Fumar marijuana durante a adolescência pode afectar a inteligência

Setembro 10, 2012 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do P3  de 28 de Agosto de 2012.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Persistent cannabis users show neuropsychological decline from childhood to midlife

As estatísticas indicam que quase um em cada quatro europeus com idade entre os 15 e os 64 anos já experimentaram cannabis, o que corresponde a 78 milhões de pessoas

Texto de Romana Borja-Santos

O consumo persistente de marijuana antes dos 18 anos pode afectar a inteligência, a atenção e a memória na vida adulta, segundo um estudo internacional publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

O trabalho, que foi publicado esta terça-feira naquela revista norte-americana, teve como base o seguimento de mais de mil neozelandeses durante 25 anos, permitindo comparar o quociente de inteligência (QI) dos participantes consumidores e dos não consumidores de cannabis aos 13 anos de idade e aos 38 anos.

Madeleine Meier, autora principal da investigação e psicóloga na Universidade de Duke, na Carolina do Norte, explica que os consumidores regulares de marijuana na adolescência revelaram, em média, uma queda de oito pontos no QI na vida adulta, além de mais falhas na capacidade de memorizar, na concentração, no raciocínio e processamento visual, entre outras funções.

A investigadora salienta que, em princípio, o QI é “um indicador estável” nestas fases da vida e que entre os não fumadores foi mesmo possível registar uma ligeira subida. Além dos testes de QI, o estudo contou com entrevistas aos familiares mais próximos dos participantes, que ajudaram a apontar alguns problemas entre os consumidores frequentes.

“O QI é um elemento fortemente determinante para o acesso à universidade, ao emprego e o desempenho no trabalho”, refere Madeleine Meier. Os consumidores que perderam em média oito pontos enfrentam, assim, uma “desvantagem perante os seus pares da mesma idade”, já que a adolescência é um “período muito sensível para o desenvolvimento do cérebro”, que está particularmente vulnerável às drogas. E, mesmo os que interromperam o consumo, não revelaram qualquer melhoria significativa.

O estudo assegura que na comparação foram descartados outros factores que poderiam ter interferido nas conclusões, como a educação dos participantes, o consumo de álcool ou de outros estupefacientes. Da mesma forma, os participantes que apenas reportaram ter consumido marijuana a partir da idade adulta não revelaram tantos efeitos a nível intelectual. Porém, o estudo nada refere sobre as quantidades consumidas, dizendo apenas que foram considerados consumidores frequentes os participantes que fumavam marijuana mais do que uma vez por semana antes dos 18 anos.

Consumo a aumentar na Europa

As conclusões surgem numa altura em que um estudo do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT), divulgado no fim de Junho, verificou que o consumo de marijuana está a aumentar na Europa. As estatísticas indicam que quase um em cada quatro europeus com idade entre os 15 e os 64 anos já experimentaram cannabis, o que corresponde a 78 milhões de pessoas. E cerca de nove milhões de jovens, entre os 15 e os 34 anos, disseram tê-la consumido no último mês.

No que diz respeito aos jovens, um relatório europeu publicado em Maio e que apresentou as prevalências e os padrões de consumo das diversas substâncias psicoactivas, em 2011, concluiu que os adolescentes portugueses mantêm-se na média europeia quanto à prevalência do consumo de tabaco, álcool, drogas, medicamentos e susbtâncias inalantes. Em Portugal, registaram-se aumentos relativos ao tabaco, drogas e inalantes e estabilidade ou decréscimo nos indicadores do álcool. Quanto ao consumo de cannabis, de longe a droga ilícita mais usada, Portugal ocupa uma posição ligeiramente acima da média.

Já o último Inquérito Nacional em Meio Escolar sobre Consumos, do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT), divulgado em 2011, com respostas de quase 32 mil alunos do secundário, mostrou que uma esmagadora maioria não teve qualquer contacto com drogas no ano que antecedeu o inquérito. Contudo, o número dos que responderam “perto da escola” à pergunta “nos últimos 12 meses, onde é que estavas quando te ofereceram (tentaram dar ou vender) cannabis?” quase duplicou (de 4,4% para 8,5%, um aumento de 93%).

 

 

 

“A inteligência é como um músculo que tem de ser treinado”

Outubro 22, 2011 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia de Sara R. Oliveira no site Educare do dia 12 de Outubro de 2011.

Lynne Reder, professora de Psicologia da Universidade de Carnegie Mellon, aconselha a evitar distrações na sala de aula e a não ensinar muito ao mesmo tempo. Recomendações feitas no debate “Em causa: Aprender a aprender”, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, na Universidade de Aveiro.

 O ciclo de conferências sobre as questões-chave da educação, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, arrancou com uma expressão que se tornou um grande chavão no seio da comunidade educativa. “Em causa: Aprender a aprender” juntou esta terça-feira à tarde vários especialistas da matéria. Carlos Fiolhais, professor e responsável pelo programa de educação da Fundação, moderou o debate que abordou vários conceitos e fez pensar. O encontro teve lugar no auditório da reitoria da Universidade de Aveiro e a sala estava praticamente cheia.

“A inteligência é como um músculo que se não for utilizado fica mais fraco.” Lynne Reder, professora de Psicologia da Universidade de Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, centrou o seu discurso nas ideias recorrentes sobre as práticas educacionais para, no final, recomendar que o melhor caminho é espaçar as práticas de aprendizagem e utilizá-las em diferentes contextos, evitar distrações nas salas de aula e não ensinar muito ao mesmo tempo para não sobrecarregar os alunos. “A inteligência é maleável”, reforçou. E, por isso, precisa de ser estimulada.

“Todos precisam de praticar”, avisou. Porque é importante praticar as competências uma vez, outra vez e vezes sem conta. E evitar o que pode distrair a cabeça. Segundo a professora norte-americana, há estudos que demonstram que excessivas decorações nas paredes das salas de aula podem distrair os alunos. Há investigações que concluem que os “alunos aprendem mais quando as paredes estavam vazias, não se distraem tanto”.

Há outros detalhes que convém ter em conta. Para facilitar a memória, os textos podem ter os principais pontos sublinhados e sumários a negrito para evidenciar o que é importante aprender. “O grande desafio é ensinar os estudantes a perceber quando devem aplicar as novas competências”, sublinhou. Para isso, a aprendizagem passiva não pode ser usada para que os alunos se envolvam e aprendam. “Todos os alunos podem predizer os resultados de uma experiência”, exemplificou. Em todo processo, a familiaridade dos termos é também importante.

Paula Carneiro, investigadora auxiliar na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, falou dos testes. Simples instrumentos de avaliação ou mais do que isso? Mais do que isso.
“Testar a memória não serve apenas para avaliar o que se aprende – modifica o que se aprendeu”, referiu. Recorrendo a vários estudos, a doutorada em Psicologia Experimental lembrou que é importante testar mesmo o que já foi aprendido para que a informação permaneça durante muito mais tempo.

“Os estudantes parecem desconhecer totalmente a ideia de que testar os conhecimentos estudados é uma boa estratégia para aumentar a aprendizagem”, afirmou. E o feedback é fundamental para se perceber o que foi ou não apreendido pelos alunos, ajuda a identificar as lacunas do conhecimento e estimula a capacidade de organização de quem anda a aprender.
Paula Carneiro deixou duas recomendações. Uma para os professores: para que usem os testes tendo também em conta que os exames podem funcionar como uma recuperação ativa dos conhecimentos. E outra para os alunos: para que façam autotestes dos seus conhecimentos mesmo para matérias que pensam estar permanentemente adquiridas.

Pedro Albuquerque, professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho e que, neste momento, dirige o Grupo de Investigação em Memória Humana da mesma faculdade, concentrou-se na memória de trabalho e como ela trabalha. Essa memória, que permite a leitura e compreensão de textos, possibilita a realização de cálculos mentais, organiza representações espaciais e temporais, ajusta e congrega informação de diversos tipos de conceito.

“A memória é provavelmente o único processo cognitivo que pode ser treinado”, sustentou. O tal músculo de que tinha falado Lynne Reder. Pedro Albuquerque lembrou ainda um estudo feito em Inglaterra a 500 crianças de quatro anos quanto à sua capacidade de memória de trabalho. Trinta meses depois, as mesmas crianças, já no 2.º ano do 1.º ciclo, foram novamente testadas e chegou-se à conclusão de que as que tinham uma alta memória de trabalho aos quatros anos mantinham esse nível aos sete. O mesmo se verificou com as que tinham uma baixa e média memória de trabalho.

As questões-chave da educação estão no centro das atenções da Fundação Francisco Manuel dos Santos num ciclo de conferências que termina a 6 de dezembro. Esta quarta-feira, o primeiro debate volta a reunir os mesmos especialistas na Torre do Tombo, em Lisboa, a partir das 17h30, para voltar a abordar o “aprender a aprender”. “O valor do ensino experimental” é analisado por David Klahr, professor de Desenvolvimento Cognitivo e de Ciências da Educação da Universidade de Carnegie Mellon, e por Margarida Afonso, professora na Escola de Educação do Instituto Politécnico de Castelo Branco, a 10 de novembro na Universidade do Minho, a partir das 16h30, e no dia seguinte no auditório da Torre do Tombo, em Lisboa, às 17h30. Laurinda Leite, da Universidade do Minho, modera o primeiro encontro e Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra, o segundo.

“Aprender uma segunda língua” é o tema que fecha os debates sobre as questões-chave da educação com as participações de Cármen Muñoz, professora de Linguística Inglesa e Linguística Aplicada na Universidade de Barcelona, Luísa Araújo, doutorada em Ciências da Educação pela Universidade de Delaware, e Carlos Ceia da Universidade Nova de Lisboa. A primeira sessão realiza-se a 5 de dezembro no grande auditório da Universidade do Algarve, às 14h30, e a segunda a 6 de dezembro, no auditório da Torre do Tombo, em Lisboa, às 17h30. Manuel Célio Conceição modera os dois encontros.

Consulte aqui a entrevista realizada pelo EDUCARE.PT a Carlos Fiolhais, responsável pelo programa de Educação da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Exercício «n-back» é um eficaz treino mental : Jogo aumenta capacidade de raciocínio e de resolução de problemas

Junho 18, 2011 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação, Vídeos | Deixe um comentário
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Artigo da CiênciaHoje de 9 de Junho de 2011.

A melhor forma de entreter o cérebro e ao mesmo tempo aumentar a inteligência é um exercício chamado «n-back». Um estudo da Universidade de Michigan (EUA) afirma que a prática diária de 20 minutos durante 20 dias melhora significativamente os resultados em provas de inteligência. O jogo, que tem como objectivo recordar as posições de uma figura num ecrã, aumenta a capacidade de raciocinar e de resolver novos problemas, melhoria essa que se prolonga pelo menos três meses.

Os resultados do estudo foram apresentados na Associação para a Ciência Psicológica, em Washington, por um dos responsáveis pela investigação, o psicólogo John Jonides, que colaborou com colegas das universidades de Berna e Taipei. A investigação foi realizada com 200 crianças e jovens.

O exercício mental, criado por W. K. Kirchner, em 1958, utiliza uma função do cérebro conhecida como ‘memória de trabalho’, a capacidade de reter a informação de forma activa mesmo que se produzam distracções e interferências numa tarefa.

Outro grupo de investigadores tinha já sugerido que existia uma relação entre este tipo de memória e o facto de muitas pessoas adultas não serem capazes de recordar o que estavam a fazer quando são interrompidas.

O exercício, com as suas muitas variantes, pode ser facilmente encontrado na Internet. Basicamente, o jogo é uma continuous performance task (tarefa de performance contínua) e consiste em assinalar o sítio onde o objecto aparece repetido. A isto podem ligar-se outros elementos como o som (criando um dual n-back). A dificuldade vai aumentando à medida que se joga.

O investigador John Jonides afirma que quanto mais prazer se tirar do jogo maior é o aperfeiçoamento da inteligência fluida. 

 

Artigo original Aqui

A Internet deixa-nos mais inteligentes

Julho 12, 2010 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Fotografia de Daniel Rocha

Fotografia de Daniel Rocha

Entrevista do Público de 7 de Julho de 2010.

Don Tapscott conduziu um projecto de investigação com um orçamento de quatro milhões de dólares e que envolveu 11 mil jovens em vários países. Os resultados contrariam muitas das críticas comuns ao impacto das novas tecnologias. Por João Pedro Pereira

Investigador, professor universitário, consultor e autor de vários livros, Don Tapscott, um canadiano nascido em 1947, lançou, em 1997, o livro Growing Up Digital – The Rise of the Net Generation. Mais de uma década depois, e tendo por base um projecto de investigação milionário, voltou ao tema e publicou, em 2008, Grown Up Digital: How the Net Generation is Changing Your World (pelo meio, escreveu outros quatro livros sobre o impacto das tecnologias, incluindo, em co-autoria, o best-seller Wikinomics).

Tapscott – que há um ano sugeriu a Barack Obama que pusesse os olhos na iniciativa portuguesa de distribuir computadores aos alunos – esteve em Portugal para a conferência A Escola do Futuro na Era da Economia Digital (organização Diário Económico). Depois da extensa investigação, Tapscott chegou à conclusão de que a maioria das críticas às novas tecnologias são infundadas. Mas defende serem precisas muitas mudanças para se aproveitar o potencial da geração que já cresceu on-line.

Há muita gente a defender que as novas tecnologias estão a criar cérebros preguiçosos, a diminuir a capacidade de atenção e de sociabilização. Há até quem tenha escrito que o Google nos está a tornar estúpidos. A sua posição é que todas estas afirmações são erradas?

Acredito que boa parte do impacto da revolução digital na forma como pensamos, colaboramos e trabalhamos ainda é desconhecido. Mas não concordo, em geral, com quem diz isso. Os dados simplesmente não sustentam essas afirmações. Os jovens são mais espertos do que nunca, o QI está ao nível mais alto de sempre, há mais estudantes a licenciarem-se. Sou contra os argumentos de que os jovens só pensam em 140 caracteres [o limite de caracteres para as mensagens no Twitter] ou têm o nível de atenção de uma mosca.

Mas há um problema. Um terço desta geração é espectacular. Outro terço está a safar-se bastante bem. Mas os que estão em baixo, mesmo em países como os EUA, Canadá ou Portugal, nem sequer estão a acabar o liceu. Sempre foi assim, mas não devia ser. Devíamos ter melhorias nesse último terço, mas isso não está a acontecer. Algumas pessoas culpam a Internet. Mas isso é como culpar a biblioteca pela ignorância dos alunos.

Na sua pesquisa não encontrou nenhuma consequência negativa do uso das tecnologias?

Há todo o tipo de problemas. Os jovens precisam de equilíbrio e às vezes perdem-no. A minha mulher é portuguesa e está a visitar família aqui. Um dos miúdos joga videojogos 40 horas por semana. É demasiado. A privacidade também é outro problema. Os jovens expõem demasiada informação.

E isso é um problema ou é simplesmente uma questão de divisão geracional sobre o que é a privacidade?

Há muitas pessoas que não vão conseguir o emprego dos seus sonhos porque alguém os pesquisou e os viu bêbados [numa foto] no Facebook, ou a dizer algo que não deviam.

Cada um de nós está a criar uma versão virtual de si próprio. E este eu virtual sabe mais sobre nós do que nós próprios, porque nós não nos lembramos do que dissemos há anos. Isto cria uma situação em que a informação pode ser usada contra a pessoa, nomeadamente pelo Estado. Nós não temos problemas, porque temos governos democráticos. Mas ainda sou do tempo em que não havia um governo democrático em Portugal.

Os jovens não estão cientes desses riscos ou simplesmente não querem saber?

A minha pesquisa diz-me que os jovens estão a disponibilizar mais informações do que os mais velhos. Mas um estudo recente do PEW [um centro de investigação e think tank americano] disse que os jovens tinham mais conhecimento sobre os problemas da privacidade do que os mais velhos. Simplesmente porque cresceram a fazer isto. A geração da minha filha (ela está na casa dos 20) tem regras claras sobre que fotos podem ser postas no Facebook. Se numa festa alguém tira uma foto, essa pessoa não a pode pôr no Facebook sem autorização.

Defende que já não há um grande fosso entre gerações. Porquê?

Nos anos 1960 havia um fosso geracional. Havia grandes diferenças entre os estilos de vida, valores, música e ideias dos filhos e dos pais. Mas nós entrevistámos 11 mil jovens em dez países e hoje em dia os pais e os filhos dão-se bem. Quando se pergunta a um adolescente quem é o seu herói, mais de metade escolhe um dos pais. Nos anos 60 seria o John Lennon ou o Che Guevara. O meu iPod e o iPod dos meus filhos têm muitas canções em comum. Já os meus pais nem sequer gostavam dos Beatles.

Mas há potencial para um conflito de gerações. Há potencial para que uma geração expluda de uma forma que fará com que os anos 60 pareçam um piquenique. Já é possível ver isso em alguns países, como o Irão [um dos países mais jovens do mundo, onde mais de dois terços da população tem menos de 30 anos].

Mas o Irão não é um país democrático. Que razões terá esta geração para explodir nos países democráticos?

Que tal 40 por cento de desemprego em Espanha? [O desemprego] é um grande problema. É a geração mais esperta de sempre, é globalizada, tem ferramentas fabulosas. Se não tiver como ganhar a vida, vai começar a questionar o funcionamento da sociedade. E isso é um conflito de gerações.

Um dos seus elogios aos jovens tem a ver com a existência de valores fortes, nomeadamente políticos. Mas os jovens parecem alheados da política, nem sequer estão a votar muito.

O voluntariado de jovens, tanto do liceu como de universitários, está, em muitos países, num nível recorde. Desde angariar dinheiro para a luta contra o cancro, até voluntariado em partidos políticos, passando por manifestações em favor dos direitos humanos na China. Mas esse é um bom ponto: os dados mostram que os jovens estão a votar menos. Excepto nos EUA. A diferença é que os EUA tiveram um candidato que se dirigiu aos jovens [Barack Obama].

Isso foi por causa das ideias ou pelo facto de Obama ter usado todo o tipo de ferramentas on-line, desde o Twitter ao Facebook?

Ambos. Uma das razões pelas quais os jovens não estão envolvidos nas instituições democráticas é o facto de os modelos estarem errados. Temos um modelo de democracia com 100 anos: “Eu sou um político. Ouçam-me. Votem em mim. E depois vou dirigir-me durante quatro anos a receptores passivos.” O cidadão vota, o político governa. Isso está bem para a minha geração. Eu cresci a ser um receptor passivo. Cresci a ver televisão 24 horas por semana, como todos os baby boomers. As escolas transmitiam-me informações e eu era um receptor passivo. Ia à igreja, onde era a mesma coisa. Cresci num modelo de família onde a comunicação funcionava só num sentido [dos pais para os filhos]. Mas estes jovens estão a crescer de forma interactiva, habituados a colaborar e a serem activos.

Muitas das instituições, como a escola e a igreja, ainda têm um modelo de comunicação unidireccional.

Isso está a mudar. Lentamente. Estamos aqui por causa desta iniciativa do e-escola. Isto não é uma questão tecnológica. Algumas pessoas pensam que sim, mas estão enganadas. É uma questão de mudar o modelo de pedagogia, afastá-lo do modelo de transmissão unidireccional. Todas as instituições precisam de mudar: a democracia, a aprendizagem nas escolas, os modelos de trabalho.

Acha que esta mudança vai acontecer quando esta geração for mais velha e estiver em posição de poder ou acontecerá antes disso?

Já há tensão. Há uma barreira geracional em muitas instituições. Por exemplo, nos locais de trabalho. Quando os jovens chegam ao mercado de trabalho, têm na mão ferramentas melhores do que as que existem nos governos e nas empresas. Têm toda uma cultura de colaboração. E nós o que fazemos? Fechamo-los em cubículos e tratamo-los como o Dilbert [o personagem criado pelo cartoonista Scott Adams]. Banimos as ferramentas que têm. Há empresas que proíbem o Facebook.

Não há o risco de desperdiçarem tempo com essas ferramentas?

O tempo que os jovens passam on-line não é roubado ao tempo que passam com os amigos, ou em que estão a fazer os trabalhos de casa ou a trabalhar no emprego. É roubado, sobretudo, à televisão. É isso que os dados mostram. Há quem diga que os jovens ainda vêem demasiada televisão. Mas estão a ver menos e estão a ver de forma diferente. Têm o computador ligado e a televisão é música ambiente, ao fundo. Há quem confunda o monitor da televisão com o monitor do computador. Mas têm efeitos opostos em termos de desenvolvimento do cérebro.

Se os jovens estão no local de trabalho a desperdiçar tempo no Facebook, isso não é um problema de tecnologia. É um problema de fluxos de trabalho, motivação, supervisão. A minha geração não entende a cultura de colaboração, não entende as novas ferramentas e não entende a nova geração. Os blogues, redes sociais, wikis são o novo sistema operativo das empresas.

Apesar de tudo isso, quem cria e determina o funcionamento de muitas das novas ferramentas são pessoas que estão na casa dos 50 anos e não na casa dos 20.

Isso é irrelevante. Não quero saber quem faz as ferramentas. Estamos a falar da primeira geração de nativos digitais. O Steve Jobs [da Apple] e o Michael Dell [fundador da empresa de computadores Dell] já usavam tecnologia quando eram adolescentes, por isso, de certo modo, estavam à frente. Eu comecei a usar computadores quando tinha 25 anos. O período crítico é dos 8 aos 18. E a forma como se passa o tempo nessa idade é, a seguir aos genes, a variável mais importante a determinar o funcionamento do cérebro. Quem passa 24 horas por semana a ser um receptor passivo de televisão tem um determinado tipo de cérebro. Quem passa esse tempo a ser um utilizador activo de informação, tem outro tipo de cérebro, que é um cérebro melhor, mais apropriado ao século XXI.

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