Orquestra Geração. A música como perspetiva de futuro

Junho 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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A orquestra dirigida por Marija Mihajlovic esteve a atuar quarta-feira na abertura da Feira do Livro em Lisboa Foto Leonardo Negrão / Global Imagens

Notícia do Diário de Notícias de 1 de junho de 2019.

A Orquestra Geração da Santa Casa junta crianças e jovens acompanhados pela instituição, mas também filhos de funcionários, e tem por objetivo combater o insucesso escolar através da música.

Jéssica Silva, de 14 anos, descobriu a Orquestra Geração através das técnicas da segurança social. Chegou à formação de jovens músicos da Santa Casa para tocar violino. Com ela trouxe a amiga Cláudia Fernandes, de 13 anos, que toca violoncelo. Há pouco mais de um ano, foram juntas ver o que era a Orquestra, mas sem grande esperança de conseguir um lugar. “Viemos cá ver quais é que eram mais ou menos os instrumentos, mas não tínhamos a noção que íamos ficar, porque não estávamos assim muito motivadas”, recorda Jéssica.

As duas amigas chegaram tinha a Orquestra Geração Santa Casa apenas um ano. No arranque tinham 25 músicos, “jovens que nunca tinham visto um instrumento de música clássica”, sublinha António Santinha, diretor da Unidade de Apoio à Autonomia da Infância e Juventude da Santa Casa. Neste momento, são 35 elementos, dos seis aos 15 anos, do que é para já apenas uma orquestra de cordas. No próximo ano, a Santa Casa tem prevista a introdução de sopros, o que deve implicar mais dez elementos.

O projeto – que se inspira no Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela e tem como objetivo combater o abandono e insucesso escolar através do ensino da música – nasceu para “tornar acessível a cultura a todas as crianças, que dificilmente noutras condições teriam acesso a alguns instrumentos de cultura”, explica o responsável da Santa Casa. Integram este projeto as crianças que vivem nas casas de acolhimento da Misericórdia de Lisboa, crianças de famílias acompanhadas pela instituição e também filhos de funcionários.

A expectativa inicial era de perceber como é que as crianças iam reagir. Agora, chegam de todos os pontos da cidade – a Santa Casa trata da logística dos transportes – para aprender a tocar um instrumento. “Os miúdos neste momento estão entusiasmados. Uns, no intervalo vão jogar futebol, outros ficam a aprofundar os seus estudos com os instrumentos”, exemplifica, orgulhoso António Santinha.

Os alunos vão começar agora, ao fim de dois anos, a levar os seus instrumentos para casa, a “cuidar do seu instrumento”. Desta forma, aponta o responsável, vão colocar “instrumentos de música, pelos quais os miúdos têm grande afeto e carinho, em sítios onde a cultura às vezes não é tão valorizada e onde não é muito habitual encontrar este tipo de instrumentos e este tipo de atividades.”

O cuidado com os instrumentos

A relação especial de cuidado e carinho com os instrumentos é algo que António Santinha frisa na evolução das crianças e jovens que integram a Orquestra Geração. E de repente o projeto que quer levar a cultura a estes miúdos acaba por fazer nascer neles o desejo de serem músicos. “Vemos que alguns miúdos, de facto, estão muito interessados nos estudos.” A ajudar a esse entusiasmo, António Santinha não tem dúvidas que estão os professores. Um desses exemplos é Marija Mihajlovic Pereira, professora do naipe de violinos e preparadora orquestral. Está há um ano e meio na Orquestra. Começou por ser professora convidada e acabou por ficar a tempo inteiro.

Marija olha para os seus alunos e a primeira palavra com que os descreve é “diversificados”. Nas idades, no comportamento, na nacionalidade, e outros aspectos. “Temos alunos dos 6 aos 15 anos e isso exige um trabalho de abordagem muito diversificado do professor para abranger essas idades”, aponta. Durante a semana, têm três horas de aulas e aos sábados mais quatro. São momentos que os aprendizes de músicos passam com o instrumento que tocam.

E embora haja diferenças entre os mais “dedicados” e os mais “de brincadeira”, “todos eles acabam por se envolver de alguma forma”, defende a professora. Marija considera ainda o grupo “unido” e diz que teve “uma boa evolução” desde o arranque da Orquestra. E essa evolução é medida não só em termos musicais: “Evolução social, musical, da convivência, de empenho e de uma forma muito particular que faz esse projeto bem especial para mim, porque muitos deles sentem isto como uma segunda casa. É uma instituição acolhedora não só para eles, mas também para os professores”, elogia.

Como professora de um grupo de crianças e jovens que não tinha qualquer contacto com a música antes, Marija Mihajlovic Pereira elogia a entreajuda. “Os que aprendem primeiro puxam com tanta força os outros que eles rapidamente se agrupam.”

“Nem conseguia colocar bem o primeiro dedo”

Do lado dos alunos, também há o elogio ao esforço de quem ensina. “Os professores desta escola são melhores do que os professores da escola normal porque interagem mais com os alunos. Aqui conseguimos falar se estamos tristes ou se temos alguma coisa. Os professores perguntam”, refere Jéssica Silva.

Antes dos concertos, os professores insistem “na disciplina de concentração, não interagir com o público no concerto. Na hora do concerto eles dizem que sentem o coração a bater. Acho que ficam felizes”, descreve Marija Mihajlovic Pereira. E quantos mais concertos fazem, mais confiança de palco ganham. A Orquestra Geração já tem “uma tournée quase”, descreve António Santinha. Tocaram no primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa, na passada quarta-feira, são presença assídua na Feira de Natal da Santa Casa, além de muitas solicitações da paróquia e de festas, que nem sempre conseguem cumprir devido à conciliação que é necessária com os horários da escola.

Mas mesmo que não consigam dar tantos concertos como gostariam, o importante, acredita António Santinha, é deixar nos músicos da Orquestra a ideia de que “a cultura alarga o leque de possibilidades de escolha e alarga o horizonte”. “Muitas vezes, em crianças e jovens que vêm de meios menos favorecidos, aquilo que nós notamos é a dificuldade no seu horizonte de futuro, e este tipo de atividades, em que eles podem sobressair, alargam o horizonte – porque

Amanda Silva diz que o seu professor “é um chato”, mas acaba por confessar que se dão bem. Aos 15 anos descobriu por acaso a paixão pelo contrabaixo. A aluna do 9.º ano recorda a sensação “estranha” de tocar nos instrumentos. Depois de tentar vários instrumentos acabou por escolher o contrabaixo: “Agora adoro.”

Amanda ainda se lembra de que quando chegou à Orquestra não tinha qualquer noção do instrumento. “No início nem conseguia colocar bem o primeiro dedo como deve ser que saía desafinado. Agora já consigo tocar bastante bem e andar mais rápido no contrabaixo.” A jovem é um dos elementos da Orquestra que quer seguir carreira. “Penso 24 horas por dia no contrabaixo. Penso logo tenho que acabar as aulas para começar a tocar.”

Sobre o ambiente da orquestra só tem coisas boas a dizer. “Aqui perdi a vergonha, posso falar com quem quiser que somos todos amigos.” Além de que é um espaço que a ajudou a encontrar a sua vocação. E nem os concertos a assustam. “Só fico nervosa um bocadinho antes. Quando estou lá já passaram os nervos, toco, penso em outras coisas.”

Antes dos concertos, os professores insistem “na disciplina de concentração, não interagir com o público no concerto. Na hora do concerto eles dizem que sentem o coração a bater. Acho que ficam felizes”, descreve Marija Mihajlovic Pereira. E quantos mais concertos fazem, mais confiança de palco ganham. A Orquestra Geração já tem “uma tournée quase”, descreve António Santinha. Tocaram no primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa, na passada quarta-feira, são presença assídua na Feira de Natal da Santa Casa, além de muitas solicitações da paróquia e de festas, que nem sempre conseguem cumprir devido à conciliação que é necessária com os horários da escola.

Mas mesmo que não consigam dar tantos concertos como gostariam, o importante, acredita António Santinha, é deixar nos músicos da Orquestra a ideia de que “a cultura alarga o leque de possibilidades de escolha e alarga o horizonte”. “Muitas vezes, em crianças e jovens que vêm de meios menos favorecidos, aquilo que nós notamos é a dificuldade no seu horizonte de futuro, e este tipo de atividades, em que eles podem sobressair, alargam o horizonte – porque viajam, vão para fora do seu bairro, porque se encontram com outros miúdos, porque trocam impressões com outras pessoas que têm profissões diferentes.”

 

 

 

 

Sofia Borges, a portuguesa que ensina música a crianças refugiadas na Alemanha

Agosto 27, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Maria Leonardo

Notícia e imagem do Público de 13 de agosto de 2018.

A percussionista e compositora portuguesa faz parte do projecto MitMachMusik e ensina música a crianças refugiadas em Berlim. “Muitas crianças estão traumatizadas”, diz.

Pim-po-ne-ta pita pita pituxa plim“. A lengalenga faz parte da infância de muitos portugueses, mas não das seis crianças refugiadas em Berlim, que, sentadas numa roda, imitam, sem hesitações, a canção que a portuguesa Sofia Borges lhes tenta ensinar.

A percussionista e compositora portuguesa integra o projecto MitMachMusik (“fazemos música”, em tradução livre) há um ano e actualmente ensina música a crianças refugiadas em três abrigos da capital alemã. “Dou aulas a crianças que ainda não tocam nenhum instrumento. Trabalho com tudo o que se pode fazer a nível musical, mas sem instrumentos: a voz, a coordenação motora, a motricidade fina, brincar, aprender e estar em grupo”, explica Sofia Borges, enquanto vai colocando as cadeiras em círculo, antes da aula, em Marzahn, um bairro na zona oriental de Berlim.

Os alunos têm idades entre os quatro e os 13 anos e vêm de países tão diferentes como a Síria, Afeganistão, Irão, Iraque, Palestina, Eritreia, Quénia, Somália, Rússia ou Moldávia. São de fora e descobriram que a professora também. “Alguém aqui gosta do Cristiano Ronaldo?”, pergunta Sofia aos alunos. “O Cristiano Ronaldo que me desculpe por eu aproveitar o nome para fazer a ponte com os meus alunos. Todos sabem de onde é que ele é.”

Pim-po-ne-ta pita pita pituxa plim“. A lengalenga faz parte da infância de muitos portugueses, mas não das seis crianças refugiadas em Berlim, que, sentadas numa roda, imitam, sem hesitações, a canção que a portuguesa Sofia Borges lhes tenta ensinar.

A percussionista e compositora portuguesa integra o projecto MitMachMusik (“fazemos música”, em tradução livre) há um ano e actualmente ensina música a crianças refugiadas em três abrigos da capital alemã. “Dou aulas a crianças que ainda não tocam nenhum instrumento. Trabalho com tudo o que se pode fazer a nível musical, mas sem instrumentos: a voz, a coordenação motora, a motricidade fina, brincar, aprender e estar em grupo”, explica Sofia Borges, enquanto vai colocando as cadeiras em círculo, antes da aula, em Marzahn, um bairro na zona oriental de Berlim.

Os alunos têm idades entre os quatro e os 13 anos e vêm de países tão diferentes como a Síria, Afeganistão, Irão, Iraque, Palestina, Eritreia, Quénia, Somália, Rússia ou Moldávia. São de fora e descobriram que a professora também. “Alguém aqui gosta do Cristiano Ronaldo?”, pergunta Sofia aos alunos. “O Cristiano Ronaldo que me desculpe por eu aproveitar o nome para fazer a ponte com os meus alunos. Todos sabem de onde é que ele é.”

A Soul For Europe – 2016 (c) ASfE Yehuda Swed sea.saw.-foto.com

Na sala de aula que a professora portuguesa divide com os alunos e com outro docente “o ambiente é muito descontraído”. Dá aulas no local onde as crianças moram, “por isso praticamente estão em casa, mudam é para outra sala. Mas “muitas crianças”, revela a compositora, “estão traumatizadas”. “Às vezes eles contam de onde vêm e partilham histórias muito trágicas com muita descontracção, como se estivessem a contar que foram ao centro comercial e se perderam do pai e da mãe por 20 minutos. Porque aquilo faz parte da vida deles.”

Crianças “merecem a melhor música do mundo”

Em Julho, 15.199 pessoas pediram asilo na Alemanha, a maioria sírios e iraquianos, menos 10% que no mesmo mês do ano passado, informou o Ministério do Interior alemão. Os números divulgados pelo Gabinete Federal para a Imigração e os Refugiados (BAMF, na sigla em alemão) indicam que entre Janeiro e Julho tramitaram-se um total de 110.324 pedidos, quase menos 16% que no mesmo período de 2017. O número de entradas no país tem vindo a cair desde 2016. “Eu vejo o lado bom: têm casa, vão à escola, têm assistência médica. Vejo esse lado. Não vejo o lado das filas de burocracia ou de outras complicações. Opto por ver o lado melhor” da política de acolhimento de refugiados na Alemanha, sublinha Sofia Borges.

Uma sondagem realizada pelo instituto de opinião pública Infratest-dimap mostrou que dois terços dos alemães consideram o racismo um problema grande ou muito grande na Alemanha. O estudo sobre o clima político no país foi encomendado pela emissora pública ARD e pelo diário Die Welt.  A emigrante portuguesa lamenta que muitos alemães não aceitem os refugiados e votem em partidos de extrema-direita. “Aqui há duas semanas eu estava no eléctrico, precisamente a vir para este abrigo, e ouvi comentários racistas horríveis. O eléctrico vinha muito cheio e um casal ia comentando que a culpa disso era dos refugiados”, descreveu.

Respirar fundo e continuar o trabalho com “energia positiva” é a melhor resposta que Sofia Borges encontrou para estes casos, porque “as crianças merecem a melhor música do mundo”. “Temos crianças que vemos que já tiveram contacto com a música, mas temos outras, nomeadamente do Afeganistão, que vêm de zonas onde a música é proibida porque é considerada profana e não se pode tocar. E temos um professor, que começou como aluno, que tinha que tocar às escondidas”, partilha Sofia Borges.

Figgi, Bahare, Mariana, Samia, Islam e Mohamed vão rindo e fechando as mãos ao som do “pim-po-ne-ta“. Quem perde ou quem ganha o jogo pouco importa. Alguns vivem com a família completa, outros têm a mãe, o pai, ou os irmãos no país de origem. “Há situações muito diferentes”, adianta a professora.

O Governo alemão decidiu, no passado dia 1 de Agosto, voltar a conceder o direito de reagrupamento familiar a alguns refugiados, impondo o limite de 1.000 entradas por mês. Cerca de 34 mil pedidos aguardam resposta. “Tento afastar-me das notícias e concentrar-me nas aulas”, remata esta professora portuguesa. “Pensar que depois de tudo o que muitas destas pessoas passaram, ainda vão ter de ficar longe dos familiares por causa de papéis, de leis, de burocracias, custa-me muito.”

 

 

Cinco dias fora dos bairros para aprender a dar um concerto

Abril 28, 2018 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Os alunos do Acorde Maior ensaiam canto e rimas ao som do piano do professor Duarte Cardoso © João Porfírio/Observador

Texto do https://observador.pt/ de 4 de abril de 2018.

Gonçalo Correia

João Porfírio

Vivem na Buraca, na Cova da Moura, no Zambujal, no Bairro da Serafina. Com o projeto Acorde Maior, passaram as férias da Páscoa a aprender música no Village Underground. Há concerto esta sexta às 17h.

João tem 9 anos e mora na Amadora. O que mais gosta de fazer é jogar futebol. Mayra tem 23, é angolana e vive no bairro de Campolide. Adora música, sobretudo hip hop português. Mingo é o mais velho. Tem 23 anos, é cabo-verdiano, mora na Buraca (Amadora) e diz que há poucas coisas que o deixem tão feliz quanto estar com crianças (fica “um pouco mais animado e mais aliviado com algumas coisas”). Os três fazem parte de um grupo de 26 jovens, a maioria dos quais carenciados, que nos últimos dias passaram umas férias da Páscoa diferentes no VillageUnderground, em Alcântara, Lisboa. E o resultado pode ser visto e ouvido esta sexta feira no VU às 17h.

O que os juntou ali foi o Acorde Maior, um novo projeto de solidariedade social que coloca estes jovens a aprender música, tocando instrumentos musicais e colaborando uns com os outros, com a orientação de três professores e formadores portugueses (Duarte Cardoso, Joana Araújo e Teresa Campos) habituados a desenvolver projetos educativos através da música. “Estão aqui jovens que nunca teriam a oportunidade de conhecer o Village Underground nesta dimensão de estarem aqui livremente, passarem aqui uma semana inteira a aprender com estes professores incríveis”, explica Mariana Duarte Silva, fundadora e gestora do espaço. “Às vezes sou capaz de estar cinco ou seis meses à procura de um patrocinador ou de um apoio para fazer um evento e acabo por receber uma resposta negativa muito em cima. Desta vez foi o contrário.”

Esta é a primeira vez que o espaço de coworking destinado a agentes das indústrias criativas — que está prestes a celebrar o quarto aniversário — acolhe um projeto de ação social para crianças e jovens. “Sempre tivemos a vontade de trabalhar mais com a comunidade aqui de Alcântara e também com outros bairros perto de nós. O Village Underground londrino já fazia isto, também. Conhecemos o José Crespo, que trabalha no Barbican Center em Londres, onde faz projetos destes. Está a tirar uma sabática em Portugal e queria fazer projetos com o Village Underground daqui”, conta Mariana Duarte Silva.

Numa conversa informal entre José e Mariana surgiu a ideia: “Porque não juntar esta minha vontade de fazer projetos com miúdos e com música com a experiência que ele tem? Juntámos as duas coisas e só faltava um apoio financeiro. Felizmente conseguimos e assim nasceu a primeira edição do Acorde Maior. Quando há um projeto com objetivos muito definidos e com participantes já com experiência comprovada, é mais fácil convencer uma marca a apoiar. E depois, como é óbvio, o conteúdo do projeto em si é só por ele nobre”, diz a responsável.

“Queremos abrir-lhes os olhos e os ouvidos”

“Entrevistámos um entrevistador”, ri-se o grupo de Mingo Furtado com entusiasmo. No segundo dia do projeto — terça-feira, 3 de abril –, uma das tarefas que Duarte Cardoso, Joana Araújo e Teresa Campos deram aos jovens que o Acorde Maior levou ao Village Underground foi passearem pelo espaço (situado no antigo museu da Carris) em grupos e recolherem imagens, sons, textos e conversas que encontrem e tenham pelo caminho. Os próprios repórteres presentes não escapam a uma entrevista — daí a primeira frase.

“Nestes primeiros dois dias estamos a testar muita coisa. A algumas eles reagiram melhor, a outras pior”, conta Joana Araújo. O objetivo é que “eles sintam que fizeram parte de uma coisa que é muito maior do que eles” (diz Duarte Cardoso), que “sintam que o que construíram nesta semana veio deles, diz-lhes alguma coisa” (refere Joana ) e que os formadores lhes consigam “estimular a criatividade para serem pessoas atentas e despertas, curiosas, que são capazes de olhar para uma pedra e ver a forma, a cor, a textura, o som. Abrir-lhes os olhos e os ouvidos e misturá-los, porque queremos que eles se conheçam uns aos outros” (diz Teresa Campos).

A abordagem que os três professores — que já se conhecem bem, já trabalharam juntos (os três fizeram aliás um mestrado em projetos educativos em Londres) e até gostavam de trabalhar mais — seguem tem muito a ver com a estimulação da criação individual. “Muito deste processo depende do que os miúdos trazem, daquilo com que eles se identificam, de coisas que nos rodeiam”, refere Teresa Campos. “Tem a ver com a abordagem do [compositor canadiano e especialista em educação musical] MurraySchafer, de trabalharmos a paisagem sonora, de termos uma abordagem pelos sentidos, de trabalharmos a audição. E para nós também é muito importante a psicogeografia, isto é, deixar que o ambiente influencie a arte que nós estamos a criar”, acrescenta Duarte Cardoso. Daí a recolha de matéria-prima (sonora, visual, textual) ao ar livre.

“Encontrei pessoas angolanas, pessoal que dança…”

Outra das tarefas que os 26 jovens tiveram de cumprir foi selecionarem (cada um deles) um excerto de cinco segundos de uma música de que gostassem. Houve quem escolhesse temas de Ana Moura, D.A.M.A. e Anjos e houve quem escolhesse canções de rap (por exemplo, de Rafa G, que faz rap crioulo).

Mayra é uma das várias jovens que gosta de hip hop. Tem 20 anos, veio de Angola para Portugal com três anos e trabalha com música numa associação do seu bairro. Quando o Observador a encontrou, estava a gostar da ideia de poder recolher sons e manipulá-los depois numa máquina chamada loopstation“A Teresa [Teresa Campos, professora] estava a usar isso e dá muito jeito para concertos, perguntei-lhe logo o nome quando ela estava a usá-lo, é mesmo interessante”, diz a fã de Slow J, Valete, NBC, Mundo Segundo e Sam the Kid, também satisfeita por ter encontrado “pessoas angolanas, pessoal que dança…”.

Enquanto João, com nove anos e a camisola do Benfica vestida, vai correndo com uma bola de futebol debaixo do braço, enquanto outros miúdos dançam e sobem e descem o skate park do Village Underground no intervalo das aulas-ensaios, Mingo, o mais velho dos membros do grupo, vai contando a sua história.

“Se eu não estivesse aqui, estaria na Academia do Johnson, onde acompanho miúdos e sou treinador. Estaria lá, a ajudar, porque temos muitos miúdos lá, uns 70”, diz ele. E acrescenta: “Gosto de estar com eles a apoiar e a ensinar um pouco daquilo que eu sei e daquilo que já passei. São lições de vida, que lhes conto para eles mais à frente não passarem ou não cometerem tantos erros como os que eu cometi. Ou, talvez, como eu vi os mais velhos cometerem.”

A academia do Johnson, que trabalha com jovens carenciados em vários bairros de Lisboa (da Cova da Moura e Boavista à Buraca, onde Mingo mora), pode estar a sentir a sua falta mas Mingo está contente com as experiências que tem tido nestas férias. “Está a ser engraçado, estamos a aprender coisas novas”, diz, acrescentando: “Quando vim para aqui, pensei que ia encontrar pessoas mais velhas mas também gosto de estar com crianças. Chego aqui e encontro um monte de crianças, é a minha área, é a área que eu gosto. Estando ao pé deles sinto-me um pouco mais animado também com algumas coisas…”

“Há aqui miúdos que dançam, há rappers, há beatboxers”

“Eles se calhar nunca vinham cá se não fosse esta semana”, desabafa Mariana Duarte Silva, enquanto vê os alunos brincarem nos seus 15 minutos de intervalo. “A única exigência, vá, que nós fizemos foi que viessem jovens da junta de freguesia de Alcântara, que vivessem aqui no nosso bairro. Acabaram por vir também jovens do projeto Aldeias de Crianças SOS.”

Os restantes alunos foram escolhidos a partir dos contactos pessoais de Mariana Duarte Silva com instituições. “Trouxe crianças do bairro do Zambujal e da Cova da Moura, onde há uma instituição chamada Ajuda-me a Ajudar que faz projetos maravilhosos. Também vieram cinco jovens do programa Escolhas, de uma instituição chamada Soma e Segue que fica aqui no bairro da Serafina e que combate o abandono escolar e convidei cinco filhos de funcionários da Carris, porque faz todo o sentido — estou aqui nas instalações da Carris, são miúdos que até já têm alguma experiência musical e fazia todo o sentido estarem neste grupo”.

Teresa Campos, uma das professoras, explica que conhecer os alunos foi um dos passos fundamentais para perceber o que de melhor podiam preparar para a apresentação pública que os alunos vão fazer na sexta-feira, às 17 horas: “Há aqui miúdos que dançam, há rappers, há beatboxers. No fundo queríamos aproveitar o que cada um tivesse — mas claro que precisamos de ter truques na manga para o caso de eles não se sentirem confortáveis a partilhar coisas com os outros”.

Misturar é preciso

Um dos desafios foi misturar jovens vindos de bairros diferentes, pô-los em contacto uns aos outros. “A maior preocupação de início, acho que é a de qualquer formador, é que o jovem se sinta integrado no grupo — não só no grupo com que veio, mas no grupo inteiro. Manter a motivação deles é um desafio, temos de nos adaptar a eles em vez de acontecer o contrário. Quando lhes começamos a dizer que vamos formar grupos e que não vão ficar com o amigo que já conhecem… nem sempre corre como nós planeamos, mas a experiência diz-nos que normalmente vai correr bem, porque eles são obrigados a falar uns com os outros, exploram o espaço e ganham com isso. Estamos sempre a tentar criar estratégias que os obriguem a misturar-se, hoje foi o segundo almoço e já vimos algumas dinâmicas novas.”

As características do espaço também moldam a forma dos professores trabalharem — e dos alunos aprenderem. O grande espaço ao ar livre existente entre o Village Underground e os portões de entrada do Museu da Carris (do qual os alunos estavam proibidos de transpor) potenciou as dinâmicas, por ser “suficientemente seguro e suficientemente ao ar livre”. Acrescenta Joana Araújo: “Quando chegámos cá foi evidente que tínhamos de fazer este tipo de trabalho [no exterior]. E quando vimos que o que eles traziam era eles mesmos — só três é que tocam instrumentos, alguns têm aulas de dança mas não têm experiência musical — mais natural nos pareceu que eles recorressem ao que tinham: os olhos, os ouvidos… estamos numa parte engraçada do processo em que eles ainda não percebem bem no que vai resultar esta recolha, estes primeiros dias”.

A seguir aos primeiros dias (onde os jovens foram ainda instados a criar uma letra e a cantar e rimar), conta Teresa Campos, virá “uma fase mais de montagem”, em que formandos e formadores vão percebendo juntos “se há materiais que nós criámos separadamente que se podem juntar, em que vamos decidir um bocado a forma [da apresentação]. Mas em cinco dias… só no último, mesmo no fim, é que há realmente uma imagem definitiva do que vai sair [na apresentação]. E quando eles apresentam estão com aquele nervoso miudinho.” Há também uma conversa com Pedro Coquenão (do projeto Batida), artista residente do Village Underground que vai trocar impressões e experiências com os alunos — e contar como é ser um músico adulto. Os mais novos, esses querem quase todos ser coisas diferentes. José, Joana, Duarte, Teresa e Mariana, só querem que esta semana não lhes saia da memória.

 

 

 

Museu de Bragança leva música clássica às crianças das aldeias

Maio 4, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 24 de abril de 2016.

Manuel Teles

O Museu Abade de Baçal de Bragança decidiu levar às escolas das aldeias concertos de música clássica em que as crianças, mais do que espetadores, são envolvidas na exibição com a oportunidade de tocarem instrumentos.

O Museu Abade de Baçal de Bragança decidiu levar às escolas das aldeias concertos de música clássica em que as crianças, mais do que espetadores, são envolvidas na exibição com a oportunidade de tocarem instrumentos.

Há já dois anos que o Museu leva música às escolas, numa iniciativa integrada num programa da Direção Geral de Educação, que começou na cidade de Bragança e já deu concertos a cerca de 400 crianças.

“Este ano resolvemos que tínhamos de sair cidade para virmos para as aldeias, porque nós somos rodeados do meio rural e não nos podemos esquecer destas escolas que têm seis ou sete alunos, mas que estão cá e que precisam mais do que todos”, observou à Lusa, Ana Luísa Pereira, dinamizadora dos Serviços Educativos do Museu.

A escola do primeiro ciclo de Quintanilha foi o destino de mais um concerto acompanhado pela Lusa e em que o violino foi o centro da atenção das seis crianças que, pela primeira vez tiveram música nas aulas.

Cinco meninas, Vitória, Mariana, Ana Rita, Raquel e Liliana, e um menino, Tomás, o mais novo, escutaram música do compositor clássico italiano Arcangelo Corelli, mas ficaram também a saber que o violino é muito parecido com a viola e que se pode tocar todo o tipo de música neste instrumento.

O professor do parceiro desta iniciativa, o Conservatório de Música e Dança de Bragança, Luís Peres, tocou e foi acompanhado pelas cantorias das canções infantis que todos conhecem, explicou como funciona o violino e desafiou todos a experimentarem dar som às cordas.

Para este professor de música, “os miúdos são um público interessado, muitas vezes mais do que os adultos”.

“Acho que aproveitam muito melhor aquilo que nós tentamos dar, do que muitas vezes os adultos que estão mais distraídos com as suas próprias coisas. É muito fácil chegar aos pequeninos, tenho sempre a ideia de que eles estão sempre dispostos a aprender connosco e a ouvir com atenção”, considerou.

A música clássica “aguça um bocadinho a curiosidade deles” porque “como ouvem tão raramente, quando ouvem tornam o momento mais especial”.

A experiência foi uma surpresa “divertida” “agradável” e a primeira vez que estas crianças ouviram música clássica tocada ao vivo.

Nesta escola não há aulas de música, como explicou o professor Rogério Fernandes para quem esta iniciativa “é muito interessante”.

“As crianças devem contactar com aquilo que existe. Se não se conhecesse também não se deseja”, apontou.

O docente vincou que “a música é muita importante em termos de disciplina porque exige concentração, método e rigor e é isso que falta hoje muitos nas crianças”.

“Que se repita mais vezes” são os votos deste docente.

Para já está previsto, até ao final do ano letivo, levar a música a outras escolas das aldeias e as que não for possível, ficarão para o ano, como garantiu Ana Luísa Pereira.

Para maio, está agendado um concerto no Conservatório de Música e Dança de Bragança dirigido aos pais, mas para o qual todos ficaram convidados e até com a possibilidade de transporte.

A técnica do museu sabe que “muitas vezes devido às contingências de transportes, de pais que não têm possibilidades de levaram os miúdos à cidade verem determinados espetáculos”, as crianças das aldeias não têm acesso tão fácil às artes.

O que tem constatado é que “nas aldeias, têm havido uma atenção desmedida por parte dos miúdos e um querer absorver tudo aquilo que lhes está a ser dado”, nestes concertos.

 

 

Crianças e jovens acompanhados pela equipa do Projecto Rua do IAC irão assistir ao concerto da Orquestra Sinfónica “Ensemble” no CCB

Abril 21, 2016 às 1:30 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Crianças e jovens acompanhados pela equipa do Projecto Rua do IAC irão assistir ao concerto da Orquestra Sinfónica “Ensemble”

A convite do Departamento de Ensino Artístico Especializado da Agência Nacional para a Qualificação e Ensino Profissional, crianças e jovens acompanhados pela equipa do Projecto Rua do Instituto de Apoio à Criança irão assistir ao concerto da Orquestra Sinfónica “Ensemble” a decorrer no dia 22 de abril no Centro Cultural de Belém.

Esta iniciativa enquadra-se na 3ª edição do evento Projectar o Futuro com Arte nos Dias da Música a decorrer de 22 a 24 de abril no CCB e  pretende divulgar o que de melhor se faz nas escolas do ensino artístico de música de todo o país.

Orquestra Sinfónica Ensemble

mais informações:

https://www.ccb.pt/Default/pt/DiasDaMusica/Sexta-feira/Evento?a=629

 

Música que causa avalanches e faz revoluções – Orquestra Geração

Maio 29, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do Expresso de 18 de maio de 2015.

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Nos últimos oito anos a Orquestra Geração conquistou mais de 900 alunos de escolas problemáticas Expresso

Ana Soromenho

A Orquestra Geração anda a tocar desde 2007 para combater o abandono escolar e já conquistou 900 alunos das escolas mais problemáticas da área metropolitana de Lisboa. Esta terça-feira, pela primeira vez, juntam-se no palco do Teatro São Luiz, num concerto único com músicos consagrados como Mário Laginha, Adriano Jordão, Camané, Rodrigo Leão, Carlos Martins ou Celina Pereira.

Qualquer criança pode tocar um instrumento” ou “a música salva”. Concentremo-nos nestas duas máximas. Quando aplicadas à realidade podem-se tornar poderosas. É o caso da Orquestra Geração/Sistema Portugal, criada em 2007 por António Wagner Diniz, diretor adjunto da Escola de Música do Conservatório Nacional, e Jorge Miranda, na época diretor de Educação Cultural na Câmara Municipal da Amadora. A ideia era construir uma rede de orquestras juvenis composta por alunos de escolas problemáticas na área metropolitana de Lisboa para que no final todos pudessem tocar juntos. Partiu de um objetivo simples: “Promover o sucesso escolar em zonas problemáticas através do ensino da música.” Nesse sentido a Orquestra Geração  não é um projeto musical. É  um projeto social. “O propósito não é criar músicos, se acontecer melhor. O propósito é combater o abandono escolar, através da prática da orquestra”, sublinha Wagner Diniz.

Promover a concentração e a aquisição do trabalho em grupo através da aprendizagem de um instrumento e transformar a escola num lugar que se quer frequentar pode parecer uma tarefa difícil. Mas o crescimento da Orquestra neste últimos oito anos, prova o contrário e diz-nos que é possível acreditar no sucesso do ensino por via da arte.

Há oito anos, quando o projetou arrancou, participavam 15 crianças. Neste momento, integra mais de 900 alunos e abranje 18 escolas da zona metropolitana de Lisboa, mais quatro em Coimbra e outra em Gondomar. A ideia é conseguir contaminar o país e incluir todas as escolas assinaladas como problemáticas e de maior abandono escolar.

São as autarquias ou as juntas de freguesia que se inscrevem para que cada escola forme a sua própria orquestra e para que depois todos se encontrem na Orquestra Geração. Este modelo foi inspirado no El Sistema venezuelano, criado em 1975 pelo maestro economista José António Abreu, com o intuito de tirar crianças da pobreza com a ajuda de Mozart ou Vivaldi. O sucesso de El Sistema foi de tal ordem que neste momento conta com mais de 250 mil alunos e já pôs alguns dos alunos das escolas mais carenciadas da Venezuela a integrar grandes orquestras mundiais. Na prática, o sistema do ensino da música deste projeto baseia-se num método de aprendizagem muito simples de um instrumento, vendo o que o professor faz, copiando-lhe os gestos e confiando no ouvido sem ter de recorrer ao solfejo ou ao ensino da música tradicional, que rapidamente faria os alunos desistir.

Entre os países europeus, Portugal foi pioneiro a seguir o modelo do El Sistema, que entretanto tem-se vindo a espalhar e já conquistou 42 países da Europa: “Fazemos parte de uma rede de orquestras europeias de professores e alunos e muitas vezes somos consultados pelo sucesso que temos”, diz-nos Wagner Diniz.

A Orquestra Geração conta com as câmaras municipais e vive fundamentalmente de mecenas: “Neste momento, o orçamento que temos não chega para renovar os instrumentos, pagar a logística envolvida nos concertos ou o ordenado dos maestros”, enumera o mentor do projeto.

Pela primeira vez organizaram um concerto no qual se juntam ao empenho dos quase mil alunos do 1º e do 2º ciclo que formam a Geração, as sonoridades de consagrados como Mário Laginha, Rodrigo Leão, Camané, Celina Pereira ou Adriano Jordão que aderiram ao projeto, em nome da música que causa avalanches e faz revoluções.

vídeo da reportagem aqui

 

 

 


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