A vida interrompida de Ana e os mais jovens assassinos de um país em choque

Julho 9, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Público de 24 de junho de 2019.

Uma menina de 14 anos foi assassinada na Irlanda por dois rapazes de 13 anos. O julgamento, cujo veredicto foi conhecido na semana passada, foi acompanhado por um debate nacional sobre o bullying e o papel das redes sociais.

Ana era diferente. Nascida na Sibéria, foi adoptada aos dois anos por Geraldine e Patric Kriégel e levada para a Irlanda. Dava nas vistas: era uma menina alta e sorridente que adorava cantar e dançar. Mas que também tinha problemas de memória, visão e audição — sequelas de uma operação de remoção de um tumor. Era também muito ingénua e inocente, e já a professora da primária tinha alertado os pais para o risco de vir a ser vítima de bullying.

O receio viria a confirmar-se. Ana era ridicularizada e assediada diariamente. Era questionada por ter “pais falsos” e deixada à parte por todos os grupos. Através das redes sociais, os abusos repetiam-se também fora do espaço escolar.

Aos 14 anos, Ana sentia-se profundamente sozinha. Foi por isso que aceitou com entusiasmo o convite de um rapaz de 13 anos que, em Maio de 2018, apareceu à porta para levá-la a conhecer outro menino de que Ana gostava. Ele também gostaria de Ana e estaria à sua espera numa casa abonada em Lucan, um subúrbio de Dublin.

Era uma armadilha. No esconderijo, o rapaz que a tinha ido buscar a casa e o outro que a esperava, também com 13 anos, abusaram sexualmente de Ana e agrediram-na violentamente com um pau e um bloco de cimento. Acabaria por morrer ali. No seu corpo, mais tarde encontrado pela polícia, ficaram marcas de cerca de 60 ferimentos.

As autoridades não tardaram a chegar aos dois rapazes. Por se tratarem de menores, as suas identidades não foram reveladas, apesar de os seus nomes circularem nas redes sociais e de as respectivas famílias estarem a receber insultos e ameaças de morte através da Internet. Mas oficialmente são o Rapaz A (o que estava à espera na casa abandonada) e o Rapaz B (o que foi buscar Ana).

Durante a investigação, a polícia irlandesa descobriu no computador do Rapaz A mais de 12 mil imagens pornográficas, muitas delas envolvendo violência sexual, para além de registos de pesquisas online sobre tortura. O Rapaz B alegou ter apenas assistido às acções do amigo. Na semana passada, um tribunal declarou ambos culpados de homicídio.

O caso não tem precedentes na Irlanda, onde não havia registos de homicidas tão jovens nem de um crime contra outra criança com semelhantes contornos de violência. Disso é reflexo a moldura penal a seguir. Naquele país, os menores raramente enfrentam uma pena superior a três anos de reclusão, apesar de os juízes poderem impor sentenças mais longas. No caso de A e B, ainda não se conhece a sentença.

Fora do tribunal, a sociedade irlandesa discute o que fazer perante o caso. O organismo de protecção de menores, cita o jornal inglês The Guardian, deu aos pais irlandeses uma série de recomendações sobre como falar com os filhos acerca das notícias do julgamento. Ao mesmo tempo, o Governo aumentou a pressão sobre empresas como o Facebook e o Twitter, exigindo maior controlo sobre a circulação de conteúdos — incluindo as imagens que identificam os dois arguidos — e o primeiro-ministro Leo Varadkar admite ‘importar’ uma lei britânica de restrição do acesso à pornografia de modo a combater a violência sexual.

Crianças também vítimas se pais morrem ou matam

Março 23, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 9 de março de 2019.

O que transforma um jovem num assassino?

Junho 9, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Livros | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 29 de maio de 2017.

Reuters/© Nacho Doce / Reuters

Investigação de sociólogo brasileiro afasta problemas familiares, consumo de drogas e pobreza como causas principais para a adesão de jovens a grupos criminosos violentos.

Nem famílias desestruturadas, nem a pobreza, nem o consumo de drogas. O factor mais vezes identificado no percurso de vida de um jovem autor de crimes extremamente violentos, e que mais frequentemente o distingue de outros adolescentes de origens humildes, é o abandono escolar.

Esta principal conclusão de um estudo inédito de quatro anos do sociólogo brasileiro Marcos Rolim, que abrangeu 111 jovens rapazes com idades entre os 12 e os 19 anos, e que visou identificar o que leva algumas pessoas a cometerem crimes de extraordinária violência, ferindo ou matando alguém mesmo sem provocação ou reacção da vítima.

De acordo com a BBC Brasil, que cita a investigação A formação dos jovens violentos – Estudo sobre a etiologia da violência extrema, os 111 jovens cujos percursos foram analisados correspondiam a cinco grupos de indivíduos. O primeiro era constituído por rapazes que cumpriram pena por crimes violentos num estabelecimento prisional juvenil, a Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul (FASE). Após entrevistar estes jovens, Rolim pediu a cada um que indicasse um amigo de infância sem ligação ao mundo do crime, formando um segundo grupo de análise.

O terceiro grupo era composto por jovens a cumprir pena por homicídio na Prisão Central de Porto Alegre, e um quarto era formado por reclusos do mesmo estabelecimento, mas condenados pelo crime de receptação.

O último grupo de análise era constituído por jovens sem cadastro que estudavam numa escola da periferia pobre de Porto Alegre.

Em entrevista ao jornal online brasileiro Sul21, Rolim afirma que em todos os grupos existia um denominador comum: “pobreza, a perda de familiares e famílias desestruturadas”. Ou seja, nenhum destes factores parecia pesar na evolução de um percurso pessoal para uma vida de crime especialmente violento.

No entanto, Rolim identificou um padrão: os jovens autores de crimes violentos tendiam a abandonar a escola mais frequentemente os adolescentes de outros grupos analisados. Aliado a este factor, foi identificada ainda a aproximação destes jovens que abandonavam a escola a grupos violentos onde eram incitados a cometer crimes graves e ensinados a utilizar armas. Ou seja, a experiência de socialização da escola era substituída pela frequência de uma verdadeira escola de crime violento.

O abandono escolar ocorre por norma entre os 11 e os 12 anos de idade. Os jovens analisados referem como motivos o facto de sentirem “burros” ou de considerarem as aulas algo “chato”.

Em sentido inverso, os elementos do segundo grupo, os amigos dos reclusos do centro juvenil, tinham percursos escolares normais e não enveredavam por uma vida de crime violento, apesar de partilharem as mesmas origens económicas e familiares dos amigos detidos.

Escolas divorciadas das comunidades

Rolim conclui que se “os jovens de classes populares apostarem na sua formação por mais tempo, isso irá reduzir a mão-de-obra para o crime”.

No entanto, o sociólogo ressalva que há jovens que querem sair do mundo do crime, mas que “têm medo” medo de represálias por parte dos bandos que integram – em muitos casos, o castigo é a morte.

Apesar de Rolim não ter focado a sua pesquisa no abandono escolar, o sociólogo afirma que a incapacidade de os professores lidarem com jovens de certos perfis pode ser um dos principais factores da desistência dos alunos: “Um jovem que nunca abriu um livro, que tem pais analfabetos, vai ter uma preparação diferente que os restantes jovens, e grande parte dos professores não está preparado para lidar com estas situações”.

À BBC Brasil, o investigador afirma que outra causa potencial do fenómeno é a falta de ligação entre as escolas e as comunidades mais pobres e violentas. A educação oferecida nesses estabelecimentos, “a mesma de há 50 anos”, é para o sociólogo um factor determinante para o abandono escolar.

De acordo com o relatório regional de Desenvolvimento Humano de 2013-2014, elaborado no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), 63,5% da população prisional brasileira terá tido acesso a armas antes de atingir os 18 anos. O mesmo relatório mostra que a maior taxa de abandono se regista no período entre o 5.º e o 9.º ano de escolaridade.

 

 

Vídeo da Participação de Manuel Coutinho do IAC no programa “360” da RTP 3 sobre o homicídio do jovem em Portimão

Março 4, 2016 às 2:09 pm | Publicado em O IAC na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Participação do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do  Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança) no programa “360” da RTP 3  de 3 de março de 2016.

Visualizar o vídeo no link a partir do minuto 07,55 m:

http://www.rtp.pt/play/p2044/e226789/360/485744

coutinho

 

Vídeo da participação de Melanie Tavares do IAC no Jornal das 8 da TVI sobre o homicídio do jovem em Portimão

Março 3, 2016 às 7:11 pm | Publicado em O IAC na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Vídeo da participação da Dra. Melanie Tavares, Coordenadora dos Sectores da Actividade Lúdica e da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança do Instituto de Apoio à Criança ao Jornal das 8 da TVI de 2 de março de 2016.

visualizar o vídeo a partir do minuto 1,08,05 m

http://tviplayer.iol.pt/programa/jornal-das-8/53c6b3903004dc006243d0cf/video/56d75bc80cf20176bcfe401b

melanie

Vídeo da participação de Dulce Rocha do IAC no programa “Política Mesmo” TVI 24 sobre o homicídio do jovem em Portimão

Março 3, 2016 às 4:02 pm | Publicado em O IAC na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Vídeo da participação da Drª Dulce Rocha, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança no programa “Política Mesmo” TVI 24 de 2 de março de 2016.

Visualizar o vídeo no link em baixo a partir do minuto 24,15 m

http://tviplayer.iol.pt/programa/politica-mesmo/53c6b3923004dc006243d13d/episodio/t3e11

dulce

Delinquência: Cada vez mais pais pedem ajuda por causa dos filhos

Maio 31, 2015 às 3:34 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Noticia do Sol de 24 de maio de 2015.

Sol

Rita Carvalho,

Comissões de menores recebem apelos de pais que não conseguem controlar filhos que começam cedo a dar problemas.

As comissões de protecção de menores têm cada vez mais casos de adolescentes com comportamentos delinquentes e cujos pais pedem ajuda porque não os conseguem controlar. Nos últimos anos, subiu o número de sinalizações deste tipo: comportamentos anti-sociais, consumo de drogas e álcool e bullying são os principais problemas detectados e que representavam já 12,4% do total dos casos seguidos pelas comissões em 2013. Percentagem que em 2007 era apenas de 1,2%.

«Eles próprios se põem em perigo e a família não se consegue opor. Alguns temos noção de que são bombas-relógio: são miúdos ‘borderline’, marcados por percursos de vida complicados e que são difíceis de travar. Sabemos que alguns podem passar ao acto, mas como os convencemos de que este não é o caminho?» – questiona Eva Teles, presidente da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Benavente. A responsável pela comissão onde Daniel foi sinalizado pela primeira vez não comenta o caso, mas diz que há muitos jovens que fazem o mesmo percurso: passam por comissões de menores e instituições, mas acabam por seguir o caminho da delinquência, correndo o risco de passarem a actos mais graves e entrarem no sistema penal.

Eva Teles recorda o caso de um jovem de 18 anos que esteve institucionalizado e, quando voltou a casa, verbalizou que ia matar outro jovem por causa da namorada. «Percebi que ele podia mesmo matar. Por acaso nunca matou. Mas são jovens marcados por vidas complicadas e muito difíceis de trabalhar.Noutros, o sistema investe e eles agarram a oportunidade».

Josefina Castro, subdirectora da Escola de Criminologia da Universidade do Porto, diz que «uma parte significativa dos meninos que chegam ao sistema tutelar educativo (onde são punidos pela prática de ilícitos) têm um historial marcado por entradas e saídas do sistema de promoção e protecção» (onde actuam as comissões de menores).

Há crianças, uma minoria, cujos problemas de agressividade começam aos cinco anos. «Pode ter a ver com factores individuais. Mas se os meios envolventes forem protectores e a família ajudar, consegue-se conter este comportamento», afirma. Se, pelo contrário, se juntarem factores de risco, como exposição a violência, álcool, droga e problemas de saúde mental, podem chegar à adolescência já com comportamentos anti-sociais.

Alguns jovens ‘transitam’ de lares para centros educativos

Celso Manata, procurador da República que coordenou o Ministério Público no Tribunal de Família e Menores de Lisboa durante muitos anos, admite que «há jovens que se vê mesmo qual é o percurso que vão seguir». E lembra que, apesar de existirem duas leis e sistemas diferentes  – um de promoção e protecção e o outro tutelar educativo – muitos miúdos são os mesmos e transitam de um para o outro. E «não há uma articulação entre as várias entidades», critica o magistrado. A justiça juvenil tenta recuperar o jovem quando vai para um centro educativo: «Mas o problema é que o grupo e a família do jovem continuam na mesma. Quando ele sai, volta para o mesmo ‘caldo’ que o levou a praticar ilícitos». Por outro lado, o sistema de promoção e protecção não tem qualquer forma de conter os miúdos que iniciam uma escalada de delinquência: «O regime é aberto e estão num lar, fazem disparates, mas o tribunal não pode fazer nada. Ficamos à espera que façam um ilícito mais grave para os podermos colocar num contexto fechado» (centro educativo).

A nova lei tutelar educativa corrige algumas situações, diz Celso Manata, pois prevê um acompanhamento na comunidade quando um jovem sai do centro educativo. Licínio Lima, subdirector da Direcção-Geral da Reinsersão e Serviços Prisionais, acrescenta que nessa altura é feita uma avaliação do seu risco de reincidência: «Isso decorrerá da avaliação do percurso no centro educativo, mas também do contexto familiar», diz ao SOL. Essa informação é então comunicada às comissões de menores para que possam seguir o jovem quando estiver em liberdade.

Josefina Castro questiona, porém, se há técnicos para fazer este acompanhamento. «Fazer um telefonema não serve de nada».

Oito homicidas com menos de 18 anos, desde 2010

Oito jovens entre os 16 e 18 anos foram condenados por homicídio ou tentativa de homicídio entre 2010 e 2013. Segundo dados do Ministério da Justiça enviados ao SOL, três foram cumprem pena na cadeia. Há ainda outro jovem homicida que, por ter cometido o crime com menos de 16 anos, está em centro educativo. Nas cadeias estão ainda 63 jovens menores de 18 que cometeram crimes, a maioria de roubo e tráfico de droga.

Números

1 homicida cumpre medida em centro educativo.

181 jovens cumprem medida em centros educativos por terem cometido 387 crimes. Há um ano, havia 255 jovens.

387 crimes cometidos pelos jovens que estão internados nos centros educativos, 42% (163) dos quais são crimes contra as pessoas. Em 2012, a proporção  era de 32% (94 em 286 crimes).

 

National action to address child intentional injury 2014: what are European countries doing to prevent intentional injuries to children?

Novembro 28, 2014 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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europeandescarregar o relatório aqui

The approach taken for this report

As individual Member States, European countries have adopted the UN Convention on the Rights of the Child (UNCRC), which states, “every child has the right to health and safety including a life free from violence.” (UN General Assembly, 1989). This commitment is further supported by the European Commission in the framework of the Treaty of Lisbon and the Charter of Fundamental Rights of the EU. (European Union, 2007; 2010) Yet with an estimated 3,000 deaths resulting from intentional injuries1 and tens to perhaps hundreds of thousands more non-fatal intentional injuries each year in the European Union, it is clear that we are currently failing in this commitment. Thus achieving life for our children that is free from violence will require cooperation, concerted effort and investment in effective interventions to prevent intentional injuries and promote safety and wellbeing.

The National Action to Address Child2 Intentional Injury report and individual country Policy Profiles were developed as tools to bring attention to this important issue, encourage improvement in policy action and provide a baseline against which to measure progress over time. The report provides:

  • the rationale for why this important issue needs further attention
  • an overview of available data on child intentional injury deaths
  • a description and analysis of the level of adoption, implementation and (as appropriate) enforcement of national level policy actions to address child intentional injury divided intofour categories – leadership, children’s rights, capacity and data (accurate to July 2013).
  • an important mechanism to identify gaps, share progress and identify, adapt and utilize  the experience gained from across Europe.

This report and individual country Policy Profiles were produced as part of the Tools to Address Childhood Trauma, Injury and Children’s Safety (TACTICS) project, a European initiative led by the European Child Safety Alliance with co-funding from the European Commission’s Health Programme. Country partners in 27 Member States plus Iceland and Norway participated to produce 30 Child Intentional Injury Prevention Policy Profiles for Austria, Belgium (Flanders), Bulgaria, Croatia, Cyprus, Czech Republic, Denmark, France, Finland, Germany, Greece, Hungary, Iceland, Ireland, Italy, Latvia, Lithuania, Luxembourg, Malta, Netherlands, Norway, Poland, Portugal, Romania, Slovakia, Slovenia, Spain, Sweden and two in the United Kingdom (participation by England and Scotland).

Mariana conta o que é viver com o peso de ter perdido a mãe às mãos do seu próprio pai

Novembro 19, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do i de 14 de novembro de 2014.

Getty Images

Por Rosa Ramos

Ricardo planeou o crime e foi condenado a 15 anos de cadeia. Cumpriu metade da pena e, 13 anos depois, ainda não pagou a indemnização

Mariana continua a ver o rosto do pai em cada esquina. Passaram 13 anos desde a manhã em que a mãe foi encontrada morta numa rua pouco movimentada, dentro de um carro com um dos vidros partido. Uma mulher, registou a PSP, “de raça caucasiana aparentando ter cerca de 40 anos”. Horas depois, os inspectores da PJ concluíam, na nota de serviço enviada ao coordenador dos homicídios, que dificilmente o crime teria ocorrido ali.

Na noite anterior o pai foi buscá-la mais tarde a casa dos avós. Avisou que tinha trabalho para fazer na empresa e pediu se lhe podiam dar o jantar. Ao fim da tarde a filha quis telefonar à mãe. “Estou a ir para casa”, disse-lhe Helena. Nem meia hora depois, quando Mariana – mais ansiosa que o normal – voltou a pedir aos avós para fazer outra chamada, o telemóvel já não dava sinal.

Ricardo apareceu em casa dos pais pouco antes da meia-noite. Jantou normalmente e Mariana recorda-se de se sentir agitada: a mãe nunca desligava o telemóvel e costumavam telefonar-se pelo menos quatro vezes por dia. Entrou no carro do pai e a caminho de casa só pensava em vê-la. Mas quando abriu a porta do apartamento, num dos bairros mais caros de Lisboa, as luzes estavam apagadas e não havia ninguém em casa. O pai disse-lhe que não sabia dela, que se fosse deitar porque no dia seguinte tinha escola e a mãe haveria de chegar entretanto. A caminho da cama, de pijama, Mariana ainda tentou abrir a porta do quarto dos pais, mas estava trancada à chave. Ricardo, irritado, insistiu que fosse dormir.

Mariana passou boa parte da noite em claro: em 10 anos a mãe nunca lhe tinha falhado e só podia ter acontecido alguma coisa séria. “Dei voltas na cama e, ainda hoje não sei porquê, pensei que a minha mãe nunca mais ia voltar e no que iam dizer os meus colegas da escola quando soubessem que eu já não tinha mãe.” Antes de adormecer deixou de remoer naquilo: a mãe ia voltar com certeza e aqueles pensamentos eram “estúpidos”.

Na manhã seguinte o pai levou-a à escola – um dos melhores colégios de Lisboa. Tudo parecia normal, à excepção de a mãe ainda não ter aparecido. Nas aulas confidenciou à melhor amiga que pressentia algo de grave. E quando, à hora de almoço, viu a avó paterna à porta da escola desatou aos soluços. “A minha mãe não vai voltar, pois não?” A avó abraçou-a, chorou e levou-a para casa.

O limbo A família inteira estava reunida no apartamento. Avós, primos, tios. Alguns vieram de longe até Lisboa. A mãe tinha sido assaltada durante a noite e não ia voltar. Mariana ficou sozinha no quarto. Da sala chegavam palavras soltas e o choro do avô materno. Pouco tempo depois, Ricardo era preso preventivamente, ficando ainda assim com a guarda da filha. O tribunal considerou que retirar Mariana do colégio e de Lisboa iria agravar ainda mais o sofrimento da perda da mãe. Além disso, os avós maternos, já na casa dos 70 anos, viviam no Porto e estavam, também eles, a tentar digerir a morte de Helena.

A vida de Mariana levou uma volta gigante. Todos os fins-de-semana visitava o pai. Na cadeia, Ricardo perguntava-lhe como ia a escola e queria saber o que tinha feito durante a semana. Repetia que estava inocente e que era normal estar preso por ser a pessoa mais próxima da mãe. Prometia que o assunto seria esclarecido em breve. Mariana acreditava e sofria não só pela mãe, mas também pelo pai, trancado na prisão.

Em casa dos avós o tema era tabu. O avô dizia-lhe só que nunca se esquecesse que o pai gostava muito dela. Mesmo assim, e com 11 anos, percebia que havia peças soltas. A família materna cortara relações com a paterna, havia discussões constantes e, nas férias de Verão, no Porto, encontrou dezenas de fotografias rasgadas ao meio. A avó tinha-se desfeito de todas as imagens de Ricardo. Nas conversas que ia apanhando aqui e ali só se falava do grande dia. O dia em que o juiz ia dizer se o pai era ou não culpado.

Mariana acreditava que não. Era verdade que os pais tinham uma relação estranha, se a comparasse com a dos pais das amigas. Ricardo sempre dormira no sofá. Nunca saíam os três juntos, nem aos fins-de-semana. Mariana passeava ou com o pai ou com a mãe. Em casa ou havia muitos silêncios ou discussões. “Sempre por minha causa. Discutiam quem passava mais tempo comigo e quem me ia levar aqui ou ali.” O pai desdobrava-se em cuidados com ela. Quando a levava à casa de banho, desinfectava as sanitas com álcool antes de a sentar.

Não lhe faltavam presentes e uma boa educação. Às vezes faltava era afecto. A família do lado paterno, riquíssima, era muito fria. Ninguém se abraçava ou beijava. E o pai – que as amigas da mãe descreveram à PJ como sendo “doente” por Mariana – também não era expansivo nos afectos: “A única pessoa que eu abraçava e deixava abraçar-me e beijar-me era minha mãe.”

No dia “D”, a avó materna telefonou- -lhe à hora de almoço. Tinha chegado o dia de que todos falavam e o pai foi condenado a 15 anos de prisão e ao pagamento de 100 mil euros de indemnização. “Quando um juiz diz que uma pessoa é culpada é porque a pessoa é mesmo culpada, não é, avó?” A avó respondeu que sim. “E os juízes nunca se enganam, pois não?”

O jogo Mariana passou a ser uma peça de um tabuleiro de xadrez em que o jogo se tornou demasiado complicado. Uma parte da família puxava para um lado, a outra parte para outro. O assunto da morte da mãe tornou-se, em absoluto, um tabu. A família em peso fingia que nada tinha acontecido e os avós paternos repetiam todos os dias: “Não te esqueças que o teu pai te adora.” Aos fins-de-semana, na cadeia, Ricardo continuava a jurar-lhe que era tudo um equívoco. “Não te preocupes, eu vou sair daqui. Há outras soluções, outras maneiras.”

As “soluções” eram os recursos – que subiram até ao Tribunal dos Direitos Humanos – e a mudança constante de estabelecimento prisional. “Quanto pior fosse a prisão onde ele estava, mais hipóteses tinha de se destacar pelo bom comportamento. Ganhava prémios, e assim poderia sair mais cedo.” Havia dias em que Mariana pensava que o pai podia estar realmente inocente. Noutros duvidava. Noutros ainda tinha a certeza de que era um monstro. Às vezes gostava dele. Uma das melhores amigas, uma miúda com 13 anos, disse-lhe um dia: “Vais ter de te começar a preparar para perceber como são realmente as coisas.” Aquilo caiu-lhe mal. Deixou de falar à amiga e chorou sozinha. Onde estava a verdade e qual era a mentira? Pelo meio, esforçava-se para, no meio da batalha, não magoar ninguém. Nem o pai, nem os avós maternos, nem os paternos: “Com 13 anos, queria cuidar de toda a gente.”

A certeza chegou pouco tempo depois nos corredores de um centro comercial. Numa tarde em que foi ao cinema com os amigos da escola, deu de caras com quatro páginas numa revista cor-de-rosa com a descrição pormenorizada de como o pai tinha matado a mãe. O artigo era ilustrado com fotografias do pai no elevador de casa, antes e depois do crime. Sempre com a mesma expressão. Mariana jurou odiá-lo para sempre.

A guerra Os avós paternos continuavam a obrigá-la a ir vê-lo à cadeia. Mariana inventava tudo para escapar. Punha o termómetro no candeeiro da mesa-de–cabeceira do quarto para fingir febre, chorava, suplicava, mas o avô arrancava-a sempre da cama. Com o tempo, deixou de se arranjar. Vestia o que estivesse à mão. Era indiferente. A vida era um inferno.

Aos 13 anos fartou-se e decidiu fugir para casa dos avós maternos, no Porto, onde passava as férias. Planeou tudo, com o pragmatismo de um adulto. Avisou a directora de turma que não contasse com a inscrição dela no ano lectivo seguinte e despediu-se das melhores amigas. Quando os avós a foram buscar à porta do colégio, já com as malas feitas e o cão, Mariana desprendeu as mãos das mãos da melhor amiga, chorou e tirou uma “fotografia mental” da fachada do colégio. “Adeus, nunca me vou esquecer de ti.”

No fim das férias, os avós paternos começaram a telefonar e a perguntar quando regressava. Enquanto isso, os pais de Helena visitavam em segredo escolas e psicólogos. Com o ano lectivo prestes a arrancar, Mariana ganhou coragem e anunciou ao avô de Lisboa: “Não vou voltar nunca.” O avô perguntou se tinha a certeza, ofereceu-se para ir ao Porto falar com ela, mas ela recusava. “Não queria vê-los nunca mais.” Pelo meio andava de psicólogo em psicólogo. Diziam, todos, não conseguir ajudar: Mariana sentava-se nos consultórios mas ninguém lhe arrancava uma palavra.

Os avós maternos deram entrada com os papéis no tribunal para conseguir a guarda da neta. O juiz concordou, mas o pai, da cadeia e representado pelos avós paternos, recorreu. Os avós do Porto voltaram a recorrer. O pai recorreu novamente. “Foi assim durante quatro anos.” Uma guerra fria, mediada por advogados e juízes de batinas pretas. Sempre que havia um novo pedido, Mariana era chamada à barra do tribunal, bombardeada dezenas de vezes com as mesmas perguntas: gostas mais de que avós, não tens saudades do colégio e dos amigos de Lisboa, como é a tua casa no Porto? Os dois lados da família cruzavam-se nos corredores, mudos, antes das audiências.

Mariana deixara de ir ver o pai à cadeia, mas ainda lhe atendia o telefone. “Um dia supliquei-lhe que parasse com aquilo porque não me estava a fazer bem. Por favor, pára de meter recursos, deixa-me viver, deixa-me ter paz.” Do outro lado da linha ouvia: “Um pai nunca desiste de uma filha.” Pelo meio, uma das advogadas da família paterna decidiu abandonar o caso. Não aguentava fazer parte daquilo. “Fui muito exposta nos tribunais, demasiado exposta. A regulação não podia ter demorado tanto tempo e os recursos do meu pai nunca deveriam ter sido sequer considerados.” Afinal o homem que exigia a guarda da filha tinha sido mesmo o homem que lhe tinha roubado a mãe. E a infância.

Morrer por dentro Mariana tornou – se uma adolescente complicada. Discutia com os avós maternos, que a proibiam de estar com o primeiro namorado. “Foi tão doloroso… Ele era a única coisa que eu tinha de bom na minha vida.” A avó morria de medo que a neta cometesse algum erro, engravidasse, se metesse em sarilhos. “Talvez por saber que qualquer deslize seria suficiente para o tribunal decidir que eu teria de ir para casa dos meus avós paternos.” Os anos foram passando e os contactos com a família de Lisboa começaram a ser cada vez menos frequentes. Do pai ou da família dele nunca chegou ajuda para os estudos. No Natal, os avós mandavam-lhe um presente pelo correio. Ricardo continuava a ligar da cadeia. Queria saber dela, como corria a vida. Sobre a morte da mãe, nem uma palavra. Apesar de o ver como um monstro, demorou desligar-se. “Ainda hoje não compreendo porquê. Simplesmente não conseguia cortar de vez.”

Num desses telefonemas ganhou coragem e disse-lhe: “Já chega de fingir que não se passou nada. Ambos sabemos o que se passou e tu também sabes que eu sei. Se quiseres voltar a ver-me, diz- -me agora o que se passou na tua cabeça naquela noite porque eu preciso de saber. Tens de falar.” Respondeu-lhe que não queria falar disso ao telefone. Foi a última vez que Mariana ouviu a voz do pai.

A saída da cadeia A história de Mariana é feita de coincidências, acontecimentos inexplicáveis e demasiadas montanhas-russas. Num Verão, de férias no estrangeiro com um casal amigo dos pais, chegou, por SMS, a notícia que durante anos temera. Ricardo tinha acabado de enviar uma mensagem ao amigo anunciando que saíra da prisão. Tinham passado sete anos e meio desde o homicídio.

“Foi uma sorte ter sabido. Nunca ninguém, até hoje, do tribunal ou dos advogados, me informou da saída do meu pai”, diz Mariana. O que se seguiu foi um inferno psicológico. Até porque, meses antes, tinha ido ao tribunal consultar o processo do homicídio da mãe. Leu tudo. Como o pai premeditou e preparou o crime durante muito tempo. Como embrulhou o cadáver na roupa da cama do quarto de casal. Como tentara comprar uma arma duas semanas antes. E a confissão de como matou a mulher, que falava sistematicamente em divórcio, para não perder a filha.

Ricardo não suportava a ideia de passar a ver filha de 15 em 15 dias. “No fundo a razão do homicídio fui eu. Eu fui a causa daquilo.” Depois de folhear as centenas de páginas do processo, dividido por seis volumes, Mariana teve só uma certeza: “Percebi que nunca seria capaz de ser uma pessoa normal e passei a olhar para a vida de maneira diferente, com frieza.” Só não encontrou a resposta à pergunta que ainda hoje a persegue: “Porque é que o meu pai fez aquilo? Nunca vou ter uma explicação e nunca vou ser capaz de entrar na cabeça dele.”

Depois de sair da cadeia, Ricardo nunca abordou a filha, mas Mariana tinha medo. Medo de que a procurasse ou fizesse mal ao tio ou aos avós. Medo de que desse cabo dos namorados dela, com ciúmes. Medo de que estivesse à porta sempre que saía de casa. Medo de ser raptada. Medo de o confrontar. Todos os dias via a cara do pai nas pessoas que passavam na rua. “E o silêncio dele assustava-me ainda mais, como se estivesse iminente um qualquer plano para qualquer coisa.”

A perseguição Pouco depois da libertação de Ricardo, Mariana regressou a Lisboa para fazer a faculdade. Arrendou uma casa com duas amigas e, dias depois de ter feito anos, encontrou uma caixa enorme à porta do apartamento. Lá dentro havia um colar, cartas e fotografias de pai e filha. Felizes na neve, na praia, em viagens que fizeram. Entrou em pânico. Como sabia ele a rua, o prédio e o andar onde ela vivia?

Não muito tempo depois, uma das colegas de casa – que sabia da história – ligou–lhe aflita. “Está um homem a bater compulsivamente à porta e não quer dizer quem é.” Pela descrição, só podia ser o pai. Ao fim de alguns minutos, o homem foi-se embora. A primeira coisa em que pensou foi mudar de casa: “Mas caí rapidamente em mim e percebi que ele descobriria sempre onde encontrar-me.” O episódio repetiu-se, meses depois. Tocaram à porta do prédio e, minutos mais tarde, as duas colegas viram, pelo óculo da porta, um homem no vão das escadas com uma caixa. Tocou à campainha e depois desapareceu. Mariana ligou à polícia. “Se alguma coisa me acontecesse, ficava pelo menos o registo da ocorrência.” O pai nunca mais voltou a aparecer.

O fim que nunca chega Mariana lembra-se todos os dias da noite em que tinha 10 anos. Várias vezes ao dia, pequenas coisas lembram-lhe Helena ou o pai. Olha com estranheza para as notícias recorrentes de homens que matam as mulheres. A vida que já viveu é tão comprida e tão maior que as estatísticas que não consegue rever-se nelas.

Apega-se demasiado aos namorados, as amigas dizem que tem fases de grande melancolia. A indemnização, 13 anos depois, ainda não chegou e a casa do crime continua por vender. O pai arrendou-a e está a receber as rendas. Mariana passou mais de metade da vida em tribunais e ainda não conseguiu ver-se livre das salas de julgamento. Há processos a correr relacionados com a herança da mãe e a divisão de bens com o pai. Há dias que correm bem e Mariana é feliz. Noutros, e sempre que chega mais uma carta dos advogados, vai-se abaixo. “Desabo completamente outra vez.” A vida vai acontecendo. Terminou a licenciatura, arranjou emprego e quer sair do país, talvez criar um projecto de voluntariado.

Dos avós paternos nunca mais soube nada. Os maternos têm mais de 80 anos e é por eles que não se vai embora. “Não quero que morram sem receberem aquilo a que têm direito, porque por mim mandava o dinheiro à fava.” Diz que não quer casar, não acredita no casamento. “É uma coisa que não tem a ver comigo.” Mariana tem 23 anos é uma mulher bonita. Herdou os olhos verdes da mãe e quer, acima de tudo, deixar de sentir ódio e rancor. E conseguir parar de pensar, por um dia que seja, em como teria sido a vida se o pai não tivesse assassinado a mãe naquela noite de quarta-feira. No Natal e nos anos, o pai continua a mandar- -lhe emails. O último dizia: “Feliz Natal. Felicidades, pai.”

Todos os nomes usados nesta reportagem são fictícios

 

Relatório da UNICEF alerta para “factos inquietantes” sobre violência infantil

Setembro 12, 2014 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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notícia da Visão Solidária de 4 de setembro de 2014.

descarregar o relatório Hidden in Plain Sight: A statistical analysis of violence against children mencionado na notícia

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O relatório – “Hidden in plain sight” – desenvolvido pela UNICEF relativamente à violência infantil alerta para “factos inquietantes”. E diz que, “se não enfrentarmos a realidade que cada uma destas estatísticas revoltantes representa, nunca mudaremos a mentalidade segundo a qual a violência contra as crianças é normal e tolerável”. Quem o diz é Anthony Lake, Diretor Executivo da UNICEF, num comunicado de imprensa.

Lançado esta quinta-feira, em Nova Iorque, o relatório diz respeito a uma análise estatística sobre os “padrões globais de violência contra crianças”. O estudo teve por base 190 países sendo que os dados apenas são referentes aos indivíduos que se disponibilizaram a participar na pesquisa. Deste modo, o relatório documenta a violência contra crianças nas suas comunidades, escolas e casas.

Para além de dar a conhecer a impressionante escala dos abusos físicos, sexuais e emocionais, questões como “os efeitos duradouros, e muitas vezes inter-geracionais, da violência” foram também estudadas e abordadas. Assim sendo, os dados mostram que as crianças que foram e são expostas aos vários tipos de violência têm uma probabilidade de virem a viver na pobreza, a comportarem-se de forma violenta ou a ficarem desempregadas.

Seguindo esta lógica Anthony Lake acrescentou que esta situação “embora prejudique sobretudo as crianças, também afeta todo o tecido da sociedade – ameaçando a estabilidade e o progresso (…) a violência contra as crianças não é inevitável. Podemos preveni-la se não deixarmos que permaneça na sombra”.

Com o intuito de prevenir e reduzir a violência infantil, a UNICEF apresentou seis estratégias: apoiar os pais e dotar as crianças de aptidões para a vida quotidiana; mudar mentalidades; reforçar os sistemas judiciários, penais e de serviços sociais; recolher elementos de prova relativos à violência e aos custos humanos e socioeconómicos que acarreta, são quatro delas.

Iniciativa

Com o intuito de “chamar a atenção para o problema como um primeiro passo para mudar mentalidades, comportamentos e políticos”, a UNICEF lançou a iniciativa a 31 de julho de 2013. O slogan “Tornar visível o invisível” apelava ao envolvimento coletivo na luta contra a violência infantil, dando especial foco ao facto da violência estar “em todo o lado”, mas por vezes “longe da vista de todos”, ou “tolerada devido a normas sociais ou culturais”.

A iniciativa contou com o apoio de cerca de 70 países em todo o mundo, que se comprometeram a disponibilizar meios para “identificar, localizar e reportar situações de violência contra crianças em todas as suas formas”.

Principais Conclusões

Foram várias as conclusões retiradas daquele que consiste na maior compilação de dados relativos aos vários tipos de violência contra as crianças, até hoje. Entre elas destacam-se as seguintes:

Relativamente à violência sexual os pesquisadores concluíram que, em todo o mundo, cerca de 120 milhões de raparigas com idade inferior a 20 anos (cerca de 1 em cada 10) foram sujeitas a relações sexuais forçadas ou outro tipo de atos sexuais forçados. A prevalência da violência praticada por parceiros é de 70% ou mais na República Democrática do Congo e na Guiné Equatorial.

Sendo que um quinto das vítimas de homicídio, a nível global, são crianças e adolescentes com menos de 20 anos – 95.000 mortes em 2012 – o estudo concluiu que o homicídio está entre as principais causas de morte em indivíduos do sexo masculino com idades entre os 10 aos 19 anos no Panamá, Venezuela, Salvador, Brasil, Colômbia, Guatemala, Trinidad e Tobago. A Nigéria tem o maior número de homicídio infantil (13.000) mas entre os países da Europa Ocidental e da América do Norte, os Estados Unidos têm a taxa de homicídio mais alta.

O Bullying é um dos temas que mais se tem vindo a falar. Quase 1/3 dos estudantes entre os 11 e os 15 anos na Europa e América do Norte relatam ter estado envolvidos em atos de bullying contra outros. Na Letónia e na Roménia, 6 em cada 10 admitem ter sido autores de bullying. No que diz respeito às vítimas, em todo o mundo, 1 em cada 3 estudantes com idades entre os 13 e os 15 anos são regularmente vítimas de bullying. Na Samoa a proporção é de quase 3 em cada 4.

Bater na cabeça, nas orelhas, na cara ou espancar a criança repetidamente são alguns dos castigos físicos severos que cerca de 17% das crianças, em 58 países, são submetidas. Em todo o mundo, 3 em cada 10 adultos acreditam que uma disciplina violenta, ou seja, um castigo físico é necessário para educar corretamente uma criança. Mais de 40% das crianças entre os 2 e os 14 anos de idade são submetidos a castigos corporais severos no Chade, Egito e Iémen.

Como consequência, muitas crianças desenvolvem vários tipos de atitudes em relação à violência. No Afeganistão, Guiné, Jordânia, Mail e Timor-Leste 80% das raparigas adolescentes com idades entre os 15 e os 19 anos pensam que, em determinadas circunstâncias, é justificável um marido bater na mulher. Em 28 dos 60 países com dados sobre ambos os sexos, são mais as raparigas do que rapazes que acreditam que bater na mulher é por vezes justificado. Dados de 30 países sugerem que 7 em cada 10 raparigas dos 15 aos 19 anos que foram vítimas de abuso físico e/ou sexual nunca procuraram ajuda.

 

 

 

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