Banco de Portugal diz que chumbar nos primeiros anos de escola tem efeitos negativos

Junho 25, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 21 de junho de 2014.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte.

Retenção escolar no ensino básico em Portugal: determinantes e impacto no desempenho dos estudantes  pág. 63-87

Enric Vives Rubio

Lusa e PÚBLICO

Ser filho de pais com níveis de educação mais elevados faz reduzir mais de dois pontos percentuais as hipóteses de chumbar de ano.

Os dados do Programa para a Avaliação Internacional de Estudantes (PISA), um grande estudo que analisa as competências dos alunos de 15 anos nos países da OCDE, e que é feito de três em três anos, já tinham mostrado como Portugal estava entre os países com maiores taxas de chumbo. Um grupo de investigadores do Banco de Portugal (BdP) aprofundou agora os resultados dessa análise. E conclui que chumbar nos primeiros anos não faz bem.

“Os efeitos de longo prazo da repetência no ISCED 1 [equivalente ao 1.º e 2.º ciclo do ensino básico] no desempenho dos estudantes em Portugal são negativos”, dizem.

Mais: isto sugere “que haverá vantagem em substituir, pelo menos parcialmente”, a prática da retenção “por métodos alternativos de apoio aos alunos que revelem dificuldades na aprendizagem nas etapas iniciais da vida escolar”, lê-se no artigo Retenção escolar no ensino básico em Portugal: determinantes e impacto no desempenho dos estudantes, publicado no último Boletim Económico.

Em Portugal, cerca de 30% dos alunos repetem pelo menos uma vez no 1.º ou 2.º ciclos. A média de 25 países da Europa é 18%. Só Espanha, Luxemburgo e França têm taxas de chumbo mais altas.

Prós e contras

Os investigadores do Departamento de Estudos Económicos, do BdP, Manuel Coutinho Pereira e Hugo Reis, começam por recordar argumentos pró e contra os chumbos. Como estes: “A repetência é defendida por aqueles que advogam que esta torna o sistema de ensino mais eficiente ao criar grupos de colegas mais homogéneos, e garante uma maior responsabilização das escolas. No entanto, a existência de alunos que repetem o ano implica custos, incluindo a despesa de fornecer um ano adicional de educação, bem como o custo para a sociedade em atrasar a entrada do aluno no mercado de trabalho. Além disso, os opositores da repetência enfatizam os efeitos psicológicos desta política. Em particular, destacam a redução da auto-estima, a deterioração da relação com os colegas, o afastamento da escola e, consequentemente, a maior probabilidade de um abandono escolar.”

Recordam ainda os autores que “alguns países europeus, como é o caso da Noruega e Islândia, optaram por instituir uma progressão automática ao longo de toda a escolaridade obrigatória, e proporcionam outras medidas de apoio educativo aos alunos em dificuldades”. E por cá?

Na análise que fazem dos dados, concluem o seguinte: “Estima-se que retenção escolar durante o ISCED 1 produza efeitos negativos sobre o desempenho dos estudantes no longo prazo (…). Numa perspectiva de política educativa, parece existir assim margem de intervenção no sentido de substituir, pelo menos parcialmente, esta prática por outros procedimentos de apoio aos alunos, os quais poderão ainda revelar-se menos dispendiosos do ponto de vista da utilização de recursos.”

Já os efeitos de curto prazo da repetência no 3.º ciclo para Portugal “são positivos, embora de pequena dimensão”. “Assim, apesar da incerteza quanto aos efeitos de longo prazo, os nossos resultados não põem em causa a prática da repetência em níveis mais avançados do percurso escolar.”

O peso da família

Usando os dados do PISA, cujos últimos resultados foram divulgados em Dezembro, os autores concluem ainda que as características individuais e familiares têm mais influência no sucesso escolar dos alunos portugueses do que nos estudantes dos outros países europeus.

Os alunos mais novos da turma e os que têm menos livros em casa estão entre os que têm mais probabilidades de chumbar. Pertencer a uma família monoparental e ser rapaz também fazem aumentar as probabilidades de ficar retido no ensino básico.

“Em Portugal, os alunos com menos maturidade e com piores condições socioeconómicas têm uma maior probabilidade de repetir. Para além dos aspectos socioeconómicos, as características da escola e as diferenças ao nível regional e do país (por exemplo, factores de carácter institucional) também ajudam a explicar o fenómeno”, descrevem.

Assim, no que toca à idade com que entram para o 1.º ano, o estudo sublinha que em Portugal a probabilidade de um aluno repetir o ano no 1.º ou no 2.º ciclo “diminui em cerca de 3,5 pontos percentuais com um aumento de um desvio-padrão na maturidade. A mesma probabilidade diminui numa magnitude semelhante, se o aluno for do sexo feminino”.

Também a influência da família é mais forte em Portugal: ser filho de pais com níveis de educação mais elevados faz reduzir mais de 2 p.p. as hipóteses de chumbar de ano, enquanto os alunos de famílias monoparentais correm mais riscos de reprovar (mais 3.3 p.p.).

A probabilidade de um aluno ficar retido antes de chegar ao 7.º ano “diminui cerca de 4,5 pontos percentuais para os alunos que têm mais livros em casa”, enquanto o valor médio europeu é de 1,1 p.p.

 

Estudo. Recursos das escolas influenciam sucesso dos alunos

Fevereiro 9, 2013 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do i de 16 de Janeiro de 2013.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

DIFERENÇAS REGIONAIS NO DESEMPENHO DOS ALUNOS PORTUGUESES: EVIDÊNCIA DO PROGRAMA PISA DA OCDE

Por Kátia Catulo

Investigadores defendem que as medidas de combate à pobreza são mais eficazes que as políticas educativas para combater as desigualdades

Porque é que nas regiões de Lisboa, Porto ou litoral estão os melhores alunos? E porque é que nas regiões autónomas, no Alentejo ou no Interior Norte estão os estudantes com as piores classificações? Um estudo publicado ontem sugere que os recursos disponíveis nas escolas fazem parte da resposta e pesam tanto como o contexto familiar ou as características próprias dos alunos.

A investigação “Diferenças Regionais no Desempenho dos Alunos Portugueses”, publicada com o boletim económico de Inverno do Banco de Portugal, usa os dados da OCDE de 2009 para tentar perceber que impacto têm as desigualdades regionais no desempenho escolar dos alunos. À partida, é de esperar que as regiões com melhor nível de vida e com maiores índices de habilitações das famílias, como é o caso de Lisboa ou Porto, sejam também aquelas onde se concentram os melhores estudantes. Mas o que este estudo sugere ainda é que a influência da escola é tão decisiva como os pais ou as características dos alunos.

Procurando perceber em que medida as características das escolas explicam as diferenças regionais – Lisboa foi usada como região de referência –, os investigadores concluíram que ter mais ou menos recursos nas escola pode contribuir significativamente para o rendimento académico. Essa relação é particularmente forte no Norte Interior, no Baixo Alentejo e no Centro Interior, onde os “baixos recursos educativos” contribuem para os piores resultados escolares. Tanto a Matemática como a Leitura – duas competências avaliadas no estudo da OCDE – foi possível concluir que um aluno com o mesmo contexto familiar e a frequentar uma escola com características similares teria um desempenho pior nas regiões autónomas e no Norte Litoral que nas restantes regiões portuguesas.

Outra conclusão do estudo é que a maior ou menor rede de escolas numa determinada região parece influenciar também o rendimento. No Porto e no Centro Litoral, aliás, a oferta de escolas parece aumentar a desigualdade no desempenho académico entre os alunos.

Os autores concluem que proporcionar às famílias maior oferta de escolas poderá ter ainda assim efeitos contraditórios. Por um lado, pode aumentar a segregação entre bons e maus alunos, conduzindo a uma maior concentração dos melhores estudantes em certas escolas; por outro, uma maior escolha pode também criar incentivos para subir a produtividade das escolas e ao mesmo tempo alargar o conjunto de escolhas para os estudantes mais desfavorecidos.

As escolas, contudo, não explicam por si só as desigualdades observadas. Os autores, aliás, defendem que a melhor forma de combater as diferenças no desempenho dos alunos passa sobretudo por promover políticas de combate à pobreza. “Para alterar os padrões globais de desigualdade, as políticas que incidam sobre a pobreza e as questões sociais tenderão a ter mais sucesso que as políticas focadas exclusivamente em questões educativas”, remata o documento.


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