Crianças de casais homossexuais desenvolvem-se como as outras

Março 14, 2014 às 1:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 13 de Março de 2014.

O estudo mencionado no artigo é o seguinte:

Impacto da orientação sexual e do género na parentalidade: Uma revisão dos estudos empíricos com famílias homoparentais

 

público

Ana Cristina Pereira

 

Revisão de literatura científica revela que casais de lésbicas, em certos aspectos, até exercem melhor a parentalidade.

 

As crianças precisam de uma mãe e de um pai? Após extensa revisão de estudos científicos, Jorge Gato e Anne Marie Fontaine, da Universidade do Porto, atestam que, “apesar do preconceito e da discriminação”, as crianças educadas com dois pais ou duas mães desenvolvem-se tão bem como as outras.

 

A adopção singular está prevista em Portugal – a orientação sexual do adoptante não conta. A adopção por casais homossexuais não passou no Parlamento, apesar das várias tentativas. O diploma esta sexta-feira em debate concerne à co-adopção — prevê a possibilidade de um dos membros do casal adoptar o filho, biológico ou adoptado, da pessoa com quem vive em união de facto ou com quem se casou.

 

Em debate está o superior interesse da criança, um conceito indeterminado que se define ao analisar cada caso concreto. Os proponentes enfatizam a desprotecção jurídica em que fica a criança no caso de morte do pai ou da mãe reconhecidos como tal. Indicam também obstáculos no quotidiano, como a representação legal no acesso à saúde ou à educação.

 

Na base do discurso de que as crianças precisam de um pai e de uma mãe está a ideia de que “a maternidade e a paternidade implicam capacidades mutuamente exclusivas e estereotipadas em termos de género e que estas devem ser transmitidas à geração seguinte”, escrevem, num artigo publicado na revista ex aequo, em 2011, Jorge Gato e Anne Marie Fontaine. Estaria, “de um lado, uma mãe ao serviço da criança, prestadora de cuidados e guardiã de todos os afectos e, de outro, um pai, razoavelmente distanciado e introdutor da Lei social”. Ora, os papéis já não são tão rígidos, embora as mulheres ainda invistam mais na família.

 

No entender destes investigadores, “considerar a família heterossexual, com uma divisão tradicional de papéis, como o modelo desejável de parentalidade corresponde mais a um projecto ideológico do que a um facto cientificamente provado”. Passada a pente fino as “investigações que comparam homo e heteroparentalidade”, concluíram que não há grande diferença.

 

Duas mulheres até exercem a parentalidade “de uma forma mais satisfatória, em algumas dimensões, do que um homem e uma mulher ou, pelo menos, do que um homem e uma mulher com uma divisão tradicional do trabalho familiar”. As crianças crescem como as outras, só que “parecem desenvolver um reportório menos estereotipado de papéis masculino e feminino”.

 

O tema é polémico. A Ordem dos Advogados, por exemplo, deu ao Parlamento um parecer a recusar a parentalidade homossexual. A propósito do projecto do BE sobre adopção, deu o Conselho Superior do Ministério Público parecer oposto: “Vale para a orientação sexual o mesmo argumento que valeria, por exemplo, se se considerasse, à partida, que determinadas situações genéricas, por exemplo a situação de desempregado, de deficiência ou de pertença a um grupo social, fossem impeditivas de adoptar.”

 

 

 

 

 

Universitários ainda têm preconceitos quanto a crianças adoptadas por gays

Novembro 5, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Divulgação, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Caderno P3 do Público de 28 de Outubro de 2012.

Texto de Lusa

Estudo da UP mostra que “preconceito relativamente à homoparentalidade subsiste”. Estudantes consideram que desenvolvimento sexual da criança pode ficar “em risco”, sobretudo se for um rapaz educado por duas mães

Os estudantes universitários consideram que alguns aspectos do desenvolvimento sexual da criança podem estar “mais em risco” se for adoptada por um casal homossexual, sobretudo se for um rapaz educado por duas mães, revela um estudo da Universidade do Porto.

O estudo “Homoparentalidades num contexto heteronormativo”, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, a que a agência Lusa teve acesso, procurou caracterizar as atitudes face à homoparentalidade junto de estudantes universitários de dois tipos de cursos, uns de carácter mais tecnológico e outros vocacionados para a intervenção social.

Foram abrangidos 1.288 finalistas de Psicologia, Serviço Social, Educação Social, Sociologia, Medicina, Enfermagem, Ensino Básico, Educação de Infância e Direito. O autor do estudo “Homoparentalidades num contexto heteronormativo” recordou os 40 anos de investigação que evidenciaram, sobretudo, semelhanças entre as práticas parentais de casais homossexuais e heterossexuais e índices idênticos de adaptação psicológica de crianças educadas nos dois contextos. Contudo, “apesar destas evidências, constata-se que o preconceito relativamente à homoparentalidade subsiste”, disse à Lusa o investigador Jorge Gato.

Apesar dos mais jovens e educados tenderem a apresentar atitudes mais positivas face aos homossexuais, alunos de cursos tecnológicos consideram que alguns aspectos da “identidade sexual normativa” de uma criança estão mais em risco se esta for adoptada por uma família homoparental. Uma percepção visível sobretudo nos homens, segundo o investigador: ”Os inquiridos mostraram-se mais preocupados com a possibilidade de um rapaz educado por duas mães poder apresentar mais dificuldades na aquisição de comportamentos tradicionalmente masculinos”. “Os homens têm atitudes mais negativas em relação aos homossexuais, por considerarem que a identidade heterossexual está indissociavelmente ligada à sua identidade enquanto homens”, explicou.

Homossexuais “mais competentes”

Já os universitários de cursos de intervenção social consideram que os casais homossexuais são “mais competentes” nalgumas dimensões do que os heterossexuais. Por exemplo, consideram que “as crianças têm menos probabilidade de ser abusadas sexualmente nas famílias de lésbicas e gays mas, por outro lado, acham que estas famílias têm menor capacidade de transmitir valores às crianças”.

Contudo, numa situação hipotética, os participantes acabaram por atribuir, com maior probabilidade, a custódia de uma criança a uma família heteroparental. “Podendo ter origem numa antecipação de discriminação por parte da sociedade, este tipo de posicionamento tem implicações sociais e éticas importantes”, disse, considerando que “a expectativa de discriminação deve constituir-se como um estímulo para a sua erradicação e não como um factor de (dupla) discriminação de potenciais mães lésbicas e pais gay”.

“É importante, sobretudo, estas pessoas inquiridas fazerem um exame de consciência acerca do que é que neles existe de pessoal e valorativo que pode estar a afetar a forma como pensam acerca destas questões”, mas também é fundamental formação académica, considerou. “A homoparentalidade em si não é problemática, nem do lado dos pais, nem do lado das crianças, mas não me parece que esta informação esteja a ser suficientemente transmitida” nas faculdades, acrescentou o investigador.

O estudo sublinha que a crença de que a orientação sexual de mães/pais influencia a identidade sexual dos filhos “poderá ser um dos factores subjacentes à apreensão que a adopção por casais do mesmo sexo ainda suscita em Portugal”.

 


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