Crianças ativas no recreio aprendem mais

Março 17, 2016 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, o professor Carlos Neto fala sobre como o recreio pode ser um meio para melhorar os resultados dos alunos.

A importância de uma boa experiência no intervalo das aulas – seja em escolas públicas ou privadas – ainda é subestimada, diz o professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, o português Carlos Neto. Nesse caso, a realidade portuguesa equivale à brasileira, onde o recreio, espremido em parcos 20 minutos, serviria apenas a interesses disciplinares ou de horários de professores, sem dar conta da necessidade da criança de realizar jogos físicos e de socializar. “O intervalo torna-se uma terra de ninguém, algo pouco valorizado por adultos por ser visto como atividade improdutiva”, diz.
Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, o professor fala sobre como deveriam ser os recreios e como as aulas podem ser mais estimulantes e atingir melhores resultados.

GP: Como os alunos enxergam hoje o recreio?
Carlos Neto: Para muitos ele é o último reduto de brincadeiras livres. Porém, ele deveria ser valorizado e estruturado de forma a ser envolvente quer quanto às qualidades de estimulação dos espaços físicos (superfícies, espaços naturais, equipamentos lúdicos, brinquedos) quer quanto ao seu tempo de duração.

GP: Qual a importância desse intervalo para as crianças?
Carlos Neto: Crianças ativas no recreio aprendem melhor em sala de aula. Quem apresenta um jogo de atividade física moderada e mais socialização no intervalo têm mais capacidade de atenção e concentração nas aprendizagens escolares consideradas úteis. Muitos estudos demonstram uma forte relação entre atividade física e lúdica e rendimento escolar. Crianças fisicamente ativas têm cérebros mais ativos e aprendem com mais sucesso as linguagens abstratas. Isso implica revisão e mudança no modelo organizativo do cotidiano da vida das crianças em sala.

GP: E como ele deveria ser?
Carlos Neto: Deveria ser desafiante, permitindo brincadeiras livres sem supervisão exagerada dos adultos (proibição da margem de risco e de atividades de exploração dos espaços existentes), permitindo que as crianças realizem atividades próprias da idade: jogos de corrida, luta e perseguição, ações de trepar, de equilíbrio e vertigem, jogos com bola, jogos tradicionais e simbólicos e de dramatização, e relação com elementos naturais (água, areia, terra, plantas). Estas atividades deveriam enquadrar-se de forma coerente com o projeto educativo da escola.

GP: A agenda das crianças está cheia?
Carlos Neto: As crianças têm hoje uma agenda completamente estruturada em atividades organizadas e na maior parte com caraterísticas sedentárias. Os currículos escolares são cada vez mais extensos e intensos e as crianças passam a maior parte do tempo sentadas. Muitas ficam até 8 horas por dia na escola e ainda frequentam escolas paralelas com atividades extracurriculares. O tempo cotidiano de vida infantil é, deste modo, todo organizado, estruturado e formatado. Este é um problema sério para o normal desenvolvimento das crianças do nosso tempo.

GP: Porque isto ocorre?
Carlos Neto: Os pais são obrigados a “depositar” os filhos na escola durante muitas horas por dia para que esse tempo seja compatível com os seus horários de trabalho. São urgentes políticas públicas e harmonização entre o tempo de trabalho, o tempo escolar e o tempo em família. Muitos países do centro e norte da Europa elaboraram mudanças políticas para fornecer mais qualidade de vida às famílias e mais tempo para os pais brincarem com os seus filhos.

GP: Como seria a aula “ideal” para crianças ativas?
Carlos Neto: Diversas escolas de todo o mundo tentam mudar o paradigma clássico de pedagogia para modelos mais dinâmicos de ensino-aprendizagem, que permitam que as crianças sejam mais ativas dentro de sala. Muitas evidências científicas demonstram que a alternância regular entre estar sentado e ativo melhora a capacidade de aprendizagem e rendimento escolar.

GP: Como isso se daria na prática?
Carlos Neto: A valorização do corpo em movimento dentro da sala de aula passa pela introdução de pausas para atividades de escuta (meditação e respiração) e exercícios de mobilização do corpo (jogo de atividade física). Elas não precisam estar sempre sentadas (inativas) durante a aula e mudar mesas e cadeiras pode fazer com que os saberes possam ser trabalhados e assimilados com mais prazer, mais motivação intrínseca e mais participação em grupo.

GP: Quais os benefícios de aprender com o corpo em ação na sala de aula?
Carlos Neto: Isso permite encontrar várias soluções pedagógicas que serão muito mais gratificantes na infância e permitirão mais sucesso acadêmico. Será necessária uma redefinição dos modelos de uma pedagogia ativa e centrada nas necessidades das crianças e uma nova postura dos professores quanto à definição do projeto educativo da sua escola.

Crianças ativas no recreio aprendem melhor em sala de aula. Quem apresenta um jogo de atividade física moderada e mais socialização no intervalo têm mais capacidade de atenção e concentração nas aprendizagens escolares consideradas úteis.
O recreio deveria ser desafiante, permitindo brincadeiras livres sem supervisão exagerada dos adultos (proibição da margem de risco e de atividades de exploração dos espaços existentes), permitindo que as crianças realizem atividades próprias da idade: jogos de corrida, luta e perseguição, ações de trepar, de equilíbrio e vertigem, jogos com bola, jogos tradicionais e simbólicos e de dramatização, e relação com elementos naturais (água, areia, terra, plantas).
A valorização do corpo em movimento dentro da sala de aula passa pela introdução de pausas para atividades de escuta (meditação e respiração) e exercícios de mobilização do corpo (jogo de atividade física). Elas não precisam estar sempre sentadas.

Gazeta do Povo, 19 de Fevereiro de 2016

Copa Foot 21

Junho 22, 2010 às 9:00 pm | Publicado em Campanhas em Defesa dos Direitos da Criança, Divulgação | Deixe um comentário
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“A partir de Domingo, dia 20, e até ao próximo dia 26 de Junho, decorrerá no Complexo Desportivo de Vila Real de Santo António a 3ª edição da Copa Foot 21, um evento que contará com a participação de 120 equipas, cerca de 1800 jovens atletas portugueses, entre os 6 os 12 anos. Entre atletas, famílias e outros participantes, espera-se a comparência de cerca de 40 mil pessoas. O Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social dedica este mês de Junho ao lema “Crescer com Oportunidades”, e um local que concentra tantas crianças é uma oportunidade para alertar para as problemáticas relacionadas com este tema. De acordo com a organização do evento, “esta edição implicará uma elevada concentração, ao longo da semana, de jovens talentos nacionais que nas suas escolas ou clubes de formação, praticam assiduamente o seu desporto favorito: o Futebol. Nesta iniciativa, serão partilhados valores fundamentais de fair-play, solidariedade, alegria, emoção, rigor, persistência, tolerância, justiça e paz. O espírito será fundamentalmente de festa e troca de experiências entre jovens que virão de todas as regiões do nosso país”.” Mais informações Aqui

As crianças estão reféns do ecrã

Junho 9, 2010 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do jornal Expresso de 31 de Maio de 2010.

Por Christiana Martins

Fechadas entre quatro paredes, é em casa que as crianças se sentem melhor e mais seguras. Um estudo mostra como a televisão lhes está a roubar a cultura do espaço público

As crianças não têm tempo próprio e falta-lhes o espaço que deve ser de todos: o espaço público”, afirma Duarte Moreno, autor de uma investigação sobre a relação das crianças com o espaço. “A brincadeira da rua está extinta. Restam os ecrãs de faz de conta, no quarto ou na sala, e esta cultura do ecrã avassala o quotidiano da infância, gerando uma serenidade pouco genuína”, alerta. Meninas entre os 8 e os 9 anos, com mais meios económicos, que preferem ficar em casa compõem um retrato que ajuda a responder, na forma de perfil, à pergunta fundamental da investigação: “Onde te sentes melhor?”. Professor de Educação Física, Duarte Moreno concluiu recentemente na Faculdade de Motricidade Humana a dissertação de doutoramento que aborda esta questão. A pesquisa envolveu 163 crianças, moradoras em Matosinhos, de ambos os sexos e diferentes origens socioeconómicas, entre os 8 e os 9 anos e entre os 11 e os 12 anos. As abordagens foram múltiplas: entrevistas, diários de actividade produzidos pelos miúdos, máquinas fotográficas utilizadas pelas crianças e questionários respondidos pelos pais.

Ausentes do exterior

“As crianças não vivem corporalmente o espaço que as rodeia”, afirma Duarte Moreno. O investigador diz ainda que, “infelizmente, as crianças e os adolescentes não encontram oportunidades suficientes para atingir um nível óptimo de actividade física habitual na sua vida quotidiana”. Sublinhando consequências como a obesidade infantil.

A raiz desta situação parece estar na escassa utilização do espaço público. “No quarto, as crianças adquirem uma soberania precoce sobre a gestão dos seus tempos, regulando as horas da navegação na Internet ou o uso de jogos interditos, submetendo os hábitos de sono a alterações inexplicáveis, com reflexo no dia seguinte, quer nas aprendizagens escolares, quer na qualidade das relações interpessoais”, refere.

“É a casa o lugar onde a maioria das crianças se sente melhor (69%).” É assim que Duarte Moreno introduz a questão sobre os espaços ocupados pela infância. Apenas 10% das crianças que participaram no estudo preferem o parque ou o jardim e 7% a escola. São, sobretudo, as mais novas que escolhem o ambiente domiciliar (40%). São também as que fazem parte de meios socioeconómicos mais favorecidos que preferem ficar em casa. Mas “os elevados níveis de ligação ‘à casa’ poderão significar limites de adaptação ao meio envolvente e maior insegurança aos locais urbanos”.

Pela voz das crianças

A linguagem infantil que surge no trabalho revela como as crianças abordam o seu próprio contexto. “O interior da casa é o lugar onde estou mais seguro e protegido”, “Estou à vontade”, “É confortável” e “Sossegada” são pedaços dos pensamentos infantis ouvidos por Duarte Moreno. Mas há mais: “Posso brincar”, “Tenho lá as minhas coisas”, “Posso ver televisão”, “Posso comer e beber”.

“A vida das crianças tornou-se mais centrada no domicílio. Anteriormente, o espaço da casa era dominado pelos adultos (donas de casa), mas hoje a situação é inversa: o espaço privado da casa alterou-se de espaço adulto para espaço de criança”, explica o autor. No estudo, há três razões fundamentais para que as crianças não explorem os espaços próximos de onde vivem. Em primeiro lugar, a cidade não está preparada para estes moradores: “O planeamento urbano não se ajusta aos interesses das crianças como população muito específica.” As outras conclusões referem que “o automóvel tomou conta do espaço urbano, criando constrangimentos de circulação e de jogo livre” e que “a percepção dos medos sociais, como assaltos, roubos, violações ou raptos, faz com que metade das crianças ouvidas no estudo refiram ter medos em relação à cidade”. Mas, quando inquiridas sobre se já lhes aconteceu algo de concreto, a grande maioria (77%) responde que não. A casa aparece como “o espaço preferido da cidade, o local onde a maioria das crianças se sente melhor”. Para elas, “a casa é o lugar da segurança e do conforto. É lá que está a família e os brinquedos que as ocupam: os diversos tipos de suportes electrónicos que surgem como novidades infindáveis”.

Televisão no quarto

Todas as crianças ouvidas no estudo referiram ter televisão. “É um equipamento de presença inequívoca”, afirma Duarte Moreno. Mas 72% dos inquiridos disseram também ter computador. E, segundo o estudo, “a percentagem mais elevada destas crianças (37%) afirma ver ou interagir em suportes electrónicos (televisão, computador e videogravadores) durante mais de três horas por dia”.

A situação torna-se mais complexa quando 70% das crianças que participaram na pesquisa dizem ter televisão no quarto de dormir. Destas, 66% dizem adormecer a ver televisão. A maior parte (37%) integra meios socioeconómicos mais baixos. “Adormeço a ver e depois acordo de noite e desligo”, afirma um rapaz de 9 anos. Uma menina com a mesma idade diz praticamente o mesmo: “À noite não consigo adormecer sem ver televisão.” O estudo alerta, contudo, que as crianças tendem a deitar-se mais tarde com a presença de televisão no quarto e, como levantam-se sensivelmente à mesma hora, tal reflecte-se na média de sono diário e, por sua vez, no equilíbrio diurno, na aprendizagem escolar, nas atitudes de interacção com as outras pessoas. É importante sublinhar, por exemplo que, “para muitas crianças, o recreio é a única oportunidade para interagir com os seus pares”. Além disso, cerca de 64% das crianças ouvidas nesta pesquisa dizem possuir telemóvel. “Cada vez mais apropriado pelas crianças e induzido pelos adultos, o telemóvel intensifica o controlo parental, esvaindo-se a autonomia e a liberdade da criança”, conclui Duarte Moreno.

Publicado na Revista Única de 29 de Maio de 2010

Pode consultar a tese de Duarte Moreno Aqui


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