequenos relatórios e textos que tenho para ler”, diz.

Quando se trata de textos narrativos (romances, poesia), pouco importa se se lê em papel ou em suporte digital, porque a linguagem é menos técnica e mais próxima daquela que é utilizada no dia-a-dia, com mais diálogos, explica Ladisla​ ​Salmerón. “Trata-se mais de quão desafiante é o texto, e as narrativas tendem a ser menos. Os textos informativos são mais desafiantes para a nossa estrutura mental, precisamos de analisar vocabulário mais complexo, mais técnico”, adianta. No estudo, os cientistas alertam que há terrenos incertos e que ainda é precisa mais investigação para aprimorar técnicas.

A equipa também considerou importante investigar a diferença que existe entre a leitura digital feita em computadores e aquela que é feita em telemóveis, em e-readers (leitores de texto, como o Kindle) ou em tablets. “Na maior parte dos estudos, o digital refere-se a ecrãs de computador. Os tablets e ebooks são muito mais recentes, talvez daqui a cinco anos tenhamos algo diferente”, diz. Os investigadores reiteram que há poucos estudos e meta-análises sobre a influência da natureza do meio nos resultados de leitura.

E soluções?

Voltando à forma como a leitura em formatos digitais afecta a interpretação, sobretudo nos mais novos, Ladisla​ ​Salmerón diz que não é preciso vilipendiar a tecnologia, mas encontrar soluções. “Não quero acreditar nem defender que é a tecnologia em si a causadora disto – mas é o uso que fazemos dela. As redes sociais, as conversas superficiais, as recompensas imediatas… não está a fazer nada de bom”, lamenta.

O estudo, publicado em Novembro de 2018 e feito no âmbito de um projecto europeu, mostra “de forma inequívoca que há uma inferioridade dos ecrãs, com resultados de menor eficácia de compreensão de leitura nos textos digitais quando comparados com os textos em papel”. Essa desvantagem é ainda maior em textos em que é preciso fazer scroll.

A leitura digital acaba por ser uma parte inevitável nas escolas. “O facto de não podermos impedir a tecnologia de chegar às escolas não significa que não possamos ser mais selectivos”, observa Ladislao Salmerón. “Isto é real. Não é um problema científico, é um verdadeiro problema que as crianças estão a enfrentar. Precisamos de mais intervenção do lado pedagógico, é preciso perguntar ‘o que podemos fazer para melhorar a interpretação textual através da tecnologia?’

 

 

II Jornadas da Rede de Bibliotecas de Lamego – “A Biblioteca na Era Digit@al” 17 e 18 de fevereiro

Fevereiro 8, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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12 de fevereiro – limite para inscrição nas Jornadas.

mais informações:

http://www.rblamego.org/ii-jornadas-rbl

 

Os “desafios” de educar alunos conectados

Novembro 17, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site Educare de 7 de outubro de 2015.

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Usar o computador na escola, de forma limitada, é melhor que não usar. Mas só beneficia o desempenho dos alunos quando o software e a ligação à Internet aumentam o tempo de estudo e a prática, sugere a OCDE.

Andreia Lobo

É comum ouvir dizer que, hoje em dia, as crianças nascem ensinadas a mexer com os tablets e os smartphones dos pais. Por detrás desta observação, os estudos mostram a facilidade com que a tecnologia tem entrado no dia a dia.

O dinheiro gasto pelas famílias e investido nas escolas em computadores, ligações à Internet e recursos educativos tem aumentado muito, nos últimos 25 anos, nota a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Aumentam também as preocupações com a forma como lidamos com os ambientes digitais.

“A sociedade espera que as escolas eduquem as crianças para se tornarem consumidores críticos, ajudando-os a fazerem escolhas informadas e a evitarem comportamentos de risco.” Esta, entre outras recomendações, constam do relatório “Students, Computers and Leraning: Making The Connection” que divulga os resultados do PISA Digital 2012.

No entanto, os resultados do estudo mostram não haver melhorias significativas nos desempenhos dos alunos ao nível da leitura, matemática ou ciência – as áreas avaliadas pelo PISA – nos países que mais investiram nas TIC para a educação.

Uma das explicações pode ser a falta de um ensino que aproveite o máximo da tecnologia. “Adicionar tecnologias do século XXI a práticas de ensino do século XX acaba por diluir a eficácia do ensino.” Por isso, a OCDE recomenda um repensar sobre as pedagogias usadas para o ensinar os jovens. Mas alerta: “A tecnologia pode amplificar um bom ensino, mas uma boa tecnologia não pode substituir um ensino pobre.”

Mais equidade na educação

Entre 2009 e 2012, diminuíram as diferenças no acesso aos computadores entre alunos favorecidos e desfavorecidos. Em todos, menos em três países (Indonésia, Perú e Vietnam) pelo menos 90% dos alunos desfavorecidos têm acesso a computadores. Enquanto na Dinamarca, Finlândia, Hong Kong, Países Baixos, Eslovénia e Suécia mais de 99% dos alunos desfavorecidos têm acesso a um computador em casa, em 12 outros são menos de metade.

Ainda assim, os resultados nos testes feitos em computador mostram que as diferenças socioeconómicas continuam a fazer-se sentir bastante ao nível da habilidade para usar as TIC na aprendizagem, explicada pela diferença observada nas competências académicas mais tradicionais.

A “descoberta mais desapontante”, escrevem os autores, é esta: a tecnologia é de pouca ajuda para diminuir o fosso de competências que separa os alunos favorecidos dos desfavorecidos. Para reduzir as desigualdades no benefício trazido pelo digital, os governos têm primeiro de melhorar a equidade na educação.

Assegurar níveis base de proficiência na leitura e na matemática “parece ajudar mais na criação da igualdade de oportunidades no mundo digital do que pode ser alcançado ao expandir ou financiar o acesso a serviços ou equipamentos tecnológicos”.

Ler online ou em papel requer as mesmas competências base acrescidas de novas. Como as de ser capaz de navegar através de páginas ou ecrãs de textos, filtrar as fontes mais credíveis entre a larga quantidade de informação. Coreia e Singapura estão entre os países com alunos mais competentes a navegar na Internet e com excelentes infraestruturas de acesso. No entanto, não acedem mais à Internet na escola que os colegas da OCDE. Apenas 42% dos alunos coreanos admitiram usar computadores na escola (72% na média da OCDE), em Xangai apenas 38%. E ambos alcançaram o topo da classificação nos testes de leitura e matemática baseados no computador do PISA 2012. Os investigadores acreditam, por isso, que “muitas das competências essenciais à navegação online podem ser ensinadas através de pedagogias convencionas e instrumentos analógicos”.

Pelo contrário, verificou-se que em países onde é mais comum os alunos usarem a Internet na escola para projetos escolares o desempenho na leitura baixou entre 2000 e 2012.

Do papel e lápis para o rato

Em 32 países e economias membros da OCDE, além dos exames tradicionais do PISA 2012, em formato papel, os alunos realizaram testes de leitura e matemática apresentados em computador. Singapura, Coreia, Hong Kong, Japão, Canadá e Xangai obtiveram as melhores classificações nos testes de leitura digital. A Matemática foi o foco do PISA 2012 e, pela primeira vez, foi avaliada em computador.

Singapura, Xangai, seguidos da Coreia, Hong Kong, Macau, Japão e Taipé foram também os melhores na resolução de problemas matemáticos apresentados no computador. Na Coreia e em Singapura, os estudantes obtiveram resultados em média superiores em 20 pontos na leitura digital, quando comparados com os colegas dos restantes países com competências semelhantes na leitura em papel. Nas avaliações dos conhecimentos matemáticos, Austrália, Áustria, Canadá, Japão, Eslovénia e Estados Unidos, Macau, Emirados Árabes Unidos tiveram melhores desempenhos no digital que no papel. O oposto aconteceu na Bélgica, Chile, França, Irlanda, Polónia e Espanha.

Uma escala de 1 a 5 é usada para classificar os conhecimentos dos alunos. Estudantes que obtenham o nível 5 são considerados leitores online competentes. Conseguem avaliar informação de diferentes fontes e a sua credibilidade. Bem como a utilidade do que estão a ler usando critérios estabelecidos por si próprios.

Nos 23 países da OCDE que participaram no PISA digital da leitura em 2012, 8% dos estudantes obtiveram desempenhos deste nível. Em Singapura, mais de um em quatro (27%) obtiveram classificações de nível 5 ou superior. O mesmo em um em cada cinco alunos em Hong Kong (21%) e Coreia (18%).

Uma classificação abaixo do nível 2 significa o domínio de tarefas digitais mais fáceis. Cerca de 18% dos alunos obtiveram maus desempenhos em leitura digital. Na Colômbia e Emirados Árabes Unidos, mais de metade dos alunos de 15 anos teve o mesmo baixo desempenho. As maiores percentagens de estudantes com as mais baixas classificações estão em países como Brasil (37%), Hungria (32%), Israel (31%), Chile (29%) e Espanha (26%).

Pelo contrário, menos de 5% dos alunos desempenharam abaixo do nível 2 no Japão, Coreia e Singapura. De acordo com a OCDE, estes países estão próximos de conseguirem que todos os alunos alcancem níveis básicos de conhecimento e as competências necessárias para aceder e usar a informação que conseguem encontrar na Internet.

Os dados mostram ainda que países com classificações semelhantes nos testes tradicionais de matemática não mostram as mesmas competências no formato digital. Quando não é necessário usar o computador, os alunos franceses e os canadianos obtêm pontuações semelhantes. Completam cerca de 42% das tarefas corretamente. No entanto, no Canadá os alunos têm significativamente mais sucesso do que na França (32% vs.27%) em resolver problemas cuja solução passa unicamente pela utilização de ferramentas no computador.

Habilidades necessárias à navegação

Certas competências são particularmente importantes na leitura em linha e no processamento de texto. Os leitores também devem ser capazes de navegar através de diferentes textos. O relatório do PISA dá algumas pistas sobre o que os alunos precisam de aprender para navegar corretamente na Internet.

Conseguir fazer uma boa avaliação da credibilidade das fontes com base em indícios como o nome explícito atribuído a um link. Predizer o conteúdo provável de uma série de páginas. Ter a capacidade de construir uma representação mental da estrutura do site para navegar entre as diferentes páginas que o compõem. São também alguns dos requisitos necessários para resolver problemas no formato digital. E, em último caso, as pontuações dos testes dependem do tipo de conhecimentos básicos de informática e da familiaridade com os formatos.

 

Curso de Verão sobre Leitura Digital: Leitura no ecrã ou Ler com os dedos

Junho 10, 2015 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Um curso livre sobre leitura digital que pretende explorar algumas ferramentas digitais, promover a utilização segura dos recursos digitais e refletir sobre as condições favoráveis ao desenvolvimento e consolidação de hábitos de leitura no público infantil e juvenil. O curso apresenta diversos módulos, independentes e complementares, ministrados por especialistas como Ana Pinto Martinho (da Escrever Escrever), Cátia Marques, Isabel Mendinhos, Filomena Lima, Teresa Pombo, Nuno Ratão e Jorge Borges.
Programa disponível em:
http://oeiras-a-ler.blogspot.com

Público-alvo: Professores, educadores, bibliotecários, contadores, animadores sócio-culturais e promotores de leitura.
Informações e Inscrições: 210977480 |
marta.silva@cm-oeiras.pt (5€ módulo 3 horas, 25€ curso completo)

 

O impacto dos ebooks na motivação e nas competências de leitura de crianças e jovens

Novembro 18, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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post do blog http://lerebooks.wordpress.com de 31 de outubro de 2014.

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O National Literacy Trust do Reino Unido e a RM Books estão a investigar o impacto dos ebooks na motivação para leitura e nas competências leitoras das crianças e jovens de 100 escolas do Reino Unido. Os resultados deste estudo serão conhecidos apenas daqui a um ano, em outubro de 2015. Entretanto, foi disponibilizado um estudo exploratório de revisão de literatura – The Impact of ebooks on the Reading Motivation and Reading Skills of Children and Young People, – que faz uma síntese de diferentes estudos publicados nos últimos anos sobre o impacto das tecnologias na leitura. Algumas das principais conclusões do National Literacy Trust:

  • Quase todas (97%) as crianças disseram que tinham acesso a dispositivos electrónicos, como computadores, tablets, telefones e e-readers, e quase todas ( 97%) tinham acesso à internet em casa.
  • As crianças inquiridas são propensas a dizer que leem mais no ecrã do que no papel fora da escola: 68,7 % afirmam que leem num computador, telemóvel ou tablet, em comparação com 61,8% de leitura de formatos impresso (por exemplo, um livro, revista ou jornal).
  • Mais de metade (52,4%) prefere ler em dispositivos electrónicos, em comparação com apenas menos de um terço (32%) que disseram preferir ler em papel.
  • A proporção de crianças que já tinha lido um ebook subiu de 25% para 46% entre 2010 e 2012 .
  • A proporção de pessoas que sentiram que ebooks teria um efeito positivo sobre a sua motivação para a leitura aumentou de 33% para 49% em relação ao mesmo período.

 

 

 

I Congresso de Leitura Digital

Julho 24, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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