Elevado consumo de medicamentos nas crianças pode ter consequências graves

Fevereiro 27, 2012 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Notícia do Sol de 20 de Fevereiro de 2012.

Um estudo inédito em Portugal identificou um «elevado» consumo de medicamentos nas crianças e casos em que os cuidadores administraram fármacos que foram vendidos sem a obrigatória receita médica e cujos efeitos secundários poderiam ter consequências mais graves.

Da responsabilidade de profissionais dos hospitais Dona Estefânia, em Lisboa, e Fernando Fonseca, no concelho da Amadora, o estudo sobre o «Uso (ou abuso) de fármacos na idade pediátrica» foi publicado na Ata Médica Pediátrica.

A pediatra Maria João Brito, uma das responsáveis da investigação, reconheceu à agência Lusa que esperava que a utilização de fármacos «fosse mais criteriosa» nas crianças, «dadas as suas particularidades orgânicas».

De acordo com o estudo, que incluiu 189 crianças com idade média de 5,8 anos, a maioria dos inquiridos (63,5 por cento) tinha tomado pelo menos um fármaco nos três meses anteriores.

Os medicamentos mais usados foram os analgésicos/antipiréticos e anti-inflamatórios não esferóides (41,1 por cento), com utilização quase exclusiva do paracetamol e ibuprofeno.

«Apesar da utilização elevada destes fármacos ser expectável devido à frequência da patologia viral nesta faixa etária, os resultados alertam para a necessidade de uma maior monitorização», defende Maria João Brito.

A especialista adverte que, «pelo facto de serem medicamentos de uso comum e não estarem sujeitos a receita médica, o seu consumo pode ser banalizado, condicionando riscos acrescidos».

Foram igualmente identificados antibióticos sistémicos (25,8 por cento), anti-histamínicos (6,9 por cento), broncodilatadores (3,5 por cento) e antitússicos/expetorantes (6,9 por cento).

Maria João Brito sublinha que «em nenhuma idade se deve medicar desnecessariamente, mas em grupos etários mais jovens os efeitos secundários podem manifestar-se mais frequentemente».

«A utilização de fármacos não adequados em grupos etários específicos deveria ser vigiada e regulamentada por entidades superiores», defende a pediatra, para quem «o conhecimento do padrão de consumo de medicamentos é fundamental para melhorar a qualidade da prescrição».

Sobre o consumo de antibióticos, Maria João Brito lembra que existem estudos que apontam para «uma utilização excessiva de antibióticos nas infecções respiratórias potencialmente autolimitadas em possível relação com um diagnóstico incorrecto, receio do médico de não medicar uma infecção bacteriana grave e dificuldade no seguimento».

Maria João Brito reconhece que «os médicos são muitas vezes pressionados para prescreverem antibióticos em doenças que estes fármacos não têm qualquer interferência, como nas doenças virais, muito frequentes na idade pediátrica», embora se tenha vindo a assistir a «uma menor cedência por parte do médico e a um maior reforço junto dos pais sobre as indicações dos antibióticos».

A investigação apurou automedicações (pais, próprio e ama) em 19,1 por cento dos casos e quatro medicamentos (2,3 por cento) recomendados na farmácia.

Estas automedicações ocorreram quase exclusivamente com antipiréticos e analgésicos não sujeitos a receita médica, mas em nove casos foram usados fármacos sujeitos a receita médica: anti-histamínicos, enzimas anti-inflamatórias, analgésico (clonidina) e ansiolítico (valeriana).

Maria João Brito realça nas automedicações casos em que foram usados fármacos sujeitos a receita médica, mas que «os pais tiveram acesso a medicação sem prescrição e os efeitos secundários poderiam ter consequências mais graves».

Ainda assim, foram relatados possíveis efeitos secundários em seis crianças, maioritariamente gastrointestinais e em associação com consumo de antibióticos, que conduziram à suspensão da terapêutica por parte dos pais, lê-se no estudo.

A médica chama a atenção para os riscos do uso indevido de fármacos: podem ocorrer efeitos secundários ligeiros a graves, além de que o quadro clínico pode ser mascarado com o uso indevido de fármacos que podem dificultar e atrasar o diagnóstico.

Lusa/SOL

 

Doutor, não será melhor fazer umas análises?

Fevereiro 23, 2011 às 6:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Artigo do Portal Educare de 26 de Janeiro de 2011.

Serviço de Pediatria do Hospital de Braga

A requisição de análises em idade pediátrica por parte dos pais é elevada e resulta da generalização dos cuidados de saúde prestados aos adultos. Neste contexto, é necessário recordarmo-nos que as crianças não são adultos em miniatura e que portanto, precisam de cuidados específicos e abordagens diferentes dos adultos.

A prática médica geral das últimas décadas deixou no ar a ideia de que a boa medicina não é possível sem análises e exames. Assim, se os pais se desdobram em análises, exames, rastreios e são todos os dias confrontados com diabetes, colesterol, “tensão alta” e factores de risco vascular, porque não acreditar que o mesmo é válido para as crianças? E porque não protegê-las destas doenças com umas análises ou outros exames?

A requisição de análises em idade pediátrica por parte dos pais é elevada e resulta da generalização dos cuidados de saúde prestados aos adultos. Neste contexto, é necessário recordarmo-nos que as crianças não são adultos em miniatura e que portanto, precisam de cuidados específicos e abordagens diferentes dos adultos.

Na hora de pedir Meios Complementares de Diagnóstico (MCD), como é o caso de análises de sangue, é necessário ter em conta isso mesmo: um possível diagnóstico, a necessidade de confirmação de uma doença. Assim, se a criança não apresentar sinais de doença, se não se procura um diagnóstico, as análises não possuem importância. Antes pelo contrário convertem-se num evento de stress e desagradável para a criança, agravando o medo das agulhas e das visitas ao médico. Mais ainda, um valor alterado numa análise de uma criança saudável não é por si só indicador de doença, podendo transformar-se num factor de ansiedade para os pais.

Desta forma, quando o médico não pede MCD a uma criança saudável, sem história de doença pessoal ou na família, este facto não resulta de um descuido ou desinteresse mas sim da preocupação do médico em prestar os melhores cuidados de saúde possíveis, evitando procedimentos desnecessários e desagradáveis.

Qual então a melhor forma de proteger a saúde do seu filho? A prevenção. A doença cardiovascular, maior causa de morte na idade adulta, apresenta uma forte relação com os nossos hábitos de vida que se criam desde pequenos. Assim, certo de que prevenir será sempre melhor que remediar e da mesma forma que lhe ensina o “se faz favor” e o “obrigado”, ensine-o a gostar de alimentos saudáveis, ensine-o a comer nas quantidades apropriadas à sua idade e necessidades de crescimento, ensine-o a beber água em vez de sumo, incentive-o a praticar exercício físico, converse sobre os efeitos nocivos de tabaco, álcool e drogas e esteja atento a alterações que possam ocorrer.

Ensine, insista e esteja atento, mantendo a longo prazo a saúde daquele que será sempre “o seu menino”.

Marina Gonçalves, com a colaboração de Manuela Costa Alves, Pediatra do Serviço de Pediatria do Hospital de São Marcos, Braga


Entries e comentários feeds.