Dificuldades de aprendizagem

Novembro 15, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Inês Teotónio Pereira publicado no i de 1 de novembro.

Da escola chegavam-nos notícias de “falta de interesse”, “falta de concentração” porque “é muito distraído” e “trabalha pouco”

Um dos meus filhos tinha dificuldades de aprendizagem. Começou a ler tarde, dava erros ortográficos, distraía–se com as moscas (literalmente), não decorava coisa alguma e sempre que podia deixava os trabalhos de casa por fazer. Também se esquecia de tudo, era desorganizado, não dava importância aos testes nem percebia o fundamento das avaliações. Não era competitivo e tinha dificuldade em perceber a importância que os pais e os professores dão à escola. Desde cedo que desenhava com pormenor e aos cinco anos já fazia desenhos em perspectiva e com profundidade, mas não tinha paciência para pintar ou para fazer os traços direitos. Um dia, numa luta renhida com as contas de dividir, levantou a cabeça e desabafou: “Gostava de saber o que é que este lápis pensa se ele conseguisse pensar.” Foi mais ou menos nessa altura que descobrimos que usava a parede junto da secretária para desenhar enquanto fingia que estudava. Era também talentoso a representar e conseguia inventar uma história interminável a partir de dois palitos. Da escola chegavam-nos notícias de “falta de interesse”, “falta de concentração” porque “é muito distraído” e “trabalha pouco”. Em casa, nós, pais, pressionávamos, castigávamos e espremíamos a criança cada vez que chegava mais um recado ou mais uma nota. Sobre os talentos pouco lhe dizíamos porque o tempo era escasso e o calendário escolar não dava tréguas: antes do teatro está a Matemática e antes da criatividade está o Português, sentenciávamos.

No 4.o ano conheceu os livros do Harry Potter e foi assim que se viciou na leitura. Os erros, esses, persistiam e as notas continuavam a sair esforçadas. A motivação era mínima e a escola continuava a ser um mal necessário na qual passava os dias. O Harry Potter era o seu esconderijo. No 6.o ano chegaram os exames e com eles a possibilidade real de fracassar. Assustou–se com a eventualidade e, ajudado pela maturidade, estudou três semanas seguidas sem levantar cabeça, com horas marcadas para as refeições e com objectivos diários impostos por nós. Conseguiu a melhor nota da escola e da vida dele no exame de Matemática e deixou pais e professores de queixo no chão. Gostou da experiência e ainda mais da sensação. Nunca mais repetiu o resultado, mas as notas nunca mais saíram esforçadas, os trabalhos de casa nunca mais ficaram por fazer e nunca mais se denunciou a sua falta de concentração.

Para trás ficou o teatro e do desenho nunca mais ouvimos falar. Diz ele que não desenha bem porque não consegue fazer traços direitos ou imitar paisagens. A comparação com os desenhos fotográficos dos colegas e as classificações suficientes dos professores esfriaram o seu empenho e comprovaram que o seu talento afinal era apenas suficiente. Com a ajuda do tempo acabou por desistir. Dos oito anos da vida escolar do meu filho tiro duas conclusões. A primeira é que durante anos dei mais importância à escola e às considerações dos professores que ao meu filho, dei mais importância às dificuldades denunciadas pelos professores que aos talentos que eu conhecia. Sem saber cavei um fosso de frustrações que aumentava cada vez que chegava uma nota ou um recado, como se cada um deles fosse mais uma prova do seu fracasso (e do meu). Sem querer amolguei-lhe a auto-estima e eduquei-o tendo como referência as pautas escolares.

A segunda é que apesar de mim e da escola ele conseguiu. Conseguiu porque quis, porque um dia resolveu querer. As ameaças, as pressões, os castigos e o desespero perante cada má nota não tiveram qualquer efeito positivo, apenas negativo. As dificuldades de aprendizagem são apenas isso, dificuldades. E não querem dizer mais nada sobre os nossos filhos. No dia em que os confundimos com as dificuldades deles, em que olhamos para eles e em vez de crianças vimos problemas de matemática, os nossos filhos facilmente acreditam que são eles próprios os erros e os problemas. E então sim, as dificuldades perpetuam-se e podem ultrapassar em muito o âmbito da escola. A felicidade e o futuro dos nossos filhos não se medem pelo seu desempenho escolar – que mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos trabalho, acaba por se cumprir – mas podem estar comprometidos se nós, pais, os julgarmos e medirmos por isso. O principal problema das dificuldades de aprendizagem é a dificuldade dos pais – não dos filhos – em lidar com elas.

Escreve ao sábado

 

 

O que falha na escola inclusiva

Julho 8, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Inês Teotónio Pereira publicado no i de 5 de julho de 2014.

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Em Portugal existe o princípio da escola inclusiva, segundo o qual todos, independentemente de dificuldades ou deficiências, têm o seu lugar na escola

No final da década de 70, um estudo sobre o sistema educativo publicado em Inglaterra concluía que, “ao longo da escolaridade básica, uma em cada cinco crianças apresentará, em algum momento, necessidades educativas que implicam a adequação do processo de ensino e aprendizagem”. Ora, tendo eu seis filhos e tendo em conta esta média, a probabilidade de um deles apresentar as referidas necessidades educativas era grande. E assim foi, um deles tem dislexia grave. Com ele entrei no mundo das necessidades educativas especiais e da escola inclusiva. Passámos por tudo: diagnósticos, relatórios, consultas várias, avaliações, plano educativo individual, ensino especial, etc. Uma viagem acima de tudo técnica, com linguagem própria, cheia de obstáculos, angústias, siglas e muito, muito difusa. No mundo da educação especial as definições são abrangentes, pouco consensuais e o universo é amplo: vai da deficiência às dificuldades de aprendizagem; vai das necessidades educativas que têm origem na deficiência a um simples problema fonológico. Em Portugal existem 62 100 famílias que, tal como a minha, viajam por este mundo. Uma viagem alucinante e quase sempre solitária.

Em Portugal existe o princípio da escola inclusiva, segundo o qual todos, independentemente de dificuldades ou deficiências, têm o seu lugar na escola. O princípio está correcto e é unanimemente aceite, mas será que na prática a escola portuguesa é mesmo inclusiva? Ainda não. Na educação especial cada caso é um caso único, que precisa de respostas rápidas, intervenções eficazes e objectivos consistentes. É verdade que todos os alunos têm acesso à escola, mas não é verdade que todos estejam incluídos, ou seja, que as suas necessidades tenham resposta e que façam um percurso evolutivo dentro da escola pública. Muitos ficam pelo caminho, pois a escola não os integra verdadeiramente. A verdade é que os meios que muitas escolas disponibilizam não são suficientes, e na educação especial quem tem dinheiro tem meio caminho andado. Também é real o fatalismo com que se tende a marcar o destino destas crianças, ou porque são apenas rotulados de maus alunos ou porque se considera estupidamente que não serão produtivos.

E quais são as principais lacunas deste sistema chamado inclusivo? Começam logo por aquilo a que tecnicamente se chama enquadramento. Se a criança tem uma deficiência ou uma dificuldade permanente, tem direito a ser enquadrada na chamada escola inclusiva e o privilégio de ter acesso aos planos de intervenção e aos meios que existem. Mas, se o seu problema for temporário e “curável”, só a sensibilidade do professor, a insistência dos pais, o dinheiro ou a sorte a conseguem enquadrar. Se nenhuma destas variáveis existir, as necessidades temporárias podem tornar-se permanentes, o insucesso escolar inevitável e o abandono escolar um risco. Nesta fronteira estão milhares de famílias. Famílias em que os filhos apresentam dificuldades de aprendizagem mas não têm dinheiro para pagar uma avaliação externa e têm o azar de o professor continuar à espera do clique.

Quando as necessidades são reais e diagnosticadas a tempo, diz a doutrina, a lei e o bom senso que têm direito a um percurso escolar digno, consistente e que responda às suas necessidades concretas. Mas também aqui a distância entre a teoria e a prática é grande. São muitos os alunos que frequentam a escola para cumprirem a escolaridade obrigatória e apenas para a cumprirem. O que no final dos 12 anos levam para casa é pouco, quer em termos de competências adquiridas quer em termos de autonomia. O diagnóstico da nossa escola inclusiva está feito e é mais ou menos consensual. Há umas semanas o Conselho Nacional de Educação sistematizou em pormenor o que falha e aquilo que é urgente fazer. A boa notícia é que não implica gastar mais dinheiro: apenas mais formação dos professores, uma gestão eficaz dos meios já existentes, alterações legislativas pontuais, mais e melhor coordenação entre as entidades da Saúde, da Segurança Social e da Educação e muito bom senso. Depois, sim, podemos dizer que a escola portuguesa é realmente inclusiva.

 

Amigos com filhos

Maio 5, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Inês Teotónio Pereira publicado no i de 19 de abril de 2014.

Hoje existe uma terceira modalidade de amigos: os amigos com filhos a tempo parcial

Existem três tipos de amigos: os amigos com filhos, os amigos sem filhos e os amigos com filhos a tempo parcial. Eu faço parte dos amigos com filhos. Sou do pior tipo de amigos. Sei disso porque lembro-me bem do tempo em que não tinha filhos mas tinha amigos com filhos: era horrível.

Quando se tem filhos a nossa vida social muda. Basicamente hiberna-se. Deixamos de ter vida social digna desse nome e todos os conceitos de divertimento alteram-se ou evaporam-se. É como se tivéssemos emigrado para uma ilha no meio do Pacífico, sem telemóvel, acesso à internet e uma diferença horária de 12 horas. Quando eu não tinha filhos, tinha saudades dos meus amigos com filhos. Sentia falta deles. Podia vê-los todos os dias, mas não era a mesma coisa. Os filhos levavam os meus amigos e o pior era que os meus amigos queriam que eu gostasse tanto dos filhos deles quanto gostava deles. Impossível: ninguém gosta muito de alguém que nos rouba amigos.

Ainda assim insisti em manter as minhas amizades com os meus amigos pais. Combinava programas e acordava mais cedo para cumprir os programas. Os amigos com filhos têm uma particularidade: andam sempre com os filhos atrás, por isso, se queria manter os amigos sabia que tinha de levar com os filhos deles e às horas deles. Não havia alternativa. Se queria beber um café com um amigo que tinha filhos, já sabia que tinha de beber um café com os filhos deles e com tudo o que isso implica: ou seja, só se bebia o café, não conversava porque os filhos dos amigos não gostam de estar em cafés e também não gostam do amigo dos pais que disputa a atenção dos pais com eles.

O pior, no entanto, era fazer uma viagem com este tipo de amigos. Viajar com amigos com filhos não se tendo filhos é uma das experiências mais penosas que se pode viver. A música no carro é miserável e repetitiva. Os CD que acompanham as viagens são coletâneas de músicas infantis e está sempre a tocar a mesma música porque as crianças são absolutamente obcecadas e gostam pouco de variedade musical. Os horários são espartanos. Pára-se a toda a hora porque a criança tem de comer, tem de fazer xixi, tem de correr, não pode apanhar sol ou está a dormir e não se pode fazer barulho. Qualquer visita de estudo é menos metódica e chata que uma viagem com amigos que têm filhos.

Os amigos com filhos também nunca podiam. Nunca podiam jantar fora, ir ao cinema, sair até tarde, ir beber uma cerveja ao fim do dia ou ir à praia a horas decentes. Nunca “dá”. Ou porque tinham de se levantar cedo, ou porque não tinham com quem deixar os filhos, ou porque estavam cansados porque acordam cedo, ou porque a criança não podia apanhar sol. Por tudo isso nunca “dava”. A única coisa que dava para combinar era um lanche. E chegamos à segunda coisa mais penosa: os aniversários dos filhos dos amigos. Era nestas alturas que os meus amigos com filhos se lembravam que eu existia: para comer salame, gelatinas e passar a tarde com dezenas de crianças em êxtase.

Hoje existe uma terceira modalidade de amigos: os amigos com filhos a tempo parcial. São aqueles amigos divorciados que têm períodos de tempo sem crianças porque as crianças “estão no pai ou na mãe”. Estes amigos conseguem o pleno da amizade. Quando “estão sem os miúdos” são amigos dos amigos sem filhos, quando “estão com os miúdos” são amigos dos amigos com filhos. O divórcio transporta-os em períodos determinados de tempo para o mundo livre dos amigos sem filhos, enquanto nós, amigos com filhos a tempo inteiro, continuamos hibernados numa ilha perdida algures no Pacífico. Uma ilha paradisíaca, é certo, mas não deixa de ser isolada e nós não deixamos de estar hibernados.

Escreve ao sábado

 

 

Os filhos mandam nos pais

Janeiro 3, 2014 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Inês Teotónio Pereira publicado no i de 21 de Dezembro de 2013.

Pai e mãe que façam o que bem lhes apetece ao fim-de-semana são seres em vias de extinção, uns resistentes do antigo regime

Os filhos de hoje são uma espécie de hitlerzinhos sem bigode, uns verdadeiros déspotas domésticos. A época em que os filhos temiam os pais acabou e assistimos agora a um período revolucionário doméstico em curso (PRdEC). Hoje quem manda são os filhos; os pais foram depostos e vivem sujeitos a uma espécie de escravatura dos filhos.

Num destes dias, durante esta época feliz em que os pais correm freneticamente nos centros comerciais para satisfazerem os desejos dos filhos a propósito do Natal, deparei-me com a cena da Sara (de 13 anos no máximo) e da mãe. Estava a Sara a experimentar chapéus ao espelho de uma loja enquanto a mãe esperava pacientemente que ela deixasse de fazer posses e escolhesse um dos chapéus. A criança vestia calções do tamanho de umas cuecas, umas meias cuidadosamente rasgadas e uma camisola que não lhe tapava o umbigo. Sem dúvida que estava na moda. Está claro que o chapéu preferido acabou por ser o mais caro, 50 euros. A mãe, de semblante carregado, chamou a atenção da menina para o facto de o chapéu ser muito caro e perguntou-lhe se ela não podia escolher outro. Qual quê: “É deste que eu gosto por isso é este que me vais dar.” E assim foi: a mãe obedeceu, pagou e calou-se.

Fui dali para outra loja e travei conhecimento com outra menina mais ou menos da mesma idade. Esta passeava-se com um telemóvel última geração, uma mochila de marca de surf, uns cabelos compridos e lisos como elas todas usam e calções do tamanho dos da outra. A criança dava guinchos ao mesmo tempo que falava com duas amigas em simultâneo (através do telemóvel) e mostrava-se excitadíssima porque a música que tocava naquela loja era dos One Direction (razão que a levou a ligar às amigas). O pai e a mãe, entretanto, esperavam à porta da loja que a música acabasse para se poderem ir embora: é que a filha só saía dali quando a música acabasse.

De histórias como estas estão as escolas, os centros comerciais e as famílias portuguesas cheias. São os filhos quem mais ordena e não há reforma agrária, operários ou nacionalizações que se lhes comparem. A luta da filharada, ao contrário da luta do operariado, está mais que ganha. Um filho de hoje faz o que quer, tem o que quer, come o que quer e não recebe ordens de ninguém. Os pais obedecem. Eles acham que os desejos dos seus meninos e meninas são ordens e cumprem–nas. As regras que imperam são as regras dos gostos: se eles gostam tem de ser assim. Tudo o resto é secundário, como por exemplo o acordo dos pais. Um pequeno exemplo desta realidade são os fins-de-semana. Aos fins–de-semana os pais entretêm-se com quê? Com passear os meninos entre festas e eventos desportivos das inúmeras actividades em que a criançada participa. Pai e mãe que façam o que bem lhes apetece ao fim-de-semana são seres em vias de extinção, uns resistentes do antigo regime. É por isso que ter filhos hoje em dia é considerado uma loucura – ninguém adere por opção à condição de escravo.

A verdade é que o regime familiar não é democrático, nunca foi: dantes mandavam os pais, agora mandam os filhos. Mas daqui a uns anos logo veremos qual é o melhor regime – os nossos filhos o dirão.

 

 


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