As crianças portuguesas são felizes, mas só as mais pequenas

Novembro 15, 2017 às 1:30 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 8 de novembro de 2017.

Inquérito a 1131 pais revela que oito em cada dez preocupa-se com a felicidade futura dos filhos.

Bárbara Wong

As crianças portuguesas são felizes mas, à medida que vão crescendo, a percentagem de infelicidade aumenta, revela um inquérito promovido pela Imaginarium sobre “A felicidade e a infância”, conhecido nesta quarta-feira, em Lisboa. Também a Ikea lançou o seu “Play Report 2017” para o qual entrevistou mais de 350 crianças e adultos na Alemanha, China e EUA para compreender o papel da brincadeira na vida das pessoas.

Segundo o inquérito levado a cabo pela Imaginarium a 1131 pais, oito em cada dez preocupam-se com a felicidade futura dos filhos. Aliás, mostram-se mesmo “muito preocupados” e a maioria acredita que os filhos são “felizes” (20,2%) ou “muito felizes” (51,6%), há mesmo um quinto que diz que o seu filho “é a criança mais feliz do mundo”, apenas 8,8% diz que é “normal, às vezes feliz e outras não” e só 0,1% confessa que o filho é “muito triste”.

Contudo, os níveis de felicidade das crianças varia conforme a idade e os dados mostram que à medida que crescem vão tornando-se mais infelizes. As faixas etárias analisadas foram dos 0 aos 2, dos 3 aos 4, dos 5 aos 6 e dos 7 aos 8 anos. São estes últimos que são mais infelizes (15,2%) – a percentagem de infelicidade vai decrescendo com a idade situando-se nos 6,4% nas crianças entre os 0 e os 2 anos.

Para Rui Lima, pedagogo e convidado pela Imaginarium para comentar o estudo, é imposta uma “crescente pressão” às crianças, quer pelos pais quer pelos professores, onde “o desempenho académico, a competição entre pares e a necessidade de alcançar a perfeição em todas as actividades realizadas são uma constante”, logo, têm um “impacto negativo na felicidade das crianças”, defende num comunicado enviado às redacções.

E o que faz os meninos portugueses infelizes? Não passar tempo suficiente com os pais (26,3%), não ter tempo suficiente para brincar (21,3%) ou ficar de castigo (16,4%), respondem os pais inquiridos. As crianças serão mais felizes se se desenvolverem num ambiente escolar e familiar em que se sintam valorizadas e queridas (45,2%), se passarem mais tempo em família (34,8%) e se os pais as deixarem “explorar o mundo através da brincadeira (17%), respondem ainda os pais.

Falta mais tempo para a família

Praticamente todos os pais (99,8%) respondem que a felicidade dos filhos passa pelo tempo de qualidade partilhado em família, mas pouco mais de metade (51%) sente que passa pouco tempo de qualidade com os filhos e seis em cada dez pais acreditam que os filhos sentem a sua falta. Aliás, a maioria (89,8%) reconhece que tem dificuldade em conciliar a vida profissional com a pessoal e acredita que um horário laboral mais flexível lhes permitiria aumentar o tempo de qualidade e brincar com os filhos.

Quando questionados sobre como contribuem para a felicidade dos filhos, os pais respondem que é ouvindo-os e fazendo-os sentir-se queridos (33,4%) e passando mais tempo com eles (28,1%). Para 14,3% a felicidade passa por elogios e incentivos para que os filhos façam as coisas bem.

Durante a semana, o tempo mais feliz que pais e filhos compartilham é o de antes de ir deitar e, ao fim-de-semana, são os passeios que fazem as delicias dos mais novos. Este inquérito, que a Imaginarium defende representar o todo nacional, conclui que as crianças portuguesas são “extremamente familiares” porque gostam de fazer planos com os pais e passar tempo com os mesmos.

A Imaginarium pergunta ainda aos pais que tipo de brinquedo faz os filhos mais felizes e as bicicletas e veiculos com rodas (38%) surgem à cabeça, seguido da música, arte e trabalhos manuais (35,2%), os jogos de construção e lógica (30,8%) e as cozinhas e profissões (30,6%). Os ecrãs, televisões, Ipad, vídeojogos e telemóveis (19,4%) surgem na oitava posição.

“Os brinquedos devem apelar ao desenvolvimento de diferentes competências, tanto ao nível físico como intelectual. Desenvolvendo essas competências, a criança será capaz de relacionar-se melhor consigo mesma, com os outros e com o mundo. Daí a importância de brinquedos que estimulem os sentidos nos primeiros anos de vida”, defende Rui Lima no comunicado.

Também a marca sueca Ikea fez o seu terceiro relatório – depois de 2010 e 2015 – sobre o brincar com o objectivo de perceber melhor o papel desta actividade no desenvolvimento das crinças e na vida em casa. Para isso, entrevistou mais de 350 pessoas na Alemanha (Berlim), China (Pequim) e Nova Jérsia (EUA), entre os 2 e os 90 anos, e propõe cinco definições para brincar: “brincar para reparar”, ou seja, para recuperar do stress do dia-a-dia e as sugestões passam por actividades que promovam o bem-estar das pessoas como o ioga ou o tai-chi, mas também a jardinagem ou um passeio.

“Brincar para conectar” é a segunda definição. Num tempo em que o trabalho interfere por vezes na vida pessoal, o brincar proporciona a possibilidade de abrandar e de as pessoas se aproximarem da família ou dos amigos. As sugestões passam por ir a um bar fazer karaoke ou fazer jogos tradicionais como os de tabuleiro ou as cartas, o que permite que as pessoas estejam ligadas sem ser pela tecnologia, propõe o relatório.

As pessoas precisam de momentos de libertar, por isso, “brincar para libertar” é a terceira conclusão da marca, que sugere uma ida ao teatro ou a um parque temático. “Brincar para explorar” é a quarta proposta, explorar mundos reais ou imaginários, viajar ou brincar ao “faz-de-conta”. Por fim, “brincar para expressar” que aposta na criatividade e nas artes, da pintura à música.

“Brincar começará a aparecer, cada vez mais, em todos os aspectos das nossas vidas. Desde o local de trabalho ao ginásio, as pessoas irão procurar brincar em espaços e momentos onde tradicionalmente não o fariam”, conclui o comunicado da Ikea.

Ikea Play Report 2017

 

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Pós-graduação Intervenção Precoce na Infância

Junho 4, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O curso tem início em 23 de Outubro de 2017 com duração de 10 meses. Prevêem-se 8 horas de aulas por semana, segundas e terças feiras em horário pós-laboral das 18h30-22h30, ao longo de 32 semanas.

mais informações:

http://fa.ispa.pt/cursos/intervencao-precoce-na-infancia-novo

Síndrome de Asperger na infância

Abril 4, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://lifestyle.sapo.pt/

O psiquiatra austríaco que identificou o problema chamou-lhe a doença dos pequenos professores. Experimente ver o mundo através dos olhos de uma criança com esta patologia.

«Foi por volta dos dois anos que começámos a notar que o João manifestava comportamentos diferentes dos que a irmã tinha tido na mesma idade. A nossa principal preocupação foi a não evolução da fala. Poucas semanas após ter entrado para o colégio, a educadora de infância alertou-nos para o facto de ele demonstrar desinteresse pelas outras crianças e de se isolar», recorda a mãe desta criança.

«Após este alerta, consultámos a pediatra que estava a par da situação e que tinha encarado a ida do João para o colégio como um teste pois, fora do ambiente familiar, seria mais fácil identificar e concretizar as suspeitas que tinha. Então, encaminhou-o para uma consulta de pedopsiquiatria mas só mais tarde é que o pediatra do desenvolvimento falou em Síndrome de Asperger», explica ainda.

Esta é a história do João. Mas podia ser a do Pedro, do António, da Margarida ou da Ana. E, afinal, de que falamos quando falamos de Síndrome de Asperger? Trata-se de uma forma de autismo que interfere no modo como comunicamos e nos relacionamos com os outros. As suas causas não são ainda totalmente conhecidas, embora se acredite que esta síndrome seja provocada por um conjunto de factores neurobiológicos que afetam o desenvolvimento cerebral da criança.

Crianças com uma inteligência acima da média

Pensa-se que afete predominantemente o sexo masculino, embora alguns especialistas sejam da opinião que muitas mulheres com Síndrome de Asperger não são diagnosticadas por conseguirem ultrapassar melhor os obstáculos que surgem em termos de socialização. O quociente de inteligência das crianças com Síndrome de Asperger é, normalmente, médio ou acima da média e as dificuldades ao nível da aprendizagem e da linguagem não são tão pronunciadas como as das crianças com autismo.

Este facto, aliado ao desconhecimento que existe em relação a esta perturbação, leva a que, muitas vezes, as crianças sejam rotuladas como «estranhas» ou «excêntricas», não sendo diagnosticadas precocemente e, consequentemente, não beneficiando de um apoio e motivação adequados. As crianças com Asperger demonstram, habitualmente, uma excelente capacidade de memorização de números e  factos, mas revelam limitações ao nível do pensamento abstrato.

No campo da comunicação e interacção, existe alguma dificuldade na interpretação da linguagem não verbal (expressões faciais e postura corporal), metáforas, frases indirectas ou, por outro lado, que possam ser levadas à letra. Quando as crianças ou adultos com Síndrome de Asperger lidam com alguém que não está a par desta dificuldade podem gerar-se alguns mal-entendidos, pois as regras convencionais de uma conversação nem sempre são utilizadas.

O que pode ser feito para ajudar estas crianças

O contacto visual pode ser quase nulo ou, no extremo oposto, de tal forma persistente que se pode tornar incomodativo. Outra particularidade diz respeito a situações desconhecidas e quebras de rotina, que são encaradas com ansiedade e evitadas a todo o custo, o que implica um reajuste familiar nem sempre fácil. Mariana e Pedro, os pais de João, contam-nos que evitam «situações que lhe causem stresse».

«O João tem dificuldade em gerir emoções e muito medo do desconhecido. Por exemplo, só aos oito anos é que foi, pela primeira vez, ao cinema. E, só no último aniversário é que aceitou que se fizesse uma festa e se cantassem os parabéns», desabafam. Em Portugal, em 2009, estimava-se que o número de crianças com este problema rondasse os 40.000, apesar das entidades oficiais considerarem que muitos casos ainda estavam por diagnosticar.

Hobbies exclusivos

O desenvolvimento de interesses e padrões de comportamento circunscritos e repetitivos são outras das características mais comuns das crianças e adultos com Síndrome de Asperger. No caso de João, a família sentiu alguma dificuldade em «aprender a lidar com os interesses dele. Quer ver imensos desenhos animados e filmes da Disney, uns atrás dos outros a ponto de dizer palavras e expressões em inglês», diz.

A preocupação absorvente por um tema específico (que, geralmente, envolve a memorização e ordenação de factos) pode evoluir para uma espécie de obsessão que leva a pessoa a reunir toda a informação que conseguir obter sobre determinado assunto, não revelando interesse por outras actividades e não percebendo porque é que os outros não manifestam igual entusiasmo pelo assunto.

A doença dos pequenos professores

Hans Asperger, psiquiatra austríaco cujo apelido foi utilizado para baptizar esta síndrome, chamava às crianças com este problema «pequenos professores», devido ao carácter especializado dos seus conhecimentos em determinada área. Apesar do sistema de ensino, no geral, não estar devidamente dotado para apoiar as crianças com Síndrome de Asperger, os pais de João são da opinião que «existem profissionais com interesse pela diferença».

«O nosso filho está integrado no projecto TEACCH (Treatment and Education of Austistic and Related Communication Handicapped Children), trata-se de ensino estruturado e, como são crianças que gostam de rotinas, funciona muito bem», revelam. «Mas tem de haver um grande empenho por parte dos docentes tanto do ensino especial como do ensino regular», afirma o casal.

«Atualmente, estamos adaptados à situação, até porque o João tem evoluído sempre de forma positiva», revelavam em entrevista há uns anos. «Hoje em dia já constrói frases curtas e consegue fazer-se entender», regozijavam-se. Está medicado, o que o tem ajudado a superar os medos e a ansiedade», afirmavam ainda os progenitores da criança. «O nosso receio está no futuro», desabafavam.

A união que faz (mesmo) a força

A Síndrome de Asperger não tem cura, o que significa que uma criança com Asperger vai tornar-se um adulto com Asperger. No entanto, um apoio correto ao longo da infância e adolescência é  fundamental para que cada etapa da vida seja o mais harmoniosa possível. Para os pais e restante família manterem-se informados e esclarecerem todas as dúvidas é um passo fundamental.

«Mal soubemos que a Associação Portuguesa do Síndroma de Asperger tinha sido criada quisemos fazer parte dela. Constatámos que não estávamos sós, pois existiam outros pais com os mesmos problemas e interrogações. É uma grande ajuda poder trocar alegrias e frustrações com outros pais», explica a mãe de João. Quando lhe perguntamos que conselhos daria aos pais de uma criança com Síndrome de Asperger, a resposta não se faz esperar.

«Acreditem sempre e façam tudo o que estiver ao vosso alcance. As terapias precoces são um grande contributo para uma evolução positiva e a família é, sem dúvida, a base de um desenvolvimento favorável. Não escondam os vossos filhos por eles serem diferentes, pois dão as mesmas alegrias que as crianças ditas normais. Falando metaforicamente, enquanto a nossa filha corre a 100 à hora, o João vai apenas a 60, mas chega lá. E, se for do interesse dele, até chega primeiro», diz.

Como perceber o que vai dentro daquelas (pequenas) almas

Especialistas desvendam os pensamentos de uma criança com Síndrome de Asperger. Para que possamos percebê-la melhor:

– «Posso estar tão concentrado nos meus pensamentos que não ouço alguém chamar-me ou falar comigo e, por vezes, acho os ruídos tão ensurdecedores que tenho de tapar os ouvidos ou fugir».

– «Tenho um interesse especial, do qual falo constantemente. Por exemplo, se for por comboios, gosto de lhes tirar fotografias, desenhá-los e reproduzir os sons que fazem. Não entendo porque é que os outros não se interessam pelo tema».

– «Não consigo perceber o que os outros estão a sentir só de olhar para eles. Tenho dificuldade em perceber a linguagem corporal a não ser que estejam a chorar, a rir ou a gritar».

– «Tenho determinados rituais que sigo escrupulosamente para ficar calmo. Mas, às vezes, fico frustrado pois ocupam-me muito tempo».

– «Posso ficar assustado se vejo muitas pessoas à minha volta ou alguém que não conheço. Nessas alturas gostava de ser invisível».

– «Não entendo as palavras com duplo sentido e anedotas. Acredito em tudo o que me dizem. Se me disserem que as pessoas morrem se não beberem água posso levar isso tão a sério que beberei água a toda a hora».

– «Não tenho facilidade em ver as horas, atar os atacadores, descascar fruta, andar de bicicleta ou usar a régua».

– «Tenho consciência que sou diferente e que não consigo fazer, com facilidade, o que os outros fazem. Isso deixa-me nervoso e frustrado. Não consigo perceber a origem da minha diferença ou porque é que os outros fazem troça de mim».

Texto: Teresa D’Ornellas

 

 

Conferência “Políticas Públicas para a Infância: O papel da Família e das Comunidades” na Fundação Calouste Gulbenkian, dia 23 fevereiro, 10h, auditório 2

Fevereiro 20, 2017 às 5:25 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Faça a sua Inscrição.

Mais informações em: https://gulbenkian.pt/evento/projeto-aprender-brincar-crescer/

Pós-graduação Intervenção Precoce na Infância

Novembro 22, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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http://fa.ispa.pt/cursos/intervencao-precoce-na-infancia

Veganismo na infância? Sim, é possível

Agosto 23, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 16 de agosto de 2016.

observador

Vera Novais

Os casos sucedem-se: pais veganos que deixam os filhos ficarem subnutridos. Será culpa do veganismo ou é negligência? Uma deputada italiana quer criminalizar os pais que sigam este regime alimentar.

Pais condenados por deixarem morrer uma criança à fome, é uma notícia que deixa chocado qualquer um – ou, no mínimo, quem tenha filhos ou crianças ao seu cuidado. Revoltam-se os leitores contra os pais. Mas se a notícia incluir que os pais são veganos e que terão tentado dar uma alimentação estritamente vegan ao bebé, culpa-se a dieta. Será que é mesmo caso para culpar o veganismo?

A deputada italiana do partido de centro-direita Forza Italia, Elvira Savino, considera que sim, por isso apresentou um proposta de lei que prevê que se penalize, com uma pena de um ano, os pais que impõem uma dieta vegan aos seus filhos (até aos 16 anos), noticia o jornal italiano La Republica. A proposta é motivada pelos recentes casos de crianças hospitalizadas em Itália com sinais de subnutrição. Consoante a gravidade das consequências na vida da criança, incluindo a morte, as penas podem ir até seis anos (qualquer pena é acrescida de 12 meses se a criança tiver menos de três meses).

Mas não é só em Itália que se têm registado casos de bebés que têm problemas de saúde graves ou que morrem devido às dietas impostas pelos pais. Recorde-se o caso de um bebé norte-americano que morreu, em 2004, às seis semanas com pouco mais de 1,5 quilogramas. Os pais, que se assumiam vegans, alimentavam o bebé exclusivamente com bebida de soja e sumo de maçã. Foram condenados por homicídio – não por serem vegans, mas por terem deixado morrer o filho à fome.

“Não importa quantas vezes tenham dito: ‘Somos vegans, somos vegetarianos’, não é essa a questão aqui. A criança morreu porque não era alimentada. Ponto.”

Chuck Boring, procurador [citado pelo New York Daily]

 

É por causa de situações como esta que Elvira Savino é tão inflexível. No texto da proposta de lei, a deputada critica os pais que de forma imprudente criaram dietas estritas sem consultarem nutricionistas ou que se limitaram a dar-lhes bebidas de amêndoas fervidas e lembra que estas atitudes prejudicam gravemente a saúde das crianças.

Todas as crianças devem ser alimentadas exclusivamente com leite materno até aos seis meses, como defende a Organização Mundial de Saúde. “E os vegans aceitam e promovem o aleitamento materno”, nota Alejandro Santos. Para o nutricionista, a questão mais importante nesta fase, e ainda antes disso, é a alimentação da mãe – vegan ou não.

As doenças metabólicas que se manifestam nos adultos, podem ter tido origem no desenvolvimento embrionário, refere o professor e investigador da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. A carência ou excesso de determinados nutrientes durante a gestação influencia a expressão dos genes no bebé. Daí que seja tão importante que a mãe ingira a quantidade de proteínas, vitaminas ou energia ideal durante este período.

Após o nascimento, a Comissão de Nutrição da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP) também defende o aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses. Durante este período, as mães vegans devem ter o cuidado de usar suplementos ou alimentos fortificados para suprirem a necessidade de alguns nutrientes. “Assim, a dieta das lactantes vegans deve ser rica (suplementação ou fortificação) em vitamina B12, situação que não se coloca em amamentantes ovolactovegetarianas.” Estas mães devem ter também em atenção os níveis de cálcio, o ácido gordo docosahexanóico (DHA) e iodo, assim como a disponibilidade em zinco e ferro.

Claro que existem casos em que a mãe não pode ou não consegue amamentar a criança durante estes seis meses. Neste caso, Alejandro Santos recomenda que as mães recorram a um banco de leite materno, mas se esta opção não estiver disponível, a melhor escolha para as mães vegans alimentarem os bebés são as fórmulas adaptadas com hidrolisados de proteína de soja – ideais também para crianças alérgicas à proteína do leite. “As bebidas de arroz, amêndoa ou de soja [que não sejam as fórmulas adaptadas] não são bons substitutos do leite, mesmo que aleguem ser suplementadas com cálcio”, alerta o nutricionista. “As bebidas de arroz e amêndoa são pobres nutricionalmente.” Aliás, estas bebidas não devem ser introduzidas na dieta da criança antes dos 12 meses, refere a nutricionista Sandra Gomes Silva.

A partir dos seis meses (e nunca antes dos quatro) podem introduzir-se, faseadamente, alimentos sólidos, refere Alejandro Santos. Uma situação que é comum a qualquer criança saudável e não está dependente da opção de dieta. Os alimentos devem ser introduzidos um a um, para perceber se a criança faz algum tipo de reação ao alimento. A primeira seleção pode ser a maçã, pera, cenoura ou espinafres. Durante este período a criança pode continuar a ser amamentada e o aleitamento pode ser prolongado por quanto tempo seja confortável à mãe ou ao bebé, refere o nutricionista.

O importante nesta fase é “respeitar os ritmos e gostos do bebé”, refere Sandra Gomes Silva. Os pais devem procurar dar uma alimentação variada e o mais natural possível – devem evitar-se os alimentos processados que tenham quantidades altas de sal e açúcar -, acrescenta a nutricionista. O cuidado com as escolhas na alimentação são tão importantes para uma criança vegan ou vegetariana, como para uma criança omnívora, conclui.

Embora a Organização Mundial de Saúde também defenda o aleitamento até aos dois anos (ou até por mais tempo), depois dos seis meses este não deve ser o alimento exclusivo da criança. A alimentação exclusiva com leite materno levou à morte de uma bebé francesa, em 2008. Três anos depois, os pais foram condenados a cinco anos de prisão pela morte da filha de 11 meses que morreu com 5,7 quilogramas, quando deveria ter oito quilos. Além disso, os pais recusavam-se a fazer suplementação de vitaminas e rejeitavam a medicina tradicional, tratando a bronquite da filha com cataplasmas. A menina morreu de pneumonia, agravada pela carência das vitaminas A e B12.

“Não estamos aqui para julgar o estilo de vida alternativo, mas para decidir se este homem e esta mulher demonstraram falta de assistência e causaram a morte da sua filha.”

Anne-Laure Sandretto, procurador [citado pelo The Guardian]

 

O leite materno não é alimento suficiente para uma criança com mais de seis meses, mas mais do que isso, o leite de uma mãe vegan carece de vitamina B12. As mães ovolactovegetarianas ou as que comem carne ou peixe pelo menos uma vez por semana, podem conseguir uma boa quantidade da vitamina, mas as mães vegans não, alerta Alejandro Santos. Essas devem receber suplementação. E as crianças também.

“A Comissão de Nutrição da SPP refere que lactantes a efetuar dietas vegetarianas restritivas deverão efetuar suplementação com DHA, vitamina B12 e ferro e ainda que a suplementação do lactente deverá ser considerada não apenas nestes micronutrientes mas também em zinco, particularmente após os 5-6 meses”, refere o parecer da comissão enviado ao Observador.

É exatamente a “deficiência em zinco, ferro (do tipo contido na carne e peixe), vitamina D, vitamina B12 e ómega 3” nas crianças e adolescentes que a deputada Elvira Savino quer evitar com a proposta de lei. Não se opõe a que os pais e adultos sigam dietas mais restritas, mas não poderão impô-las às crianças. Como explicaram os especialistas contactados pelo Observador, adultos e crianças vegan podem e devem ser suplementados para evitar estas carências.

Nuno Metello, presidente da direção da Associação Vegetariana Portuguesa, afirma mesmo que todos os vegans precisam de reforçar a ingestão de vitamina B12, seja com suplementos alimentares, seja com alimentos fortificados. E acrescenta que os alimentos que os veganos afirmam ser ricos em vitamina B12, não são, na verdade, boas fontes deste nutriente. “Não tomar suplementação [desta vitamina] é perigoso”, alerta Nuno Metello, vegan há 11 anos.

Vitamina B12

“As únicas fontes veganas fidedignas de vitamina B12 são os alimentos enriquecidos (incluindo alguns leites vegetais, alguns produtos de soja e alguns cereais de pequeno-almoço) e os suplementos de B12”, refere o site Muda o Mundo.

Há outra vitamina que Alejandro Santos lembra que todas as crianças – vegans ou não – devem receber como suplemento: a vitamina D, importante para uma formação óssea adequada, mas também para a regulação do sistema imunitário e cardiovascular. O Vigantol é o medicamento recomendado com frequência, mas uma opção pouco interessante para vegans, porque é de origem animal. No entanto, existem suplementos de vitamina D de origem vegetal que podem ser adotados. Nuno Metello afirma que ele próprio toma suplementos de vitamina D durante o inverno [mais sobre suplementos para vegans aqui].

“Não existe nenhum tipo de alimentação que dispense totalmente a suplementação.”

Nuno Metello, presidente da direção da Associação Vegetariana Portuguesa

Alejandro Santos alerta que “qualquer padrão alimentar que restrinja fortemente a seleção de alimentos [sejam eles quais forem] acarreta maior risco de carências nutricionais”. No entanto, o nutricionista que se assume não-vegan e não-vegetariano, afirma que não existem provas científicas de que a alimentação vegan seja prejudicial à criança. E lembra que uma dieta omnívora não é, só por si, garantia de boa alimentação. O que a alimentação vegan obriga é que os pais tenham mais cuidado na preparação de refeições variadas e equilibradas – um conselho que os pais omnívoros também devem seguir. Por isso, o nutricionista recomenda que os pais criem um menu diário de refeições para a criança e que tentem saber junto de um nutricionista se é equilibrado ou não.

Sandra Gomes Silva que acompanha nas suas consultas adultos, grávidas e crianças com dietas vegans ou vegetarianas afirma que “uma alimentação vegan ou vegetariana é possível desde o nascimento”, desde que sejam cumpridos os requisitos energéticos e nutricionais. As crianças com dietas vegans ou vegetarianas têm um bom desenvolvimento físico, mental e emocional, diz. “Verifico, nas minhas consultas, que as crianças vegans crescem dentro do padrão normal de desenvolvimento.”

Sobre a proposta de lei, a nutricionista diz que “carece de sustentação científica, sendo preconceituosa e discriminatória para com quem tem uma alimentação vegetariana”. A argumentação da deputada, como refere Sandra Gomes Silva, está baseada em casos de desnutrição e morte infantil “causados por uma alimentação desadequada, desequilibrada e incompleta, nada têm a ver com a alimentação vegetariana saudável”.

Nuno Metello concorda: “Penso que a proposta resulta de muita desinformação e preconceito da parte da deputada”. O presidente da direção da Associação Vegetariana Portuguesa considera que “se a deputada não fosse desinformada e preconceituosa, a proposta incidiria em dietas desequilibradas em geral, sejam elas vegans ou não, e não no facto de estas incluírem ou não produtos de origem animal”. Dietas mal planeadas não são exclusivas dos pais vegans, também acontecem entre os pais que não seguem dietas vegetarianas, afirma.

“Conselhos errados sobre a dieta vegan em crianças podem definitivamente colocá-las em risco. Mas não há qualquer dúvida de que, quando seguem uma dieta saudável, as crianças vegans desenvolvem-se bem”, refere a dietista Virgina Messina, citada pelo site da Associação Vegetariana Portuguesa.

A Comissão de Nutrição da Sociedade Europeia de Pediatria, Gastrenterologia e Nutrição, citada pela Comissão de Nutrição da SPP, discorda e “refere que se a amamentante tiver um regime vegan, é elevado o risco de alterações do desenvolvimento cognitivo do lactente, risco que aumentará se o lactente continuar com uma dieta sem alimentos de origem animal”. A sociedade recomenda que crianças e jovens ingiram produtos lácteos e que não sigam uma dieta vegan.

Pelo contrário, a Associação Dietética Vegetariana norte-americana defende que as dietas vegetarianas ou vegans apropriadas são saudáveis, nutricionalmente adequadas e podem ajudar na prevenção e tratamento de algumas doenças. “As dietas vegetarianas bem planeadas são adequadas em todos os estádios da vida, incluindo na gravidez, aleitamento, infância e adolescência e nos atletas.”

Acreditando neste princípio, três partidos italianos rivais da Forza Italia apresentaram também propostas de lei, mas no sentido de tornar as dietas vegans e vegetarianas mais comuns nas cantinas italianas, noticia a BBC. Em Portugal, a própria Direção-Geral de Saúde criou um manual para a “Alimentação Vegetariana em Idade Escolar”. Mas Elvira Savino prefere lembrar a Constituição e os direitos da criança para justificar uma lei que pretende “estigmatizar definitivamente comportamentos alimentares imprudentes e perigosos, impostos pelos pais, ou por quem exerce estas funções, em detrimento dos menores”. E pretende “sancionar a imposição de uma dieta alimentar desprovida dos elementos essenciais para o crescimento de uma criança”.

Mas esta formulação da lei está a preocupar os especialistas, como refere a BBC. Um uso incorreto das palavras pode levar a que não sejam só os pais vegetarianos e vegans a serem penalizados, mas um leque muito maior de pais, como os que têm crianças obesas. Para outros especialistas é o próprio conteúdo da proposta que é posto em causa quanto à sua validade, como referiu o jornal britânico.

Alejandro Santos reconhece que os casos das crianças subnutridas suscitam preocupação, mas “convêm recordar que a negligência dos pais no que toca à alimentação dos filhos não se limita apenas este grupo de pessoas [vegans]”. “Se é compreensível a criminalização da negligência parental quando é quebrado com dolo o direito da criança a uma alimentação equilibrada, já me parece mais difícil de sustentar a criminalização de uma prática alimentar que sendo bem feita não pode ser considerada negligente”, disse o nutricionista num comentário à proposta de lei. Sendo pai e nutricionista declara que nunca adotou ou recomendou uma dieta vegan, mas parece-lhe que este talvez seja “um exemplo extremo da aplicação do princípio da precaução”.

“A segurança de dietas extremamente restritivas, como as dietas à base de fruta ou alimentos crus não foi estudada em crianças.”

Associação Dietética Vegetariana norte-americana

Para os pais que quiserem seguir um regime vegan ou vegetariano, a Associação Vegetariana Portuguesa pode fornecer informação sobre alimentação vegan e vegetariana, mas não faz recomendações, nota Nuno Metello. Os pais que desejem adotar este tipo de dieta para os filhos (ou para si) devem procurar ajuda de especialistas, refere. O presidente acrescenta ainda que: “A associação só promove informação credível baseada na Ciência”.

Uma dieta com todos os nutrientes, ainda que vegan, teria, provavelmente, evitado que um bebé italiano fosse internado no hospital em estado de subnutrição e com baixos níveis de cálcio. Quando deu entrada, levado pelos avós, o bebé de 14 meses pesava tanto como um bebé de três, cerca de cinco quilogramas. Os pais, que seguiam uma alimentação vegan estrita, arriscam-se agora a perder a custódia da criança.

Alejandro Santos diz que uma criança vegan, depois dos seis meses, e desde que continue a beber leite materno ou uma fórmula adaptada pode alimentar-se de purés de legumes ou tofu. Importante será a suplementação em ferro – a partir dos seis meses – e a adição de óleos vegetais, como o óleo de canola ou linhaça. A dieta rica em fibras dá uma sensação de saciedade muito rapidamente, mas o conteúdo energético é reduzido, o que pode ser compensado pelos óleos. Os cereais integrais, as leguminosas e, mais tarde, os frutos gordos (frutos secos ou de casca dura), também são alimentos densos energeticamente, refere Sandra Gomes Silva. A partir dos 12 meses, e desde que não haja problemas de saúde, a criança vegan pode começar a comer o mesmo que os adultos.

Todos os bebés e crianças, mas também os adolescentes e adultos, devem ter uma dieta equilibrada e diversificada que forneça todos os nutrientes e energia necessários ao crescimento e à realização das tarefas diárias. Os regimes alimentares omnívoros, ovolactovegetarianos ou estritamente vegans podem consegui-lo, ainda que possam ter de recorrer a suplementos alimentares ou alimentos fortificados. Cabe aos profissionais de saúde, sejam pediatras ou nutricionistas, ajudar os pais a realizar as melhores escolhas alimentares para essas crianças.

Alejandro Santos não promove dietas que sejam restritivas na seleção de alimentos em crianças saudáveis, mas também não tem fundamentos científicos para afirmar que a dieta vegetariana ou vegan na criança é errada. “Os profissionais de saúde que tentam desviar os pais deste tipo de alimentação [vegan] tem uma boa intenção, mas ir contra convicções fortes leva ao afastamento destes profissionais”, alerta o nutricionista. “Se os pais deixam de ser acompanhados e não encontram boa informação correm riscos muito maiores.”

Pais e profissionais de saúde têm de manter-se atualizados sobre as dietas vegans e vegetarianas, lembra Sandra Gomes Silva. A nutricionista deixa um conselho aos colegas nutricionistas e aos pediatras: “Os profissionais de saúde devem procurar acompanhar os pais, mesmo que não defendam o regime alimentar, de forma a garantir que são tomadas as melhores opções para a saúde da criança”. A nutricionista, que também pratica uma alimentação vegetariana, afirma que as pessoas que frequentam as consultas de nutrição ficam satisfeitas por encontrarem profissionais de saúde que as compreendam e as consigam acompanhar.

Os nutricionistas “têm um papel importante na prestação de assistência durante o planeamento de dietas vegetarianas saudáveis àqueles que desejem iniciar este tipo de alimentação ou que já o pratiquem e devem ser capazes de fornecer informação correta sobre a nutrição vegetariana”, refere a Associação Dietética Vegetariana norte-americana. No entanto, Alejandro Santos admite que há muitos profissionais de saúde que não estão preparados para esta situação.

Veja em anexo as recomendações da Direção-Geral de Saúde para vegetarianas no adulto e nas crianças em idade escolar.

Relacionado

Alimentação Vegetariana Saudável – Direção-Geral de Saúde

Alimentação Vegetariana em Idade Escolar – Direção-Geral de Saúde

 

 

Pós-Graduação “Psicoterapia Cognitivo-Comportamental na Infância e Adolescência – 8ª Edição”

Agosto 1, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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INSTITUTO PORTUGUÊS DE PSICOLOGIA [Escola de Formação Avançada]

PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOTERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA Formação acreditada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) ‪‎Viseu – 17 Set. 2016 ‪Lisboa – 08 Out. 2016 ‪‎Faro – 29 Out. 2016  Mais informações em www.inspsic.pt

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*A creditação da Ordem dos Psicólogos Portugueses (126 créditos) destina-se exclusivamente aos psicólogos.

DATA LIMITE DE INSCRIÇÃO: VISEU: 27-08-2016 | FARO: 09-10-2016| LISBOA:18-09-2016

 

A esquizofrenia na infância: Como detectar a esquizofrenia nas crianças

Junho 1, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.contioutra.com de 10 de março de 2016.

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Como detectar a esquizofrenia em crianças.

A esquizofrenia é uma enfermidade médica que causa pensamentos e sentimentos estranhos e um comportamento pouco usual. É uma enfermidade psiquiátrica pouco comum em crianças, e é muito difícil ser reconhecida em suas primeiras etapas. O comportamento de crianças e adolescentes com esquizofrenia pode diferir dos adultos com a mesma enfermidade.

É uma desordem cerebral que deteriora a capacidade das pessoas para pensar, dominar suas emoções, tomar decisões e relacionar-se com os demais. É uma enfermidade crônica e complexa que não afeta por igual a quem sofre dela.

Estimativas da esquizofrenia

A esquizofrenia é uma enfermidade mental que afeta menos de 1% da população mundial, com independência de raças, civilizações e culturas. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), afeta uns 52 milhões de pessoas em todo o mundo.

No Brasil, estima-se que 1,8 milhão de pessoas são afetadas por esta doença.

Como detectar a esquizofrenia nas crianças?

As esquizofrenias que aparecem antes dos 5 anos, têm traços extremamente comuns ao autismo, e somente com uma evolução posterior, com o aparecimento de sintomas psicóticos, propriamente ditos, permitirá um diagnóstico certo. Antes dos 3 anos, o diagnóstico diferencial é muito improvável.

É praticamente impossível distinguir uma esquizofrenia de um autismo. Somente ficará esclarecido com o passar do tempo. A partir dos 5 anos o diagnóstico diferencial vai-se esclarecendo com a presença de sintomas psicóticos (alucinações, delírios) na esquizofrenia.

Mas pode-se notar alguns sinais de alerta nas crianças com esquizofrenia. O comportamento de uma criança pode mudar lentamente com o passar do tempo. Por exemplo, as crianças que desfrutavam, relacionando-se com outros, podem começar a ficar tímidas e retraídas, com se vivessem em seu próprio mundo. Às vezes começam a falar de medos e ideias estranhas. Podem começar a ficar obstinados pelos pais e a dizer coisas que não fazem muito sentido. Os professores podem ser os primeiros a perceberem esses problemas.

A esquizofrenia é hereditária?

Se na família houve outros antecedentes familiares de esquizofrenia, pode ser hereditária, mas numa porcentagem relativamente baixa (não supera os 25% de possibilidades), mas se a esquizofrenia desencadeou por fatores de estresse ambiental, ou por outras causas que não são genéticas, não há razão para herdá-la.

O que se deve fazer?

As crianças com esses problemas e sintomas devem passar por uma avaliação integral. Geralmente, essas crianças necessitam de um plano de tratamento que envolva outros profissionais. Uma combinação de medicamentos e terapia individual, terapia familiar e programas especializados (escolas, atividades, etc.) são frequentemente necessários. Os medicamentos psiquiátricos podem ser úteis para tratar de muitos dos sintomas e problemas identificados. Estes medicamentos requerem a supervisão cuidadosa de um psiquiatra de crianças e adolescentes.

Formas de esquizofrenia

Nem todas as esquizofrenias são iguais, nem evoluem da mesma maneira. Uma vez realizado o diagnóstico, os profissionais as dividem em quatro:

– PARANÓIDE: É a mais frequente. Caracteriza-se por um predomínio dos delírios sobre o resto dos sintomas, em particular, delírios relativos a perseguição ou suposto dano de outras pessoas ou instituições para o paciente. O doente está desconfiado, inclusive irritado, evita a companhia, olha de relance e com frequência não come. Quando é questionado, dá respostas evasivas. Podem acontecer alucinações, o que gera muita angústia e temor.

– CATATÔNICA: É muito mais rara que a forma anterior, e se caracteriza por alterações motoras, seja por uma imobilidade persistente e sem motivo aparente ou agitação. Um sintoma tipico é a chamada obediência automática, segundo a qual o paciente obedece cegamente todas as ordens simples que recebe.

– HEBEFRÊNICA: É menos frequente, e ainda que também podem dar-se a idéias falsas ou delirantes, o fundamental pode aparecer ants que a paranóide e é muito mais grave, com pior resposta à medicação e evolução mais lenta e negativa.

– INDIFERENCIADA: Este diagnóstico se aplica àqueles casos que sendo verdadeiras esquizofrenias não reúnem as condições de nenhuma das formas anteriores. Pode-se utilizar como uma “gaveta de alfaiate” em que se inclui aqueles pacientes impossíveis de serem definidos.

Tratamento da esquizofrenia

O tratamento dos processos esquizofrênicos podem ficar reservados para o psiquiatra. Requer o emprego de medicamentos difíceis de empregar, tanto pela limitação dos seus efeitos como pela quantidade de reações adversas que podem provocar. Em geral, os sintomas psicóticos antes citados, correspondem a dois grandes grupos:

– Sintomas “positivos”, ou produtivos. Refere-se a condutas ou modos de pensamento que aparecem na crise psicótica, em forma auditiva (novas condutas se somam às existentes). São os delírios e as alucinações, fundamentalmente. Neste caso, a palavra “positivo” não tem conotações favoráveis; significa simplesmente que “algo se soma ou se acrescenta”, e esse “algo” (delírios, alucinações) não é, em absoluto, nada bom.

– Sintomas “negativos”, ou próprios da deterioração: diminuição das capacidades com o aparecimento de sinais de fraqueza e debilidade. Distúrbios psíquicos, perda de ânimo afetivo, dificuldade nas relações interpessoais, incapacidade para trabalhar, etc. São ao principais sintomas negativos. Pois bem, os tratamentos básicos antipsicóticos (neurolépticos, eletrochoque) podem atuar mais ou menos sobre os “sintomas positivos”. Mas não temos nada que atue de forma brilhante sobre os “negativos”. Somente o emprego de alguns neurolépticos concretos ou de antidepressivos, a doses baixas, pode ser de alguma ajuda. Seu manejo exige muitíssimo cuidado, pois podem reativar uma fase aguda da esquizofrenia. O eletrochoque se reserva para os casos de baixa resposta aos neurolépticos, ou para quadros muito desorganizados com riscos físicos para o paciente (condutas auto-agressivas, por exemplo). Sua utilidade é na fase ativa, e somente para os sintomas “positivos”.

Fontes:

– American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (AACAP)

Guia Infantil

 

 

 

Conferência Depois do Espanto – 20 e 21 de maio no CCB

Maio 14, 2016 às 5:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Manuel Moreira

mais informações:

https://www.ccb.pt/Default/pt/Programacao/ConferenciasCursosEOutros?A=534

O desenvolvimento da resiliência durante a infância

Fevereiro 15, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site https://semanamundialdobrincar2015.wordpress.com de 12 de maio de 2015.

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por Aliança pela Infância

Entrevista por Fernanda Ortega sobre o tema da Semana Mundial do Brincar “Para ter criatividade, resiliência e coragem é preciso brincar!”

Ricardo Ghelman – pesquisador, pediatra e médico da família, especialista em oncologia pediátrica e em medicina antroposófica – aborda, em entrevista para a Aliança pela Infância, o desenvolvimento da resiliência durante a infância e critica o modelo pedagógico predominante na educação básica atual.

Como você define resiliência?

Defino resiliência como uma capacidade de enfrentar criativamente a vida, especialmente situações de estresse. A questão é como a pessoa lida, no dia a dia, com os seus desafios. Uma pessoa bem compreensiva, que veja sentido no que está acontecendo, é alguém com maior resiliência, uma pessoa mimada pode se tornar pouco resiliente, por exemplo.

Qual é a importância de desenvolver a resiliência durante a infância?

Só se desenvolve a resiliência durante a infância, que, para mim, é o período de 0 até 21 anos de idade. Resiliência é uma construção até a vida adulta.

E como você caracteriza a infância?

Caracterizo a infância como três infâncias, cada uma é responsável por desenvolver uma das três áreas da psique humana. A primeira infância, de 0 a 7 anos, desenvolve a área motora, comportamental, de fantasia. A segunda infância, que vai dos 7 anos até a puberdade, é mais afetiva. É o período que se desenvolve a inteligência emocional, que é um dos aspectos fundamentais da resiliência. Durante a terceira infância, que corresponde à entrada no Ensino Médio até a faculdade, desenvolve-se absurdamente o lado cognitivo: a capacidade de compreensão.

Como é possível contribuir para o desenvolvimento da resiliência na criança?

Um dos aspectos da resiliência é a personalidade inata da criança. Tem criança que nasce com uma tendência a ser mais resiliente que outra. Isso não dá para educar, é uma pré-condição, não podemos fazer nada a respeito. A genética influencia a personalidade, mas a natureza da criança – que é o aspecto existencial do ser humano – transcende a genética. Essa natureza é a individualidade da criança. Defino esse aspecto existencial, espiritual ou da individualidade do ser humano, como aquilo que diferencia dois irmãos gêmeos univitelinos com a mesma genética. Sou um exemplo clássico, porque tenho um irmão gêmeo univitelino. É a mesma genética, mesmo pai, mesma mãe, mesma educação, mas são duas pessoas diferentes. Isso rompe completamente com a ideia de que o ser humano seria resultado apenas da genética e do meio ambiente. Há também uma outra personalidade, que é desenvolvida por influência ambiental. Essa é a personalidade educável, que tem a ver com cultura.

“Um adulto travado emocionalmente, pode ter certeza, teve dificuldades na segunda infância”

E o que é possível desenvolver durante a infância para que a pessoa se torne mais resiliente, independentemente de sua personalidade inata?

A resiliência envolve três inteligências: a inteligência comportamental – relacionada à força de vontade e à ação no mundo -, a inteligência emocional e a inteligência cognitiva – que tem a ver com QI, Quociente de Inteligência. É preciso passar por toda infância para desenvolver todas essas inteligências. A primeira inteligência, que tem a ver com a primeira infância – de 0 a 7 anos – dá capacidade de manuseio da vida: saber enfrentar situações e buscar ajuda. A inteligência emocional, ligada à segunda infância, dá significado e sentido às coisas. A terceira inteligência dá capacidade de compreender o mundo. São essas três inteligências que tornam as pessoas inteiramente resilientes.

As três infâncias desenvolvem as três inteligências, mas o lado cognitivo da criança pequena é muito pequeno se comparado o lado cognitivo de um rapaz de 15 anos de idade. O aspecto afetivo é muito forte aos 8, 9, 10 anos de idade, muito mais forte do que quando a criança tem 5 anos e depois quando ela tem 16. Então, um adulto travado emocionalmente, pode ter certeza, teve dificuldades na segunda infância.

Um adulto resiliente é uma pessoa bem formada nos três âmbitos de inteligência, nas três infâncias. Com isso, é possível enfrentar as situações da vida e não ficar mal. Ficar mal significa entrar em conflito por não saber lidar com recursos criativos, nem compreender as coisas, nem ter força de vontade. Essa pessoa fica estressada e adoece. Isso interfere na felicidade e na saúde.

“O grande canal dos professores é a arte, que é um caminho para os sentimentos”.

Que tipo de dificuldade durante a segunda infância tornaria uma pessoa travada? A experiência de pais muito racionais que educam sem poder falar de sentimentos. O modelo mais tradicional de pais no mundo moderno ocidental é de pais muito inteligentes e sedentários, que, na primeira infância, não brincam com a criança e a deixam na realidade virtual, na televisão e no videogame. Na segunda infância, que é um período afetivo, eles têm dificuldade de falar de sentimentos e repreendem as crianças. Na terceira infância, eles querem explicar o mundo para as crianças, mas elas não são amigas deles. Então, um adulto travado pode ter tido pais que não sabem lidar com sentimentos.

Os professores podem ajudar a combater esse travamento?

O grande canal dos professores é a arte, que é um caminho para os sentimentos. A criança se expressa em pintura e em desenho, por exemplo. Uma criança com câncer não consegue falar sobre a morte, mas ela consegue fazer desenhos sobre a morte.

Isso acontece em todas as três infâncias que você citou mais cedo?

Em todas as infâncias, mas especialmente dos 5 anos e até a puberdade, que é a época que começa a desabrochar sentimentos de amor e ódio em relação ao mundo. O lado artístico aqui é fundamental. Na primeira infância, a arte é uma brincadeira, a criança pinta brincando. Aos 7 anos, a criança tem a parte motora desenvolvida de tal forma que pode aprender um instrumento musical. Nesse momento, a criança tem habilidade para expressar o que está pensando. Até sete anos, a criança não consegue fazer nenhum esporte ou arte direito, ela precisa ter experiências bem livres. “Os nomes das coisas podem aparecer, mas o objetivo não é que a criança se torne uma nomeadora de coisas”.

O que é mais importante, na primeira infância (de 0 a 7 anos), para a criança desenvolver a resiliência, tendo em vista que durante essa etapa da vida ela desenvolve especialmente a motricidade a partir do brincar? De 0 até 7 anos, a criança desenvolve principalmente os membros e a barriga. Ela come e dorme muito. As funções vegetativas são muito importantes. Quando a criança está acordada, a consciência dela não é racional. A pior coisa que os pais podem fazer nessa época é conceituar o mundo para a criança perguntando: “Filho, isso é um triângulo?”, “Filho, isso é cor vermelha?”, “Filho, o que é isso? É uma girafa?” Essa é a época da criança fantasiar. Os nomes das coisas podem aparecer, mas o objetivo não é que a criança se torne uma nomeadora de coisas. Isso quebra com a criatividade dela. “É fundamental desenvolver a percepção na primeira infância.”

Qual o problema de nomear as coisas para as crianças nesse período da vida? Imagina se toda vez que uma criança vê um ser humano ela diz: “isso é um ser humano”. Se isso acontece, ela nunca vai poder perceber a singularidade de um ser humano. A mesma coisa acontece com as borboletas. A criança precisa ver que uma borboleta não é igual a outra, porque tem um azul especial, por exemplo. Se a criança adere ao conceito “borboleta”, ela nunca vai distinguir uma borboleta da outra. O mundo dela vai virar pastel, ela vai chamar as coisas de leão, borboleta e casinha.

É fundamental desenvolver a percepção na primeira infância. Os sentidos são uma experiência que não tem a ver com conceitos. Pais muito classificatórios têm filhos muito classificatórios. “Você quer entrar no mundo do seu filho ou quer que ele entre no seu mundo?”

Como não ser classificatório com a criança? Você precisa entrar no mundo da criança. Por exemplo, uma criança de quatro anos pode, com a imaginação, entrar dentro de uma casinha de brinquedo e inventar uma história. Uma criança de 8 anos vai abrir a casinha no meio para ver do que é feita. Um adulto, para não ser classificatório, teria que entrar no mundo da fantasia, entrar na casinha também e inventar uma história. Quando um adulto está com uma criança pequena, ele tem que deixar de ser adulto e entrar no mundo da criança para poder dialogar.

A grande questão a se fazer para os pais é: “você quer entrar no mundo do seu filho ou quer que ele entre no seu mundo?”. Se a opção for a segunda, a criança vai virar um adultinho. Se você veste a camisa do seu filho, senta no chão, brinca junto e entra numa fantasia de horas e horas, ele fica muito mais feliz. O adultinho tem medo porque sabe tudo o que acontece acompanhando o noticiário do Jornal Nacional. Ele sabe dos perigos e fica antenadíssimo. Quando o pai entra no mundo da criança, ele rejuvenesce e fica mais feliz. Então, não classificar é sair do nosso mundo adulto, racional, pouco motor e pouco artista. Entender o desenvolvimento infantil é desacelerar um pouco e entrar no mundo da criança. É um desafio.

Existiria um passo a passo para os pais seguirem com seus filhos para que eles se tornem adultos resilientes?

Um adulto bem desenvolvido tem bastante capacidade criativa. Um adulto que teve, durante a infância, um impedimento de desenvolver seu lado criativo – que estudou, por exemplo, numa escola muito cognitivista e teve pais muito intelectuais -, não consegue brincar com a criança.

Não existe passo a passo, nem fórmulas, existe a compreensão do que deve ser desenvolvido durante a infância e do que o adulto deve ter para lidar com a infância. Se o adulto, por exemplo, tiver enorme dificuldade com matemática, ele vai lidar muito mal com o filho quando ele entrar no Ensino Médio: esse é o momento em que o filho entra no mundo da lógica, mas o pai não é lógico, não sabe ganhar dinheiro, só sabe criar. Então, esse pai brinca muito com o filho na primeira infância, mas, quando o filho virar mais racional, esse pai vai falar “filho, eu não te entendo”. Então, precisamos fugir das fórmulas.

Uma escola Waldorf privilegia muito o brincar e a arte, mas pode ter dificuldade de lidar com a racionalidade. Claro que isso depende da escola Waldorf. A maioria das escolas no Brasil são cognitivistas, bem conceituais. Nelas, a arte é apenas uma pincelada no currículo. Se os pais colocarem seus filhos nestas escolas, eles precisam se preocupar em desenvolver mais o lado artístico fora de sala de aula.

“A gente educa o que a gente é”.

Que trabalho é possível fazer com os pais para conscientiza-los sobre estas questões? É importante perguntarmos para os pais: “você brinca?”, “Como está o convívio com os seus amigos?”, “Você só está focado em trabalho?”. Se os pais não tiverem amigos, eles não conseguem ensinar muito o filho a brincar, porque eles não brincam com ninguém.

Há esse lado motor, lúdico, de encontro pessoal, de saber conviver socialmente. Isso tudo é muito importante para os pais saberem conviver com o filho. Pais bem formados educam bem os seus filhos. A gente educa o que a gente é.

Para você, como seria uma educação escolar ideal para que a criança desenvolva a resiliência?

O ideal seria uma salada mista ou um suco misto dos modelos pedagógicos existentes para pegar o melhor de cada um. Não posso defender um métodos pedagógico, só posso dizer que o modelo cognitivista – que é o modelo das escolas tradicionais, baseadas em conceitos – leva à evasão escolar e a uma falta de vontade de aprender. Por que aprender o nome em latim de todos os dinossauros no século XXI? Isso significa sair da realidade e ir para um mundo pré-histórico em que nenhum homem viveu. Hoje, as pessoas querem saber um monte de coisas que não tem a ver com a realidade. Isso gera um grande distanciamento social.

É importante permitir que as crianças tenham experiências: ter contato com a natureza, observar o mundo e aprender por dedução. Há várias escolas que favorecem isso, como as escolas construtivistas, as escolas Waldorf, a escola da Ponte, entre outras. Esses são movimentos de contracultura ao cognitivismo.

“Só pensamos em mudar algo se estamos insatisfeitos”.

Como você acha que seria possível conscientizar o poder público, que em geral deixa a educação de base tão de lado, da importância de um modelo menos cognitivista, menos tradicional, e que trabalhe mais o brincar e a arte? Um dos pontos fundamentais para influenciar o poder público é embasar essas questões tecnicamente a partir da neurociência. A neurociência mostra que o aprendizado não é só conceitual, o aprendizado envolve o corpo inteiro. A força de vontade – inclusive de aprender – está muito relacionada a neurotransmissores que estão no intestino e são estimulados muito na primeira infância (de 0 a 7 anos) por ritmos, movimentos e brincadeiras. Esse embasamento comprova que uma educação menos cognitivista não é uma ideia de hippies ou de um grupo louco. De outro lado, é importante fazer uma análise crítica do modelo atual. Só pensamos em mudar algo se estamos insatisfeitos.

“A proposta pedagógica não é que se tenha bom caráter, a proposta é formar uma pessoa inteligente para passar no vestibular”.

Qual a crítica que você faz ao modelo de educação atual? O modelo atual é cognitivista. Quando um pai educa um filho, o que ele quer? Quer que se torne uma pessoa boa? Que tenha senso estético? Ou que seja inteligente? Ele quer que seu filho seja inteligente, esse é o valor da sociedade hoje. A proposta pedagógica não é que se tenha bom caráter, a proposta é formar uma pessoa inteligente para passar no vestibular.

Outro aspecto presente na escola tradicional é o de avaliar e comparar pessoas com notas. Existe a meta de se tornar um ótimo aluno. O modelo hoje forma pessoas inteligentes e competitivas. O que seria um jovem bem-sucedido aos 26 anos? Seria um empresário, ambicioso, que consegue fazer parte da sua formação nos Estados Unidos, mas que não necessariamente vai ter um bom relacionamento humano com as pessoas. Imagine se todo mundo quer se tornar o primeiro aluno da turma desde os sete anos de idade: é a guerra de todos contra todos. Então, temos que analisar qual é a consequência do ensino de hoje e pensar em modelos mais cooperativos e mais integradores. A escola precisa formar pessoas mais humanas.

Além disso, hoje em dia, muitas escolas pensam que o que é moderno é simplesmente colocar computadores para o alunos. Não sou contra o computador, ele pode ser uma ótima ferramenta de aprendizado, mas ele vem de um modelo que privilegia o lado cognitivo. Então, na mesma hora que se coloca o computador na escola, deveria ter aumento na carga horária de artes. O computador gera sedentarismo nas crianças. Tem estudos que mostram que crianças mais alérgicas têm tendência a piorar com falta atividades motoras e físicas. Então, esse modelo sedentarista muda, por exemplo, a constituição imunológica da criança e deixa a criança mais alérgica. As crianças alérgicas precisam suar.

Imagine que toda grade curricular escolar da infância fosse um cardápio de alimentação para tornar um adulto informado. O lado conceitual seria a carne e o lado artístico e motor seriam carboidratos, sementes, fibras e brotos. Hoje em dia, a alimentação básica escolar, fazendo um paralelo, privilegiaria a carne. A carne seria o prato principal e constituiria 70% da alimentação, sendo 30% perfumaria com poucas aulas de educação física e artes. Nessa grade curricular, os conceitos são privilegiados para que a criança chegue no Ensino Médio, passe no vestibular e, em seguida, esqueça tudo. Numa dieta ideal, quanto seria o ideal de carne? Seria 30% de carne, 70% deveria ser carboidrato e outros elementos com oleogenosas, que são gorduras com qualidade. Isso é a alimentação ideal. Existe uma inversão na alimentação e o mesmo acontece na educação escolar. “Cada uma fica em sua casa assistindo televisão”.

Nesse contexto, qual é a importância de resgatar a importância do brincar? Valorizo a política do brincar da Aliança pela Infância, por exemplo, porque o brincar é um antídoto contra o excesso de cognitivismo. Uma criança educada por pais muito intelectuais não sabe brincar. Eu vejo isso no consultório todos os dias. São crianças que não conseguem se desligar da conversa do pai com o médico e não conseguem entrar na brincadeira. Isso acontece porque a criança está em um ambiente alerta e intelectual. Estamos vivendo uma crise de infelicidade na infância. Uma criança que não consegue entrar nesse mundo da fantasia não é feliz. Ela é assustada e tem medo. É isso que a gente está formando hoje em dia.

Isso é supertriste. O que é modelo de uma criança feliz? É uma criança correndo, na natureza, rindo, com outras crianças junto, empinando uma pipa. Mas as crianças não têm um espaço público lúdico para brincar. Cada uma fica em sua casa assistindo televisão.

 

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