Conflitos dos jovens com a família associados a dependências online

Abril 24, 2015 às 3:51 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 22 de abril de 2015.

Manuel Roberto  Arquivo

Adriana Neves

Isolamento e depressão são outros sintomas de quem passa demasiado tempo na internet.

Um em cada dez jovens apresenta sintomas do uso problemático da Internet. Quatro em cada dez admitem que são dependentes do mundo online. Estas são algumas das conclusões de um estudo que envolveu 645 adolescentes do 3.º ciclo do ensino básico.

O projecto “Uso da internet nos jovens: um projecto de promoção da saúde” tem como objectivo alertar para os riscos da dependência online e, ao mesmo tempo, tirar algumas conclusões acerca do comportamento dos jovens e do ambiente em que se inserem.

Os resultados da linha de investigação vão ser apresentados na íntegra esta quinta-feira no Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente, em Lisboa.

Ivone Patrão, coordenadora de investigação na área das dependências online no Instituto Superior de Psicologia Aplicada-Instituto Universitário (ISPA – IU), explica ao PÚBLICO que na investigação desenvolvida concluiu que pessoas com grandes dependências online estão mais predispostas ao “isolamento, à depressão e a conflitos com a família”. A investigadora alerta que, para além de não ser um estilo de vida saudável, “há riscos relacionais e sociais associados” às pessoas que “vivem através da Internet”.

Segundo Ivone Patrão, os hábitos relacionados com a Internet são diferentes para os rapazes e para as raparigas. Eles preferem os jogos online enquanto elas passam grande parte do tempo nas redes sociais. No entanto, Ivone Patrão indica que não há informação suficiente que permita concluir que uma dependência tem mais efeitos negativos do que outra.

A investigadora adianta que colaborou também numa intervenção paralela realizada numa escola profissional na área de Lisboa que abrangeu 80 jovens do ensino secundário. Ivone Patrão explicou que promoveu diversas actividades onde se envolvem directamente os jovens, como “teatros, vídeos e palestras”, com o objectivo de alertar toda a comunidade escolar para os riscos do uso excessivo da Internet. A ideia foi que, em vez de uma palestra tradicional, todos pudessem divulgar informação de forma criativa. A temática das dependências online foi dinamizada durante uma semana.

Em Novembro, a mesma investigadora explicou ao PÚBLICO que tinha realizado um outros estudo que concluia que quase três quartos da população dos 14 aos 25 anos apresentava sinais de dependência do mundo digital. Na altura, foram 900 os jovens inquiridos.

Esta quinta-feira, para além deste estudo, vão ser apresentados no mesmo congresso outros trabalhos com “Tecnologia e Criatividade” como tema central. É o caso de uma investigação que, por exemplo, concluiu que os rapazes transgridem mais na condução do que as raparigas ou que há um aumento de comportamentos violentos associados ao uso do computador.

Depois da apresentação de resultados dos vários trabalhos, pretende-se encontrar resposta para “Crianças e jovens e as novas tecnologias: risco ou oportunidade?”.

Texto editado por Andrea Cunha Freitas

Mais de 70% dos jovens portugueses com sinais de dependência da Internet

Novembro 4, 2014 às 2:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 3 de novembro de 2014.

Filipe Arruda

Samuel Silva

Estudo do ISPA mostra também que 13% dos casos são graves, podendo implicar isolamento e comportamentos violentos.

Este é o retrato de uma geração que vive quase permanentemente ligada. Através dos computadores ou dos dispositivos móveis, os jovens e adolescentes nacionais passam muito do seu tempo na Internet. Um tempo excessivo em muitos casos. Um estudo do ISPA mostra que quase três quartos da população até aos 25 anos apresenta sinais de dependência do mundo digital. Em casos mais extremos, o vício do online pode implicar isolamento, comportamentos violentos e obrigar a tratamento.

“Percebemos que a dependência da Internet é generalizada”, sintetiza a investigadora da Unidade de Intervenção em Psicologia do ISPA – Instituto Universitário, Ivone Patrão, coordenadora deste estudo. Nos últimos dois anos, este trabalho passou por três fases de aplicação de questionários junto de jovens e adolescentes dos 14 aos 25 anos, envolvendo quase 900 inquiridos. Esta é, portanto, uma imagem com grande-angular do que está a acontecer em muitas casas.

Os exemplos recolhidos pelo PÚBLICO corroboram os resultados da investigação. Quase todos os casos partilham também o pedido para que seja mantida a reserva da identidade dos jovens envolvidos. As histórias repetem-se, porém, e soam familiares aos pais. Alguns adolescentes deixam para trás um percurso académico de bom nível para se fecharem no quarto a jogar computador dia e noite. Há amizades de infância que são postas de lado em detrimento do contacto online. O isolamento em relação à família, as mudanças de comportamento, os casos de violência inexplicável face ao insucesso num jogo digital ou à proibição de continuar ligado, são outros comportamentos comuns.

Os investigadores do ISPA também elencam alguns componentes-chave para identificar os casos de dependência da Internet numa espécie de retrato-tipo do jovem viciado no mundo online: grau elevado de importância conferido ao computador ou aos dispositivos móveis; sintomas de tolerância face ao uso; sintomas de abstinência face ao não uso (como irritabilidade, dores cabeça, agitação e por vezes agressividade) e, em casos mais extremos, recaída face às tentativas sucessivas para parar.

Os números a que chegou a equipa de Ivone Patrão no ISPA dão uma outra camada de leitura desta realidade. Há quase três quartos (73.3%) dos jovens que apresentam sintomas de viciação na Internet. Destes, 13% apresentam níveis severos de dependência, que se manifestam através dos comportamentos mais extremos descritos pelos pais e elencados pelos investigadores. Os próprios jovens parecem ter noção disto, uma vez que mais de metade (52,1%) dos inquiridos se percepciona como “dependentes da Internet”.

Maioria frequenta o secundário

Os investigadores do ISPA chegaram também a outro retrato-tipo: os jovens dependentes são sobretudo do sexo masculino, não têm relacionamento amoroso e frequentam o ensino secundário. Este foi um dos primeiros resultados a que a equipa da Unidade de Intervenção em Psicologia chegou, em 2012, quando aplicou um primeiro questionário – desenvolvido pela Nottingham Trent University, que é parceira deste trabalho – de modo a validá-lo para a realidade portuguesa. As conclusões iniciais motivaram a continuação da investigação nas duas fases seguintes, que agora são divulgadas publicamente.

Outros estudos recentes confirmam os sinais de uma geração cada vez mais dependente da tecnologia, levando mesmo a situações-limite em que “é posto em causa o bem-estar físico” dos jovens e adolescentes, conta a investigadora da Faculdade de Ciência Sociais da Universidade Nova de Lisboa, Cristina Ponte, que liderou os projectos EU Kids Online e, mais recentemente, Net Children Go Mobile.

Neste último trabalho, cujos resultados nacionais serão discutidos numa conferência no final do mês, 6% dos jovens admitem ter ficado “sem comer ou sem dormir por causa da Internet”, por exemplo. “Há uma pressão para estarem sempre ligados”, avalia esta especialista. Na sua investigação recolheu exemplos que atestam esta situação, como a de um menino de 12 anos que contava, por entre risos, que no smatphone e no tablet nunca se fica offline, por causa dos sinais sonoros com os alertas para as actualizações no email ou nas redes sociais. O rapaz dava também conta da forma como os amigos ficavam zangados se ele não respondesse rapidamente a alguma mensagem, por exemplo, mesmo no horário em que devia estar a dormir.

“Os jovens estão a usar demasiado as tecnologias. Quase minuto a minuto”, confirma Rosário Carmona, psicóloga, que tem tratado casos de dependência da Internet no Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil (Cadin), em Cascais. “Quando lhes pergunto se já foram ao email hoje, eles riem-se. Não foram ao email, porque não saíram do email”, ilustra.

Rosário Carmona tem lidado com os casos mais patológicos de dependência do mundo online, aqueles em que “a utilização da Internet se sobrepõe a outras dimensões da vida” e que estão sobretudo associados aos jogos multiplayer. “É um ciclo vicioso”, expõe. O jovem tem dificuldades em fazer amigos e por isso joga muito tempo. Torna-se cada vez melhor no jogo e prefere ficar em casa a jogar, em vez de sair para estar com amigos, a família ou mesmo ir à escola. “Todos procuramos aquelas situações em que somos mais competentes”, explica a psicóloga.

Dependência associada a depressão

Uma das principais conclusões a que chegou a equipa do ISPA no seu estudo sobre os usos da Internet foi a de que os jovens que apresentam sinais de dependência do mundo online têm também sintomas de isolamento e, por vezes, de depressão. Entre os inquiridos do estudo do ISPA que revelam sinais de dependência, quase um quarto (22,1%) apresenta elevados níveis de isolamento social. “Esta dependência está associada ao isolamento social, mas não está associada ao isolamento emocional”, adverte, porém, Ivone Patrão, coordenadora deste trabalho.

Estes são jovens isolados, mas que encontram nas conversas e nos encontros online “um escape”. Esta é, portanto, uma dependência que “traz uma mais-valia”, ainda que do ponto de vista psicológico não seja saudável, expõe a mesma especialista. “O desafio da adolescência é sair do núcleo familiar e passar o foco para o mundo social. Na Internet, tudo isto é mais fácil”, acrescenta Rosário Carmona, da Cadin. Os jovens têm a sensação de satisfazer online as suas necessidades de contacto social. A psicóloga encontra também entre os dependentes do mundo virtual com quem costuma lidar sintomas de isolamento ou depressão.

“Na prática clínica, estamos a perceber que a dependência não é causa, mas consequência”, diz. Quando um adolescente fica deprimido, por força de algum episódio escolar ou familiar, por exemplo, está a conseguir encontrar nas novas tecnologias um refúgio.

Por isso, a especialista não é apologista da solução mais comumente encontrada pelos pais para responder ao uso excessivo do computador pelos filhos e que é fruto de tensões familiares: retirar o computador ou limitar fortemente o acesso a ele. “O uso excessivo da Internet está a suprir uma outra necessidade do jovem. Se lhe tiramos o computador, ele fica no vazio. É preciso fazê-lo ganhar o gosto por actividades alternativas, antes de diminuir o tempo online”, defende a psicóloga que, recentemente, fez um estágio num centro especializado no tratamento de casos de dependência em Seul. Na Coreia do Sul, o problema tomou tal dimensão que o Ministério da Educação já promove a identificação precoce de crianças e jovens em risco e a realização de programas de prevenção.

Intervenção de prevenção

Por cá ainda não há nenhuma iniciativa do género. Esta é “uma área emergente”, classifica Ivone Patrão do ISPA, em que “importa intervir do ponto de vista preventivo”. “Temos cada fez mais pessoas com acesso a computador e na experiência clínica percebo que cada vez mais os adolescentes estão entregues a si próprios no uso do computador. Há uma necessidade de educar os jovens para a forma como podem fazer um uso saudável destes dispositivos”, propõe a investigadora.

A dependência da Internet é considerada uma dependência comportamental, sem substância. “As consultas que existem destinam-se a dependências de substâncias, como o álcool e as drogas”, explica Ivone Patrão, alertando para as limitações destas terapêuticas. O passo seguinte da investigação do ISPA passará, por isso, pelo desenvolvimento de formas de intervenção e terapêuticas para contrariar o vício do online nos jovens em Portugal. Noutros países, estão a ser dados passos na farmacologia, no sentido de desenvolver novas drogas que actuem sobre estes casos específicos.

Esta discussão foi alimentada pela nova edição do Manual de Diagnóstico das Doenças Mentais (DSM-V), lançada pela Associação Americana de Psiquiatria no ano passado, que inclui um anexo em que é recomendado o estudo e a compreensão dos critérios de diagnósticos das dependências comportamentais como as dos jogos e da Internet. Em Portugal, o Plano Nacional dos Comportamentos Aditivos e das Dependências 2013-2020, aprovado na semana passada pelo Conselho de Ministros, prevê o alargamento da área de intervenção do SICAD às dependências sem substância como o jogo ou a Internet.

 

 

Metade dos professores portugueses sofre de stress, ansiedade e exaustão

Junho 18, 2012 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 11 de Junho de 2012.

Por João d´Espiney

Investigadoras do ISPA inquiriram mais de oitocentos docentes de todo o país. A indisciplina e o desinteresse dos alunos, o excesso de carga lectiva e a extrema burocracia nas escolas são os principais motivos apontados.

Luís e Catarina são professores do ensino básico e sentem frequentemente que não conseguem estar à altura do que a profissão lhes exige. Ambos sofrem da chamada síndrome de burnout, um estado físico, emocional e psicológico associado ao stress e à ansiedade que, nos casos mais graves, pode mesmo levar à depressão.

Os dois não estão sós. Segundo um novo estudo conduzido por duas investigadoras do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), metade dos professores portugueses sofre deste distúrbio, que se manifesta mesmo nos níveis mais elevados em 30% dos docentes. O estudo resultou de inquéritos a 807 professores de escolas públicas (a larga maioria) e privadas de Portugal continental e regiões autónomas.

Luís (nome fictício) tem 40 anos, 18 dos quais a dar aulas de Língua Portuguesa e Oficina de Teatro a alunos do 3.º ciclo do ensino básico e a leccionar em Cursos de Educação e Formação, destinados a alunos com mais de 15 anos e com um historial de insucesso escolar. Catarina (que também pediu para não ser identificada pelo nome verdadeiro) tem 48 anos e é professora desde 1984. Dá aulas de Língua Portuguesa, Estudo Acompanhado e Formação Cívica no 2.º ciclo, apoia dois alunos com necessidades educativas especiais e é há vários anos correctora de exames nacionais, além de ser directora de turma e coordenadora de ciclo.

“Um grande vazio”

“O sentimento de ansiedade torna-se gradualmente presente, assim como as suas consequências, nomeadamente o recurso prolongado a ansiolíticos”, sintetiza Luís, garantindo que há “muitos professores” que recorrem a ajudas de “carácter psicológico e psiquiátrico, que incluem medicação forte”.

“Esta é uma realidade observável através dos comportamentos, da forma de andar e falar. As queixas habituais revelam o extremo cansaço e até mesmo um tom de desespero, justificados pelas situações crescentes de indisciplina e desinteresse dos alunos, o que gera um sentimento de impotência e inevitabilidade”, explica o docente.

Catarina concorda: “Muitas vezes, a sala de professores parece o muro das lamentações”, conta. “A diversidade de tarefas é uma evidência” e “a carga horária é cada vez maior”, diz esta professora, que exemplifica ainda com as “as reuniões constantes e intermináveis”, “os alunos mais agitados e sem regras” e “os pais e encarregados de educação que “entram” na escola de forma muito negativa”. “Inicialmente senti-me angustiada por verificar que a minha verdadeira função estava a ser posta em causa”, descreve a professora, salientando que procurou sempre adaptar-se ao que lhe foi sendo pedido. Mas hoje sente “um grande vazio”.

De acordo com a investigação realizada por Ivone Patrão e Joana Santos Rita, são sobretudo os professores do sexo feminino, mais velhos e com vínculo profissional que apresentam níveis de burnout superiores. O primeiro aspecto apontado pelos docentes como causa para o distúrbio prende-se com a dificuldade de gestão dos problemas de indisciplina na sala de aula, com a percepção da desmotivação para o estudo por parte dos alunos e pela pressão para o sucesso. O segundo factor relaciona-se com a insatisfação com a carga lectiva que lhes é atribuída, por todas as responsabilidades não-educacionais e pela falta de trabalho em equipa e de suporte das chefias, além da pressão de supervisores no que toca à avaliação de desempenho.

Luís não tem mesmo dúvidas em afirmar que o actual sistema de avaliação de desempenho, que considera “desonesto e injusto”, contribuiu decisivamente para o estado em que se encontra e que o leva a questionar cada vez mais o interesse que sente pelo ensino.

As duas investigadoras do ISPA concluíram ainda que os professores do ensino secundário apresentam valores mais elevados de stress e exaustão emocional, sendo também os que mais se queixam de falta de reconhecimento profissional. Além de se sentirem colocados perante níveis de exigência e expectativas superiores para a execução do seu papel, criticam a falta de condições organizacionais nas escolas e a muita burocracia associada à profissão.

Mais intervenção

O estudo, iniciado em 2009, ainda está em curso, salientam ao PÚBLICO as autoras da investigação. “Vamos continuar a recolher dados”, diz Ivone Patrão, explicando que falta avaliar, face aos dados já apurados, “quem recorre à medicação e quem está a realizar intervenção psicológica”. Joana Santos Rita revela, por outro lado, que agora estão interessadas em perceber quais “os factores e as estratégias que facilitam a resiliência e o envolvimento dos professores que mantêm níveis elevados de bem-estar” profissional.

Apesar da falta de investimento nesta área e de terem consciência de que “é impossível ter um psicólogo em cada escola”, as duas investigadoras defendem a necessidade de “dar o salto para a intervenção” através de “metodologias que partam das experiências boas e más dos professores”.

Ivone Patrão salienta que os próprios professores inquiridos no estudo apontam “necessidades formativas”: 53% querem formação em gestão de conflitos, 22% em competências comunicacionais e 19% em desenvolvimento pessoal. Embora em menor número, há quem também peça formação em actividades mais dirigidas para os alunos ou para a promoção da saúde física e mental dos estudantes.

Joana Santos Rita garante que “esta oferta formativa não existe”, mas “cada escola pode definir as suas próprias intervenções”. As comunidades de aprendizagem “podem ser o caminho” e “qualquer escola pode ganhar com uma intervenção em grupo”, acrescenta Ivone Patrão.

Apesar da “descrença” e do “desânimo”, Luís ainda não perdeu a esperança. Considera “que é fundamental continuar a acreditar” que as coisas vão mudar e que vai conseguir “manter interesses e actividades que compensem o sentimento de perda”.

 

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