5 sinais de que o seu filho é um pequeno ditador

Fevereiro 21, 2016 às 6:36 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do Observador de 10 de fevereiro de 2016.

daniel jedzura istock

Falámos com o autor da obra “O Pequeno Ditador Cresceu” para saber quais as características das crianças que podem vir a ser tiranas. Caso se reveja, no fim há conselhos para ajudar pais e filhos.

Ana Cristina Marques

O recém-chegado livro O Pequeno Ditador Cresceu é uma espécie de sequela da obra O Pequeno Ditador, o mesmo que em 2007 chegou ao mercado para vender 33 mil exemplares, só em Portugal, e abrir os olhos a tantos pais que estavam a educar os filhos com demasiada permissividade. Dez anos depois, os pequenos tiranos cresceram em altura e peso: a nova obra do psicólogo Javier Urra vem mostrar uma realidade pouco feliz que envolve situações de violência filiar.

Já antes o pedagogo espanhol disse à agência de notícias Lusa que tanto em Portugal como em Espanha existem casos de filhos capazes de maltratar mães e pais — admitiu até estarmos perante uma pandemia. Ao que parece, o problema está no facto de ser muito fácil e cómodo aprender a ser-se ditador quando os pais aceitam passar por escravos.

Por esse motivo, o Observador falou com Javier Urra de modo a conseguir identificar as características de uma criança tirana a tempo de evitar que esta recorra à violência verbal ou física para fazer valer o seu ponto de vista. Os sinais de alerta seguem abaixo.

Tudo gira à volta deles

Falamos de crianças com mais direitos do que deveres e que tendem a viver numa sociedade onde tudo gira à sua volta. Em causa está um padrão de educação muito permissivo que se distancia por completo daquele de gerações anteriores, em que os pais eram tidos como figuras de autoridade. Para apontar as possíveis consequências dessa mudança, Javier Urra fala de uma sociedade democratizada onde os papéis do homem e da mulher têm vindo a alterar-se e os filhos já não são encarados enquanto posse dos pais.

“O excesso de preocupação dos pais em relação aos filhos é um problema. Cerca de 40% dos pais e mães espanhóis não sabem como agir com os filhos. Cerca de 8% são agredidos pelos filhos, os filhos não entendem a relação edipiana com as mães. A mãe ensina que o mais importante da casa é o filho e não o casal e isso é um erro. A criança é apenas mais um.”

O Pequeno Ditador Cresceu, página 59

Têm demasiada liberdade

Para Javier Urra a infância está demasiado reduzida, no sentido em que os mais novos, por critério dos próprios pais, já podem optar e decidir sobre determinados assuntos. Não é por acaso que, no que toca a crianças tiranas, estas conseguem que a vida familiar seja organizada em sua função. Dito isto, Urra enfatiza que a liberdade deve ser dada com uma boa dose de limites à mistura e admite que as famílias tendem a tratar os filhos como tesouros de palmo e meio, razão pela qual deixa uma ressalva: “Nós, pais, não somos escravos dos nossos filhos. Somos pais e temos os mesmos direitos que têm os filhos.”

“Uma sociedade permissiva que educa os filhos nos seus direitos e não nos seus deveres produz filhos tiranos. Introduziu de forma equívoca o lema ‘não pôr limites’ e ‘deixar fazer’, abortando uma correta maturação. Para ‘não traumatizar’ fazem cedências, permitem-lhes e oferecem-lhes tudo. Existe hoje em dia uma falta total de autoridade dos pais em relação aos filhos.”

Fazem birras intencionais

Tudo começa muito cedo e as birras podem servir de diagnóstico para os pequenos (grandes) ditadores — são disso exemplo os momentos em que uma criança faz uma fita desesperante e, como consequência, os pais cedem aos seus pedidos. Mas uma coisa é o capricho, esclarece o psicólogo, outra é uma situação que provoca ira e cólera numa criança. Javier Urra assegura que os mais novos são capazes de chantagear com o carinho e com recurso à birra.

“O seu comportamento colérico, para lá da simples convulsão, faz temer uma adolescência conflituosa e talvez contribua para aumentar um problema social sério: a violência juvenil.”

O Pequeno Ditador Cresceu, página 56.

Mas porque é que a fita está no começo de tudo? Porque depois dela vem o pontapé que muitas vezes é menosprezado pelos pais. Sobre isto o psicólogo e pedagogo faz questão de lembrar que o que hoje é um pontapé “inofensivo” — porque a criança ainda é pequena –, amanhã poderá ter outras proporções e consequências. A isso seguem-se ainda os insultos, a humilhação e, em algumas circunstâncias, a violência física. E, garante Urra, é sempre a mãe quem sofre em primeiro lugar.

Dão ordens aos pais e são insensíveis

Os pequenos tiranos costumam ser filhos únicos ou, então, têm irmãos que já abandonaram o lar. Mas há mais: são crianças caprichosas, que não conhecem limites e até dão ordens aos pais e chantageiam todos aqueles que se metem no seu caminho. Além de quererem ainda ser constantemente o centro das atenções, são desobedientes e apresentam uma grande insensibilidade emocional.

Não sabem aceitar a frustração

À partida são crianças que desde cedo não sabem ouvir a palavra “não”, o que ajuda a explicar que tenham dificuldades em lidar com a frustração e em desenvolver sentimentos de culpa. São ainda muito paranoicas ou sensíveis a tudo o que possa parecer ou soar contra a sua pessoa ou que lhes possa causar dano. Num mesmo sentido há outras caraterísticas a registar: por norma são egoístas, narcisistas e até hedonistas.

“Há que ensinar os filhos a aceitar as situações que nos incomodam e desgostam, a conviver com alguns fracassos. O êxito é efémero. A felicidade completa não se pode atingir. (…) Aceitar e enfrentar frustrações forja uma personalidade mais sã, equilibrada e madura.”

O Pequeno Ditador Cresceu, página 147

Tenho um filho tirano, o que posso fazer?

Tal como o autor disse em entrevista ao Observador, o livro em questão foi escrito para prevenir que uma criança se torne numa pequena ditadora. Quer isto dizer que, caso o filho adolescente já manifeste os comportamentos acima assinalados, o melhor será consultar a ajuda de um profissional. No entanto, até aí chegar há alguns conselhos a registar, tendo sempre em conta que os três primeiros anos de vida são fundamentais na aprendizagem e nos ensinamentos de cada criança, os quais têm o poder de moldar a respetiva personalidade.

Eis algumas normas básicas de disciplina para os mais novos, retiradas da obra de Javier Urra:

  • Obedecer aos pais;
  • Não bater (aos pais, irmãos, amigos);
  • Não mentir;
  • Não responder com maus modos;
  • Não gritar quando se zanga;
  • Não interromper os mais velhos quando estão a falar;
  • Não partir ou estragar coisas da casa e da escola;
  • Não tirar coisas aos irmãos e/ou amigos;
  • Respeitar os horários para almoçar, jantar, estudar, brincar e ir para a cama;
  • Não ameaçar os pais que vai fugir de casa.

E para que uma ordem ou instrução seja eficaz…

  • Dê apenas uma instrução de cada vez, não repita ordens mil vezes;
  • É mais eficaz dar uma ordem de maneira consecutiva do que tentar impor várias ao mesmo tempo;
  • Dê oportunidades de obedecer mediante avisos e lembretes;
  • Elogie a obediência e estabeleça consequências para a desobediência. Se a criança sabe que uma atitude ou ação concreta implica sanção e a comete, que esta seja cumprida.

Proponha uma correção, sugira uma pista: acmarques@observador.pt

 

 

 

Filhos tiranos que maltratam os pais são já uma “pandemia”

Fevereiro 17, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 2 de fevereiro de 2016.

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Lusa

Denúncia é do psicólogo espanhol Javier Urra, que publica agora em PortugalO Pequeno Ditador Cresceu”

O psicólogo espanhol Javier Urra afirma que há uma pandemia de violência filial em países como Portugal e Espanha, onde crescem os casos de mães e pais maltratados pelos filhos, que sabem “como é fácil ser-se tirano”.

“Aprender a ser um pequeno ditador é muito fácil, é muito cómodo. É muito fácil ser tirano se temos alguém que aceita ser escravo”, resume em entrevista à agência Lusa o psicólogo e terapeuta espanhol, que lançou agora o livro O Pequeno Ditador Cresceu, uma espécie de sequela da obra O Pequeno Ditador, que desde 2007 vendeu 33 mil exemplares em Portugal e que vai já na 18.ª edição.

Só em Espanha, as denúncias por maltratos de filhos contra pais passaram de cerca de 2.300 em 2007 para quase 5.000 em 2014.

“Estamos perante uma pandemia de violência filial”, assume Javier Urra no seu novo livro, sublinhando que há cada vez mais famílias que convivem com a realidade do mau trato ou violência por parte dos filhos.

São ameaças, agressões ou insultos. A agressão começa “em crianças muito pequenas”, que insultam ou estragam coisas. Depois ameaçam e, de seguida, passam ao mau trato verbal/ emocional e, nalguns casos, atingem a violência física.

Em 10 anos, desde a publicação do livro O Pequeno Ditador, Urra insiste que, mesmo que a realidade não tenha piorado, não melhorou certamente.

“Os pais deixam-se chantagear. Em Portugal e em Espanha, temos poucos filhos, mas temos muitos que se revoltam contra os seus pais e até contra os seus avós”, afirmou à Lusa.

Segundo as estimativas recolhidas pela equipa de Javier Urra, 65% dos agressores são rapazes e 35% são raparigas. As mães são, maioritariamente, as vítimas.

“Sendo quase sempre as mães, a violência de género pode incrementar. Se um rapaz agride a mãe, é provável que amanhã agrida a sua companheira”, julga o autor, que foi o primeiro Provedor de Menores em Espanha.

Javier Urra não tem dúvidas de que há mais violência de pais contra filhos do que o contrário, mas ainda assim sabe que são cada vez mais as famílias que convivem com a realidade da violência filio-parental, impensável há uns anos, e muito silenciada, por vergonha e sensação de culpa.

“Estou há anos a tentar ser porta-voz daqueles que gritam em silêncio, contando a sua dramática situação, assegurando que nem sempre são culpados”, escreve o autor no novo livro, sublinhando a situação de desespero pela qual passam os pais quando chegam a ter de denunciar os seus filhos, incluindo à justiça.

Passou-se de uma sociedade em que as crianças não tinham direitos e inverteu-se completamente o padrão: “as crianças sentem-se reis, tiranos, ditadores. Tudo gira à sua volta”.

Prova de que os filhos violentos estão a aumentar é a afluência no centro de tratamento dirigido por Javier Urra, a algumas dezenas de quilómetros de Madrid, onde acorrem uma média de 100 crianças por ano, apesar de um mês de tratamento ficar acima dos quatro mil euros – mais de mil euros suportados pelos educadores e o resto com apoio do Ministério da Saúde espanhol.

Em quatro anos, pelo programa de tratamento deste psicólogo já passaram perto de 370 crianças ou jovens, a maioria com 16, 17 e 18 anos. Três em cada quatro casos são recuperáveis, com Javier Urra a admitir que recebe geralmente os jovens que cometem delitos mais graves ou cuja relação com os pais é quase de fim de linha.

Durante cerca de um ano, estes jovens permanecem no centro de Urra, a 70 quilómetros de Madrid – que já foi procurado por duas famílias portuguesas -, onde os pais devem comparecer umas três vezes por mês: uma para terapia individual, outra para terapia de casal e uma terceira para terapia em grupos de pais. Acresce ainda uma reunião mensal com os filhos.

“Nos primeiros 15 dias, pais e filhos nem sequer podem falar por telefone. E durante quase um ano estão separados. Há que separar, o ambiente em volta está muito contaminado. As crianças ficam em permanência; há escola, sim, mas dentro do ‘campus'”, escreve o terapeuta, referindo-se ao centro onde trabalha mais de uma centena de pessoas.

Não é um sítio fechado, um encerramento, mas a criança deve estar absolutamente circunscrita e limitada, defende Javier Urra, que não esconde a ambição de abrir um centro congénere em Portugal.

No entanto, este desejo só seria possível com apoio ministerial, uma vez que o tratamento, como o próprio reconhece, “custa muitíssimo dinheiro” para ser suportado integralmente pelas famílias.

 

 

 


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