As férias dos filhos de pais divorciados

Julho 29, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 25 de junho de 2019.

O que fazer quando, por alguma razão, a criança está longe de um progenitor mais tempo do que aquele que é capaz de compreender? Existem algumas formas de tentar minimizar o potencial impacto negativo que este distanciamento poderá ter na criança.

As férias escolares chegaram e, como em todos os anos por esta altura, temos um calvário que se repete. O calvário das férias dos filhos de pais separados.

A separação ou divórcio parental é (ou deveria ser) apenas entre os elementos do casal, e não entre pais e filhos. Entre pais e filhos não há divórcio. Assim, e partindo sempre do pressuposto que as crianças têm o direito a conviver regularmente com ambos os pais, os períodos de férias tendem a ser (e bem) igualmente repartidos com cada um deles. Mas atenção, porque nesta distribuição do tempo durante as férias e, particularmente agora, nas férias de Verão (mais extensas), há uma variável chave que deve ser tida em conta: a idade da criança.

Os períodos de tempo que a criança deverá passar com cada um dos pais devem ter em conta a sua idade e nível de desenvolvimento, e não apenas aquilo que dá mais jeito aos pais.

As crianças a partir dos dois ou três anos de idade têm uma noção de tempo que, na maioria das situações, não vai além do “hoje” e do “amanhã”. À medida que crescem, até aos cinco ou seis anos de idade, a sua noção de tempo aumenta um pouco mais, conseguindo já entender o que significa “hoje”, “amanhã”, “ontem” e “depois de amanhã”. Ainda recentemente uma criança de cinco anos me dizia que algo iria acontecer “duas vezes amanhã”, o que traduz bem a sua dificuldade em situar-se no tempo.

É a partir da idade escolar, de uma forma geral, que as crianças começam a interiorizar os conceitos de semana, fim-de-semana e mês. A escola e todas as rotinas a ela associadas ajudam as crianças neste tipo de aquisições.

Quando pensamos na divisão do tempo de férias de Verão com os pais, a noção de tempo daquela criança em concreto deve ser tida em conta. Ainda que estejamos a falar de um período que apenas acontece uma vez no ano, a regra base é simples: a criança não deve passar períodos de tempo que sejam muito mais longos do que aqueles que é capaz de compreender.

O que significa isto?

As crianças até aos três anos devem passar períodos de tempo mais curtos, que lhes permitam não estar mais do que três ou quatro dias seguidos sem estar com o outro progenitor.

As crianças em idade pré-escolar, com maior capacidade para lidar com as separações, já conseguem lidar com intervalos de tempo de cerca de uma semana, sem que a distância face ao outro progenitor seja geradora de stresse.

É a partir da idade escolar, de uma forma geral, que as crianças evidenciam um desenvolvimento cognitivo e emocional que lhes permite tolerar períodos de tempo mais longos, como uma quinzena.

E o que dizer dos adolescentes? Aqui, a nossa preocupação não se relaciona tanto com aspectos do seu desenvolvimento, mas sim com a necessidade, legítima, que sentem em estar com os amigos. Assim, será legítimo também ouvir o adolescente e tentar perceber de que forma a interacção com os seus pares poderá ser integrada nos períodos de férias escolares. Lembre-se que, para um adolescente, passar as férias todas com os pais e sem acesso aos amigos equivale a uma espécie de tortura.

E o que fazer quando, por alguma razão, esta regra não pode ser cumprida e a criança está longe de um progenitor mais tempo do que aquele que é capaz de compreender? Existem algumas formas de tentar minimizar o potencial impacto negativo que este distanciamento poderá ter na criança.

Uma imagem vale mais do que mil palavras

O Francisco tem um ano e meio de idade e nas férias irá estar uma semana com cada progenitor. Diariamente, faz uma videochamada com o progenitor que está longe. Mesmo que ainda não saiba falar muito bem, ouve a voz e vê a imagem, e a interacção é seguramente mais rica.

Torre de legos

A Inês tem três anos e vai estar uma semana com cada um dos pais. Como não tem ainda uma noção de tempo que lhe permita compreender o que isso significa, os pais arranjaram um jogo. No início de cada semana tem sete peças de lego espalhadas. Todas as noites, quando se deita, coloca uma peça em cima da outra. À medida que os dias vão passando, vai construindo uma torre. Ela sabe que quando a torre estiver completa será o dia de mudar para a casa do outro progenitor.

Um dia de convívio durante as férias

A Sara tem quatro anos de idade e tem o seu tempo de férias dividido por quinzenas. A meio de cada quinzena de férias com a mãe ela passa um dia inteiro com o pai. E vice-versa.

Caixa do tesouro

O Martim tem seis anos e tem o seu tempo dividido por quinzenas. Apesar de já ir para a escola este ano, ainda não consegue perceber muito bem o que são duas semanas seguidas. Então cada progenitor tem consigo uma caixa especial, que decorou previamente com ele, onde colocam pequenos objectos simbólicos durante o tempo em que estão longe. Uma flor de um jardim, uma concha da praia, um papel rabiscado com um desenho. Quando se reencontram, abrem juntos esta caixa e exploram cada objecto. Qual a mensagem que é transmitida? “Penso em ti mesmo quando estou longe de ti, nas mais pequenas coisas do dia-a-dia.”

Vamos tentar?

 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

Manter ou não as rotinas dos miúdos nas férias, eis a questão

Julho 24, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do DN Life de 20 de julho de 2019.

Flexibilidade é palavra de ordem quando falamos de férias escolares. Só assim os mais pequenos conseguem aproveitar verdadeiramente o período de pausa dos compromissos escolares. No entanto, até aos três anos é importante manter algumas rotinas. Como gerir os horários? Quando voltar à normalidade? O pediatra Hugo Rodrigues e a psicóloga clínica Olga Reis deixam alguns conselhos.

Texto de Joana Capucho

Se o seu filho não quiser ir para a cama antes das 23.00, não se preocupe muito com isso. Durante as férias, deixe-o deitar-se mais tarde, garantindo que dorme o número de horas recomendado para a idade. E também não precisa de assegurar que almoça às 12.30 como é habitual no período de aulas. “Não é preciso um grande stresse com as rotinas, porque tentar mantê-las nas férias acaba por ser uma fonte de discussão e não de prazer, o que é contraproducente”, diz o pediatra Hugo Rodrigues.

Estas considerações são válidas a partir dos três anos, ressalva o pediatra da Unidade Local de Saúde do Alto Minho, em Viana do Castelo. “As crianças mais pequenas precisam das rotinas para se sentirem seguras, tranquilas, para poderem antecipar o que vem a seguir. Por isso, faz sentido nos aspetos mais básicos do dia-a-dia – como comer e dormir – manter alguma regularidade em relação ao padrão habitual, apesar de haver espaço para alguma flexibilidade”, aconselha Hugo Rodrigues.

A partir dessa idade, não existe um limite relativamente aos horários nas férias. “É preciso bom senso”, sublinha o pediatra, destacando que é importante analisar os comportamentos da criança para perceber se lida bem com as novas rotinas. “Se estiver bem-disposta e tranquila, é porque não há problema com o que se está a fazer. Mas se estiver cansada e irritada, tem de se repensar os horários”.

“Não tem mal nenhum, pelo contrário, quebrar um pouco as rotinas, uma vez que passamos o ano inteiro com inúmeras atividades”

A preparação é importante: “Não deve haver uma mudança muito grande de um dia para o outro. Deve ser uma coisa progressiva”. Numa criança maior meia hora ou uma hora não fazem diferença, mas nos primeiros anos de vida é uma mudança que pode ser agressiva.

Olga Reis, psicóloga clínica e autora do livro Acabar com as fraldas e o xixi na cama, também considera que “não tem mal nenhum, pelo contrário, quebrar um pouco as rotinas, uma vez que passamos o ano inteiro com inúmeras atividades”. Reforçando a necessidade de não fugir muito dos horários habituais com crianças até aos três anos, diz que a partir dessa idade “os horários podem ser flexíveis”, mas com muita atenção ao número de horas de sono.

“No que diz respeito à alimentação, também “não há grandes benefícios em ter um sistema muito mecanizado ao longo do ano”.

“Se a criança se deita mais tarde não pode ser obrigada a acordar muito cedo para ir para a praia. O sono é muito importante”, afirma a psicóloga. Nos primeiros anos, as crianças precisam de dormir entre 10 a 12 horas, que podem ser compensadas com as sestas, e até aos 10 anos são recomendadas 9 a 10 horas de sono.

No que diz respeito à alimentação, também “não há grandes benefícios em ter um sistema muito mecanizado ao longo do ano”. De acordo com os especialistas, não há problema se saltar um ou outro lanche, mas deve ter cuidado com a ingestão de açúcar, pois há uma tendência maior para consumir sumos, gelados e doces. “Podem fazer um gelado com um sumo de frutas natural, por exemplo”, sugere Olga Reis. Apesar de poder haver uma aposta em refeições mais leves, deve ser assegurada uma alimentação equilibrada.

Promova experiências diferentes

Tal como para os adultos, é importante para as crianças quebrar a monotonia em relação às atividades que fazem durante o ano letivo. “Quanto mais experiências diferentes as crianças tiverem, melhor se desenvolvem”, destaca Hugo Rodrigues, acrescentando que nas férias há a oportunidade de experimentar “coisas mais físicas e mais artísticas”. Sugere, por exemplo, idas ao teatro ou a concertos. “São coisas que não se fazem habitualmente e que podem despertar áreas e curiosidades diferentes”.

Destacando a importância de “conviver com outras pessoas”, o pediatra considera que as crianças devem evitar os ecrãs durante as férias. “Há momentos para isso”, reconhece, “mas como exceção”. Como regra, aconselha, as crianças devem “andar no exterior, estar com outras crianças, com outros adultos, e passar o menor tempo dentro de casa”.

“Cerca de um mês antes do início do ano letivo, as famílias devem tentar “restabelecer a rotina”

Levá-los para o exterior pode ser um grande desafio, sobretudo se estivermos a falar de adolescentes. “Mas é fundamental tirá-los de casa, dizer-lhes para saírem, estar com amigos. Podem ir de autocarro ou de comboio até à praia, por exemplo”, propõe Hugo Rodrigues. Cabe aos adultos “dar-lhes autonomia e responsabilidade q.b., porque a superproteção dificulta o crescimento”.

Ao contrário do que acontecia com as gerações anteriores, que queriam sair de casa para estar com os amigos, os adolescentes “colmatam o estar com os outros com a comunicação através das tecnologias – não exatamente da mesma forma e se calhar com alguns handicaps“.

O regresso às rotinas

Cerca de um mês antes do início do ano letivo, as famílias devem tentar “restabelecer a rotina”, aconselha Olga Reis. Se isso não for possível, uma vez que há famílias que tiram férias mais tarde, os horários devem voltar à normalidade “pelo menos duas semanas antes de iniciar a escola, para haver uma adequação de todo o funcionamento físico e cognitivo”.

Se não houver essa adaptação aos horários, há tendência “para haver birras e chatices”. “Como as crianças não têm maturidade emocional muito desenvolvida, o corpo encarrega-se de libertar os stresses e as necessidades – e às vezes não há compreensão das famílias e há mais chatices”.

Férias escolares no outono impõem-se na Europa… mas em Portugal não!

Setembro 19, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto da http://visao.sapo.pt/ de 7 de setembro de 2016.

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Márcia Galrão

13 semanas de férias no verão, mas três meses seguidos de aulas sem interrupção até ao natal. Em Portugal é assim. Na Europa, a prática já é bem diferente.

m 24 países da União Europeia, os alunos do ensino primário e secundário descanso no outono. Portugal não está entre eles. Por cá, o mote são as férias de verão, que atingem em muitos casos as 13 semanas e que atiram o arranque do ano letivo para o meio de setembro. Novo descanso só acontece depois no Natal.

Três meses seguidos de aulas sem qualquer interrupção até ao Natal é uma prática comum nos países do sul, Portugal incluído. Mas para quem gosta tanto de tentar seguir as boas práticas nórdicas no que toca a Educação, por cá ainda não nos rendemos aos ensinamentos dos nossos amigos finlandeses, britânicos ou alemães.

Os alunos portugueses estão no grupo dos que têm mais semanas livres no verão, tal como os espanhóis, os italianos ou os irlandeses. O estudo Organização do Calendário Escolar na Europa analisa os tempos de aulas e descanso na primária e secundária em 37 países do continente europeu e mostra que, sejam mais ou menos dias, quase todos apostam nestas mini-férias de outono.

Em 2015, o Conselho de Escolas sugeriu o mesmo para Portugal, mas os pais estiveram contra.

Navegue pelo mapa que criamos, para perceber em que países os períodos de férias são mais longo e quais aqueles que estão com Portugal no pote dos que não dão descanso escolar no outono.

Visualizar o mapa interativo no link:

http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2016-09-07-Ferias-escolares-no-outono-impoem-se-na-Europa.-mas-em-Portugal-nao

 

 

Cómo gestionar las vacaciones de tus hijos

Agosto 6, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.abc.es  de 31 de julho de 2015.

ABC

Llevar rutinas o tener un descontrol total, hacer deberes si o no…

Gestionar las vacaciones de los hijos puede convertirse en un gran dilema. Existen muchas opciones: campamentos, excursiones, viajes, etc., pensadas a menudo para que los más pequeños no se aburran. Para Guillermo Bautista y Beni Gómez-Zúñiga, profesores de los Estudios de Psicología y Ciencias de la Educación de la UOC, «el aburrimiento no es malo; al contrario, es una buena oportunidad para los niños», y añaden que «les genera la necesidad de activar la mente, de pararse a pensar qué les gusta y qué quieren hacer». Las vacaciones y el aburrimiento pueden ser un buen momento «para aumentar su creatividad y brindarles la oportunidad de llenar su espacio en función de sus intereses», lejos de las agendas y las actividades extraescolares.

Las vacaciones deben ser sobre todo «una oportunidad para pasar tiempo juntos, y para que padres e hijos se comuniquen y se relacionen», afirman Beni Gómez-Zúñiga y Guillermo Bautista. Hay que aprovechar que «tanto unos como otros suelen estar más relajados y esto hace que la comunicación sea más auténtica y más intensa». Para hacerlo bien, los expertos aconsejan «estar muy receptivos y muy atentos a nuestros hijos. Así podremos mantener conversaciones significativas para ellos, entender qué puede interesarles y llevar la iniciativa de una buena comunicación». Gómez-Zúñiga y Bautista proponen una serie de actividades para compartir entre padres e hijos:

—Comentar un libro, hacer juegos relacionados, vincular libros con películas…

—Ir a un museo, a un festival de música, al cine o al teatro y hablar del tema del que trate el acto.

—Inscribirse en familia a competiciones deportivas lúdicas para fomentar la vida saludable y la actividad física.

—Hacer un vídeo o reportaje fotográfico con texto para reforzar la comprensión escrita y oral.

—Cocinar juntos para trabajar aspectos como los sabores, los tipos de alimentos, la procedencia…

—Hacer creaciones artísticas o manualidades para trabajar medidas, colores…

—Dar más responsabilidades a los pequeños haciéndoles ir a comprar y asumir tareas del hogar, entre otras cosas, con la intención de fomentar su autonomía.

Imponer rutinas o libertad total

«En verano las rutinas deben flexibilizarse un poco, tener menos o mantener aquellas que más les satisfagan», consideran Bautista y Gómez-Zúñiga, quienes remarcan que también «depende de la edad de los niños; a mayor edad, mayor flexibilidad, pero si son pequeños, hay que mantener unas rutinas básicas, porque eso los ayuda». Los más pequeños tienen «una gran necesidad de tener su mundo organizado»; en cambio los mayores «ya tienen integrada una manera organizada, así que pueden flexibilizarla en verano, porque tienen capacidad para autorregularse», afirma Beni Gómez-Zúñiga.

El descontrol absoluto tiene contraindicaciones. Los expertos consideran que «no es bueno para nadie», y para los niños tampoco. «Necesitan mantener conductas que se repitan a lo largo del día; este control les da autonomía y confianza», afirma Bautista. Para ello proponen «rutinas vinculadas a la vida diaria y al entorno, como ordenar los juguetes, sentarse a la mesa para comer con el resto de la familia, recoger la habitación, bañarse, comer fruta, lavarse los dientes, hacer deporte, etc.», es decir, rutinas que «mantienen la estructura diaria básica y ayudan al niño a funcionar mejor».

Deberes de verano, ¿sí o no?

Hay que procurar que «esta actividad no implique malestar o sufrimiento». Lo más importante, afirman los expertos, es «mantener el hábito intelectual: pensar, reflexionar, compartir conocimiento y aprender, y esto se puede hacer de muchas maneras, más allá de las tareas escolares de los cuadernos de verano». Tanto Bautista como Gómez-Zúñiga coinciden en que las vacaciones «son un momento para aprender de una forma diferente al resto del año; no se debe perder la rutina de aprender o de fomentar la inquietud del saber, pero hay que hacerlo de una manera alternativa».

 

 

 

Férias grandes… de mais?

Julho 24, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo da Visão de 11 de julho de 2015.

Nuno Botelho

O Ministério da Educação esticou o verão, deixando os alunos mais uma semana em casa. Até 21 de setembro, os miúdos terão 14 semanas de descanso. Bem precisam, defendem uns. Mas há que os ocupar, ripostam outros. Viagem a este tempo em suspenso que, para algumas famílias, parece infinito

Teresa Campos com Sónia Calheiros e Pedro Lisboa (artigo publicado na VISÃO 1165, de 2 de julho)

Uma casa numa árvore é o sonho de qualquer criança e mais ainda em tempo de férias – e esta também faz (ou melhor fez, que eles já mal cabem lá dentro!) a delícia dos netos de Margarida Machado. Duarte, 17 anos, os gémeos Francisco e Carlota, 11, seus irmãos, e o primo João, também de 11, desde pequeninos que adoram ir para casa dos avós, na Amoreira, em Cascais. Ali têm ainda um cão para brincar e, quando faz muito calor, podem sempre tomar banho de mangueira. Férias grandes demais? “Nem por isso, assim são boas”, responde Carlota, de imediato.

A alegria de os ter por perto é mais do que recíproca: afinal, cuidar de crianças em casa fez sempre parte da vida da avó Margarida, 71 anos. “E quem o faz por gosto não cansa”, defende, sem esconder que compreende bem a dificuldade em ocupar miúdos durante tanto tempo: “Quem não tem uma avó disponível, como eu, deve ter momentos muito complicados.”

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É exatamente desta ginástica de que se fala quando se menciona o outro lado das férias grandes: atente-se o caso de Margarida Gomes e do marido, ela assistente de bordo, ele piloto. Não voam juntos para deixarem o menos possível os dois filhos sem os pais em casa, obrigando-se para isso a uma logística que inclui todos os dias a ajuda de uma baby-sitter e do avô materno – e que também mantém por perto os tios e alguns amigos mais próximos. Se os horários pré-combinados já são essenciais durante o ano letivo, é nas férias grandes que se tornam imprescindíveis. E agora, com a chegada de julho, começou também a sua roda-viva da ocupação.

A organização em pessoa, Margarida Gomes planeia tudo com o máximo de antecedência. As inscrições para a colónia organizada pela autarquia de Oeiras são logo feitas em março: afinal, os 75 euros desta semana de “Mexe-te nas Férias” são “um achado”. Sempre atenta ao que circula no Facebook, Margarida descobriu ainda uma nova atividade desportiva em Paço de Arcos, por 89 euros, com basquetebol, surf, skate, futebol, escalada e idas à praia, para ocupar Lourenço nas mesmas datas que Francisca. Como os sobrinhos vão para as mesmas atividades, assim já se  facilita a vida do avô, a quem recorrem todos na recolha e entrega diária das crianças. Só que, como as colónias não são eternas, daqui a quinze dias começará outra atividade de dança para Francisca, onde paga 60 euros só pelas tardes. Lourenço pondera ir para a Aldeia Hípica Fonte Caspolina, uma atividade paga ao dia. A 20 de julho, ambos estarão na vela, na Doca de Alcântara, uma semana que custou 250 euros.

Com o início do ano letivo anunciado para 21 de setembro (o Ministério da Educação decidiu acrescentar mais uma semana às férias), Margarida já pensa que talvez este mês não seja o problema maior. “Tenho de encontrar também soluções para setembro…” E se até agora já gastou 474 euros, questiona-se quando mais será preciso investir.

Num país que já tem uma das pausas escolares mais longas da Europa (ver infografia), a verdade é que há dez anos que as férias de verão não eram tão grandes. Serão grandes demais?

Uma revolução a pedido

“As escolas não são depósitos de crianças” foi a tese que vingou durante muitos anos – e isso nem se questionava no tempo em que havia avós (livres!) por perto, a vizinhança era nossa amiga e tinha filhos pelas idades dos nossos e no bairro podia brincar-se na rua e…  bom, toda a gente se conhecia. No dia a dia do século XXI, em que pai e mãe trabalham fora (e muitas horas), em que nem sempre há super-avós por perto, ou disponíveis a cem por cento, e em que não se estreitam grandes amizades com os vizinhos, mal se aproximam as pausas escolares anda tudo numa correria para ocupar os tempos livres dos filhos. As dúvidas não se fazem esperar: Se a escola é o espaço mais agregador que os mais novos conhecem, não poderia dar essa resposta? Pergunta número 2: E será que devia?

Foi a pensar nisso que, há dias, se falou numa verdadeira revolução. Tudo começou quando o Conselho de Escolas recomendou umas “férias de outono”: uma pausa a meio do primeiro período, à semelhança do que acontece em outros países, para que as escolas possam avaliar o trabalho realizado e planear atividades de apoio aos alunos com mais dificuldades.

A Confederação das Associações de Pais (Confap) não perdeu tempo e aproveitou o pretexto para dizer que o que faz falta é uma mudança radical nos tempos das escolas – começando com apenas um mês de férias no verão. Jorge Ascensão, o presidente da Confap, criticou mesmo as pausas avulso e defendeu que as aulas deveriam começar no início de setembro e terminar apenas no final de julho. “Começo a recear que as escolas tenham mais pausas do que aulas. Toda a gente se queixa de que os programas são extensos e os alunos não têm tempo para aprender e tirar dúvidas. É preciso tempo”, sublinha. O representante da maior confederação de pais insiste ainda que a recomendação do Conselho de Escolas é redutora: “Há muito mais a mudar na educação”, apontando, por exemplo, que os miúdos podem estar na escola sem atividade letiva. “Houve uma revolução na sociedade mas não na escola, que continua centrada na sala de aula, no quadro preto do professor e nas secretárias alinhadas”, criticou.

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Para a outra confederação da associações de pais, a Cnipe, o risco maior desta discussão é os alunos estarem tempo demais na escola. “Parece-nos que encurtar o tempo de férias acabaria por ser contraproducente”, sublinhando que crianças e jovens precisam de tempo para crescer. “Não queremos criar robôs. Queremos cidadãos completos e as crianças precisam de espaço para socializar em vez de estarem na escola das oito da manhã às seis da tarde e ainda levarem trabalhos para fazerem em casa”, salienta, receando que filhos cada vez mais ocupados se tornem demasiado competitivos e isso ponha em causa a entreajuda entre colegas.

De portas abertas

Eis que o Ministério da Educação decidiu baralhar e voltar a dar nesta discussão sobre o tempo das férias e, pelo menos este verão, acrescentou-lhes mais uma semana. As razões? Equilibrar a duração dos três períodos de aulas, salientou o gabinete do ministro da Educação, Nuno Crato, em comunicado enviado às redações. As teorias da conspiração não tardaram: seria a forma de dar mais tempo às escolas para terem todos os professores colocados, evitando assim que qualquer problema afete em demasia a campanha as eleições.

Filinto Lima, da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, é o primeiro a refutar que este adiamento se deva a uma necessidade das escolas: “Depois das colocações dos professores, nós precisamos de apenas uma a duas semanas para ter tudo pronto”, insiste, compreendendo que a decisão traga prejuízo aos pais, que vão ter os filhos a cargo o dia todo, durante mais uma semana. “E podíamos ter as portas abertas. Basta haver vontade política”, sublinha, antes de revelar o (bom) exemplo da autarquia de Vila Nova de Gaia: 4 mil crianças vão participar nas atividades recreativas na escola, fora dos tempos letivos, durante todo o verão. “A escola tem de passar a ser uma instituição de portas abertas, com uma componente lúdica e socializadora”, salienta.

E há mais quem veja na escola esta potencialidade agregadora. Veja-se o exemplo da Associação de Pais do Externato Fernão Mendes Pinto, em Lisboa. A braços com os miúdos em casa, na pausa do Natal passado, propuseram-se usar o espaço da escola para os ocuparem e agora não querem outra coisa. Contam com as auxiliares educativas, mas também com o voluntarismo de alguns dos pais, o que ajuda a diminuir o valor a pagar por estas atividades. “Sou investigadora na área das neurociências, por isso organizei um workshop ligado às ciências”, conta Joana Coelho, 41 anos, presidente daquela associação de pais. “Cada um socorre-se de algo que saiba fazer e, numa manhã ou tarde, dá o seu contributo.”

Em geral, os miúdos adoram, já que assim têm a companhia dos amigos. Mas há também quem se queixe, confessa Joana: “Acabam por passar as férias na escola.”

Este é o ponto que os especialistas mais apontam, para que não seja esquecido, no meio desta loucura de encontrar ocupação para os mais novos: os alunos portugueses já são dos que têm mais carga horária, por comparação com os seus pares europeus (ver infografia). Vivem, como assinalava há já 10 anos o Sindicato das Crianças, uma jornada contínua, quase de sol a sol. “Se os adultos tivessem tido infâncias mais felizes, talvez se lembrassem mais vezes das crianças e se colocassem mais facilmente no lugar delas.” Foi assim que o psicólogo Eduardo Sá apresentou a iniciativa, em 2005, alertando para o facto de “as crianças serem cada vez mais jovens tecnocratas de fraldas e mochila”.

Brincar, precisa-se

Hoje, brincar continua a ser uma preocupação, alerta José Morgado, professor de Psicologia da Educação do info-3-ferias-6607Instituto Superior de Psicologia de Educação. “O problema não é a duração das férias. Os nossos miúdos até têm mais aulas do que muitos outros. O problema é faltar uma resposta adequada da comunidade para este período”, diz, acrescentando que não o incomoda nada que possam decorrer iniciativas na escola, desde que não sejam escolares. “Acaba muitas vezes por acontecer os miúdos terem uma imensa panóplia de atividades neste período. E eles também precisam de outras rotinas, de brincar, de serem crianças por um bocadinho”, apela o professor do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, criticando também as tais “crianças-?-agenda”, que mesmo nas férias continuam com uma sequência organizada de horários e afazeres. “Brincar é a atividade mais importante que as crianças fazem”, defende.

Veja-se que nada disto anula outros dados da ciência, como o de que o cérebro não precisa de muito mais descanso para lá do sono regular. “O desenvolvimento cerebral desenrola-se conforme os estímulos que recebe”, confirma Tiago Reis Marques, psiquiatra e investigador do Instituto de Psiquiatria do Kings College de Londres, além de dar consultas no Centro Cirúrgico de Coimbra e ter sido, recentemente, distinguido pelos seus pares como o Melhor Jovem Investigador, na área de esquizofrenia. “A adolescência é, ainda por cima, o período com mais potencialidade para se desenvolver. Não faz muito sentido que fique quieto”, acrescenta, a lembrar os resultados do famoso estudo que analisou o desempenho de jovens, uns de famílias desfavorecidas, outros de meio social economicamente superior. “No final do verão, os primeiros tinham desenvolvido muito menos sinapses do que os segundos, pela simples razão de serem expostos a menos estímulos.”

Mas Tiago Reis Marques também reconhece que estimular tanto pode ser ter livros para ler como ir à praia. “A mensagem não é ‘se não os pusermos em atividades estamos a condená-los ao insucesso’. ?A mensagem é que continuemos a alimentá-los de coisas, mesmo as mais simples”, aponta, concordando também que há perigos na sobrestimulação. “Quando se trata de crianças, a primeira regra é sempre a do bom senso.” E aqui estão todos de acordo. Ou como diz José Morgado: “Era bom que as férias fossem isso mesmo: férias!”

Ivone Silva compreende perfeitamente do que falam: afinal, é sempre um alívio quando acaba o ano letivo. Por esta altura, ela própria também já está saturada da rotina dos trabalhos de casa e de estudar para os testes com os três filhos. “É o momento em que desaceleramos e terminam as suas atividades extracurriculares.” Habituada a levar os filhos André, Tiago e João, de ?5, 6 e 10 anos, de manhã à escola, a advogada que trabalha numa empresa de tecnologias de informação até tem flexibilidade para sair às cinco da tarde, mesmo que depois, se for necessário, tenha de trabalhar pela noite dentro. Ainda assim, nada tão flexível como nos países nórdicos. “Não tenho dúvidas de que é o modelo ideal. Os miúdos têm seis semanas de aulas, seguidas de quinze dias de férias. Assim, os meses de férias grandes são repartidos ao longo do ano”, descreve, salientando que nem eles ficam tão cansados nem os pais andam nesta correria durante o verão todo. Desde que as aulas terminaram, André, Tiago e João já foram uma semana de férias para o Algarve com o pai, passaram outra semana em casa com o apoio dos avós e esta semana começaram a frequentar a colónia organizada pela Associação de Pais da Escola Básica Gomes Freire de Andrade, que os mais velhos frequentam – e que só existe graças ao tempo livre despendido pelos progenitores, cobrindo toda a mancha horária fora do ano letivo com idas ao Oceanário ou à Quinta do Piruças, com workshops de culinária pelo meio, qualquer coisa como 30 euros por semana por cada um, mais o valor do almoço. André, o mais novo, também vai para a colónia da sua escola, a Básica Beça Múrias, onde, por 160 euros por mês, tem idas à praia, passeios, ateliês de teatro, culinária, dança e música.

Mesmo assim, e para que os miúdos não passem tanto tempo nos ATL, pai e mãe optam por também tirar todos os dias de férias desencontrados. “Tento que tenham o máximo de dias livres com os pais, em vez dos 22 que a lei laboral permite.”

 

 

 

 

Trabalhos de casa nas férias? Só se for leitura e jogos didáticos

Julho 7, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 29 de junho de 2015.

Getty Images

Marlene Carriço

Com a chegada do verão sobem as temperaturas, as praias enchem-se de famílias, as viagens, os passeios, os piqueniques e as atividades ao ar livre multiplicam-se. Para as crianças e jovens em idade escolar o verão é sinónimo de tudo isto e também… de férias grandes. Mas nem sempre sinónimo de descanso. Há professores que ainda cultivam a prática de enviar trabalhos para casa – os famosos TPCs – nesta interrupção das atividades letivas. O Observador procurou perceber se os TPCs nas férias são uma mais-valia ou não e a maioria dos especialistas concordou que deve haver uma quebra das rotinas nas férias e que o estímulo cognitivo deve ser feito por outras vias que não os típicos trabalhos para casa.

A psicóloga Filipa Jardim da Silva começou por defender que “a distinção entre TPCs de tempos de aulas e TPCs de tempos de férias deve existir” e é por isso que não concorda com as “fichas de exercícios como as que habitualmente são feitas durante o ano”, e, por vezes, recomendadas pelos docentes para o período de férias.

Existe investigação que refere que prescrever TPCs no verão idênticos aos do ano letivo, sem uma data próxima de correção e colando o tempo de férias ao tempo de aulas, não é produtivo”, rematou a psicóloga da Oficina da Psicologia.

Filipa Silva é, antes, mais apologista de conjugar “as atividades de verão, os encontros familiares e o acréscimo de tempo passado ao ar livre com jogos lúdico-pedagógicos que despertem a atenção e motivação das crianças, estimulando-as e assegurando que as aprendizagens realizadas são consolidadas e os recursos cognitivos trabalhados”.

Da lista de jogos destaca os puzzles, os quebra-cabeças, os jogos de diferenças, os jogos de cálculo mental e de conhecimento geral e as palavras cruzadas.

Leitura não é TPC. Leitura é obrigatória

Mas estas atividades devem ser sempre combinadas com leitura. “A leitura é imprescindível em idade escolar”, sublinhou a psicóloga, acrescentando que pode ainda ser pedido à criança que faça desenhos sobre a história que leu ou um texto livre sobre as férias.

Para José Morgado, professor do Departamento de Psicologia da Educação, no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), a leitura não pode sequer ser vista como um trabalho de casa. “A leitura de férias é algo que os miúdos devem ser incentivados a fazer”, defendeu. E qualquer tipo de leitura. “Eu tento que leia A Fada Oriana, mas se o miúdo quiser ler o jornal, que leia”, acrescentou.

Aos pais deixou um recado: “Leiam com os filhos, estimulem a leitura. Não tem de ser o livro indicado pela escola”, frisou o especialista José Morgado, que é contra os tradicionais trabalhos para casa.

À semelhança de Filipa Silva, também José Morgado defende que as férias são “para quebrar a rotina” e portanto os trabalhos não podem ser os mesmos que os de período de aulas.

A leitura e a escrita são também os trabalhos que Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), aconselha para que “não haja um corte absoluto com a escola”.

Férias são longas e crianças não podem desligar completamente

Jorge Ascenção, da Confederação Nacional das Associações de Pais, partilha, igualmente, da opinião de que “as férias grandes são para descansar”. O “problema é ser demasiado tempo”, acrescentou logo de seguida. E, por isso mesmo, as crianças “não podem desligar completamente”.

Como tal, “devem ler, fazer composições e um conjunto de atividade intelectuais que lhes permitam não esquecer a matéria e o que trabalharam durante o ano. Há muitas formas de nos irmos divertindo e eles irem aprendendo”, justificou Jorge Ascenção, que considera “exagerado” os miúdos fazerem cadernos de fichas.

Também por saber que “é muito tempo” sem aulas, a professora de 1.º ciclo, Isabel Torres, costuma sugerir leitura para férias, ditados e contas. “Senão chegam ao 2.º ano e já não sabem ler nem escrever nada”, dramatizou.

Este ano, esta docente teve apenas uma turma de 4.º ano e não enviou trabalhos para casa porque  “eles trabalharam imenso durante o ano letivo”. Mas deixou um pedido aos pais dos alunos com mais dificuldades: “Que insistam em alguns exercícios, duas horas por semana“.

Recomendações foi também o que Isabel Baptista se limitou a fazer aos pais no final deste ano letivo. “Deixo essa decisão para os pais, mas aconselho a fazerem algumas atividades porque são muitos meses sem aulas”, explicou. E para os pais não gastarem mais dinheiro em livros de fichas e livros, costuma recomendar que os alunos façam exercícios dos manuais – que nunca se completam – e assim “vão refrescando a memória”.

Manuel Pereira, presidente da ANDE, disse ao Observador que a ideia que tem é de que “genericamente já não há hábito de mandar trabalhos para as férias, mas sim definir um conjunto de metas que os alunos devem atingir nas férias, como livros para ler ou conjunto de fichas para fazer”. O diretor de escola lamentou ainda os casos de alunos em que “infelizmente há um corte absoluto e em que as escolas têm imensas dificuldades porque em setembro é o eterno recomeço”.

 

 

 


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