Na hora de brincar, os educadores desafiam e os pais substituem-se às crianças

Janeiro 11, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 7 de dezembro de 2018.

Como brincam os pais com os filhos? Como brincam os educadores de infância com os alunos? Há diferenças de género? Estudo mergulha no papel das brincadeiras e compara Portugal com a Alemanha. E mostra que os pais portugueses não estão habituados a brincar.

Bárbara Wong

Uma mala com objectos lá dentro, da caixa dos ovos à máquina de cola quente passando por um martelo, fios, tecidos, purpurinas, rolhas de cortiça, palhinhas, madeiras. O objectivo é, em 20 minutos, um adulto e uma criança fazerem uma actividade em conjunto. Um boneco, um quadro, uma maquete, o que se quiser. Quando os meninos, dos 3 aos 5 anos, realizam a tarefa com o seu educador de infância, este dá-lhes autonomia. Quando a actividade é feita com os pais, estes ajudam e chegam a substituir-se à criança.

Marina Fuertes e Otília Sousa, da Escola Superior de Educação de Lisboa (ESELx), são as autoras de um estudo que foi publicado na revista científica Plos One, em meados de Novembro. O objectivo era perceber como é que os adultos lidam com as crianças em actividades colaborativas. Esta observação começou por ser feita por Holger Brandes, reitor da Evangelische Hochschüle, em Dresden, que propôs a Fuertes replicá-lo em Portugal, de maneira a haver termo de comparação.

Na Alemanha, a ideia de Brandes era perceber se educadores do sexo feminino e masculino colaboram com as crianças de igual forma — “foi um estudo de género”, precisa Marina Fuertes, docente da ESELx e investigadora da Universidade do Porto. Por cá, como a percentagem de educadores homens é diminuta (não chega aos 2%), as investigadoras decidiram alargar a observação aos progenitores. Participaram 55 educadores (dez deles homens), 45 pais (23 mães e 22 pais), 47 rapazes e 48 raparigas, entre os 3 e os 5 anos.

O desafio era, em 20 minutos, levar a cabo uma tarefa com a tal mala cheia de materiais. As diferenças entre a Alemanha e Portugal fizeram-se sentir logo no início da actividade. As crianças germânicas não podem tocar em nenhum material sem antes explicarem ao educador qual é o seu projecto. As portuguesas são incentivadas a explorar a mala. “O educador alemão ajuda a criança a exercitar-se do ponto de vista cognitivo e da sua organização mental. É pedido a uma criança de 3 anos que faça uma planificação prévia. Os nossos [as crianças portuguesas] mexem em tudo”, explica Fuertes.

No entanto, “as crianças portuguesas tomam bastante a iniciativa”, salvaguarda Otília Sousa, docente da ESELx e investigadora do Instituto de Educação, acrescentando que exploram os materiais, os nomeiam e verbalizam o que podem fazer com eles. “A estratégia alemã é muito boa, mas a nossa é melhor em termos emocionais. É dado tempo à criança, as respostas são afectivas, há contacto ocular, não sentem que estão a fazer uma tarefa”, descreve Marina Fuertes.

E a partir daqui a atitude dos adultos também varia. Se os educadores portugueses incentivam a criança a criar sozinha (aconteceu com 21 crianças, em 50), os pais ajudam-na (18 em 45), mas a maioria substitui-a (25 em 45) e faz o projecto por ela (apenas duas crianças o fizeram a solo). Segundo a mesma observação — todos os pares foram filmados, posteriormente o filme foi visto e classificado pelos investigadores segundo uma escala tendo em conta a empatia, cooperação, desafio, atenção e comunicação —, também houve educadores que fizeram as tarefas pelos seus alunos (12), mas não tanto como acontece com os pais (25).

“O adulto não deve fazer [a tarefa] pela criança ou rejeitar as suas ideias, mas pode contribuir para elas. Apesar de tudo, os educadores trabalharam muito em parceria, alguns preferiram seguir a criança mas não ‘abandonaram na tarefa’. Nalguns casos, questionar e dar várias opções à criança também pode ajudá-la a reflectir, a planear, a tomar decisões”, defende Marina Fuertes.

Homens e mulheres agem de maneira

“O género de quem está com a criança também é importante”, informa Otília Sousa. Inicialmente, as investigadoras não encontraram diferenças entre pais e educadores na interacção com as crianças. Contudo, quando se separaram os pais e os educadores de infância homens para um lado e as mães e as educadoras para o outro, surgiram diferenças: os homens tendem a ser mais competitivos, liderando a actividade e promovendo projectos paralelos. As mulheres permitem que a criança participe e promovem um trabalho colaborativo.

Mais: homens e mulheres agem de maneira diferente quando ao seu lado têm um rapaz ou uma rapariga. Com as meninas, os pais homens dão-lhes a oportunidade de trabalharem em conjunto; já com os meninos, os pais fazem a actividade enquanto eles observam. “Com as mães são os rapazes os autores e a mãe apoia. Com os pais, os rapazes são introduzidos numa hierarquia muito cedo: eles são liderados pelos pais e lideram as mães. Apreendem que podem ser líderes ou liderados. Com as meninas, a parceria é maior. As raparigas são introduzidas à colaboração”, diz Marina Fuertes. Desconhece-se se este comportamento terá impacto no futuro.

“A forma como os adultos comunicam com as crianças também é muito interessante”, diz Otília Sousa. Enquanto os educadores dão sugestões, os pais dão indicações. “Quando o adulto manda, o interesse e a participação diminuem; quando sugere, a criança envolve-se e elabora”, acrescenta Marina Fuertes.

O elogio é outra forma de manter os miúdos envolvidos. Não o elogio “a torto e a direito”, mas o “sofisticado”, como: “‘Ensina-me como se faz’; ‘isto é muito interessante, não sabia’; ‘podes ajudar a mãe?’. É a melhor forma de os elogiar”, acredita Marina Fuertes.

O resultado final do projecto também varia de Portugal para a Alemanha, diz Otília Sousa: “Nós temos mais sujeitos animados [as crianças fazem bonecos que personificam as famílias ou animais], e eles [os alemães] fazem mais objectos.”

As investigadoras observaram ainda que os pais portugueses não estão habituados a brincar com os filhos. “Toda a atitude do adulto é de espanto porque não está à espera que a criança saiba fazer”, aponta Marina Fuertes.

Educadores e pais complementam-se

O que era proposto neste estudo passava por construir algo: como se fosse um jogo de legos. E nem as crianças nem os pais têm o hábito de brincar assim. As crianças “são cada vez mais passivas”. “É-lhes dado espaço para brincar, mas não para fazer”, critica Fuertes.

E a comparação volta à Alemanha. Por lá, nas salas do jardim-de-infância há uma mesa de carpintaria a sério, com materiais cortantes, como uma serra. Por cá, isso é impensável. Por lá, há campo para explorar, é comum haver um tanque de areia ou de lama; por cá, os tanques de areia foram retirados das escolas por falta de higiene. Por lá, os meninos podem subir às árvores; por cá nem por isso. “O lado da exploração, o lado mais físico não existe. Afastámo-nos da natureza e higienizámos a brincadeira”, nota Otília Sousa. “Até há 15 anos, no exterior havia árvores, pedras, terra; hoje temos tartan (quente no Verão e ensopado no Inverno). É preciso correr riscos e quanto mais a criança ganha essa noção, nos primeiros anos, mais dificilmente correrá riscos reais no futuro. Estamos a protegê-los tanto, que não estamos a protegê-los e já vemos crianças a correr em superfícies planas e a cair [porque a coordenação motora não está bem desenvolvida]”, lamenta Marina Fuertes.

Em suma, as investigadoras concluem que é importante os pais e os filhos brincarem. Isso melhora a relação, além de que quer uns quer outros aprendem entre si. E também é importante a criança ter várias experiências: “Criar quando lhe dão espaço e regular emoções quando não têm esse espaço, por isso a complementaridade entre educadores e pais é importante”, conclui Marina Fuertes.

E a partir daqui a atitude dos adultos também varia. Se os educadores portugueses incentivam a criança a criar sozinha (aconteceu com 21 crianças, em 50), os pais ajudam-na (18 em 45), mas a maioria substitui-a (25 em 45) e faz o projecto por ela (apenas duas crianças o fizeram a solo). Segundo a mesma observação — todos os pares foram filmados, posteriormente o filme foi visto e classificado pelos investigadores segundo uma escala tendo em conta a empatia, cooperação, desafio, atenção e comunicação —, também houve educadores que fizeram as tarefas pelos seus alunos (12), mas não tanto como acontece com os pais (25).

“O adulto não deve fazer [a tarefa] pela criança ou rejeitar as suas ideias, mas pode contribuir para elas. Apesar de tudo, os educadores trabalharam muito em parceria, alguns preferiram seguir a criança mas não ‘abandonaram na tarefa’. Nalguns casos, questionar e dar várias opções à criança também pode ajudá-la a reflectir, a planear, a tomar decisões”, defende Marina Fuertes.

Homens e mulheres agem de maneira

“O género de quem está com a criança também é importante”, informa Otília Sousa. Inicialmente, as investigadoras não encontraram diferenças entre pais e educadores na interacção com as crianças. Contudo, quando se separaram os pais e os educadores de infância homens para um lado e as mães e as educadoras para o outro, surgiram diferenças: os homens tendem a ser mais competitivos, liderando a actividade e promovendo projectos paralelos. As mulheres permitem que a criança participe e promovem um trabalho colaborativo.

Mais: homens e mulheres agem de maneira diferente quando ao seu lado têm um rapaz ou uma rapariga. Com as meninas, os pais homens dão-lhes a oportunidade de trabalharem em conjunto; já com os meninos, os pais fazem a actividade enquanto eles observam. “Com as mães são os rapazes os autores e a mãe apoia. Com os pais, os rapazes são introduzidos numa hierarquia muito cedo: eles são liderados pelos pais e lideram as mães. Apreendem que podem ser líderes ou liderados. Com as meninas, a parceria é maior. As raparigas são introduzidas à colaboração”, diz Marina Fuertes. Desconhece-se se este comportamento terá impacto no futuro.

“A forma como os adultos comunicam com as crianças também é muito interessante”, diz Otília Sousa. Enquanto os educadores dão sugestões, os pais dão indicações. “Quando o adulto manda, o interesse e a participação diminuem; quando sugere, a criança envolve-se e elabora”, acrescenta Marina Fuertes.

O elogio é outra forma de manter os miúdos envolvidos. Não o elogio “a torto e a direito”, mas o “sofisticado”, como: “‘Ensina-me como se faz’; ‘isto é muito interessante, não sabia’; ‘podes ajudar a mãe?’. É a melhor forma de os elogiar”, acredita Marina Fuertes.

O resultado final do projecto também varia de Portugal para a Alemanha, diz Otília Sousa: “Nós temos mais sujeitos animados [as crianças fazem bonecos que personificam as famílias ou animais], e eles [os alemães] fazem mais objectos.”

As investigadoras observaram ainda que os pais portugueses não estão habituados a brincar com os filhos. “Toda a atitude do adulto é de espanto porque não está à espera que a criança saiba fazer”, aponta Marina Fuertes.

O que era proposto neste estudo passava por construir algo: como se fosse um jogo de legos. E nem as crianças nem os pais têm o hábito de brincar assim. As crianças “são cada vez mais passivas”. “É-lhes dado espaço para brincar, mas não para fazer”, critica Fuertes.

E a comparação volta à Alemanha. Por lá, nas salas do jardim-de-infância há uma mesa de carpintaria a sério, com materiais cortantes, como uma serra. Por cá, isso é impensável. Por lá, há campo para explorar, é comum haver um tanque de areia ou de lama; por cá, os tanques de areia foram retirados das escolas por falta de higiene. Por lá, os meninos podem subir às árvores; por cá nem por isso. “O lado da exploração, o lado mais físico não existe. Afastámo-nos da natureza e higienizámos a brincadeira”, nota Otília Sousa. “Até há 15 anos, no exterior havia árvores, pedras, terra; hoje temos tartan (quente no Verão e ensopado no Inverno). É preciso correr riscos e quanto mais a criança ganha essa noção, nos primeiros anos, mais dificilmente correrá riscos reais no futuro. Estamos a protegê-los tanto, que não estamos a protegê-los e já vemos crianças a correr em superfícies planas e a cair [porque a coordenação motora não está bem desenvolvida]”, lamenta Marina Fuertes.

Em suma, as investigadoras concluem que é importante os pais e os filhos brincarem. Isso melhora a relação, além de que quer uns quer outros aprendem entre si. E também é importante a criança ter várias experiências: “Criar quando lhe dão espaço e regular emoções quando não têm esse espaço, por isso a complementaridade entre educadores e pais é importante”, conclui Marina Fuertes.

 

 

 

Contacto com germes pode ajudar a prevenir cancro infantil

Junho 11, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia da Euronews de 23 de maio de 2018.

Promover as interações físicas com os outros e com o ambiente circundante, não se preocupar excessivamente com a higiene de uma criança, nem tentar isolá-la de qualquer contacto com germes e bactérias, poderão ajudar a prevenir a leucemia linfoblástica aguda, a forma mais comum de cancro infantil.

Quem o diz é o professor Mel Greaves, do Instituto de Investigação do Cancro, no Reino Unido, um dos principais especialistas da matéria. Num estudo publicado na Nature Reviews Cancer, Greaves compila mais de três décadas de investigação, para sugerir que a tendência para um modo de vida cada vez mais asséptico – característico das sociedades mais desenvolvidas – pode facilitar o aparecimento da doença. Ao contrário, o contacto com determinados micróbios numa fase inicial da vida pode preparar melhor o sistema imunitário para lidar mais tarde contra as infeções.

 

 


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