VI Jornadas da Família – 3 julho em Góis

Junho 24, 2019 às 8:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Inscrições gratuitas e até 1 de julho através do seguinte link:

https://docs.google.com/…/1FAIpQLSfxbUktVcANUdK9P5…/viewform

Mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/315769329377196/

Pais com formação superior já representam 8% das famílias com crianças em risco – notícia do Público com declarações de Fernanda Salvaterra do IAC

Julho 16, 2018 às 2:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Mais de um terço das famílias com processo aberto nas comissões de protecção são constituídas só pelo pai ou pela mãe Adriano Miranda

Notícia com declarações da Drª Fernanda Salvaterra do Instituto de Apoio à Criança.

Notícia do Público de 15 de julho de 2018.

Ana Dias Cordeiro

Entre as famílias sinalizadas pelas comissões de protecção, cuidadores com grau de bacharelato ou curso superior são o grupo que mais aumentou nos últimos anos. Dados são do relatório de 2017 divulgado na íntegra esta semana.

No universo dos cuidadores das crianças acompanhadas pelas comissões de protecção de crianças e jovens (CPCJ) em risco, o grupo que mais tem aumentado é o de cuidadores com grau de bacharelato ou curso superior. Eram apenas 3,3% das famílias acompanhadas em 2011. Em 2017, representaram 8% dos lares cujas crianças tiveram um processo numa comissão de protecção.

Este números estão no Relatório Anual de Actividades das CPCJ referente a 2017, recentemente entregue à Assembleia da República e tornado público no site da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens esta semana. Uma síntese do mesmo documento foi apresentada, em Maio, na Figueira da Foz.

A proporção de pais ou mães que completaram o 2.º ou 3.º ciclo do ensino básico continua a ser mais expressiva, ao representar (em conjunto) cerca de metade das situações seguidas pelas equipas de protecção, e assim tem-se mantido nos últimos anos. Uma descida “muito significativa dos elementos sem escolaridade”, nos casos de famílias de crianças acompanhadas, também é referido no relatório de 2017. “No entanto, os cuidadores que apenas sabem ler ou escrever continuam a representar valores na ordem dos cinco pontos percentuais”, sem alteração nos últimos anos, salienta o documento.

Pelo contrário, a representatividade das famílias com um bacharelato ou uma licenciatura mais do duplicou em seis anos, em linha com o aumento da taxa de escolarização no ensino superior referida nas estatísticas do Instituto Nacional de Estatística (INE). Por esclarecer, no relatório, ficam porém as causas para as crianças de famílias menos desfavorecidas estarem em perigo.

Divórcios e violência mais visível

A percepção da psicóloga Fernanda Salvaterra, que até Dezembro de 2016, integrou a equipa principal da CPCJ de Lisboa Norte, é a de que os casos numa população mais diferenciada eram sobretudo relacionados com os conflitos de regulação das responsabilidades parentais ou de incumprimento, por exemplo, nas férias, quando a criança devia ser entregue e não era. “Também havia outros conflitos e situações de violência doméstica, que cada vez são mais reportadas”, por exemplo, “por vizinhos”, diz Fernanda Salvaterra, investigadora do Instituto de Apoio à Criança, doutorada em Psicologia do Desenvolvimento.

Também a académica Maria Barbosa-Ducharne considera plausível uma maior frequência de “situações de divórcios” mal resolvidas, em que as comissões de protecção serão chamadas a intervir nas questões de atribuição de guarda parental à mãe ou ao pai. Mas conclui: “Podem ser esses conflitos ou ainda situações de violência doméstica, ou de maus tratos, e isso é outra coisa. O importante é fazer a avaliação das necessidades das famílias e das crianças de uma forma rigorosa.”

Perante este dado que considera “significativo”, a professora de Psicologia do Desenvolvimento e Adopção e Institucionalização do Mestrado na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto salienta a importância da formação dos técnicos do sistema de protecção de crianças e “a necessidade” de estes “terem em conta o novo perfil de famílias acompanhadas”.

Famílias monoparentais expostas

No retrato possível das crianças acompanhadas, por outro lado, quase metade vem de famílias clássicas (41%), mas uma grande parte (36%) vive só com a mãe (em maioria) ou só com o pai. “Sobressai a elevada percentagem de famílias monoparentais (36%) e de famílias reconstituídas (13%)”, destaca o relatório.

Assim, mais de um terço das famílias com processo aberto nas comissões de protecção são monoparentais e essa proporção tem-se mantido estável ao longo dos últimos anos, e muito acima do lugar que ocupam na sociedade: de acordo com os dados mais recentes do INE, entre os cerca de quatro milhões de famílias existentes em 2017, quase 440 mil eram monoparentais, ou seja, cerca de 10% de todas as famílias.

“São famílias muito mais expostas, com níveis de stress mais elevado, onde só há uma fonte de rendimento”, diz a professora Maria Barbosa-Ducharne. “Não significa que sejam melhores ou piores pais. Estão em situação de maior exigência. E é preciso um maior apoio.”

Apoios e maior flexibilidade

Além de apoios, completa Fernanda Salvaterra, seria desejável uma maior flexibilidade de horários nas escolas e creches para receber estas crianças. “Nas famílias monoparentais, há dificuldades económicas, situações associadas à pobreza”, diz. Assim, quando a mãe trabalha longas horas, a criança fica entregue a um vizinho ou com os irmãos mais velhos, ou ainda desprotegida, explica.

“Entre ficar desprotegida ou passar muitas horas na escola ou na creche”, a segunda opção, embora não ideal, é preferível, entende Fernanda Salvaterra. Em muitos casos, o trabalho exige que a mãe entre ao serviço às 6h da manhã ou regresse muito tarde a casa, acrescenta. As famílias com rendimentos provenientes do trabalho (66,2%) representam dois terços dos lares com crianças são acompanhadas pelo sistema de protecção. Essa proporção, que estava acima dos 53% em 2011, tem vindo a ganhar importância, desde então, todos os anos.

Não há ajuda para famílias com problemas? Guia para “fugir” à SuperNanny

Março 1, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 26 de janeiro de 2018.

Nas redes pública e privada há várias respostas para pais em apuros, desde consultas a acompanhamento familiar gratuito. De norte a sul do país, este é um guia para “fugir” à SuperNanny.

“Há aqui uma intenção puramente social, pedagógica, e o nosso único objetivo é dar ferramentas para que os pais possam desempenhar melhor o seu papel, contribuir para a harmonia familiar”, disse Júlia Pinheiro, diretora de programas da SIC, na passada segunda-feira, num debate que pôs frente-a-frente defensores do polémico programa “SuperNanny” e a Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens em Risco (CNPCJR) (mas também o Instituto de Apoio à Criança).

O já muito contestado reality show — que levou, inclusive, o Ministério Público a abrir um inquérito por crime de desobediência a propósito do primeiro episódio — não deverá ser encarado como a primeira linha de ajuda quando existem problemas do foro psicológico e/ou educacional em casa. Mas há ou não ajuda para estes pais e estes filhos? Existem nas redes pública e privada várias formas de ajuda, pelo que preparámos um guia que os pais saibam a que apoios recorrer.

No Serviço Nacional de Saúde

“Os cuidados em saúde mental da criança e do adolescente estão previstos a dois níveis de intervenção: público e privado”, começa por esclarecer ao Observador fonte oficial da Direção Geral da Saúde. Na rede pública, o Serviço Nacional de Saúde prevê a intervenção nos cuidados de saúde primários (centros de saúde na área de residência) e nos secundários (rede hospitalar). Caso haja problemas do foro psicológico, os pais poderão optar por marcar uma consulta com o médico de família. Na eventualidade de não existir acesso a essa figura, podem optar por uma consulta de saúde infantil, também no centro de saúde, sendo que as crianças e os jovens até aos 18 anos estão isentos de taxas moderadoras e são considerados atendimento prioritário.

Em ambas as consultas, o médico designado faz a avaliação da situação — se cumprir os critérios de psicologia da saúde, a criança ou o jovem é visto pelo psicólogo do centro de saúde; se cumprir critérios de saúde mental, a criança ou o jovem é referenciado para uma consulta da especialidade na rede pública. A criança e a família “doente ou em risco de adoecer” pode ainda ser encaminhada pelo sistema para a intervenção precoce (ELI, Equipa Local de Intervenção), caso exista suspeita de atraso no desenvolvimento.

As consultas de psicologia nos centros de saúde são orientadas, por definição, por psicólogos generalistas e não são de acesso direto — é preciso passar primeiro pelo médico de família ou pela consulta de saúde infantil. O acesso aos pediatras no SNS, por sua vez, acontece via marcação de consultas da especialidade, através do centro de saúde, ou via urgência hospitalar.

Segundo fonte oficial da Ordem dos Psicólogos Portugueses, no Serviço Nacional de Saúde existem 917 psicólogos, “o que dá um rácio aproximado de um psicólogo para cada 10.900 pessoas”. Ao Observador, a mesma fonte esclarece que “de acordo com indicações internacionais”, deveria ser um psicólogo por cada 5.000 pessoas. “Neste contexto, importa sublinhar que ficou previsto em Orçamento do Estado para 2018 a contratação de 45 novos psicólogos, estando ainda prometido pelo Governo a contratação de mais 55 psicólogos”.

Sobre os pediatras, Jorge Amil Dias, presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria, esclarece que o “único sítio onde o SNS tem pediatras é dentro dos hospitais”. E continua: “Em Portugal, a estrutura do serviço de saúde encara o médico de família como único ponto inicial de contacto e os pediatras surgem em segunda linha [de atuação]. Fora do SNS, obviamente que há milhares de pediatras com sensibilidades diferentes.”

De referir que a Câmara de Cascais, a título de exemplo, criou um roteiro da rede pública para esclarecer os munícipes de quais os passos a tomar relativamente aos cuidados de saúde mental.

https://infogram.com/infographic-modern-1h1749nv7vzq2zj

“Quando o risco diagnosticado é de suspeita de maus tratos, opera no SNS uma rede designada por Núcleo de Crianças e Jovens em Risco[existirá pelo menos um núcleo por cada agrupamento de centros de saúde e centros hospitalares], que é formado por uma equipa multidisciplinar e que funciona num primeiro nível de intervenção, prévio às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) e tribunais”, informa ainda fonte oficial da DGS, explicando que compete ao médico de família centralizar estas informações, bem como sinalizar e encaminhar os utentes para os diversos serviços.

Qualquer pessoa pode sinalizar uma situação de perigo à CPCJ (incluindo a própria entidade), sendo que a intervenção da mesma depende sempre dos pais ou da criança quando tem mais de 12 anos, caso contrário o processo remete para o Ministério Público. Só em último caso é que uma criança é retirada à família. Mas estas comissões têm também um trabalho preventivo e podem ajudar numa vertente educacional.

CPCJ E CAFAP, siglas que também podem ajudar

A título de exemplo, a CPCJ de Silves, criada a 26 de Julho de 2001 e atuante em todo o concelho, aposta numa atitude preventiva e ao longo de 2017 investiu na parentalidade positiva através de workshops, conferências e seminários gratuitos para pais. Esse mesmo trabalho vai ser continuado em 2018, explica ao Observador Luís Santos, daquela CPCJ. O plano de ação só vai ser apresentado em fevereiro, mas Luís Santos assinala desde já o seminário de parentalidade positiva, também ele gratuito, marcado para o dia 24 de março, a decorrer em parceria com o Agrupamento de Escolas Silves Sul. “Procuramos desenvolver sempre estas atividades com instituições da comunidade, sendo que é tudo articulado com a Câmara Municipal”, diz, explicando que mais eventos serão tornados públicos na página de Facebook e no site da CM.

Esta não é, porém, a única CPCJ a dedicar-se à educação parental. Também a CPCJ da Figueira da Foz vai realizar as primeiras Jornadas sobre Parentalidade, um evento a decorrer já no próximo dia 2 de fevereiro, no Pequeno Auditório do Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz (entrada gratuita). Um evento que tem como principal objetivo “criar um espaço de reflexão e debate sobre questões relacionadas com a parentalidade” e que se destina a profissionais da área, mas também a pais e outros membros da família alargada. Mais atividades serão anunciadas a partir de fevereiro, pelo que Luís Santos aconselha os interessados a ficar atentos às CPCJ locais, mas também à página oficial da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens.

Paralelamente aos serviços que são disponibilizados no Serviço Nacional de Saúde, existem respostas ao nível privado, que funcionam a nível nacional e regional. “Dentro desta, existem associações sem fins lucrativos (ONG ou IPSS) vocacionadas para as diversas intervenções da saúde mental, ou estruturas privadas de apoio”, esclarece fonte da DGS ao Observador.

De referir que, no caso de uma família ser sinalizada, a CPCJ de Silves, por exemplo, trabalha em coordenação com o Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental (CAFAP), que tem como missão específica intervir em situações mais complicadas, aplicando técnicas de mediação familiar. Os CAFAP, explica ainda Luís Santos, surgem “da iniciativa da sociedade civil”, sendo que uma IPSS pode candidatar-se a ter um CAFAP e, assim, “receber uma verba para a manutenção e desenvolvimento das atividades” — são tidos como uma resposta social da Segurança Social. “A IPSS serve de barriga de aluguer para gerar um CAFAP”, simplifica Luís Santos, que explica que esta entidade é autónoma, não existe em todos os concelhos, e pode ajudar os pais que necessitem de educação parental, de forma gratuita.

“Neste contexto, os centros de apoio familiar e aconselhamento parental assumem especial relevância no diagnóstico, prevenção e reparação de situações de risco psicossocial das famílias, bem como na promoção de uma parentalidade positiva, tendo em conta a realidade social em que se perspetiva a sua intervenção”, lê-se na portaria 139/2013.

O CAFAP de Silves, por exemplo, intervém ao nível da educação parental, isto é, os pais que queiram apoio podem contactar esta entidade, que consoante a situação em mãos se encarregará de orientar sessões sobre a temática parental visada em casa da família ou nas próprias instalações do CAFAP.

Também o CAFAP de Coruche, para dar outro exemplo, presta apoio ao nível das práticas parentais. Sílvia Caraça explica ao Observador que neste centro são realizadas intervenções individuais com pais, em termos de educação parental, e intervenções em grupo. Apesar de as crianças e famílias sinalizadas (seja pela CPCJ local ou escolas, por exemplo) terem atendimento prioritário, o CAFAP não fecha as portas a ninguém do município, sendo que os programas de parentalidade aplicados (oito a nove sessões semanais, por norma, de uma hora e meia) são de acesso gratuito. Em janeiro de 2018, explica Sílvia Caraça, o CAFAP de Coruche está a trabalhar com um total de 43 famílias.

Fonte da DGS explica ainda ao Observador que em certas situações, sobretudo na adolescência, as autarquias dispõem de atendimento psicossocial. É o que acontece no município de Caminha, que disponibiliza atendimento psicossocial a famílias e /ou indivíduos de diferentes faixas etárias. “Trata-se de um atendimento efetuado de forma gratuita por técnicos especializados do município, mediante sinalização (feita por outro serviço a intervir no concelho ou pelo próprio munícipe/família)”, explica ao Observador Rita Braga Carrasqueira, coordenadora da Rede Social de Caminha. O município tem técnicos que fazem atendimentos em articulação com o centro de saúde local e nas diferentes escolas do Agrupamento Sidónio Pais. Ainda em Caminha, o município estabeleceu uma parceria com a Rede Social de Caminha e o CLDS3G que permitiu a formação de técnicos no âmbito da parentalidade positiva que já se traduziu em mais de 14 ações de formação junto de pais e outros agentes educadores.

Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (associação científica sem fins lucrativos) também trabalha em coordenação com entidades estatais – recebe famílias encaminhadas pela CPCJ. Ana Paula Apolónia, coordenadora de formação na respetiva sociedade, explica que esta consegue oferecer alguns serviços à comunidade e que existe uma ideia de expandir o projeto a outras cidades — a SPTF está localizada no centro de Lisboa. A principal atuação da sociedade consiste em formar terapeutas familiares, isto é, dotar psicólogos, assistentes sociais e médicos desta especialização, que trabalhem tanto no setor privado como no público, em qualquer área do país. Esses técnicos, ainda em formação mas já com competências, prestam apoio a famílias através do Núcleo de Investigação e Intervenção (NIFF), apenas a funcionar na capital, a custo simbólico (20 euros por consulta, sendo que não é negada terapia a quem não tenha possibilidades; a inscrição pode ser feita através do email info@sptf.pt ou do número de telefone 21 355 5193). “Há acesso direto, da parte das famílias, ou através de instituições com as quais temos parcerias”, explica Ana Paula Apolónia, que refere as sessões de terapia familiar quinzenais ou mensais (as semanais estão destinadas a situações de crise).

Nas escolas

Na rede escolar existem os Serviços de Psicologia e Orientação (SPO), que abrangem todos os estabelecimentos públicos de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário, segundo fonte oficial do Ministério da Educação ao Observador. Estes serviços “desenvolvem a sua ação de acordo com os normativos legais em vigor, na dependência funcional do diretor da escola”, sendo que o conjunto de atividades é desenvolvido anualmente e enquadrado nas “áreas de intervenção prioritárias, selecionadas em consonância com o Plano de Atividades e o Projeto Educativo da Escola”. Ao todo existem 840 psicólogos nas 811 Unidades Orgânicas — leia-se, agrupamentos escolares.

O psicólogo em contexto escolar desenvolve a atividade em três áreas de atuação — apoio psicológico e psicopedagógico, apoio ao desenvolvimento de relações na comunidade educativa e orientação –, sendo que as atividades variam de acordo com o contexto e as prioridades das escolas. Todas estas intervenções são gratuitas e não há qualquer encargo para as famílias.

Segundo fonte oficial do ME, o psicólogo orienta a sua ação com os pais ou encarregados de educação “na promoção do envolvimento na vida escolar dos seus educandos; nas ações de desenvolvimento de competências de parentalidade; nas ações de informação sobre a oferta educativa e formativa; no apoio nas tomadas de decisão educativas dos seus educandos e na dinamização e participação em reuniões de pais e encarregados de educação”.

Além dos Serviços de Psicologia e Orientação, existem determinadas escolas inseridas em contextos mais frágeis, do ponto de vista socioeconómico, que beneficiam de equipas multidisciplinares, compostas por animadores socioculturais, assistentes sociais e psicólogos, que trabalham não só o aluno mas também o contexto familiar, tal como explica ao Observador uma psicóloga escolar que trabalha na área metropolitana de Lisboa. “Geralmente, aquilo que fazemos é uma intervenção direta. O aluno chega ao nosso gabinete e, quando verificamos que existe uma dificuldade, fazemos intervenção na família”, explica a profissional que preferiu não ser identificada. Este tipo de ajuda vai além do apoio psicológico, uma vez que também fornece orientação na temática da parentalidade, e é feito por técnicos especializados. “São os professores que encaminham os alunos e que sinalizam a problemática, sendo que todo o trabalho é feito em articulação com os docentes e com a direção da escola. É uma intervenção concertada.”

Caso o aluno visado precise de acompanhamento psicoterapêutico, a escola faz o encaminhamento para o médico de família. Neste ponto, importa referir a existência de Unidades de Cuidados na Comunidade(UCC), que fazem parte dos centros de saúde e que trabalham por projetos de intervenção na comunidade, incluindo atuação na saúde escolar (com base no Plano Nacional da Saúde Escolar). Nesse sentido, as UCC estão em coordenação com agrupamentos escolares, prestam apoios às famílias e encaminham as crianças quando necessário. Fazem ainda formação nas escolas, mediante as necessidades.

“Outra possibilidade”, acrescenta ainda a psicóloga escolar que não quis ser identificada, remete para as clínicas privadas que fazem protocolos com escolas, através da obtenção de subsídios da Segurança Social, que permitem às famílias mais carenciadas usufruir de acompanhamento psicológico a preços mais ajustados à condição económica dessas mesmas famílias.

Numa outra lógica, mas ainda nas escolas, vale a pena reforçar a iniciativa de alguns ambientes escolares, como o projeto Mentes Sorridentes, criado há sensivelmente três anos, para combater os ataques de pânico dos alunos com recurso à meditação em vez da medicação. No ano letivo 2015-2016, o Agrupamento de Escolas João Villaret passou a ter um projeto de mindfulness aplicado a um grupo piloto composto por 30 alunos com graves níveis de ansiedade, indisciplinados e com dificuldade em lidar com as próprias emoções, através de sessões feitas à hora de almoço. Hoje, o formato original continua a existir e chega, inclusive, às salas de aula na forma de meditações tão diárias quanto o possível, após o intervalo da manhã e o da tarde, sendo que o projeto já é acarinhado por todo o concelho de Loures, em parceira com a CPCJ local, e chega também a uma escola no Norte do país, em Vila Nova de Gaia.

mindfulness como resposta educacional é também posto em prática no primeiro ciclo do Agrupamento de Escolas da Marinha Grande. Em setembro último, Fernando Emídio garantia que mais de 500 alunos beneficiavam do programa, sendo que existem ainda programas, no âmbito privado, que operam de forma semelhante, como o projeto “O Pequeno Buda”, do criador Tomás de Mello Breyner.

Na rede privada

Aprender a Educar, integrado na Universidade Católica do Porto, fornece competências na área da educação parental. O projeto que nasceu para os apoiar os pais na tarefa da parentalidade leva 14 anos e, anualmente, tem cerca de sete a dez sessões avulsas, organizadas por faixa etária (considerando a idade dos filhos) e/ou por desafio — são abordadas as questões das birras, sono ou gestão de regras na adolescência, a título de exemplo. Mariana Negrão, a coordenadora, explica que todas as sessões são orientadas por um facilitador que procura trazer algum conhecimento científico para o debate. “Temos como missão dar algumas orientações práticas no sentido de fazer os pais refletir”, garante. Cada sessão custa 15 euros e a edição de 2018 será brevemente anunciada (a primeira sessão está marcada para o mês de março). No caso de existirem situações de maior gravidade, e num sentido menos preventivo, há ainda a Clínica Universitária de Psicologia, que está aberta ao público em geral e à comunidade.

Também a Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa presta serviços à comunidade, tal como se lê na respetiva página. Entre os muitos serviços clínicos está o de mediação familiar, psicologia educacional ou intervenção familiar e conjugal. O serviço de apoio clínico da Faculdade de Psicologia está disponível nos dias úteis entre as 14h30 e as 18h30.

Além da ajuda prestada em ambiente universitário, são muitos os consultórios privados vocacionados para a temática da parentalidade. Exemplo disso é o Family Building, fundado por Diana Moreno, psicóloga clínica e uma das poucas portuguesas (e portugueses) a ser formada em Triplo P — o Positive Parenting Program (Programa de Parentalidade Positiva) consiste num dos programas com mais suporte científico no mundo (até outubro de 2016, data em que o Observador dedicou um artigo ao tema, contavam-se 235 investigações que corroboram os seus resultados).

Entremos, então, no mundo dos consultórios de psicologia. A psicóloga clínica Inês Afonso Marques, coordenadora infanto-juvenil da Oficina de Psicologia, diz ao Observador que existem três formas de apoio na vertente psicológica: a formação, as consultas em si e o serviço online. No primeiro ponto, refere-se às formações presenciais que, a título de exemplo, a Oficina de Psicologia faz em escolas, numa tentativa de dar resposta a diferentes necessidades — essas formações tanto podem ser para técnicos, professores e auxiliares, como para pais, e surgem na forma de workshops e debates. Mas também há formações feitas em consultórios ou até em formato online. “Quando foi a questão dos incêndios, as escolas estavam com dificuldade em dar resposta às questões que as crianças iam colocando, pelo que fizemos uma sessão online gratuita”, conta.

Relativamente às consultas, Inês Afonso Marques aconselha as pessoas a primeiro explorarem as dificuldades ou preocupações que estão a sentir e só depois pedir aconselhamento na rede de contactos — seja através do médico de família, do pediatra ou da própria escola, uma vez que, diz, os psicólogos pedagógicos podem não estar vocacionados para determinadas questões. Pedir referências aos amigos também é uma opção, bem como fazer uma pesquisa online — nesse sentido, a Ordem dos Psicólogos Portugueses tem um diretório público de todos os psicólogos e ainda um diretório com georreferenciação dos seus membros que pretendam promover os seus serviços no site da campanha da OPP,”Encontre uma Saída”.

“Regra geral, na primeira consulta infanto-juvenil estão presentes pais e filhos e, nesse contexto, a situação em causa é contextualizada na história de vida daquela família”, explica a psicóloga clínica. Na sequência desse primeiro contacto é desenhado um plano de intervenção, que consiste num acompanhamento semanal ou quinzenal — período mínimo para se alcançar ganhos terapêuticos –, sendo que cada consulta poderá durar cerca de 50 minutos e o valor médio ronda os 50 euros. O período de acompanhamento depende exclusivamente da situação.

Um outro de apoio ainda nesta vertente serão as redes sociais e a própria internet, uma vez que há vários consultórios e psicólogos que têm uma presença online. Inês Afonso Marques fala do exemplo que conhece melhor: a Oficina da Psicologia tem página de Facebookconta no Pinterest e ainda canal de Youtube, além dos conteúdos educacionais que são publicados numa base diária. Outras páginas com conteúdos parentais podem ser Pumpkin e Up To Kids, a título de exemplo.

Ao nível da pediatria, Jorge Amil Dias, presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria, deixa a recomendação: “Cada situação tem de ser avaliada em contexto próprio. Fatores individuais, relações familiares, antecedentes, etc., são relevantes em cada caso específico. As soluções não são uniformes e é difícil padronizá-las de forma simplista em arquétipos pré-definidos”. Esclarece ainda que é preciso ver qual a linha de atuação mais adequada, explicando que há casos “em que é preciso apenas bom senso, ou intervenção do psicólogo, ou do psiquiatra, que deve acompanhar as crianças e suas famílias” e situações que resvalam para “casos de patologia que exigem intervenção médica e medicamentosa”.

 

2º Encontro Anual da APDJ “O Tronco, esse Pilar … reflexões sobre a Intervenção em contexto familiar”

Abril 5, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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apdjmais informações:

http://www.apdj.pt/

 

 

Formação no âmbito da abordagem a crianças e jovens em risco inseridos em famílias com comportamentos aditivos e dependências

Fevereiro 24, 2016 às 10:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Data limite para a receção de Inscrições: 09 de março de 2016

Compete ao SICAD Promover a formação no domínio das substâncias psicoativas, dos comportamentos aditivos e das dependências, capacitando os profissionais para prestar apoio especializado aos cidadãos e às comunidades, no âmbito das dependências com e sem substâncias.

Os ganhos em saúde conseguem-se por via da qualificação dos profissionais e das abordagens, da melhoria dos níveis de conhecimento e da cooperação entre os stakeholders, aumentando a eficácia das respostas disponíveis, normalizadas e harmonizadas.

A existência de famílias com um ou mais dos seus membros com comportamentos aditivos e dependências evidencia situações em que os fatores de risco para os comportamentos aditivos assumem um peso mais significativo do que os do equilíbrio. Deste facto resulta que nem sempre a estruturação familiar se dá de forma a propiciar o ambiente maturativo mais harmónico, o que determina riscos acrescidos para o desenvolvimento dos seus membros, nomeadamente os mais vulneráveis – as crianças e jovens.

A importância dos fenómenos que ocorrem na família para a estruturação dos trajetos evolutivos das crianças e jovens, e das múltiplas questões que suscita a ocorrência de CAD neste contexto, determina a relevância da capacitação específica dos profissionais que intervêm neste âmbito, de forma a permitir o estabelecimento de intervenções orientadas para a abordagem à problemática das crianças e dos jovens inseridos em famílias com CAD.

Neste sentido afigura-se fundamental capacitar os profissionais para abordagem a crianças e jovens em risco inseridos em famílias com CAD, fortalecendo o conhecimento e tomando contacto com as estratégias de intervenção adequadas.

Assim, o SICAD vai dinamizar o Curso Formação no âmbito da abordagem a crianças e jovens em risco inseridos em famílias com CAD, nos dias 11 e 3 de março, com os seguintes conteúdos programáticos:

  1. Substâncias, conceitos, efeitos e características, padrões de consumo, processos de dependência nas mulheres;
  2. Intervenção sistémica: princípios e conceitos;
  3. A dinâmica da família com CAD: especificidades e evoluções;
  4. O lugar da criança / jovem na família com CAD: fatores de risco para o desenvolvimento;
  5. Estratégias de intervenção;
  6. O papel da articulação interinstitucional no acompanhamento das crianças e jovens em famílias com CAD;
  7. Monitorização e avaliação;

Para mais informações e inscrições: http://www.sicad.pt/PT/Formacao/SitePages/FormacaoSICAD.aspx

 

Famílias monoparentais passaram para o dobro

Novembro 4, 2015 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 26 de outubro de 2015.

clicar na imagem

Famílias-monoparentais-pass

Grupo Aprender, Brincar, Crescer – Grupos para crianças até aos 4 anos acompanhados dos seus pais ou cuidadores

Outubro 17, 2015 às 4:19 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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grupo

Projeto piloto que pretende ir ao encontro das crianças dos 0 aos 4 anos que por algum motivo não frequentam nenhuma instituição (Creche, ama, jardim de infância ou outra).

A pré-inscrição de famílias está ainda a decorrer e continuará até 30 de Outubro (mediante o número de vagas existentes).

Agradecemos que nos comuniquem os dados destas famílias (nome do cuidador, área de residência, telefone/telemóvel, email), com a maior brevidade possível para o nº tel. 239 247 413 (10h às 13h) ou para geral.projetogabc@gmail.com. Enviamos uma pequena tabela em anexo, que poderão fotocopiar.

GABC_Síntese do Projeto

2015_08_3 Carta seguimento GABC 3

https://drive.google.com/a/mail.harvard.edu/file/d/0B_YlLdFWqcT-TVI4QzJBbzZlcVE/view?pli=1

 

Grupos Aprender, Brincar, Crescer – para crianças até aos 4 anos de idade que não frequentam qualquer tipo de resposta formal (creche ou jardim de infância) e suas famílias

Agosto 26, 2015 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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CartazImagem_30agosto

O Ministério da Educação e Ciência (MEC), através da Direção Geral de Educação (DGE), em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), a Fundação Bissaya Barreto (FBB), o ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, a Universidade de Coimbra (UC) e o Alto Comissariado para as Migrações (ACM) estão a desenvolver um projeto, financiado pela Comissão Europeia, direcionado a crianças até aos 4 anos de idade que não frequentam qualquer tipo de resposta formal (creche ou jardim de infância) e suas famílias. Trata-se de adequar, monitorizar, avaliar e disseminar uma resposta no âmbito dos serviços para a infância, já em funcionamento noutros países como a Austrália, Nova Zelândia, Inglaterra, Escócia, Irlanda, Holanda e EUA, denominada Playgroups e que no nosso país adota o nome de Grupos Aprender Brincar Crescer. No Projeto Grupos ABC – Aprender, Brincar, Crescer o foco especial são as crianças que atualmente não estão a beneficiar de oportunidades de educação de infância (creche ou jardim de infância) e cujas famílias se encontrem em situação de vulnerabilidade social.   Tem como principais objetivos:

promover oportunidades de aprendizagem significativas para as crianças num ambiente informal e multicultural;

facilitar a inclusão social e o desenvolvimento comunitário, através do envolvimento das famílias e da sua formação em competências sociais e pessoais;

aumentar a qualidade dos cuidados e reduzir o risco de ambientes familiares disfuncionais e de desemprego de longa duração;

aumentar o emprego, a coesão social, a participação e o diálogo intercultural nas comunidades.

A implementação do projeto piloto decorrerá no decurso do ano letivo de 2015/2016, com inicio em Outubro, nos termos do qual as crianças acompanhadas pelos pais ou cuidadores terão oportunidade de participar em sessões de 2 dias por semana (2 horas por sessão), realizadas em diversos contextos, designadamente em espaços comunitários, escolas, bibliotecas, lojas, centros comerciais, feiras, mercados, dentre outros, dinamizadas por monitores pertencentes à comunidade e com formação específica, supervisionadas por educadores de infância.
A primeira fase de pré-inscrições para as famílias está a decorrer até 30 de Agosto de 2015. o alargamento deste período dependerá do número de inscrições realizadas até a essa data

mais informações:

https://www.facebook.com/projetogabc?fref=ts

Mestrado em Ciências da Família

Agosto 7, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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uc

O Mestrado em Ciências da Família foi criado pelo Conselho Superior da Universidade Católica Portuguesa em 2005. Integra a oferta formativa do Instituto de Ciências da Família e confere o único grau de mestre do ensino superior português nesta área científica.
Tem como objetivos proporcionar uma formação transdisciplinar especializada no âmbito das Ciências da Família, desenvolver linhas de investigação e intervenção nesta área, bem como contribuir para o aprofundamento do conhecimento científico na área da Família.

Destina-se a profissionais, recém-licenciados e público em geral que procuram um complemento de formação especializado no domínio das Ciências da Família. Interessa especialmente a assistentes sociais, psicólogos, juristas, magistrados, etc.

 mais informações:

http://www.fch.lisboa.ucp.pt/site/custom/template/ucptpl_fac.asp?SSPAGEID=924&lang=1&artigoID=6228

O desespero de Benedita foi a sua força

Maio 22, 2015 às 11:09 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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reportagem do Público de 19 de maio de 2015.

Miguel Manso

Ana Dias Cordeiro

As situações-limite envolvendo crianças triplicaram no ano passado na Comissão de Protecção de Lisboa Norte, a maior da capital e uma das cinco maiores em todo o país. São casos urgentes, como o de Benedita, que muitas vezes ouviu: “Se os teus filhos te foram tirados, foi por tua culpa”.

Passa da meia-noite e Jaime lança-se no escuro. Levado pelo medo, pede socorro. Sob uma chuva fina de Inverno, o pequeno vulto corre, sem nunca abrandar o passo. A voz do rapaz corta o silêncio, na grande avenida que vai da sua casa à PSP de Benfica. Está já perto da esquadra, quando, junto ao passeio, pára um carro, e alguém lhe oferece ajuda. “O desespero foi a tua coragem”, diz-lhe Benedita, mãe dedicada e plena até ao Inverno do ano anterior.

Jaime tinha oito anos quando o seu mundo ruiu. A mãe tinha 33. Ele tentava impedi-la de andar de café em café; ela arranjava sempre maneira de sair. Nem que fosse por uns minutos, ao supermercado. Escondia depois a garrafa na mala. Perdia-se com a bebida. Nesses momentos, Jaime deixava de a reconhecer. O que seria dele e dos dois irmãos bebés?

Foi há mais de um ano. Mas certas palavras ecoam na cabeça de Benedita como se fossem ditas hoje. “Se os teus filhos te foram tirados, foi por tua culpa.” É o ex-companheiro e pai dos dois mais novos que fala. Ela responde: “Se eu sou responsável por eles terem sido levados, também serei responsável por eles voltarem para casa.” Aceita as culpas. “Eu era muito perigosa.” Não aceita que culpem Jaime por ter ido à polícia.

Oportunidade e risco

“Quando cheguei pedi para eles me ajudarem”, conta Jaime. Quando chegou, eles, os polícias, tomaram nota: a mãe embriagada zangara-se com ele por algo sem qualquer importância e ameaçava bater-lhe com o cinto; os bebés dormiam; o padrasto não estava em casa.

Jaime falava ao agente, sem nunca tirar os olhos da porta. Tantas vezes fora surpreendido pelos gestos bruscos da mãe. O medo instalara-se naquela família no início de 2013, após o nascimento do segundo filho. Em casa, sem trabalhar, Benedita bebia e descontrolava-se. Ela e o companheiro. A violência era quase sempre verbal, às vezes física, muitas vezes extrema. Jaime não quis dar morada nem telefone ao agente da esquadra de Benfica. “Eu tinha medo que me levassem para junto dela.”

Benedita ainda tentara apanhá-lo nas escadas, onde ele se escondeu, antes de se esgueirar até à saída do prédio onde viviam junto à linha do comboio. Completamente embriagada, e sozinha com os dois filhos pequenos em casa, desistira de o seguir. Quando Jaime voltou, com dois polícias, foi dormir para casa da avó, numa casa no mesmo prédio.

“Ficaste mais calmo ao pé da avó?”. Benedita ainda hoje se preocupa. Quer compensar Jaime por tudo o que ele passou. Entende o pavor que o expulsou de casa naquela noite e a incompreensão, transformada em mágoa, de Leonardo, separado da mãe com apenas 13 meses. “Ele tem uma mágoa, porque sofreu muito. Não percebeu por que nos separámos.” Rafael, o mais novo, tinha três meses.

Na manhã seguinte, a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Lisboa Norte, com as suas instalações no Bairro Padre Cruz, em Carnide, recebeu um auto da PSP. Analisada a situação, entendeu dar uma oportunidade à mãe – e correr o primeiro risco. “Para ficar com os seus filhos, tem de se tratar.”

Benedita aceitou. Mas recaiu. Uma semana depois surge de novo embriagada. Jaime pede para ir para casa da avó. Tem medo dela. Benedita envolve-se então numa violenta discussão com a irmã mais nova e ameaça-a de morte.

Um novo auto da PSP é enviado para a CPCJ, de Lisboa Norte, na manhã seguinte. O caso é tratado como situação-limite: uma solução tem de ser encontrada em poucas horas, para afastar as crianças do perigo. Nestes casos, as crianças são retiradas de imediato para acolhimento na família alargada ou numa instituição.

Separado dos irmãos

Nessa manhã, Jaime foi para a escola sozinho, onde ficou, como sempre ficava, até às 17h30. Mas nesse dia, as técnicas da CPCJ, e não a mãe ou a avó, foram buscá-lo. “Levaram-me para a comissão.”

Jaime foi ouvido. Também Benedita e as várias pessoas da família convocadas de urgência – avô, avó, tia – já o tinham sido. As reuniões, a sós e em separado, ocuparam o dia inteiro.

O historial de violência doméstica e maus-tratos (pelo pai de Benedita) impediu os avós de acolherem em sua casa os netos. Uma das tias dos meninos, a viver na margem Sul, não tinha condições. O pai de Jaime, quase sempre incontactável, foi finalmente encontrado e chamado. Com o apoio da actual mulher, aceitou ficar com o filho. Os dois pequeninos – Leonardo e Rafael – foram acolhidos numa instituição em Lisboa.

“Fui dar um beijinho aos meus irmãos”, lembra Jaime. “A minha mãe disse-me que a culpa não era minha. Foi a minha tia que chamou a polícia daquela vez. Não eu.” Mas estava destroçado. “Chorei no primeiro dia. E depois chorava muitas vezes, à noite, com saudades da minha mãe”, diz o rapaz. Ao mesmo tempo, ficou confiante: com a certeza de que a separação seria, para ela, o choque que a levaria a deixar o álcool. “Ele sabia que só a comissão de protecção tinha força para me obrigar a parar”, diz Benedita.

As situações-limite, como a de Benedita, recebidas pela CPCJ de Lisboa Norte, aumentaram muito no ano passado. De 10 (em 2013) passaram para 32 (em 2014). Em 2012, foram registadas 18 situações com esse grau de urgência. Em 2011, foram 14.

Os motivos que explicam a maior ou menor frequência das situações-limite não foram estudadas, diz a actual presidente da CPCJ Lisboa Norte, Rita Campos. Mas sugere: uma eventual ligação entre um maior número destes casos urgentes e o empobrecimento de muitas famílias pode ser estabelecida através do valor total de apoios económicos concedido, nas medidas junto de pais ou outros familiares. A quantia total de cerca de 20 mil euros atribuída aos familiares que ficam com as crianças pela CPCJ de Lisboa Norte em 2012 duplicou em 2014 quando esse valor ultrapassou os 40 mil euros.

“O actual contexto económico trouxe repercussões” aos processos de promoção e protecção, admite Rita Campos. “Uma precária situação económica, muitas vezes associada a situações de consumos, desemprego ou saúde mental – não acompanhada devidamente – aumenta a conflitualidade familiar, com reflexos na parentalidade.” E confirma: as situações sinalizadas também são, de uma forma geral, mais graves quando chegam à comissão.

É esse “o sentimento generalizado dos elementos” desta comissão que é, das quatro CPCJ de Lisboa, a maior em volume de processos na capital e uma das cinco maiores entre as mais de 300 que existem em todo o país. Aqui, o total de entradas também subiu no último ano: de 1140 (em 2013) para 1488. Os relatórios de 2014 das quatro comissões de protecção da capital serão apresentados à Assembleia Municipal de Lisboa esta terça-feira.

Fantasmas do passado

Os filhos de Benedita já estavam sinalizados na comissão de protecção desde que ela chamara por duas vezes a polícia por episódios de violência doméstica com o ex-companheiro. No fim de 2013, o centro de saúde também tinha avisado a CPCJ de que Rafael – o mais pequenino dos três – faltara à consulta dos 15 dias e não tinha o plano de vacinas em dia. Quando foi chamada à comissão, a mãe justificou a situação da criança e garantiu que a relação com o companheiro estava mais calma.

Mas não: cansada de ser humilhada, Benedita dava por vezes resposta. E a violência entre o casal agravou-se – como um prolongamento da violência a que Benedita e os cinco irmãos assistiram em criança. “Morávamos em Benfica. Quando o meu pai se atrasava, eu ficava com dor de barriga de nervos.” O atraso era sinal de que tinha bebido. O pai era violento com a mãe. Os piores dias eram aqueles em que também maltratava os filhos. “Um dia, o meu irmão foi para a escola com as costas em sangue”, lembra Benedita.

O tempo trouxera de volta esses fantasmas e, agora, quando bebia, Benedita via-se a tratar da mesma forma o seu filho mais velho. “No dia em que fiquei sem os meus filhos nos braços, senti-me impotente e inútil por não ter tido a coragem suficiente para parar de beber antes de isto acontecer”, diz.

Sobre a decisão de retirar ou não as crianças da família, Fernanda Salvaterra, a técnica da CPCJ de Lisboa Norte responsável pelo processo, admite ser “um equilíbrio difícil de alcançar.” E diz: “Por vezes, quando as crianças não são logo retiradas, correm-se muitos riscos com elas nas famílias. Vamos prolongando as situações, dando mais oportunidades aos pais para se reabilitarem. E o tempo vai passando, o que é mau para as crianças. Por outro lado, a opção de institucionalizar não é boa, nunca.” E conclui: “O grau de risco que existe” determina uma ou outra resposta.

Até aos oito anos, Jaime tivera uma infância tranquila e segura. E isso contou muito para Benedita ter uma primeira oportunidade. “Alguma coisa de bom se tinha passado na vida do Jaime, para ele estar como está, com muitas competências, responsável. E se ele tinha vivido com a mãe, com certeza que esta mãe tinha competências parentais. Ela estava deprimida, precisava de ajuda”, diz a psicóloga e professora. Porém, à primeira oportunidade, Benedita vacilou.

Retirar ou manter na família

“Perante uma situação-limite, a equipa [da comissão] fica com muitas dúvidas. A decisão é tomada em função do historial e da situação concreta”, diz Nélia Alexandre, que era presidente da CPCJ de Lisboa Norte quando se iniciou o processo de Benedita no princípio de 2014. E acredita que, com o choque e o vazio da separação, Benedita percebeu. E por isso cumpriu.

Em Março, iniciou o tratamento, respeitando o plano de consultas. Em Maio, inscreveu Rafael e Leonardo na creche, encontrou uma casa para alugar, e logo a seguir um emprego. Passados os três meses de contrato provisório, ficou efectiva numa empresa, que valorizou o seu domínio das línguas e o facto de ter concluído com boas notas o 12º ano.

Percorreu todos os passos, como exigia a CPCJ. E fez tudo no tempo previsto dos seis meses da medida de promoção e protecção aplicada. As responsáveis da CPCJ de Lisboa Norte não se lembram de um caso resolvido em tão pouco tempo.

“Aos poucos, ela foi assumindo as responsabilidades e foi fazendo por ela”, explica Fernanda Salvaterra. “Cumpriu tudo.” Era o momento, ou não, de a CPCJ correr o segundo risco. “Passados seis meses, percebemos que ela tinha condições para que os meninos fossem reintegrados no seio familiar. A decisão é difícil, sim, porque arriscada. Em qualquer altura, as coisas podiam voltar ao que eram”, admite. “Mas sabendo o mal que é a institucionalização para crianças tão pequeninas, o afastamento da sua figura de vinculação, da figura materna, tínhamos de decidir correr um risco. Mas era um risco calculado, porque acompanhado.”

Jaime foi o primeiro a voltar para casa. Começou por vir aos fins-de-semana. Depois mudou-se de forma permanente. Até que chegou o momento de trazer de volta os mais novos para casa.

Em Setembro de 2014, marcada a hora e o dia, Benedita e Jaime atravessaram Lisboa de transportes, como já era hábito quando visitavam os bebés no centro de acolhimento em Alvalade. Nesse dia, porém, foram de transportes e voltaram de táxi.

“Naquele dia quando me entregaram os meus filhos, chorei tanto, de alegria e de alívio.” A casa que alugara estava pronta para os receber – a casa onde agora Benedita, passados mais de seis meses desse dia, conta a sua história. Durante muitas horas, e com pormenores. “Eles estavam magrinhos quando vieram de lá.” Benedita, já então separada, só saiu de casa do companheiro no dia em que foi buscar os mais novos. “Queria entrar com eles.” Inaugurar uma nova vida. O seu aniversário, uma semana antes, passou a celebrá-lo nessa data: 26 de Setembro. Como se tivesse renascido nesse ano: 2014, o pior de todos.

* Benedita, Jaime, Leonardo e Rafael são nomes fictícios

 

 

 

 

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