A nossa ideia de sucesso torna os adolescentes infelizes – Eduardo Sá

Junho 26, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado no Observador de 27 de maio de 2019.

Um adolescente de sucesso é um “tecnocrata de mochila” aos 15 e um “ídolo” antes dos 30. É uma ideia gananciosa e vaidosa de sucesso; que não devíamos reclamar para os adolescentes.

Noutro dia, perguntaram-me como se educa um adolescente para o sucesso. E eu fiquei embaraçado. “Ter sucesso é eleger um sonho e lutar por ele” — respondi. “Em que mundo é que anda?”, perguntou-me o pai. “Neste”, respondi. Mas, muitas vezes, tenho a sensação de que quem anda “na lua” talvez não seja eu.

Porque aquilo a que se vai chamando sucesso parece supor que não se tenha derrotas, nem dúvidas, nem vitórias “a safar”. E que se tenha, invariavelmente, boas notas, claro. Que se saiba (quase sempre) aquilo que se quer. Que se passe por todas as mudanças da adolescência sem sobressaltos. Que se seja quase indiferente aos diversos momentos maus duma família e aos solavancos que o mundo dá, dentro do corpo e fora da escola. Que se ponha, em primeiro lugar, os estudos e só depois o namoro. Que se seja sossegado e se tenha “bom comportamento”. Que as grandes causas sociais ou a política não passem de “distracções”. Que, mal se terminem os estudos, se comece a trabalhar. Que se seja “bom” naquilo que se faz. E que se ganhe muito dinheiro, de preferência, muito depressa. Mesmo que o sucesso resulte dum “casamento de conveniência” e não de um grande amor.

A nossa ideia de sucesso torna os adolescentes infelizes! Porque “robotiza” a adolescência. E transforma miúdos saudáveis, que entram na escola a perguntar “Porquê?”, em “produtos normalizados”. E faz com que, contra a sua vontade, se tornem, um ror de vezes, exemplos infelizes de “inteligência artificial”. A nossa ideia de sucesso é muito pouco amiga dum pensamento livre, interpelante e “escutador”. Porque não lhes dizemos que não se chega ao sucesso sem fazermos perguntas, sem nos pormos em causa, sem hesitações e sem contradições. Que as escolhas são sempre uma renúncia à omnipotência. E que o sucesso não se constrói à margem do desejo. Sem “um sonho” pelo qual se lute. E sem paixão!

Mais grave, ainda, é que esta ideia de sucesso (que vamos alimentando de forma preguiçosa) pressupõe que os nossos filhos escolham aos 14 ou 15 — sem que vacilem — uma “carreira de sucesso” que vigore pelos próximos 55 anos. E que, tendo os adolescentes o “azar” de terem notas muito altas, eles “só” tenham que optar entre os cursos de medicina, de engenharia bio-médica, de gestão, na Universidade Nova, ou engenharia aero-espacial, no Técnico.

Mas será que os mesmos pais que esperam todo este “sucesso” dos seus filhos são, eles próprios, um exemplo de sucesso em todas as áreas das suas vidas? E não estarão a exigir-lhes aquilo que os próprios pais fazem — hoje, inclusive — com imensa dificuldade como, por exemplo, escolher? E será que lhes dizem que ter sucesso é escolher não uma ou duas ou três mas inúmeras vezes, ao longo da vida?

O que se passa, então, nesta ideia de “sucesso”? Não será que associamos — por vezes, perigosamente — o sucesso às boas notas (independentemente do “pó de arroz” que muitos lhes põem, da adolescência que se hipoteca para as ter e do facto de termos passado a conviver com naturalidade com as equipas de “explicadores” a trabalhar para os adolescentes), como se, em todos os momentos, fosse sempre assim. E como se ter-se vida, autonomia, afoiteza, garra, tolerância à frustração, um pensamento próprio e convicções não fossem componentes indispensáveis para que eles se construam de forma mais saudável?

A nossa ideia de sucesso torna os adolescentes infelizes! Porque transforma miúdos saudáveis em “crianças de estufa”. Porque presume que um adolescente de sucesso é um “tecnocrata de mochila” aos 15 e um “ídolo” antes dos 30. A nossa ideia de sucesso torna os adolescentes infelizes porque presume que quanto maior for a notoriedade e mais dinheiro se ganhe, muito depressa, mais poderoso se seja e mais sucesso se tenha.

É uma ideia solitária, gananciosa e vaidosa de sucesso; que não devíamos reclamar para os adolescentes. E de fórmulas do género: “O importante não é viver; é saber viver; muito próxima do modo como “os outros” se transformam em “utensílios descartáveis”. Como se, à escala duma escolha de sucesso, a “fórmula” fosse: “Escolhe uma namorada rica. E, depois, faz como se faz com a água tónica da Schweppes; aprende a gostar”. Ao contrário, se os adolescentes pegarem em tudo aquilo que os encante e interesse, se uma escolha for a síntese de tudo aquilo que tenha a ver com eles, se juntarem sonho e paixão, e fizerem escolhas muito mais baseadas nisso do que, unicamente, nas notas que tenham, tornam-se singulares e inimitáveis em tudo o que fazem. Destacam-se, claro; quase sem quererem. E serão pagos para “brincar”. Não seria mais fácil para os adolescentes se déssemos todos um saltinho “à Terra”?

 

Famílias que brincam em conjunto são mais saudáveis e felizes

Junho 3, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Lifestyle Sapo de 18 de dezembro de 2019.

Fazer jogos e rir em família reduz a ansiedade, reforça a intimidade e desenvolve competências sociais. As incríveis virtudes das brincadeiras entre pais, filhos e irmãos.

Partilhar os tempos livres torna as famílias mais felizes, mais próximas e menos ansiosas, indica um estudo realizado pela Lego, que garante que há uma relação direta entre as horas que pais e filhos passam a jogar juntos e a felicidade que dizem sentir.

A investigação da marca de brinquedos indica que nove em cada dez famílias (88%) que costumam brincar juntas asseguram ser felizes. Esta percentagem diminui significativamente (75%) em famílias que não o fazem, segundo o El País.

Apesar disso, mais de um terço das famílias (38%) não consegue arranjar um furo na agenda para se sentar com os mais novos, ou seja, têm problemas em priorizar o tempo de divertimento devido a horários, tanto de pais como de filhos.

“A brincadeira é uma boa maneira de promover o vínculo, melhorar a comunicação e a autoestima das crianças. É um momento em que os pais e as crianças deixam os problemas e as preocupações de lado”, afirma Silvia Álava, especialista do centro de psicologia Álava Reyes e autora do livro Queremos filhos felizes.

A felicidade e o reforço da cumplicidade não são os únicos benefícios de brincar ou jogar em família. O processo de aprendizagem também tem muito a ganhar: os mais novos aprendem a divertir-se e, pelo meio, desenvolvem habilidades sociais. Ganham uma tolerância saudável à frustração, melhoraram a capacidade de comunicar, de sentir empatia e respeito, aperfeiçoam a capacidade de análise e reflexão, e melhoram a concentração, como afirma Pepe Pedraz, fundador da Funnynnovation Academy, de Madrid.

“Tudo isto é feito de uma forma simples e natural”, explica Álava. “Por exemplo: quando escolhem o jogo à vez aprendem a ceder; quando seguem as regras, aprendem a obedecer. Também trabalham a capacidade de sair derrotados –por isso não é bom deixá-los ganhar sempre, pois na vida por vezes ganha-se e noutras perde-se. De caminho, os miúdos ainda aprendem valores como a coexistência, respeito e gratidão.”

Atenção: pais e mães também aprendem. E muito. Especialmente a conhecer os filhos: que gostos têm, que tipo de jogos preferem, se lhes custa relacionar-se com outras crianças, se preferem jogos de agilidade e manipulação ou de estratégia e concorrência, salienta Pepe Pedraz.

Silvia Álava defende a ideia de tentar jogar/brincar todos os dias, se possível, mesmo que seja por pouco tempo. “Embora tenha de ser realista (não é viável jogar todos os dias Monopólio ou Ludo, que demoram muito tempo), é aconselhável dedicar 10 minutos de brincadeiras com elevada intensidade emocional. Fazer cócegas, por exemplo, não leva muito tempo.”

 

 

Conferência Educar para a Felicidade – 18 maio Ponta Delgada

Maio 5, 2019 às 6:43 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.conferenciaeducarparaafelicidade.pt/

Entre as mulheres que foram mães, 5% arrependeram-se

Março 1, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 13 de fevereiro de 2019.

Natália Faria

Estudo mostra ainda que 13% das mulheres não se sentem felizes no seu papel de mães. Crianças difíceis de educar, muitas vezes em contextos de monoparentalidade, podem ajudar a explicar este grau de insatisfação.

Já se sabia que nem todas as mulheres acalentam a vontade de ser mães. O que não se sabia é que, entre as que o foram, a percentagem de arrependidas chega aos 5%. E, no grupo das mulheres que se declaram “esgotadas” e “frustradas”, que representam cerca de 10% das 2428 mulheres inquiridas no estudo As mulheres em Portugal, hoje: quem são, o que pensam e como se sentem, a percentagem das que se arrependeram de terem tido filhos é ainda superior: 9%.

Às “mães arrependidas”, que declararam que não teriam tido os seus filhos se soubessem o que as esperava, somam-se aquelas que os autores do estudo classificam como mães “não realizadas”. São 13% as que afirmam que a maternidade não foi o que esperavam, não obstante garantirem que, apesar de não se sentirem felizes como mães, teriam voltado a ter os filhos.

A insatisfação de “arrependidas” e “não realizadas”, que alastra a 18% das mulheres com filhos, tem hipóteses explicativas apontadas no estudo: além de se sentirem pouco orientadas para a maternidade, enfrentaram sozinhas ou sem grande apoio o processo de educação e os cuidados aos filhos, quer por estes terem nascido de uma relação que entretanto fracassou quer por terem sido forçadas a criá-los no seio de uma família monoparental.

“Uma coisa é a idealização que as mulheres fazem da maternidade e outra são as condições que as mães têm à sua disposição, em termos monetários, dos equipamentos socioeducativos na sua zona de residência, a disponibilidade afectiva. Há variáveis que importaria perceber melhor”, destrinça Sara Falcão Casaca, investigadora do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), da Universidade de Lisboa, para quem “a percentagem expressiva de mulheres que considera que não foi fácil educar os filhos” pode dever-se “à percepção de que lhes faltaram condições objectivas para o investimento que gostariam de ter feito nos filhos e não propriamente a qualquer noção de arrependimento em relação às crianças”.

Efectivamente, 38% das mães assumiram que educar os filhos esteve longe de ser uma tarefa fácil, contra as 62% para quem a educação dos filhos decorreu tal como imaginavam ou que até foi mais fácil do que o previsto.

De resto, o facto de a maioria das mães se declarar feliz nesse papel, não retira validade à afirmação segundo a qual a maternidade não é garantia de felicidade. Isto porque, sublinham os autores do estudo, “a felicidade que essas mulheres experimentam com a maternidade está muito pouco relacionada com o grau de felicidade que sentem nos restantes aspectos da vida”.

Da amostra, resulta que 27% das mulheres entre os 18 e os 64 anos de idade não têm filhos mas têm intenção de ser mães (a percentagem sobe para os 34%, no subgrupo das mulheres em idade fértil). E até são optimistas em relação ao número de filhos que virão a ter: 83% querem ter mais do que um, acima das 52% das mulheres efectivamente somaram mais filhos ao primeiro.

Na categoria das mulheres que não são mães, somam-se às 27% que pretendem vir a sê-lo, 10% que gostariam de ter tido filhos mas já não os terão, por já não terem idade para isso, e as 9% de mulheres que nunca quiseram ter filhos. Resulta daqui que 46% das mulheres estudadas não são mães, contra as 53% que o são e as 1% que estavam grávidas na altura do inquérito.

Entre as que ainda pretendem vir a ser mães, 17% dizem-se dispostas a tê-los mesmo sem terem um parceiro estável, quando considerarem que “chegou a altura certa”.

Em casal, são mais 24 minutos de trabalho

A partilha das tarefas de cuidados aos filhos nos casais em que ambos trabalham revela desequilíbrios. São as mães que levam os filhos ao médico, vão às reuniões da escola, levantam-se de noite e que os transportam, alimentam e estudam com eles em 69% dos casos, enquanto os pais se ficam pelos 26%. Os restantes 6% destas tarefas são assegurados por familiares ou por ajuda remunerada.

Por outro lado, “com a chegada de filhos ou filhas, a colaboração do pai nas tarefas domésticas reduz-se, quer a mulher tenha trabalho pago quer não tenha. “A colaboração do companheiro no cuidado com as crianças costuma ficar a anos-luz do que a mulher tinha inicialmente imaginado”, notam os autores do estudo.

Tudo somado, com a chegada das crianças “as mulheres passam a necessitar de destinar às tarefas familiares (domésticas, compras para a casa e cuidados aos filhos) quase duas horas a mais por dia, em média. Já os homens aumentam o seu tempo de dedicação, sim, mas em apenas 42 minutos. “As mães tendem a absorver 78% das novas tarefas familiares que resultam do nascimento da criança enquanto os pais se limitam a assumir 22%”, precisa o estudo, para concluir: “Não é de espantar que a avaliação que muitas mulheres fazem do companheiro depois da chegada do primeiro filho ou da primeira filha seja inferior à que faziam antes de a criança nascer”.

De resto, o documento precisa que as mulheres que têm de conciliar vida de casal, filhos e trabalho pago trabalham 13 horas e 24 minutos por dia, enquanto as mulheres que, tendo também filhos e trabalho pago, não vivem em casal trabalham apenas 13 horas. “As mulheres que têm trabalho pago e filhos ou filhas ficam ainda mais sobrecarregadas se tiverem um parceiro do que se viverem sozinhas”, afirmam taxativamente. São 24 minutos de uma diferença que reforça aquilo que, segundo Sara Falcão Casaca, vinha sendo apontado em diversos estudos: “Os homens ganham tempo para si com o casamento e as mulheres perdem-no”.

Descarregar o estudo mencionado na notícia  As mulheres em Portugal, hoje: quem são, o que pensam e como se sentem

Geração Inabilitada

Julho 2, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem publicados no site Up to Kids

 A crença de que a felicidade é um direito tem tornado inabilitada a geração mais preparada

Ao conviver com os mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão no caminho para tornar-se adultos, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, a mais inabilitada.

Preparada do ponto de vista das habilidades, inabilitada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, inabilitada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, inabilitada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o património da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que os seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – só falta apenas que o mundo reconheça a sua genialidade.

Tenho-me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação das suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e uma boa parte embirra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que alcançaram tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é baseada na construção – e que para conquistar um espaço no mundo é preciso virar muitos frangos. Com ética e honestidade – e não às cotoveladas ou aos gritos. Como os seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que lhes anuncia uma nova e não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Porque razão grande parte dessa nova geração é assim? Penso que este é uma questão importante para quem está a educar uma criança ou um adolescente nos dias de hoje. Esta época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de tudo e de todos – sem esperar qualquer responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinónimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces do mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto da sua condição humana como das suas capacidades individuais?

A nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “o fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de trabalhar para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bom, bom é aquele que não estudou, passou a noite nos copos e passou nas específicas para entrar em Medicina. Este atesta a excelência dos genes dos seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar o seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforços, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pago caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por este mundo para testemunhar a cara de espanto e de mágoa de alguns jovens ao descobrir que a vida não é como os pais lhes tinham prometido. Expressão que logo muda para o amuo. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não estão minimamente preparados para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumo desaparece deixando nada para trás. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a explicitar-se no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem sequer para falar da tristeza e da confusão.

Parece-me que é isto que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando do seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito se torna um sintoma – já que ninguém está disposto a ouvir, porque ouvir significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não é por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode manter o quotidiano sem que ninguém precise olhar a sério para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem alcançar. E por isso, é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo a funcionar.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas não se conhecem. E, portanto, estão a perder uma grande chance. Todos sofrem muito neste teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com estes jovens no parapeito da vida adulta, com as suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores à sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que um jovem se transforma em adulto.

Seria muito bom que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad, dizer de vez em quando: “Organiza-te, dá a volta e resolve, meu filho. Poderás contar sempre comigo, mas essa batalha é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, o meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou a tentar descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significar dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão mau quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais transmitiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou amuar ao descobrir que vai ter de conquistar o seu espaço no mundo sem qualquer garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não resultou, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o facto da vida ser insuficiente não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo a sentir-se injustiçado porque um dia a vida acaba.

Por Eliane Brum, publicado na Revista Época, por Clínica Alamendas
Adaptado por Up To Kids®

imagem@saltoyouth

 

 

“Todas as crianças do mundo merecem avós portugueses”. Esta é a conclusão do homem que estuda felicidade

Março 22, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Responsável por colocar o Hygge nas bocas do mundo, Meik Wiking está de volta à escrita com ‘O Livro do Lykke’. Mais do que uma reflexão sobre a vida e a felicidade, esta obra debruça-se sobre os seis elementos da felicidade humana e de que forma é que a podemos alcançar através de dicas práticas. O escritor dinamarquês esteve em Lisboa para a apresentação do livro e esteve à conversa com o SAPO Lifestyle.

‘O Livro do Hygge’ focou-se no Hygge que, para além de ser uma parte importante da identidade cultural da Dinamarca, é descrito como o segredo dinamarquês da felicidade. O novo livro explora o conceito Lykke – que em português quer dizer felicidade – e revela os segredos das pessoas mais felizes do mundo. O que o motivou a escrever ‘O Livro do Lykke’?

O segundo livro fala sobre aquilo que eu faço enquanto Presidente do Happiness Institute Research e qual o meu objetivo de vida: tentar perceber o que leva à felicidade. Há cinco anos fundei este think tank porque tinha curiosidade sobre determinadas questões. “Por que é que algumas pessoas são mais felizes do que outras?”, “Como podemos melhorar a nossa qualidade de vida?”, “Por que é que a Escandinávia tem uma boa posição no ranking da felicidade?” Toda a pesquisa que fiz nessa área está neste livro. Tentei torná-lo acessível e apresentar os dados que analisámos às pessoas.

No livro afirma que é muito mais fácil para as pessoas focarem-se nas coisas negativas do que na beleza e no bem do mundo em que vivemos. Não considera que isso é uma consequência da forma como os meios de comunicação retratam o mundo que nos rodeia?

Sim, é exatamente isso. Nós vemos morte, terrorismo e desemprego nas notícias porque é assim que os meios de comunicação social funcionam. Somos expostos a conflitos diários mas se olharmos para os dados de como o mundo está a evoluir constatamos o seguinte: existem retrocessos mas, de uma forma geral, o mundo é muito melhor hoje em dia do que há 50 anos. Há mais igualdade entre géneros, menos mortalidade infantil, mais esperança média de vida e menos pessoas a viver em pobreza. Há muitas coisas boas a acontecerem mas temos tendência a focar-nos nas coisas negativas.

O Meik Wiking afirma que Portugal tem os pais mais felizes do mundo. Como é que chegou a essa conclusão?

Ter filhos é ótimo para a dimensão da felicidade que está relacionada com o nosso propósito de vida. Quando as pessoas têm filhos sentem que estes dão propósito, direção e significado à vida. Mas quando se analisam os níveis de satisfação de forma imparcial, vemos diferentes resultados dependendo dos pais. Nos Estados Unidos 12% dos pais são menos felizes do que aqueles que não têm filhos. No Reino Unido são 8% menos felizes. Do outro lado do espectro temos Portugal. Aqui, os pais são mais felizes do que as pessoas que não têm filhos. Uma das explicações centra-se no facto de os progenitores serem melhores a incorporar a geração dos avós no crescimento dos filhos. Todas as crianças merecem avós portugueses e políticas escandinavas favoráveis à família. [Risos]

Comparativamente com a Dinamarca, Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer quando o assunto é felicidade. Que aspetos é que podemos melhorar de forma a subirmos no ranking dos países mais felizes do mundo?

Portugal é um país curioso porque ocupa a 89ª posição no Relatório Mundial da Felicidade. Há lugar para melhorias e acho que a questão da empregabilidade é um importante fator em Portugal. Mas acho que todos os países, incluindo a Dinamarca, podem ter um melhor desempenho nos seis fatores analisados no livro: convívio, dinheiro, saúde, liberdade, confiança e bondade.

O ser humano move-se em torno de um objetivo comum: ser feliz. Por que razão é que muitas pessoas acham que a fama e a fortuna são imprescindíveis para atingir a felicidade?

Nós procuramos a felicidade porque é bom [Risos]. Uma das razões pelas quais buscamos fortuna é porque entendemos que o dinheiro é importante para a felicidade. É verdade que para fugir à pobreza e à miséria é necessário dinheiro e muitos de nós pensamos que essa dependência se mantém ao longo da nossa vida. Nós não entendemos algo a que os economistas chamam de Lei da Utilidade Marginal Decrescente: quanto mais temos de uma coisa menos prazer retiramos dela. Quando comemos uma fatia de bolo sabe-nos bem, mas à quinta fatia isso já não acontece. E o mesmo se passa com o dinheiro. O facto de ganhamos mais ao final do mês não vai impactar a nossa satisfação com a vida, o nosso propósito ou as emoções que sentimos diariamente. Outra razão prende-se com o facto de o dinheiro ser fácil de comparar, deixando que isso pese demasiado na nossa vida. O terceiro fator pelo qual buscamos dinheiro mais do que devemos tem que ver com o facto de sermos seres sociais: estamos sempre a fazer comparações e queremos sempre o que os outros têm e mais.

Outro dos temas abordados no livro prende-se com o uso excessivo das redes sociais e na forma como os dispositivos eletrónicos afetam a felicidade, a satisfação com a vida e as relações sociais. De que forma é que podemos contornar este problema?

Diariamente somos confrontados com imagens editadas de vidas perfeitas. Mas a verdade é que as imagens que postamos no Instagram são highlights da nossa vida e não a nossa vida real. Talvez seja necessária mais transparência e abertura quando se fala em redes sociais pois ninguém tem uma vida perfeita e isenta de problemas. Temos de aprender a usar esta nova tecnologia de forma mais benéfica. É difícil porque estamos a falar de gratificação instantânea e a vida, de certa forma, é uma luta constante entre objetivos a longo prazo e gratificação instantânea. Gostava muito que as escolas, as famílias e as comunidades tentassem encontrar soluções para afastar as pessoas dos telefones. Há um colégio interno dinamarquês que tira os aparelhos aos estudantes que só os podem utilizar durante uma hora por dia. Ao fim de seis meses, os alunos votaram se o colégio deveria implementar este método ou se os telefones deveriam ser devolvidos. A conclusão foi que 80% optou pela permanência deste sistema porque criaram uma comunidade com as pessoas que estavam à sua volta. E acho que este caso é uma ótima inspiração para as famílias e as comunidades se juntarem durante algumas horas. Acho que este é o caminho a seguir.

Um dos estudos apresentados refere que as pessoas que trabalham por conta própria são mais felizes do que aquelas que trabalham por conta de outrem. Que conselho daria a quem não se sente realizado profissionalmente mas tem medo de arriscar?

Acho que é uma decisão difícil de tomar. Não sei se tenho um conselho para dar mas posso usar a minha história como exemplo. Durante sete anos trabalhei como diretor de um think tank direcionado para a economia sustentável. Ganhava bem mas não era apaixonado por aquilo que fazia. E para além disso senti que a minha aprendizagem tinha estagnado. Em 2012 comecei a ver o que estava a acontecer com os estudos globais sobre a felicidade, diferentes governos começaram a medir a qualidade de vida e percebi que queria trabalhar nessa área. Queria perceber como podíamos medi-la, porque é que havia pessoas mais felizes que outras e por que razão a Dinamarca se destacava no Relatório Mundial da Felicidade. Achei que alguém deveria criar um think tank sobre a felicidade e foi aí que pensei: “Eu deveria fazer isso.” Foi um risco muito grande porque não sabia se podia viver disso. Isto foi depois da recessão económica e na altura em que um amigo meu morreu com cancro, aos 49 anos. No momento eu tinha 34 e apercebi-me de que faltavam 15 anos até completar 49. Foi aí que pensei “O que é que eu vou fazer durante este tempo que me resta? Vou ficar neste emprego que não me preenche ou vou criar o think tank que, apesar de ser uma ideia louca, pode ser muito divertido”? No meu caso, a coragem para mudar a minha vida partiu da ideia de que o tempo é limitado e que temos de saber aproveitá-lo da melhor forma. Se as pessoas souberem de outro caminho, que as fará mais felizes, é uma boa direção.

No livro ressalva a importância do convívio e das relações pessoais, afirmando que “quantas mais pessoas tivermos com quem possamos falar de assuntos particulares, mais felizes seremos.” A felicidade humana é determinada pela existência de um parceiro ou pelo casamento?

Se formos dividir as pessoas que estão casadas/numa relação e as pessoas que são solteiras concluímos que as pessoas que são casadas são, em média, mais felizes. Mas isso nem sempre quer dizer que o casamento nos proporcione mais felicidade. Claro que há sempre uma causa e efeito mas quando observamos as pessoas vemos o seguinte: as pessoas mais felizes, otimistas e positivas têm mais facilidade em atrair um parceiro mas também é possível aumentar a felicidade através do casamento. Em muitos países, isto afeta mais os homens do que as mulheres porque os homens buscam o companheirismo e a partilha no casamento enquanto as mulheres conseguem isso sem um homem ao seu lado. E no caso do casamento vemos que as pessoas que sentem que o seu parceiro é o seu melhor amigo são ainda mais felizes. Mas será que podemos ser felizes sem o casamento? Claro que sim, mas acho que todos precisamos de ter alguém que nos apoie, que nos compreenda e que nos oiça. E por vezes isso vem na forma de um marido ou de outra coisa.

Aceitar que todos temos bons e maus dias é fundamental para sermos pessoas mais felizes?

Sim e isso é uma coisa que eu e os meus colegas salientamos nas nossas apresentações porque as pessoas acham que nós, pesquisadores da felicidade, estamos sempre felizes. E isso nem sempre é assim. Nós também temos preocupações, ficamos frustrados, stressados, cansados, furiosos, tristes e isso faz parte da vida. Acho que é importante que as pessoas reconheçam isso e que percebam que não existe um nível constante elevado de felicidade.

O que mais o surpreendeu durante o processo de pesquisa para escrever “O Livro do Lykke”?

Ao longo destes cinco anos uma das maiores surpresas foi o elemento genético. Nos Estados Unidos gémeos idênticos foram adotados por dois casais e a partir desses estudos conseguimos ver que os gémeos idênticos, com materiais genéticos idênticos, tem níveis de felicidade muito parecidos. Existe uma dimensão genética semelhante quando olhamos para o campo da saúde mental, como é o caso da depressão, esquizofrenia e ansiedade. Outra coisa que me surpreendeu foi ter consciência de que acima de tudo somos humanos e conseguimos ver nos dados que a mesma coisa que leva à felicidade em Lisboa é igual em Calcutá e em Tóquio. E chegar a essa conclusão é algo maravilhoso especialmente nesta altura.

A felicidade total existe ou é um mito?

Talvez exista num momento específico mas é algo bastante difícil de manter por um longo período de tempo. Na Dinamarca temos uma expressão que diz o seguinte: “Não devemos deixar que a perfeição seja inimiga das coisas boas”. E acho que isso é uma boa filosofia de vida. Vão existir sempre coisas melhores mas não devemos deixar que nada roube o nosso prazer momentâneo. É uma estratégia que devemos adotar em vez de almejar algo impossível.

O que pretende que as pessoas retirem deste livro?

Gostava que as pessoas percebessem o que leva à felicidade. Este livro explica que a Dinamarca não tem o monopólio da felicidade e que podemos encontrá-la em outras partes do mundo. É um menu com dicas e ideias que as pessoas podem implementar na sua vida. Se o leitor implementar uma dessas dicas na sua vida já ficava feliz.

 

Os pais têm de aprender a educar os filhos para o riso

Fevereiro 27, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/

O bom humor também ajuda os filhos a serem perseverantes com os seus objetivos e a ter uma visão mais realista das pessoas e da vida em geral.

As famílias precisam de aprender a educar os filhos para o riso. Saber sorrir e ter sentido de humor é fundamental para aumentar a alegria de viver dos nossos filhos.

Neurologicamente falando, estudos do Jornal de Neurociência e de Psicologia da Universidade de North Carolina mostraram que a gargalhada é uma grande libertadora de endorfina no cérebro através dos receptores opioides para os neurotransmissores.

De acordo com reportagem publicada no jornal Estadão, o riso tem um efeito benéfico  e transporta-nos para uma euforia saudável , e por isso é que é tão contagioso socialmente.

RIR É O MELHOR REMÉDIO

Quando uma pessoa começa a rir, as outras à sua volta também tendem a abrir um sorriso ou a rir. Através do riso, as conexões sociais no grupo melhoram, porque gera uma sensação de segurança e proximidade.

Também o riso e o sorriso fazem parte do bom humor.

Quanto mais bem-humorados os nossos filhos forem, melhor conseguirão levar a bom porto as adversidades da vida e de transformar as obrigações diárias e convivências em momentos mais leves ou alegres, através de sorrisos refrescantes.

Ao bom humor estão associadas a diversão, os jogos e a brincadeira; todas são manifestações afetivas de amizade e amabilidade.

FELICIDADE

Segundo Hugo de Azevedo, escritor do livro: “O bom humor”, uma pessoa que não aprecia uma piada ou não se sabe rir de si própria, não sabe “brincar” e nunca poderá alcançar a plena felicidade.

Contrariamente, uma pessoa com bom humor sabe relativizar as coisas e não se leva tão a sério. Os nossos filhos precisam de aprender a conhecer-se e a aceitar as próprias limitações.

Uma inteligência emocional bem desenvolvida leva ao realismo e a uma escala de valores equilibrada. As crianças aprendem a relevar pequenas adversidades e a não fazerem “tempestades em copo de água”.

SOLUCIONAR PROBLEMAS

O bom humor também ajuda os filhos a serem perseverantes com os seus objetivos e a ter uma visão mais realista das pessoas e da vida em geral, o que permite que descubram melhor as causas de eventuais problemas e, consequentemente, possíveis soluções.

O bom humor está unido ao espírito desportivo, ao desporto e ao jogo, à virtude da eutrapelia, ou seja, de saber divertir-se mas saber moderar quando preciso.

Brincar é uma coisa séria e é uma coisa mais séria ainda para os adultos que jamais devem desaprender a brincar.

SUGESTÕES PARA OS PAIS

  1. Aprenda a rir-se de si próprio.
  2. Seja sempre grato pelo que tem.
  3. Evite focar-se em problemas e pensamentos negativos.
  4. Habitue-se a fazer pausas, a desfrutar de uma boa música, uma dança, um bom filme, um livro, um passeio no parque ou contemplar a natureza.
  5. Brinque e tenha momentos de diversão com os seus filhos e dêem umas gargalhadas em família
  6. Aprenda a não dramatizar.
  7. Sorria sempre para as pessoas, o que é uma forma de demonstrar carinho por elas.
  8. Aprenda a alegrar-se com cada minuto desse precioso dom que é a vida.

 

Publicado em O estadão, adaptado por Up To Kids®

 

O que os faz felizes?

Janeiro 2, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 16 de dezembro de 2017.

Katya Delimbeuf  texto

Carlos Esteves  infografia

Eles só querem tempo com os pais. E brincar. Quer saber o que faz o seu filho feliz? Leia

Dizem-nos que ser mãe ou ser pai é a melhor coisa do mundo, mas ninguém avisa que isso implica também passar a viver acompanhados por questões constantes. “Será que fiz bem?” “Exagerei no castigo?” “Será que não disse que não com a frequência que devia?” No meio de todas as dúvidas que assaltam os pais, há uma resposta universal. Pergunte-se a qualquer um qual a coisa mais importante que quer para o seu filho e a resposta será: que seja feliz. A forma que reveste essa felicidade é todo um novo capítulo.

O que os faz as crianças felizes? Brincar? Passar tempo com os pais? Fazer atividades físicas ou artísticas? Superar desafios? E os miúdos, têm noção da sua própria felicidade? Vários estudos trazem alguma luz sobre a questão. As respostas parecem apontar um caminho, o da simplicidade. É no tempo passado em família e nos momentos de brincadeira que as crianças encontram a felicidade. Assim comprova o último estudo de uma conhecida marca de brinquedos (a Imaginarium), que entrevistou 1131 pais portugueses de crianças dos 0 aos 8 anos. Mais de metade (51,89%) acredita que a origem da felicidade dos filhos está no tempo passado com os pais e familiares, e 34,56% no tempo de brincadeira. O afeto ocupa um lugar-chave na felicidade dos mais novos: 33% defendem que é quando os filhos se sentem “ouvidos e queridos” que são mais felizes. Na mesma linha, 14% defendem que é fundamental reforçar a autoestima das crianças “elogiando-as e incentivando-as quando fazem algo bem”.

O que têm as crianças holandesas?

Em 2013, um relatório da UNICEF que mediu a felicidade e o bem-estar em 29 dos países mais ricos do mundo (incluindo Portugal) concluía que as crianças mais felizes eram as holandesas. Que especificidades têm? Primeiro, os bebés holandeses dormem mais horas; as crianças trazem poucos ou nenhuns trabalhos de casa na escola primária; a liberdade é incentivada desde cedo, podendo os miúdos ir sozinhos de bicicleta para a escola, ou brincar na rua sem supervisão; fazem refeições em família regularmente; passam mais tempo com os pais que nos outros países europeus; não têm uma cultura materialista — brincam com objetos em segunda mão; e, numa nota curiosa, comem cereais de chocolate ao pequeno-almoço.

Neste estudo, Portugal encontrava-se a meio da tabela, no 15º lugar entre 29. Alguns destes itens, como as refeições em família, são comuns à nossa cultura, que traz para a mesa a maior parte dos convívios. Contudo, o grau de liberdade e de confiança depositada na criança é menor, o que não lhe permite superar por si mesma os desafios, e assim reforçar a autoestima. A psicóloga clínica Tânia Gaspar, da Universidade Lusíada de Lisboa, considera que esta questão não é tão linear como pode parecer. “Tem de haver supervisão, mas sem excesso de controlo”, defende.

O tempo passado com os filhos é outra desvantagem dos progenitores lusitanos. No inquérito da Imaginarium, mais de metade dos portugueses inquiridos sente que “passa pouco tempo de qualidade com os filhos”, e quase 90% acreditam que “um horário laboral mais flexível lhes permitiria aumentar esse tempo de qualidade”. Estes momentos são dos que mais contribuem para o bem-estar das crianças. Mais de metade dos portugueses (52%) que respondeu ao inquérito afirmou que “aquele bocadinho antes de ir para a cama” é o mais feliz. É o momento da história, do mimo, em que pai, mãe e filho partilham instantes de cumplicidade. 19,96% elegem o tempo de brincadeira no jardim ou no parque, e 11,52% a hora do banho.

Tânia Gaspar, que em 2008 se doutorou em Qualidade de Vida em Crianças: Fatores Pessoais e Sociais Promotores da Qualidade de Vida, pela Universidade do Porto, concorda que o tempo de qualidade é central. É importante “criar momentos próprios, de conversa, de partilha”, em que pais e filhos falam sobre o dia, o que correu bem ou o que correu mal. Alerta: “A comunicação aberta tem de começar desde pequenino, para que seja normal na adolescência.” É também importante aceitar, em vez de criticar, para que o canal se mantenha.

A psicóloga coordenou ainda, em 2013, a parte portuguesa do European Kidscreen, que mede a qualidade de vida e o bem-estar das crianças europeias dos 8 aos 18 anos em 13 países europeus. A principal conclusão é muito positiva: “As nossas crianças, de um modo geral, são felizes”, afirma. “As crianças mais novas — até aos 12 anos — são mais felizes do que as mais velhas”, quando entram na pré-adolescência, mas Tânia Gaspar atribui esse facto às “alterações de desenvolvimento que caracterizam esta fase”, em que o jovem se torna mais independente da família, tenta perceber quem é e fazer as suas escolhas. Neste estudo, Portugal encontrava-se de novo a meio da tabela. As razões prendem-se essencialmente com a escola. “As crianças portuguesas são das que têm pior relação com o meio escolar, a pressão académica, o facto de acharem que são maus alunos.” Nesse sentido, a ausência de trabalhos de casa na escolaridade primária dos holandeses joga em favor da sua felicidade. Habituam-se a gostar da escola antes de a associarem à obrigação de estudar e ser avaliado.

A psicopedagoga Ana Vasconcelos acredita igualmente que “o sucesso escolar de um país é um índice de felicidade”. O ser humano é por definição um animal curioso, que gosta de aprender. E desde que a escola cumpra a sua função e forneça ferramentas, os alunos gostarão de a frequentar e terão resultados em consonância. Dá o exemplo da matemática, eterno ‘bicho papão’ em Portugal. “Uma criança que pensa bem a matemática é uma criança com segurança pessoal. Para se ter pensamento abstrato, é preciso ter concentração ao aprender. E se se estiver preocupado, não aprende”.

Não fala em felicidade, mas em qualidade de vida. “A felicidade é um conceito moral. Tem a ver com emoções e com sentimentos. Qualidade de vida é o que dá a sensação de felicidade”, diferencia. Ana Vasconcelos aconselha os pais a manterem a “ternura na ponta dos dedos”. A seu ver, educar para a felicidade é simples. É preciso conseguir algum grau de “qualidade diária”, mesmo quando a vida profissional é intensa; e é importante os pais não se sentirem culpados. “Estes têm de estar seguros das suas competências.” O que mais entristece uma criança, assegura, é sentir a tristeza dos pais, captar a sua “insegurança face à vida”, e registar “incoerência no cuidar”. As crianças refletem muito o estado dos progenitores. Portanto, pais felizes têm maior tendência para criar filhos felizes. Tânia Gaspar ressalva o seguinte: “A felicidade é uma direção, um processo, algo que se vai construindo.” Estamos no bom caminho. Para os pais eventualmente preocupados com o que irão dar aos filhos este Natal, deixamos uma ideia. Em vez de prendas, deem-lhes tempo. É tudo o que querem.

 

 

 

 

 

Por que as crianças da Dinamarca são mais felizes?

Novembro 17, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Livros | Deixe um comentário
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Notícia do http://revistacrescer.globo.com/ de 6 de novembro de 2017.

Por Juliana Malacarne

No recém-lançado Crianças Dinamarquesas, autoras mostram que a maneira como elas são criadas talvez esteja por trás dos altos índices de felicidade do país nórdico. Veja como colocar tais descobertas em prática na sua casa também.

Abrir a janela de casa e encontrar a rua coberta de neve é uma visão comum para os dinamarqueses. Na maioria das cidades do país, que fica no norte da Europa em uma região conhecida como Escandinávia, as temperaturas ficam abaixo de zero no inverno. O clima pouco convidativo e a baixa incidência de luz solar, porém, não abatem o espírito do povo dinamarquês. Desde que a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OECD, na sigla em inglês) criou uma lista para eleger o país mais feliz do mundo, em 1973, a Dinamarca esteve em seu topo quase todos os anos. O que poderia explicar esse resultado? A terapeuta dinamarquesa Iben Sandhal e a psicóloga norte-americana Jessica Alexander apostam que a resposta está na maneira como as crianças dali são educadas.

Com base em pesquisas e observações cotidianas (Iben mora em Copenhague e Jessica é casada com um dinamarquês), as duas escreveram o livro Crianças DinamarquesasO que as Pessoas Mais Felizes do Mundo Sabem Sobre Criar Filhos Confiantes e Capazes (Ed. Fontanar, R$ 34,90). O livro descreve as atitudes de pais e mães daquele gelado país que geram resultados positivos sobre as crianças. E, o que é melhor, como aplicá-las em qualquer lugar do mundo. Em entrevista exclusiva à CRESCER, as autoras ressaltam a importância de elogiar os esforços dos pequenos, sem exagero, e sobre por que ensiná-los a ter empatia desde cedo, entre outras dicas. A seguir, destacamos alguns pontos da conversa.

Elas aprendem a ter empatia

A hora da brincadeira é uma ótima oportunidade também para transmitir lições de empatia, um dos pilares da educação dinamarquesa, de acordo com Iben e Jessica. É comum que surjam conflitos na convivência entre crianças pequenas. Mesmo assim, por aqui, quando o filho se queixa do comportamento de um dos colegas, a primeira reação dos pais é tirar satisfação, seja com a escola, seja com os pais do “briguento”, não? Outros acreditam que é “coisa de criança” e falam para o filho deixar para lá. Na Dinamarca, entretanto, as famílias preferem fazer com que as crianças entendam (ou ao menos tentem entender) as emoções do outro. Sendo assim, dizer: “Ele parece irritado, você sabe o que aconteceu?”, traz resultados melhores do que “Ele está com raiva de quê? Que ridículo!”. “Nem sempre as reações e emoções das crianças fazem sentido para os adultos, mas mostrando que as reconhece, você evita julgamentos e ensina seu filho a lidar melhor mesmo com os sentimento considerados ‘inapropriados’”, diz Jessica.

Elas recebem elogios “reais”

Isso não significa, porém, exagerar na positividade e aplaudir cada conta de adição que seu filho resolve corretamente como se estivesse em frente ao trabalho de um novo Einstein. “Se as crianças são constantemente elogiadas por serem naturalmente talentosas ou dotadas, passam a crer que sua inteligência é fixa e nada pode ser feito para modificá-la”, explica Iben.
Para evitar esse tipo de pensamento, o segredo é valorizar o esforço e não o resultado. Se você disser que um desenho que seu filho terminou rapidamente está incrível (mesmo que note que ele não tenha se concentrado nos detalhes), o elogio não trará nenhum benefício para a percepção que ele tem de seu próprio esforço. Uma saída melhor é perguntar sobre o desenho, ou seja, o que ele estava pensando ou sentindo quando decidiu fazê-lo. Diga: “Adorei como você manteve a concentração e o foco para deixar o desenho lindo”, em vez de “Uau, como você desenha bem!”.

Elas podem brincar livremente

No país onde foi criado um dos brinquedos mais populares da história, o Lego, as crianças não precisam ir à escola antes dos 6 anos, o que mostra o quanto o tempo “gasto” com atividades não estruturadas é reconhecido. Um dos principais desafios de Jessica, acostumada às agendas atribuladas das crianças norte-americanas, foi adotar essa mudança na rotina com os filhos Sophia, 7, e Sebastian, 4. “Me considerava uma mãe preguiçosa por não estar levando as crianças para 1 milhão de cursos ou atividades onde estavam ‘aprendendo’”, afirma. “Mas agora não me sinto mais assim e isso fez muita diferença no meu dia a dia. Não só meus filhos estão mais felizes com a liberdade de poder escolher as brincadeiras como também estou mais contente porque é muito menos estressante.”

Um estudo realizado com crianças em idade pré-escolar em Massachussets (EUA), citado pelas autoras no livro, mostrou que existe uma correlação positiva entre a quantidade de brincadeiras que as crianças participam e sua habilidade de resolver problemas. Por isso, a dica delas é levar os filhos para ambientes abertos, que eles possam explorar livremente, como praias e parques. Outra recomendação nesse sentido é estimular o encontro com crianças de diferentes idades para que umas possam aprender com as outras – e deixar para fazer intervenções somente quando necessário. “Outro dia, meu filho estava correndo a toda velocidade por uma rampa, fiquei me encolhendo de tensão e comecei a gritar para ele parar”, conta Jessica. “Mas meu marido pegou em meu braço e disse: ‘Crianças têm que correr. Se ele cair, caiu, mas crianças têm que correr’. No fim, Sebastian não caiu e ficou exultante consigo mesmo. Temos de confiar nas crianças para que elas aprendam a confiar em si próprias.”

Elas têm tempo de qualidade com a família

Os dinamarqueses têm uma palavra específica no dicionário para definir os momentos aconchegantes compartilhados em família: hygge (pronuncia-se ruga). Nesse período, existem regras bem interessantes, como desligar celulares e tablets, não reclamar à toa, evitar assuntos polêmicos e pensar em jogos em que todos os presentes possam participar independentemente da idade.

Segundo Iben, o hygge é uma escolha consciente que você faz para ter a sensação de estar conectado, de fato, com seus filhos. “Durante muitos anos, tive a oportunidade de pegar minhas filhas na saída da escola. Chegávamos em casa e sentávamos à mesa, comendo lanchinhos e conversando sobre o dia delas. Se fosse inverno, acendia velas e, às vezes, fazia chocolate quente ou chá. Depois disso, lia um conto, até que elas ficassem ‘cheias’ da minha atenção e fossem brincar por conta própria. Aquilo era muito ‘hyggeano!’”, conta a dinamarquesa.

A magia do hygge, uma das tradições mais importantes da cultura dinamarquesa, é que ele não precisa de espaço nem de alguma ocasião específica – e assim como as demais percepções das autoras, pode ser implementado por aqui também. Ainda que dar uma pausa na rotina acelerada para se entregar plenamente aos momentos com aqueles que mais ama não seja tão simples quanto pareça, o povo mais feliz do mundo garante: vale a pena.

Elas não são rotuladas

Um dos principais pontos positivos na maneira dinamarquesa de ver o mundo, de acordo com as autoras, é a importância que dão à linguagem. “As palavras têm poder e, por isso, adoto uma perspectiva otimista/realista sempre”, diz Iben, que é mãe de duas meninas, Ida, 16, e Julie, 14. “Não é ignorar as coisas ruins, e sim reconhecer que o mundo possui várias nuances de cinza além do preto e branco.”

Por exemplo, se depois de tirar uma nota baixa em geografia a criança diz que é péssima na matéria, lembre-a de uma tarefa específica que tenha gostado de fazer, como pintar um mapa, ou algum conteúdo em que tenha ficado interessada. Não negue que ela foi mal na prova nem diga que está tudo bem, mas ressalte que há coisas que podem ser feitas para melhorar o desempenho nas próximas avaliações, como estudar por mais tempo ou focar em exercícios práticos. Além disso, esteja sempre atento para evitar o uso de palavras limitadoras, como “meu filho odeia isso” ou “ele é assim”, pois esse tipo de postura não deixa espaço para a possibilidade de mudança.

 

 

As crianças portuguesas são felizes, mas só as mais pequenas

Novembro 15, 2017 às 1:30 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 8 de novembro de 2017.

Inquérito a 1131 pais revela que oito em cada dez preocupa-se com a felicidade futura dos filhos.

Bárbara Wong

As crianças portuguesas são felizes mas, à medida que vão crescendo, a percentagem de infelicidade aumenta, revela um inquérito promovido pela Imaginarium sobre “A felicidade e a infância”, conhecido nesta quarta-feira, em Lisboa. Também a Ikea lançou o seu “Play Report 2017” para o qual entrevistou mais de 350 crianças e adultos na Alemanha, China e EUA para compreender o papel da brincadeira na vida das pessoas.

Segundo o inquérito levado a cabo pela Imaginarium a 1131 pais, oito em cada dez preocupam-se com a felicidade futura dos filhos. Aliás, mostram-se mesmo “muito preocupados” e a maioria acredita que os filhos são “felizes” (20,2%) ou “muito felizes” (51,6%), há mesmo um quinto que diz que o seu filho “é a criança mais feliz do mundo”, apenas 8,8% diz que é “normal, às vezes feliz e outras não” e só 0,1% confessa que o filho é “muito triste”.

Contudo, os níveis de felicidade das crianças varia conforme a idade e os dados mostram que à medida que crescem vão tornando-se mais infelizes. As faixas etárias analisadas foram dos 0 aos 2, dos 3 aos 4, dos 5 aos 6 e dos 7 aos 8 anos. São estes últimos que são mais infelizes (15,2%) – a percentagem de infelicidade vai decrescendo com a idade situando-se nos 6,4% nas crianças entre os 0 e os 2 anos.

Para Rui Lima, pedagogo e convidado pela Imaginarium para comentar o estudo, é imposta uma “crescente pressão” às crianças, quer pelos pais quer pelos professores, onde “o desempenho académico, a competição entre pares e a necessidade de alcançar a perfeição em todas as actividades realizadas são uma constante”, logo, têm um “impacto negativo na felicidade das crianças”, defende num comunicado enviado às redacções.

E o que faz os meninos portugueses infelizes? Não passar tempo suficiente com os pais (26,3%), não ter tempo suficiente para brincar (21,3%) ou ficar de castigo (16,4%), respondem os pais inquiridos. As crianças serão mais felizes se se desenvolverem num ambiente escolar e familiar em que se sintam valorizadas e queridas (45,2%), se passarem mais tempo em família (34,8%) e se os pais as deixarem “explorar o mundo através da brincadeira (17%), respondem ainda os pais.

Falta mais tempo para a família

Praticamente todos os pais (99,8%) respondem que a felicidade dos filhos passa pelo tempo de qualidade partilhado em família, mas pouco mais de metade (51%) sente que passa pouco tempo de qualidade com os filhos e seis em cada dez pais acreditam que os filhos sentem a sua falta. Aliás, a maioria (89,8%) reconhece que tem dificuldade em conciliar a vida profissional com a pessoal e acredita que um horário laboral mais flexível lhes permitiria aumentar o tempo de qualidade e brincar com os filhos.

Quando questionados sobre como contribuem para a felicidade dos filhos, os pais respondem que é ouvindo-os e fazendo-os sentir-se queridos (33,4%) e passando mais tempo com eles (28,1%). Para 14,3% a felicidade passa por elogios e incentivos para que os filhos façam as coisas bem.

Durante a semana, o tempo mais feliz que pais e filhos compartilham é o de antes de ir deitar e, ao fim-de-semana, são os passeios que fazem as delicias dos mais novos. Este inquérito, que a Imaginarium defende representar o todo nacional, conclui que as crianças portuguesas são “extremamente familiares” porque gostam de fazer planos com os pais e passar tempo com os mesmos.

A Imaginarium pergunta ainda aos pais que tipo de brinquedo faz os filhos mais felizes e as bicicletas e veiculos com rodas (38%) surgem à cabeça, seguido da música, arte e trabalhos manuais (35,2%), os jogos de construção e lógica (30,8%) e as cozinhas e profissões (30,6%). Os ecrãs, televisões, Ipad, vídeojogos e telemóveis (19,4%) surgem na oitava posição.

“Os brinquedos devem apelar ao desenvolvimento de diferentes competências, tanto ao nível físico como intelectual. Desenvolvendo essas competências, a criança será capaz de relacionar-se melhor consigo mesma, com os outros e com o mundo. Daí a importância de brinquedos que estimulem os sentidos nos primeiros anos de vida”, defende Rui Lima no comunicado.

Também a marca sueca Ikea fez o seu terceiro relatório – depois de 2010 e 2015 – sobre o brincar com o objectivo de perceber melhor o papel desta actividade no desenvolvimento das crinças e na vida em casa. Para isso, entrevistou mais de 350 pessoas na Alemanha (Berlim), China (Pequim) e Nova Jérsia (EUA), entre os 2 e os 90 anos, e propõe cinco definições para brincar: “brincar para reparar”, ou seja, para recuperar do stress do dia-a-dia e as sugestões passam por actividades que promovam o bem-estar das pessoas como o ioga ou o tai-chi, mas também a jardinagem ou um passeio.

“Brincar para conectar” é a segunda definição. Num tempo em que o trabalho interfere por vezes na vida pessoal, o brincar proporciona a possibilidade de abrandar e de as pessoas se aproximarem da família ou dos amigos. As sugestões passam por ir a um bar fazer karaoke ou fazer jogos tradicionais como os de tabuleiro ou as cartas, o que permite que as pessoas estejam ligadas sem ser pela tecnologia, propõe o relatório.

As pessoas precisam de momentos de libertar, por isso, “brincar para libertar” é a terceira conclusão da marca, que sugere uma ida ao teatro ou a um parque temático. “Brincar para explorar” é a quarta proposta, explorar mundos reais ou imaginários, viajar ou brincar ao “faz-de-conta”. Por fim, “brincar para expressar” que aposta na criatividade e nas artes, da pintura à música.

“Brincar começará a aparecer, cada vez mais, em todos os aspectos das nossas vidas. Desde o local de trabalho ao ginásio, as pessoas irão procurar brincar em espaços e momentos onde tradicionalmente não o fariam”, conclui o comunicado da Ikea.

Ikea Play Report 2017

 

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