Laura Sanches: “Os bebés sofrem de stress como nós”

Agosto 14, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do DN Life de 17 de junho de 2019.

Todos os pais amam os filhos, mas e o resto? Como se educa uma criança segura? De onde vêm as birras? Qual a importância do colo? A psicóloga clínica Laura Sanches explica isto e muito mais em Amar Não Basta (embora ajude bastante). Um livro para pais que desejam saber o que sentem os seus bebés.

Entrevista de Ana Pago | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Diz que os bebés sofrem de stress como nós. A que se deve esta reação inesperada neles – e forte ao ponto de muitas vezes se tornar um stress tóxico?
O stress surge da ativação do nosso sistema de alarme e os bebés já nascem com o seu a funcionar perfeitamente – aliás, no último trimestre da gravidez já o têm desenvolvido e a operar em sintonia com as emoções da mãe. A partir daí, se são expostos a situações que os fazem sentir-se inseguros e os levam a ativar esse sistema de alarme antes de os pais conseguirem reconhecer e responder aos sinais que eles dão, os bebés ficam sob stress.

Mas não pode ser um stress positivo, se o bebé não se sentir ameaçado e inseguro o tempo todo?
Sim, há pequenos momentos que podem ser úteis para reforçar a confiança nos pais e até aperfeiçoar a resposta aos estímulos. Está provado que aquilo que vivemos nos primeiros anos, e como vivemos, pode ter um impacto permanente na vida adulta por definir a forma como o nosso organismo fica programado para lidar com todos os desafios que irá encontrar. O stress tóxico só surge se o sistema de alarme dos bebés for demasiado solicitado, o que no caso deles é desencadeado – tal como em todos nós, de resto – pelo sentimento de que a ligação com as pessoas importantes da sua vida está a ser ameaçada. As crianças nascem com o instinto de se ligarem a pelo menos uma figura de referência.

A mãe?
Por norma é a mãe. Foi ela quem esteve grávida durante nove meses, com o bebé a vivenciar e a ser afetado por todas as suas emoções dentro do útero. É ela quem passa mais tempo com o bebé após o parto. Então ele nasce com o instinto ativo de procurar o conforto da mãe – e quanto mais pequenino maior é a necessidade de contacto físico – para se sentir seguro com o seu cheiro, o batimento cardíaco, o calor do corpo dela quando lhe pega. Esta programação existe naturalmente. Claro que se por algum motivo a mãe desaparecer, o pai pode tomar esse lugar e preencher o vazio na perfeição.

“No extremo da privação de uma figura de referência temos a morte.”

Pai ou mãe, que efeitos tem a privação dessa figura de referência?
Efeitos devastadores como os documentados na Roménia, em que as políticas de fomento à natalidade impostas pelo líder comunista Nicolae Ceauşescu, a par de uma enorme pobreza no país, resultaram em dezenas de milhar de crianças abandonadas e institucionalizadas durante o período ditatorial. Em 1990, após a queda do regime, o que se viu foi que mesmo nas raras instituições onde não faltava comida, higiene e cuidados de saúde, a taxa de mortalidade era muito superior à expectável porque se negava às crianças a possibilidade de criarem um vínculo forte e seguro com um adulto (os cuidadores estavam sempre a rodar para evitar laços que dificultassem a adoção). Isso significa que, no extremo da privação, temos a morte.

E nos casos menos extremos?
Verificou-se que as crianças tinham atrasos cognitivos, emocionais e que todo o seu desenvolvimento era afetado a ponto de até a estatura ser inferior à que seria normal para a idade. O organismo estava submetido a uma carga tão tóxica de stress que era como se já nem lhes sobrasse energia para crescerem. E não era apenas o corpo que não crescia: o cérebro apresentava várias regiões com um tamanho inferior ao que seria esperado. Essa figura de referência é fundamental para o bem-estar e desenvolvimento infantil, é o que nos ensina a amar. Por oposição, a primeira grande causa de stress para bebés e crianças é a impossibilidade de estabelecerem esse vínculo, ou dificuldades persistentes que surjam sempre que tentam fazê-lo.

Ainda assim, muitos pais receiam que abraçar e pegar nos seus bebés nos primeiros meses os encha de manhas. O colo nunca é demais?
Nunca. A maternidade não é lá muito racional, sobretudo nos primeiros meses, e se a mãe não tiver consciência de que a necessidade de sentir o bebé junto de si é tão grande como a do bebé em estar junto dela, o mais certo é ignorar os instintos e deixar de lhe pegar sempre que tem vontade ou o filho chora. Sim, é um facto: bebés que nunca têm colo ou são deixados a chorar para dormirem no quarto sozinhos deixam de pedir a mãe. O que não vemos acontecer dentro deles, na sua forma de se relacionarem com o mundo, é que mesmo não chorando continuam em tensão, inseguros, apenas silenciaram as emoções. E este sentimento é tão forte que pode comprometer o próprio instinto do apego, além da capacidade de virem a confiar em si mesmos e nos outros.

Também a amamentação é uma facilitadora desse vínculo. Todas as mães deviam amamentar os seus bebés, incluindo as que não desejam fazê-lo?
Tem de se ver sempre caso a caso, não é algo que se possa forçar. Se por um lado o bebé merece que pelo menos tentem, dados os inúmeros benefícios ao nível do crescimento e saúde, por outro o facto de a mulher estar em sofrimento a dar mama, com uma postura rígida, não será bom para nenhum dos dois. Ter um filho a alimentar-se de nós é um ato de grande vulnerabilidade para a mãe, que desperta nelas emoções intensas. É natural sentir medos antigos ou feridas mal curadas virem ao de cima. No caso de não querer fazê-lo, o importante é reconhecer que essa ferida existe e trabalhar para tentar resolvê-la.

“Nas culturas que vivem de forma tradicional é comum amamentar-se até aos 5, 6 anos e está tudo certo.”

E dar de mamar até quando? Alguns médicos defendem que após os 12 meses induz comportamentos regressivos…
Até a mãe e a criança quererem e estarem ambas confortáveis com isso. Ainda hoje, nas culturas que vivem de forma tradicional, é comum amamentar-se até aos 5, 6 anos e está tudo certo, não tem que acabar à força por imposições externas ou teorias mal fundamentadas. A própria Organização Mundial de Saúde recomenda que se amamente no mínimo durante dois anos mas só nos países subdesenvolvidos, e eu pergunto que sentido é que isso faz? Não é por não termos escassez de alimentos e haver água potável para as fórmulas que o leite materno deve ser desprezado. Pode não ser essencial do ponto de vista alimentar, mas faz bem à mesma. Além de que do ponto de vista psicológico estaremos a negar a uma criança algo de que ela ainda precisa.

Mesmo assumindo que possa ser uma ligeira regressão ela vir procurar a mãe e sentir-se um bocadinho bebé?
Mesmo assim. Seria uma regressão ao serviço do crescimento, que se faz por janelas temporais e nunca em linha reta. Às vezes é necessário andar um pouco para trás na altura certa para não termos de o fazer mais tarde, regra geral de maneira muito menos adaptativa. Se a criança procura a mãe para mamar porque isso lhe traz algum conforto, e se essa segurança lhe vai permitir continuar a crescer depois com maior confiança, então não é mau que aconteça. Ver indecência nisso deve-se unicamente aos preconceitos que nos condicionam, não a evidências científicas. Já para não falar que todas as crianças – e repito: todas – largam a mama de forma natural quando se sentem preparadas

Outra questão fraturante para a maioria dos pais é a de levarem os filhos para a cama deles, por julgarem que estão a criar miúdos mimados e adultos dependentes. Porquê tantos fantasmas nas nossas camas?
De novo por culpa de preconceitos, inseguranças pessoais e teorias psicanalíticas antiquadas que defendiam uma excessiva sexualização da infância. Não tem nada de mal. Nenhuma razão para haver culpa ou vergonha, como vejo tantas vezes. Até aos 12 anos, pelo menos, é natural que uma criança ainda precise dessa presença e não é negando-a à força que os pais vão conseguir que se torne autónoma, pelo contrário. A mim parece-me mais prejudicial recusar o contacto agora, com medo de que no futuro não estejam lá para lho darem, do que simplesmente conceder-lhe o que ela procura no presente, sem receios, até um dia deixar de ser necessário.

E a noite é uma altura de muitos medos…
Exacerba muito as nossas angústias, sim. As crianças também sentem isso. Se quando mais precisam de nós lhes dizemos sistematicamente que não podem estar connosco, elas nunca vão sentir que os pais as compreendem, acolhem as suas inseguranças e as aceitam como são, o que gera ainda mais inseguranças. Do que ouço dos meus pacientes chega a haver noites em que ninguém dorme lá em casa, com os filhos a irem para a cama dos pais e os pais a recambiarem-nos para a cama deles, quando a questão se resolvia facilmente se os deixassem ficar. Até porque na grande maioria dos casos esses pais também gostam de dormir com os filhos, não são só os miúdos. Acabavam por descansar melhor todos juntos, sem qualquer prejuízo para o desenvolvimento infantil.

“Os pais fazem muitas birras, na verdade. Por vezes são mais crianças do que os miúdos que têm em casa.”

Seja como for, o que se pode fazer com bebés que acordam muito?
Não podemos ensiná-los a dormir, apenas criar condições que facilitem o sono. Isso passa por estabelecer rotinas tranquilas ao final do dia, respeitar os primeiros sinais de sono da criança (mesmo que os pais cheguem tarde a casa e lhes apeteça brincar), evitar sons demasiado altos, luzes fortes e o brilho de ecrãs, que afetam a produção de melatonina. O problema não está em os bebés acordarem várias vezes à noite, mas no modo exigente como organizamos a vida e esperamos que eles se adaptem. Em última análise, crianças agitadas tendem a dormir pior porque ainda não controlam as emoções fortes que sentem e ficam ansiosas. Cabe aos pais dar-lhes tempo para aprenderem essas estratégias de regulação e perceberem do que realmente precisam para descansar. O choro e as birras que eventualmente façam são só uma resposta ao stress que não sabem verbalizar.

Os pais também têm direito a fazer birras?
Os pais fazem muitas birras, na verdade. Por vezes são mais crianças do que os miúdos que têm em casa – já tive vários a dizerem-me isso em momentos de reflexão nas consultas –, embora saiba que nem sempre é pacífico lidar com os sentimentos fortíssimos que os nossos filhos despertam em nós. Ser adulto não significa ser maduro. Muitas vezes o nosso próprio desenvolvimento não foi o melhor: o cérebro não apurou tudo o que devia para nos ajudar a controlar os impulsos, ou talvez tenhamos crescido com a imagem errada de que éramos um pouco defeituosos, o que agora nos leva a reagir de formas desadequadas. Então é bom ter esta noção de que ainda temos muito a aprender para educarmos os nossos filhos.

A AUTORA

Laura Sanches licenciou-se em psicologia clínica em 2002, pela Universidade Lusófona, e em 2004 concluiu o mestrado em Consciousness and Transpersonal Psychology da Universidade John Moores, em Liverpool. Paralelamente à psicologia clínica, entre 2001 e 2014 deu aulas de yoga, que integra nas consultas juntamente com o mindfulness, técnicas de relaxamento e gestão de stress. Desde 2012 que se centra nas áreas da parentalidade positiva e aconselhamento parental (com foco nas implicações da teoria do apego no desenvolvimento infantil). Trabalha no Espaço Vida, em Lisboa, onde dá consultas, workshops e cursos. É autora do blogue Parentalidade com Apego e coautora do PsiYoga. Escreveu ainda os livros Mindfulness Yoga – Atenção Plena para Lidar com os Desafios (ed. Mahatma), Mindfulness para Pais (ed. Manuscrito) e o muito recente Amar Não Basta (ed. Matéria-Prima).


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