Famílias nos censos 2011 : diversidade e mudança – livro digital

Setembro 3, 2015 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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censos

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Madrastas que são como mães, padrastos que são como pais

Março 28, 2015 às 5:58 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 22 de março de 2015.

Paulo Pimenta

Ana Cristina Pereira

Num país com cada vez mais famílias recompostas, um número indeterminado de madrastas ou padrastos assume quotidiano de enteados ou enteadas sem que lhes seja reconhecido esse direito.

Multiplicam-se as famílias recompostas. Entre os censos de 2001 e 2011 passaram de 2,7% para 6,6%. Nessa altura, já havia mais de 105 mil casais com filhos de relações anteriores – cerca de 59% a viver em união de facto. Um número indeterminado de madrastas ou padrastos fazia as vezes de mães ou pais ausentes sem que lhes fosse reconhecido qualquer direito legal.

Vanessa reconhece-se na enteada

A enteada só tem dois anos e meio. Vanessa tanto lhe limpa o nariz como o rabo. Dá-lhe banho e veste-a, leva-a ao infantário e trá-la, alimenta-a e deita-a. Se for preciso, dá-lhe um xarope ou põe-lhe um supositório. “É como se fosse minha filha. Ela não tem idade para perceber que não sou mãe dela.”

Quando o companheiro se mudou para casa de Vanessa, a menina ia nos seis meses. Trouxe-a. Era o cuidador. Não havia discussão sobre a guarda. No ano passado, a menina ainda ia dormir a casa da mãe. Agora, a mãe só a pode ver à porta do pai e da madrasta, se pedir 48 horas antes. Há um processo na Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Sintra. Acontecia a menina ser entregue suja ou com fome. “Chegava a casa às dez da noite e abria os armários da cozinha à procura de comida”, diz Vanessa. “Há um mês que não vem vê-la, há uma semana que não telefona. ”

Alegra-se com os projectos de lei que estão no Parlamento – um do PS e outro da coligação PSD CDS – sobre alargar responsabilidades parentais a madrastas ou padrastos em caso de ausência, incapacidade ou impedimento de um progenitor ou ambos. “Se tenho os deveres, também devia ter os direitos.”

Vanessa já andou à pancada com a mãe da enteada. “A polícia disse-me: ‘A filha não é sua, não tem de se meter’.” Tem pena de ter perdido a cabeça, “descido o nível”, mas não consegue aceitar “o desinteresse dela pela filha”. “Pediram uma avaliação psicológica dela, espero que encontrem alguma coisa!”

Reconhece-se na menina. “Estou a ver a minha história”, diz ela. Não sabe quem é o pai e não tem qualquer relação com a mãe biológica. Foi criada por uma amiga dela. E agora está em casa, grávida, a criar a enteada de dois anos e meio e o filho de um ano. “Não me vou descuidar dela só porque não saiu do meu ventre. Se aceitei esta situação, tenho de a tratar como se fosse minha.”

Viriato é pai suplente

A filha está lá. Viriato está aqui. Lá é Portishead, England. Aqui é Porto, Portugal. A criança tinha quatro meses quando os pais se separaram. Quem faz as vezes de pai é o novo companheiro da mãe. “Ele é o pai activo, o pai do dia-a-dia. Eu sou o pai suplente. Fico no banco. Só jogo quando ela quer”, diz ele.

Quando ela ficou grávida, tudo parecia possível. Estudavam Interpretação. Terminariam o curso, ele cá, ela lá, porque ela só viera cá fazer um trimestre, no âmbito do programa Erasmus. Formados, comprariam uma autocaravana e iriam por aí, fazendo teatro, criando a filha, mostrando-lhe o mundo.

Ela voltou a Portishead. Quando ele foi visitá-la, era como se ela tivesse um longo enjoo. “Passei de príncipe encantado a monstro.” Não dormiam juntos, não davam beijos, nem abraços. Eram dois adultos unidos pelo peso da responsabilidade. A criança nasceu e nada mudou. “Um dia, arranjou-me emprego. Eu ia arrumar carros e ela ia trabalhar numa caixa de supermercado.”

Veio embora, achando que ela colocara em causa a profissão, a vida que ele escolhera. Não era uma situação inédita. Muito por força dos fluxos migratórios e das novas formas de mobilidade, as famílias tornam-se mais diversas e um número indeterminado de crianças tem um progenitor num país e outro noutro.

Prescindiu de qualquer direito legal, para que ela pudesse usufruir de todos os apoios previstos para famílias monoparentais. No princípio, via a filha duas ou três vezes por ano, mandava algum dinheiro, tentava cobrir algumas despesas extras. “Nunca era suficiente”, diz. Um aniversário, foi visitá-la e a mãe disse-lhe que passasse o dia fora, porque haveria uma festa e ele, que ali não estava nos outros dias, não fora convidado. Tinha a menina uns seis anos, Viriato fartou-se, desapareceu. Esteve um ano sem dar notícias. E, a partir daí, tudo melhorou.

A filha conta quase 16 anos. A ex-companheira refez há muito a vida amorosa. Casou-se. Teve outra menina. E a filha de Viriato, que lhe chama daddy, também passou a chamar daddy ao padrasto. Um está com ela, o outro está acessível pela Internet. “Cada um sabe o seu lugar e age de acordo com isso.”

Susana quer salvaguardar o futuro

Percebeu que o irmão tem o nome do pai dele. Perguntou se também podia ter o nome do padrasto. E a mãe, Susana, começou a pensar no que aconteceria se um dia algo terrível lhe acontecesse. “Gostava que ele ficasse responsável por ela.”

Haverá quem estranhe pensamentos obscuros. Susana não. “A vida tem sido tão injusta…” O ex-companheiro batia-lhe. Bateu-lhe durante a gravidez. Bateu-lhe depois da gravidez. “Eu tinha 21 anos. Tinha medo que me tirassem o bebé, se fosse fazer queixa.” Foi aguentando. Um dia, ele pôs-lhe as malas à porta.

A menina tinha dois anos quando os pais se separaram. Presume Susana que, para a irritar, o pai pediu a guarda. O tribunal de Almada tomou decisão contrária e ele desinteressou-se. “Nunca deu pensão de alimentos, nunca fez uma visita, nunca faz um telefonema, nunca mais quis saber da filha.”

Só aos nove anos a menina conheceu alguém que vê como um pai. “Foi um anjo que me apareceu na vida quando eu já não acreditava em nada”, diz a mãe. Uma doença crónica foi-lhe diagnosticada. Tinha de fazer um tratamento diário. Um amigo começou a acompanhá-la. “O amor aconteceu.”

Padrasto e enteada ligaram-se de imediato. “São muito cúmplices, com todo o respeito, claro.” Não é sempre maravilhoso. É a vida a acontecer. “Ela está com 13 anos. É adolescente. Está com manias. Quando é preciso chamar a atenção, ele chama. Ser pai é educar, dar amor. Educar não é dar tudo, é dizer não na hora certa.” A família cresceu, entretanto. Tiveram um bebé há 15 meses. “Ele é filho biológico e ela não, mas não há distinções. Se dá uma coisa a um, dá a outro.”

Se acontecesse algo a Susana, o companheiro teria de bater-se em tribunal pela guarda da menina. Poderia vir a ser-lhe confiada, mas a prioridade seria dada a familiares do lado da mãe e do pai. E é por isso que lhe agrada tanto a possibilidade de alargar as responsabilidades parentais da filha ao companheiro. Olhando para a família que está a construir em Lisboa, parece-lhe que já é tempo de “mudar a imagem das madrastas e dos padrastos das histórias infantis”. “Há padrastos que são muito melhores do que os pais e madrastas que são muito melhores do que mães”, remata.

 

 

 

As famílias mudaram mas não estão em crise

Maio 21, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do Expresso de 15 de maio de 2014.

O estudo mencionado no artigo é o seguinte:

Dia Internacional da Familia

http://www.ine.pt/ngt_server/attachfileu.jsp?look_parentBoui=217149127&att_display=n&att_download=y

expresso

Há novas formas de família: mais casais sem filhos, mais pessoas a viver sozinhas e mais famílias monoparentais. É este o retrato português.

Raquel Albuquerque

Em 2001, os casais que viviam com filhos que não eram comuns aos dois correspondia a 2,7% do total de casais com filhos. Dez anos depois, a proporção passou para 6,6%, refletindo um aumento para mais de o dobro. É essa uma das tendências que se tem verificado nos últimos anos nas famílias portuguesas: a recomposição após um divórcio ou uma separação tornou-se uma prática mais comum.

A marcar o Dia Internacional da Família, que se comemora esta quinta-feira, o Instituto Nacional de Estatística e o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa deram a conhecer um estudo que analisa a evolução das famílias desde 1991, com base nos dados dos censos, sublinhando algumas tendências: mais casais sem filhos, mais famílias monoparentais e mais pessoas a viverem sozinhas.

“A família não está em crise. O que há são novas formas de família que começam a ganhar visibilidade”, aponta Maria João Valente Rosa, demógrafa e diretora da Pordata. É nessas novas formas que se encaixam as famílias reconstituídas ou recompostas, resultando das segundas uniões dos casais.

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Em 78% desses casos, os filhos não comuns são da mulher, embora em dez anos a proporção de filhos do homem tenha aumentado (de 16,5% em 2001 para 17,3% para 2011). Ainda que pequena, é essa a maior variação, como destaca Susana Atalaia, investigadora do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa: “Os casais com filhos diminuíram, mas dentro destes aumentou o peso dos casais recompostos com filhos”.

Voltar a partilhar casa

Para além das famílias recompostas, há outra característica: ao longo dos anos, o número de famílias “complexas”, ou seja, constituídas por vários núcleos – avós, tios ou casais mais jovens a viver com os pais, por exemplo – foi diminuindo.

Há uma questão colocada por Pedro Vasconcelos, sociólogo e investigador do ICS. “Será que a crise económica e as políticas de austeridade poderão levar a um aumento das famílias complexas?”, questiona. “É difícil saber ao certo, mas se se mantiverem as atuais condições, que geram a diminuição dos recursos e a diminuição da possibilidade de ter autonomia, faz sentido que esta tendência aumente. Sabe-se que, quanto maior a pobreza relativa da população, mais estas estratégias tenderão a reforçar-se”, acrescenta.

Também as famílias monoparentais aumentaram: hoje, 15% do total de famílias são compostas apenas pela mãe ou pelo pai. E neste universo conclui-se que em 87% dos casos é a mãe que está sozinha com os filhos.

Uma das explicações para esse valor é a entrega dos filhos ao cuidado das mães a seguir ao nascimento fora do casamento, cada vez mais comum, ou após o fim da relação. Aliás, os dados apontam para que o fim das relações tenha estado na origem de 43% das famílias monoparentais (uma tendência que há vinte anos era menos comum – acontecia em 22% dos casos).

Não só as famílias estão mais pequenas, como acabam por se reduzir a apenas uma pessoa. A tendência de viver sozinho tem aumentado nas últimas décadas: hoje, em 100 pessoas, 21 vivem sozinhas. Ou seja, mais de um quinto da população. Dessa parte da população, quase metade tem mais de 65 anos, o que coincide com a tendência de envelhecimento da população.

Só que é preciso relativizar esse peso da população idosa, que é tendencialmente visto de uma perspetiva negativa, defende Pedro Vasconcelos. “É verdade que há situações de isolamento e de afastamento das gerações mais novas, mas também há situações de autonomia”, aponta. “Não podemos olhar para uma pessoa com mais de 65 anos como olhávamos há 50 anos”.

Também Maria João Valente Rosa considera importante olhar para os números de outra forma. “O que se passa em Portugal não é diferente do que se passa noutras sociedades”, refere.

“A família já não se reduz a quatro ou cinco palavras”, aponta, sublinhando que o que a família é hoje resulta do desenvolvimento da própria sociedade.

dimensao

 

 

 

Os teus filhos não são meus. São nossos

Abril 27, 2013 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 21 de Abril de 2013.

Por Maria João Lopes

Entre 2001 e 2011 o número de famílias recompostas, com filhos de anteriores relações, subiu de 2,7 para 6,55%. Isso obriga a repensar o conceito de família e levanta novas exigências quanto ao exercício da parentalidade.

Quando nos enviou um email a explicar a constituição da sua família, Susana Pragosa, de 34 anos, terminava assim: “Confuso, não?” A advogada vive em Oeiras com o seu actual companheiro, Gonçalo Marques, engenheiro de 32 anos. Juntos têm um bebé, o Afonso, mas cada um destes adultos traz já, de anteriores relações, filhos: ele dois, ela um. Ao todo, no dia em que fomos ao espaçoso apartamento de Oeiras havia quatro pequenos rapazes, mas apenas o bebé Afonso é irmão de todos.

Com o casal vivem todos os dias o Afonso, filho dos dois, e o Diogo, que tem quatro anos e é fruto da anterior relação de Susana Pragosa. Durante cerca de uma semana, todos os meses, e ainda nas férias juntam-se mais dois pequenos à casa – os filhos de Gonçalo Marques, com cinco e dois anos, que vêm do Algarve, onde moram com a mãe. Há ainda mais um dado para baralhar a equação: de três em três meses, o pai do Diogo vem de Macau até Portugal passar dez dias com o filho. O casal já se habituou à gestão de uma “família recomposta complexa”, como lhe chamam os especialistas por oposição às “famílias recompostas simples”, aquelas em que apenas um dos membros do casal tem um filho de uma relação anterior.

A fazer na Faculdade de Letras da Universidade do Porto um doutoramento em Sociologia sobre o tema, a investigadora Cristina Cunha não tem dúvidas de que o conceito de família se alterou: “Com as mudanças nos comportamentos dos casais, na redução da esperança de vida, da união em virtude do aumento do divórcio e com as alterações da paisagem demográfica da família a partir da década de 1960 o modelo, até então dominante, da família dita tradicional, intacta ou nuclear dá lugar, em finais do século XX, a uma pluralidade de modelos familiares que, por sua vez, geraram novas interrogações sociológicas sobre a família.”

Na casa de Susana Pragosa e de Gonçalo Marques, o Diogo, o João e o Frederico estão entretidos a brincar. “São os melhores amigos”, garante a mãe. Entre eles, apenas o João e o Frederico são irmãos. O irmão comum a todos está ao colo da mãe, o bebé ainda de meses da família.

Depois dos divórcios e a partir do momento em que optaram pela vivência em conjunto o casal teve de estabelecer normas, para acautelar o bom funcionamento da nova família. “Por vezes torna-se um bocadinho avassalador. Nas outras famílias há rotinas muito instituídas, e aqui também tem de haver”, explica a advogada. Refere-se aos dias em que estão todos juntos: nestas alturas não pode ser tudo uma festa, tem de continuar a haver horas para se deitarem, para tomarem banho, tem de haver rotinas. Ainda assim, por vezes encontram um dos garotos no corredor à noite, a caminho do quarto de outro. “Mas nós gostamos desta rebaldaria e temos sentido de humor”, diz Susana Pragosa.

A única estratégia que adoptam é pensar sempre num programa quando passam fins-de-semana juntos. Primeiro para dar tempo de qualidade às crianças, depois, porque “é mais cansativo tê-los em casa”, ri-se Gonçalo Marques.

Os papéis

Também foi necessário conciliar os papéis de pai e de mãe. Um exercício delicado que implica a noção de que não são pai e mãe de todos, mas que também não podem deixar tratar de forma diferente os filhos de um e de outro – isto é, não pode haver mais mimos nem mais ralhetes para uns do que para outros: “Tenho de ser a mesma coisa com todos, independentemente dos dias que passo com cada um. Quando vêm os meus filhos, tem de ser igual – os castigos, o dia-a-dia. Porque se não também havia as pessoas boas e as más… Além disso, nós temos mesmo de ter as regras, porque eles são muitos”, conta o engenheiro.

As regras também não podem mudar muito de casa para casa, fazem notar. Há mais adultos envolvidos, papéis de pai e de mãe para clarificar, mais avós, mais espaços, é preciso conciliar estas esferas todas e tentar não desautorizar ninguém. Algo que depois de um divórcio nem sempre é fácil. “O importante é que os vários adultos colaborem”, observa Susana Pragosa. Sobre a autoridade que têm perante as crianças, independentemente dos que são filhos ou não, Gonçalo Marques acrescenta: “Se eu estou a ralhar com algum deles, a Susana assume a minha posição, não me desautoriza, e vice-versa. E se acha que eu não tenho razão resolvemos a questão os dois, à parte.” Susana Pragosa explica que, com o filho, o Diogo, pode ralhar e que ele vai sempre gostar dela: “Com os outros não é assim. Aí, o pai [Gonçalo], tem de estar atento e entrar.”

Cristina Cunha esclarece que uma família recomposta se apresenta como um “modelo de família com características próprias e cuja construção se oferece como um processo complexo: “Obriga à elaboração de regras, normas e padrões de comportamento partilhados e negociados pelos membros da família, traduzindo assim uma ambiguidade de papéis.” E acrescenta que “a participação do padrasto e/ou da madrasta na educação dos enteados será tanto mais eficaz, se o fizer de forma indirecta, isto é, se as regras forem impostas e geridas pela mãe ou pelo pai”.

Os filhos deste casal de Oeiras tratam os novos companheiros dos pais por “tia Susana” e “tio Gonçalo”. Já quanto aos avós não fazem distinções e simplificam: vai tudo corrido a “avô” e “avó”. E quando Gonçalo Marques fala, através do Skype, com os dois filhos que vivem no Algarve com a mãe os pequenos também querem falar com o Diogo, filho da actual mulher.

“Nunca se rejeitaram”, garante Susana Pragosa, que se lembra perfeitamente do dia em que o filho mais velho de Gonçalo e o seu se conheceram. O casal já namorava e tinha ido passar um fim-de-semana ao Algarve. Gonçalo Marques saiu do carro para pôr gasolina e Susana Pragosa ficou lá dentro com os dois miúdos. Foram eles que iniciaram a conversa. “Como te chamas?” foi a primeira pergunta. Depois o filho de Gonçalo perguntou ao Diogo: “Onde está o teu pai?” “Na China.” “E como se chama?” “Gonçalo.” “Ah, o meu também.” Susana Pragosa até filmou a conversa com o telemóvel. No início, chegou a acontecer, numa ou noutra ocasião, as crianças só quererem o pai ou a mãe. Se estivessem por exemplo a chorar, não era indiferente quem lá ia, tinha de ser o pai ou a mãe.

Com o tempo foi passando. A mais velha das crianças tinha três anos quando o casal começou a namorar. Por isso, são poucas as memórias que guardam da composição familiar anterior. Há uns meses, Susana Pragosa e o ex-marido foram juntos ao colégio do filho para uma entrevista e o Diogo até achou graça ver os pais lado a lado, não se lembrava de alguma vez o ter visto num contexto social.

Uma das partes mais sensíveis para estes namorados – não se voltaram a casar e gostam de dizer que são namorados – foi mesmo a dificuldade que os avós tiveram em aceitar as mudanças. “Foi complicado. São famílias muito tradicionais, mas aos poucos está a haver uma adaptação. Tivemos os dois um casamento tradicional, depois houve um divórcio, depois um novo relacionamento com mais filhos. Ainda ontem fomos jantar todos a casa dos meus pais. Fazem um esforço, mas não é fácil para eles”, conta Susana Pragosa. Gonçalo Marques acrescenta: “Os pais da Susana tinham um neto, passado um ano e meio têm quatro.”

Mudanças nos tempos

Susana Pragosa tinha 23 anos quando se casou, Gonçalo Marques 26. Ela esteve casada seis anos, ele cerca de cinco. “Os nossos amigos que se casaram cedo estão a enfrentar o mesmo problema. Os meninos também já têm amigos com pais divorciados”, conta ele. Por isso, entre a geração mais nova, entre os amigos, não notaram qualquer preconceito. “Foi tudo bem aceite. Os tempos mudaram muito”, conclui a advogada.

Apesar de os tempos terem mudado e de haver cada vez mais famílias recompostas, o casal João e Maria (nomes fictícios) não quis ser identificado. Vivem em união de facto há quatro anos e com eles moram os filhos dela, um menino de nove anos e uma menina de sete. Vão para casa do pai de 15 em 15 dias e jantam com ele duas vezes por semana. Com a filha dele é ao contrário: de 15 em 15 dias, vai ela até lá casa. Nestes fins-de-semana e nas férias estão todos juntos.

João e Maria são ambos arquitectos e docentes universitários no Porto. Ela tem 37 anos, ele 41. O primeiro receio que tiveram quando se juntaram foi que não houvesse empatia entre as crianças. Trataram de acautelar isso, apresentando os filhos aos poucos uns aos outros: “Primeiro namorámos cerca de seis meses e os miúdos não sabiam. Durante esse período acabámos por nos juntar com os miúdos para fazer programas em conjunto mas como amigos, para eles não reagirem mal. Deram-se bem”, conta Maria. Frisa que “foi tudo gradual” e que, quando foram viver juntos, as crianças já estavam “ambientadas”.

De acordo com a pesquisa de Cristina Cunha, à semelhança do resto da Europa também em Portugal há cada vez mais famílias recompostas. A investigadora sublinha que os Censos de 2001 e 2011 e os dados do Instituto Nacional de Estatística permitem concluir que, em 2011, as famílias recompostas representavam em Portugal 6,55% do total de núcleos conjugais com filhos – quando, em 2001, representavam apenas 2,7%. Entre estes, a maioria dos núcleos familiares corresponde a casais “de facto” (59,18%), o que significa que após o divórcio ou a separação a opção foi viver em conjugalidade mas sem casamento.

Maria nota bem esta mudança que ocorreu nos últimos dez anos em Portugal: “Na escola do meu filho [de nove anos] a maioria continua a ter uma família convencional. Numa turma de cerca de 20 só três é que não têm. Mas na turma da minha filha, que é três anos mais nova, a maioria, praticamente todos, tem situações diferentes em casa. O pai fora, um divórcio…”, conta. A própria professora deparou-se com essa realidade no dia da família e até aproveitou para contar uma história precisamente à volta do assunto.

Cristina Cunha sublinha que vários estudos apontam para o facto de a recomposição familiar “impor o reequacionar de certos laços de família, o repensar dos papéis familiares, dos deveres e direitos de cada um dos protagonistas envolvidos”. “No contexto do casal recomposto, face às múltiplas situações da vida do quotidiano, cada um dos actores sociais reagirá segundo os seus próprios valores, procurando negociar com o outro parceiro”, diz. Acrescenta que “o casal é confrontado com a necessidade de encontrar compromissos dinâmicos para responder às situações da vida quotidiana”. Para a investigadora, não há dúvida de que estes casais enfrentam “uma série de dificuldades e desafios, em particular no domínio do exercício simultâneo dos papéis conjugais e parentais”.

O ex-marido de Maria também formou uma nova família e teve um filho. Os miúdos até já chegaram a perguntar por que não estão todos juntos – ex-maridos, ex-mulheres, novos companheiros, filhos e irmãos. João, o novo companheiro de Maria, diz mesmo que a actual geração encara as novas famílias com absoluta naturalidade: “Eu e a minha ex-mulher somos convidados para festas de amigos, vamos os dois e eu vou com a minha actual mulher. Não temos uma relação de proximidade, não somos os melhores amigos, mas há uma relação de respeito. Telefonamo-nos para saber se a miúda vai para o ballet, se vai para a piscina, se vai ao médico”, conta.

Quanto aos filhos de Maria, a actual companheira, assume um papel que, não sendo de pai, não é de menos autoridade por isso: “Dizerem-me “não és meu pai” não foi algo que tivesse surgido muitas vezes. Mas, se surge, não o sinto como uma rejeição. Respondo simplesmente: “Não, não sou teu pai. Mas sou um adulto e quero-te bem.””

 


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