Do bullying

Setembro 2, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Neil Webb Getty Images

Artigo de opinião de José Morgado publicado no Público de 11 de agosto de 2019. Imagem do Público

Apesar de se sublinhar o decréscimo do volume de episódios de bullying reportados, a natureza das relações entre os adolescentes continua com contornos que suscitam atenção de professores, técnicos e pais.

O relatório produzido pela OCDE, cuja edição relativa a 2018 foi recentemente divulgada, TALIS 2018 Results (Volume I) Teachers and School Leaders as Lifelong Learners, continha referências à percepção dos docentes sobre a ocorrência de episódios de bullying nas escolas portuguesas.

Tal como em outros estudos, constata-se uma diminuição do volume de ocorrências referidas pelas escolas. Em 2013, o número de escolas que registou pelo menos um incidente por semana era de 15,3% e em 2018 foi de 7,3%.

Como explicação provável para este decréscimo é sugerido o impacto positivo de campanhas e iniciativas desenvolvidas pelas escolas e por outras entidades com o apoio de técnicos diferenciados, caso dos profissionais de psicologia. No entanto, e sem desvalorizar a evolução, importa ter em consideração que, de acordo com o relatório A Saúde dos Adolescentes Portugueses, 2018 (integrado no estudo Health Behaviour in School-aged Children, da OMS, coordenado em Portugal por Margarida Gaspar de Matos), os episódios de violência física entre alunos têm aumentado: em 2018, 4,6% dos alunos inquiridos afirmou ter-se envolvido em algum episódio de violência física durante o último ano, enquanto em 2014 se registava 3,9%. Assim, apesar de se sublinhar o decréscimo do volume de episódios de bullying reportados, a natureza das relações entre os adolescentes continua com contornos que suscita atenção de professores, técnicos e pais.

Parece pertinente recordar que uma dimensão importante do fenómeno do bullying nas suas diferentes faces é o medo e a ameaça de represálias às vítimas e a quem assiste, o que, naturalmente, pode inibir a queixa. Assim sendo, torna-se ainda mais necessária uma atenção pró-activa e preventiva de adultos, pais, professores ou funcionários. Por outro lado, é também imprescindível ter presente o risco acrescido e sustentado pela evidência que se associa a alunos que fazem parte de grupos minoritários, com necessidades especiais ou com orientação sexual diversa, por exemplo.

É, pois, previsível que o volume de situações de bullying seja superior ao número reportado, tal como, aliás, se passa com outras áreas, a violência doméstica, por exemplo. Alguns estudos mostram que no emergente fenómeno do cyberbullying o número de episódios registado pode estar claramente subavaliado, com todas as implicações que daqui decorrerão, vítimas em grande sofrimento e agressores menos “expostos” sem que sejam objecto de algum tipo de intervenção mais directa.

O cyberbullying não tem espaço físico de ocorrência e, contrariamente ao bullying presencial, não tem “intervalos”, normalmente os fins-de-semana, pois ocorre predominantemente nos espaços escolares. Além disso, não sendo presencial o(s) agressor(es) não tem, ou não têm, uma percepção clara do nível de sofrimento infligido, que em algumas circunstâncias pode funcionar como “travão” e inibir o comportamento agressivo.

Assim, considerando a gravidade e frequência torna-se imprescindível que lhe dediquemos atenção ajustada: nem sobrevalorizando, nem tudo é bullying, o que promove insegurança e ansiedade; nem desvalorizando, o que pode negligenciar riscos e sofrimento.

O volume de episódios de bullying, como também a questão da indisciplina, mostra a necessidade de dispositivos de apoio e orientação fundamentais para que pais, professores e alunos possam obter informação e apoio.

No seu quotidiano, muitas crianças e adolescentes podem revelar sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos a atenção que se justifica, seja em casa ou na escola, espaço onde passam parte significativa do seu tempo. Com a prudência que evite juízos apressados, alguns sinais observados em casa, sobretudo quando não são habituais e se tornam frequentes. Alguns exemplos, livros, materiais ou bens estragados ou escondidos, ferimentos ou rasgões na roupa, “perda” frequente de objectos ou dinheiro, isolamento e exclusão do grupo de pares na escola, receio ou recusa em ir para a escola, desmotivação escolar, tristeza, instabilidade, reactividade, alterações súbitas do comportamento ou ansiedade ao final do fim-de-semana (1).

Também a utilização desregulada de smartphones e a exposição descuidada nas redes sociais são factores de risco a que as famílias devem estar atentas.

De novo com prudência na interpretação, também na escola sinais como livros, materiais ou bens estragados ou escondidos, ferimentos ou rasgões na roupa, isolamento ou exclusão por parte dos colegas, alvo de brincadeiras abusivas frequentes, proximidade não habitual a adultos, sem intervenção nas aulas, insegurança ou ansiedade, desleixo e negligência não habituais ou absentismo (1) podem ter significado.

Sinais desta natureza, apesar de insistirmos no cuidado da avaliação, não devem ser ignorados ou desvalorizados. O resultado pode representar sofrimento e mal-estar.

  1. Fernandes, L.; Seixas, S. (2012) Plano Bullying: Como Erradicar o Bullying da Escola. Plátano Editora. Lisboa

Professor Auxiliar do ISPA-Instituto Universitário

Estas crianças não param! Errado, estas crianças não se mexem

Julho 1, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Artigo de opinião de José Morgado publicado na Visão de 19 de junho de 2018.

Ao abrigo de um equívoco designado por Escola a Tempo Inteiro e apesar de boas práticas que existem, muitas crianças passam horas sem fim sentados ou, quase, paradas. Em casa, o cenário é do mesmo tipo só que em frente de um ecrã.

Recentemente foram divulgados pelo Instituto de Avaliação Educativa os resultados das provas de aferição realizadas em 2017. A imprensa deu particular relevo a alguns indicadores mostrados pelos alunos do 2º ano do 1º ciclo na área da Actividade Física.

Como exemplo destes indicadores podemos referir que 46% das crianças não conseguiu saltar à corda, 40% não conseguiu executar uma cambalhota para a frente ou que 31% não realizou adequadamente o jogo infantil ajustado à sua idade.

As reacções foram múltiplas procurando encontrar explicações e responsabilidades.

Algumas notas.

Mais do que um olhar sobre as especificidades das tarefas referidas o que me parece mais crítico e merecer atenção é o nível global de realização de actividades físicas por parte de muitas crianças.

Recordo que já em Fevereiro deste ano o Conselho Nacional das Associações de Professores e de Profissionais de Educação Física alertava para que boa parte dos alunos do 1º ciclo, por razões de natureza diversa e apesar de algumas boas práticas e iniciativas, não realizam regularmente actividades de Educação Física.

No entanto, quando em diferentes contextos se abordam questões relativas ao mundo da infância, uma das mais frequentes afirmações dirigidas ao comportamento das crianças e adolescentes é “Estas crianças não param” ou algo no mesmo sentido. Contudo, apesar da frequência com que ouvimos expressões deste teor, elas parecem desajustadas pois, de facto, as crianças não se mexem e também por isso provavelmente… “não param”.

Segundo o Relatório “Health at a Glance: Europe 2016” da OCDE, em Portugal, mais de uma em cada quatro crianças tem excesso de peso. Nas raparigas ultrapassa os 30% e nos rapazes temos 25%.

Acresce que no que respeita à actividade física e considerando a recomendação da OMS de uma hora diária de actividade física aos 11 anos só 16% das raparigas e 26% dos rapazes a cumprem e aos 15 anos temos 5% das raparigas e 18% dos rapazes.

É ainda de referir que estudos realizados em Portugal mostram que a obesidade infantil, um dos valores mais altos da UE, é já um problema de saúde pública associado, por exemplo, ao disparar de casos de diabetes tipo II em crianças. Parece, pois, evidente a importância que deve merecer a questão dos hábitos alimentares e o combate ao sedentarismo, sobretudo nos mais novos.

Ainda no que respeita à actividade física, um trabalho da Universidade de Coimbra divulgado em 2013 sublinhava de novo o impacto que o sedentarismo tem na saúde das crianças. Este estudo envolveu 17424 crianças entre os 3 e os 11 anos e mostrou uma relação significativa entre hábitos fortemente sedentários, ver televisão por tempo excessivo por exemplo, e problemas na saúde e bem-estar dos miúdos.

Um outro trabalho de 2012 da Faculdade de Motricidade Humana envolvendo cerca de 3000 alunos evidenciava o efeito positivo da actividade física no rendimento escolar para além dos evidentes benefícios para a saúde.

De facto, o quotidiano de crianças e adolescentes está excessivamente preenchido com actividades que solicitam pouca actividade física. Ao abrigo de um equívoco designado por Escola a Tempo Inteiro e apesar de boas práticas que existem, muitas crianças passam horas sem fim sentados ou, quase, paradas. Em casa, o cenário é do mesmo tipo só que em frente de um ecrã.

Parece estar adquirido que a generalidade dos estudos comprovam que o nível de actividade física de crianças e adolescentes está francamente abaixo do desejável. Por outro lado, este é o equívoco a que me referia, instalou-se a “ideia” de que as crianças e adolescentes não param, são muito activas, algumas até mesmo “hiperactivas” pelo que os desejos de muitos pais e professores é que estejam mais “calmas”, mais “sossegadas” e não tão “activas”, às vezes até são medicadas para que se aquietem.

Por isso e de uma vez por todas, que crianças e adolescentes não parem, que as não envolvam e incentivem a actividade sedentária tantas horas por dia e que ajudemos todos os pais e comunidades a construir alternativas que sejam atractivas para os tempos dos mais novos.

É uma questão de saúde, física e mental, para crianças e adolescentes e, também, para os adultos que lidam com eles.

No trabalho com pais refiro com frequência a importância que também têm as actividades ao ar livre que deveriam ser uma rotina e não uma excepção na educação formal e não formal dos mais novos.

Somos dos países da Europa em que adultos e crianças menos desenvolvem actividades no exterior contrariamente, por exemplo ao que se verifica nos países nórdicos apesar das diferenças de clima.

O que me preocupa seriamente é que o brincar da infância vai-se encurtando, algum dia os miúdos vão nascer crescidos para já não precisarem de brincar.

Ainda no caso mais particular mas também essencial do brincar no exterior, as questões da segurança e, sobretudo dos estilos de vida e a mudança verificada nos valores e nos equipamentos, brinquedos e actividades dos miúdos, têm levado a que brincar na rua começa a ser raro.

Embora consciente das variáveis risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua, talvez com a supervisão de velhos que estão sozinhos as comunidades e as famílias conseguissem alguns tempos e formas de ter as crianças por algum tempo fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã.

No imperdível “O MUNDO o mundo é a rua da tua infância”, Juan José Millás recorda-nos como a rua, a nossa rua foi o princípio do nosso mundo e nos marca. Quantas histórias e experiências muitos de nós carregam vindas do brincar e andar na rua e que contribuíram de formas diferentes para aquilo que somos e de que gostamos.

Como muitas vezes tenho escrito e afirmado, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a autonomia, a auto-regulação, a capacidade e a competência para “tomar conta de si”. A rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente), os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.

Talvez, devagarinho e com os riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por pouco tempo e não todos os dias. Eles iriam gostar e far-lhes-ia bem.

Saberiam dar cambalhotas, saltar à corda ou realizar jogos infantis de grupo.

(Texto escrito de acordo com a antiga ortografia)

Doutorado em Estudos da Criança. Professor no Departamento de Psicologia da Educação do ISPA – Instituto Universitário. Membro do Centro de Investigação em Educação do ISPA – Instituto Universitário. Colaborador e consultor regular de Programas de Formação de Professores e de Projectos de Investigação e Intervenção. Colaborador regular em Programas de Orientação Educativa para Pais. Autor de diversas publicações nas áreas da qualidade e educação inclusiva, diferenciação pedagógica, etc.

Blogue – http://atentainquietude.blogspot.com

 

 

Trabalho de casa ou trabalho em casa

Maio 27, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: ,

AFP/ Getty Images

Texto de opinião de José Morgado publicado na Visão de 8 de maio de 2018.

Creio que deve distinguir-se com clareza o Trabalho Para Casa e o Trabalho Em Casa. O TPC é trabalho da escola feito em casa, o trabalho em casa será o que as crianças podem fazer em casa que, não sendo tarefas de natureza escolar, pode ser um bom contributo para as aprendizagens dos miúdos

Desde há muito que o recurso ao trabalho escolar em casa prescrito pelos docentes (TPC) é objecto de estudo e reflexão.

Algumas notas a partir de algumas ideias já partilhadas no meu blogue.

Talvez fruto do clima de fortíssima crispação que nos últimos anos envolve a educação, os debates e as ideias também são quase sempre crispados, com opiniões definitivas e sem aparente margem de entendimento, o que inclui a discussão sobre os TPC, ou se é contra ou a favor.

Não tendo uma visão fundamentalista julgo que no contexto actual de funcionamento das escolas, tempos e estilos de vida de crianças e famílias, a discussão é pertinente como pertinentes me parecem algumas alterações sobretudo no que respeita à situação dos alunos mais novos. Se considerarmos a idade, os tempos escolares e a autonomia a reflexão sobre TPC no ensino secundário tem, evidentemente, contornos bem diferentes.

Parece interessante recordar um trabalho da OCDE, “Does homework perpetuate inequities in education?” produzido com base em dados recolhidos no âmbito do PISA nos anos de 2003 e 2012 os alunos portugueses de 15 anos, dados de 2012, gastam em média 4h semanais na realização de trabalhos de casa, menos uma hora que em 2003 e menos uma hora que a média dos 38 casos estudados pela OCDE.

Do meu ponto de vista, os dados mais relevantes deste relatório remetiam para o facto de que os alunos com famílias de meios sociais e económicos mais favorecidos gastarem mais 2 horas em trabalhos de casa que os seus colegas com famílias de estatuto mais baixo o que, sublinha a OCDE, poderá alimentar a falta de equidade.

Aliás, neste relatório da OCDE também se conclui que não há uma relação significativa entre o número médio de horas gastas nos TPC e os resultados escolares.

Citando o relatório, “But PISA also finds that the average number of hours that students spend on homework or other study set by teachers tends to be unrelated to the school system’s overall performance. This implies that other factors, such as the quality of instruction and how schools are organised, have a greater impact on a school system’s overall performance.”

Neste contexto, parece-me pertinente recuperar que o nível de escolaridade dos pais é um fortíssimo preditor do sucesso escolar dos filhos. Um recente trabalho da responsabilidade conjunta da Fundação Francisco Manuel dos Santos e do CNE (Conselho Nacional de Educação) mostrou que nove em cada dez alunos com insucesso escolar são de famílias de nível socioeconómico mais baixo.

Estes dados sustentam o entendimento de que os trabalhos de casa correm o sério risco de alimentar desigualdade de oportunidades e obriga-nos a reflectir sobre a sua utilização.

Parece-me também importante o facto de que no nosso sistema educativo os alunos do 1º, 2º e 3º ciclo podem passar 8 ou 10 horas diárias na escola considerando o tempo lectivo, as Actividades de Enriquecimento Curricular e a Componente de Apoio à família, (no limite algumas crianças poderão estar 55 horas semanais na escola, uma enormidade). Este tempo de permanência na escola é um dos mais longos dos países da OCDE.

Acresce que em muitas circunstâncias, muitos alunos têm ainda Trabalhos Para Casa que, com demasiada frequência, são a continuação ou a réplica de trabalhos escolares, ou seja, mais do mesmo.

Não tenho uma posição fechada, insisto, mas creio que deve distinguir-se com clareza o Trabalho Para Casa e o Trabalho Em Casa. O TPC é trabalho da escola feito em casa, o trabalho em casa será o que as crianças podem fazer em casa que, não sendo tarefas de natureza escolar, pode ser um bom contributo para as aprendizagens dos miúdos. O que acontece mais frequentemente é termos Trabalhos Para Casa e não Trabalho Em Casa.

Os TPC clássicos têm ainda o problema de colocar com frequência os pais em situações embaraçosas, querem ajudar os filhos mas não possuem habilitações para tal.

A este propósito, um episódio pessoal que muitas vezes partilho, numa reunião de pais em que participava e se discutia esta questão, dizia uma mãe, “O senhor, da maneira que fala se calhar é capaz de ajudar o seu filho, mas na minha casa chora a minha filha e choro eu. Ela porque quer ajuda e eu porque não sou capaz de lha dar”. Colocar os pais nesta posição parece-me no mínimo discutível.

Sim, será apenas uma situação, não se trata da floresta mas dá que pensar.

Torna-se, pois, necessário que professores e escolas se entendam sobre esta matéria, diferenciando trabalho de casa, igual ao da escola, de trabalho em casa, trabalho em que qualquer pai pode, deve, envolver-se e é útil ao trabalho que se realiza na escola.

Tudo isto considerado, o recurso ao TPC deveria ponderar se o aluno, cada aluno, tem capacidade e competência para o realizar autonomamente, por exemplo, o treino de competências adquiridas. Na verdade, não é muito provável que uma criança que tem dificuldade em realizar os seus trabalhos na sala de aula, onde poderá ter apoio de professores e colegas, seja capaz de os realizar sozinha em casa. Tal só acontecerá com a ajuda dos pais ou, eventualmente, de “explicadores” a que muitas famílias, sabemos quais, não conseguem aceder.

No entanto e do meu ponto de vista, sobretudo nas idades mais baixas, o bom trabalho na escola deveria dispensar o TPC ou recorrer a um tempo de trabalho muito curto. É uma questão de saúde e qualidade de vida.

É ainda de sublinhar e os estudos sugerem que é sobretudo a qualidade do trabalho em sala de aula, os recursos e dispositivos de apoio que mais do que o tempo global de trabalho se associam ao sucesso na aprendizagem.

Andaríamos melhor se reflectíssemos sem preconceitos e juízos fechados sobre questões desta natureza. Não é uma questão de ser a favor ou contra os TPC, é reflectir sobre o que são, como se utilizam, que efeitos têm na generalidade dos alunos, como se adaptam às circunstâncias e diferenças de contexto dos alunos como idade/ciclo de escolaridade, nível de escolarização da família, entre outras questões.

(Texto escrito de acordo com a antiga ortografia)

 

Doutorado em Estudos da Criança. Professor no Departamento de Psicologia da Educação do ISPA – Instituto Universitário. Membro do Centro de Investigação em Educação do ISPA – Instituto Universitário. Colaborador e consultor regular de Programas de Formação de Professores e de Projectos de Investigação e Intervenção. Colaborador regular em Programas de Orientação Educativa para Pais. Autor de diversas publicações nas áreas da qualidade e educação inclusiva, diferenciação pedagógica, etc.

Blogue – http://atentainquietude.blogspot.com

 

 

 

 

Os brinquedos e a segurança das crianças

Fevereiro 10, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Texto de José Morgado publicado a 29 de janeiro na http://visao.sapo.pt/

Sendo os brinquedos um produto claramente dirigido às crianças fica quase estranho como podem ser perigosos

Os acidentes com crianças não sendo uma matéria simpática para se abordar exigem uma atenção séria dada a frequência com que ocorrem e a gravidade potencial das consequências.

Deve dizer-se que continuamos a ser um dos países europeus em que acontece maior número de acidentes domésticos com crianças.

Em muitas circunstâncias verificar-se-á alguma negligência ou excesso de confiança na supervisão dos miúdos a que se junta a inexperiência e o à vontade próprios dos mais pequenos.

São excessivamente frequentes as quedas em escadas mas sobretudo preocupantes as quedas em varandas. Neste caso é inaceitável a quantidade de varandas que se continuam a ver com gradeamentos construídos na horizontal, uma escada convidativa para a escalada de crianças pequenas como acontece em qualquer aparelho de um parque infantil. Mesmo em edifícios recentes ou em construção ainda se observa esta opção o que não poderia acontecer. O povo afirma com ingenuidade que “ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo” mas a verdade é que são recorrentes os episódios de quedas com consequências trágicas.

Uma outra área de cuidado e fonte de inúmeros acidentes são as piscinas sobretudo as piscinas domésticas pois a rapidez e o silêncio em que decorre a tragédia mais exigem uma atenção permanente aos comportamentos das crianças.

O acondicionamento de matérias tóxicas em recipientes e locais resguardados é uma outra imposição bem como a protecção de tomadas de corrente ou o cuidado com equipamentos cujo simples funcionamento possa ter alguma perigosidade.

Uma referência ainda a uma outra fonte de preocupação que ainda não há muito tempo foi objecto de notícia, o perigo que advém de alguns brinquedos.

Sendo os brinquedos um produto claramente dirigido às crianças fica quase estranho como podem ser perigosos.

Recordo que segundo dados relativos à actuação da ASAE foram apreendidos nos últimos dois anos mais de 10 000 brinquedos perigosos. Foi proibida ainda a comercialização de mais 10 brinquedos sendo que a fiscalização é sempre reforçada na época de Natal, o tempo da compra de brinquedos.

Em cerca de 400 brinquedos avaliados mais de metade revelaram-se “maus” ou “medíocres” no que toca a critérios de segurança. Dados divulgados pela DECO apontam para que no espaço europeu os brinquedos estarão na origem de cerca de 52 mil acidentes por ano.

Os riscos e a necessidade de atenção às características dos brinquedos colocados ao dispor das crianças têm sido recorrentemente objecto de avisos de alerta.

A DECO refere mesmo que a existência do símbolo CE colocado nos brinquedos não é garantia da sua segurança pelo que mais se exige a atenção e escrutínio dos adultos. É também necessária uma particular atenção a brinquedos adquiridos através da net.

No entanto e face a este cenário, mais do que o trabalho da ASAE, os alertas da DECO ou da Associação para a Promoção da Segurança Infantil, importa sublinhar o papel dos pais e dos outros adultos próximos que deverão ser os verdadeiros “inspectores” da segurança dos brinquedos e “salva-vidas” durante as actividades das crianças. No entanto e como sempre, parece-me que devemos usar de algum bom senso e evitar excessos de zelo que também não são positivos, ainda que em matéria de segurança infantil o excesso seja melhor que o defeito.

Esta matéria é verdadeiramente séria, reforço o facto de continuarmos a ser um dos países da Europa com taxa mais alta de acidentes domésticos envolvendo crianças, de que as quedas de janelas ou varandas, os afogamentos ou o contacto com materiais perigosos não devidamente acondicionados, são apenas exemplos tragicamente frequentes.

Parece também de sublinhar que num tempo em que os discursos sobre a protecção da criança estão sempre presentes, em que é recorrente a referência aos perigos dos brinquedos, também se verifica um número altíssimo de acidentes o que parece paradoxal.

Por um lado, protegemos as crianças de forma que, do meu ponto de vista, me parece excessiva face às suas necessidades de autonomia e desenvolvimento e em muitas circunstâncias, adoptamos atitudes e comportamentos altamente negligentes e facilitadores de acidentes que, frequentemente, têm consequências trágicas.

E não adianta pensar que só acontece aos outros.

Uma nota final para realçar que a dor e a culpa que alguém pode carregar depois de episódios desta natureza serão, creio, suficientemente fortes para que deixemos de lado o discurso da culpabilização que muitas vezes é uma tentação mas que nada acrescenta ou resolve.

(Texto escrito de acordo com a antiga ortografia)

 

“Temos de ter atenção às crianças que sofrem em silêncio, as que ninguém vê”

Janeiro 8, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Entrevista de José Morgado ao http://www.dn.pt/ de 30 de dezembro de 2016.

DR

DR

O psicólogo educacional José Morgado defende que os professores e os pais devem estar atentos aos sinais das crianças, como a agitação, desmotivação e as dificuldades de sono

Como é que a comunidade escolar e os pais podem identificar os sinais de que a criança está em sofrimento emocional acentuado?

Qualquer criança que mostre instabilidade, desmotivação, agitação, dificuldades no sono, dificuldades escolares denuncia já as consequências de um determinado mal-estar emocional.

Mas é tão difícil perceber que uma criança pode estar a acusar mal-estar a esse nível?

Esse sofrimento é menos objetivável do que os problemas sobrevalorizados na escola, nomeadamente do rendimento escolar, o bullying, a indisciplina. Por vezes a criança pode estar a sofrer em silêncio. São o que chamo de “crianças desaparecidas”, que estão à vista de todos mas ninguém as vê. São mais difíceis de captar do que as crianças que sucessivamente são reativas, que não se sentem bem em lado nenhum, que apresentam dificuldades de sono ou têm uma má relação com a escola.

Que causas se podem apontar para esses comportamentos?

A pressão para os resultados e as altas expectativas que os pais têm para o desempenho escolar, podem causar mal-estar emocional. As crianças fragilizadas na sua resiliência tendem depois a sofrer inquietação e problemas de sono. Em Portugal, o estado de sofrimento emocional das crianças não é muito valorizado. A comunidade escolar está mais atenta ao rendimento da criança, ao comportamento a nível de disciplina. E está menos atenta ao processo por detrás desse resultado, sem ir ao fundo, à origem do mal-estar.

Os professores têm um papel importante na deteção desse sofrimento emocional?

Têm e muitas vezes acabam por perceber que o comportamento de muitas crianças na sala de aula não é tanto uma questão de indisciplina mas antes um problema emocional. Devem estar muito atentos aos sinais e canalizar para o departamento de saúde escolar o caso, para os serviços de psicologia de orientação, pelo menos nas escolas onde estes existam.

Pais e professores devem unir-se nesta matéria?

Sim, eu defendo que nas reuniões de pais e professores deve haver um debate sobre estas questões. Não é fácil ser um professor ou um pai, isoladamente, a ter de resolver problemas emocionais severos de uma criança.

De que forma a carga horária na escola e a tradição dos trabalhos de casa (TPC) podem afetar as crianças?

Na minha opinião, os TPC são usados de uma forma excessiva. De facto, a qualidade de vida dos miúdos é reduzida porque eles passam tempos infinitos na escola. Por lei, uma criança de 10 anos pode estar onze horas de seguida na escola. E há miúdos que lidam bem com a pressão escolar e outros que não.

E ainda há a questão da qualidade do tempo que as crianças passam em casa…

O pouco tempo que há devia ser aproveitado pelos pais para contar histórias, brincar com os filhos ou jogar. Um estudo norte-americano recente demonstrou que as crianças se apercebem de que os pais passam o tempo que deviam aproveitar com eles nos computadores ou smarthphones.

A tentação de medicar as crianças desatentas é excessiva?

Estamos a “ritalinizar” os miúdos, como costumo dizer, a dar-lhes Ritalina em excesso (fármaco para a hiperatividade). Por vezes bastaria mudar a forma de atuar com as crianças e obrigá-las a rotinas. Se um miúdo faz birra às nove da noite porque não quer ir dormir, os pais tendem a ceder. Mas as rotinas e o saber dizer “não” são estruturadores. Sem isso, as crianças não sabem lidar com a frustração e ficam reativas.

 

 

 

Adultos e crianças em sofrimento

Agosto 2, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Artigo de opinião de José Morgado publicado na Visão de 4 de julho de 2016.

Nos últimos tempos têm sido noticiados diferentes casos, alguns com um fim trágico, de reacções extremas de pais ou mães envolvidos em processos litigiosos de separação e de regulação parental.

Os riscos de mal-estar e sofrimento dos adultos como, evidentemente, das crianças são grandes e tanto maiores quanto maior o nível de conflitualidade da separação. Esta conflitualidade é particularmente pesada em processos que podem considerar-se ao abrigo de uma designação não consensual, “síndrome de alienação parental”. A utilização desta designação é ainda objecto de alguma controvérsia mas o sofrimento dos adultos e crianças envolvidas é evidente.

Sobre esta matéria umas notas breves sublinhando desde logo que se trata de uma área problemática muito sensível que para além da competência requer solidez ética e deontológica a todos os profissionais intervenientes.

Os dados disponíveis mostram um aumento continuado e significativo de novos processos bem como o aumento de casos de incumprimento da regulação parental estabelecida.

Estas situações, que podem implicar várias presenças em Tribunal, demoram em média cerca de 30 meses a decidir. Em contextos mais difíceis, casos no âmbito da referida “alienação parental” por exemplo, as crianças podem estar todo esse tempo sem contacto com o pai ou a mãe. No entanto, existem ainda situações extremas em que um processo pode durar anos.

Importa referir que está definido que a decisão de regulação não deve ultrapassar um mês pelo que o cenário é deveras preocupante e elucidativo da complexidade dos problemas colocados na intervenção.

São também conhecidos diversos constrangimentos e ineficácia no Sistema de Justiça, veja-se a recente decisão de entregar a guarda de duas crianças a um pai que comprovadamente agrediu a mulher, mãe das crianças e na presença destas, o que tem levado a mãe a uma luta persistente e publicamente divulgada.

São também conhecidas dificuldades no Instituto de Segurança Social legalmente envolvido nos casos de regulação parental. Em Janeiro de 2013 noticiava-se que o Instituto tinha 154 técnicos para um volume de cerca de 39 000 casos sendo que esses técnicos acumulam ainda outras funções, por exemplo, integrando as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens.

Temos assim definida uma situação absolutamente deplorável com consequências sérias para as crianças, mas também para os adultos que apesar da separação não perdem a condição de pais e desejam vê-la regulada.

O princípio fundador do nosso quadro normativo, o Superior Interesse da Criança, tantas vezes lembrado e tantas vezes esquecido, exigiria obviamente que toda esta problemática fosse minimizada com urgência e as situações decididas em tempo oportuno e protector do bem-estar das crianças.

Em muitos casos de separação instalam-se nos adultos, ou num deles, situações de sofrimento, dor e, ou, raiva, que “exigem” reparação e ajuda. Muitos pais lidam sós com estes sentimentos e os filhos são percebidos frequentemente como o “tudo o que ficou” ou o que “não posso, não quero e tenho medo de também perder”.

Poderemos então assistir a comportamentos de diabolização da figura do outro progenitor, manipulação das crianças tentando comprá-las (o seu afecto), ou, mais pesado, a utilização dos filhos como forma de agredir o outro o que torna necessária a intervenção reguladora de estruturas ou serviços que se deseja oportuna no tempo e eficaz na ajuda.

É neste contexto que também se operam frequentes tentativas de instrumentalização dos profissionais. Esta acção dos elementos desavindos coloca sérios desafios à intervenção dos profissionais de diferentes áreas, não só às suas competências mas, como já referi, aos limites da deontologia e da ética.

É particularmente inquietante que este tipo de situações, quando mal acompanhadas ou resolvidas pode em alguns casos atingir limites devastadores e trágicos como temos vindo a assistir com alguma regularidade.

É obviamente imprescindível proteger o bem-estar das crianças mas não devemos esquecer que, em muitos casos, existem também adultos em enorme sofrimento e que a sua eventual condenação, sem mais, não será seguramente a melhor forma de os ajudar. Ajudando-os, as crianças serão ajudadas.

Protegendo as crianças os adultos também serão ajudados.

É uma tarefa de todos.

Quero ainda sublinhar que, por princípio, prefiro uma boa separação a uma má família.

(Texto escrito de acordo com a antiga ortografia)

 

 

 

Os castigos na formação das crianças

Junho 22, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Artigo de opinião de José Morgado publicado na Visão de 8 de junho de 2016.

Mais do que discursos radicais em torno dos castigos, seria desejável reflectir sobre a forma como estamos a proceder na acção educativa, familiar e escolar.

A questão dos castigos impostos às crianças, em contextos familiares ou institucionais, é regularmente objecto de discussão e análise na nossa vida profissional.

É também frequente a imprensa referir casos deste âmbito. Há poucos dias foi noticiada uma situação extrema de uma criança de 10 anos que os pais mantinham acorrentada no quintal como forma de castigo. A criança for retirada à família com intervenção da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens.

Na abordagem à questão dos castigos às crianças, os castigos corporais assumem maior relevo e complexidade. Mesmo quando são objecto de processos judiciais surgem decisões que causam alguma perplexidade.

Recordo a título de exemplo que em 2014 o Tribunal da Relação do Porto absolveu pais que comprovadamente agrediram o filho de 11 anos com um cinto infligindo danos corporais de alguma gravidade. A razão do comportamento do rapaz prendeu-se com resultados escolares e o facto de fumar. Cito da imprensa da altura “Os juízes desembargadores entenderam que embora sendo “o comportamento dos pais de censurar”, não pode ser considerada a “forma qualificada” no crime de ofensa à integridade física por não haver “aquele acrescido e especial juízo de reprovação, indispensável” para o considerar como tal. Assim, sendo apenas aceite a “forma simples” da agressão, o Ministério Público não poderia ter deduzido acusação, os pais foram absolvidos.”

A verdade é que a questão da administração de castigos é sempre algo em aberto, em família, quase sempre de forma mais recatada e discreta, ou em contextos institucionais, mais mediatizados, nos quais se espera que os técnicos, justamente porque são técnicos, intervenham de forma mais racional, informada e menos reactiva em termos emocionais que os pais.

Neste quadro e como disse, a experiência no trabalho com pais mostra que a aplicação de castigos é sempre uma matéria com grande latitude de opiniões sendo que de forma geral os pais os entendem como algo necessário. Assim sendo, tanto como discutir a utilização, ou não, de alguma forma de castigo, fará sentido alguma reflexão sobre a natureza e limites do que poderá ser um castigo.

Do meu ponto de vista e por princípio, privar ou dificultar o acesso a necessidades básicas ou ferir direitos como é o uso da violência física não serão, evidentemente, o caminho mais ajustado.

Parece-me também que o recurso que alguns adultos fazem de castigos que envolvem uma forte dimensão emocional, sobretudo em crianças pequenas, deve ser evitado pelas implicações eventuais na segurança e confiança dos miúdos em si e nos adultos. Refiro-me ao uso de afirmações como “não prestas”, “não gostamos de ti” ou outras da mesma natureza

É ainda de considerar que algumas pessoas afirmam e defendem que um “tabefe” ou uma tareia “dada a horas faz milagres” e que não lhes faz mal (aos miúdos) aprender assim.

Quando trato estas questões sempre relembro uma história pessoal pois também me tocou o castigo corporal na escola. Recordo que mais do que a dor física da reguada, me incomodava o sentir-me tremendamente humilhado por estender a mão a alguém, um adulto e professor, que friamente me batia tantas vezes quantos os erros no ditado ou em consequência de ter falado com meu colega quando era suposto estar calado. Lembro-me ainda do especial requinte de um professor que em vez de ser ele a bater, encarregava um de nós de o fazer levando do professor se batesse devagar no colega. Não vejo grande vantagem educativa neste tipo de acções que acredito terem desaparecido.

É verdade que muitas pessoas, pais ou mesmo técnicos, assustadas com as grandes dificuldades que experimentam com os comportamentos das crianças, sentir-se-ão tentadas por estas abordagens mas talvez seja de recordar que o comportamento gera comportamento, ou seja, a violência gera e alimenta a violência. Bater por rotina educativa não faz sentido, não é, definitivamente, uma prática educativa,

No entanto e dito tudo isto, também entendo que comportamentos inadequados ou incompetentes não significam necessariamente que estejamos perante maus pais ou pais incompetentes. Todos nós, alguma vez, agimos de uma forma reactiva, menos ajustada ou adequada com os nossos filhos e isso não nos transforma em pessoas más, significa que somos apenas pessoas e que devemos reflectir sobre o que fazemos.

Também não simpatizo com a aplicação de castigos que estejam associados a tarefas que devem ser realizadas regularmente e em contextos positivos. Dou-vos um exemplo curioso para tentar ilustrar esta ideia. Numa escola que conheci, os alunos que se portavam mal iam para a biblioteca. Não será difícil imaginar que os alunos passassem a perceber a biblioteca como uma “cela prisional” e, estranhamente, não gostassem de a frequentar.

Dito isto, mais do que discursos radicais em torno dos castigos, seria desejável reflectir sobre a forma como estamos a proceder na acção educativa, familiar e escolar à imprescindível tarefa de tentar fornecer aos miúdos a construção das regras e limites de que eles precisam, tanto como de comer ou respirar.

Também me parece que dedicar mais atenção, elogiar quando corre bem, reforçar e fazer sentir o apreço por comportamentos adequados, expressar confiança nas crianças, podem ser contributos para minimizar o risco de ficar tentado pelo castigo depois de algo correr mal.

Finalmente, sublinho que este entendimento não tem nada a ver com laxismo, promoção da impunidade face a comportamentos desadequados ou com a ausência de regras. São dimensões fundamentais e imprescindíveis na formação das crianças.

O que afirmo tem exclusivamente em conta a natureza dos processos utilizados em educação, a sua eficácia e o respeito pelos direitos das crianças.

(Texto escrito de acordo com a antiga ortografia)

José Morgado

Doutorado em Estudos da Criança. Professor no Departamento de Psicologia da Educação do ISPA – Instituto Universitário. Membro do Centro de Investigação em Educação do ISPA – Instituto Universitário. Colaborador e consultor regular de Programas de Formação de Professores e de Projectos de Investigação e Intervenção. Colaborador regular em Programas de Orientação Educativa para Pais. Autor de diversas publicações nas áreas da qualidade e educação inclusiva, diferenciação pedagógica, etc.

Blogue – http://atentainquietude.blogspot.com

 

 

 

Bullying – artigo de opinião de José Morgado

Maio 26, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

artigo de opinião de José Morgado publicado na Visão de 12 de maio de 2016.

Notas sobre uma matéria que é recorrentemente identificada como fonte de preocupação para educadores, pais, técnicos e professores.

Diferentes estudos sugerem que em Portugal entre um quarto e um terço dos adolescentes entre os 13 e os 15 anos já se terá envolvido em episódios de bullying, verificando-se ainda com particular inquietação a subida significativa de cyberbullying com recurso às redes sociais e aos dispositivos de comunicação, telemóveis, por exemplo.

Duas notas específicas relativas ao cyberbullying que mostram o seu potencial risco. Dado que o bullying presencial ocorre predominantemente nos espaços escolares, os fins-de-semana são um tempo mais protegido o que não acontece com o cyberbullying.

Por outro lado, não existindo contacto directo, presencial, entre agressor e vítima, não é percepcionado de forma real o sofrimento infligido o que em algumas circunstâncias pode funcionar como “travão” e inibir os comportamentos de agressão.

De forma global sabe-se também que a ocorrência de situações de bullying é bem superior ao número de casos que são relatados. Uma das características do fenómeno, nas suas diferentes formas, incluindo o emergente cyberbullying, é justamente o medo e a ameaça de represálias a vítimas e assistentes que, evidentemente, inibem a queixa pelo que ainda mais se justifica a atenção proactiva e preventiva de adultos, pais, professores ou funcionários.

Este cenário determinaria, só por si, um empenhado investimento em recursos e dispositivos que procurassem minimizar o volume de incidências, algumas das quais com consequências severas.

Neste contexto e dada a gravidade e frequência com que ocorrem estes episódios é imprescindível que lhes dediquemos atenção ajustada, nem sobrevalorizando, nem tudo é bullying, o que promove insegurança e ansiedade, nem desvalorizando, o que pode negligenciar riscos e sofrimento.

Importa considerar dois eixos fundamentais de intervenção por demais conhecidos, a prevenção e a intervenção depois dos problemas ocorrerem. Esta intervenção pode, por sua vez e de forma simplista, assumir uma componente mais de apoio às vítimas e repressão e punição que aos agressores. É importante acentuar que é fundamental uma acção de apoio e também dirigida aos agressores no sentido de minimizar ou eliminar a continuação do seu comportamento. Uma outra via de trabalho a desenvolver será o envolvimento dos “assistentes” que podem desempenhar um papel importante na dissuasão ou denúncia dos episódios a que assistem.

Têm sido criados vários portais e outro tipo de iniciativas desenvolvendo informação, espaços de denúncia, suporte e apoio a pais e professores, bem como a alunos e incluindo também a realização de acções em escolas.

No entanto, boa parte destas iniciativas é exterior às escolas que, pressionadas pela sua cada vez mais vasta gama de problemas e solicitações, também sentem falta de recursos e informação adequada sobre o bullying, desde logo sobre a forma de o reconhecer.

A existência de dispositivos de apoio sediados nas escolas e de recursos qualificados e suficientes, designadamente no que respeita aos assistentes operacionais com funções de supervisão dos espaços escolares, é, a par de ajustamentos nos modelos de organização e funcionamento das escolas, uma tarefa urgente.

Do meu ponto de vista, o argumento custos não é aceitável porque as consequências de não mudar são incomparavelmente mais caras.

Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos atenção, em casa ou na escola, espaço onde passam um tempo enorme.

De uma forma muito breve e solicitando uma enorme cautela sobre interpretações apressadas alguns sinais observados em casa como, livros, materiais ou bens estragados ou escondidos, ferimentos ou rasgões na roupa, “perda” frequente de objectos ou dinheiro, isolamento e exclusão do grupo de pares na escola, receio ou recusa em ir para a escola, desmotivação escolar, tristeza, instabilidade, reactividade, alterações súbitas do comportamento ou ansiedade ao final do fim-de-semana,* sobretudo quando não são habituais e se tornam frequentes devem merecer atenção.

Na mesma lógica e de novo com toda a prudência na interpretação, também na escola sinais como livros, materiais ou bens estragados ou escondidos, ferimentos ou rasgões na roupa, isolamento ou exclusão por parte dos colegas, alvo de brincadeiras abusivas frequentes, proximidade não habitual a adultos, sem intervenção nas aulas, insegurança ou ansiedade, desleixo e negligência não habituais ou absentismo* podem constituir motivo de preocupação.

Sinais desta natureza, apesar de insistir no cuidado da avaliação, não devem ser ignorados ou desvalorizados.

O resultado pode representar sofrimento e mal-estar.

*Fernandes, L.; Seixas, S. (2012) Plano Bullying: como erradicar o bullying da escola. Plátano Editora. Lisboa

(Texto escrito de acordo com a antiga ortografia)

Doutorado em Estudos da Criança. Professor no Departamento de Psicologia da Educação do ISPA – Instituto Universitário. Membro do Centro de Investigação em Educação do ISPA – Instituto Universitário. Colaborador e consultor regular de Programas de Formação de Professores e de Projectos de Investigação e Intervenção. Colaborador regular em Programas de Orientação Educativa para Pais. Autor de diversas publicações nas áreas da qualidade e educação inclusiva, diferenciação pedagógica, etc.

Blogue – http://atentainquietude.blogspot.com

 

 

 

 

Mimos a mais. Será?

Janeiro 11, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

mw-300

Artigo do Dr. José Morgado para a revista Visão em 28 de Novembro de 2015.

As crianças não têm elogios ou mimos a mais. O que se passa mais frequentemente é que recebem “nãos” de menos.

As chamadas birras e outros comportamentos considerados negativos assumidos pelos mais novos são uma permanente fonte de inquietação designadamente para pais e objeto de recorrentes pedidos de ajuda.

Também neste contexto é muito frequente que, quando se verificam ou se comentam alguns comportamentos das crianças, sobretudo “birras” ou a imposição de desejos ou vontades aos adultos, em regra aos pais, surjam explicações como “é dos mimos”. Acontece que “mimo” é entendido quase como sinónimo de “afeto”, “amor”, “gostar”, etc.

Tal justificação costuma servir depois para se afirmar a ideia de que as crianças hoje em dia têm muitos mimos que as “estragam”, dito de outra maneira, têm “afeto” a mais ou ainda “gosta-se de mais” das crianças. Estes discursos, que alguns profissionais destas áreas também subscrevem, merecem-me alguma reserva pois assentam, do meu ponto de vista, num equívoco.

De uma forma geral, as crianças não terão afeto a mais, poderão, isso sim, ser objecto de “mau afeto”. É essa falta de qualidade que lhes poderá ser prejudicial. Não é mau por ser muito, é mau porque asfixia, oprime, não deixa que os miúdos cresçam, distorce a perceção da criança de si própria e do seu funcionamento, não permite o estabelecimento de uma relação saudável, protetora e promotora da autonomia das crianças, uma condição fundamental para o seu desenvolvimento positivo. No entanto, não é este tipo de reflexão que leva muitos de nós a falar dos “mimos a mais”.

Insisto, as crianças não têm elogios ou mimos a mais. O que se passa mais frequentemente é que recebem “nãos” de menos. Na verdade, muitos adultos, pais, sendo quase sempre capazes de dar os mimos, mostram-se muitas vezes incapazes de dar os “nãos”, de estabelecer os limites e as regras que, como sempre digo, são tão necessárias às crianças como respirar e alimentar-se. Estes “nãos” são outros mimos imprescindíveis na educação de crianças e adolescentes nos seus diferentes contextos de vida.

Esta dificuldade dos pais em oferecer os “nãos” às crianças e adolescentes decorre, em muitas situações, de algum desconforto culpabilizante sentido com as circunstâncias e estilos de vida que inibem o tempo e a disponibilidade que desejariam ter para os filhos. Dito de outra maneira, não querem perturbar o pouco tempo que estão juntos com o “não” e a eventual reação negativa da criança.

Ficando sem “nãos” muitas crianças, a coberto da ideia dos “mimos a mais”, transformam-se em pequenos ditadores que infernizam a vida de toda a gente, a começar pela sua própria vida. Não crescem saudavelmente.

Neste contexto, apoiar e ajudar os pais a desenvolverem de forma confiante comportamentos de disponibilidade e escuta de crianças e adolescentes, a assumirem com firmeza e sem culpa a necessidade de definir regras e limites, de mostrar afeto sem que se sintam a dar “mimos” a mais que “estragam” os filhos, só pode resultar em bom trabalho, para os pais e para os filhos.

De pequenino é que se constrói … o destino.

Fonte

 


Entries e comentários feeds.