“Dar um celular para uma criança de 5 anos é um crime”

Julho 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Época Negócios de 31 de agosto de 2018.

Sharon Thomas, psicóloga especializada em educação, defende que pais e escolas têm o dever de estabelecer limites aos filhos no uso da tecnologia.

Saber escolher a idade e o momento para dar um celular ao filho envolve analisar duas questões. É preciso, previamente, saber qual função o aparelho desempenhará na vida da criança. Em paralelo, exige analisar o comportamento do filho e seu entendimento sobre limitações e privações.

Este é o conselho de Sharon Thomas, psicóloga especializada em educação com formação na Georgetown University, na Universidade de Londres e no Hunter College. Nascida no Brasil, mas vivendo nos Estados Unidos desde os 11 anos, Sharon fundou em Nova York o Centro de Educação e Recursos MAIA. Seu trabalho é orientar pais, escolas e professores sobre desenvolvimento acadêmico, déficits de aprendizado e, entre outros fatores, analisar a efetividade da tecnologia dentro e fora da sala da aula.

“Hoje, o celular virou um bem que as pessoas acham que devem ter porque todo mundo tem”, afirma Sharon em entrevista à Época NEGÓCIOS. “Muitos pais me falam: ‘Minha filha tem 5 anos, a amiguinha tem um celular já e ela quer também’, mas eu acho um crime dar um celular para uma criança de 5 anos. Nesta idade, ela não desenvolveu as habilidades básicas.”

As habilidades às quais Sharon refere-se são denominadas nos Estados Unidos como function executives. “Parece papo de CEO, mas a metodologia das escolas americanas é estruturada com base em funções desenvolvidas no lobo dos cérebros e são essenciais para tudo que fazemos em nossas vidas”, afirma. Entre essas funções executivas, estão a capacidade de planejamento, estabelecimento de metas no longo prazo, iniciativa para tomada de decisões e flexibilidade comportamental.

“Nos EUA, as escolas tentam entender como a tecnologia está afetando ou beneficiando o desenvolvimento dessas funções executivas. Às vezes, uma nova tecnologia entrega um aprendizado tão rápido, que dificulta que as pessoas foquem, absorvam e se aprofundarem no conhecimento. Parece que virou tudo bullet point”, diz.

As funções executivas, segundo Sharon, demoram de 25 a 32 anos para serem desenvolvidas por completo – por esta razão, diz a especialista, “seria irrealístico esperar que crianças e jovens consigam se automonitorar e impor os limites sobre o uso da tecnologia”. No caso da criança de cinco anos, um celular não teria a função prática (“uma criança nesta idade não fica sem supervisão”) e poderia expô-la a situações inseguras (“com quem ela vai começar a conversar?”). “A idade certa para dar um celular varia de pessoa para pessoa, mas é preciso entender o motivo dele ser necessário. Eu não daria para um adolescente só ‘porque todo mundo tem’. A função dos pais também é saber dizer não”, diz.

Sharon defende que é preciso celebrar os benefícios que a tecnologia proporciona, em termos de conhecimento e comunicação, mas é preciso monitorá-la para não criar vícios, desânimo e até comprometer o desenvolvimento dos filhos. “Muitos pais me procuram dizendo que seus filhos estão desanimados e indo mal na escola. Vamos analisar a rotina deles e vemos que eles passam grande parte do dia no quarto conectados, socializando com várias pessoas e, depois de várias horas, ficam exausto e ‘sem tempo'”.

Sharon recomenda que os pais mostrem aos filhos os benefícios da internet e as limitações do mundo virtual. “A vida online só aponta para tudo que é maravilhoso em geral. E, no caso de uma adolescente que está lutando para criar uma identidade diferente das dos pais, seu uso excessivo pode se tornar uma pressão e virar até bullying”, diz.

Um outro aspecto a trabalhar nesta relação, segundo Sharon, é dar o exemplo. “Uma das coisas ruins que a tecnologia trouxe para os adultos foi esse fácil acesso a todos o tempo todo. Eles se sentem impelidos a responder rapidamente a todos. E aí ocorre que ficamos o tempo todo online. Mas precisamos criar limites para nós mesmos. Do contrário, os filhos vão falar: você não quer que eu use o iPad, mas olha você conectado o tempo todo”, diz.

Do lado das escolas, Sharon diz que as instituições possuem a responsabilidade de entender se a tecnologia levada para a sala de aula está, de fato, ajudando no desenvolvimento dos alunos. E fazer intervenções, para garantir que não está desenvolvendo um aprendizado mais profundo e eficaz. É uma missão difícil, diz, porque o que vende hoje no mundo da educação é “tecnologia” e qualquer escola nova irá ser construída em torno de alguma novidade de mercado. “Vemos muitas escolas enchendo salas de iPads e novas ferramentas tecnológicas, mas sabemos que o nosso aprendizado não depende apenas de conseguirmos uma informação. Mas, de como sabemos usar essa informação de forma relevante.”

Quer investir na educação do seu filho? Promova desde cedo as suas funções executivas

Outubro 4, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Sofia Garcia da Silva publicado no Público de 16 de setembro de 2018.

Com o iniciar de um novo ano letivo ressurgem as expectativas e as preocupações, partilhadas por pais e professores, sobre como poderão proporcionar aos seus filhos ou alunos um percurso escolar sólido, autónomo e, sobretudo, feliz.

Aprender a ler, a escrever e a calcular é, geralmente, o centro de interesse e um foco de preocupação para aqueles que, de forma direta ou indireta, participam na educação dos mais novos. Consequentemente, os conhecimentos que uma criança adquire no pré-escolar (conhecer os números, o alfabeto, as cores) tendem a ser considerados importantes indicadores para o seu futuro sucesso académico.

Contudo, aquilo que a comunidade científica ligada ao neurodesenvolvimento tem defendido leva-nos a uma mudança de perspetiva: o sucesso académico parece depender, principalmente, de um conjunto de competências cognitivas que servem de suporte ao processo de aprendizagem, designado por funções executivas. Três dimensões do funcionamento executivo são destacadas na literatura: a memória de trabalho, que nos permite manter e manipular mentalmente informações necessárias à resolução de uma tarefa complexa; o controlo inibitório, através do qual somos capazes de inibir impulsos, resistirmos a distrações, tentações e hábitos e controlarmos as nossas emoções; e a flexibilidade cognitiva, a partir da qual conseguimos alterar o nosso pensamento, estratégias ou prioridades em função das necessidades correntes e ajustarmo-nos às diferentes exigências do meio. Ao trabalharem de forma orquestrada, estas funções possibilitam a autorregulação do comportamento perante a obtenção de um dado objetivo. São consideradas as bases para construção da resiliência e para uma maior produtividade na vida adulta.

Quando uma criança entra pela primeira vez numa sala de 1.º ciclo e inicia a aprendizagem formal, é-lhe exigida, por exemplo, a capacidade para manter a atenção e para filtrar distratores num ambiente rico em estímulos; que seja capaz de trabalhar em colaboração com os outros, inibindo respostas preponderantes ou comportamentos desajustados; ou que execute de forma eficiente as instruções dadas pelo professor. São estas ferramentas que vão permitir que a leitura, a escrita e a resolução de problemas tenham lugar, pelo que dificuldades ou défices nestas capacidades têm um impacto negativo no comportamento na sala de aula e no desempenho académico. Assim, a capacidade que a criança tem para recrutar e aplicar estas funções constitui um pré-requisito fundamental não só para o desenvolvimento das suas competências escolares, como também socioemocionais.

Todavia, de acordo com Center on the Developing Child, da Harvard University, as crianças não nascem com estas capacidades, mas sim com um potencial para as desenvolver. O seu desenvolvimento segue uma maturação gradual, mas não simultânea para todas as funções, que se inicia na infância e que se prolonga até à adolescência. Para além da influência dos factores genéticos e ambientais, as experiências assumem um papel crítico e podem ocorrer quer em contexto escolar, mais formal e estruturado, quer em contexto familiar e informal (p. ex. através do jogo e da brincadeira livre). Tal como um músculo, são a ação e a prática repetida que irão reforçar as múltiplas e complexas conexões neurais que suportam estas funções cognitivas. Assim, um maior conhecimento sobre estas capacidades e sobre as suas formas de promoção constituirá um excelente investimento no futuro dos seus filhos ou alunos. Através do exemplo e do fornecimento de “andaimes”, os adultos podem ajudar a criança a fortalecer as suas capacidades executivas emergentes, até que elas próprias sejam capazes de as usar autonomamente, num percurso de progressiva dependência-autonomia.

Aproveite o regresso às aulas para estabelecer um ambiente organizado, com rotinas e regras claras; ajude o seu filho ou aluno a traçar planos e objetivos a atingir; ensine-lhe estratégias que facilitem a memorização; segmente tarefas complexas em pequenos passos, se perceber que a criança não conseguirá ter sucesso; dê instruções de formas variadas ou organizadas em pequenas unidades, se lhe for difícil memorizar e executar indicações extensas. Vá retirando o seu apoio de forma gradual, dando maior independência à criança e permitindo que ela aprenda também com os seus próprios erros. Um bom ano letivo!

A autora segue o acordo ortográfico

Técnica Superior de Educação Especial no CADIn


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