O que diz a neurociência sobre o que vulgarmente se pensa dos filhos únicos

Maio 23, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Notícia da http://visao.sapo.pt/ de 15 de maio de 2017.

Crescer sem irmãos afeta mesmo a estrutura das crianças? A convicção comum de que os filhos únicos são menos sociáveis encontra justificação ao nível do cérebro? Uma investigação realizada na China debruçou-se sobre estas questões

A influência da presença de irmãos na vida de uma criança vai mais longe do que até agora demonstrado e afeta, além do ambiente em que crescem, a arquitetura do seu cérebro. Esta é a conclusão de uma investigação publicada na revista Brain Imaging and Behavior, que dá razão a algumas das crenças mais comuns sobre os filhos únicos.

Sem ter de dividir atenção e recursos, os pais só com um filho tendem a expô-lo a mais estímulos, favorecendo-lhes a criatividade, a inteligência e a independência. Por outro lado, por nunca terem tido de dividir um brinquedo, um quarto ou a tão preciosa atenção dos pais, os filhos únicos têm fama de “mimados” e pouco dados às capacidades de convívio social.

Até que ponto estas perceções encontram justificação no cérebro foi o que Jiang Qiu, professor de psicologia da Universidade do Sudoeste , em Chongqing, China, quis perceber. Com uma equipa de investigadores chineses, o responsável reuniu 250 estudantes, que foram submetidos a testes normais de inteligência, criatividade e personalidade para medir a sua criatividade, o seu QI e a sua afabilidade, enquanto os seus cérebros foram, por seu lado, alvo de exames.

Nos testes comportamentais, os filhos únicos não mostraram quaisquer diferenças em termos de QI, mas evidenciaram níveis mais elevados de flexibilidade (uma medida da criatividade) e níveis mais baixo de afabilidade do que as crianças com irmãos.

Os exames de imagiologia confirmaram estes resultados, mostrando diferenças significativas entre os filhos únicos e os outros nas regiões cerebrais associadas à flexibilidade, à imaginação, ao planeamento e também à afabilidade e regulação emocional.

 

 

 

Os filhos únicos adaptam-se. E os pais?

Maio 13, 2016 às 12:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

notícia do Expresso de 8 de maio de 2016.

descarregar o estudo citado na notícia em baixo:

Determinantes da Fecundidade em Portugal

Stephen Simpson Getty

Ser filho único pode ser uma oportunidade. O problema é a forma como os pais educam. Em Portugal, caminha-se para uma sociedade sem irmãos. É a isto que se deve o declínio da fecundidade no país

Luciana Leiderfarb

Mariana, Leyla, Afonso e Magda não se conhecem, mas têm coisas em comum. Aos sete anos pediram aos pais para ter um irmão. Todos foram guiados pela mesma razão: ter alguém com quem brincar. E nenhum consegue explicar porque essa consciência surgiu nessa idade e não noutra qualquer. Sim, serem filhos únicos é o que os quatro partilham sem o saberem. E não, isso não os tornou pessoas infelizes, mimadas ou egoístas, como os arautos dos estereótipos de café costumam propagar.

Se ser filho único já foi um lugar estranho, hoje é o mais comum. Em 2014, a maioria (54%) dos bebés nascidos em Portugal eram primeiros filhos — o segundo valor mais alto da Europa — enquanto o número de filhos por mulher situava-se em 1,2 — o mais baixo da UE. Os portugueses têm menos filhos, é certo, mas raramente decidem não tê-los, sendo que apenas 8% acabam por não ser pais. E é nesta baixa percentagem que reside a especificidade de um país onde o declínio da fecundidade não se deve ao aumento da opção por não ter filhos, mas ao facto de os indivíduos, querendo ter dois, terem só um. É esta a conclusão do relatório “Determinantes da Fecundidade em Portugal”: o desencontro entre vontade e concretização dita que sejamos cada vez mais uma sociedade de filhos únicos que, todavia, não o quer ser.

E porquê? Encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e coordenado por Maria Filomena Mendes, da Universidade de Évora, o estudo responde a esta questão. Aproveitando os dados do Inquérito à Fecundidade, de 2013, faz a análise dos motivos que leva uma sociedade a comportar-se assim. E o retrato de Portugal que daí decorre é o de um país desconfortável com a sua fecundidade. Onde, como no resto da Europa, se tem filhos tarde (a idade média ao nascimento do primeiro filho em 2014 era de 30 anos, mais 4,5 anos do que em 1990). E onde o tempo é um luxo e se trabalha demais, o segundo filho é ‘empurrado’ até ao limiar biológico. Onde ainda recai sobre a mulher a conciliação dos filhos com o trabalho, onde se ganha pouco e se tende a concentrar num só filho todos os recursos — onde a opção por um só filho, decorrendo de fatores vários, se resume ao possível face ao desejado.

“O estudo mostra uma fratura na sociedade. Mostra que por um lado existe um ideal e por outro um ajustamento que condiciona as decisões reprodutivas”, resume a socióloga Vanessa Cunha. Ajustamento que não é necessariamente mau sinal: “A sociedade troca o que considera o ideal pela qualidade da parentalidade, que não está disposta a ceder. E isto assenta na noção que a criança tem o direito a ver asseguradas as condições de bem estar e de sobrevivência”, explica a investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Ser ou não ser (filho único)

E o que pensa o quarteto que iniciou este texto do que é isto de ser-se filho único? “É mais exigente. Os pais concentram toda a atenção em nós. Há maior vigilância, que não é falta de liberdade. Não acho que se espere mais de mim por não ter um irmão”, diz aos 12 anos Leyla Mitchell, filha de uma portuguesa e de um sul-africano, ambos gestores, a residir na zona de Cascais.

“Tenho muitos primos e estou habituada a partilhar. Os meus pais têm mais tempo, ajudam-me nos estudos. Mas esperam mais de mim e ficam tristes se as coisas me correm mal”, conta Mariana Cardoso, de 16 anos, que vive em Odemira com os pais, funcionários da autarquia.

“Se tivesse um irmão, teria menos do que tenho. Mas teria usufruído a infância de outra maneira. Adaptei-me a ser filho único. Nunca me senti pressionado a ser o melhor”, admite Afonso Garcia, estudante de Desporto de 20 anos a viver na Grande Lisboa. Para Magda Almeida, psicóloga a trabalhar em intervenção comunitária e que olha para trás do alto dos seus 40 anos, as coisas são diferentes: “Não foi fácil, não por estar sozinha, mas pela pobreza das relações. Senti a expectativa dos meus pais: eu tinha de ser excelente e socialmente brilhante, como num conto de fadas. Eu era o que eles queriam que fosse.”

Ao tornar-se adulta, Magda fez uma opção contrária ao que o relatório aponta como tendência: teve mesmo dois filhos. E também contrariou a maioria dos portugueses ao discordar de que “é preferível ter um filho com mais oportunidades do que mais com restrições”. A franca concordância com esta premissa é uma das maiores descobertas deste estudo e “uma das mais fortes condicionantes” da transição para o segundo filho em Portugal.

Outra é a verificação, por parte de homens e mulheres, de que a ausência do pai enquanto os filhos são pequenos trava a decisão de se avançar para o segundo, enquanto a sua presença jogaria como fator facilitador. “Nenhuma política de estímulo à natalidade deve concentrar-se apenas no papel da mulher. E não é com licenças de maternidade mais alargadas que a desigualdade se resolve”, frisa a demógrafa Maria João Valente Rosa.

Duas visões do mesmo

Mas, afinal, o que é um filho único? “Há uma ideia preconceituosa, que eu não aceito. Estes filhos têm de desbravar caminho sozinhos e isso dá-lhes maior resiliência, autoestima e maturidade. Estão mais preparados para tomar decisões”, sustenta a psicóloga Isabel Feio. O problema é a forma como são educados: “Pais sobreprotetores podem abafar estas vantagens. Muitos transmitem uma dupla mensagem: por um lado infantilizam-nos e por outro exigem-lhes perfeição. Um filho mimado não é um filho único. É um ser asfixiado que não encontrou o seu lugar.”

Em termos sociais, o quadro é menos animador. “É uma sociedade que representa esse fortíssimo investimento numa criança, em que o centramento na criança é enorme. Em que há um empobrecimento das relações, pois perde-se um laço que não é substituível. É uma sociedade onde as crianças vivem no mundo dos adultos”, reflete Vanessa Cunha.

Os quatro filhos únicos que entrevistámos não parecem estar nesta situação. Coincidem numa palavra: adaptação. Adaptaram-se. “Nunca temos o que queremos nem queremos o que temos. Isto acontece sempre, faz parte do ser humano”, reflete Leyla.

 

 

Sou filho único, e depois?

Outubro 15, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas:

Artigo do Notícias Magazine de 8 de outubro de 2014.

Visualizar todas as fotografias aqui

Pedro Granadeiro Global Imagens

Por: João Ferreira de Oliveira

Já estão em maioria nas famílias portuguesas. Fomos ouvi-los.

Nos últimos tempos muito se tem falado e escrito sobre a baixa taxa de natalidade em Portugal – fazem-se estudos, procuram-se especialistas, ouvem-se as justificações dos pais – mas raramente escutamos aquelas sobre quem as atuais famílias parecem girar. As crianças. O que têm os filhos únicos a dizer sobre o assunto?

A maior vantagem é não ter de partilhar os meus brinquedos e jogos com ninguém. As minhas amigas contam-me que os irmãos lhes estra­gam e mexem em tudo. O mais chato é quan­do quero brincar com alguém e estou sozinha.» Palavras de Alexandra Dias, 8 anos, residen­te em Vila Nova de Gaia, quando confronta­da com as vantagens e as desvantagens de não ter irmãos. Ainda assim, não hesita quanto à sua condição de filha única. «Adoro, adoro, adoro.» Já Gonçalo Alves, natural de Vilari­nho, Santo Tirso, não tem dúvidas de que a sua vida dará uma gran­de volta caso deixe de ser o único filho. «Os meus pais iam mudar de atitude comigo, porque quando quisessem adormecer o meu ir­mãozinho e eu quisesse fazer alguma coisa, eles não iam ajudar. Teria de substituir o meu quarto de brinquedos pelo quarto do meu irmão. Também à mesa iria ter menos espaço porque ia ter mais um lugar.» Carolina Baptista, 13 anos, residente nos Olivais, em Lis­boa, é ainda mais pragmática. «A maior vantagem é ter o meu espa­ço, ter os mimos só para mim e haver sossego em casa sem irmãos mais novos. Frisei sempre aos meus pais que não queria irmãos e como sabia que a minha mãe também não queria ter mais filhos fi­quei mais descansada.»

Três depoimentos é manifestamente pouco para concluir que os filhos únicos são (ou estão) felizes e recomendam-se, mas talvez ajudem a combater a eterna ideia de que, além de mimadas, são potencialmente crianças mais tristes, introspetivas e solitá­rias. Que é como quem diz, mais infelizes. «Você me respeita, não grita comigo, mesmo que eu tente tudo para te irritar. Você tem que entender que eu sou filho único, que os filhos únicos são seres infelizes», cantava Cazuza em 1989. Foi uma das últimas músicas do artista brasileiro, ele que morreria no ano seguinte, com ape­nas 32 anos.

É sabido que nem tudo o que vem nos livros e nas músicas de­ve ser levado à letra e a verdade é que foi através da obra de Stan­ley Hall (1844-1924) que esta ideia terá entrado no nosso imagi­nário. Um especialista, é certo – professor universitário, primei­ro doutorado em Psicologia nos Estados Unidos e um dos pioneiros da psicologia infantil em todo o mundo, tendo-se debruçado so­bre os conflitos com os pais, perturbações de humores e compor­tamentos de risco nas crianças e adolescentes –, mas também o au­tor desta frase «fatal»: «Ser filho único é, em si mesmo, uma doen­ça.» Acreditava que a superproteção tornava estas crianças pouco sociáveis e problemáticas.

Será que ainda é verdade? Será que alguma vez foi verdade? A resposta está longe de ser definitiva. E consensual. Mário Cor­deiro, pediatra, considera mesmo que os filhos únicos são como as tradições: «Já não são o que eram.» Adianta, inclusive, que muitas crianças «foram injustamente rotuladas de filhos únicos no senti­do de mimado, estragado, exigente, narcísico e malcriado, quando eram simpáticas, gentis, altruístas e bem educadas. Hoje, a maioria das crianças que nascem no nosso país são primeiros filhos. Contu­do, a socialização, a menor hiperproteção dos avós e da restante fa­mília e tudo aquilo que aprendemos sobre educação dá-nos saberes e armas para evitar que o único filho se torne filho único». Ainda segundo o pediatra, a escolarização precoce veio também ajudar a desenvolver uma «empatia, solidariedade, respeito, partilha e in­teração» que antes parecia ser bem mais difícil adquirir.

Otília Fer­nandes, professora universitária, investigadora e autora do livro Ser Único ou Ser Irmão, sabe que os tempos mudaram, avança que os filhos únicos poderão mesmo apresentar uma autoestima e um desenvolvimento cognitivo superiores aos das crianças que têm ir­mãos – em grande parte devido à aposta na educação –, mas defen­de que, de uma forma geral, a sua lacuna continua a situar-se na área das competências sociais. «Os primeiros estudos sistemáticos sobre a fratria [conjunto de irmãos] foram feitos pelo alemão Walter Toman, nos anos 50 do século passado. Desde então, inúmeros estudos, entre os quais o meu, demonstraram cientificamente o menor número de amigos, o menor altruísmo, a maior dificuldade relacional/social. Não tendo de partilhar o bem maior que são os pais, pelo menos durante a infância, terão menos condições de aprendizagem direta da compreensão do ponto de vista do outro, do ciúme e do ódio, da negociação e do saber perder.»

Um dos maiores estudos alguma vez realizados na Grã-Breta­nha (Understanding SocietyEntendendo a Sociedade), em 2011, veio deitar ainda mais achas para a discussão. Num universo de cem mil pessoas analisadas conclui-se que o nível de felicidade desce à medida que aumenta o número de irmãos em casa. Os filhos únicos são, afinal, mais felizes, titularam os jornais e revistas. Não se pense, contudo, que a questão ficou resolvida. Bem pelo contrário. «Uma criança pode dizer-se feliz porque tem tudo, eventualmen­te não sabendo que o não ter tudo é um motor do desejo. E a bus­ca do desejo é um fator para a felicidade. A frustração, que enraive­ce num primeiro momento, desencadeia pensamento, estratégia e ação», explica Mário Cordeiro.

Mas há outros números que este estudo deixou a nu: cerca de 31 por cento dos entrevistados afirmam ter sido vítimas de violência por par­te dos irmãos. «É uma realidade para a qual ainda não despertámos», afirma Otília Fernandes. Outro estudo, este de 2014, do qual é coau­tora e que teve como alvo 588 estudantes universitários, mostra que a violência entre irmãos é uma das formas mais comuns de violência familiar. Não só física e verbal, mas também sexual. «Os maridos não podem bater nas esposas, os pais nos filhos, os colegas uns aos outros, mas aceita-se que os irmãos se batam e agridam», conclui Otília Fer­nandes. Quem não conhece a história de Caim e Abel?

Pedro e Beatriz Martins, residentes em Massamá, estão a anos-luz deste universo. Brincam, provocam-se, mas não passam um sem o outro. Beatriz, mais velha, mais madura, explica: «A maior parte das vezes estamos a rir ao mesmo tempo que anda­mos à bulha. Chateamo-nos por coisas parvas. Mas não somos aque­les irmãos que têm ódio um ao outro, nada disso. Ele mesmo que não tenha nada para me chatear arranja. Temos de estar sempre a picar–nos um ao outro, senão não somos nós. Não seria a Beatriz e o Pedro.

Seria a Beatriz e outro rapaz qualquer.» E sobre que é conversam um rapaz de 8 anos e uma rapariga de 11? «Conversar?! Nós não conversamos muito. Rapazes e raparigas é um bocado difícil conversarem. Ele diz que as conversas que eu tenho são parvas, mas eu também acho isso das dos rapazes. Ele é fanático por futebol e por isso nunca vejo televisão, nunca mesmo. Depois o meu pai vê o ciclismo. O ciclismo ocupa quatro horas, depois começa o futebol. As raparigas da casa, eu e minha mãe, quase nunca veem televisão, é mais isso. Agora ele tem u ma paixão pelo hóquei, ainda é pior.»

Pedro não concorda, naturalmente. «Estou sempre a fazer o que ela quer.» Por mais que se chateiem garantem que nunca lhes passou pela cabeça que seria melhor não ter irmãos. «Já reparei numa coisa: eu com uma amiga fico zangada e no outro dia lembro-me que ainda estou zangada. Com o meu irmão zango-me e no outro dia já não me lembro. Apenas gostava de ter o meu espaço. É mais difícil ser a irmã mais velha.» O espaço, essa eterna questão. Pedro faz tábua rasa so­bre o assunto. «Consigo ter um espaço só para mim, mas não preciso. Estou sempre brincar. Pelo menos tento. Às vezes ela é que não quer.» Mas nem tudo são discordâncias. Ambos admitem que gostariam de voltar a estudar na mesma escola. «Estudámos juntos durante al­guns anos, agora não. Sentia-me mais segura. Além disso podia vê-lo e depois contar tudo à mãe. Ele diz que eu sou muito queixinhas.» Pedro desta vez não reage: «Uma vez houve um pequeno incêndio na escola dela e eu passei o dia todo preocupado, queria saber se lhe ti­nha acontecido alguma coisa.»

E como veem eles os colegas e amigos filhos únicos? Pedro garante não notar diferença, já Beatriz não hesita em traçar um diagnóstico. «A maior parte dos meus amigos da escola não têm irmãos. Acho que os pais sentem um bocado de culpa e por isso recebem mais pren­das. Ou então têm mais dinheiro para eles, não sei. Não digo que se­jam mais mimados, porque alguns até são menos, mas geralmente é assim. Toda a gente que conheço quer ter um animal de estimação, mas os que têm são na maioria filhos únicos.»

Alexandra, Gonçalo e Carolina assumem sem qualquer complexo que gostam de ser filhos únicos, e não renegam a sua dose de mimo – «a minha mãe diz que eu devia de ter muitos irmãos para deixar de ser mimalho», afirma Gonçalo –, mas também não escondem aqui e ali alguns momentos solitários. Fazem–no, contudo, sem drama aparente. A julgar pelas suas palavras e pela forma como ocupam o tempo, longe parecem ir os tempos em que um filho único não sabia o que fazer. «Quando estou em casa jogo, brinco, vejo televisão ou cozinho com a minha mãe. Também brinco com o meu pai. Muitas vezes as minhas amigas vêm para minha casa. O mais chato é quando quero brincar com alguém e estou sozinha», diz Alexandra.

A idade aumenta, mas as repostas são em tudo semelhantes. Para Carolina, adolescente, o mais «difícil de não ter irmãos é que às vezes os meus pais estão a trabalhar e não tenho ninguém para jogar videojogos ou passar tempo». Já Gonçalo, quando não está na escola, passa os dias «na piscina, a ver televisão, a jogar bilhar, PlayStation e futebol. De vez em quando também brinco com amigos e o meu primo de 8 meses». A parte menos boa é precisamente não ter ninguém «para jogar futebol, PlayStation, bilhar ou ir para a piscina».

Palavras simples, ingénuas, sorridentes, que remetem, ainda assim, para outra questão, também ela poucas vezes abordada. Como será quando forem mais velhos? Falar em filhos únicos é, por defeito, falar em crianças, mas se a infância e a adolescência são transitórias, ser filho único é um estado para a vida. Se é ver­dade que terão de travar menos batalhas pela conquista do seu espaço e atenção dos pais, poder-lhes-á faltar algum apoio e com­panhia, sobretudo nos maus momentos.

António Torrado, 74 anos, sabe do que fala. «Quando os pais caem na doença, quando os perdemos, ficamos órfãos, sentimo-nos sós.» Escritor, argumentista, dramaturgo e uma das maiores referências na literatura infanto-juvenil – em 1988 foi distinguido com o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças –, ainda é do tempo em que ser filho único era a exceção. «Criei uma associação de filhos únicos, juntamente com outros amigos. Éramos adolescentes e que­ríamos acabar com o anátema do filho único. Do menino mimado. Naqueles tempos era ainda mais forte e éramos algo discriminados.» António Torrado pode ter feito tudo para ajudar a mudar esta rea­lidade, mas sabe que foi essa mesma realidade que fez dele escritor. «Sempre quis ter uma irmã mais velha e um irmão mais novo. Gos­tava de ter sido um pouco protetor, já que fui sempre muito protegi­do. Acabei por inventá-los e escrevia para eles. A figura fantasmáti­ca, o irmão fictício, é muito comum nos filhos únicos. Se tivesse tido um irmão talvez tivesse exteriorizado tudo de outra forma. Talvez me tivesse dedicado mais à rua, ao desporto. Brincava sozinho. Sem­pre soube brincar sozinho. Acabei por transferir isso para a litera­tura.» Um universo que à partida não lhe estaria reservado, até por­que os «pais inventam um destino para os filhos» e nem sempre é fá­cil fugir ao guião traçado. «O meu pai era empresário, queria que eu trabalhasse com ele, daí ter sido mais prudente, mais recatado. Me­nos aventureiro. Para não os desiludir. Ainda andei titubeante, mas acabei por seguir o meu caminho. Quando recebi o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura o meu pai já estava muito doente, mas es­teve presente. Disse-me que ficava feliz por ter seguido o meu cami­nho. Foi o maior prémio que poderia ter tido.»

Os tempos mudaram e as estatísticas estão aí para compro­vá-lo. Ser filho único já não é a exceção, algo que possa causar ver­gonha ou ser motivo de gozo por parte dos colegas e amigos. Até porque é mais difícil gozar com o outro quando este é igual a nós. Se em 1991 apenas 43,8 por cento dos casais tinham um filho, em 2011 esse número aumentou para 54,7 por cento. Os números tornam-se mais claros à medida que se recua no tempo: em 1960 um agregado familiar português era em média constituído por 3,8 pessoas. Em 2011 diminuiu para 2,6. Já as famílias com mais de cinco elementos representavam 17,1 por cento do total, ficando-se agora pelos 2,0 por cento. Dados e conclusões do Instituto Nacional de Estatística juntamente com o Observatório das Famílias e das Políticas de Fa­mília referentes aos Censos de 2011. Relatório onde se conclui tam­bém que o número de filhos por mulher atingiu os mínimos: 1,35.

Os alarmes soaram, repetem-se os apelos e a necessidade de in­centivo à natalidade, de forma a contrariar o saldo natural nega­tivo – mais óbitos do que nascimentos. Mas a verdade é que os úl­timos números acentuam a tendência: se Portugal já tinha batido em 2013 um novo recorde negativo de natalidade (nasceram 82 538 crianças, menos 7303 do que no ano anterior), tudo indica que nes­te ano os números venham a ser ainda mais preocupantes: segun­do dados avançados pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, nos primeiros oito meses de 2014 houve apenas 53 641 re­cém-nascidos a efetuar o chamado «teste do pezinho». Menos 957 do que no ano passado.

Como vamos alterar esta tendência? Como será assegurada a substituição de gerações? Estará esta nova geração de filhos úni­cos bem preparada para enfrentar o mercado de trabalho? Ques­tões, inúmeras questões, que, pelo menos para já, não cabe a estas crianças responder. Se bem que não fujam a nenhuma pergunta. «Se tivesse filhos gostava de ter um, porque não sei tratar lá mui­to bem de bebés», conclui Gonçalo, resposta e sorriso pronto, como qualquer filho (único).

CONVERSAR É PRECISO É sabido que as crianças pensam, falam e per­guntam sobre (quase) tudo, mas será que falam entre si sobre assuntos como este? Carolina, 13 anos, assume que às vezes fala com os colegas «sobre isso», já Gonçalo, 8 anos, diz que nunca falou com os amigos sobre ser filho único. Algo normal, garante Otília Fernandes. Sensivel­mente «até aos 6 anos, já dizia Piaget, a criança é um ser muito egoísta, pensa só no que seria bom para ela, e lá no fundo todas as crianças querem ser úni­cas, mesmo que digam que querem um irmão». Já a conversa entre filhos e pais é outro assunto. Promover o diálogo é fundamental, adianta Mário Cordeiro. «Os pais devem ouvir e sobretudo escutar as crianças, e não apenas o contrário. Defendo muito os “almoços de negócios” entre pais e filhos. As famílias são “empresas” em que tem de haver reuniões periódicas e avaliações do que corre bem ou mal.» Ainda assim, e por mais diálogo que exista, na hora de um casal avançar (ou não) para outro filho, a decisão não deve ser in­fluenciada ou inflacionada pela vontade da criança. Ouvir é uma coisa, decidir é outra. «Só cabe aos pais decidir os número de filhos que querem», conclui a investigadora.

NA PRIMEIRA PESSOA Vê-se mesmo que és filho único.» Já perdi a conta ao número de vezes em que ouvi esta expres­são. O mesmo, ou mais, em que ouvi a frase: «Nem pa­reces filho único.» Se os ró­tulos que nos colocam são o reflexo das nossas atitu­des, a minha personalidade parece ainda longe de estar definida. Não me preocupo, contudo. Ser filho único é também aprender a viver com estas contradições. As nossas e as dos outros. A forma como nos vemos e a maneira como o mundo nos olha(va). Há pouco mais de três décadas ser fi­lho único já não era um dra­ma – é possível que nunca tenha sido um drama, apenas uma caraterística – continuo, ainda assim, a carregar comigo este «te­ma». Talvez por isso tenha escrito este artigo. Talvez por isso tenha escrito um livro para crianças sobre o assunto, Diário das Coisas Impossíveis. «O que será melhor? Crescer, sozinho, rodeado de brinquedos ou, com menos brinquedos, mas rodeado de irmãos?» É esta a questão que atra­vessa toda a obra. Uma pergunta ingénua, porven­tura simplista, para a qual não tenho resposta e que pretende, acima de tudo, estimular a discussão. Costumo dizer, meio a brin­car meio a sério, que ainda hoje tenho uma secreta esperança de que a minha mãe engravide, mesmo já tendo passado dos ses­senta. Nem que fosse para mais tarde perceber que, afinal, não há nada como ser filho único. João Ferreira Oliveira, autor do livro Diário das Coisas Impossíveis

 

 

Filhos únicos poderão atingir recorde na geração dos que têm 35-40 anos

Setembro 11, 2012 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia do Público de 26 de Agosto de 2012.

Por Catarina Gomes

Pela primeira vez em três gerações, as famílias de filho único poderão tornar-se maioritárias na geração dos que estão entre os 35 e 40 anos, atingindo mais de um terço do total e superando assim as que têm dois filhos. São conclusões de um inquérito nacional feito no âmbito do estudo Trajectórias Familiares e Redes Sociais: Percursos de Vida numa Perspectiva Intergeracional, realizado por uma equipa do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

O estudo perguntou a homens e mulheres de três gerações de portugueses o número de filhos que têm. Escolheram primeiro os que nasceram entre 1935 e 1940 – que tinham à data do inquérito (2010) entre 70 e 75 anos -, viveram as suas vidas em ditadura, antes de haver contracepção fiável. Aqui, a maioria das famílias (37%) teve proles de três ou mais filhos, seguidos dos que tiveram dois (34%), e com um peso muito menor das famílias de filho único (22%) e ainda menos das sem filhos (7%).

Os nascidos entre 1950 e 1955 – que tinham entre 55 e 60 anos quando foram inquiridos – viveram as suas vidas já com o acesso à pílula e numa época em que uma das autoras do estudo, a socióloga Vanessa Cunha, chama de “glorificação da era do casamento”. Neste grupo estão claramente na dianteira as famílias de dois filhos (43%), seguido por 25% com três ou mais filhos e mantém-se quase o mesmo valor da geração anterior no que diz respeito aos filhos únicos (23%) e sem filhos (9%).

Por fim, tentaram ter o retrato de uma geração nascida já em democracia e que está na recta final do seu período reprodutivo (nascidos entre 1970 e 1975), numa época caracterizada pelo declínio da fertilidade. E neste retrato, que ainda não está fechado (uma vez que se considera que as mulheres podem ter filhos até à menopausa), as mudanças são claras: pela primeira vez em três gerações, as famílias de filho único poderão ficar em maioria (35%), seguidas das de dois filhos (31%). Como grande mudança surge também a duplicação dos que não têm filhos, com mais de um quinto do total (22%), distantes ficam os que têm famílias numerosas de três ou mais rebentos (13%).

Mas a socióloga Vanessa Cunha realça que uma coisa é a realidade, outra são os desejos. É que questionados quanto ao número de filhos que gostariam de ainda vir a ter, esta geração quer ter bastante mais descendência do que a que têm: a maioria (44%) responde que quer chegar aos dois, desce em 10% (para 25%) os que querem mesmo ficar-se pelo filho único, valor que também é mais baixo nos que não querem mesmo ter filhos (11%). Caso levem adiante os seus sonhos, 20% gostariam de ter três ou mais filhos.

Mas será que a realidade vai ficar mais próxima da dimensão actual das famílias ou os que o desejam conseguirão ampliar a sua família para o tamanho desejado? Vanessa Cunha nota que em demografia é sabido que “os ideais ficam sempre aquém das práticas”. A juntar a esta constatação teme que, face à conjuntura actual, a crise faça com que esta geração não chegue a ter os filhos que deseja e aumente o peso das famílias de filho único e das sem filho, uma vez que “adiar mais, já no final do ciclo reprodutivo, pode levar a que não cumpram os seus objectivos. Esta é uma geração que já adiou muito e em que todas as condições para ter filhos estão deterioradas”.

Questionados sobre as razões que os levam a adiar a vinda de um segundo filho escolhem “as preocupações financeiras”, seguindo-se a “vida profissional demasiado exigente (falta de tempo ou vontade)” e a “falta de suporte familiar”; no grupo dos que se recusam mesmo a ter um segundo filho surge “o custo demasiado elevado da educação”, “a instabilidade laboral” e “a falta de apoios públicos (creches e infantários, benefícios sociais)”. “O desemprego fecha a porta a segundo filho, 82% dos inquiridos sem emprego não querem ter segundo filho”.

Vanessa Cunha acrescenta ainda que são vários os estudos que constatam que a instabilidade de políticas na área faz com que as famílias recuem. “Quando o Estado recua, não se pode esperar milagres.” Refere-se, por exemplo, à retirada de abonos de família, não pelos valores em causa, mas pela mensagem que passa. “O que é importante é a estabilidade ao nível das políticas públicas para que quando as pessoas fazem escolhas saibam que as regras do jogo não vão mudar a meio, apesar da economia.”

Na sua opinião, a crise deverá assim aumentar o peso das famílias de filho único, que já era mais alto do que a maioria dos países europeus. Num estudo demográfico realizado em 2008, desta feita analisando o tamanho da prole dos nascidos em 1963 (à data com 45 anos), Portugal já era, dos 19 países analisados, o segundo com maior proporção de filhos únicos (31,9%), apenas superado pela Federação Russa (37%). A tendência é ir adiando tanto a chegada do primeiro filho como a vinda de um segundo, mas o estudo encontrou diferenças sociais: são as classes mais escolarizadas que mais adiam a vinda do primeiro filho, mas depois têm o segundo com pouco tempo de diferença (com dois a quatro anos), no caso de grupos mais desfavorecidos a vinda do primeiro filho acontece mais cedo, mas depois adia-se a vinda do segundo filho por razões financeiras, com maiores intervalos entre irmãos (mais de cinco anos). Já “ter um terceiro filho é um sinal de distinção social, é um factor em crescimento em classes médias altas”.


Entries e comentários feeds.