Quinze por cento dos jovens magoam-se de propósito

Abril 14, 2011 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 14 de Abril de 2011.

Estudo com 5050 adolescentes portugueses, com uma média de 14 anos, mostra que consumo de tabaco e do álcool está a descer e o de haxixe a aumentar.

É um fenómeno que tem sido detectado noutros países: há adolescentes que se magoam a si próprios com pequenos cortes, pequenas queimaduras. No estudo sobre adolescentes portugueses que hoje é apresentado em Lisboa fez-se a pergunta pela primeira vez e a resposta deixou a coordenadora do estudo “assustada”: 15,6 por cento referem “ter-se magoado de propósito nos últimos 12 meses, mais do que uma vez”.

Em idas a congressos internacionais onde se falava destes comportamentos, Margarida Gaspar de Matos, a coordenadora do estudo português que é feito no âmbito da Organização Mundial de Saúde e em que participam mais 43 países, sempre achou que a realidade não afectaria Portugal da mesma forma. Mas, como sabia que era “um fenómeno geracional” em vários países, decidiu incluir perguntas sobre o tema no estudo dos comportamentos dos jovens em idade escolar, realizado no ano passado, e que já tinha sido feito em 1998, 2002 e 2006. Os resultados, admite, surpreenderam-na. São 15,6 por cento os adolescentes dos 6.º, 8.º e 10.º anos de escolaridade, com uma média de idades de 14 anos, que referem ter-se magoado de propósito nos últimos meses. Cerca de metade (52,9 por cento) disse tê-lo feito nos braços, 24,7 por cento nas pernas, 16,7 na barriga e 22,5 por cento noutros locais do corpo. A amostra é representativa desta população: foram inquiridos 5050 jovens.

“Magoam-se normalmente em sítios não visíveis”, explica Margarida Gaspar de Matos, que dirige a equipa de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana e Centro de Malária e Doenças Tropicais, em Lisboa. Trata-se de agressões autodirigidas que servem “como forma de auto-regulação emocional”, sintoma “da dificuldade em gerir emoções”. “São adolescentes que não conseguem lidar de outra forma com o facto de estarem tristes, irritados, desesperados”, continua.

Tentando compreender quem são estes miúdos, a equipa de investigadores constatou que os que fazem mal a si próprios são “uma minoria preocupante com vários comportamentos de risco”: são quem mais fuma, bebe, consome drogas (nomeadamente cannabis), têm maior envolvimento em provocações, maior dificuldade em fazer amigos. Estes jovens ou acham-se muito gordos ou muito magros, sem que isto corresponda a um índice de massa corporal real. São ainda os que mais têm pais que pouco ou nada sabem sobre os seus amigos, o seu tempo livre e para onde saem à noite. Por fim, “são os que mais frequentemente dizem estar tristes e não aguentar…”.

Para a investigadora, “este é um comportamento que possivelmente tem vindo a aumentar sem que ninguém se tivesse apercebido”. “Temos que estar atentos”, diz, para ressalvar que, em países como Estados Unidos, Canadá e Finlândia, as prevalências andam entre os dez e os 15 por cento, não muito longe de Portugal.

O estudo, financiado pelo Alto Comissariado da Saúde e pela Coordenação Nacional para o VIH/Sida, defende que é preciso arranjar estratégias para ajudar estes jovens “a auto-regular-se do ponto de vista emocional sem recurso a “extras”, quer virados para fora, como a violência, o consumo de substâncias, quer virados para dentro, como o magoar-se a si próprio, isolar-se, comer em demasia”.

Mas há várias boas notícias no estudo, sublinha Margarida Gaspar de Matos. Uma nota positiva é que se vem assistindo a um aumento crescente da escolaridade dos pais (que se situa no 2.º e 3.º ciclos) e outra é que “todos os miúdos têm computador e metade tem acesso à Internet em casa”, o que coloca Portugal a par dos países europeus mais avançados nesta área.

O reverso da medalha deste último aspecto é o aumento do tempo passado em frente ao ecrã – quer do computador, quer da televisão – e o consequente sedentarismo e aumento de peso por falta de actividade física. Fazendo eco de muitos outros estudos que têm feito soar o alarme da obesidade infantil, os dados agora recolhidos confirmam a tendência: 18,8 por cento sofrem de excesso de peso ou obesidade. O consumo de tabaco e álcool continua a descer, mas o consumo de haxixe apresenta uma tendência de aumento, o que faz a coordenadora temer pelo “desinvestimento nas políticas de prevenção desta área”.E há dois dados que persistem nos vários estudos e em que Portugal tem dos piores indicadores da Europa: os jovens nacionais são dos que mais dizem sofrer de stress relacionado com os trabalhos de casa e são dos alunos que acham que os professores menos os acham capazes.

Muitos assistem a lutas no recreio e não fazem nada

Mais de metade dos adolescentes portugueses (59,4 por cento) referiram ter assistido a situações de provocação na escola, das quais cerca de metade ocorreu no recreio. Dos que dizem ter presenciado, cerca de dois terços referem não ter feito nada e terem-se afastado, 54,8 por cento não fizeram nada e ficaram a ver e houve mesmo 10,7 por cento que incentivaram o provocador. Para a coordenadora do estudo, esta “é uma forma de violência pela passividade, os que assistem e não fazem nada ou até incentivam”. “São – resume – os espectadores”. Também a Internet pode ocasionar novas formas de violência (ciberbullying), mas a grande maioria (84,1 por cento) não se envolveu neste tipo de provocações. Nos que o fizeram, o Messenger foi o meio mais usado, seguido das mensagens de telemóvel. Entre os que se viram envolvidos nestas situações, a grande maioria conseguiu ultrapassar o problema.

Apresentação Dois Estudos Nacionais -14 Abril 2011

Abril 12, 2011 às 9:02 pm | Publicado em Divulgação, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Falar de sexo é com colegas e não com pais

Dezembro 22, 2010 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Entrevista ao Público da Prof.ª Doutora Margarida Gaspar de Matos no dia 14 de Dezembro de 2010.

Apesar de os resultados do inquérito aos adolescentes indicar que estes se sentem mais à vontade para falar sobre sexo com os colegas, a coordenadora do estudo português para a Organização Mundial de Saúde defende mais educação sexual.

Os alunos portugueses podem ter mentido nos inquéritos?
A amostra é representativa dos 6.º, 8.º e 10.º anos. Não há nada [nenhum indicador] que nos diga que não é assim. Os alunos podem mentir à vontade, mas são amostras de cinco mil e não posso acreditar que me andam a pregar partidas desde 1998! Além disso, era difícil que todos mentissem para o mesmo lado. Há problemas que fazem muito barulho [ex: bullying], mas que não são universais.

Os alunos iniciam a vida sexual mais tarde. Isso contraria a ideia de que ter educação sexual na escola pode levá-los a começar mais cedo?
Estou preocupada porque eles atrasam o início da vida sexual mas não têm mais informação [do que antes]. Os jovens não privilegiam os pais nem os professores para falar de sexualidade ou de infecções sexualmente transmissíveis. A vontade de falar de sexualidade é com os colegas. A maioria diz que aprende via Internet ou televisão, o que é um risco. É muito difícil para um adolescente aos 11 anos ver o professor como seu interlocutor, mas se for assim desde os cinco anos, pode ser uma maneira de crescer na conversa natural e afectiva sobre sexualidade.

Como olha para os cortes anunciados para a educação sexual nas escolas?
Os problemas na saúde e na educação não são económicos, mas de desperdício, porque não aproveitamos o que já existe. Gostava de ver a classe docente a tomar poder sobre as suas competências e a resolver isto.

Jovens portugueses estão a sair menos à noite e já trocaram a TV pelo computador

Dezembro 22, 2010 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 14 de Dezembro de 2010.

Fotografia Fernando Veludo/NFactos

Fotografia Fernando Veludo/NFactos

Por Bárbara Wong

Começam a vida sexual mais tarde, não fumam e gostam de ir à escola. Um retrato sobre estilos de vida feito para a OMS mostra uma geração com um comportamento quase exemplar.

Não saem à noite, não fumam, não bebem e começam a vida sexual mais tarde. De manhã, tomam o pequeno-almoço. Na escola não se envolvem em lutas e gostam dos seus professores. Em casa, estão à frente da televisão ou do computador e, talvez por isso, praticam menos exercício físico. Há mais um senão: o consumo de drogas aumentou ligeiramente entre os adolescentes e jovens portugueses dos 6.º, 8.º e 10.º anos.

Estes são os resultados preliminares do estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos para o Health Behaviour in School-aged Children, que é apresentado hoje, em Lisboa. Os resultados finais serão conhecidos em Abril. Trata-se de um estudo colaborativo da Organização Mundial de Saúde (OMS), feito de quatro em quatro anos, com o objectivo de estudar os estilos de vida e os comportamentos adolescentes. Os dados portugueses foram recolhidos para o relatório de 2012, onde se reúne a informação de outros 43 países.

“Há questões que fazem muito barulho [como o bullying] mas que não são universais. Há realidades que são só da nossa rua”, justifica Margarida Gaspar de Matos. Por isso, apesar da crise económica, “cada vez há menos miséria cultural e económica em Portugal”. “Há nichos preocupantes mas residuais, pelo menos no modo como os alunos percebem e nos relatam os factos”, aponta a professora da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade Técnica de Lisboa.

Maioria não tem relações

Segundo o inquérito feito a cinco mil jovens de 136 escolas públicas (as mesmas desde 1998), os pais também melhoraram a sua escolaridade. Aí pode estar um factor para a melhoria da situação, continua. Mais: a maioria dos adolescentes que constituem a amostra é de nacionalidade portuguesa. Há quatro anos, a maioria dos pais tinha o 1.º ciclo; actualmente, têm o 2.º ou o 3.º e têm também profissões mais qualificadas. Esta alteração pode dever-se à iniciativa Novas Oportunidades. “É uma mudança fantástica porque a escolaridade da mãe é o melhor preditor de saúde pública. Uma mãe escolarizada mexe-se melhor no sistema de saúde e no da educação”, revela.

Um quinto dos rapazes afirma já ter tido relações sexuais. No conjunto das raparigas e dos rapazes, a maioria (83,1 por cento) diz nunca ter tido relações sexuais. Em inquérito feito apenas aos alunos do 10.º ano que referiram já ter iniciado a sua vida sexual, oito em cada dez respondem que iniciaram aos 14 anos ou mais. Nove por cento dos rapazes respondem que iniciaram aos 11 anos ou menos, contra dois por cento das raparigas.

Quem já começou a sua vida sexual não teve relações associadas ao consumo de álcool ou de drogas (87,3 por cento). As raparigas usam mais frequentemente o preservativo (96,2, mais quatro por cento do que os rapazes) e a pílula é usada por 37,5 por cento das inquiridas. A maioria não usou espermicidas ou o coito interrompido na primeira relação. Na verdade, 85,1 por cento nem sabem que método usaram. Sobre quem decide, metade dos inquiridos dos 8.º e 10.º anos responde que é o casal.

Porque é que iniciaram a sua vida sexual? Metade responde que queria experimentar, 47 por cento estava “muito apaixonado/a”, 28 “já namoram há muito tempo”, 18 por cento confessam que “aconteceu por acaso” e 13 por cento respondem que não queriam que o “parceiro ficasse zangado”.

Seis em cada dez não saem à noite com os amigos. O consumo de tabaco e de álcool diminuiu em quatro anos – um quinto dos jovens responde que já se embriagou uma ou três vezes -, mas a experimentação de drogas aumentou umas décimas. Gaspar de Matos não sabe o que é que estes dados significam.

Em casa, os adolescentes vêem muita televisão, embora menos do que em 2006 – na altura, 35,8 por cento viam mais de quatro horas diárias, durante a semana, contra 25,2 este ano. Mas passam mais horas ao computador – há quatro anos, 29,5 respondiam que nunca o usavam durante a semana; agora são apenas 12 por cento.

Sete em cada dez não se envolveram em lutas no último ano e gostam da escola, 80 por cento gostam de estar com os colegas e 85 por cento consideram que os professores têm uma boa percepção das suas capacidades académicas. Em média, os inquiridos que participaram no estudo têm 14 anos, pesam 53,4 quilos e medem 1,61 metros. A maioria – sobretudo os rapazes – está satisfeita com o seu corpo.Inquéritos foram alargados a alunos do superior

Os rapazes aventuram-se mais do que as raparigas, que são mais cuidadosas sobre a sua vida sexual. Eles começam a ter relações sexuais mais cedo e assumem mais comportamentos de risco; elas são mais preocupadas. Pela primeira vez, a equipa de Margarida Gaspar de Matos alargou o estudo ao ensino superior. São as raparigas que têm mais conhecimentos relativamente aos riscos do VIH/sida. Os rapazes respondem com mais frequência “não sabe”.

Elas têm uma atitude mais positiva do que eles. Por exemplo, se a esmagadora maioria das raparigas responde que “a contracepção faz parte de uma sexualidade responsável”, a maioria dos rapazes considera que “o sexo é uma parte muito importante da vida”. À afirmação “sinto-me melhor comigo próprio quando uso métodos contraceptivos”, 78 por cento das raparigas dizem que sim – mais 14 por cento que os rapazes.

Oito em cada dez iniciaram a vida sexual a partir dos 16 anos, eles mais cedo do que elas. Quatro em cada dez dizem ter uma relação amorosa há mais de dois anos e 84 por cento têm relações sexuais. Responderam 3278 alunos, com uma média de idades de 21 anos. O estudo foi financiado pelo Alto-Comissariado da Saúde.

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