“Os pesadelos não pertencem aos pais”

Setembro 23, 2015 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Escrito por Isabel Stilwell em 3 de Setembro de 2015:

Queremos tirar todos os obstáculos do caminho dos nossos filhos. Quando somos avós, a tarefa é ainda mais dura, porque damos tudo para tornar a vida mais fácil não só a filhos, como também a netos — e o pior é que, às vezes, dá ideia de que a felicidade de uns conflitua com a dos outros.

Habitualmente conseguimos fazer o papel de adivinhos e anjos da guarda, e a sensação de que conhecemos tão bem aqueles que amamos ao ponto de lhes adivinhar os desejos e os medos vai-nos alimentando um sentimento de omnipotência. E, subjacente a esta omnipotência, está a certeza de que os conseguimos controlar, como marionetas que obedecem a um puxar de fios. E, à sensação de controlo, segue-se a certeza de que somos insubstituíveis, o que seria deles sem nós, e que, convenhamos, nos insufla de felicidade e de propósito.

Foi tudo isto o que senti, não por tantas palavras, é certo, quando a Carmo acordou a gritar com pesadelos e veio a correr para o meu quarto aterrorizada. Abracei-a, deitei-a na minha cama e quis perceber o que a tinha assustado. É claro que, como nos acontece quando acordamos sobressaltados, também ela não tinha uma ideia precisa do que a perseguia. Acabou por construir uma história de piratas e monstros que, suspeito, considerou justificar a cena toda. Acabamos por adormecer abraçadas e de manhã sugeri-lhe que desenhasse os seus pesadelos num papel, que depois atirámos à lareira para que ardessem e se transformassem em inocentes cinzas. De caminho, e por causa das coisas, comprámos um espanta espíritos índio, que ficou pendurado no vão da janela.

Evitei, como avó, porque já aprendi alguma coisa como mãe, estabelecer um tribunal de inquisição, contra mim, e contra a criança. Muitas vezes os pais (e os avós) sentem que os pesadelos resultam de uma culpa sua, afinal não são eles os protetores últimos do sono dos seus filhos?, e desfilam erros cometidos: terão deixado os filhos ver demasiada televisão, jogar até muito tarde e jogos demasiado violentos, assistir a uma discussão que os poderá ter atemorizado, ou foi antes o quebrar do ritual do deitar… Motivos não faltam. Na ânsia de entender o que se passou, perguntam e tornam a perguntar, esmiúçam, e acabam por levar a criança a confessar uma mentira, na esperança de escapar à tortura.  Sim, que tiveram medo do monstro dos desenhos animados, sim que se assustaram porque acharam que os pais se iam embora, sim, meteu-lhes medo o cão grande com que se cruzaram naquela tarde. E aí os pais sossegam, acusam-se um ou outro e juram nunca mais expor a criança à mesma situação.

É claro que pode haver momentos de stress que desencadeiam noites assombradas, mas o que custa mais aos pais admitir, dizem os especialistas, é que a criança tenha uma vida mental própria, independente da dos seus queridos progenitores. Que pense coisas que não partilha com os pais, que dentro da sua cabeça exista um universo só seu. Mais ainda, que os pais não sejam o início e o fim de tudo o que acontece aos filhos, o que destrói a ilusão de que eles são apenas réplicas de si mesmos.
É difícil não tentar solucionar um pesadelo, ver um filho ou um neto assustado e não ter o antídoto preparado, mas é uma preparação para a autonomia. Então, o quê, ficamos a vê-los tremer como varas verdes, cruzando os braços? Eduardo Sá recomenda aos pais que combatam o acordar aterrorizado com o silêncio e um abraço apertado. Os vigilantes do seu sono marcam presença, é tudo o que importa que ela saiba. Acreditando que os pesadelos são a digestão da vida e fazem bem à saúde. Mas nunca propriedade dos pais.

Fonte

IAC em luta contra o abuso sexual

Maio 25, 2012 às 11:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Editorial da autoria de Isabel Stilwell do Destak de 23 de Maio de 2012.

O desaparecimento de um filho é, tenho a certeza disso, a mais terrível das tragédias. Os pais morrem por dentro, torturados entre o desejo de esquecer, e parar de sofrer por um segundo que seja, e a ânsia de o encontrar, trucidados pela culpa de não terem sido suficientemente omnipresentes e omnipotentes para o protegerem, mesmo que humanamente nada pudessem ter feito.

E se imaginar a sua dor é difícil, torna-se impossível quando tentamos sentir o que sente uma criança raptada e abusada. Queremos identificarmo-nos com ela, mas o cérebro recusa-se ao exercício, recusa o pensamento que é demasiado destrutivo. E, no entanto, não podemos fingir que estes casos não existem.

Sem cruzar os braços, o Instituto de Apoio à Criança, realiza todos os 25 de Maio, Dia Internacional das Crianças Desaparecidas e Exploradas Sexualmente, uma conferência na AR, dedicada a este tema. Na sexta-feira, o encontro centra-se na nova Directiva do Parlamento Europeu e do Conselho da União relativa à luta contra o Abuso Sexual, a Exploração Sexual, a Pornografia Infantil e o Aliciamento, que estabelece normas sobre a definição dos crimes sexuais contra crianças e sanções aplicáveis, e reforça a sua prevenção.

Uma das mais recentes conquistas, que permite agir mais depressa e de forma mais concertada, foi a criação do Número Único Europeu, o 116000, que será alvo de uma campanha que neste dia passará em todos os países à mesma hora (em Portugal, às 09h00). E foi neste dia, há dois anos, que o IAC conseguiu revogar a norma relativa à aplicação da figura do “crime continuado”, que considerava múltiplos abusos como um só. Mas ainda há muito por fazer…

 

 


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