Trauma não é só emocional. O cérebro de uma vítima de abuso sexual muda — e, com ele, o corpo todo

Agosto 31, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 21 de fevereiro de 2019.

Problemas de aprendizagem e memória, aumento ou perda de peso, diabetes e muitas outras complicações. O abuso sexual tem um impacto físico e pode mudar o funcionamento do corpo da vítima para sempre.

Ela era apenas um criança quando lhe tocaram, pela primeira vez, de forma imprópria. E continuava a ser criança nas vezes que se seguiram. Um dos familiares aproveitava-se dos momentos em que ela dormia — ou assim pensava ele — para lhe tocar na virilha. Outro punha-lhe as mãos nos bolsos da pequena saia e tocava-lhe à procura de mudanças subtis no corpo em desenvolvimento. “Estes são dois de uma mão cheia de homens que abusaram de mim”, conta Concepción de León, jornalista dedicada à literatura e cultura no jornal The New York Times.

Os abusos limitaram-se ao toque, mas nem por isso deixaram menos marcas. Embora Concepción de León achasse que sim. Olhando para trás, reconhece que nunca se sentiu bem no corpo de criança e que, no corpo de adulto, a tendência sempre foi para se fechar numa concha protetora — o que, só por si, já devia ter servido de  alerta. Desde que começou a terapia, aprendeu que as marcas são emocionais, mas também ficam no cérebro e no corpo, e que um tratamento eficaz não pode ter apenas uma abordagem psicológica.

Essa é, aliás, a negação do senso comum, que diz que quem passa por uma experiência destas fica emocionalmente perturbado, mas nada mais. Pelo contrário, sabe-se agora que os danos são, afinal, muito mais vastos e que podem mesmo ter implicações no funcionamento do corpo e até do cérebro, com implicações na regulação das hormonas e dos neurotransmissores (que transportam mensagens entre neurónios).

A jornalista foi vítima de abusos continuados. Outras vítimas têm um único contacto com o agressor. Umas são crianças, outras são adultos. Em alguns casos, o agressor é um familiar ou alguém próximo, noutros é um desconhecido. Conhecem-se agora cada vez mais casos de abusos na Igreja Católica, numa altura em que decorre no Vaticano uma cimeira inédita convocada pelo Papa Francisco para debater o escândalo.

Há vítimas que têm o apoio da família e amigos, outras que são tratadas como culpadas pelo que aconteceu ou desacreditadas. Os casos são tão variados quanto os desfechos e se algumas vítimas conseguem ultrapassar o trauma com relativa facilidade, outras podem mesmo vir a desenvolver perturbações como stress pós-traumático — à semelhança do que acontece com militares em contexto de guerra ou com vítimas de acidentes de viação.

Tudo começa como uma reação natural do corpo a uma situação de stress, mas que pode vir a afetar todo o normal funcionamento do organismo, trazendo, por exemplo, problemas de aprendizagem, ganho ou perda de peso, diabetes e muitas outras complicações.

Um sistema de alerta que não desliga

Concepción de León sempre pensou que o que lhe tinha acontecido entre os seis e os nove anos era uma coisa menor, sobretudo tendo em conta que há casos muito piores que o seu. “Julgava que tinha tido a sorte de só ter sido tocada de forma subtil”, escreve no texto em que apresentava um livro que lhe tinha mudado a vida: “The Body Keeps the Score: Brain, Mind and Body in the Healing of Trauma”, do psiquiatra Bessel van der Kolk (“O corpo mantém o registo: cérebro, mente e corpo no tratamento do trauma”, sem edição em português). Agora, conhece o impacto profundo que esse trauma (e a falta de resolução do mesmo) teve na sua vida.

Uma vítima que é abusada de forma repetida está constantemente a ser exposta a altos níveis de stress. Quer nos momentos em que acontece o abuso, quer em todos os momentos que lhe trazem à memória esses momentos: como ver o agressor, ir dormir (quando o abuso acontece nessas alturas), um som, um cheiro ou uma peça de roupa. O mesmo pode acontecer com uma vítima que foi agredida uma única vez por desconhecido. Pequenos pormenores, semelhantes aos do momento da agressão, podem ser suficientes para desencadear no organismo o mesmo stress e as mesmas reações físicas — como uma rua escura, o frio (ou calor) ou ver alguém com características físicas semelhantes às do agressor. O que acontece é que “as pessoas que vivenciaram a experiência como um trauma passam a estar num estado de alerta permanente”, explica ao Observador Jacinto Azevedo, psiquiatra e docente na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). E podem voltar a sentir o mesmo frio (ou calor), as mesmas dores físicas e reviver tudo como se estivesse a acontecer outra vez.

O stress e as reações do organismo não são necessariamente uma coisa má. A evolução do homem preparou-nos para reagir sempre que temos a perceção de que uma coisa está a colocar a nossa vida em risco — foi isso que garantiu que os homens das cavernas estivessem sempre em alerta quando iam caçar. Fugir ou lutar são as reações esperadas perante uma situação de stress. Mas também pode acontecer que a pessoa fique completamente paralisada. Tudo depende da parte do sistema nervoso que é ativada.

Em momentos de tensão — que podem ir dos esforços físicos às ameaças de vida —, libertam-se as chamadas hormonas do stress: moléculas que vão provocar reações no organismo em resposta ao momento de tensão ou conflito. Por um lado, a adrenalina e a noradrenalina aumentam o ritmo cardíaco, fazem subir a pressão arterial e dilatam as pupilas (o que permite ver melhor). Por outro, o cortisol produz energia extra. Todas estas mudanças preparam a pessoa para uma boa resposta de fuga ou luta. O problema é quando a produção destas hormonas não pára e o organismo fica neste desequilíbrio constante, neste estado de alerta permanente — como acontece com a vítimas de abuso sexual.

Se estas moléculas estiverem a ser produzidas continuamente — ou, pelo menos, com demasiada frequência (como nos abusos continuados) — há uma hiperativação de um conjunto de neurónios envoltos por massa cinzenta, que existem numa região profunda em cada lado do cérebro. As amígdalas (como se chamam essas duas massas esféricas) são responsáveis pela memória emocional e pelo controlo dos sentimentos, medos e respostas agressivas. Um aumento excessivo das amígdalas vai, naturalmente, causar a desregulação das áreas que controlam e, consequentemente, levar a alterações do comportamento. Isto a longo prazo. Já no momento da agressão, uma alteração no funcionamento desta estrutura pode fazer com que a pessoa apague a memória dos eventos traumáticos e não seja capaz de relatar o abuso, explica ao Observador Teresa Magalhães, especialista em Medicina Legal e docente na FMUP.

Há ainda outra área do cérebro que também é perturbada pela produção excessiva das hormonas do stress: o hipocampo. Esta estrutura, localizada nos dois lados do cérebro, é responsável pela memória, emoções e comportamento social. Num estado de stress crónico, o hipocampo fica desgastado e diminui o tamanho, explica Jacinto Azevedo. Daí a dificuldade de concentração ou os flashbacks (reviver os momentos passados) descritos pelas vítimas. Além disso, estas alterações na amígdala, no hipocampo e na região frontal do cérebro também podem fazer com que “a pessoa reaja de forma desadequada a estímulos benignos, por não ter autocontrolo”, como ter uma reação violenta a um pequeno ruído, por exemplo, acrescenta Teresa Magalhães.

Nas crianças, em particular nas que ainda têm estas áreas do cérebro em desenvolvimento, o impacto é maior. As hormonas do stress impedem que o cérebro se desenvolva plenamente, condicionam a morte de neurónios e provocam alterações cognitivas (aprendizagem, memória, raciocínio). Isso não quer dizer, contudo, que nos adultos seja mais fácil: 10% das mulheres e 5% dos homens expostos a traumas também sofre de perturbação stress pós-traumático em algum momento da sua vida, diz Jacinto Azevedo, que trabalha exclusivamente com adultos.

A produção exagerada das hormonas, que faz com que as pessoas estejam permanentemente em estado de alerta, pode, naturalmente, perturbar o sono — em particular se a pessoa recear ser atacada durante a noite. No caso das crianças, podem começar a fazer xixi na cama, por exemplo. Se uma criança tiver dificuldade em controlar a urina e as fezes durante a noite, pode ser um sinal de alerta para a família, disse ao Observador Patrícia Jardim, coordenadora da Unidade de Clínica Forense da Delegação do Norte, do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses.

A longo prazo, os abusos sexuais nas crianças — mas também os abusos físicos e psicológicos e um ambiente familiar disfuncional — podem provocar, já em adultos, o agravamento dos comportamentos de risco, de aparecimento de doenças e, consequentemente, de morte precoce, diz Teresa Magalhães. A médica legista cita um estudo publicado na revista científica American Journal of Preventive Medicine: “As pessoas que foram expostas a quatro ou mais categorias de abuso, comparadas com as que não foram expostas a nenhum, tiveram quatro a 12 vezes mais risco de alcoolismo, abuso de drogas, depressão e tentativa de suicídio; tiveram duas a quatro vezes mais risco de tabagismo, risco de acharem, de si próprios, que não eram saudáveis, de terem 50 ou mais parceiros sexuais e de doenças sexualmente transmissíveis; e eram 1,4 a 1,6 vezes mais inativos fisicamente e obesos severos”.

Teresa Magalhães aponta ainda outro impacto a longo prazo: a possibilidade de os traumas numa fase precoce da vida provocarem envelhecimento precoce das células, por causa de alterações nos cromossomas (estruturas de ADN no núcleo das células), em particular nas extremidades destas estruturas — os telómeros. É precisamente a diminuição do tamanho dos telómeros que poderá provocar esse envelhecimento. A médica admite, no entanto, que a investigação ainda se encontra numa fase muito precoce e que, por isso, ainda pode ser controversa.

O abuso sexual pode transformar-se numa perturbação de stress pós-traumático

Sem nunca ter dado a devida importância à situação, Concepción de León acabou por admitir a uma terapeuta que tinha sido tocada em criança. “Quanto mais discutia as minhas experiências de criança com a Amy [a terapeuta], mais me apercebia que ter sido tocada de forma inapropriada me tinha destruído.” As memórias, que eram interrupções leves no seu dia-a-dia, passaram, mais de 20 anos depois, a ser ondas de calor, que a fazem encolher e hiperventilar no trabalho ou chorar durante horas quando chega a casa.

As vítimas de abuso sexual, à semelhança das pessoas que são expostas a outras formas de violência, como as que sofreram acidentes graves ou as que assistiram à morte de pessoas próximas, podem desenvolver uma perturbação de stress pós-traumático — embora não aconteça em todos os casos. O que acontece é que sempre que se encontram em situações ou locais que, de alguma forma, lhes tragam à memória a experiência vivida como uma ameaça, vão reagir como se tivessem a viver a própria situação. O coração acelera os batimentos, o corpo treme e começam a transpirar, a barriga dói, o sistema digestivo perde o controlo e a pessoa vomita ou fica com diarreia. Quando a pessoa se depara com o estímulo que traz a lembrança negativa, a reação pode ser imediata.

Os sintomas podem ser imediatos e desaparecer, ou manifestar-se por períodos mais alargados. Uma criança abusada, por exemplo, vai ter dificuldade em concentrar-se nas aulas ou em dormir porque as lembranças do abuso continuam a aparecer na sua cabeça por muito que tente expulsá-las. Pode sentir-se angustiada, ansiosa, culpada pelo que aconteceu, com vergonha e com medo de tudo o que se passa à sua volta. Algumas vão perder o interesse nas atividades próprias da sua idade, isolar-se, evitar estar com pessoas e em locais que recordem a agressão, e inibir-se, de forma geral, de manter relações interpessoais.

Para algumas, a sexualidade vai ser vista como uma coisa negativa, uma coisa má que lhes aconteceu. Mas outras podem achar que a sexualidade é a forma de se relacionarem com os outros — em parte motivado pelo agressor que oferece doces para conseguir concretizar os abusos. Se a criança desenvolver comportamentos hipersexualizados, pode ser um sinal de alerta (mesmo que não signifique qualquer certeza), diz Patrícia Jardim, especialista em Medicina Legal, e exemplifica: “A criança que está sempre a brincar com a pilinha ou a mostrar as maminhas, que tem um interesse patológico nos órgãos sexuais ou que imita o ato sexual com colegas, com bonecos ou mesmo com mobiliário.” No caso dos adultos, esta perturbação pode manifestar-se como comportamentos de sedução em público ou prostituição.

Como resultado do abuso, a pessoa pode também ganhar ou perder peso e, neste caso, isso tanto pode estar relacionado com a ação descontrolada das hormonas como com a alteração dos comportamentos, como comer compulsivamente, não comer ou ter outros distúrbios alimentares. A depressão e baixa autoestima, a raiva e agressividade ou os medos excessivos são também reações frequentes. As crianças e adultos mais vulneráveis, sobretudo as que acham que não valem nada e que nunca vão ser ninguém ou as que estão a ultrapassar outros traumas — como o divórcio dos pais —, podem ser facilmente manipuláveis e influenciadas para começar a consumir álcool e drogas, alerta Patrícia Jardim. É uma tentativa de se sentirem melhor.

Se a agressão não deixar marcas, a prova está no relato da vítima

As mudanças de comportamento súbitas devem servir de alerta para os pais, professores e outros cuidadores: um bom aluno que passa a ter más notas, uma criança calma que se torna facilmente irritável, uma criança sociável que não quer brincar nem falar com ninguém, as dificuldades em adormecer, os medos e o fazer xixi na cama. A dificuldade em denunciar o agressor pode estar relacionada com o facto de representar uma figura de autoridade — como um adulto (no caso das crianças) ou o patrão —, ou por ser alguém próximo — como um familiar ou o marido. Se o agressor for um desconhecido, a denúncia pode ser mais fácil, mas estes são os casos menos frequentes.

Se houver suspeita de abuso sexual, a criança pode ser avaliada por médicos legistas, mas estes profissionais não estão necessariamente à espera de encontrar uma lesão física. “90% das crianças avaliadas na Medicina Legal não apresentam qualquer lesão ou não apresentam lesões específicas do contacto sexual”, esclarece Patrícia Jardim. Mesmo quando há penetração, não significa necessariamente que haja uma marca física ou uma lesão, seja em crianças ou em adultos. Assim, a prova que a Medicina Legal pode recolher vai basear-se sobretudo numa avaliação feita pela psicologia forense, que verifica se a alegada vítima apresenta sinais e sintomas compatíveis com situações traumáticas e que verifica que se a história se apresenta como verídica — pelo confronto com outros relatos, por exemplo.

“Quando há vestígios físicos e biológicos, as provas podem ser robustas e levar à condenação dos abusadores”, diz Patrícia Jardim. Mas, na maior parte das vezes, tudo o que existe é o relato da vítima, “que deve ser preservado”, alerta a médica. E por preservado entende-se que deve ser guardado integralmente — também para evitar que a vítima esteja sempre a contar e a reviver a história — e que não deve estar “contaminado”. “Muitas vezes, por causa das entrevistas sucessivas feitas por profissionais que não são especializados [neste tipo de situações], acaba por haver contaminação do relato, com introdução de falsas memórias que podem ser usadas contra as vítimas, para as descredibilizar.” Este é um procedimento que ainda falha, mas que Patrícia Jardim assume estar a ter uma evolução positiva.

“Há o antes, o depois e o para sempre”

“Demorei algum tempo a reescrever aquilo que eu defino o meu ‘manuscrito do trauma’, onde minimizava o que me tinha acontecido, porque adorava as pessoas que me tinham feito mal”, conta Concepción de León. “A racionalização foi muito mais fácil do que reconhecer a gravidade daquilo que tinha perdido: uma infância inocente e saudável e uma introdução à sexualidade nos meus próprios termos.”

Concepción de León demorou muito tempo para começar a lidar realmente com o problema. Uma das leitoras que comentou o artigo também: “os sintomas de perturbação de stress pós-traumático levaram 50 anos a aparecer”, escreve Marianne. Tentar esquecer ou fazer de conta que nunca aconteceu não é a melhor solução. Porque o acontecimento não pode ser realmente apagado da vida da pessoa, diz ao Observador Carla Ferreira, gestora técnica da rede de apoio especializado a crianças e jovens vítimas de violência sexual, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). “Se há uma memória, esta deve ser integrada [incluída nas restantes memórias de vida]”, diz. “Não se deve promover o esquecimento, para que a vítima não fique vulnerável a situações futuras. A criança tem de perceber que o comportamento abusivo não é correto.”

Se pudesse comparar a recuperação depois de um abuso sexual com outra situação marcante na vida de uma criança ou jovem, Carla Ferreira compararia com um luto. A morte de um familiar querido é uma situação marcante que a criança não queria viver, mas que tem de entender que aconteceu e que nada poderá fazer voltar essa situação atrás. A grande diferença é que a morte de um familiar próximo não pode ser prevenida, mas, no caso dos abusos, a criança pode ser ajudada a perceber quais as potenciais situações de risco e como evitá-las. Fornecer este apoio é uma das missões da rede de apoio da APAV.

Nem todas as crianças vão precisar de uma intervenção psicológica, outras só vão precisar dela mais tarde, durante a adolescência — ou mesmo só em adulto —, quando se dão as mudanças próprias da idade e quando podem voltar as memórias das experiências traumáticas. A eficácia e duração das intervenções psicológicas vão depender, naturalmente, da criança e da capacidade que tem em resolver estes problemas por si, do apoio que recebem da família, da existência ou não de alguém próximo na mesma situação — como um irmão — e, claro, da proximidade que têm com o agressor. Carla Ferreira deixa um conselho: “A vida da criança deve voltar ao normal e não devem ser usados mecanismos de compensação”, como tolerar todas as birras para compensar o sofrimento passado. “O problema é que depois podemos ter alterações de comportamento que não dependem exclusivamente da situação do crime.”

A intervenção psicológica é importante, mas uma das principais ideias de Bessel van der Kolk — o autor do livro que Concepción de León leu — é a de que há vários caminhos para a recuperação da perturbação do stress pós-traumático, incluindo os medicamentos que desligam as reações de alarme exageradas, as abordagens que ligam o corpo à mente — como yoga, meditação, dança ou teatralização —, ou mesmo escrever um diário. “A meditação, por exemplo, faz-me super desperta para as sensações que me esforcei tanto por evitar”, escreve a jornalista. O que o psiquiatra propõe é que se faça uma abordagem de baixo para cima, do corpo para a mente, “permitindo que o corpo tenha experiências que contradigam de forma profunda e visceral a sensação de desamparo, raiva e colapso que resultam do trauma”, citou Concepción de León no artigo.

Jacinto Azevedo aponta várias abordagens possíveis, incluindo terapias cognitivo-comportamentais e EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares). Uma revisão científica da Cochrane confirma que estes dois tipos de terapias se mostraram úteis no tratamento de perturbação de stress pós-traumático, mas alerta que os trabalhos de investigação precisam de ser feitos com mais pessoas para as conclusões poderem ser mais robustas.

  • Terapias cognitivo-comportamentais — são terapias práticas e de curta duração para que a pessoa possa mudar aquilo que sente e como se comporta. “Os sentimentos podem não estar ajustados à realidade, como quando as vítimas pensam que todos os homens lhes podem fazer o mesmo”, diz Jacinto Azevedo;
  • Terapia psicodinâmica — neste tipo de terapias há uma maior expressão das emoções e uma reconexão ao que aconteceu. “É mais adequado com doentes mais reflexivos e que têm maior capacidade para enfrentar as emoções.”;
  • EMDR — “Durante as sessões os doentes são levados a reexperienciar partes do trauma de modo a diminuir as emoções e sentimentos negativos associados”, explica o psiquiatra. “Quando o doente está num nível de menor sofrimento, são dadas instruções de forma a que o doente se foque nos estímulos, que antes eram considerados traumáticos, e os associe com pensamentos positivos.”
  • Terapias de suporte — quando o terapeuta ouve e dá apoio. Às vezes, é a única coisa que se pode fazer.

O mais importante parece ser a precocidade com que as situações são denunciadas. “Quanto mais cedo forem detetadas, maior é a reversibilidade”, diz Patrícia Jardim, referindo-se às alterações fisiológicas. E acrescenta: “Quanto mais cedo a pessoa for retirada do abuso, maior a probabilidade de evoluir favoravelmente”. Se a agressão leva à desregulação do organismo, quando se elimina o foco dessa desregulação, o corpo tende a voltar à normalidade. A médica alerta, no entanto, que pode não ser possível voltar ao estado inicial, podendo ficar marcas permanentes.

Teresa Magalhães também destaca outro ponto: tirar a criança da proximidade do agressor pode ter um impacto psicológico negativo na vítima e ser, só por si, um fator de stress. Muitas vezes, o agressor é alguém próximo, de confiança, de quem a criança gosta e pode mesmo ser a única pessoa que lhe dava o carinho e a atenção de que precisava — embora, noutros momentos, também fosse o agressor. Estas crianças devem, por isso, ser alvo de acompanhamento psicológico. Na verdade, toda a família deve ser alvo de uma intervenção psicológica e social, defende a médica.

Outro fator de stress pode ser a quantidade de exames médicos e interrogatórios a que a vítima é sujeita. “O procedimento é indispensável, mas não é inócuo”, diz Patrícia Jardim. “O mais importante é que os profissionais trabalhem em rede para haver redução desses fatores de stress à vítima.”

Se eliminar o foco de stress não for suficiente, pode haver recurso a medicamentos que ajudam a controlar sintomas, como o estado de alerta, a ansiedade, a depressão ou a incapacidade para sentir dor, diz Jacinto Azevedo. A depressão, lembra Teresa Magalhães, é uma das situações mais frequentes e pode tornar a vítima mais vulnerável a um novo abuso, a ter comportamentos lesivos da sua integridade física ou mesmo a tentar o suicídio. Há ainda outro tipo de sequelas, como hipertensão, diabetes ou o desenvolvimento de doenças autoimunes, que podem não se resolver só porque se resolveu o problema na origem — o exagero de hormonas de stress — e, nesses casos, é preciso tratar cada uma das doenças individualmente. Além disso, é preciso resolver outras situações médicas que podem resultar da agressão: doenças sexualmente transmissíveis, como VIH, gonorreia ou sífilis, ou uma gravidez indesejada.

Da mente ao cérebro e ao corpo, os sinais e sintomas podem ser tratados. Uns terão melhor resolução do que outros, mas nada poderá ser completamente apagado ou esquecido, lembra Jacinto Azevedo. “A pessoa nunca mais será igual, para melhor ou para pior. Há o antes, o depois e o para sempre.”

2019/02/23: Foi melhorada a definição de EMDR, com uma explicação do psiquiatra Jacinto Azevedo

Programa de intervenção para Pais em conflito Coparental Pós-Separação ou Divórcio ​For2Parents

Outubro 10, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O que é o For2Parents?

​É um programa de intervenção psicológica para pais separados ou divorciados, em conflito judicial, por questões relacionadas

​com a guarda e/ou custódia dos filhos, promovido ​pela Escola de Psicologia da Universidade do Minho.

Proporciona, de forma gratuita, uma resposta inovadora para o conflito parental pós-divórcio.

mais informações no link:

https://www.psi.uminho.pt/pt/Sociedade/Paginas/Formacao.aspx

Até quando vão faltar psicólogos nas escolas?

Maio 1, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Pedro Taborda publicado no http://p3.publico.pt/ de 12 de abril de 2018.

Atentos à realidade e contexto de cada escola, são os “olhos de lince” que podem sinalizar necessidades de intervenção ainda antes de sentidas pela própria escola.

Arranca esta semana mais um período escolar em que milhares de alunos retomam as suas rotinas escolares para mais meses de aprendizagem.A educação é um factor estruturante da nossa sociedade, da nossa formação enquanto futuros profissionais e sobretudo enquanto indivíduos. É na escola que desenvolvemos novas competências e solidificamos aprendizagens, reciclando o que já sabemos, integrando aquilo que é novo, perguntando, preguntando, perguntando.

Há tarefas por fazer, compromissos por deixar concluídos e um horário por cumprir. Paralelamente, para os alunos, há expectativas a alcançar. Quer as suas, quer as dos colegas, quer as dos pais. Essas expectativas, necessárias e que se querem estimulantes, podem também ser origem de frustração e desordem quando não cumpridas. Especialmente se são impostas por outros.

Existem ainda nas escolas um sem fim de fontes de problemas que ameaçam, não só a saúde mental dos alunos, mas também a sua aprendizagem. Somos bombardeados constantemente por situações de bullying, de desgaste, de excesso de trabalhos de casa, de casos de suicídio, de consumos de álcool, estupefacientes e outros comportamentos de risco, além de casos de dificuldades em aprender bem e plenamente. Tomamos por dado adquirido (e bem) que a adolescência e desenvolvimento são sinónimos de descoberta e novas experiências, mas questiono-me se tomamos como certo e sabido como actuar correctamente.

Existem (ou deviam existir) profissionais de saúde mental que auxiliassem estes alunos. Falo, obviamente dos psicólogos nas escolas. Uma batalha antiga, longe de estar ganha. O panorama nacional é pautado por exclamações da necessidade de reforçar as nossas escolas com estes profissionais. Todos reconhecem, poucos dão o passo em frente.

As vantagens destes profissionais são notórias: para além de auxiliarem os alunos e a comunidade escolar em tempos de crise, estão aptos a intervir nessa mesma comunidade na prevenção de comportamentos de risco, na promoção do sucesso escolar e para a contribuição de um desenvolvimento mais pleno e feliz. Atentos à realidade e contexto de cada escola, são os “olhos de lince” que podem sinalizar necessidades de intervenção ainda antes de sentidas pela própria escola.

Estima-se que entre os jovens portugueses as taxas de suicídio sejam baixas (pelo menos, comparativamente com outros países, de acordo com a OCDE), mas isso não é argumento para se fechar os olhos à intervenção. Para mais, não sabemos quantos jovens sofrem em silêncio, não pedindo ajuda por receio, estigma ou não existência de formas de ajuda acessíveis. Por esta e outras razões é urgente dotar as escolas de uma resposta adequada, indo para além das campanhas de sensibilização.

O acesso à saúde mental é ainda muito desigual. Visto como algo de luxo e adiável, o acompanhamento psicológico é tido como algo “para malucos” e não para dar ferramentas para promover a autonomia e o bem estar. E, no caso das escolas, de promoção do sucesso escolar e de competências necessárias para estar bem consigo e com a comunidade. Por esta e por outras razões, os psicólogos em contexto escolar são um aliado imprescindível.

Celebrámos muito recentemente o Dia Mundial da Saúde, onde pouco se soube da estratégia para a saúde mental. Tivemos recentemente notícia de casos em que os psicólogos no sistema prisional trabalham em situações precárias. Sabemos, há muito tempo, que faltam psicólogos nas escolas. Não estará mais que na altura de agir e utilizar o imenso potencial de ajuda que podemos dar?

Haverá sempre problemas e isso não se poderá mudar. Mas podemos mudar a forma como respondemos. E responderíamos tão melhor, quantos mais psicólogos existissem nas escolas. É necessário intervir, por parte de decisores políticos para que este paradigma seja mudado. Devemos ao nosso futuro promover um ambiente saudável e apto a dar resposta aos problemas que povoam as nossas escolas. Devemos, sempre, dotar os alunos de todas as ferramentas que necessitem para atingirem os seus objectivos enquanto futuros cidadãos e enquanto pessoas.

 

 

O segundo SuperNanny visto à lupa por três especialistas. “Aquele happy ending é uma mentira”

Janeiro 27, 2018 às 6:00 am | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 22 de janeiro de 2018.

Cátia Bruno

O Observador pediu a três especialistas que assistissem ao segundo episódio. Há críticas à exposição dos menores, à falta de profundidade da intervenção e até às técnicas utilizadas.

Um aviso em fundo negro e letras brancas começa por dizer que “a privacidade dos intervenientes” foi “respeitada” e que as imagens foram exibidas “com a sua concordância”. O trabalho “da educadora” usa técnicas e instrumentos “pedo-pedagógicos”, mas não substitui o acompanhamento de “profissionais de saúde”.

A SIC optou por iniciar assim o segundo episódio do programa SuperNanny, que foi exibido este domingo, respondendo aos avisos e recomendações por parte de entidades como a Comissão Nacional de Proteção de Direitos das Crianças e Jovens (CNPDCJ), a Unicef e o Instituto de Apoio à Criança, que apontaram violações dos direitos da criança como o direito à “imagem”, “reserva da vida privada” e “intimidade” dos menores envolvidos. Esta segunda-feira, a Ordem dos Advogados juntou-se ao coro de críticas, falando numa exposição mediática “inadmissível” das crianças.

Depois do aviso em fundo negro surgem, como aperitivo, imagens a antecipar o que será exibido neste episódio. Uma criança a chorar, deitada no chão da casa-de-banho, descontrolada, tenta pontapear a mãe. Dois irmãos batem um no outro. Uma mãe grita com a filha, que responde insultando-a. Depois, é-nos dada a conhecer a nova família que pediu ajuda à SuperNanny: dois pais que trabalham a tempo inteiro e dois filhos, uma de 13 anos e um de cinco.

O Observador pediu a três profissionais da área da psicologia e da terapia familiar que assistissem a este episódio e partilhassem as suas observações sobre as estratégias ali aplicadas e a relevância (ou falta dela) do formato. Alguns revelaram não ter assistido ao episódio por opção, como forma de “boicote” a um formato que consideram negativo. Outros preferiram não comentar para não “alimentar a polémica”.

Entre aqueles que aceitaram partilhar as suas opiniões, um consenso instalou-se: o programa poderia ser positivo, mas o facto de incluir crianças reais e expor os seus nomes, rostos e rotinas na intimidade é um grande problema. “O formato em si poderia ser positivo se a identidade das crianças fosse protegida”, resume a psicóloga clínica Raquel Martins Ferreira ao Observador.

Não é o caso. E, mesmo nessa situação, seria necessário reforçar que não há uma solução mágica que resulte com toda a gente: “Não há uma intervenção padrão. Não podemos impingir as mesmas estratégias a todas as famílias”, explica Isabel Abreu Lima, especialista em psicologia educacional e professora na Universidade do Porto. As respostas clínicas dadas nestas situações, sublinham os especialistas ouvidos pelo Observador, são dadas em consultório, respeitando a confidencialidade e intimidade dos intervenientes. E vão muito além das estratégias apresentadas no último episódio, como colocar uma criança descompensada, a fazer uma birra, num “cantinho da pausa” ou estimular a comunicação entre mãe e filha através de uma carta.

Nanny “não está ali como psicóloga”, mas usa estratégias da psicologia

Para os profissionais ouvidos pelo Observador, a polémica começa logo pelo facto de não ser claro se Teresa Paula Marques, a SuperNanny, formada em Psicologia, está ali na qualidade de psicóloga ou não. Em caso afirmativo, diz Raquel Martins Ferreira, levantam-se “questões éticas”. Teresa Paula Marques sublinhou ao Observador não estar no programa como psicóloga e o aviso emitido pela SIC define-a como “educadora”, apesar de inicialmente ter sido apresentada como psicóloga nas promoções do programa; mas Martins Ferreira não tem dúvidas em classificar as soluções apresentadas pela Nanny no programa como “estratégias da psicologia e da terapia familiar”.

João Lázaro, psicólogo clínico com 27 anos de experiência, cuja clínica inclui consultas especializadas para crianças e adolescentes, é ainda mais taxativo: “Ela será licenciada em psicologia, psicóloga não é”, resume, tendo em conta a violação de princípios éticos a que diz ter assistido. “Os papéis não se podem confundir”, diz, referindo-se às justificações apresentadas pela própria, que classifica de “desculpas de mau pagador”. “Aquele aviso inicial que a SIC apresenta no programa ilustra bem as questões da legalidade e da moralidade. As pessoas podem dizer ‘isto é legal’, mas o programa também se inscreve numa dimensão de imoralidade”, resume o clínico.

As críticas à postura de Teresa Paula Marques vão ainda mais longe. “Se ela está lá como psicóloga, há uma data de coisas que estão a falhar, como a empatia. Eu não posso fazer aquele olhar reprovador, é um juízo de valor que não pode ser feito por uma psicóloga”, atira Raquel Martins Ferreira. Já a especialista em educação Isabel Abreu Lima reforça essa mesma crítica, sublinhando a posição de “paternalismo total” da “Supernanny”, presente sobretudo no diagnóstico que Teresa Paula Marques faz aos dois pais da família em questão, depois de assistir a alguns serões em casa da família: “Ela faz acusações como ‘não há respeito’, usa um tom acusatório… Até o tipo de vocabulário que ela usa, como dizer que algo é ‘inadmissível’, não é correto.”

Os profissionais destacam ainda outro tipo de violações daquilo que deve ser uma intervenção terapêutica correta. “Uma criança que tenha estes comportamentos desafiantes acentua a birra em frente a estranhos. Não sei até que ponto isto não a intensifica, com os operadores de câmara ali, aquela gente toda à volta…”, destaca Raquel Martins Ferreira. João Lázaro, por seu lado, sublinha a confidencialidade como sendo “a base” no tratamento das questões mentais e de comportamento, que expõem “o íntimo das pessoas e não uma simples dor de estômago”. “Eu costumo dizer aos meus pacientes que estou disponível 365 dias por ano para os ouvir, mas se não me quiserem cumprimentar na rua, eu compreendo perfeitamente”, resume.

“Só vemos uma parte daqueles miúdos, que parecem uns demónios”

Neste segundo episódio, o filho mais novo da família, de apenas cinco anos, é apresentado como uma criança problemática que protagoniza birras violentas, insultando a mãe, puxando-lhe os cabelos e chegando a tentar pontapeá-la. Numa das cenas exibidas no episódio, a criança aparece a tomar banho a contragosto — deitado no chão da casa-de-banho por se recusar levantar e depois na banheira em pé, coberto apenas por uma toalha na cabeça.

Os espectadores assistem à criança a espernear enquanto lhe é vestido o pijama do Batman, a recusar-se a comer a sopa de legumes que tem à frente e a escorregar da cadeira, bem como a arrastar-se pelo chão de uma das divisões da casa, recusando-se a ir para o “cantinho da pausa”, uma das estratégias apresentadas pela SuperNanny para lidar com a sua birra. Isabel Abreu Lima aponta igualmente críticas à forma como essa solução é apresentada: “É uma estratégia totalmente errada. Ou é uma pausa ou é um tempo sozinho e ela faz um híbrido dos dois”, diz, destacando que o objetivo deve ser não um “castigo”, mas sim que a criança “aprenda a auto acalmar-se”. “Muitos daqueles comportamentos foram quase punitivos, e esses só são aplicados em situações mais graves.”

A especialista — que também não viu com bons olhos a distribuição de tarefas domésticas pelos filhos, falando numa situação “artificial” e “imposta” pela Nanny — critica ainda a obrigação de a criança pedir desculpa e dar um beijinho à mãe depois de ter estado cinco minutos no “cantinho”. “A criança teve aquele descontrolo mas não é porque é má ou diabólica, é porque não sabe como se comportar”, explica, acrescentando que “muitas vezes estas crianças não sabem o que se espera delas.” A alternativa, diz Abreu Lima, que se foca na parentalidade positiva, deveria ser ir buscar a criança calmamente e reintroduzi-la na rotina normal. “Se possível, pô-la a fazer outra coisa que possa ser positiva.”

João Lázaro prefere não comentar as técnicas aplicadas, por se inserirem na área “cognitivo-comportamentalista”, que não é a sua especialidade. Mas critica outro tipo de estratégias por parte da produção do programa, que classifica de desonestas, “como a mãe aparecer com um ar descuidado e no fim já terem tido o cuidado de a maquilhar e pentear.” “Como se o programa tivesse resolvido todos os problemas”, resume.

“Os casos clínicos não se observam numa relação causa-efeito. É preciso perceber como os pais se veem como pais, quais as memórias que têm da sua educação…”, acrescenta Lázaro, que desaprova ainda a ideia apresentada da mãe das crianças como “a general” e o pai como “simpático e bonacheirão”, para ilustrar uma dinâmica de “polícia bom e polícia mau”. “Como é que estes pais vão ser vistos publicamente depois? Aquele happy ending é uma mentira”, considera o profissional.

Também Martins Ferreira e Abreu Lima sublinharam a falta de “etapas prévias”, como a intervenção com os pais, e o foco excessivo nas crianças. Para a docente da Universidade do Porto, o programa acaba por se revelar paradoxal, porque expõe os menores mas apresenta-os de forma unidimensional: “Nós só vemos a parte negativa daqueles miúdos, que parecem uns demónios”, diz, criticando o “sensacionalismo do programa” que se foca apenas nos comportamentos inadequados. “O comportamento daquelas crianças não é só birras — há outras coisas que ali são omissas” e com as quais os profissionais de saúde também trabalham.

Efeitos nas famílias só serão visíveis a longo prazo

Se o filho mais novo é apresentado neste episódio como sendo uma fonte constante de birras, a filha mais velha, de 13 anos, também tem a sua quota de maus momentos. As discussões com a mãe são várias vezes referidas, mas apenas ilustradas duas vezes: quando a adolescente chama ‘parvalhona’ à mãe que grita com ela e quando se esconde na despensa recusando-se a aspirar a sala. Com ela, a Nanny não recorreu a estratégias como o tempo de pausa, mas apresentou várias soluções para melhorar a comunicação com a família: tirar fotos aos pais e ao irmão e escrever uma carta para a mãe que foi depois lida num momento a sós das duas, mas onde as câmaras estiveram presentes.

Raquel Martins Ferreira, que acompanha vários pré-adolescentes e adolescentes no seu consultório, considera que a exposição desta menor pode, até certo ponto, ser mais problemática, já que ela “tem muito mais consciência” do que o irmão. Isabel Abreu Lima critica o “exibicionismo” da cena (“parecia que estávamos no ‘Perdoa-me’”, diz) e o facto de a conversa não ter partido da mãe, mas ter sim sido imposta por Teresa Paula Marques. Já João Lázaro sublinha que aquele momento faz sentido, mas nunca exposto em público: “Eu não digo à minha mulher e aos meus filhos que os amo à frente de milhões de pessoas. O que vincula a relação de uma família é a porta da nossa casa”, resume.

Martins Ferreira considera que os efeitos podem ser ainda mais perniciosos por se ter aberto uma caixa de Pandora na relação entre a adolescente e a sua família que pode ser positiva, mas que necessita de acompanhamento. “Ela diz repetidamente à mãe que precisa de atenção e isso pode ser muito positivo em contexto terapêutico”, aponta a profissional, destacando que a tensão entre mãe e filha revelou ser fruto “de uma saturação que ela revela do irmão e de partilhar o quarto com ele”. “Mas neste contexto não sei até que ponto isto não pode levar a uma culpabilização dos pais e do irmão, porque a puseram numa situação de vulnerabilidade em público.”“Quando a SuperNanny introduz estratégias como a da carta e não lhes dá seguimento, fica a faltar estrutura. A família fica desamparada”, critica.

Para além de todas estas apreciações, os especialistas ouvidos pelo Observador concordam em absoluto que o formato do programa é particularmente preocupante pela exposição em público de dimensões da vida íntima de menores de idade — e acreditam que podem ter consequências nefastas a longo prazo. João Lázaro, que classifica o programa como “um Big Brother da família” e uma experiência “tenebrosa”, teme as consequências para estas crianças na escola e na própria relação com a família, com os filhos a poderem acusar os pais no futuro de terem exposto a sua “incompetência na televisão”: “Como é que esta adolescente vai encarar os seus pares agora que a viram no seu robezinho às bolinhas cor de rosa, no seu quarto? Isto é uma violência muito grande”, diz. “Vai ficar marcado. Vai acompanhá-los o resto da vida. O bullying não é só quando se bate ou quando se goza. Só daqui a muitos anos vamos ver os efeitos disto.”

Isabel Abreu Lima sublinha que estamos perante “a devassa” da intimidade de uma criança que tem vizinhos, amigos e que ali é identificada às claras. “Nunca faria aquilo com um filho meu, mas reconheço que alguns pais se identificam, pensam ‘não sou a única a sentir isto’, e a TV podia cumprir um papel muito importante ensinando aos pais o que podem fazer”, volta a sublinhar, dando como exemplo o problema apresentado neste episódio de apenas um dos pais ter o papel disciplinador. “Mas expor as crianças na sua própria cama, a tomarem banho… É inadmissível. Até custa ver.”

 

 

“A intervenção psicológica com vítimas de abuso sexual requer formação especializada”

Fevereiro 21, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Marisalva Fernandes Fávero à http://spsc.pt/ no dia 4 de fevereiro de 2017.

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“O abuso sexual é um crime muito difícil de sinalizar”, que pode ocorrer em qualquer lado: na família, na escola, na universidade, mesmo no consultório do psiquiatra ou psicólogo. Marisalva Fernandes Fávero, doutorada em psicologia e investigadora do Instituto Universitário da Maia, dedica-se ao estudo deste fenómeno, na perspetiva da vítima. A autora de Sexualidade Infantil e Abusos sexuais, terapeuta sexual e psicodramatista, explica ao site da SPSC, que “desenclausurar” o abuso é possível, mas complexo, requerendo do profissional que acompanha a vítima uma formação especializada.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – A violência sexual pode ter apenas uma dimensão psicológica? Ou pressupõe sempre uma qualquer forma de agressão física?

Marisalva Fernandes Fávero – A violência sexual tem várias faces e protagonistas. Não pressupõe sempre a agressão física. Felizmente, e ao contrário do que as pessoas podem pensar, esta é uma constatação que os estudos científicos vieram trazer para a comunidade em geral. Até há umas décadas só se considerava violência sexual se houvesse marcas físicas e, portanto, os tribunais procuravam vestígios. Não se considerava violência sexual ser-se assediado, obrigado a ver cenas de sexo entre outras pessoas (ao vivo ou em filmes), a ver o corpo do agressor (no caso do exibicionismo), a deixar-se fotografar e filmar nu e em poses eróticas, etc..

SPSC – Que metáfora usaria para descrever o que acontece no universo psicológico e emocional de uma criança que seja abusada sexualmente por um membro da família, e de forma repetida, ao longo de anos?

MFF – O abuso sexual continuado é, para mim clausura, prisão. É um estado semelhante ao vivido em campos de concentração. Gera, na vítima, a despersonalização, a falta de controlo sobre o seu corpo, sobre as suas emoções, remete-a a um silêncio forçado, a uma permanência na situação de violência. Ainda que os portões de saída estejam abertos, não há para onde fugir. Emociono-me, sempre com uma afirmação de dois terapeutas franceses (Perrone e Naninni), que ilustram esta solidão e desamparo: “A criança fica numa situação de exílio. Faz parte do mundo adulto sem estar integrada e participa do mundo das crianças sem lhe poder pertencer. Por isso, está condenada ao silêncio! Em sua casa fala uma língua estrangeira e fala uma língua estrangeira no exterior. É estrangeiro num e noutro.” Eu “aportuguesei” a expressão anglo-saxónica Disclosure (usada para indicar a revelação do abuso sexual) num texto que está para publicar (“Porque Desenclausurar é mais do que revelar um segredo bem guardado”). A mensagem de esperança é que “desenclausurar” é possível. A terapia é imprescindível nestes casos. É preciso ter os sentidos em estado de alerta, para perceber quando uma criança ou adolescente está a ser vítima. É um fenómeno de silêncio, é certo, mas o ser humano não comunica só com palavras – as vítimas dizem que fizeram tentativas de revelar, que enviaram sinais, que não foram consideradas. Por outro lado, é imprescindível investir em programas de prevenção. Num estudo em que participei na Universidade de Salamanca (com Amaia Del Campo e Félix López), sobre a avaliação de um programa de prevenção em todos os níveis de escolaridade, 10 alunos/as (oito do grupo experimental e duas meninas do grupo de controle) revelaram, durante a aplicação do Programa, que foram ou estavam a ser vítimas.

SPSC – Que sinais não verbais pode a vítima enviar?

MFF – Qualquer mudança de comportamento, isolamento social, estar com sono em horários de aula ou de atividades sociais, alterações fisiológicas, comichão nas zonas íntimas, comportamentos sexuais ou interesses sexuais não esperados para a idade, etc..

SPSC – Quando pensamos em abuso sexual intrafamiliar não o associamos a mulheres agressoras. Porquê?

MFF – Em certa medida pensamos bem, porque está demonstrado que a maioria das vítimas são meninas e o agressor homem. No entanto, também há mulheres que agridem sexualmente crianças e adolescentes da sua família. Até há bem poucos anos, pensava-se que as mulheres só agrediam sexualmente, se instigadas pelos seus companheiros agressores. Mas os estudos científicos e o trabalho com vítimas tem vindo a desconstruir este mito. A pedofilia feminina e a agressão sexual por mulheres são reconhecidas na psiquiatria e psicologia forense. No meu estudo (realizado a partir de 1994 e publicado em 2003) encontrei 10% de mulheres agressoras de crianças. Os dados mantêm-se e os estudos internacionais vão na mesma direção, revelando percentagens que vão dos 5% (quando as vítimas são meninas) aos 20% (para vítimas rapazes). A agressão é mais facilmente velada, pois nas crianças mais jovens pode ser confundida com os cuidados. Isto também se aplica aos homens agressores, mas no caso das mulheres pode ser ainda mais subtil. É preciso pontuar que as consequências podem ser tão graves quanto as perpetradas por agressores e os motivos também se assemelham.

O abuso sexual continuado é, para mim clausura, prisão. É um estado semelhante ao vivido em campos de concentração. Gera, na vítima, a despersonalização, a falta de controlo sobre o seu corpo, sobre as suas emoções, remete-a a um silêncio forçado, a uma permanência na situação de violência. Ainda que os portões de saída estejam abertos, não há para onde fugir.

SPSC – Como pode a vivência testemunhal do abuso sexual do ‘outro’, marcar uma criança ou adolescente?

MFF – Neste momento, e depois de 6 anos a investigar o assunto, não tenho dúvidas de que uma criança ou adolescente que ouve, assiste e/ou é confidente de uma vítima muito próxima de si, é também ela uma vítima (indireta). Temos verificado que as características do abuso sexual em si, as vivências subjetivas, os mecanismos de defesa e as consequências são muito semelhantes às das vítimas diretas.

SPSC – É possível que o abuso sexual vivido na infância/adolescência seja completamente apagado do consciente? Que técnicas terapêuticas se recomendam para intervir junto destas vítimas?

MFF – Apagado não é o termo. O acompanhamento de vítimas diz-nos que, principalmente nos casos de abusos sexuais repetidos, de facto podem ocorrer no momento do trauma, reações dissociativas que, ao impedir o acesso às memórias (do trauma), prejudicam o seu processamento. A dissociação é um fenómeno defensivo, complexo, que permite que a pessoa se distancie cognitiva e emocionalmente da experiência, de forma a manter a estabilidade física e mental. A dissociação pode surgir durante, ou imediatamente após o trauma (peritraumática), ou como uma consequência a longo prazo. Por isso, está fortemente associada a fenómenos dissociativos na idade adulta, pelo que a presença da dissociação nesta etapa da vida pode ser um indicador fortemente confiável de que a pessoa sofreu abusos sexuais na infância e/ou adolescência. Várias propostas de intervenção focada no trauma têm surgido, cada qual reclamando maior eficiência e rapidez. Independentemente do modelo terapêutico de intervenção utilizado, deve promover a estabilização dos sintomas, validar a experiência e os sentimentos associados e promover o desenvolvimento pessoal com vista ao futuro.

SPSC – Que organizações recomenda no apoio a famílias que lidam com o problema da violência sexual na infância/adolescência?

MFF – Tenho colaborado com a Associação Projecto Criar. Possui os GIAC (Gabinetes Interdisciplinares de Apoio à criança, no Porto, Vila do Conde, Braga e Lisboa) e oferece intervenção psicológica, social e jurídica às vítimas. Há várias respostas sociais, IPSS, ONG, Gabinetes de psicologia em algumas universidades. Em dezembro foi criado o primeiro Centro de Crise de apoio a mulheres e raparigas sobreviventes de violência sexual na Cidade de Lisboa, o primeiro serviço especializado em Portugal. Na inauguração ficou a promessa política para o seu alargamento ao país.

SPSC – O Sistema Nacional de Saúde comparticipa o tratamento psicoterapêutico a menores vítimas de violência sexual? E a adultos?

MFF – Não especificamente. Há apoio psicológico em hospitais, centros de saúde, etc.. Mas a resposta, embora feita por psicólogos e psiquiatras, não é especializada e isto deveria ser um ponto importantíssimo a entrar na agenda política. A intervenção psicológica com vítimas de abuso sexual (seja com crianças e adolescentes ou pessoas adultas que foram vítimas na infância ou adolescência) requer uma formação especializada. É uma área complexa, exige muito do/a profissional, que deveria submeter-se à supervisão e à sua própria terapia.

SPSC – Há muito a ideia de que a vítima de abuso sexual se transforma frequentemente em agressor/a, se não for ajudada. Na realidade é mesmo assim?

MFF – Não é bem assim. Grande parte das vítimas rompe o chamado ciclo de violência. De outro modo, tendo em conta a elevada frequência de vítimas, o flagelo da violência sexual seria, ainda, maior. Outra evidência é que a maior parte das vítimas são mulheres e os ofensores, homens.

Temos que considerar todos os fatores que possam contribuir para a agressão sexual. Apesar de a maior parte das vítimas romper, efetivamente, o ciclo de violência, a intervenção psicológica é muito importante, para, por um lado evitar a repetição do ciclo, mas também para acabar com esta espécie de “premonição” de vítima-a-agressor, nos rapazes vítimas. Por tudo isto, é preciso realçar que, ser vítima de violência sexual na infância ou adolescência pode ser um fator de risco de agressão sexual no futuro, não a causa do referido comportamento.

SPSC – As direções pedagógicas dos meios universitários portugueses são sensíveis à necessidade de prevenir a violência sexual, de criar estruturas para denunciar agressores e para apoiar vítimas? Ou promove-se mais a ideia de que ‘isso não acontece aqui’?

MFF – Não reconheço essa preocupação em nenhuma universidade.

SPSC – Nas escolas secundárias também acontece violência sexual? De que formas? O sexting é uma delas?

MFF – A violência sexual acontece em qualquer lugar, desde que haja agressores. O sexting está a tornar-se vulgar, pois toda a gente tem telemóveis ou outros meios de comunicação, todos de fácil acesso.

Se a violência sexual, principalmente a intrafamiliar, é um crime quase perfeito (protegido pelo silêncio da vítima, da família, pelos sentimentos ambivalentes da vítima para com o agressor, por outros fenómenos psicológicos), a violência sexual nos contextos profissionais é um crime perfeito, sobretudo quando é perpetrado por psiquiatras e terapeutas.

SPSC – Sabemos que o assédio sexual também acontece nos gabinetes de profissionais de saúde (médicos, psicólogos, psiquiatras, entre outros especialistas). Esta é uma realidade mais fácil de sinalizar, punir e combater?

MFF – Toda a violência sexual é difícil de sinalizar. Se a violência sexual, principalmente a intrafamiliar, é um crime quase perfeito (protegido pelo silêncio da vítima, da família, pelos sentimentos ambivalentes da vítima para com o agressor, por outros fenómenos psicológicos), a violência sexual nos contextos profissionais é um crime perfeito, sobretudo quando é perpetrado por psiquiatras e terapeutas. É muito difícil de sinalizar e combater. Os estudos indicam que, apenas as situações mais sérias terão alguma probabilidade de serem reportadas. Dá-se o caso, em grande parte das situações, de a própria vítima demorar a reconhecer que está a ser vítima. Em tribunal a primeira coisa que perguntam é: “se isto aconteceu na primeira consulta, porque é que lá voltou?”. E as vítimas são desacreditadas, remetidas ao silêncio. E a “violência sexual” é quase legitimada em tribunal. O público em geral faria a mesma pergunta, tende a culpar a vítima, por isso, dizia eu, é um crime perfeito!

SPSC – Temos ideia da percentagem de pessoas que sofre (sofreu) de violência sexual no nosso país, atualmente? Como interpretar estes dados?

MFF – Desde a realização do meu estudo não foi feito nenhum estudo nacional de prevalência, que retira dados da informação da própria população e não através de fontes oficiais (que são as que resultam das denúncias). Neste primeiro estudo, 7% da amostra referiu ter sido vítima até os 18 anos. No entanto, na época, tendo em conta os dados internacionais (entre 10 e 15%) considerámos que algumas pessoas da amostra não tinham sido sinceras e que os dados de vitimação poderiam ser maiores do que os revelados. Por este motivo, e passados quase 15 anos do início do processo Casa Pia (que consideramos ter sido um acontecimento que fez romper o silêncio social sobre o fenómeno, tanto que se verificou um aumento das denúncias), decidimos replicar o estudo e, embora só tenhamos tratado os dados do norte do país, verificamos que 10% da amostra revelou ter sido vítima. Mas aqui introduzimos um dado novo, pois verificámos que, nesta mesma amostra, 5% foi vítima indireta, ou seja, testemunhou o abuso sexual por ter ouvido, presenciado ou sido confidente de uma vítima direta. Como se vê são dados preocupantes. Por isso urge a implementação de programas de prevenção (avaliados e eficazes), a reformulação das penas, a intervenção psicológica e jurídica para as vítimas e para as suas famílias e a intervenção com agressores.

SPSC – A sociedade portuguesa reconhece os horrores da violência sexual como horríficos?

MFF – Sim, depois de ter sido confrontada de uma forma muito dramática, com o que ficou conhecido como o processo Casa Pia. A sociedade portuguesa teve de rever certos mitos e preconceitos, nomeadamente o de que o agressor pode ser alguém com reconhecimento e simpatia pública, e o de que as vítimas podem ser rapazes. O processo Casa Pia abriu um debate público, social, e conseguiu implicar todas as pessoas na reflexão sobre o que é, verdadeiramente, a violência sexual contra crianças e adolescentes. Inicialmente, no entanto, gerou-se pânico, medo e insegurança por parte dos adultos relativamente à forma como deveria ser o relacionamento com as crianças sem ser/parecer abusivo. É evidente que todo este processo teve também repercussões nos processos judiciais. Apesar de considerar que ainda falta muito para se chegar a um modelo adequado de intervenção nos abusos sexuais, alguns acontecimentos abrem uma ponta de esperança. Por exemplo, o caso de um professor, no Porto, que foi condenado por abuso sexual de três alunas adolescentes, cujos tipos foram o que chamamos de menos intrusivos (sem penetração, sem contactos físicos subtis, assédio sexual verbal, etc.) e para tal terem valorizado as perícias psicológicas, o meu depoimento na qualidade de psicóloga de uma das vítimas, e terem ouvido as adolescentes, com recurso à gravação para memória futura.

 

 

A perda de um filho – intervenção psicológica – Workshop no Porto

Dezembro 27, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Calendário: 24-02-2017

Horário: 18:00 – 22:00

Preço: 30 €

Data limite de inscrição: 22-02-2017

mais informações no link:

http://www.mdcpsicologia.pt/formacao/catalogo/action-detail/a-perda-de-um-filho-intervencao-psicologica/

Com mais psicólogos nas escolas “poupa-se em sofrimento”

Outubro 24, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.publico.pt/ a Telmo Mourinho Baptista no dia 6 de outubro de 2016.

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Telmo Mourinho Baptista não tem dúvidas de que o trabalho dos psicólogos nas escolas pode contribuir para um melhor sucesso escolar. Diz que há 500 profissionais destes a menos nas escolas tendo em conta as necessidades actuais.

Muitos pais que têm filhos a estudar não sabem exactamente o que fazem os psicólogos nas escolas e muitas vezes há a ideia de que estes se limitam aos testes psicotécnicos. Qual é, então, o papel de um psicólogo na escola?

Por vezes há, de facto, uma concepção demasiado limitada desse papel, porque o primeiro contacto é geralmente feito por altura das provas de orientação vocacional. Mas um psicólogo faz muito mais do que isso. Penso, aliás, que nem sequer há uma utilização plena do que a psicologia e os psicólogos podem fazer nas várias áreas.

Tudo aquilo que tem a ver com uma melhor adaptação e a promoção do sucesso escolar tem o contributo dos psicólogos, desde logo na detecção de problemas que impedem uma boa aprendizagem: hiperactividade, perturbação do comportamento, etc. Não só a nível individual, mas no colectivo da escola. Por exemplo, as questões do bullying não são só individuais, são colectivas, e merecem uma atenção muito especial até pelo impacto de longo prazo que têm.

Há um estudo que mostra que 40 anos depois continua a sofrer-se as consequências. É um longo estudo, que foi feito em Inglaterra, com mais de oito mil pessoas, que mostra que as pessoas que foram alvo desta forma de assédio sistemático nas escolas têm piores resultados na sua própria vida, têm mais problemas com a lei, mais problemas de saúde mental, por exemplo.

O papel do psicólogo vai do individual, com os alunos, ao trabalho com toda a comunidade escolar, com os professores, os auxiliares, naquilo que são os problemas que a escola apresenta. Temos contributos a dar na promoção do sucesso escolar, na diminuição do abandono — há muitos factores de abandono que têm a ver com dificuldades psicológicas — e na promoção de competências sociais e pessoais.

Essas competências devem ser trabalhadas com os alunos em que circunstâncias?

Em alturas mais difíceis, como quando se entra para a escola ou nas mudanças de ciclo, com a passagem para mais professores, para certo tipo de disciplinas e para outra forma de trabalho pessoal, de modo que esta transição se faça com muito mais suavidade, para que não haja tanto choque nem tanta dificuldade de adaptação.

E sabe-se hoje que essas competências são também muito protectivas em termos de saúde mental. Uma pessoa que consegue ter boas competências de comunicação, negociação, mediação, tem mais capacidade de estar no mundo de uma forma mais adequada na expressão das suas necessidades, dos seus desejos, das suas competências. Constituem um conjunto de estratégias pessoais que são facilitadoras do estar no mundo.

Uma presença mais efectiva de psicólogos nas escolas poderia reduzir o grau de insucesso escolar, com todos os problemas que este acarreta?

Tenho a certeza absoluta que sim. Não estou a dizer que tudo é só intervenção psicológica, são precisas muitas outras coisas. Mas tem um papel central desde logo no diagnóstico de situações. Quanto mais precocemente forem detectadas, mais fácil é fazer intervenções e também menos custosas são. E poupam muito sofrimento. Muitas vezes, temos situações de perturbação que não são detectadas, em que a criança acumula dificuldades e insucesso e se desmotiva. Ao desmotivar-se, ou tem insucesso ou abandona a escola. E, muitas vezes, isso não é detectado ou é detectado muito tarde.

Temos de estar atentos às necessidades da escola, não só dos alunos, mas de toda a comunidade, para que se perceba o que está em causa e se intervenha. O bullying, por exemplo, tem um início, só que frequentemente não se intervém, mesmo sendo uma acção sistemática, como é, e que por isso tem tantas consequências. Portanto, naquilo que são alguns problemas de perturbação psicológica, de comportamento, tendo psicólogos na escola em número suficiente teríamos condições para contribuir claramente para o sucesso escolar.

O que é um número suficiente de psicólogos? Há dias referiu que faltam 500 nas escolas para reduzir o rácio psicólogo/aluno actualmente existente. Como se faz essa contabilidade?

Os rácios padecem sempre daquilo que é a medida da média. Temos recomendações internacionais e fazemos cálculos em função disso. Temos cerca de 700 psicólogos nas escolas, quando se fala que estão em falta 500 tem de ser com base numa análise das necessidades. Haverá zonas e locais que precisarão de mais psicólogos do que outras. O rácio é uma só medida genérica para se entender que estamos longe de ter uma situação normal nesta área [o número de psicólogos por alunos é actualmente de 1/1700 alunos, quando o rácio recomendado é de 1/1000]. Não estou a falar de situações ideais. Temos consciência de que não é possível.

Como é que um psicólogo num agrupamento, com mais de mil alunos, pode trabalhar no campo da prevenção, da detecção?

Sozinho não consegue. Por isso é que precisamos de mais. Nem todos os alunos têm problemas, mas só para fazer o diagnóstico de situação gasta-se muito tempo. Por outro lado, temos uma transitoriedade dos contratos, que não garante estabilidade. Nunca se sabe se vai ficar na mesma escola ou não. Defendemos que deve haver um período mínimo de três anos de permanência na mesma escola e não serem substituídos todos os anos. Para dar continuidade ao trabalho e estabilizar o projecto escolar.

 

 

XXVII Encontro Nacional da APPIA | Histórias de Vida, Percursos de Sobrevivência: dos Riscos aos Projetos

Abril 29, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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encontromais informações:

https://www.facebook.com/events/495414763978320/

http://appia.com.pt/

Jornadas W+ “Pisar o risco – Respostas inovadoras de saúde com população de risco”

Novembro 17, 2015 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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pisar

De inscrição gratuita, estas jornadas destinam-se a todos os profissionais e estudantes que lidam com pessoas em situação de risco e vulnerabilidade psicológica.

“Pisar o risco – Respostas inovadoras de saúde com população de risco”, é o tema das jornadas, promovidas pela Unidade W+ da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que se realizam no próximo dia 27 de novembro, entre as 9h00 e as 17h30, no auditório da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.

mais informações:

http://www.scml.pt/pt-PT/destaques/inscricoes_abertas_para_as_jornadas_do_w/

III Congresso Internacional de Intervenção Psicológica

Fevereiro 28, 2014 às 6:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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iii

O Instituto de Psicologia e Ciências da Educação (IPCE) da Universidade Lusíada do Porto tem a honra de apresentar o III Congresso Internacional de Intervenção Psicológica, que se irá realizar nos dias 20 e 21 de Março de 2014. Na linha de continuidade dos I e II Congressos realizados nos anos de 2012 e 2013, esta iniciativa pretende criar um espaço de debate entre psicólogos/as, professores, educadores, investigadores/as, e estudantes, contando com oradores/as nacionais e estrangeiros de mérito reconhecido. Procura-se a diversidade de modalidades de intervenção psicológica, enquanto instrumento de promoção de indivíduos, grupos e de uma sociedade mais saudáveis, através de um diálogo alargado sobre os principais desafios que hoje se colocam de forma particular aos diversos agentes que direta ou indiretamente lidam com a Escola.

mais informações aqui

DATAS LIMITE DE PAGAMENTO
NO CONGRESSO COM OPÇÃO POR WORKSHOP: 10 DE MARÇO
NO CONGRESSO: 18 DE MARÇO

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