Como educar uma geração digital com tanta dificuldade para se concentrar?

Abril 20, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da G1globo de 3 de abril de 2019.

Se os celulares e novas mídias estão prejudicando a capacidade dos estudantes de prestar atenção, como os professores podem mudar seus métodos de ensino para ensinar as habilidades de que eles precisam?

Os estudantes de hoje têm de lidar com um problema – e ele não está escrito no quadro negro. Eles estão tão acostumados a constantes estímulos de aplicativos de smartphone e plataformas de streaming que não conseguem se concentrar na aula.

As gerações Z (idades entre 10 e 24 anos) e alpha (até 9 anos de idade) nasceram em um mundo onde os algoritmos os mantêm clicando e navegando em um ritmo frenético.

Agora, os professores também têm um problema. Como você adapta o currículo escolar para estudantes criados em meio à tecnologia? E isso pode comprometer a educação tradicional?

O desenvolvimento inicial do cérebro é um assunto complexo, mas, nos últimos anos, pesquisadores em todo o mundo manifestaram preocupações sobre o impacto que smartphones e o hábito de consumir diferentes mídias simultaneamente podem ter sobre a capacidade de concentração.

Os professores também já notaram isso. “É um problema. Para começar, o adolescente médio só consegue prestar atenção por cerca de 28 segundos”, diz Laura Schad, que dá aulas para alunos de 12 a 14 anos na Filadélfia, nos Estados Unidos.

Ela diz que, embora os smartphones tenham afetado claramente os cérebros em pleno desenvolvimento de seus alunos, falta treinamento para lidar com a questão: como a educação deve evoluir para atender alunos que são nativos digitais não foi algo tratado em sua formação profissional, por exemplo.

Os efeitos da tecnologia ficam mais claros em uma das atividades escolares mais tradicionais, a leitura, especialmente quando as crianças migram das mídias digitais baseadas em texto para aplicativos repletos de imagens como Instagram e Snapchat.

“Hoje, os alunos parecem achar especialmente exaustivo ler textos complexos ou longos sem fazer pausas constantes. No passado, os alunos pareciam estar acostumados a se dedicar a um texto por um longo período de tempo”, diz Erica Swift, professora do 6º ano de uma escola de Sacramento, nos Estados Unidos. “Você percebe a falta de resistência deles, ao pedir intervalos de descanso ou ao conversar com os colegas em vez de estudar. Alguns até mesmo desistem por completo de leituras mais longas.”

Simplesmente transferir o texto para um aparelho eletrônico não ajuda, o que indica que o problema é mais complexo do que uma simples preferência pelas telas em detrimento de algo impresso em papel.

Taylor explica que o ato de prestar atenção não só tem um valor inerente, mas funciona como porta de entrada para formas mais profundas de aprendizado – especialmente em termos de memória.

A sala de aula do futuro

Se os alunos não parecem prestar atenção por longos períodos, muitos professores simplesmente dividem as lições em partes menores. Gail Desler, especialista em integração tecnológica do distrito escolar de Elk Grove, onde fica a escola de Swift, diz: “Uma ideia comum entre os professores é que algo mais curto é melhor”.

Desler também dá como exemplo professores que iniciam as aulas com exercícios de atenção plena ou de meditação quando os alunos precisam se concentrar.

Uma professora do ensino médio em Salinas, nos Estados Unidos, usa o aplicativo Calm para ajudar os alunos a meditar, mas um estudo de 2013 indicou que qualquer tipo de “intervalo de descanso da tecnologia” pode combater a ansiedade por realizar múltiplas coisas ao mesmo tempo.

Alguns professores também escolhem “ir ao encontro dos alunos” em plataformas como o YouTube e o Instagram. Asha Choksi, vice-presidente de pesquisa global da editora educacional Pearson, dá o exemplo de um professor que filma a si mesmo realizando um experimento científico, publica no YouTube e usa o vídeo na aula para ilustrar o material no livro didático, que pode ser visto como algo chato para os alunos.

Da mesma forma, Schad busca manter os alunos dedicados às tarefas por meio de lembretes no Instagram sobre o dever de casa e as próximas atividades.

Estes recursos podem manter os alunos atentos quando refletem seus interesses. Desler elogia professores que fazem coisas como relacionar a história da propaganda nazista ao cyberbullying.

“Trata-se de introduzir informações relevantes em um currículo obrigatório, de maneira que os alunos se vejam refletidos no que é ensinado”, diz ela. “Ao fazer conexões com coisas que estão acontecendo aqui e agora, você entra no mundo deles e os envolve.”

Adaptação à nova realidade

Enquanto isso, plataformas especializadas de aprendizado como o Flipgrid, que permite aos alunos compartilhar vídeos de si mesmos fazendo apresentações, ajudam os professores a envolver os alunos usando as mídias que eles estão acostumados a usar.

Um estudo de 2018 da Pearson descobriu que os alunos da geração Z evitam livros e apontam vídeos como sua fonte preferida de informações, atrás apenas dos próprios professores. Ao se inserir nos meios dos quais as crianças já participam e com os quais criam, os professores podem captar melhor sua atenção.

Alguns distritos escolares já migraram digitalmente para plataformas como o Google Classroom, que permite que alunos e pais monitorem notas e tarefas futuras e acompanhem o desempenho dos estudantes para entender melhor no que eles estão deixando a desejar.

A tecnologia pode até mesmo ajudar a reparar danos causados ​​à habilidade de leitura. Schad diz que, em sua escola na Filadélfia, os professores usam computadores lidar com as dificuldades apresentadas pelos estudantes. A plataforma de leitura da escola, a Lexia, adota elementos de videogames para estimular a participação.

O programa também separa automaticamente os alunos com base no seu desempenho, oferecendo aos alunos mais bem sucedidos tarefas mais avançadas no mundo real e exercícios digitais extras para aqueles com mais dificuldades, até que aprendam totalmente a lição. Essa abordagem personalizada ajuda a lidar com as diferentes formas como estudantes são afetados pela tecnologia.

Os Estados Unidos são líderes globais em tecnologia educacional, com empresas de tecnologia de ponta recebendo US$ 1,45 bilhão (R$ 5,7 bilhões) em investimentos em 2018.

Mas empresas como a Flipgrid e a Lexia terão cada vez mais concorrência vinda do exterior. A indústria de tecnologias para educação no leste da Ásia está crescendo, conforme plataformas americanas como a Knewton se expandem internacionalmente e geram um crescente interesse global em adaptar as salas de aula para estudantes que são nativos digitais.

Uma forma de ‘aprendizado misto’

Ainda assim, enquanto alguns educadores estão adotando a tecnologia em sala de aula, vários estudos mostraram que salas de aula tradicionais podem ter mais sucesso.

Um estudo de 2015 da London School of Economics mostrou que os resultados do teste GCSE, que avalia estudantes do ensino médio no Reino Unido, melhoraram quando escolas de Birmingham, Londres, Leicester e Manchester proibiram os celulares em sala de aula.

O professor de neurociência William Klemm, autor de The Learning Skills Cycle (O Ciclo de Habilidades de Aprendizado, em tradução livre), destaca um estudo de 2014 que apontou que anotações à mão ajudam alunos a reter mais informações em comparação com o uso de um computador.

Klemm também aponta que dividir lições em partes menores pode ser prejudicial, porque isso pode impedir que os alunos tenham uma compreensão mais ampla do que é ensinado. Ele diz que os estudantes precisam de tempo para se envolver com um tema.

Até mesmo educadores que veem com bons olhos o uso da tecnologia acreditam que os métodos tradicionais têm seu valor e sugerem uma abordagem de “aprendizagem mista”.

“Tenho visto muita discussão entre acadêmicos nos últimos anos sobre se o formato de palestra é algo do passado e que deve ser extinto”, diz Katie Davis, professora da Escola de Informação da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

“Acho que isso se resume a se você acredita que existem habilidades valiosas envolvidas no processo de acompanhar um argumento complexo que é apresentado linearmente em tempo real.”

Enquanto Davis admite que as novas mídias poderiam ajudar a desenvolver habilidades importantes, ela ainda acredita que as palestras têm o seu valor.

Educadores com diferentes opiniões sobre o uso da tecnologia concordam que a autoridade do professor continua sendo de máxima importância.

Elizabeth Hoover, diretora de tecnologia para escolas públicas de Alexandria City, nos Estados Unidos, busca melhorar a educação em seu distrito por meio da tecnologia, mas diz que isso nunca substituirá o aprendizado diretamente com um professor.

“A interação pessoal ainda é o componente mais importante em uma sala de aula”, diz ela, para quem a tecnologia deve ser empregada apenas quando aprimora uma lição de maneiras que seriam impossíveis de outra forma.

Schad também diz que muitos professores confiam na tecnologia apenas porque não têm recursos analógicos suficientes. Programas como o Lexia não seriam necessários se as escolas fornecessem mais recursos para contratar mais profissionais que auxiliem no aprendizado, o que permitiria liberar professores para se concentrarem nos alunos que enfrentam dificuldades.

A professora Sophia Date, que ensina Ciências Sociais para o 12º ano de uma escola da Filadélfia, também questiona o investimento em tecnologia em detrimento de investimentos em mais professores.

“Há um enorme vontade de levar a tecnologia para a sala de aula, mas, às vezes, isso é feito no lugar de mudanças maiores e mais necessárias. As organizações que doam fundos para educação têm prazer em dar dinheiro para comprar tablets e computadores, mas não estão dispostas a custear um salário de um professor por um ano”, diz ela.

Date defende que ampliar o acesso à tecnologia continua a ser algo crucial para ajudar a diminuir a diferença entre as condições oferecidas a estudantes de baixa e alta renda, mas diz que isso não pode substituir mudanças no sistema educacional.

Aprendendo a raciocinar

Embora a tecnologia mine alguns aspectos da educação, também capacita estudantes de formas inesperadas.

“Existe essa visão de que os jovens ficam um pouco apáticos, preguiçosos, distraídos com a tecnologia”, diz Choksi, da Pearson. “Realmente, subestimamos o papel que a tecnologia está desempenhando na educação das crianças e o poder que isso dá a elas em seu aprendizado.”

Por exemplo, alunos que não tem paciência para esperar que os educadores respondam a suas perguntas estão cada vez mais dispostos a buscar as respostas por si mesmos. “Eles podem estar estudando álgebra e ir ao YouTube para descobrir como resolver um problema antes de consultar um professor ou um livro didático”, diz Choksi.

Swift diz que isso deve ser estimulado nos alunos. “Você quer que eles façam novas perguntas e busquem novas respostas.”

Taylor aponta que, conforme a informação se torna onipresente, o sucesso não se resume a saber mais, mas na capacidade de pensar de forma crítica e criativa, que são, ironicamente, as habilidades que a mídia digital prejudica ao reduzir a capacidade de prestar atenção dos estudantes.

“Se você pensar em Mark Zuckerberg, Bill Gates e em todas estas pessoas que obtiveram sucesso no mundo da tecnologia, elas não chegaram até aí porque sabiam programar, mas porque são capazes de raciocinar”, diz ele.

Os nativos digitais continuarão a adotar vorazmente as novas mídias. Os professores não têm escolha a não ser evoluir, não apenas para garantir que alunos possam acessar e tirar proveito das tecnologias, mas para fazer com que os alunos tenham sucesso em um mundo que está constantemente tentando distraí-los.

 

 

 

Jovens americanos têm níveis de sofrimento psicológico sem precedentes face às gerações anteriores

Novembro 30, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 21 de novembro de 2018.

Clara Soares

A Geração Z tem mais perceção de stress e insegurança do que as gerações mais velhas e é a primeira a admitir maior necessidade de terapia, revela estudo da Associação Americana de Psicologia.

Já se sabia que os Estados Unidos são imbatíveis… nos números respeitantes à doença mental. Os estudos epidemiológicos disponíveis permitem afirmar que nem mesmo Portugal, que ocupa um lugar cimeiro na União Europeia nesta área, com pelo menos uma em cada cinco pessoas a ter perturbações mentais, tem um retrato tão assustador.

Se os nativos digitais e os jovens escolarizados parecem mostrar-se mais vulneráveis a sintomas ansiosos e depressivos, agora já possível confirmá-lo. O mais recente estudo encomendado pela Associação de Psicologia Americana (APA) à The Harris Poll – Stress in America: generation Z – traça um panorama sombrio para quem nasceu e cresceu naquela que era, no século passado, conhecida pela Terra das Oportunidades. A sondagem online, realizada numa amostra de 3458 adultos e complementada por entrevistas a 300 jovens com idades entre os 15 e os 18 anos, permitiu concluir que a entrada na maioridade é vivida com grande sobressalto e estados de alerta, apenas comparáveis aos da geração anterior, os Millennials, que até ao momento eram os campeões do stresse, fruto de uma educação individualista e centrada no sucesso, da pressão das tecnologias e do impacto da realidade virtual no quotidiano.

“Este mundo não é para novos”

O estudo comparativo revela que a saúde mental da Geração Z deixa muito a desejar. Os mais velhos são quem afirma sentir-se muito bem psicologicamente (74%), mas a percepção de bem-estar subjetivo decai à medida que se recua na idade e entre os 15 e os 21 anos menos de metade diz estar em boa forma mental (apenas 45%). Como era previsível, entre os que receberam, ou pensam vir a precisar de recorrer à ajuda de um psicoterapeuta, os inquiridos com 73 e mais anos ficaram no fim da lista (15%). Em contrapartida, os adolescentes e jovens adultos ocuparam a linha da frente (37%), ultrapassando mesmo a geração que os antecede (com idades entre os 22 e os 39 anos). Mais de 90% dos “Z” afirmaram ter experimentado pelo menos um sintoma físico ou emocional associado a stresse (58% de estados depressivos e 55% com falta de interesse, energia e motivação).

A que se deve tanto mal-estar e fragilidade? No país governado por Trump, as armas têm má história e má fama, com violência a marcar os telejornais. Estas realidades são perturbadoras para os adultos, embora consigam ser mais impactantes para os jovens. Assim, enquanto os adultos se sentem ameaçados pelas notícias de tiroteios (62%), suicídios (44%) mudanças climáticas (51%), deportações de imigrantes e das famílias de migrantes (45%) e o assédio sexual (39%), a percepção de stresse dos “Z” é superior a estes valores numa proporção entre 12 e 18 por cento.

Depois do célebre Young Americans, do britânico David Bowie, ter trazido à superfície questões polémicas que marcaram – e marcam ainda – o ADN da cultura norte-americana, há 43 anos, o álbum permanece mais atual do que nunca. Ainda não havia geração Z quando o génio camaleão cantou “This is not America”, mas os jovens americanos nascidos na era da internet, dos crashes bolsistas e do aquecimento global ingressam na idade adulta como quem entra num cenário da Guerra dos Tronos: uma odisseia em que a probabilidade de ir ao fundo é grande e terrivelmente assustadora.

Entre as fontes adicionais de stresse com que eles se debatem, surgem as dificuldades de socialização com os pares (35%), as dívidas associadas ao percurso académico (33%) e a incerteza do mercado imobiliário (31%). Embora com menor expressão, outras preocupações os consomem: o medo de não ter sustento numa base estável (28%), o abuso de álcool e drogas no seio familiar (21%) – que pode, ainda que indiretamente, ter sido ampliado pela liberalização do consumo recreativo – e as questões associadas à orientação sexual e de identidade de género (21%), num ano marcado por mudanças políticas e sociais neste domínio.

 

 

Voluntariado Jovem Geração Z

Junho 30, 2018 às 5:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto do Portal da Juventude:

Queres ocupar o teu tempo livre durante as férias grandes, ou mesmo até novembro próximo?

Está a decorrer o período de inscrições para jovens voluntários no âmbito do Programa Voluntariado Jovem Geração Z, cujas atividades decorrem até novembro.

Áreas de intervenção

  • Participação cívica;
  • Prevenção da violência no namoro;
  • Prevenção de comportamentos agressivos (bullying);
  • Igualdade de género;
  • Desporto;
  • Intercâmbio cultural;
  • Solidariedade intergeracional;
  • Emprego e empreendedorismo;
  • Turismo juvenil;
  • Inclusão social, com especial atenção para ações dirigidas a jovens NEET;
  • Combate a extremismo e comportamentos violentos;
  • Saúde juvenil;
  • Ambiente;
  • Associativismo.

Podem inscrever-se:

Jovens com idade dos 16 aos 30 anos (inclusive);

Nota: a participação de menores em projetos está  condicionada à entrega da declaração de autorização de participação, assinada pelo encarregado de educação.

mais informações no link:

https://juventude.gov.pt/Eventos/VoluntariadoJovem/Paginas/VoluntariadoJovem-GeracaoZ-Inscricoes-Jovens.aspx

Geração Z, os jovens que nasceram na era da internet, da crise e do terrorismo

Maio 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 1 de maio de 2017.

Rita Porto

Depois dos Millennials, chega agora a Geração Z. Jovens que nasceram na era da internet e que não sabem o que é o mundo sem a crise e sem o terrorismo. O que esperam eles do futuro?

Leonor esteve indecisa sobre que objeto haveria de trazer quando lhe pedimos para escolher algo que a caracterizasse. Acabou por optar pelo violino em vez do telemóvel. Esta adolescente de 16 anos — feitos agora em abril — toca desde os oito anos e ainda hoje tem aulas e concertos: “Nem sei bem por que escolhi o violino. Acho que sempre gostei do som do instrumento”.

A irmã Carlota foi mais rápida na escolha: um azulejo com um barco à vela em tons de azul. “Fi-lo quando estava no 11° ano. Inspirei-me em todas as viagens que costumávamos fazer com os pais no Alcâncio, o barco do pai. Está sempre exposto na sala de estar”, conta a estudante de Cerâmica da Escola Artística António Arroio. O cuidado com que o manuseia, bem como o modo como o transporta — envolto em várias camadas de papel de cozinha para não se partir dentro da mala — denota a importância que ele tem para a adolescente de 18 anos, cuja carreira que quer seguir ainda é uma incógnita. “Gostava de um dia ter um atelier, mas não sei bem”.

Já Duarte anda com o seu objeto ao pescoço: um colar com duas estrelas azuis e uma roxa, feito pelo seu irmão mais novo. E não é o único assessório que costuma ter consigo: ao pulso tem um elástico e no dedo anelar da mão direita um anel, oferecido pelo melhor amigo, para o ajudar a ultrapassar “um mau momento”. “Gosto de usar acessórios. Ajudam-me a tirar o stress da escola e distraem-me um pouco”, conta o estudante de ciências.

André não andará sempre com o seu skate atrás, mas é sem dúvida uma parte essencial da sua vida. “Comecei a andar de skate há quatro anos, quando tinha 12. Na altura, um amigo comprou um skate numa ‘loja do chinês’ e depois toda a gente comprou um, e eu pensei ‘Porque não?’. Era só na brincadeira. À medida que as pessoas foram deixando de andar de skate, eu começava a interessar-me cada vez mais”, recorda o jovem de 16 anos.

Os treinos na rua com o melhor amigo — que entretanto também deixou o skate — passaram para o Skatepark. Foi o pai quem o levou lá pela primeira vez e, nem dois anos depois de ter começado, já estava a participar no primeiro torneio. “A primeira vez que ouvi falar num campeonato nem fui, por vergonha. Da segunda vez fiquei todo nervoso, mas participei. Fiquei em sexto lugar. Fiquei super feliz, mas também estava bué nervoso”. Foi apenas o início: hoje em dia participa em vários campeonatos, tanto nacionais como internacionais, muitos deles através da loja que o patrocina — Twin Tail.

A escolha de Leonor M. foi a mais tecnológica. “Sou uma pessoa que vive no seu próprio mundo e muitas vezes ponho os phones para estar só comigo, sem ninguém me chatear”. É algo que esta adolescente de 15 anos não dispensa, seja nos transportes públicos, em casa para ouvir música ou até na escola — “Este ano, como não me dou muito bem com a minha turma, acabo por estar muitas vezes de phones“. Um objeto essencial para a jovem baterista quando está a ensaiar em casa. “Tenho uma bateria elétrica em casa. Posso pôr os phones no amplificador e só se ouve como se estivesse a bater em qualquer coisa, mas eu gosto mesmo é de ter som no amplificador. A minha mãe sofre um bocado [risos].”

O que é a Geração Z?

Estes jovens têm histórias e gostos totalmente diferentes uns dos outros, mas partilham algo em comum: todos fazem parte da Geração Z. Depois dos baby boomers, da Geração X e dos Millennials, chegou-se à última letra do alfabeto para caracterizar as pessoas nascidas entre meados dos anos 90 até meados de 2010.

De acordo com dados do INE, são cerca de 2.566.327 as pessoas com menos de 24 anos a viver em Portugal. Dados da Pordata mostram que se trata de uma geração que nasceu numa população cada vez mais envelhecida, cujas mães são mais ativas e com mais escolaridade, mas cada vez menos jovens. Nascem no seio de famílias menos convencionais — têm cada vez menos irmãos biológicos, mas cada vez mais meios-irmãos — e estão rodeados de tecnologia.

Madalena Lupi, diretora do Departamento de Estudos Qualitativos da Netsonda/ConsumerChannel, analisou esta camada de jovens a propósito do 8º Seminário de Marketing Kids & Teens, promovida pela Brandkey, e ressalva que os anos limites para esta geração não são consensuais. “Partimos do princípio que são pessoas que nasceram por volta de 1995 e até 2016 — é uma geração que está em formação”, diz ao Observador.

A investigadora explica ainda que se trata de uma geração com “características próprias” graças ao contexto pessoal, social e económico em que nasceram e estão a crescer, ainda que algumas possam ser semelhantes às gerações anteriores.

Diana Dias Carvalho, socióloga e investigadora nas áreas da sociologia da família, da infância e da juventude, considera mesmo limitativo falar-se de gerações. “O risco de se falar em gerações é que tendemos a reduzi-las a certas características e consequências, e depois quando vamos ver, muitas vezes essas representações não colam com as realidades que encontramos, porque vai depender sempre dos contextos sociais — que são muito diversificados”.

Internet e novas tecnologias

Carlota — 18 anos: “Lembro-me que recebi o meu primeiro telemóvel no quinto ano — nem sequer tinha câmara! Foi-me dado quando começámos a vir sozinhas para casa e para se precisássemos de ligar para os pais. Mas não sinto que seja dependente do telemóvel e da internet. Há umas semanas estive de férias no Algarve com os meus avós e praticamente não mexi no telemóvel. Levei computador para fazer uns trabalhos para a escola e, apesar de ter internet, quase não a usei. Mesmo no dia a dia, só uso o telemóvel nos intervalos das aulas ou para ocupar o tempo, com alguma pesquisa que foi pedida pelos professores, por exemplo. Em termos de redes sociais, o que mais uso é o Instagram — não é tanto pelos vídeos, mas pelas fotografias (gosto muito de editá-las). O Snapchat já não uso tanto porque foram sendo criadas outras aplicações que fazem o mesmo. Uso bastante o Messenger de Facebook, mas só vou mesmo ao Facebook se os meus amigos me disserem que publicaram qualquer coisa.”

Leonor — 16 anos: “O meu primeiro telemóvel era um antigo telefone da minha mãe — deram-me aquele porque se o perdesse não havia problema. Não acho que seja viciada no telemóvel, mas dá sempre jeito. Por exemplo, eu nunca ando com relógio, portanto estou habituada a ver as horas no telemóvel e faz-me falta se não o tiver comigo. Costumo utilizá-lo para estar em contacto com os meus amigos e com os meus pais. Utilizo muito o Instagram, onde partilho fotografias e vídeos, e o WhatsApp para falar com os meus amigos, para combinar coisas ou quando preciso de alguma coisa para a escola e não tenho paciência para lhes ligar. Não uso muito o Messenger do Facebook, nem sei bem porquê.”

André — 16 anos: “Não me lembro de não haver internet — é mesmo estranho! Não sou dependente de tecnologia, mas uso o telemóvel diariamente, especialmente para as redes sociais. Utilizo o Instagram, o Snapchat, mas o Facebook não tanto e o YouTube um bocadinho. Também uso o WhatsApp para falar com os meus amigos e combinar coisas com eles, mas com mensagens áudio gravadas, que escrever dá muito trabalho [risos] . Publico vídeos no Instagram e no YouTube. Quando vou a um parque peço sempre a alguém para filmar, e vou pondo fotografias e vídeos. Sempre que faço alguma coisa nova tenho necessidade de mostrar. Não é para me orgulhar, simplesmente gosto que vejam. As pessoas dão apoio e isso é gratificante.”

Duarte — 16 anos:“Se me esquecer do telemóvel é um stress, porque não tenho maneira de comunicar com as pessoas. Antigamente estava muito preso às redes sociais. Atualmente gosto mais de usar o Instagram, para descobrir coisas novas ligadas à arte e à genética, e o Twitter, para me manter atualizado e ver as notícias — é fácil e rápido, porque sigo as páginas dos jornais e também há os trends. Falo com os meus amigos pelo WhatsApp e só tenho Facebook por causa do Messenger. Não me consigo imaginar sem internet. A internet ajudou-me a criar certas amizades que ainda hoje tenho. Agora sou capaz de comunicar mais, mas antigamente era mais difícil, era muito tímido. Acho que graças às redes sociais estou mais confortável ao pé das pessoas novas e consigo falar melhor com elas. Os nossos pais acham que, com a internet, não estamos tão atentos ao que se passa à nossa volta, mas no meu caso ajudou-me a perceber que o mundo não são só coisas boas. Comunicamos [entre amigos] de maneira diferente, conseguimos falar de vários tópicos porque estamos mais informados.”

Leonor M. — 15 anos: “Eu sou muito dependente do telemóvel — mais do que do computador. Dá para fazer tudo com ele, mas se me esquecer também não tem mal. Uso-o para falar com os meus amigos do grupo de jovens e da minha escola antiga, porque não estou com eles todos os dias. Utilizo muito o Messenger do Facebook e o WhatsApp. A rede social que uso mais é o Twitter, onde sigo pessoas famosas, como atores, músicos, chefs, e amigos meus, mas também gosto muito do Instagram porque gosto de tirar fotografias. Acho que as pessoas da minha idade partilham muitas coisas e acabam por não pensar quem vai ver aquilo. Por exemplo, a minha conta é privada, mas a de muita gente não é e nem sequer veem quem as segue.”

O universo digital é um dos aspetos mais característicos desta geração, como explica Madalena Lupi. “Hoje em dia, todos temos muitas companhias tecnológicas, todos utilizamos muito a internet, mas esta geração nasceu com ela. Se pensarmos que o Google apareceu em 1996, é uma geração que não conhece o mundo sem Google. Ou seja, o mundo para eles já foi definido de acordo com estes parâmetros e isso afeta em muito a maneira como eles o encaram e a maneira como reagem perante muitas coisas”.

Não são, contudo, jovens dependentes de tecnologia, sublinha a investigadora. Ainda assim, a facilidade com que chegam à informação de que precisam , graças “à internet no bolso” (o telemóvel), é determinante para o seu dia a dia: “Qualquer dúvida que um jovem desta geração tenha, tem a internet e toda uma rede enorme de pessoas que lhes explica o que é, como se faz, tudo o que houver a saber sobre o assunto.”, afirma Madalena Lupi.

Algo que pode parecer um caos para muitos, mas não para eles. “A capacidade de discriminar estímulos e de os encontrar será sempre superior à de gerações anteriores, porque cresceram com isto. Não acho que este excesso de informação seja uma coisa caótica e que desorganize. Eles próprios vão encontrando formas de selecionar esses estímulos.”, explica a psicóloga Patrícia Câmara ao Observador.

Uma realidade que faz deles pessoas mais “independentes” e “fazedores”, que utilizam a internet a seu favor para “concretizar as suas iniciativas”: “Na geração anterior, alguém que tivesse jeito para trabalhos manuais ou que até quisesse vender algumas coisas que fazia, tinha de ir a feiras e a lojas. Esta geração põe na internet e vende”.

Para a socióloga Diana Dias Carvalho — atualmente a tirar o doutoramento no ISCSP-UL sobre os jovens e a sua transição para o trabalho e para a vida adulta –, não se pode afirmar “com certeza” que há um uso excessivo da internet, especialmente porque se trata de uma geração com agendas “muito preenchidas e compartimentadas”, integrando o uso das novas tecnologias no seu dia a dia. “O que as crianças fazem online tem muito a ver com o que fazem offline: os jogos online têm a ver, por exemplo, com o gosto pelo futebol; as pessoas com quem falam online são aquelas com quem convivem offline“.

As redes sociais são das ferramentas mais utilizadas no telemóvel por esta geração, mas independentemente do domínio da internet nas suas vidas, continuam a privilegiar a comunicação cara a cara. “A tecnologia faz parte da vida deles, não foi algo que apareceu para substituir alguma coisa. Esta geração cresceu com as tecnologias e, portanto, mais do que os outros, sabe utilizá-las e não as utiliza para tudo. Eles cresceram com todo este digital e a criar relações em simultâneo”, adianta Madalena Lupi. Diana Dias Carvalho refere-se às redes sociais como “uma extensão do mundo offline e da interação face a face”.

Patrícia Câmara vai mais longe e defende que a comunicação online pode não só fazer com que os jovens que se sintam diferentes, cresçam tão menos “isolados”, como também pode servir como preparação para as relações na vida real. “Há jovens mais tímidos para quem a internet pode ser um refúgio — criando uma espécie de second life –, mas também pode ser até uma forma de se aproximarem dos outros, que de outra maneira não seriam capazes. Pode ser um passaporte para experimentar primeiro aquilo que ainda não se teve coragem de fazer na realidade, e não um impedimento do relacionamento em si”.

Pais e internet: controlo vs intimidade

A psicóloga destaca ainda a importância de haver uma “educação mais construtiva” no que toca a estas ferramentas digitais. “Acho que há sítios e horas em que as pessoas se devem desligar. Deve-se privilegiar os momentos de interação, como por exemplo os jantares de família. É importante fomentar estes espaços para que a alienação não exista efetivamente”.

Os pais muitas vezes tentam promover esta “educação”, nem que seja para tentar proteger os filhos daquilo que acham que são os perigos da internet, e muitas vezes não sabem como lidar com a quantidade de ferramentas a que os filhos têm acesso. “Estamos a assistir a uma mudança de paradigma com esta geração e os pais ficam mais aflitos porque a quantidade de coisas a que os filhos têm acesso e que eles não controlam é imensa. O que me parece é que, às vezes, por causa disso, há uma invasão da intimidade que não havia antes”, diz Patrícia Câmara, dando como exemplo determinadas aplicações que permitem aos pais localizarem os filhos e vice-versa. “No lugar onde devia estar a intimidade, o respeito e o espaço do outro passa a estar o controlo”.

A psicóloga considera que os pais deviam optar antes por um discurso “de responsabilização”, de explicação de que “há coisas que se tem realmente de saber, como a pesquisa na internet”, mas pautado “pela dignidade e pelo respeito”. “A história do Pinóquio — que foi seduzido na rua — é antiga. Há sempre predadores à espreita em todas as gerações. Cabe a todos nós, pais e profissionais, sermos instigadores de confiança, alertando para os perigos, mas sem personificarmos o ‘Velho do Restelo’ que teme em aceitar a evolução”.

A maneira como os pais olham para os perigos e benefícios do uso da internet varia consoante se trata de uma família favorecida ou desfavorecida, refere Diana Dias Carvalho. Nas famílias mais desfavorecidas, são muitas vezes as crianças que ensinam aos pais como funcionam as novas tecnologias, fazendo com que os adultos fiquem “mais distantes” e não facultem “ferramentas” aos filhos para eles se “orientarem”. Nas famílias mais favorecidas, por sua vez, são os progenitores que promovem a utilização da internet, estando por isso mais “vigilantes” e transmitindo uma série de “cuidados”.

Carlota — 18 anos e Leonor – 16 anos: “O Facebook foi a nossa primeira rede social, cada uma criou uma conta em 2012. O nosso pai não achava boa ideia que tivéssemos acesso mais cedo porque dizia que podia haver perigos e podíamos não ter bem noção do que estava a acontecer. Por exemplo, alguém fazer-se passar por uma pessoa da nossa idade, combinarmos um encontro e sermos raptadas. Nós sempre encarámos isso com muita seriedade — tivemos amigos que criaram uma conta às escondidas e nós não achávamos isso bem. Nessa altura, o nosso pai pediu-nos as passwords só para, se acontecesse alguma coisa, conseguir chegar até nós, mas nunca usou. Foi mais por uma questão de segurança e nós compreendemos. Nunca percebi muito bem porquê, mas lembro-me que os pais nos pediam para estarmos sentadas num sítio específico — à mesa por exemplo — para quando passassem pudessem dar uma vista de olhos e ver o que estávamos a fazer.”

André — 16 anos: “Tenho Facebook há sete anos e acho que nem disse nada ao meus pais quando criei a conta. Eu sei que eles ficam preocupados, mas nunca foram de me controlar. Eles sabem que eu sei tomar conta de mim. É como sair à noite: uma vez tive de levar um amigo a casa porque ele não estava muito bem. O meu pai ficou preocupado e eu disse-lhe: ”Pai, no dia em que eu chegar a casa assim, proíbe-me de sair à noite. Pode ser?”

Duarte — 16 anos: “Quando criei o meu Facebook tinha 12 anos. Acho que era a idade mínima para se criar uma conta e os meus pais não queriam que tivesse antes. Assim que tive Facebook, eles foram os meus primeiros amigos e tinham a minha password, mas acho que nunca a utilizaram. O meu pai sempre me avisou para ter cuidado com quem adicionava — dizia-me para ter a certeza de quem eram e se não tivesse, para não adicionar –, mas sempre teve muita confiança em mim. A minha mãe sempre foi mais insegura em relação a isso, não queria que me acontecesse nada.”

Leonor M. — 15 anos: “Os meus pais sempre me direcionaram para o que achavam que eu podia ou não fazer, mas nunca viram o meu Facebook. A verdade é que eu também sempre fui muito consciente. Eles não tinham a minha password, mas sabiam que se quisessem ver eu deixava sem qualquer problema. Acho que foi essa confiança que também nunca criou problemas”.

Relação com pais e irmãos

Será que estamos a falar de uma geração mais próxima dos pais? Madalena Lupi acha que sim, defendendo que o fosso geracional entre estes jovens e os seus pais é mais pequeno quando comparado com gerações anteriores, muito graças a valores que ultrapassam as fronteiras geracionais. “Os jovens sentem-se confortáveis com a geração anterior porque os valores são os mesmos. Temos pais e filhos a ouvirem as mesmas músicas e a irem aos mesmos concertos”.

Patrícia Câmara afirma que há efetivamente uma relação mais “aberta” e “flexível” entre pais e filhos, mas sublinha que existe um fosso geracional, especialmente do ponto de vista da tecnologia, o que leva depois a uma tentativa de maior controlo da vida dos filhos — “como se os miúdos soubessem mais do que os pais e os pais têm de espreitar pelo buraco da fechadura”.

Esta distância entre pais e filhos, acrescenta ainda a psicóloga, não é necessariamente negativa. Pelo contrário, serve precisamente para apoiar estas crianças ao longo do crescimento. “Crescer sem ter a sensação que há alguém que está lá pode ser a experiência mais desamparante possível. A relação entre pais e filhos deve poder jogar-se numa dinâmica de afastamentos e aproximações, de encontros e desencontros, amparados pela certeza de que sempre que faz frio se pode voltar ao ninho”.

Carlota — 18 anos: “Ter colegas com os pais separados era uma coisa comum — eu própria tenho pais separados. Lembro-me que quando estava no primeiro ano tinha bastantes colegas que já tinham os pais separados. Conheço muitas pessoas que não se dão bem com os pais ou têm relações más com eles. Todos os dias tenho colegas a queixarem-se que discutiram com a mãe porque ela não lhes deixa fazer qualquer coisa, ou porque falou-lhe mal, etc. Eu tenho uma relação muito próxima com os meus pais e, de vez em quando, até ouvimos as mesmas músicas. Às vezes o meu pai põe a rádio na M80 e se passa uma música antiga que eu começo a cantar, ele até pergunta: ”Mas tu conheces isto?’. A minha irmã e eu damo-nos relativamente bem, quando não nos damos mal [risos], mas até nos damos muito bem. Temos algumas discussões e partilhar não é coisa da Nonô. Ela gosta muito de usar a minha roupa, mas normalmente eu não posso usar a dela. Os nossos gostos são relativamente parecidos, apesar de haver muita coisa que eu gosto e ela não, e vice-versa, mas conhecemo-nos muito bem.”

Leonor — 16 anos: “Tenho uma relação próxima com os meus pais e com a minha irmã — roupa é coisa que não partilho [risos] –, mas tenho colegas com más relações com os pais, ou porque se divorciaram, ou porque nunca se deram bem. Sempre tive colegas com pais divorciados, mas de há uns tempos para cá parece que há mais. Há outros que são muito cúmplices, mas tem um bocadinho a ver com os pais. Há pais que, pelo trabalho, ou porque não têm paciência, estão mais ausentes na vida dos filhos e isso ressente-se na relação entre eles.”

André — 16 anos: “Não partilho muitos gostos com os meus pais. Não gostamos das mesmas séries nem das mesmas músicas. Quando uso a aparelhagem do meu pai, para pôr a minha música, ele costuma dizer: ‘Quando é que pões música a sério?’ [risos]. Às vezes sento-me com a minha mãe a ver a telenovela. Com o meu pai, às vezes ele vai ter comigo ao quarto e conversamos sobre futebol e ficamos a ver vídeos de skate. Temos uma relação aberta e próxima. Conto-lhes o que for preciso, falamos da nossa semana e sobre o skate, mas também temos as nossas discussões — depende do humor de cada um. Tenho muitos amigos com os pais separados e eles têm imensos problemas com isso. Queixam-se que estão sempre a mudar de sítio e que não conseguem estar com os dois ao mesmo tempo. Tenho cada vez mais amigos a passarem por isso.”

Duarte — 16 anos: “Eu tenho três irmãos, um com 21 anos — é filho do meu padrasto — e dois [meios-irmãos] com seis e quatro anos, e damo-nos todos bem. Claro que temos as nossas discussões, mas gostamos muito uns dos outros e preocupamo-nos uns com os outros. Com os meus pais, tinha uma relação mais próxima quando era mais novo. Acho que a maior parte do problema é falta de comunicação. Já não conto tudo o que se passa como antigamente. Tenho amigos que também não se sentem à vontade para falar com os pais sobre determinados assuntos, mas tenho amigas que partilham tudo com os pais e são capazes de falar de todos os problemas. Mas partilho muitos gostos com os meus pais, em termos de músicas, filmes e séries. Lembro-me de estar no sofá a ver o CSI com a minha mãe e tenho memórias de estar no carro com eles a ouvir música — o meu pai gosta de ouvir Blur e Beach Party e eu gosto muito do gosto musical dele. Antigamente se calhar era mais fácil os meus pais falarem com os pais deles sobre certas coisas, porque não tinham a quem recorrer sem ser a eles. Hoje em dia não só temos a internet, como temos outros adultos com quem falar, como professores, e falamos com os amigos.”

Leonor M — 15 anos: “Eu tenho uma relação muito próxima com os meus pais. Até tenho atividades que faço só com o meu pai, ou só com a minha mãe, ou com os dois, e se fizer com algum amigo, é muito estranho. Por exemplo, adoro ver séries com a minha mãe – agora estamos a ver o House. Com o meu pai costumo ouvir música. Gostamos muito de ouvir a Rádio Cascais porque dá muita música antiga, do tempo do meu pai, e acabamos por estar no carro a ouvir e a cantar. Acho que a minha geração tem uma relação mais aberta com os pais, falamos de todos os assuntos. Tenho ainda duas irmãs, uma com 28 anos e outra com 20. Já não estou tanto tempo com minha irmã mais velha porque ela agora está a trabalhar, mas sempre me dei bem com ela. Acabo por ter uma relação mais próxima com a minha irmã do meio porque divido o quarto com ela. Com ela falo muito do nosso dia a dia, mas se tiver algum problema, vou falar com a minha irmã mais velha, exatamente por ela ser mais velha.”

O convívio com os avós

Uma vez que se trata de uma geração que nasceu no seio de uma população cada vez mais envelhecida, e numa altura em que se vive cada vez até mais tarde, muitos destes adolescentes cresceram na companhia dos avós. Uma convivência que os marcou e continua a fazer parte dos seus rituais. Será provavelmente das últimas gerações a ter este privilégio, uma vez que se tem filhos cada vez mais tarde e, consequentemente, é-se avô numa idade mais avançada.

Carlota — 18 anos: “Tenho uma relação muito próxima com os meus avós [maternos] — não cheguei a conhecer os meus avós paternos. Falamos imenso com eles, nem que seja uma vez por semana. Nem sempre somos nós a ligar, sei que devíamos ligar mais. Eles estão em Lagos e sempre que estamos juntos parece que não passou tempo nenhum. Lembro-me de ser pequena, de a minha avó cortar uma manga, dar-me o caroço e eu comê-lo no degrau da cozinha.”

Leonor — 16 anos: “Tenho uma relação muito próxima com os meus avós, desde sempre. Eles foram para Lagos quando tinha cinco ou seis anos e ainda me lembro dos almoços de família que se faziam todos os fins de semana quando eles ainda moravam cá em cima.”

André — 16 anos: “Tenho dois avós da parte da minha mãe e uma avó da parte do meu pai — costumo estar com ela quando vou ao emprego do meu pai porque ela mora ali perto. Com os outros avós temos jantares de família, em que também vêm os meus tios — às vezes não dão jeito se eu tiver uma saída [com os amigos]. Costumo ir mais cedo para casa deles para ajudar a fazer o jantar e para conversar. Depois de comer, eu, o meu avô, os meus tios e o meu pai costumamos ficar a jogar às cartas ou a conversar.”

Duarte — 16 anos: “Eu dou-me extremamente bem tanto com os meus avós paternos como maternos. Todas as semanas estou com os quatro, costumo ajudá-los no que for preciso. Do lado materno, precisam mais de ajuda com as compras, para fazer recados e limpezas. A minha avó canta num coro e há umas semanas fui assistir, com o meu avô, a um espetáculo que eles deram no Olga Cadaval. Do lado paterno são mais independentes, mas faço-lhes companhia. Lembro-me de, quando era mais novo, ir ao zoo com eles e com o meu primo.“

Leonor M — 15 anos: “Eu sempre convivi muito com os meus avós maternos. Durante muito tempo eu saía da escola e ia para casa deles porque a minha avó tinha sido professora e ajudava com os trabalhos de casa. Com os avós paternos também tinha uma relação próxima, mas não os via todos os dias como os outros avós. Às vezes ligava-lhes a dizer que ia lanchar ou jantar a casa deles. Acho que a relação que eu tenho com os meus pais é diferente da que eles tinham com os pais deles na minha idade. Hoje em dia há uma maior abertura para falar com os nossos pais do que antigamente.”

Onde pára o amor?

A vontade de ter alguém com quem partilhar a intimidade continua a estar presente nesta geração, à semelhança das anteriores. Seja através de relacionamentos longos ou apenas fugazes, a base é sempre a mesma, como explica Patrícia Câmara: “Ter alguém que acompanhe as várias etapas do crescimento”, “que ajude na descoberta do corpo”, tendo como “expectativa” que o amor vem “compensar as fragilidades”.

Mas até aqui as redes sociais têm a sua influência. Não é fácil para estes jovens distinguir aquilo que pertence à esfera pública e o que deve ser mantido exclusivamente na intimidade. “É difícil com a maturidade própria destas idades gerir aquilo que é suposto ser público e o que é suposto ser íntimo. A intimidade acaba por ficar à mercê do julgamento de outros”.

Carlota — 18 anos: “Eu nunca tive um namorado nem uma grande paixão, mas vejo pelas minhas colegas e há muitas que estão em relações longas. Tenho uma amiga que está com o mesmo namorado há cerca de seis anos, mas depois também tenho outras que estão com alguém no máximo durante seis meses. Talvez por estarmos no 12.º ano acho que as pessoas da minha idade dão mais valor à escola e a terem emprego do que a divertirem-se. Ainda hoje tinha uma colega a queixar-se que não via o namorado há um mês por causa de trabalhos, etc.”.

Leonor — 16 anos: “Acho que não tem muito a ver com a geração em si, mas sim com a personalidade. Varia de pessoa para pessoa. Tenho amigos que não namoram e outros que sim; uns com relações mais longas e outros mais curtas. Talvez os mais frequentes sejam os namoros passageiros, de dois a três meses, se calhar porque se fartam uns dos outros”.

André — 16 anos: “São normalmente ‘namoricos’, não costumam ser relacionamentos muito longos — no geral as pessoas enjoam ao fim de três ou quatro meses. Nem sei bem explicar porquê, por uma pequena discussão acabam logo tudo .”

Duarte — 16 anos: “Hoje em dia, as relações são cada vez mais curtas — duram um mês ou poucos meses. É mais complicado manter uma relação, mas não sei bem porquê. Parece que é um pouco mais complicado as pessoas exprimirem-se e com isso perde-se a intimidade. Com as redes sociais também não é fácil porque já não há a privacidade que havia antes, é tudo público. As pessoas expõem-se mais e é difícil manter um relacionamento entre poucas pessoas — é uma notícia que circula facilmente. Com isso, há um receio de assumir as relações. Apesar de serem raros os relacionamentos longos, acho que os adolescentes valorizam as relações não só amorosas, mas também de amizade.”

Leonor M — 15 anos: “Eu conheço muitas pessoas da minha idade que têm namorado. Não são relacionamentos nem muito longos, nem muito curtos — de três a quatro meses –, mas acho que isso tem a ver com a nossa idade. Estamos sempre a querer coisas diferentes a cada momento e mudamos de opinião muito facilmente.”

Tolerância

Madalena Lupi não tem dúvidas de que estamos perante uma geração mais tolerante que as anteriores: “Para eles, a diferença é uma coisa natural e lutam por preservar essa diferença”. Uma tolerância que advém de um maior conhecimento da diversidade do mundo e das pessoas. “Eu não vejo uma geração fechada, pelo contrário. Acho que eles têm uma abertura e falam sobre determinados assuntos, como a sexualidade, a homossexualidade, de uma maneira que era impensável há 15 anos”, refere Patrícia Câmara.

Carlota — 18 anos: “Como ando numa escola de artes, em Lisboa, há uma maior diversidade de pessoas e há uma maior tolerância em relação ao que é diferente. Não sei como será noutros sítios.”

Leonor — 16 anos: “Não acho que haja uma grande tolerância. Sempre que há alguém que se veste de maneira diferente, as pessoas olham de lado.”

André — 16 anos: “Não acho que sejamos uma geração mais tolerante. Conheço muita gente que se vir um homossexual goza ou afasta-se. Para mim é indiferente, conheço um rapaz gay, ele é fixe e faz parte do nosso grupo. Ele não admite, mas nós também não gozamos com ele. Se ele for gay, nós apoiamos. Antigamente havia mais [preconceito] porque as pessoas tinham medo de expressarem os seus sentimentos. Hoje em dia, sinto que há cada vez mais pessoas a assumirem-se e as pessoas vão-se habituando. Mas ainda vai faltar algum tempo até se ser tolerante para com toda a gente.”

Duarte — 16 anos: “Com o passar dos anos estamos a tornar-nos mais tolerantes com a diversidade. Eu dou-me com pessoas tolerantes relativamente a questões como a homossexualidade e o racismo, mas também já conheci pessoas que não suportam homossexuais e que são bastante racistas. Acho que tem a ver com a família: se os pais forem racistas então os filhos também são um bocadinho. A homossexualidade não tanto, acho que é uma coisa mais individual.”

Leonor M. — 15 anos: “Acho que somos uma geração tolerante, mas estava à espera que fôssemos mais. Estamos no século XXI, cada vez somos mais diferentes e estava à espera de uma outra atitude. E com a internet podemos saber e falar de tanta coisa, e as pessoas acabam por não saber. Eu sou uma pessoa que gosta muito de falar sobre certos temas e saber a opinião dos outros. No grupo de jovens semi-católico onde ando juntamo-nos de quinze em quinze dias, fazemos atividades e falamos sobre questões como o racismo, a homossexualidade e assuntos do dia a dia, mas muitas vezes as pessoas isolam-se e nem sabem do que se está a passar. Há uma certa vergonha em falar de algumas questões como a homossexualidade. Há uma brincadeira que os meus amigos costumavam fazer que é dizer coisas como ‘mas que atitude gay’ ou ‘és mesmo gay’. Eu detesto isso porque, para mim, ser gay não é um insulto. Acho que não o fazem por maldade, é mais porque não pensam no que estão a dizer.”

Igualdade de género: será desta?

A igualdade de género tem sido um tema extremamente debatido e chegou aos ouvidos destes jovens. É por isso uma questão à qual estão mais atentos. “Está a fazer este movimento no sentido em que mulheres e homens o percorram de uma forma mais idêntica”, defende Patrícia Câmara.

Carlota — 18 nos: “Na escola é um bocadinho ao contrário do que as pessoas pensam. Os rapazes são pior tratados porque assume-se que eles são os que se portam pior. Na minha aula de Geometria Descritiva, houve um colega que foi expulso da aula por ter falado uma vez, enquanto uma outra colega que estava sempre a incomodar não foi. Também acontece o contrário. Ou seja, as raparigas não poderem fazer algumas coisas que os rapazes podem. No nono ano, por exemplo, tive um professor de educação física que punha os rapazes a jogarem à bola, uns contra os outros, e as raparigas só ficavam a rematar à baliza quando algumas delas até jogavam melhor que alguns rapazes — mas esse professor era um bocado machista.”

Leonor — 16 anos: “Ultimamente fala-se muito mais nesta questão, mas apesar do esforço, ainda há muito esta desigualdade. Pessoas que ainda dizem que as raparigas não se devem sentar de determinada maneira e não devem dizer certas coisas. Ainda assim, é algo que tem vindo a melhorar.”

André — 16 anos: “Não noto uma grande diferença de tratamento entre rapazes e raparigas. Há muitas raparigas que jogam futebol e outras que andam de skate. Nós tratamos toda a gente igual, mas quando se aleijam, parece que nos preocupamos mais com as raparigas. Não é por mal, é só uma questão de cuidado.”

Duarte — 16 anos: “As pessoas que me rodeiam consideram as raparigas iguais aos rapazes. Não notam diferença de tratamento na escola, por exemplo — acho que os professores têm a mesma atenção e o mesmo cuidados com todos –, mas ainda se encontram pessoas que acham que as mulheres são ‘inferiores’. Não é uma coisa que se oiça muito, mas quando alguém está mais irritado ou numa situação complicada, ainda se veem pessoas a recorrerem a esta diferença.”

Leonor M. — 15 anos: “Hoje em dia estamos mais relembrados desta questão e pensamos mais nisso. Já aconteceu, durante uma aula, um professor dizer que aquilo que estou a fazer não é trabalho para uma mulher e para pedir ajuda a um colega. Tenho também um professor que acha que trabalhar num bar não é trabalho para uma mulher. Obviamente que não gosto de ouvir, mas como são professores não posso ter grande reação. São pessoas mais velhas, acho que na minha geração já não se nota tanto.”

Terrorismo

A palavra terrorismo ganhou toda uma outra dimensão após o 11 de setembro de 2001. Nessa altura, os jovens da Geração Z ainda não eram nascidos, ou eram demasiado novos e não se lembram do que era o mundo antes da queda das Torres Gémeas, moldando por isso a maneira como olham para os ataques terroristas.

“Eles vivem num mundo em que as coisas estão em constante ameaça terrorista. Um jovem desta geração que veja uma mochila abandonada no metro, o primeiro pensamento que tem é: ‘será que alguém deixou aqui uma bomba?’, enquanto uma pessoa com a mesma idade há uns anos pensaria: ‘olha, alguém esqueceu-se da mochila’.”, explica Madalena Lupi.

Já Patrícia Câmara não acredita que estes jovens estejam assustados com estes ataques, especialmente por acharem que Portugal é um país seguro.

Carlota — 18 anos: “Não gosto muito de pensar nessa questão. Se pensarmos todos os dias nisso [nos ataques terroristas], vamos estar a criar medos que até podem ser verdade, mas que são desnecessários. Não podemos viver a vida com medo.”

Leonor — 16 anos: “Eu não ligo muito [à questão do terrorismo], talvez porque vivo em Portugal. Se calhar, se vivesse noutro país em que os atentados acontecessem com mais frequência não pensaria assim, mas não estaria tão preocupada quanto as pessoas que sempre viveram naquele país. E não, se vir uma mochila abandonada, não penso logo que pode ser uma bomba.”

André — 16 anos: “O terrorismo não me assusta, antes pelo contrário. Às vezes vejo onde aconteceram os atentados porque já sei que depois as viagens para lá vão ficar mais baratas. São também países que depois acabam por ter mais segurança. Por um lado é mais chato — tens de ser revistado e eles têm muito mais cuidado –, mas por outro não volta a acontecer um atentado tão cedo graças a essa segurança.”

Duarte — 16 anos: “Ainda me lembro do que era viver sem terrorismo. Lembro-me que era mais calmo quando queríamos sair do país. A questão do terrorismo é uma coisa de que falamos entre amigos. Se acontecesse alguma coisa em Portugal, não sei como as pessoas iriam reagir — talvez não estejamos preparados. A notícia do primeiro atentado em Paris chocou-me. Ficámos [os meus amigos e eu] todos um bocado em pânico, sem saber o que dizer e as redes sociais foram invadidas com montes de coisas.”

Leonor M. — 15 anos: “O terrorismo é uma coisa com que vivemos todos os dias. As notícias são só sobre isso, sobre a crise e sobre miséria. Não acho que sejamos uma geração mais insegura, acho exatamente o oposto. Somos muito mais calmos neste tipo de coisas, mas isso tem um lado mau: não somos responsáveis.”

Crescer com a crise

Para além do terrorismo, a crise financeira foi outro dos fenómenos que marcou o crescimento destes jovens. A grande maioria não se lembra do que é viver sem crise.”Eles têm muita noção do que foi a crise e têm consciência de que ela pode comprometer ou condicionar o seu futuro”, defende Diana Dias Carvalho.

Carlota — 18 anos: “Como vivemos quase toda a vida em crise, não temos bem noção do que é viver sem ela, então acabamos por achar isto tudo normal. Acho que a nossa geração ficou marcada por esta crise e acabou por fazer com que estejamos mais atentos aos gastos, mas não acho que sejamos uma geração poupada. Mesmo que a crise passasse iríamos ter cuidado e atenção para não gastar muito dinheiro — por exemplo, iríamos continuar a estar atentos aos produtos mais baratos ou em promoções.”

Leonor — 16 anos: “Não me lembro de viver sem crise. Há uns tempos tinha a perceção de que as pessoas estavam preocupadas em poupar e agora nem tanto. Cá em casa tentamos poupar, mas não é nada de preocupante. Tentamos não deixar as luzes todas acesas, não gastar água desnecessariamente e, quando vamos ao supermercado, estamos mais atentos aos produtos mais baratos.”

André — 16 anos: “Toda a gente fala na crise. Os meus amigos e eu tentamos sempre ir jantar ao mais barato possível, nem que seja se eu não tiver muito dinheiro, os meus amigos vêm todos jantar a minha casa e depois pagam-me a saída. Em casa senti algumas diferenças, mas nunca me faltou nada. O meu pai sempre que vai ao supermercado leva vales do Mini Preço ou do Pingo Doce, vê os descontos online, vai mais vezes às compras quando há descontos — noto essa preocupação. Normalmente mudo de skate de mês a mês, dependendo do esforço que faça, mas houve uma altura em que tive de me aguentar com o que tinha.”

Duarte — 16 anos: “Lembro-me que antes da crise as notícias eram mais calmas. Havia menos stress em termos das escolhas que fazemos, que podemos ou não fazer. Em casa, a maior diferença que notei foi nos gastos — sabemos quanto custa um litro de leite no Continente, no Lidl, no Pingo Doce e fazemos comparações para ver o que é mais barato. Antes estávamos mais à vontade e agora há mais avisos. Por exemplo, costumava deixar a televisão ligada para companhia, mesmo que não estivesse a ver nada. Agora já considero isso um desperdício. Com o passar do tempo consegui perceber que as coisas já não são o que eram e consegui habituar-me a isso. Eu até me considero poupado, mas tenho gastos que posso evitar. Não acho que a pessoas minha idade sejam muito poupadas. Se recebem dinheiro e têm algo em mente, gastam logo e não esperam para que o preço fique melhor, por exemplo.”

Leonor M. — 15 anos: “Acho que não me lembro de viver sem crise. Os telejornais passam muita coisa sobre a crise e coisas políticas e, ainda que sejam assuntos importantes, acho que se devia falar mais sobre cultura e sobre o país em si. As pessoas já vivem em stress e depois chegam a casa e na televisão só se fala nisso. Em minha casa não falamos tanto em poupança, mas o meu pai tenta explicar-me o que está a acontecer para eu ter noção do que se passa à minha volta. Eu sempre fui muito de juntar dinheiro para comprar coisas que são importantes para mim: a minha bateria, a minha máquina fotográfica, a minha primeira Nintendo.”

Madalena Lupi também sublinha o peso da crise nesta geração. “Provavelmente tiveram pais que perderam emprego, houve estilos de vida que mudaram. Eles já perceberam que nada é seguro, que as coisas podem acabar de um momento para o outro e portanto já não são tão idealistas”. Ao serem menos “idealistas” e mais “fazedores”, continua a investigadora, é também uma geração que pensa que “pode mudar o mundo no pequeno espaço que é seu e no grande espaço que é a internet”.

Futuro profissional….

Patrícia Câmara considera que se trata de uma geração que procura “alternativas” ao dito emprego clássico — as startup e a”recuperação” dos cursos profissionais são exemplo disso. “Procuram coisas mais centradas a partir de si próprios, na construção de coisas para o mundo, do que propriamente na integração de grandes instituições”.

A crise também fez com que se tornassem “menos obstinados” com as carreiras e levou-os a questionar os “padrões de sucesso”. “Não me parecem miúdos tão centrados no sucesso, até porque a maior parte sente que as carreiras não existem”, acrescenta.

E será que, à semelhança das gerações anteriores, estão de olhos postos lá fora em novas possibilidades de emprego? Patrícia Câmara acha que não. “Acho que esta ideia de ir para fora está a ficar mais pequenina. Não só pela questão do medo — dos atentados terroristas, do Brexit –, mas também pela vontade de reabilitar o próprio país. Os momentos de grande crise também obrigam a um olhar para dentro social e psicologicamente”.

Esta insegurança relativamente ao futuro faz com que alguns jovens optem por estar mais focados no aqui e agora. “Acho que esta indefinição do futuro é a grande diferença para esta geração. Além de que o presente é tão espesso que eu não acho que eles estejam propriamente a pensar no futuro”, defende Patrícia Câmara.

Carlota — 18 anos: “Eu costumo pensar mais no presente do que no futuro — penso a cinco anos no máximo –, mas tenho imensas colegas que estão preocupadas em melhorar as notas desde o nono ano para conseguirem entrar na faculdade. Acho que se devia pensar mais no agora. Este ano vou acabar o 12.º ano e, para o ano, estou a pensar fazer um Gap Year e ir para Londres aprender inglês para depois ir para a Tailândia dar aulas. Queria também passar pela Austrália para visitar uns primos que estão lá a viver e só depois voltar a Portugal. Gostava de ir para a faculdade quando voltasse, mas não sei para que curso. Tento não pensar muito nisso [de faculdade e emprego]. As oportunidades fazem-se. Temos é de estar atentas a novas oportunidades, mesmo que não seja na nossa área. Ou seja, aceitar um trabalho mesmo que não seja na nossa área e mais tarde arranjar forma de chegar aos nossos sonhos.”

Leonor — 16 anos: “Agora estou no 10.º ano em humanidades. Eu até teria ido para ciências, mas tinha físico-química e matemática e eu sabia que não iria resultar. A verdade é que nunca tive aquela coisa de saber desde pequena o que queria ser. Estou a pensar em ir para Direito — o meu pai até disse que talvez conseguiria arranjar-me um estágio –, mas ainda não sei bem. Por enquanto é só uma ideia, não sei se é mesmo isso que quero seguir. Sei que gostava de fazer Erasmus quando estivesse na faculdade e talvez até ir trabalhar para fora. Eu sempre tive familiares a viverem na Austrália portanto, para mim, é uma coisa normal ter pessoas longe e só as ver de vez em quando.”

André — 16 anos: “Estou no 10.º ano em humanidades. No ano passado estive em ciências, mas não gostei muito. A meio do ano deixei de me empenhar, quase não ia às aulas e ficava o tempo todo a andar de skate porque já sabia que ia mudar de área. Planos para o futuro não tenho nenhuns. Eu gostava de seguir skate, mas não sei. Depende das oportunidades que forem surgindo, dos patrocínios, dos campeonatos, mas o tempo irá proporcionar isso tudo. Se der para seguir skate, muito bem. Se der para seguir outra coisa, segue-se outra coisa — tem é de ser algo relacionado como fotografia ou filmagens. Para ser skater vou ter de ir para fora. Estados Unidos é o sítio em que se ganha mais nome, mais dinheiro e há mais probabilidade de ser profissional. É o meu sonho.”

Duarte — 16 anos: “Para mim, aquilo que fazemos no presente vai influenciar o nosso futuro e acho que se queremos ter um bom futuro, há que ter cuidado com o que se faz no presente. No nono ano estava um bocado indeciso entre ciências e artes. Fascina-me tudo o que tenha a ver com artes — toco trompete, adoro pintura e escultura. Só que depois achei que seria difícil escolher o que seguir no universo das artes. Outra coisa que me influenciou foi a saída [profissional], ter emprego. Então fui para ciências. Foi um escolha racional — se tivesse escolhido com o coração, teria ido para artes. Gostava de seguir Genética. É uma área que me interessa, tentar perceber como está tudo estruturado. Se conseguir ter notas, gostava de ir para uma faculdade de Genética que há nas Caldas da Rainha, mas também pondero ir estudar fora. Mais tarde, gostava de ter um bom emprego, ainda que tenha medo de não ter emprego em Portugal.”

Leonor M. — 15 anos: “Eu estou a tirar técnicas de cozinha e pastelaria na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Depois estou a pensar ir para a faculdade também no Estoril. É um curso profissional, decidi entrar num curso específico logo porque não sabia que área haveria de escolher e para escolher algo que não iria gostar muito, não valia a pena. Espero um dia ter o meu restaurante, com comida não tanto tradicional, mas mais molecular. A cozinha depende muito do dia da pessoa que estiver a cozinhar, e tem muito por base a inspiração de cada um.”

… e pessoal?

Mas não se pode descartar o lado pessoal e Patrícia Câmara considera que o maior receio dos jovens continua a estar ligado a este aspeto: “Não encontrar alguém com quem partilhar a vida”. Para esta geração, a família voltou a ter um lugar central, defende a psicóloga. “Querem uma carreira sim, mas sem abdicar de existência”.

Carlota — 18 anos: “Eu não penso muito nisso [ter alguém]. Às vezes vezes falamos deste assunto, mas é uma coisa sem muita importância.”

Leonor — 16 anos: “Acho que toda a gente pensa em ter filhos e casar fica mais em segundo plano. Não acho que seja preciso um papel para se poder ter filhos ou para dar importância a uma relação. Acho que a maior parte das pessoas da minha geração pensa em ter filhos sem casar antes.”

André — 16 anos: “Gostava também de ser pai aos 20 e poucos para acompanhar durante mais tempo os meus filhos. Normalmente as pessoas pensam em acabar o 12.º ano, ter uma média fixe, escolher um curso, acabar a faculdade, ter emprego e vida estável e só depois casar e ter filhos. Eu sou completamente ao contrário: acho que é bom ter uma vida estável, mas isso demora muito tempo.”

Duarte — 16 anos: “Quando imagino o meu futuro, claro que me preocupo com o emprego, mas não estaria tão motivado em querer ter um bom emprego se não tivesse alguém ao meu lado. Gostava de assentar e ter filhos, ensinar aquilo que aprendi à minha descendência, mas nem todos pensam como eu. Tenho muitos colegas que nem pensam em ter filhos ou só pensam em ter muito mais tarde, quando tiverem uma vida mais estável. Eu gostava de ter dois filhos, para terem irmãos. Talvez um casal: um rapaz e uma rapariga.”

Leonor M. — 15 anos: “A nossa geração pensa cada vez menos em casar e ter filhos — não é uma coisa de que falamos muito entre amigos, é mais de passagem. Pensamos em fazer tudo muito mais tarde porque achamos que quando tivermos 28 anos, por exemplo, não vamos ter um emprego estável. Eu penso muito nos filhos que terei: como vou conseguir conciliar o tempo que eles vão estar de férias e eu não estou; as horas a que vou chegar a casa e eles já vão estar a dormir. Acho que vou ter de ter alguém ao meu lado que vai ter de ser muito tolerante comigo.”

 

vídeos e fotografias no link:

http://observador.pt/especiais/geracao-z-os-jovens-que-nasceram-na-era-da-internet-da-crise-e-do-terrorismo/

Geração i. Eles têm menos problemas com as drogas que os pais

Abril 27, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://ionline.sapo.pt/ de 13 de abril de 2017.

Têm hábitos de consumo de drogas diferentes dos pais e dos avós. A Geração i dedica esta edição à troca de experiências inebriantes entre gerações.

Eles gostam da noite, gostam das conversas até às tantas, gostam de dançar sem parar e gostam de experimentar coisas novas, tal como os jovens de todas as outras gerações. As drogas não são novidade para a geração dos millennials, mas quem viveu os tempos mais negros do uso de substâncias ilícitas foram as geração anteriores à que teimamos chamar Geração i.

Em Portugal sabe-se que foi com a Revolução dos Cravos que as ondas de substâncias psicoativas começaram a inundar uma sociedade mal habituada no que à liberdade dizia respeito.

“O consumo de substâncias ilícitas em Portugal ganhou expressão depois do 25 de Abril e a grande diferença para com outros países europeus foi que muitos dos consumidores de então vieram a ter um uso problemático. Subitamente, as pessoas experimentavam e, quando davam por elas, estavam dependentes”, explica João Goulão, diretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), que garante que o consumo de droga tem hoje um menor impacto na saúde individual e coletiva do que no passado.

No livro “LX 70”, de Joana Stichini Vilela, lê-se: “A novidade está na democratização. Se, antes do 25 de Abril, as drogas eram de acesso quase exclusivo a estrangeiros ou gente viajada, logo em 1975. o responsável da secção de narcóticos da Polícia Judiciária afirma que ‘o consumo tem aumentado assustadoramente’. Multiplicam-se os desvios das unidades de saúde e, a partir de meados de 1977, tornam-se vulgares os assaltos a farmácias.” Já na altura, os mais jovens tinham especial adoração pelas drogas sintéticas: “A juventude adora speeds, drogas legais consumidas de forma criativa.”

Orgia de sensações

“Naquele tempo vivíamos uma orgia de sensações, era impossível resistir, todos os dias chegavam novidades a Lisboa”, conta ao i Alverga, de 55 anos, agora emigrada, que experimentou do haxixe à erva, da coca à heroína, do LSD aos speeds:“Para nós era espetacular, proporcionava-se uma onda de experimentações, era o início da era dos concertos, era a camaradagem. O regime tinha acabado e nós fomos levando aquilo numa corrente de vontade de sermos iguais ao resto do mundo.”

Alverga explica que nunca houve falta de informação – não havia internet, mas sabia-se o que se estava a experimentar. A grande diferença entre gerações, na sua opinião, é que a dos pais dos jovens da sua geração não faziam ideia em que é que os filhos estavam metidos, não havendo noção de que se começavam a perder: “Estou a falar da minha visão, de alguém que sobreviveu a tudo isto e está a contar porque está viva, mas tive amigos meus que morreram de overdoses, de danos colaterais como a sida, pessoal que se meteu na prostituição, que se suicidou, que foi preso, que ficou louco. Agora, como tudo na vida, ao fazermos as experiências, há quem consiga passar pelas coisas de forma experimental, sem se deixar levar pela degradação, e a minha geração teve, penso eu, as duas partes. Era tudo perfeitamente consciente, só que os nossos pais nunca o tinham feito. Por isso, não conseguiam perceber os sintomas e o que andávamos a fazer. Os pais de hoje sabem porque muitos experimentaram; então, podem guiá-los.”

João Goulão, especialista no cenário português, confirma: “É verdade que há muito consumo hoje em dia, mas os impactos na saúde pública são muito menores do que noutras alturas. É uma geração mais aberta, o que é uma das grandes diferenças, também ocasionada pelo facto de o consumo ter deixado de ser considerado um crime. Há uma maior abertura para discutir o assunto em muitos contextos, desde o familiar ao laboral e às escolas. As pessoas falam mais abertamente e pedem ajuda com muito mais facilidade. A evolução continua a ser globalmente positiva.”

Goulão elucida que “hoje em dia há muito consumo que não conduz necessariamente à dependência. É uma geração muito informada, os problemas ocasionados por drogas são percentualmente muito inferiores aos que ocorriam há 20 anos”.

O álcool também é droga

Entre todas as gerações, “a canábis sempre foi, de longe, a substância ilícita mais consumida, a seguir ao álcool, que é lícito”, conclui. José Henrique dos Santos, psicólogo clínico e um dos autores do Plano Nacional de Prevenção de Suicídio, descreve a alteração de consumos: “A grande mudança é que, nas duas gerações mais recentes (millennials e geração Z) há um consumo muito de grandes volumes e quantidades de álcool num tempo muito reduzido, o conhecido binge drinking. Hoje em dia utiliza-se muito este padrão e é por isso que existem os shots, que são autênticos tiros na cabeça. Em relação às gerações anteriores, o padrão de consumo era diferente. Era um padrão que normalmente assentava em quantidades diárias, com um consumo mais regular, mas mais contido. Mesmo com o tabaco vê-se este padrão: não fumam, mas ao fim de semana desforram-se, comportamentos típicos das culturas do norte da Europa.”

As estatísticas comprovam

De acordo com o Instituto Nacional sobre o Abuso de Drogas (NIDA), nos Estados Unidos da América, os millennials realmente usam menos drogas e menos álcool do que os seus pais. O uso de drogas entre adolescentes diminuiu mais de 34% entre 1993 e 2013, um período de tempo crucial que abrangia a adolescência de quase todos os pertencentes à geração millennial.

Em Portugal, os dados também confirmam essa realidade e ainda apontam para que a tendência se mantenha para as próximas gerações. As conclusões constam do European School Survey Project on Alcohol and other Drugs (ESPAD), feito entre 2011 e 2015 junto de alunos que completaram 16 anos no ano da recolha de dados.

Relativamente às drogas, a percentagem de alunos que até aos 16 anos já tinham experimentado está a estabilizar: 16% em Portugal (18% média europeia), sendo a canábis a mais experimentada, e a mais consumida no último ano e no último mês.

As novas substâncias psicoativas são mais consumidas em alguns países do que “outras drogas”, sendo a média europeia de experimentação de 4% e, em Portugal, apenas 1%.

Também o consumo de álcool e tabaco entre jovens até aos 16 anos tem vindo a diminuir na Europa, com Portugal a situar-se abaixo da média europeia, mas ainda assim com consumos elevados de bebidas alcoólicas.

 

 

 

O que os adolescentes consideram cool

Abril 23, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto do  http://blitz.sapo.pt/ de 8 de abril de 2017.

Zoran Ivanovich (Creative Commons)

Um estudo da Google indica onde se encontram as preferências dos adolescentes de hoje em dia

Todas as gerações são distintas. As preferências dos adolescentes de há meio século são, hoje, muito diferentes das preferências dos adolescentes de hoje. E assim vai variando, de década para década, de época para época. Traduzido por miúdos: o que ontem era “fixe” hoje é “uma seca”.

A Google elaborou, recentemente, um estudo que visa, precisamente, apontar onde se situam as preferências dos adolescentes de hoje em dia, a denominada Geração Z – a que nasceu em meados da década de 90, já com o uso da Internet disseminado por todo o mundo. No entanto, foram apenas considerados os jovens com idades compreendidas entre os 13 e os 17 anos.

Segundo o estudo, aquilo que é considerado “fixe” para a Geração Z é, também, uma representação dos seus valores, das expetativas que guardam para si próprios, dos seus amigos, e das marcas que mais apoiam. Neste grupo estão, por exemplo, o YouTube, a Netflix, a Nike e a própria Google.

E quais são, então as preferências musicais desta geração? Segundo o estudo, são mais variadas do que qualquer preconceito poderia ditar. Entre os artistas mais “votados” pelos inquiridos estão gigantes da pop atual, como Drake e Beyoncé, mas também bandas como os Coldplay, Fall Out Boy, ou Panic! At The Disco – e até os Beatles encontraram espaço nos corações, e ouvidos, da Geração Z.

A música ainda detém um papel importante na “fixeza”; para estes adolescentes, as celebridades mais importantes são, quase todas, músicos, destacando-se Selena Gomez, Chance the Rapper e Ariana Grande. O seu nível de popularidade mede-se, também, pelas suas ações: os mais “genuínos” e filantrópicos são considerados os “mais fixes”.

Por ter crescido rodeada de computadores e, mais importante ainda, pela Internet, não é de estranhar que esta geração mostre, também, um forte apego pela novidade tecnológica. De todos os inquiridos, 24% (14% rapazes, 10% raparigas) disseram que aquilo que é “mais fixe” são as novas tecnologias.

(Talvez) Por isso, são poucos os que afirmaram não possuir um smartphone: apenas 9,6% dos inquiridos, sendo que neste campo a Apple suplanta ligeiramente a Microsoft, com 42,3% a preferirem o Iphone aos Androids.

No que diz respeito às redes sociais, plataformas de partilha de imagens e vídeos, como o Snapchat e o Instagram, são rainhas. O Facebook ainda é utilizado, mas apenas para consumo diário – partilhar algo através desta rede já não é “fixe”.

E se, novamente, o preconceito ditar velhos adágios como “os jovens de hoje já não se interessam pela leitura”, saiba que nada se encontra mais longe da verdade: ler é uma atividade indispensável e “fixe”, lado a lado com os videojogos. Afinal de contas, estamos a falar de uma geração que não conheceu o mundo sem Internet – e que, por causa dela, se tornou na mais informada de sempre.

 

As regras do Instagram foram simplificadas para que até as crianças as compreendam

Janeiro 19, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 9 de janeiro de 2017.

rui-gaudencio

Estudo mostra que os jovens passam 20 horas semanais na Internet Rui Gaudencio

Uma advogada esteve a “traduzir” a linguagem hermética da versão dos termos e condições em inglês. Crianças e jovens afirmam que não utilizariam a rede social se soubessem com o que estavam a concordar.

Inês Chaíça

Um estudo do Comissariado para as Crianças inglês determinou que os “Termos e Condições” das redes sociais não estão escritos de maneira a que as crianças percebam. Só no Reino Unido, 56% das crianças entre os 12 e os 15 anos têm Instagram, mas uma grande parte dos jovens em estudo com a mesma idade diz não compreender as condições de adesão a esta rede social.

Não é novidade que os jovens da “Geração Z” (ou seja, os nascidos depois de 1998) passam muito tempo na Internet. Um estudo da Common Sense Media mostrou que passam nove horas por dia nas redes sociais. Outros estudos e relatórios dizem que passam quase 20 horas por semana online – muitas dessas horas passadas nas redes sociais. Só o grupo de crianças entre os três e os quatro anos passou oito horas e 18 minutos por semana a usar a Internet.

Um estudo do Instituto Superior de Psicologia mostra que 70% dos jovens portugueses até aos 25 anos apresentam sinais de dependência, dos quais 6% admite ter ficado “sem comer ou sem dormir por causa da Internet”. Mas quantos podem dizer que sabem com o que estão a concordar quando marcam a caixa que diz “Li e compreendi os termos e condições de utilização”? De acordo com um relatório do Comissariado para as Crianças de Inglaterra, Growing Up Digital, publicado na semana passada, as expressões usadas nessas páginas são tão complexas que são “impenetráveis e largamente ignoradas”.

O grupo, composto por profissionais dos sectores público e privado de várias áreas, trabalhou com crianças e jovens entre os oito e os 15 anos que utilizavam o Instagram (ainda que a rede social apenas autorize a utilização a maiores de 13 anos).

“Os Termos e Condições são a primeira coisa com a qual alguém concorda quando se inscreve em sites, mas claro que ninguém os lê. Quero dizer, quase nenhum adulto os lê”, afirma Jenny Afia, advogada e colaboradora no grupo de trabalho do Comissariado Para as Crianças de Inglaterra, ao jornal norte-americano Washington Post. O que a leva a concluir que a maior parte das crianças não sabe no que se está a inscrever quando aceita as condições das redes sociais.

Traduzindo o “legalês”

Trabalhando especificamente com os “Termos e Condições” do Instagram, pela sua popularidade entre os jovens, conseguiram perceber que tem mais de 5000 palavras e sete páginas, num vocabulário hermético, um “legalês”. De acordo com um teste de legibilidade, conseguiram perceber que só um licenciado teria facilidade em compreender na totalidade a linguagem utilizada.

Depois da leitura, o grupo de jovens disse que tinham conseguido perceber muito pouco. Uma adolescente de 13 anos chegou mesmo a perguntar se seria necessário ler tudo até ao fim: “isto tem, tipo, 100 páginas”, lê-se no relatório. O problema é que os termos e condições têm exactamente tudo o que estes jovens precisam de saber sobre os seus direitos online. Por isso Afia ficou encarregada de traduzir o “legalês” para inglês comum, simplificado – e o mesmo documento ficou apenas com uma página.

Por exemplo, no artigo 4.º que explica os direitos do utilizador lê-se:

“O utilizador declara e garante que: (i) é o proprietário do Conteúdo que publica no ou através do Serviço ou que de algum modo dispõe do direito de ceder os direitos e licenças estipulados nos presentes Termos de Utilização; (ii) a publicação e o uso do Conteúdo do utilizador no ou através do Serviço não desrespeita, não constitui a apropriação indevida nem infringe os direitos de terceiros, incluindo mas não limitado a direitos de privacidade, direitos de publicidade, direitos de autor, direitos de marca comercial e/ou outros direitos de propriedade; (iii) pagará quaisquer direitos de autor, taxas e quantias devidos resultantes de Conteúdo que este publique no ou através do Serviço; e (iv) tem o direito e a capacidade legal de subscrever os presentes Termos de Utilização na respetiva jurisdição.”

Que, “traduzido”, fica apenas:

“Partimos do princípio de que é dono de tudo o que publica e que não constitui uma ofensa à lei. Caso contrário, poderá ser multado e terá de pagar essa multa”.

Outra frase determina: “Oficialmente, é dono de tudo o que publicares, mas estamos autorizados a usá-lo e podemos deixar que terceiros o usem. Essas pessoas podem até pagar-nos para usar as imagens, mas não a si”.

Vários adolescentes disseram que não usavam o Instagram se soubessem de tudo o que estão a aceitar. “Usava muito menos as mensagens directas do Instagram se soubesse que [o Instagram] as podia ler”, afirmou uma jovem de 13 anos. “Eles devem mesmo saber que ninguém lê os Termos e Condições. Se os tornassem mais fáceis de ler, as pessoas pensariam duas vezes antes de aderirem”, disse a mesma jovem, que garantiu que ia apagar a aplicação.

Outro jovem de 16 anos diz ter percebido “a quantidade de informação pessoal” que está a dar “a uma empresa aleatória” sem se aperceber. Jenny Afia acrescentou que “até advogados com experiência têm dificuldade em perceber os Termos e Condições de alguns sites. Como podemos esperar que as crianças percebam?”

A General Data Protection Regulation, da União Europeia, a entrar em vigor em 2018, deve vir a protegê-los da maior parte dos abusos de privacidade por parte de empresas privadas. Até que haja transparência por parte dos sites, o consentimento informado das crianças e jovens não será uma realidade, afirma Jenny Afia, acrescentando que “os pais têm de ter consciência de que eles são crianças até serem adultos e não a partir do momento em que pegam num smartphone”.

Texto editado por Hugo Torres

 

 

Geração Z – Reportagem da SIC

Abril 11, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Reportagem da SIC de 3 de abril de 2016.

ver o vídeo da reportagem no link:

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2016-04-03-Geracao-Z

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Geração Z é uma designação que serve para explicar os comportamentos dos jovens que nasceram com a internet e com tudo o que a revolução tecnológica significa. À geração Z já pertencem dois 2 milhões de portugueses.

 

 

 

A geração que quer “transformar isto tudo”

Fevereiro 28, 2016 às 4:41 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do Público de 13 de fevereiro de 2016.

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Catarina Fernandes Martins (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotografia)

Conhecidos como nativos digitais, ignoram o que é viver sem Internet. Esta é a geração do 11 de Setembro, do aquecimento global, da crise financeira e da consciência de que o futuro não trará a prosperidade de que os pais gozaram. Vivem colados ao écrã, sim, mas com os pés assentes na terra.

Inês do Canto, 16 anos, diz já ter sentido os efeitos de ter nascido num mundo onde quase tudo se faz com um dedo a deslizar pelo écrã. Sabe que quer ser música e desde cedo que toca saxofone no Hot Club. Mas, numa determinada altura, os progressos na prática do instrumento não se faziam notar. Inês encontrou dificuldades e desistiu. Agora, com a distância analítica de ter aprendido com um erro, pensa ter compreendido o que aconteceu: “Somos uma geração muito rápida, estamos habituados a ter tudo muito rápido, com a Internet. Quando não temos tudo rapidamente, desistimos ou ficamos desmotivados”.

Inês voltou ao saxofone, determinada a apostar numa carreira no mundo da música e consciente de que o jogo que quer jogar se faz no longo prazo. É quase como correr uma maratona — não há gratificações instantâneas, mas um plano estratégico de doseamento de esforço e de intensidade para chegar à meta. “Um dos traços mais vincados da minha maneira de ser é pensar sempre no longo prazo”. E nesse seu plano estratégico, a Internet, utilizada em moderação e com um propósito bem definido, é uma ferramenta valiosa. “Uso as redes sociais para divulgar o meu trabalho. Sei que há muita gente a querer o mesmo que eu, sei que há muita porcaria que é preciso filtrar, tenho algum receio, mas sei que agora, mais do que nunca, é mais fácil ser empreendedora”, diz.

Inês demonstra uma consciência que parece não colar à imagem generalizada que é feita dos jovens e adolescentes da Geração Z, a designação mais utilizada para referir o grupo de crianças, adolescentes e jovens nascidos entre 1994 e 2012, no momento de afirmação e consolidação da Internet. Depois dos Baby Boomers, da Geração X e Y (também conhecida por Milénio), chegou a vez da Geração Z. E em Portugal são praticamente dois milhões.

Facilmente se olha para estes jovens como seres fúteis, vazios e narcisistas, incapazes de pensar além da selfie, da aprovação nas redes sociais. Tememos o aumento do défice de atenção nas crianças pela sua incapacidade de largar o telemóvel, a televisão, os videojogos, o computador — tudo ao mesmo tempo, respondendo a uma velocidade estonteante aos estímulos sociais que chegam de todas as frentes. Lemos relatos de novas formas de pressão dos pares, de humilhações invasivas, disponíveis para o mundo inteiro assistir.

E, tal como aconteceu com as gerações anteriores (cada uma considerada mais narcisista e vazia do que aquelas que a antecederam), os mais velhos receiam que os jovens e as crianças de hoje não estejam à altura de herdar o desafio e acabem por transformar o mundo para pior.

Os miúdos da chamada Geração Z não conhecem outro mundo e outro modelo de sociedade que não aquele que a Internet uniu e moldou. Mais do que isso, esta geração cresceu a explorar a Internet nos dispositivos móveis, gozando de um acesso quase imediato a tudo e a todos.

Mas a velocidade que experimentam todos os dias, essa sensação quase vertiginosa de que tudo está em permanente mudança, não é característica dos grupos de amigos e das esferas privadas da Geração Z. Nestes vinte anos, não foi só a tecnologia que mudou e evoluiu. A economia e a política mundial atravessam transformações profundas, com o 11 de Setembro, que deu início a uma nova ordem mundial marcada pelo terrorismo islâmico, a crise financeira de 2007 e o aquecimento global. Neste espaço de tempo, muitos países do mundo ocidental debateram causas progressistas como o casamento gay e a adopção por casais homossexuais. Recentemente, o feminismo parece estar de novo na moda, com uma roupagem mais moderna e protagonistas que, muitas vezes, já são jovens Z, com uma linguagem e formas de actuação próprias das redes sociais.

Os membros mais velhos da Geração Z serão, provavelmente, novos demais para se lembrarem do “tempo das vacas gordas” e da sensação de “fim da História” que se seguiu ao colapso da URSS e à consequente década de prosperidade dos anos 90, em que o mundo ocidental seguiu a liderança unipolar dos Estados Unidos e se iludiu com a Pax Americana. A geração anterior assistiu, a meio, às mudanças das regras do jogo, foi obrigada a redefinir expectativas, sentiu-se enganada e desiludida.

Pelo contrário, o habitat natural da Geração Z é também o do desemprego e da precariedade. As palavras chave deste período: crise, défice, austeridade. Medo. Os remédios não são milagrosos — porque já ninguém acredita em soluções que durem para sempre — e há que estar preparado para tudo, ser consciente, ter um plano B, C, D. Sonhar com os pés assentes na terra. Pensar no longo prazo, como Inês.

Um relatório da agência de publicidade norte-americana Sparks & Honey concluiu que a Geração z, em comparação com a Milénio, é mais “madura” e tem uma vontade maior de “mudar o mundo”. Segundo a Sparks & Honey, 60% dos jovens Z acredita mesmo que vai deixar uma marca no mundo, por oposição a 39% de Milénios.

Qual é o impacto de todas estas transformações na formação dos jovens da Geração Z? Que responsabilidades acrescidas têm pais e professores na educação de crianças que parecem preferir o mundo virtual ao contacto com os outros? Teremos de pensar num novo conjunto de direitos — digitais — para proteger a privacidade desta geração? Que planos conseguem traçar para o futuro?

Avós no Facebook, jovens em fuga

Alice Magalhães, 12 anos, Mafalda Portugal, 12 anos, Inês Capela, 12 anos e Sarah Lopez, 13 anos, estão ligadas sempre que quiserem. A amizade, cumplicidade e a linguagem “só das quatro” que dizem ter desenvolve-se num espaço privado que não é o da escola, nem o das festas de aniversário ou dos trabalhos de grupo. Esse espaço não obedece a horários, não necessita de um lugar físico e não está dependente da disponibilidade dos pais nem sujeito às suas regras ou à sua linguagem. Esse espaço é o das redes sociais como o Instagram, o WhatsApp, o Twitter, o Snapchat, ou o Facebook, mesmo que, teoricamente, estas redes não admitam membros com menos de 13 anos (no final de 2015, a Comissão Europeia propôs que os menores de 16 anos ficassem interditos de utilizar o Facebook, o Instagram ou o Twitter, caso não tenham autorização parental para o fazer).

É pela naturalidade com que se movimentam nestas redes que a Geração Z recebeu também o nome de Geração Aplicação. À excepção de Sarah, proibida pela mãe de aderir à rede criada por Mark Zuckerberg, todas as outras arranjaram uma forma de contornar a regra. “A minha tia criou por mim e pôs lá a idade dela”, diz Alice, que está no Facebook há dois anos. Inês estreou-se na rede com oito anos, “com a ajuda da irmã”.

Mas o Facebook está a deixar de interessar aos jovens da Geração Z. Em 2013, uma adolescente de 13 anos, Ruby Karp, escreveu um texto no site norte-americano Mashable que se tornou viral por ter explicado aos adultos que os seus amigos e colegas estão a deixar o Facebook, que agora é apenas “o sítio onde os pais estão”. A chegada dos familiares ao Facebook leva alguns destes jovens a migrar para outras redes onde os pais ainda não entraram. “Já vamos na fase em que os avós estão no Facebook”, diz Mafalda Rola, 16 anos, também estudante na Escola Secundária Professor José Augusto Lucas em Linda-a-Velha. “Nós fugimos para o Twitter”, continua.

Uma rede que é cada vez mais popular, sobretudo entre os mais jovens, é o Snapchat, cuja grande característica é permitir enviar uma fotografia que se apaga em dez segundos. “Há pessoas que têm medo que as coisas fiquem permanentes e daquilo que os outros pensam”, diz Mafalda, para começar a explicar por que razão o Snapchat pode ser tão atractivo para os jovens. “Se enviarmos uma foto pelo Snapchat sabemos que ninguém vai mostrar a um amigo e comentar: ‘Está tão ridícula’ ou ‘Está mesmo feia, cheia de borbulhas’”, diz.

Os pais, mesmo aqueles que chegaram ao Facebook, não compreendem totalmente o funcionamento das outras redes, o que levanta todo o tipo de preocupações e suscita diferentes posturas — autorizar, proibir, ignorar — relativamente ao acesso que os filhos fazem destas aplicações.

Telma Miguel, mãe de Alice e de Teresa, de 16 anos, sabe que não consegue estar em cima de tudo o que as filhas fazem online, mas não vê vantagens em transformar as redes sociais no fruto proibido e apetecido. “Se as vamos proibir, elas não sabem conviver com o mundo delas. Não vale a pena obrigá-las a fazer às escondidas porque assim torna-se secreto e deixamos de ter acesso”, diz.

Joana Deus, 12 anos, recebeu o telemóvel no último aniversário, há poucos meses. Foi a última aluna da turma a ter telemóvel e mesmo assim a mãe, Luz Pimentel, continua a acreditar que não precisa dele. Joana não tem qualquer acesso às redes sociais no telemóvel e o Facebook está proibido mesmo no computador lá de casa. Usa a Internet para trabalhos escolares e para ver alguns vídeos de youtubers portugueses, geralmente sobre jogos. Mas sabe o que é o Instagram, o Viber, o Snapchat, o WhatsApp, porque quase todas as colegas usam. Já chegou a aparecer numa conta Instagram de uma amiga, tendo depois pedido que a fotografia fosse retirada porque não tinha dado autorização para a publicação.

Com apenas 12 anos, vive rodeada por todas estas experiências sem ter ainda entrado nesse mundo e diz ter muito receio dos perigos das redes sociais e da Internet. Teme o momento em que irá estrear-se nas redes. “Tenho medo que mude aquilo que eu sou e quero ser”, diz, referindo-se às notícias mais negativas que lhe vão chegando. “Alguns adolescentes ficam muito deprimidos por situações na Internet e não quero que isso aconteça comigo”.

Cristina Ponte, investigadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tem estudado a relação das crianças com os media e a inclusão digital. Diz que os pais, resistindo à tentação de proibir os filhos de utilizar estas redes, devem antes prepará-los para a autonomia. “Os pais devem ensinar os filhos a não terem de responder a tudo o que os amigos pedem para fazer” e a compreenderem que têm o direito “a estar (online) e a não estar”. Cristina Valente, psicóloga e autora do livro Coaching para Pais, pensa que o equilíbrio entre permitir a utilização da Internet e evitar excessos passa por fortalecer a estrutura dos “valores familiares não negociáveis”. Desta forma, diz, permitir que uma criança tenha acesso ao Facebook quando não tem ainda idade para o fazer passa aos jovens uma mensagem moral: “Os pais permitem que isso aconteça sem reflectirem o que isto implica em termos de escolhas morais. Estou a dizer-lhes que posso enganar uma empresa e que posso contornar a lei”.

Por vezes, na equação da responsabilidade, falamos dos educadores e esquecemos uma parcela importante, ainda que aparentemente distante da vida diária das crianças. “A Geração Z não é responsabilidade exclusiva dos pais e dos professores, mas também das indústrias, das empresas, da regulação”, defende Cristina Ponte, que chama a atenção para o facto de a presença das crianças online se traduzir num “negócio brutal para as companhias de consumo”, como as operadoras móveis, por exemplo. Segundo esta investigadora, estima-se que, actualmente, um terço dos utilizadores da Internet tenha menos de 18 anos. A investigadora lembra como “as empresas de telecomunicações proporcionam o consumo dos adolescentes”.

Em Portugal, as três operadoras móveis têm campanhas destinadas à Geração Z e em alguns casos isso traduz-se na oferta da utilização gratuita das aplicações das redes sociais (a utilização do Facebook, WhatsApp, etc não consome dados de Internet). Num dos sites destas operadoras há um apelo ao consumo em forma de provocação e de pressão de grupo. O tarifário que está a ser vendido “não é para quem quer”, pode ler-se, “convém teres smartphone”.O PÚBLICO tentou contactar as três operadoras móveis, não obtendo resposta no caso da MEO e recebendo, por parte da Vodafone e da NOS, a recusa em participar neste trabalho.

Pedro Castro Pinho, criativo na agência de publicidade O Escritório, responsável pela marca do tarifário Moche, da MEO, diz que a estratégia publicitária por detrás das campanhas desta marca dirigida aos jovens sub 25 não leva em conta outras características associadas à Geração Z além da dependência da Internet. De resto, a linguagem utilizada, muitas vezes com um cunho sexual (“Faz-me um like”) ou algo rebelde (a Moche teve um anúncio polémico em que um jovem desligava a máquina que mantinha vivo o avô para poder carregar a bateria do telemóvel) tem o objectivo de “falar aos jovens” e, se calhar “os jovens com 15 anos de há vinte anos também achavam piada a isso”, diz.

Várias organizações da sociedade civil, bancos, associações de direitos das crianças e empresas, juntaram-se à iniciativa iRights, que quer definir os direitos digitais para que crianças abaixo dos 18 anos possam utilizar as tecnologias digitais “de forma criativa, sem medo e com conhecimento”. Estes são: direito a remover toda a informação e dados disponibilizados online; direito a saber quem está a utilizar a informação que foi cedida e quem lucra com essa informação, vendendo-a para fins de publicidade ou outros; direito à segurança e ao apoio em caso de situações de risco criadas online; direito a escolhas informadas e conscientes; direito à literacia digital.

Os pais e educadores têm outros receios relacionados com o uso das tecnologias e das redes sociais, temendo os efeitos destas na aprendizagem, levantando dúvidas sobre as consequências do multitasking na capacidade de concentração e questionando-se sobre a qualidade das relações das crianças.

O psicólogo José Morgado explica ao PÚBLICO que, de uma forma ou de outra, estes receios existem em todas as gerações, mas adequados às realidades específicas de cada período. “Os pais estão sempre preocupados com as ‘más companhias’ dos filhos. Na Internet há um upgrade dessa preocupação — está ligado a quem, a fazer o quê? É normal que os miúdos a partir dos 11 anos comecem à procura dos seus amigos e encontrem as suas tribos. Se um miúdo dessa idade está ligado ao computador, isso é normal na idade dele. Depois há efeitos colaterais — se o excesso de contactos altera os hábitos de sono, por exemplo. Mas aí trata-se de uma questão pedagógica. O erro não é o miúdo estar no computador, o erro é os pais permitirem que ele tenha o computador (ou o telemóvel) no quarto e esteja a usá-lo às 3h da manhã”, diz.

José Morgado utiliza uma fórmula semelhante para desmistificar a ideia de que os jovens da Geração Z não consolidam as aprendizagens apenas porque utilizam o Google em excesso. “Se eu exercitar aquilo que vi no Youtube ou li no Google, fico a saber, aprendo”, diz, em defesa dessas fontes de informação. O problema, acrescenta, está na insuficiência dos filtros que os jovens terão. E isso, mais uma vez, combate-se com educação e pedagogia, e não com a proibição da prática. “Temos de acompanhar a utilização das novas tecnologias com inovações do ponto de vista da forma como ensinamos o aluno a pesquisar. Temos de ensiná-los a filtrar informação e a fazer buscas pertinentes para que não fiquem intoxicados. Ou corremos o risco de criar um gap muito evidente entre a aprendizagem na sala de aula e as que existem lá fora. Há que diminuir esse gap, trazendo essas ferramentas para a escola para que as crianças possam aprender a usá-las de forma regulada”, diz.

Um projecto de vida para tempos incertos

É também de educação e de pedagogia que fala José Morgado quando se refere à dificuldade de os pais ajudarem os seus filhos, herdeiros da crise e da precariedade, a projectarem um futuro.

“Na minha geração estudávamos para ser alguém e vislumbrávamos esse caminho. Muitos jovens têm dificuldade em construir um projecto de vida e aquele discurso de que os licenciados não têm emprego não ajuda”, afirma o psicólogo. “Temos de acreditar — pais e profissionais — que mesmo em tempos de crise é possível construir um projecto de vida”.

Os jovens da Geração Z com quem falámos parecem ter os seus sonhos. Mas, mesmo quando falam de ambições profissionais mais ligadas a um percurso artístico ou mediático, têm um projecto de vida pensado para enfrentar mudanças, crises, alteração das circunstâncias, desilusões e sonhos desfeitos.

Filipe Miranda, 18 anos e um sonho ainda viável: ser jogador de futebol. Filipe vive no Fogueteiro, joga no Cova da Piedade e ambiciona um dia chegar a um grande clube. “O meu plano A é ser jogador de futebol”, diz. Filipe não fala apaixonadamente de ser o próximo Cristiano Ronaldo ou o Luís Figo. Fala de metas e caminhos para lá chegar. E de como a sua prioridade é o futebol e os treinos e um estilo de vida — sem grande espaço para as redes sociais, diz — que permita sustentar esse projecto. Mas fala também do momento em que pode perceber que o sonho não se concretizou — “Quando vir que estou num clube que não me dê futuro”.

A existência de um plano A pressupõe que haja outros caminhos e Filipe decidiu continuar os estudos. Está neste momento a frequentar o primeiro ano de Contabilidade no ISCAL, esperando conseguir transferência para o ISCTE ou o ISEG para estudar Gestão. “Mesmo que consiga o meu sonho A, um dia mais tarde — o futebol acaba cedo — gostava de ter a minha própria empresa”, diz.

Telma Miguel, a mãe de Alice, diz que as filhas pensam no futuro de forma muito diferente da sua geração. “Não têm sonhos tão ambiciosos como eu tinha na idade delas. Eu e os meus amigos pensávamos que se estudássemos e fizéssemos as coisas certas, ia ser tudo a somar. Acho que elas sabem que as coisas não são assim e entendem que há muita gente à procura da mesma coisa, que é cada vez mais escassa. Elas vão decidindo à medida que as coisas acontecem, tomam decisões passo a passo e têm uma grande disponibilidade para mudar”, diz.

O professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Daniel Cardoso confirma a percepção desta mãe. “É uma geração que foi ensinada, para o bem e para o mal, que terá de se adaptar tão depressa quanto possível ao maior número de mudanças possíveis. Eles vão ficar profundamente marcados pela incerteza biográfica”, diz. Por “incerteza biográfica”, Daniel Cardoso entende a perda de “referenciais sobre o que é crescer e ser adulto”. Os jovens que hoje terminam os cursos superiores, explica o investigador, “não sabem se terão emprego ou se o emprego que têm será suficiente para se sustentarem”. Esta “ausência de um percurso de vida minimamente definido” é um dos grandes marcos sociológicos desta época. “À frente destes jovens não há estabilidade ou certeza, mas sim uma espécie de obrigação de construir a sua marca”, diz o investigador.

É esta “individualização”, este foco numa “biografia do it yourself” que adia essa chegada ao mundo dos adultos. “Se eu faço de uma maneira e outro faz de outra, afinal o que é ser adulto? Quais são os marcadores de sucesso?”, pergunta Daniel Cardoso, sublinhando que esta mentalidade pode ter também um lado muito negativo. “Este discurso pode ser mobilizado negativamente para dizer que se a pessoa não for bem sucedida, a culpa é dela. Este tipo de postura pode promover uma atitude de salve-se quem puder”.

Kim Kardashian vs Malala Yousafzai

Pedro Marques, 19 anos, sente pela geração a que pertence uma desilusão tão grande que preferiu virar-lhe as costas. Quando estava no 11º ano desistiu de estudar e não chegou a concluir o ensino secundário. “Não me sentia feliz”, diz. Agora, passa os dias num atelier na Associação de Artes e Ofícios no Barreiro, onde se dedica aos seus quadros e a ensinar crianças a pintar. Pedro diz ser mais feliz assim. “O meu projecto de vida passa por ter comida para o dia a seguir. Mesmo que fique só a pensar acho que isso já é válido”.

Pensar é aquilo que Pedro acha que a sua geração não faz. “Esta geração… Há uma cena horrível que é o valor do entretenimento. As pessoas deixam de pensar. É uma geração que tem muita dificuldade em interessar-se por aquilo que não lhe é imediato ou está distante, como a guerra na Síria”.

Virar as costas também implica tentar ignorar o que está nas redes sociais, que utiliza para, à semelhança de Inês do Canto, promover o seu trabalho artístico. “No outro dia no Twitter, uma miúda escreveu: ‘Quem precisa de Pessoa e Camões quando há [o rapper] Regula’?”, lembra Pedro, irritando-se e ameaçando atirar com o iPad que tem ao seu lado. “Pensa noutra merda”, diz, como se estivesse a falar com a colega.

Ao desafio de imaginar um quadro que represente a sua geração, Pedro responde com a ideia de retratar os colegas dentro de um smartphone a tirar selfies do lado de fora. “Para ver se os punha a pensar que a maior parte delas está trancada lá dentro”.

O quadro de Pedro é o retrato mais negativo da Geração Z, o retrato que mostra jovens que, incapazes de tirar os olhos do écrã, se esquecem do mundo à sua volta, ignorando aquilo que não diz respeito a si próprios, como sugerem as palavras de Pedro. Uma geração liderada pela socialite Kim Kardashian e obcecada em tirar selfies.

Mas a geração que segue o reality show das irmãs Kardashian é também aquela que pode seguir Malala Yousafzai, a activista paquistanesa dos direitos das mulheres e da luta pelos direitos de educação que foi condecorada com o Nobel da Paz em 2014 e é uma jovem de 18 anos. Ou que pode escolher seguir Martha Payne, a menina escocesa que em 2012, com apenas 9 anos, começou a tirar fotografias das refeições escolares e a publicá-las num blog para denunciar a falta de qualidade das mesmas nas cantinas e incentivando crianças de todo o mundo a fazer o mesmo. O sucesso do blog foi tal que Martha conseguiu angariar dinheiro para a iniciativa de caridade Mary’s Meals, que organiza projectos alimentares em comunidades pobres de todo o mundo. Ou que pode admirar a brasileira Isadora Faber, que também em 2012, com 13 anos, e munida de um telemóvel, criou a página de Facebook “Diário de Classe — A Verdade” para retratar as falhas e as deficiências da sua escola e chamar a atenção para o estado das escolas públicas no Brasil. Isadora tem dado palestras por todo o país, chamando a atenção para o problema. Em 2013, o Financial Times escolheu-a como uma das 25 personalidades brasileiras mais influentes no Brasil.

Tito de Morais, que criou o site miudossegurosna.net, um projecto que ajuda famílias e escolas a promover a utilização responsável das tecnologias, utiliza estes exemplos para exprimir o seu optimismo pelo potencial da Geração Z para mudar o mundo. “Estes jovens mostram que têm estas noções e comportamentos de cidadania. O que poderão fazer quando chegarem a posições de poder?”

Tito de Morais lamenta apenas que em Portugal aquilo que a Geração Z vai dando a conhecer são “os aspectos menos desejáveis, os mais espampanantes, os mais fúteis e os mais negativos”. Por que razão não apareceram ainda jovens tão influentes como nos casos a que nos referimos lá fora? Tito de Morais tem uma resposta clara: “Não capacitarmos os jovens para eles se assumirem como os seus próprios porta-vozes”.

Em Portugal há já alguns casos de youtubers populares que ganham dinheiro com os vídeos que colocam nessa rede social, mas poucos são aqueles que tentam passar uma mensagem que vá além do humor e de relatos mais superficiais. Kiko is Hot, ou Francisco Soares, um jovem Z de 21 anos, estreou-se no Youtube em 2011 e hoje conta com 97 mil subscritores.

A popularidade que ganhou na rede já lhe permitiu ter programas na televisão e participar em campanhas publicitárias, sendo hoje um dos rostos da WTF, o tarifário da NOS direccionado à Geração Z. Francisco Soares decidiu utilizar o Youtube para “fazer as pessoas rir”, mas começou a receber muitos e-mails de pessoas que viam nele um exemplo de coragem. Kiko is Hot tem um look andrógino, utiliza o cabelo comprido e maquilhagem e assume-se na comunidade LGBT. Então, Francisco Soares decidiu começar a abordar questões mais activistas, abordando temas como a auto-estima, a ansiedade, o bullying e as dificuldades sentidas pelos jovens em se assumirem como gays ou lésbicas. “Sigo muitos bloggers e youtubers lá fora que discutem estas questões, mas no panorama português do Youtube não havia ninguém que falasse dessas coisas mais sérias e decidi ser o primeiro”, diz.

Sobre a Geração Z, Francisco Soares diz que é “uma geração com pouca produtividade”, que tem dificuldade em “levar um projecto até ao fim”, mas que é, ao mesmo tempo, “muito empreendedora e tem ideias novas, o que se vê nos exemplos de pessoas que pegaram em câmaras e fizeram carreiras disso”, diz. Mas nota também que um dos grandes traços dos jovens Z é o activismo e a luta pelos direitos feministas, LGBT… “Somos uma geração de transição que está a tentar transformar isto. Quando formos mais velhos acho que as coisas já vão estar muito diferentes. É possível que uma pessoa nasça sem ter na cabeça se será aceite ou não — esse é o meu desejo”.

O investigador Daniel Cardoso afirma que a obrigação de estes jovens criarem a sua marca e a sua “biografia do it yourself” abre também espaço “ao debate de temas que estão relacionados com a sexualidade, identidades de género, estruturas relacionais”. É dada grande visibilidade à história de cada um, ao individualismo, a como cada jovem é único. O psicólogo José Morgado não tem certezas na hora de dizer se esta geração vai ser mais tolerante. Isto porque, apesar de estes miúdos serem “mais abertos e mais flexíveis”, as tomadas de posição que têm muitas vezes “não correspondem a mobilizações activas”.

Inês do Canto, pensando sobre o seu próprio exemplo, faz um retrato muito calibrado da Geração Z. Apesar de lamentar a tendência dos jovens para “desistirem” ao primeiro contratempo, elogia a elevada consciência das dificuldades que o futuro reserva e a capacidade para, como no seu caso, “pensar a longo prazo”.

Essa capacidade também se traduz na forte “consciência política” que nota entre amigos e colegas. “Temos mais noção do que outras gerações de que o Donald Trump [candidato nas primárias americanas pelo Partido Republicano] pode ser um próximo Hitler”. Inês diz que esta geração está empenhada em lutar pela igualdade. “Somos contra o sexismo, o racismo, a homofobia. Eu e os meus amigos tentamos assinar petições ou ajudar alguém que não se sinta bem”, afirma, antes de acrescentar que talvez seja uma “activista hipócrita”, sugerindo que existe uma distinção entre tomar posição e mobilizar-se realmente.

Lamenta que em Portugal não haja figuras de referência jovens e adianta que os seus ídolos são “Francisco Louçã e Mariana Mortágua” porque “pensam como a Geração Z”. Quando lhe perguntamos se está mais à esquerda a nível político, diz que não é de esquerda nem de direita e revela que teria votado em Marcelo Rebelo de Sousa nas últimas presidenciais. “A nossa geração não tem rótulos”, afirma.

Parando para pensar nessa rejeição dos rótulos, Inês diz que existe uma certa cacofonia na sua geração, em que cada um tem o desejo de ser único e de afirmar as suas diferenças. Por isso mesmo, pensa numa expressão para descrever o mundo da Geração Z. “Caos… mas caos consciente”, diz. “Cada um de nós é muito convicto das suas opiniões e, ao mesmo tempo, aberto às opiniões dos outros. Lutamos todos pelo mesmo, mas de maneiras tão diferentes que corremos o risco de nos dispersarmos e não fazermos nada com isso”. E acrescenta: “Espero que não fiquemos overwhelmed com os nossos erros”. Respira fundo e como uma adulta cautelosa e ponderada que aprendeu a sustentar os sonhos e a descer à terra, assegura: “Vamos ficar bem”.

visualizar as fotografias da reportagem no link:

https://www.publico.pt/sociedade/noticia/a-geracao-que-quer-transformar-isto-tudo-1723002

 

Geração Z – Infografia

Dezembro 24, 2014 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Infografia do Expresso de 12 de dezembro de 2014.

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Fontes : Sparks & Honey, Restart 2014 Digitall Elisabete Ferreira, KBCB Trends 2014, Market O

 


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