Como lidar com esta nova geração “dependente” da tecnologia

Abril 23, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://visao.sapo.pt/ de 8 de abril de 2018.

CLARA SOARES

Jornalista e Psicóloga

Duas psicólogas, especialistas em perturbações que afetam os adolescentes, falam das pressões excessivas e dos exageros da vida virtual. Não é à toa que a Organização Mundial de Saúde acabou de incluir o “vício de videojogos” na sua lista de doenças do foro psiquiátrico.

IVONE PATRÃO

A investigadora do ISPA – Instituto Universitário de Psicologia Aplicada e autora do livro Geração Cordão defende que os adultos devem falar com as crianças desde cedo sobre 
o uso da tecnologia

Os adolescentes passam demasiado tempo online ao ponto de isso lhes alterar o humor?

Há dez anos, comecei a receber na clínica jovens com indicação de comportamentos agressivos e alterações do sono, mas que nada tinham que ver com perturbação de hiperatividade e défice de atenção. Estavam ligados à dependência online. 
A dependência da tecnologia compromete a alimentação, o sono, o rendimento escolar, as relações com os outros. Numa pesquisa que fizemos com meio milhão de adolescentes que usa smartphone, 14% deles tiveram a cotação máxima em dependência da internet.

A vida virtual e o multitasking afetam o funcionamento 
do cérebro juvenil? 
Há diferenças de género?

Quem já tem outros fatores de risco para sintomas ansiosos e depressivos fica mais vulnerável. 
Os estudos na área da neurobiologia, com recurso a ressonâncias magnéticas, mostram que são ativadas as mesmas zonas cerebrais (da recompensa) nos utilizadores da internet e de videojogos. O excesso 
do seu uso limita o desenvolvimento 
e o treino das competências sociais 
e da autonomia. Uma investigação com 2 220 jovens, entre os 12 e os 30 anos, permitiu perceber que os rapazes tendem a ligar-se mais aos videojogos 
e as raparigas às redes sociais.

Os miúdos aprendem por imitação e seguem o modelo dos pais. Estes estão à altura?

Os jovens, com legitimidade, perguntam: “Então o meu pai não me deixa estar na internet e, à uma da manhã, põe um post no Facebook?” Chegam aos 16 anos sem nunca terem conversado sobre isto com os pais ou recebem respostas vagas como “podes estar, mas só um bocadinho” ou “já estás nisso há tempo demais”. 
Não são exemplos a seguir.

Os jovens podem ficar deprimidos pelo medo da comparação social 
na vida real. Como se lida com isto na vida virtual?

A pressão do grupo sempre existiu. 
A vida online amplia essa pressão, eles ficam 24 horas ligados, sem parar 
para refletir, como acontecia antes. Deixaram de ter time out. Assumo que a sintomatologia ansiosa e depressiva tem que ver com esta sobrecarga. Aconselho os pais a promoverem momentos de encontro. Definam regras, como o não usar ao jantar, sem exceções, seja o jogo ou o email de trabalho a enviar. Mas falem uns com os outros!

TERESA LOBATO FARIA

A especialista lembra que os jovens precisam de se sentirem compreendidos e aceites pelos adultos, sem pressões excessivas nem julgamentos. E deixa pistas para os pais e os professores
Porque se agravam 
os sintomas ansiosos e depressivos 
na adolescência?

Essa é a altura da vida em que os jovens começam a questionar e a tomar decisões, a imitar o que fazem os amigos. 
É também nessa altura que surgem atitudes de isolamento ou de rebeldia. Há também a questão genética, o bullying, a rejeição do grupo e o stress crónico nas famílias. O imediatismo social dominante limita a capacidade de esperar e de resistir à frustração. 
A ansiedade vem antes da depressão 
e é um fator de risco para esta.

O que faz com que haja jovens que se sintam menos bem na escola, chegando mesmo a vomitar?

Vomitar pode traduzir uma fobia escolar ligada à angústia da separação ou ao excesso de exigência e à pressão para o sucesso. Muitas vezes, os adultos exigem em vez de ajudarem. Por exemplo, quando divulgam nas redes sociais o facto de o filho estar no quadro de honra… A intenção até pode ser boa, mas a comparação social cria sensações de incapacidade.

A adolescência não é uma doença. 
Há alguma coisa que está 
a escapar aos adultos?

O pior que se pode dizer a um adolescente aflito é: “Tu sabes, tu consegues.” Isto agrava o problema, conduz a estados de desistência e de falta de esperança. Outros erros comuns: numa turma, castigar os malcomportados sem ter a sensibilidade de avaliar o impacto que isso tem sobre os perfeccionistas, que vão para as aulas com uma ansiedade horrível; pais que ficam ofendidos se os jovens preferem programas com amigos às saídas com eles.

Que fatores contribuem 
para uma adolescência tranquila?

A partilha familiar, que é um fator protetor por excelência, mas existe pouco, 
e ter abertura para aceitar os deslizes e a experimentação dos miúdos. Imagine que o vê a fumar – mas é fumador, está em risco ou só a experimentar? Os pais também não devem ficar sentidos perante os primeiros sinais de autonomia dos filhos, o que é saudável. Quando os vossos filhos se queixam, levem-nos a sério. Evitem que meros mal-entendidos se tornem conflitos enormes. Saibam ouvir e respeitar para que eles não se sintam incompreendidos e cresçam com chão e esperança.

 

 

 

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16 seria o ideal mas há crianças portuguesas a navegarem online sozinhas desde os 8 anos

Março 12, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://tek.sapo.pt/ de 15 de fevereiro de 2018.

Em França fala-se nos 15 anos como idade mínima para deixar de ser necessária a autorização dos pais para criar perfil no Instagram, no Snapchat ou no Facebook. E em Portugal?

Da teoria à prática a distância é normalmente grande e tal parece aplicar-se às regras de utilização de redes sociais como o Instagram, o Snapchat ou o Facebook. O funcionamento destes serviços estabelece os 13 anos como idade mínima para criar perfil, mas há quem comece a navegar sozinho muito antes, alerta a psicóloga Ivone Patrão.

“O acesso às redes sociais sempre foi barrado a menores. Geralmente fazem uma permissão a partir dos 13 anos, mas o que se observa é que isto não é respeitado. Falo todos os dias com jovens e pais e sei bem isso”, referiu em declarações ao SAPO TEK.

A autora do livro #GeraçãoCordão acrescenta que nos estudos que tem desenvolvido, a média de idades de acesso à internet sem supervisão parental é de oito anos. “A partir daqui está tudo dito”.

O novo Regulamento Geral de Proteção de Dados vai trazer força legal a estas regras que não têm sido respeitadas. O diploma que os Estados-membros terão de adotar até 25 de maio próximo define que “só os menores com idade igual ou superior a 16 anos podem dar consentimento válido para o tratamento de dados pessoais relacionados com a oferta direta de serviços da sociedade de informação, tais como serviços online”. Prevê, no entanto, que os países da União Europeia estabeleçam uma idade inferior para esse consentimento, “desde que seja salvaguardado o limite mínimo de 13 anos”.

França já fez a sua proposta nesse sentido. A Assembleia Nacional daquele país fixou nos 15 anos a idade mínima para um cidadão francês criar sozinho um perfil numa rede social. Entre os 13 e os 15 anos tal será possível com o consentimento de cada um dos progenitores ou responsáveis legais e abaixo dos 13 fica proibido.

Algo idêntico poderia ser seguido em Portugal, na opinião de Ivone Patrão. A psicóloga considera que, nas idades mencionadas, “já se adquiriu maior maturidade cognitiva e emocional, para exercer algum autocontrolo face ao que pode surgir online”.

Acrescenta que “é importante que se legisle”, e além disso também é importante “o legislador conhecer os dados da realidade e perceber que temos muitas crianças e jovens em risco, pela ausência da supervisão de um adulto, quando contactam com o mundo online”.

Em Portugal, o RGPD já esteve em consulta pública, não sendo conhecida ainda uma proposta final própria no que diz respeito às idades escolhidas.

 

 

Há cada vez mais crianças com menos de 13 anos a usarem as redes sociais

Fevereiro 11, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia da http://sicnoticias.sapo.pt/ de 25 de janeiro de 2018.

visualizar o vídeo da reportagem no link:

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2018-01-25-Ha-cada-vez-mais-criancas-com-menos-de-13-anos-a-usarem-as-redes-sociais

Apesar de ser necessário ter no mínimo 13 anos para fazer o registo em plataformas online, um estudo britânico demonstra que a grande maioria das crianças entre os 8 e os 12 anos utiliza as redes sociais regularmente. Muitas dependem já da aceitação em redes como o Facebook ou o Instagram.

estudo levado a cabo pela comissária para as crianças de Inglaterra alerta os pais e deixa recomendações às escolas e empresas que gerem redes sociais.

“Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que não foram identificados como tal”

Maio 16, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.publico.pt/ a Ivone Patrão no dia 7 de maio de 2017.

A professora teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa da Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Bárbara Wong

Nas últimas semanas, o país foi surpreendido com um jogo que pode levar os que aderem ao suicídio, é a última etapa do jogo, antes disso as propostas passam pela automutilação. É o jogo Baleia Azul e tem tido aderentes que vão parar ao hospital. Paralelamente há uma série para jovens e adolescentes, com produção executiva da ex-estrela da Disney Selena Gómez, que também gira em torno do suicídio de uma adolescente e que já levou escolas nos EUA a boicotar a série; na Nova Zelândia e no Canadá, os departamentos responsáveis pela classificação dos filmes considerou a série Por 13 Razões não adequada a jovens com menos de 18 anos e no Brasil a visualização levou a que centenas de jovens pedissem ajuda. A série que é uma adaptação do livro de Jay Asher aborda ainda a violação, o bullying, a depressão e a falta de acesso a cuidados de saúde mental.

A psicóloga Ivone Patrão, que trabalha na primeira consulta de dependência de Internet no país, que funciona no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, escreveu recentemente o livro #geração-cordão sobre as gerações que estão dependentes das novas tecnologias. A também professora no ISPA- Instituto Universitário teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa do Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Temos o jogo Baleia Azul e temos a série Por 13 Razões onde o suicídio está permanentemente presente. Até que ponto estes não servem para despoletar nos jovens o desejo do suicídio?

Claro. Confrontamo-nos com jovens que estão em sofrimento e se estas tarefas do Baleia Azul não existissem eles estariam a automutilar-se e a instituir um plano suicida. O jogo ou a série só vêm dar o mote. Há um sofrimento físico que ajuda a anular o sofrimento psicológico. O jovem pensa: “Eu sinto-me tão deprimido, tão vulnerável, tão mal que ao cortar-me sinto-me aliviado” e este jogo, para um jovem isolado, surge como alguém que não faz juízos de valor e o incita.

Até que ponto esta geração está mais perdida do que as anteriores porque têm menos perspectivas de vida?

Não diria que é uma geração perdida, mas que tem um risco que as anteriores não tinham, por causa do acesso fácil a tudo, por não ter de saber as coisas mas só o sítio onde elas estão. Com as tecnologias eles não fazem time-out, não fazem refresh uns dos outros e não param para reflectir, para pensar, para ajustar a forma de pensar sobre algo que se passou durante o dia. Estão sempre ligados e isso ajuda a que os jovens que estão mais vulneráveis facilmente entrem no jogo. Sobretudo se têm ideias de morte, é como juntar o útil ao agradável. O jogo é uma coisa prazerosa onde se ganha. Aqui é completamente ao contrário.

O suicídio entre os jovens é a segunda causa de morte, diz a OMS.

Primeiro são os acidentes de viação e depois o suicídio. Eu diria que poderá haver muitas situações de suicídio que são considerados acidente e podem não ser. Em termos de número podemos ter dados superiores e não temos valores concretos das tentativas. Tenho situações de jovens que já tentaram suicidar-se três vezes, quer dizer que estão em sofrimento e que quem está à volta não se apercebe. Entrar neste jogo é muito fácil para estes jovens.

Mas o jogo não é também o testar os limites? Ou seja, não pode ser jogado por jovens que não têm esse quadro que descreve?

É comum e típico dos jovens querer testar os limites, mas só até um certo nível, percebem quando há uma zona de perigo. Portanto, se não estiverem em sofrimento ou vulneráveis recuam e não jogam.

As notícias sobre este jogo podem levar mais jovens a entrar no Baleia Azul?

Haverá muitos que terão curiosidade porque querem saber o que é, até que ponto os tentam manipular, mas só jogarão se estiverem em grande sofrimento.

Há tentativas de suicídio online, os jovens entram em directo, mostram aos outros o que vão fazer e que acabam por ser salvos porque alguém que está a ver telefona para a polícia, jovens que nem sequer estão em Portugal (que estão em França, em Espanha, nos EUA) e que alertam as autoridades. Tenho relatos de pais que tiveram a polícia e os bombeiros em casa, de repente, sem saber porquê, quando tinham o filho ou a filha, noutra divisão da casa, a fazer essa tentativa em directo.

Mas o jogo ou a série não podem servir de alerta para não cometer o suicídio?

Pode funcionar não para os que estão em sofrimento, mas para os que vão ouvir as notícias com mais cuidado sobre outros que ficaram hospitalizados ou morreram. Vai funcionar para pais e professores para estarem atentos. Se estas situações não surgissem como é que a população em geral sabia?

Pode servir para jovens falarem com um professor ou com os pais de um amigo que esteja nessa situação. É preciso conhecer os sinais de alerta – alterações de comportamento, baixo rendimento escolar, distanciamento na relação com os colegas.

Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que os profissionais das urgências não identificaram como tal e definiram como automutilação porque o jogo era desconhecido. Haverá mais casos que poderão ser associados ao jogo.

Faz sentido para os jovens jogarem o Baleia Rosa ou vão achar que é uma parvoíce?

É positivo e estará adaptado aos que gostam da lógica dos desafios e de conseguir fazer bem e depressa as tarefas que, neste caso, são adequadas. É preferível que joguem e é de recomendar sempre que peçam ajuda especializada quando se sentem num beco sem saída.

O que é a “geração-cordão” que dá título ao seu livro?

É uma metáfora que tem a ver com a questão de ser uma geração que está sempre ligada às tecnologias e que não tem competências de autonomia e de desenvolvimento do seu projecto de vida, que não corta o cordão umbilical, não se autonomiza, não faz as tarefas da adolescência e está em contacto com o mundo mas só virtualmente. Defendo que é importante cortar o cordão umbilical à nascença e criar laços, deixar as crianças crescer de forma saudável.

Como é que devemos gerir as tecnologias nas nossas vidas?

Ainda estamos a anos-luz. Em inquéritos é muito engraçado os pais responderem: “não deixo estar muito tempo” ou “deixo o tempo que baste” [a usar o computador]. O que é isso? É ausência de clareza e traz muitos conflitos. Muitos jovens chegam à consulta porque os pais não sabem o que fazer. Desde crianças que lhes damos tablets e smartphones sem estabelecer regras e quando chegam à adolescência já é tarde.

Até que ponto os pais também dão um mau exemplo do uso das tecnologias?

Os pais são um exemplo presencial e virtual. E ainda não parámos para pensar nisso. Temos muitos pais com adolescentes que têm Facebook e outras redes e querem instituir regras em casa, mas depois fazem posts à uma da manhã. Costumo dizer que à hora de jantar, a família pode fazer um “encontro da tecnologia” onde se juntam os telefones todos. A tecnologia encontra-se num sítio e a família noutro para conversar e conviver. Dificilmente as pessoas o fazem.

Alguns pais estão conscientes que são um modelo presencial, mas não acredito que tenham a ideia que também são um exemplo virtual. Mesmo com crianças pequenas, estas observam a relação do adulto com a tecnologia e fazem uma aquisição do que vêem. Estamos no princípio da consciencialização e é preciso afinar práticas educativas. É importante que se comece cedo, não a evitar as tecnologias, mas a enquadrá-las, introduzindo-as com regras e limites.

Haverá mais situações de jovens e crianças em risco e mais a experimentar o Baleia Azul. Tenho acompanhado jovens com automutilação. Lembro-me de uma jovem que não conseguia verbalizar e escrevia sobre a sensação que tinha quando se cortava, era um alívio, tudo ficava mais simples e mais fácil de lidar.

Como é que se resolve?

Há uma componente de intervenção com a família. É importante que os objectos cortantes não estejam disponíveis, que a família não faça juízos de valor, mas que compreenda o que se passa. Geralmente está escondido, nota-se nos comportamentos: baixo rendimento escolar, depressão, isolamento, jovens que chegam à consulta muito vestidos… Começo logo a suspeitar. Há uma componente de intervenção de psicoterapia que perdura

Cura-se?

(Silêncio) É importante a adesão do jovem à intervenção. Para compreender esse estado e fazer um caminho diferente com estratégias positivas. Vi algumas imagens da mutilação da baleia no braço de uma jovem, que se nota que tem uma componente artística fantástica, portanto um desenho daquela jovem deve ser belíssimo. Significa que tem interesses que foram deixados de lado e que é preciso ir buscar. Muitas vezes há acontecimentos de vida – perda de coesão na família, a dificuldade de os pais têm de lidar com o crescimento dos filhos… Não quero fazer uma relação directa com o divórcio, mas às vezes, percebemos que estes jovens andam à semana, numa casa e noutra, e ninguém se apercebe do que está a acontecer.

Estes jovens que se automutilam também podem ser vítimas de bullying?

De bullying e de ciberbullying. Eles têm os telemóveis durante todo o dia – as regras variam de casa para a escola, de escola para escola, e até há professores que têm uma cesta onde os alunos põem o telefone, mas eles têm dois, o outro fica no bolso!

Portanto, há fotografias, vídeos, criam-se grupos para gozar com o colega, criam-se situações que é difícil os adultos terem percepção das mesmas porque uma coisa é o bullying directo que se vê no recreio, outra é este que se passa na rede.

Se não vêem, o que podem fazer os pais ou os professores?

Estes jovens dão sinais, ficam mais inquietos, mais agressivos. Às vezes podem ser os pais a pedir ajudar, a ir a uma consulta de triagem. Os pais podem ver o histórico do computador; fazer uma conversa pela positiva, de interesse e não de crítica. Tudo isto é mais fácil se os pais começarem quando eles ainda são crianças porque na adolescência cheira-lhes a intrusão. Aos 16 anos não se lhes pode pedir a password do email.

O que está a dizer é que os pais precisam de criar relação com os filhos e falar com eles.

É essencial, desde muito cedo. Eles são do toque, desenvolvem essas competências sozinhos. Os pais ficam descansados porque eles são muito espertos e esquecem-se que os filhos criam uma pegada digital, criam contas de Facebook ou de email aos oito/dez anos, podem entrar em sites que não são seguros, que podem falar com pessoas mais velhas… Damos uma chucha e há uma altura para a tirar, mas a da tecnologia é para o resto da vida.

E os pais estão a dar essa chucha antes de lhes dar um livro, um brinquedo de pano ou de madeira.

É verdade. Damos e não tem mal em dar, mas não pode ser só isso. Não tem mal usar tecnologia, é preciso saber as regras e os pais não estão a fazer isso.

Que outros casos ligados a dependência da tecnologia chegam à consulta de Santa Maria?

Chegam-nos as situações mais graves. A consulta existe desde 2013. São sobretudo rapazes com número de horas exagerado [à frente de um ecrã], em absentismo escolar, sem projectos de vida, com perturbações psiquiátricas ou deprimidos e que encontraram no jogo online uma forma de ter prazer e de viver. São desinvestidos do ponto de vista físico, não comem ou comem em excesso porque estão sempre em frente ao computador.

E as raparigas?

As raparigas têm dependência das redes sociais o que implica socialização virtual e presencial, como há partilha de conteúdos, fotos e vídeos, encontram-se. Portanto recorrem menos à consulta.

Qual é a percentagem de jovens com dependência?

Os estudos indicam 25%. No Japão ou na China é mais de 45%. Associado ao número de horas temos o isolamento e a desistência de outro tipo de actividades, de lazer, desportivas e de contacto social. Efectivamente, temos muitos jovens que deixam a prática do desporto porque assim têm mais horas para jogar; que não vão ao cinema ou que aproveitam os furos nas aulas para jogar.

O ministro da Saúde japonês implementou os bootcamps obrigatórios de desenvolvimento pessoal sem tecnologia. Têm centros de internamento.

São necessários em Portugal?

Nalgumas situações que temos que são mais graves. Estes jovens estão em absentismo escolar e não trabalham. Há comunidades terapêuticas para toxicodependentes que podem dar apoio nestas situações porque do ponto de vista neurológico é uma dependência sem estar ligada a nenhuma substância, mas activa as mesmas partes do cérebro que as drogas ou o álcool.

Fazem-se planos de intervenção para a saúde, alimentação, prevenção rodoviária, parece-me que cada município devia desenvolver um plano de intervenção saudável de tecnologia – o próprio município disponibiliza wi-fi, por que não disponibilizar formação para pais, professores e jovens? Duvido que haja algum programa autárquico sobre este assunto, que é urgente.

Passaria por consultas?

Passaria primeiro por formação. Passaria por termos técnicos nos centros de saúde que possam fazer formação mais concreta para responder quando há casos de maior vulnerabilidade. Ainda estamos no início do que vai aparecer.

Vai ser pior que o Baleia Azul?

Pode haver outros jogos, estão sempre a surgir mais jogos.

 

Serviços telefónicos de ajuda e apoio ao suicídio em Portugal e na Europa

 

SOS – Serviço Nacional de Socorro 112

SOS Voz Amiga (entre as 16 e as 24h00) 21 354 45 45 91 280 26 69 96 352 46 60

SOS Telefone Amigo 239 72 10 10

Telefone da Amizade 22 832 35 35

Escutar – Voz de Apoio – Gaia  22 550 60 70

SOS Estudante (20h00 à 1h00) 808 200 204

Vozes Amigas de Esperança (20h00 às 23h00) 22 208 07 07

Centro Internet Segura 800 21 90 90  Linha Internet Segura

 

 

Tecnologia. Jovens dependentes são rapazes com acesso à internet desde os 5 anos

Maio 1, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia da http://rr.sapo.pt/ de 18 de abril de 2017.

DR

Psicóloga do Núcleo de Utilização Problemática da Internet do hospital de Santa Maria esteve na Renascença para falar sobre a dependência à internet no computador, no telemóvel ou no tablet.

Um estudo do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA) indica que o perfil do jovem dependente corresponde a uma pessoa do sexo “masculino, com acesso à internet entre os 5 e os 8 anos, sem qualquer supervisão parental”.

A revelação é feita na Renascença por Ivone Patrão, psicóloga clínica, professora e autora do livro “Geração cordão – a geração que não desliga”. A amostra do estudo foi de três mil jovens portugueses.

“A internet já existe há duas ou três décadas, mas agora é que vamos começar a sensibilização, porque agora é que surgiram as situações mais complexas”, afirma no programa Carla Rocha – Manhã da Renascença.

Ivone Patrão diz que é desde cedo que começa a educação para a internet. “Temos de começar desde cedo a falar das tecnologias. A dar-lhes as tecnologias, mas de forma saudável e com as regras de uso”.

“Se começarmos dessa forma não tem mal e vamos mais tarde apresentar-lhes as redes sociais e o e-mail, que são formas de comunicar, mas obviamente tem de ser uma passagem, tem de ser feito ao longo do tempo”, defende.

A psicóloga integra o primeiro gabinete de tratamento da dependência das tecnologias em Portugal: o Núcleo de Utilização Problemática da Internet, no Hospital de Santa Maria.

Tudo “começou com os simples casos das queixas dos professores e dos pais de que ‘ele é hiperactivo’”, diz.

“Quando íamos pesquisando melhor, aqueles jovens e crianças iam ficando com os telemóveis, computadores e tablets até tarde e dormiam com eles debaixo dos lençóis e os pais nem davam conta. Depois íamos ver e tinham alterações no sono e irritabilidade e não era nada hiperactividade, era outra coisa para investigar”, conta.

Assim nasceu a primeira consulta no país sobre este tipo de dependência.

Ivone Patrão destaca que os jovens têm outros interesses – seja no campo da música, do desporto ou da cultura – e que é “muito importante” perceber quais são.

“Muitas vezes não lhes oferecemos essas actividades ou a disponibilidade de ir com eles. E não são actividades, muitas vezes, que requeiram dinheiro e gasto acrescido. São sem tecnologia e também importantes para o desenvolvimento deles”, destaca a especialista.

No seu livro, a psicóloga revela exemplos positivos de crianças que usam a tecnologia com quatro ou cinco anos, mas de maneira pedagógica.

“Vão pesquisando o tema e enriquecendo o seu conhecimento, mas nunca ficando por aí – depois vão ver no terreno como é que as coisas se passam. Se fazem um projecto de bombeiros, por exemplo, vão pesquisar tudo na internet e depois vão visitar [um quartel]. Ver o mundo real”.

As escolas são outro cenário a que convém estar atento. Segundo Ivone Patrão, não são só os pais que vivem dificuldades por causa da dependência da tecnologia por parte dos filhos.

“Os professores também vivem dias difíceis com o wifi na escola e com alunos a terem aplicações no telemóvel que desligam os projectores de vídeo e depois os professores não conseguem dar aulas”, revela a especialista.

Por isso, fica o apelo: “pais e professores, conversem uns com os outros, arranjem um sistema de coerência na vossa comunidade de como gerir a vossa tecnologia, porque se em casa existirem umas regras e na escola outras baralha tudo”.

E se pensa que ter uma ferramenta de controlo parental no telemóvel é a solução, desengane-se: “eles controlam aquilo em segundos e conseguem dar a volta”.

O importante é, pois, que haja regras e que elas sejam cumpridas por miúdos e graúdos.

 

 

Ivone Patrão, psicóloga: «As crianças aprendem a desbloquear as ferramentas de controlo parental em segundos»

Abril 14, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://www.noticiasmagazine.pt/ a Ivone Patrão


Depois de vários anos a acompanhar crianças, jovens e famílias, sobretudo na área das dependências da Internet, Ivone Patrão defende a utilização da tecnologia com regras e limites para que sejamos nós a controlar o mundo online e não o contrário. Inspirada em alguns casos que acompanha em consultas faz ainda um convite de consciencialização para o modelo que os pais estão a passar aos filhos. Psicóloga clínica e terapeuta familiar e do casal, é também docente universitária e investigadora no Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA) e acaba de lançar o seu primeiro livro para o público em geral «Geração Cordão».

Texto de Cláudia Pinto | Fotografia de Diana Quintela/Global Imagens

«Geração Cordão»? Que geração é esta?

É um termo da minha autoria e que já utilizo há algum tempo, mas é a primeira vez que aparece descrito. Caracteriza o que está a acontecer com as novas gerações: estão muito familiarizadas com a tecnologia e com a internet e têm este risco de não conseguir desligar. Prescindem de determinadas atividades de lazer e de equipa que implicam estar com pessoas e desenvolver competências pessoais, relacionais e sociais. Correm ainda o risco de, ao longo do tempo, serem jovens adultos e adultos que não socializaram, não desenvolveram um projeto de vida, não estudam nem trabalham, deixaram a escola, não conseguem arranjar um projeto de empregabilidade, não conseguindo cortar com o cordão umbilical no sentido da autonomia. Estes riscos de ficar dependente da tecnologia e de não desenvolver competências do ponto de vista da maturidade relacional e social e de não ter projeto de vida caracterizam esta geração cordão. Temos muitos jovens adultos, com mais de 20 anos, neste registo.

Que tipo de casos recebe nas suas consultas?

Recebo crianças dos oito aos dez anos, e muitos jovens. No âmbito privado, recebemos também muitas famílias isoladamente, uma vez que os pais têm a preocupação de adquirir informação que os ajude na prevenção de eventuais dependências dos filhos. No Hospital de Santa Maria, recebo casos já considerados graves, com crianças ou jovens que deixaram de ir à escola e que contam com muitas horas de consumo de internet.

Foi isso que a levou escrever este livro?

Tenho desenvolvido uma linha de investigação sobre esta temática no ISPA e sou responsável pela primeira consulta privada de comportamento online e dependências. Estou também a trabalhar no Hospital de Santa Maria onde temos uma consulta com os mesmos moldes mas disponibilizada no serviço público. Já há muito que fazia todo o sentido escrever um livro sobre esta temática para o público em geral. Fomos amadurecendo a ideia e a editora Pactor, assim que começou a ler o meu anterior livro, mais técnico, em coautoria com Daniel Sampaio (Dependências online, editado pela Lidel), percebeu que havia muitos aspetos de orientação prática que poderiam ser traduzidos para uma linguagem mais acessível. Achei que fazia sentido avançar agora também porque recebo muitos pedidos de pais e professores que necessitavam de orientações a este nível. O livro vem preencher essa lacuna…

O livro alerta para várias perspetivas do mundo online e não apenas para a parte mais visível do problema…

Sim, há uma parte online em geral à qual não ligamos muito e para a qual não estamos tão alerta. Há jovens que consomem imensas séries e deixam de estar com as pessoas e de conviver. Passam horas, tardes e dias seguidos a consumir multimédia. O problema surge quando só se faz isto em detrimento de tudo o resto. Ainda há pouco tempo foi muito noticiada a fuga de uma jovem aliciada por um predador sexual. Isto deve alertar-nos para o facto de jovens estarem a falar com qualquer pessoa sem terem noção de eventuais perigos. O livro chama a atenção para todas estas questões que não se circunscrevem apenas aos jogos online, aos videojogos e às redes sociais. É uma primeira gota de água no oceano no que respeita à chamada de atenção e reflexão para estes temas. Arrisco a dizer que a maior parte dos pais não estão consciencializados para os perigos.

Os pais podem ficar descansados com as ferramentas de controlo parental?

Não. Não podem mesmo. As crianças aprendem a desbloquear as ferramentas de controlo parental em segundos. Aprendem-no em tutorais disponíveis online. Desenganem-se os pais que ficam descansados por acharem que os filhos estão entretidos e em segurança enquanto estão com os tablets ou no computador. É necessário redobrar a atenção para perceber o que é que eles andam a fazer… Alguns autores norte-americanos defendem que os pais devem ter as palavras passe do e-mail, do Facebook, e devem debater com os filhos o que vão postando e partilhando.

E os miúdos aceitam isso?

Se formos nós a explicar estas situações aos filhos, desde pequenos, eles habituam-se a partilhar connosco os convites que lhes fazem nas redes sociais ou outras situações ligadas ao mundo online. Se forem pequenos, é uma partilha, não é um controlo exagerado. Mais tarde, a partir da adolescência, se mostrarem que são responsáveis e autónomos, temos de respeitar a sua privacidade.

Esta geração é composta pelos chamados nativos digitais. De que forma é que os pais podem acompanhar esta realidade?

Os bebés já nascem a querer mexer nas coisas porque têm a necessidade do toque. Mas porque é que lhes damos apenas os smartphones e os tablets? Podemos dar-lhes também puzzles, brinquedos para mexer, lápis de cera para desenhar… Mas também não concordo com a exclusão do mundo digital. Ou seja, também não é benéfico ter uma criança que só brinca e socializa excluindo por completo a vida tecnológica.

Como é que se consegue o equilíbrio saudável da utilização da tecnologia?

É muito difícil. Os estudos que tenho feito com jovens e pais demonstram que, em média, o primeiro contacto com a tecnologia e o online, na geração dos pais, aconteceu aos 24 anos. A média nas crianças é de seis anos. Estamos a juntar gerações com níveis de experiência completamente diferentes. É mais fácil aos pais permitirem a utilização das novas tecnologias na totalidade, mas é errado. As crianças costumam ter uma zona de brinquedos à qual acedem quando querem. No caso das crianças e jovens, as consequências da utilização desmedida tem consequências físicas, ao nível da privação do sono, da alimentação, e no caso dos mais pequenos, no controlo dos esfíncteres pois inibem-se de ir à casa de banho para ficarem agarrados ao computador ou ao telemóvel. O livro vem neste sentido: começar a falar e alertar para o tema e fazer com que cada família pense nas suas regras e nos seus limites.

O pediatra Mário Cordeiro, autor do prefácio deste livro, chama a atenção para o facto de se se ensinar as crianças e jovens a «domar» a internet e os instrumentos de comunicação, talvez se consiga extrair das mesmas os seus benefícios e vantagens…

Sim, claramente. Não podia estar mais de acordo. O livro não é um guião fechado. Tem muitas dicas e orientações mas cada família deve ajustá-las ao seu contexto. Numa família com crianças pequenas, com alguns familiares que vivem no estrangeiro, naturalmente recorrem ao Skype e ao telemóvel, para manter uma relação mais próxima. Neste caso, a tecnologia é muito vantajosa. Para uma criança da mesma idade que passou o dia com colegas e amigos na escola, não há vantagem em fazer uma videochamada logo que chega a casa.

Não existe então uma regra genérica que se aplique a todas as famílias?

Há que fazer bem a leitura do contexto. Ou seja, há que fazer a contextualização da integração da tecnologia, uma necessidade que seja ajustada. Se houver, desde pequenos, a contextualização das vantagens e desvantagens da tecnologia, quando houver a necessidade de abrir uma exceção, facilmente os pais percebem que aquele dia é mesmo isso: uma exceção. Sugiro que se encontre um limite diferente da utilização da tecnologia durante a semana, o fim de semana e nas férias. Defendo a existência de uma conversa de negociação participada. Deve discutir-se qual o tempo que os pais acham que os filhos devem estar online ou jogar computador, quanto é que os filhos acham adequado, e chegar a um consenso. Se o filho sugere três horas e os pais defendem uma hora de utilização, pode estipular-se o limite de hora e meia, para que o filho perceba que a negociação é partilhada e participada. Se as crianças percebem que as regras vêm de cima e não tiveram opção de participar, vão tentar sempre testar os limites.

Dependendo das idades, as crianças e jovens precisam de utilizar tecnologia diariamente ou não necessitam de todo?

É preferível que as crianças desenvolvam todos os seus sentidos. Fazer experiências na rua, em contacto com a natureza, em grupo, uns com os outros, é a melhor forma de se desenvolverem. Considero que os ecrãs podem ser um complemento, mas não devem constituir a principal atividade dos seus dias. Haverá dias em que efetivamente não vão precisar de recorrer à tecnologia, de ver televisão ou de estar com ecrãs à frente.

Que mensagem daria às famílias?

A grande mensagem deste livro é a importância do diálogo com os filhos desde pequenos: discutam o tema em família, estabeleçam regras e limites para todos (pais, tios, avós, filhos). Quando sugiro que toda a família promova um encontro entre todos e desligue a tecnologia, é uma enorme dificuldade. Costumo aconselhar uma atividade sem tecnologia; um dia sem tecnologia, a promover o descanso, as conversas e o tempo em família. Sinto que ainda estamos no começo de consciencialização para estes temas e há um longo caminho a percorrer… Gostaria que as pessoas partilhassem as suas formas de gerir as reais dificuldades e os desafios que as crianças e jovens vão colocando relativamente a este tema. Temos um endereço eletrónico para onde as pessoas podem escrever e partilhar os seus testemunhos: geracaocordao@gmail.com

 

Sessão de lançamento do livro #GeraçãoCordão : a geração que não desliga! – 28 de março em Lisboa

Março 26, 2017 às 5:53 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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https://www.pactor.pt/pt/

 

Estudo confirma uma geração cada vez mais dependente da tecnologia

Fevereiro 7, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do site https://www.mais-psi.com de 21 de janeiro de 2016.

maispsi

Um estudo recente do Instituto de Psicologia Aplicada (ISPA), em que foram inquiridos jovens portugueses até aos 25 anos, mostra que 70% apresentam sinais de dependência do mundo digital, em que 13% são casos graves, podendo implicar isolamento ou comportamentos violentos e que obrigam a um tratamento. Este estudo foi coordenado pela investigadora Ivone Patrão e confirma os sinais de uma geração cada vez mais dependente da tecnologia. Como exemplo, é relatado o caso de um rapaz que afirma que os seus amigos ficariam zangados caso ele não respondesse rapidamente às mensagens mesmo no horário em que deveria estar a dormir. Assim, este fenómeno pode mesmo conduzir a situações limites em que é posto em causa o bem-estar físico da pessoa.

Um outro estudo de 2014, conduzido pelo Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa (CESNOVA), no âmbito do projeto Net Children Go Mobile, mostra que mais de metade das raparigas (55%) referem usar todos os dias o smartphone, contra 44% dos rapazes. Há também uma evidência do uso excessivo no início da adolescência (11-12 anos) decrescendo no grupo intermédio (13-14 anos), para voltar a subir nos adolescentes mais velhos (15-16 anos).

Este estudo compara ainda a utilização do smartphone com outros países europeus. Constata-se que os adolescentes portugueses apresentam um valor de uso excessivo do smartphone (57%) que é superior à média europeia (48%), aparecendo o Reino Unido no topo (65%). A maioria dos adolescentes portugueses sente a necessidade de verificar o telemóvel sem razão aparente e ficam aborrecidos quando não podem usar o telemóvel por ficarem sem bateria ou sem rede. Cerca de um quinto afirmam mesmo estar menos tempo do que deviam com a família, os amigos ou a realizar as tarefas escolares, confirmando a importância do telemóvel em detrimento de outras formas de relacionamentos ou atividades.

E nos outros Países?

Um estudo coordenado por Ana Paula Correia, professora associada na Faculdade de Educação da Universidade Estatal de Iowa, Estados Unidos, publicado em agosto de 2015 na revista “Computers in Human Behavior”. Esse estudo permitiu identificar quatro características da nomofobia, ou seja, da ansiedade de separação do smartphone:

  • Não consegue comunicar. A pessoa sente-se insegura porque não pode ligar ou enviar SMS para a sua família e amigos.
  • Ausência de conectividade. A pessoa sente que está desligada da sua identidade no mundo digital.
  • Não consegue aceder à informação. A pessoa sente-se desconfortável quando não consegue, por exemplo, obter respostas às suas perguntas no Google.
  • Ausência de conveniência. A pessoa fica irritada porque não consegue terminar as suas tarefas, tais como realizar uma compra online.

Estas representam preocupações distintas que contribuem para a angústia geral das pessoas que sofrem de nomofobia.

O nome nomofobia deriva do inglês no-mobile-phone phobia. É um termo que descreve o medo crescente de ficar sem o telemóvel, representando assim uma ansiedade derivada da separação deste dispositivo móvel, e que está a crescer entre os adolescentes.

O uso excessivo do smartphone é de tal modo grave e tomou tal dimensão nalguns países, como a Coreia do Sul, que obrigou o Ministério da Educação deste país a criar um programa de prevenção e identificação precoce de crianças e jovens em risco. No âmbito dessas ações, o governo sul-coreano lançou uma aplicação para dispositivos móveis de modo a monitorar o uso do smartphone e restringir o acesso a jogos online depois da meia-noite.

Mas, será que eu sou viciado no smartphone?

Reconhece certamente o sentimento de ansiedade quando o bolso parece estranhamente mais leve e descobre que separou-se do seu smartphone. E se utiliza este dispositivo móvel para aceder às redes sociais, provavelmente, o seu nível de preocupação ainda é mais intenso. Mas será que é viciado no seu smartphone?

Estes são alguns dos sinais de alerta:

  • Fico ansioso ou inquieto quando fica longe do meu smartphone
  • Verifico constantemente o meu telemóvel
  • Evito a interação social em detrimento da utilização do telemóvel
  • Distraio-me frequentemente com emails, SMS ou outras aplicações móveis
  • Revelo um declínio no meu desempenho profissional ou académico
  • Acordo a meio da noite para verificar o smartphone

Se respondeu afirmativamente a muitos destes pontos, então poderá estar a sofrer de nomofobia.

Está na hora de fazer uma pausa

Ao longo da minha vida tenho evitado a dependência de coisas, e por isso faço regularmente uma introspeção sofre o meu estilo de vida. Procuro proteger-me de determinados vícios que podem ditar ou comprometer o meu comportamento. Isso inclui a utilização da tecnologia. Reconheço o papel dos computadores, telemóveis e outras tecnologias, que permitem-me trabalhar de forma mais fácil e eficiente, mas, porém, o meu princípio é que a tecnologia deve servir o homem, e não o contrário.

Então, o que devo fazer para ter um comportamento mais equilibrado?

  • Coloco o smartphone a pelo menos 5m de mim quando durmo à noite
  • Durante o dia tenho interações cara-a-cara com outras pessoas, sem interrupções derivadas da utilização do smartphone.
  • Certifico-me que durante o dia tenho um momento de reflexão em solidão com o smartphone desligado
  • Deste modo, durante a semana, equilibro o tempo passado com outras pessoas e ao smartphone.
  • Uma vez por mês desligo o smartphone durante todo o dia. É o dia em que me liberto!

Autoria de PsicoAjuda.

 

E se os tablets estiverem a ser usados como chuchas?

Outubro 12, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Público a Ivone Patrão no dia 12 de outubro de 2015.

Patricia Martins

Catarina Gomes

Investigadora Ivone Patrão diz que há estudos internacionais que dão conta de baixo controlo parental sobre dispositivos móveis em crianças pequenas. Há pais que substituem a sua presença pela entrega de um smartphone ou de um tablet para conseguir fazer outras tarefas.

A psicóloga clínica Ivone Patrão coordenou recentemente um estudo onde encontrou quase três quartos de adolescentes e jovens dos 14 aos 25 anos com sinais de dependência da Internet. Coordenadora da linha de investigação sobre comportamentos online no ISPA-Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida, em Lisboa, onde é professora, lança-se agora numa investigação que vai estudar o uso de dispositivos móveis em crianças dos três aos cinco anos. A motivação veio do que observa no consultório e à sua volta, em que vê tablets e smartphones a serem usados para acalmar, como uma chucha, mas com muitos mais riscos associados.

Por que decidiu começar a investigar o uso de dispositivos móveis dos três aos cinco anos?

[A decisão] Decorre dos resultados que tivemos na investigação com adolescentes e pré-adolescentes nas áreas das dependências online e também porque, na minha clínica diária, encontro pais com dificuldades em controlar o uso de smartphones, tablets nestas idades. As crianças com cinco ou seis anos já lhes conseguem mexer, são muito fáceis, são touch. Eles têm uma memória visual fantástica e rapidamente estão a jogar um jogo, estão a aceder à Internet, conseguem aprender caminhos de pesquisa sem saberem muito bem o que estão a fazer.

Não sabendo sequer ler.

Apercebi-me de miúdos de quatro e cinco anos que sabem imensas palavras em inglês por causa dos jogos. Vão associando, o start, o open, o okay. O problema é que estamos a estimular a memória visual muitas vezes em detrimento de outro tipo de concentração e atenção para outras tarefas que, por exemplo, a leitura vai requerer, a interpretação de um texto. Se lhes damos estímulos rápidos, em que percebem rapidamente como se faz, depois, quando quisermos que se concentrem para aprender a escrever e a ler, eles já não vão estar tão motivados. A satisfação não é tão imediata como estar a jogar um jogo.

O que pretendem com o vosso estudo nestas idades?

Estamos a fazer questionários para pais para avaliar como fazem a gestão dos smartphones e dos tablets em casa. Numa fase posterior acompanharemos os miúdos ao longo do tempo, na escola, na socialização, entre os seis e os 10 anos, já no 1º ciclo.

O que diz a investigação já existente sobre o uso destes dispositivos nestas idades?

Está-se no início da investigação. Mas os estudos que existem dão conta de baixo controlo parental sobre estes dispositivos nestas idades, e também que há pais que substituem a sua presença, e eu diria o seu afecto, com um smartphone ou de um tablet, às refeições e nas horas livres que eles têm para brincadeiras.

Que problemas isso coloca?

Eu pergunto: que tempo é que eles têm para passar com os pais? Uma das perguntas que vamos fazer é se lhes contam uma história ao final do dia. Estou um pouco chocada porque já tenho metade desta amostra a dizer que não o fazem e que a hora de deitar é problemática.

É problemática por causa do uso deste tipo de dispositivos?

[As crianças] Estão numa excitação a olhar para um dispositivo que emana uma luz tão intensa, sobre a qual alguns estudos dizem que as crianças a esta proximidade não são capazes de fazer a destrinça entre a luz de um ecrã e a luz do dia. Há estudos que nos dizem que, se não fazemos o corte, estamos a emitir informação para um cérebro de uma criança de três, quatro e cinco anos que pensa que ainda é de dia. E depois, passados dois minutos, dizemos-lhe “vamos deitar”.

Mas isso também era verdade para a televisão.

A televisão está a uma distância diferente. Na televisão eles têm tendência a focar às vezes o olhar num ponto, mas vêem brinquedos à frente e vêem o mano, e chega alguém e eles vêem. Os dispositivos são uma coisa de interacção deles com a máquina a uma distância muito próxima, sem outro campo de visão. Estão tão focados ali que o cérebro não percebe o que está à volta. Com a televisão apercebem-se do meio envolvente, [e percebem] que ficou noite.

Isso tem repercussões no sono?

Temos aqui um grande risco porque isto altera-lhes o ritmo do sono. Outros estudos dizem-nos que as crianças que dormem menos horas têm um comportamento mais irritável na sala de aula. Neste caso, com três, quatro ou cinco anos – as ditas idades das birras – provavelmente os educadores e os pais terão mais dificuldade em relacionar-se com eles e isto começa a ser uma pescadinha de rabo na boca – então se faz birras “toma lá e cala-te”. Estamos a reforçar positivamente uma acção, o estar online, com imensas consequências do ponto de vista físico, do desenvolvimento e psicológico, porque eles, naquele momento, não estão em interacção, estão em interacção com eles próprios e com uma máquina.

Quis avançar com este estudo por causa dos casos que lhe chegam ao consultório…

Às vezes, na própria consulta, se estou mais dirigida para os pais e a criança está ali, e ainda que na consulta haja espaços de brincadeira e de jogos, há puzzles, desenhos, há uma mala lúdica, a criança tem também a tendência a querer falar e há uma entrega, às vezes quase automática, da mãe ou do pai – “olha, toma lá, cala-te um bocadinho que eu estou aqui a falar com a doutora”. E eu tento desviar este comportamento e propôr aos pais e à criança “então e um desenho? E ali o puzzle? Depois podes vir-nos mostrar o desenho”. Mas, claro, não posso desautorizar os pais. E obviamente, as crianças aceitam o telemóvel .

Por que é que os miúdos preferem automaticamente uma coisa à outra?

É muito mais estimulante, tem muito mais animação, e tem gratificação imediata: eles rapidamente conseguem subir de nível, e nos mais pequeninos, às vezes, o jogo até bate palmas e há uma voz que diz “uau, ganhaste”. Isso tem uma gratificação muito mais imediata do que fazer um puzzle ou um desenho.

Porque são mais difíceis?

Podem ser mais desafiantes. O puzzle e o jogo provavelmente estimulam as mesmas áreas, que têm a ver com o raciocínio, mas o puzzle não interage, não dá gratificação. Na consulta, eles vão ter que esperar que eu, ou os pais, digam “ai que giro, conseguiste fazer”, “ai o desenho está tão bonito”. Aquilo é mais automático. Eles têm a certeza que vão ter gratificação e nem sempre os adultos, perante uma coisa que a criança faça, dão gratificação.

O jogo também desenvolve o raciocínio. Que vantagens trouxeram estes dispositivos?

Claro, não podemos ver isto numa perspectiva de 8 ou 80. Existem estudos que, pelo contrário, nos dizem que o uso de tecnologia é muito importante para a estimulação do desenvolvimento de competências e capacidades nos jovens. Existem aplicações online para o desenvolvimento da linguagem para crianças autistas, ou ao nível motor.

Refere-se a vantagens apenas para crianças com dificuldades?

Uma criança sem dificuldades também pode usufruir se houver controlo parental, se houver horas específicas de controlo que não ultrapassem outras actividades, que não sejam uma substituição de actividades de socialização e de actividades físicas essenciais para o bem-estar da criança e para o seu desenvolvimento. Também vai estimular o seu raciocínio lógico, a linguagem, a aprendizagem de outra língua, percebem que existem outras palavras para dizer as mesmas coisas do que em português.

Com que idade é que um miúdo deve começar a manusear um tablet? Na televisão fala-se dos dois anos.

As recomendações apontam para que seja partir dos dois anos para a televisão e também para o uso de todos estes dispositivos com luz, rápidos na imagem.

Porquê essa idade?

Tem a ver com o desenvolvimento cognitivo, mas também da visão, da compreensão. Se reparar, uma criança com menos de dois anos, tem muita tendência, numa televisão, a fixar-se num ponto e alhear-se. E, até aos dois anos, têm muitas coisas para se desenvolver. Se estiver um período largo do seu dia em frente a um televisor não vai estar a experimentar o andar, o cair, a interacção com os outros, não vai estar a experimentar palavras porque vai estar ali centrada só naquela estimulação.

Vê muitas crianças com menos de dois anos com estes dispositivos na mão?

Acho que vemos todos. Basta estar em qualquer sítio público para vermos carrinhos de bebés com crianças de telemóvel na mão, como se fosse um novo brinquedo que é dos adultos mas que também passou a ser para as crianças.

Por que é que os pais agem assim. Porque estão cansados?

Do ponto de vista clínico apercebemo-nos de que os pais têm sempre estes dispositivos com eles. Já saíram do trabalho ou ainda estão a ir para o trabalho de manhã mas já estão a responder aos emails ou a mandar mensagens e os miúdos também se apercebem disso. Estes pais têm isto na mão, facilmente o entregam. Percebem que têm aplicações e formas de entreter as crianças se começar uma birra. Com um brinquedo, geralmente é necessário haver interacção. Com os dispositivos móveis basta explicar uma vez. A interacção é entre o telemóvel e a criança, não é preciso o adulto estar presente.

É uma forma de os entreter em momentos de espera?

Há uma impaciência que precisa logo de ser acalmada. Nos estudos com adolescentes temos um dado que é um contra-senso: encontramos níveis de stress, ansiedade e depressão moderados a elevados mas com níveis elevados no bem-estar geral. Eles isolam-se, têm menos contacto social, estão mais tristes ou ansiosos mas, ao mesmo tempo, sentem-se bem quando estão a jogar. São geralmente miúdos com índices de dependência da Internet graves que nos dizem “mas eu não preciso de ajuda”, porque se continuarem a jogar sentem-se sempre bem. Pela idade, os mais pequeninos têm muito menos auto-controlo e, se lhes vamos dando isso, não treinamos a sua resistência à frustração, a paciência, a espera, a ideia que às vezes as coisas não acontecem como nós queremos. Damos-lhes alguma coisa que lhes dá sempre bem-estar. Vamos estar a criar uma dependência de estarmos sempre a sentir-nos bem e não podermos nunca sentir-nos frustrados, tristes.

Com que idades começaram a usar a Internet miúdos que agora têm dependências online?

Com uma amostra dos 12 aos 25 anos vemos que os universitários, na faixa dos 20, começaram a usar a Internet nos 12, 13 anos. Os de 12, 13 anos já começaram a usar a Internet aos oito anos.

Quanto tempo passam os mais novos no uso destes dispositivos?

Usam-nos ao pequeno-almoço e depois de virem da escola, [em momentos] intercalados com banhos e a hora da refeição. Se formos quantificar dá umas três horas por dia, em média, o que para uma criança destas idades é muito. E a questão não é apenas o ser muito, é o ser sem interacção dos pais. É para ver se vai cumprindo todas as tarefas que tem que cumprir com aquilo agarrado. Lembro-me de uma mãe que me dizia que “às vezes ele vai da cozinha para o quarto agarrado àquilo a dizer ‘é só mais um bocadinho’”. A questão que coloco é quais são os momentos da conversa?

Às vezes o castigo surge precisamente com a privação do dispositivo. “Fizeste isto ficas sem o tablet…”

A Kimberly Young, uma autora americana que foi das primeiras a fazer investigação nesta área, diz que é preciso negociar os usos com a criança, desde pequena: quais são as horas mais adequadas, o tempo, o que vamos lá fazer, quais podem ser as excepções e planear os castigos. Entre os três aos cinco anos é muito importante o time out. Em vez de dizer “agora não mexes mais nisto”, é mais importante dizer “agora sentas-te um bocadinho no sofá e pensas no que fizeste”. Se lhes retiramos a chucha eles não pensam em mais nada. O que se quer com o castigo é que pensem no comportamento menos adequado e indiquem soluções, mais do que dizer “não mexes mais nisto”.

Quer dizer que os dispositivos estão de alguma forma a ser usados como uma chucha?

Penso que sim. Estes dispositivos acabam por ser a forma de eles também se acalmarem só que é uma forma com muito mais riscos do que uma simples chucha.

 

 

Conflitos dos jovens com a família associados a dependências online

Abril 24, 2015 às 3:51 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 22 de abril de 2015.

Manuel Roberto  Arquivo

Adriana Neves

Isolamento e depressão são outros sintomas de quem passa demasiado tempo na internet.

Um em cada dez jovens apresenta sintomas do uso problemático da Internet. Quatro em cada dez admitem que são dependentes do mundo online. Estas são algumas das conclusões de um estudo que envolveu 645 adolescentes do 3.º ciclo do ensino básico.

O projecto “Uso da internet nos jovens: um projecto de promoção da saúde” tem como objectivo alertar para os riscos da dependência online e, ao mesmo tempo, tirar algumas conclusões acerca do comportamento dos jovens e do ambiente em que se inserem.

Os resultados da linha de investigação vão ser apresentados na íntegra esta quinta-feira no Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente, em Lisboa.

Ivone Patrão, coordenadora de investigação na área das dependências online no Instituto Superior de Psicologia Aplicada-Instituto Universitário (ISPA – IU), explica ao PÚBLICO que na investigação desenvolvida concluiu que pessoas com grandes dependências online estão mais predispostas ao “isolamento, à depressão e a conflitos com a família”. A investigadora alerta que, para além de não ser um estilo de vida saudável, “há riscos relacionais e sociais associados” às pessoas que “vivem através da Internet”.

Segundo Ivone Patrão, os hábitos relacionados com a Internet são diferentes para os rapazes e para as raparigas. Eles preferem os jogos online enquanto elas passam grande parte do tempo nas redes sociais. No entanto, Ivone Patrão indica que não há informação suficiente que permita concluir que uma dependência tem mais efeitos negativos do que outra.

A investigadora adianta que colaborou também numa intervenção paralela realizada numa escola profissional na área de Lisboa que abrangeu 80 jovens do ensino secundário. Ivone Patrão explicou que promoveu diversas actividades onde se envolvem directamente os jovens, como “teatros, vídeos e palestras”, com o objectivo de alertar toda a comunidade escolar para os riscos do uso excessivo da Internet. A ideia foi que, em vez de uma palestra tradicional, todos pudessem divulgar informação de forma criativa. A temática das dependências online foi dinamizada durante uma semana.

Em Novembro, a mesma investigadora explicou ao PÚBLICO que tinha realizado um outros estudo que concluia que quase três quartos da população dos 14 aos 25 anos apresentava sinais de dependência do mundo digital. Na altura, foram 900 os jovens inquiridos.

Esta quinta-feira, para além deste estudo, vão ser apresentados no mesmo congresso outros trabalhos com “Tecnologia e Criatividade” como tema central. É o caso de uma investigação que, por exemplo, concluiu que os rapazes transgridem mais na condução do que as raparigas ou que há um aumento de comportamentos violentos associados ao uso do computador.

Depois da apresentação de resultados dos vários trabalhos, pretende-se encontrar resposta para “Crianças e jovens e as novas tecnologias: risco ou oportunidade?”.

Texto editado por Andrea Cunha Freitas

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