“Ou estão na escola ou estão no sofá.” Há que derrubar os “muros” à volta das crianças

Janeiro 3, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 18 de dezembro de 2018.

O investigador Carlos Neto defende que é preciso derrubar os muros construídos à volta das crianças e lamenta que na rua se vejam mais adultos a passear cães, do que a passear com crianças.

Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana, não entende como é que, num país como Portugal, as crianças ficam fechadas em casa e na escola. “As crianças estão na escola ou já estão no sofá”, afirma.

“É um país em que se vive com qualidade porque tem um bom clima, porque tem uma boa cultura, porque as pessoas são amáveis e não se percebe como é que as crianças andam aprisionadas e devastadas do ponto de vista emocional”, defende o investigador.

“Com tanta proteção, tanto medo e tantas regras, tantas redes e tantos muros, as crianças não podem experienciar e apreciar o território”, acrescenta Carlos Neto.

Ouvir as declarações de Carlos Neto no link:

https://www.tsf.pt/sociedade/interior/ou-estao-na-escola-ou-estao-no-sofa-ha-que-derrubar-os-muros-a-volta-das-criancas-10336130.html?fbclid=IwAR25xU3_-w4omdEZN0ziO-ogqg2R3ZMPrSMLox0Y4TsHJstpyiuOZJ6q7FM

 

Carlos Neto. “Não se pode aprisionar as crianças em férias. É preciso libertá-las para que possam viver tudo”

Julho 3, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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© Bruno Gonçalves

Entrevista do i a Carlos Neto no dia 23 de junho de 2018.

Marta F. Reis

Começaram as férias grandes para quem não tem exames. Para o especialista em desenvolvimento infantil, são uma oportunidade para fazer reset a uma cultura de superproteção. E para os pais abrandarem

“Não podemos aprisionar as crianças e os adolescentes em casa em tempo de férias”. O conselho é de Carlos Neto, professor na Faculdade de Motricidade Humana que há mais de 30 anos se dedica à área da educação física e motora e ao papel do jogo no desenvolvimento das crianças. Com mais um período de férias grandes à porta, o investigador acredita que tentar cultivar um pouco mais de autonomia e liberdade na relação com os mais novos será benéfico para eles mas também para os pais. O objetivo é que as férias sejam um momento de prazer e descoberta e não uma “batalha campal”, a realidade de muitas famílias, lamenta. As dicas são práticas: mais contacto com a natureza e deixá-los experimentar e até fazer coisas um pouco mais arriscadas do que o costume, seja trepar às árvores, andar de skate, correr na praia com um papagaio… ou porque não acampar todos juntos este ano? A saúde física e mental de todos agradece.

É há muito tempo uma pessoa preocupada com o espaço que as crianças não têm para brincar ao longo do ano e o impacto que isso tem no seu desenvolvimento motor e psicológico. Este tempo das férias grandes pode ser usado pelos pais para as estimular?

De facto os pais deveriam encontrar soluções para reinventar o tempo de férias para os filhos. Não pode continuar a acontecer as férias serem um tormento quer para os filhos quer para os pais, que é o que muitas vezes acontece. Muitas vezes os pais até têm quase medo que chegue este tempo – durante o ano as crianças passam muito tempo nas escolas, os pais no trabalho e passam muito pouco tempo juntos e depois, quando chegam as férias, é um verdadeiro drama. Há soluções como pôr as crianças em colónias de férias que de certa forma os liberta de estarem com os filhos, mas fazer só isso por sistema não é bom.

E nem todas as famílias têm posses para isso.

Claro que isto dependerá sempre do nível sociocultural e há muitos tipos de famílias e de crianças, por isso as oportunidades serão sempre diferentes. O ponto de partida é que as crianças que agora terminam o ano escolar têm a expectativa que o tempo de férias seja agradável, prazeroso e que seja diferente do ano escolar. Sobretudo que consigam finalmente ter um tempo sem regras muito rígidas e usufruir da possibilidade de fazer coisas novas.

Tem a perceção de que hoje os miúdos chegam ao fim do ano letivo mais sedentos de férias?

Não tenho dúvidas disso. Há 30 ou 40 anos, e falo até da minha geração, temos boas memórias das férias mas o período escolar não tinha nada a ver: havia liberdade, andávamos na rua. Isto hoje não acontece, o que faz com que as crianças tenham uma expectativa maior de que o período de férias seja diferente, desafiante, misterioso. Mas também que traga um contacto mais afetivo e emocional com os pais, que haja uma vinculação afetiva emocional maior. E por isso era bom que os pais pudessem partir para férias com essa consciência e tentar corresponder a essas expectativas.

Pais cada vez mais absorvidos pelo trabalho.

Esse é o grande problema, a falta de harmonização entre o tempo passado no trabalho e em família. As férias devem ser uma oportunidade para tentar dar um pouco mais de qualidade a esta relação.

Mas há um desfasamento prático: as férias escolares duram dois meses e meio e o período normal de férias por ano de um trabalhador são 22 dias úteis.

Claro, pressupõe uma organização diferente das famílias e certamente que haverá muitas coisas em jogo até de natureza política mas, antes de irmos aí, penso que importa perceber também que é preciso respeitar a necessidade que as crianças têm de ter um tempo de intervalo da rotina para brincarem mais livremente. Diria que deve haver quatro ou cinco preocupações dos pais em tempo de férias: proporcionar situações de liberdade que sejam uma alternativa ao tempo organizado. O segundo conselho que daria aos pais é tentarem proporcionar tempos mais ativos, de relação com a natureza, e por outro lado que não seja algo muito previsível e estruturado. Os pais tentarem levar as crianças a sítios novos, conhecer o interior do país. Por exemplo acampar: o contacto com a natureza é essencial.

O campismo no passado era um clássico do verão de muitas famílias.

Sim, se calhar hoje nem tanto mas é uma forma de as crianças estarem fora do seu contexto habitual e da identidade do espaço onde vivem e basta isso para se libertarem. Também diria que há necessidade de haver atividades desafiantes e isto tanto pode ser ir a um parque aquático, uma ida à serra. Ser mais desafiante significa permitir às crianças correrem mais riscos.

Fala-se por vezes dos “pais-helicóptero”, que tentam controlar e gerir todas as experiências para que as crianças não tenham de enfrentar obstáculos. Um estudo publicado há dias concluía que este estilo de parentalidade acabava por ter um impacto negativo no rendimento escolar e nas relações sociais. É contrariar essa tendência?

Sim e isso de certa forma implica que os pais consigam reconhecer que os filhos podem ter mais autonomia do que aquela que eles pensam que têm.

Os pais tendem a menosprezar as capacidades dos filhos?

Penso que tendem a ter uma perceção diferente e o desafio está em perceber como é que as férias podem ajudar a desconstruir os medos que os pais têm em relação aos filhos. Estou a falar sobretudo nas idades mais baixas, dos 3 aos 5 e dos 5 aos oito.

Que medos são mais comuns?

Coisas tão simples como deixá-los nadar, subir às árvores, trepar.

Há pais com medo que os filhos subam às árvores?

É uma força de expressão mas é um bom exemplo daquilo que é necessário para as crianças melhorarem a sua literacia motora e as férias devem ser uma oportunidade para que isso aconteça, promovendo jogos e brincadeiras ativas. Isto pode acontecer dentro de casa mas devem poder ter uma atividade física mais intensa e ao ar livre e com a participação dos próprios pais, porque isso é importante. Neste sentido, os filhos deviam ajudar os pais a libertarem-se do peso que foi o ano de trabalho. A sociedade portuguesa anda a viver muito à pressa, há uma excitação no quotidiano que está a criar gravíssimos problemas de saúde mental e física nos adultos e nas crianças.

A neurologista Teresa Paiva, especialista em problemas de sono, já tem alertado, por exemplo, para a tendência de ter debates e programas televisivos muito acesos noite dentro, como se o dia não acabasse. É um sintoma dessa excitação?

Sim, é um bombardeamento completo e, no geral, temos uma organização do tempo cada vez mais stressante. E, portanto, o tempo de férias é uma oportunidade para proporcionar novas atividades aos mais novos mas também deve ser uma oportunidade para as pessoas aprenderem a viver mais devagar, a aproveitar o silêncio do corpo, fazerem mais reflexão e contemplação do que é a família. Este conceito de aprender a viver mais devagar é dar mais tempo para a interiorização de cada um e de consciência do que é a vinculação afetiva entre filhos e pais.

É investigador no campo do desenvolvimento infantil, sobretudo motor. Recentemente os resultados nacionais das provas de aferição revelaram que as crianças de sete anos têm dificuldades em saltar à corda e dar cambalhotas. Quão preocupantes são estes indicadores?

São preocupantes mas não podemos dramatizar. Quer o saltar à corda quer a cambalhota [provas em que muitos alunos falharam] são duas habilidades motoras complexas que só atingem o seu nível maduro por volta dos oito/nove anos. Creio que não devemos ter uma visão sensacionalista sobre os resultados porque uma criança de sete anos não terá ainda as condições para ter um êxito absoluto nestas atividades, sobretudo quando se pede algo muito estandardizado como acontece nessas provas. Disto isto, os indicadores de fundo dados pelas provas de aferição é que podem ser considerados mais preocupantes: temos um sedentarismo implantado nas nossas crianças, principalmente nas primeiras idades. Digo-o há mais de 20 anos: temos tido um progressivo declínio do jogo e da atividade física.

Em Portugal em particular?

É um problema dos países mais desenvolvidos. E, ao mesmo tempo, o que vimos nas últimas décadas foi um aumento das desordens do foro mental: ansiedade, depressão, hiperatividade, défice de atenção e até da taxa de suicídio na passagem da adolescência para a idade adulta. Estas transições de ciclo de vida são sempre difíceis, mas a cultura do tudo dado e tudo pronto na hora para as crianças não favorece a sua capacidade de adaptação motora, cognitiva, social e emocional.

Acaba por ser um ciclo vicioso.

Sim. Temos uma superproteção patológica que não cria condições para que as crianças possam ter uma capacidade criativa e de adaptação, que leva os pais a protegerem-nas mais. E isso é o grande problema da sociedade atual em relação às culturas de infância. Só há uma solução: no período escolar e sobretudo nos períodos de férias, proporcionarem-lhes atividades para que essas competências motoras, sociais e emocionais possam ser valorizadas. É dar mais tempo de informalidade e imprevisibilidade e deixar que as crianças possam encontrar o seu caminho. Deixe-me usar este termo: é deixar as crianças fazerem coisas ‘malucas’, deixar os miúdos ter o skate, os patins, a bola, o papagaio, e deixá-los enriquecer o seu vocabulário motor e social à vontade.

Em Portugal há uma percentagem elevada de criança em risco de pobreza e exclusão social, mais de um quarto. Estão particularmente vulneráveis?

Sim, mas às vezes as crianças que vivem em meios empobrecidos têm mais oportunidades de brincar de forma livre do que as que vivem em meios socioeconómicas mais elevados mas estão sujeitos a uma superproteção inaceitável. E aos medos dos pais. Temos de desconstruir os medos dos pais, é algo absolutamente urgente na sociedade portuguesa, as famílias andam cheias de medos e isso leva a que as crianças não tenham autonomia, mobilidade e, por fim, participação.

Como é que os pais devem gerir as tecnologias nesta altura do ano? Mais liberdade também pode significar mais tempo para usar tablets e afins…

Penso que deve haver um decréscimo durante o tempo de férias de tudo o que sejam equipamentos digitais, telemóveis, tablets, televisão. Não diria impor: se dizemos que é um tempo de liberdade, não podemos impor, mas podemos negociar. Vamos negociar com os filhos reduzir o tempo dedicado a estes aparelhos, passar de ter o tempo todo ativo na ponta dos dedos para o tempo ativo nos pés.

Mas há algum limite adequado?

Diria que até aos cinco, seis anos não devem usar mas a partir dos sete já todos os miúdos têm telemóvel. A questão dos limites tem sobretudo a ver com o exemplo dos pais.

Se passarem os tempos livres agarrados aos telemóveis, os miúdos vão copiar.

Sim. É toda a gente perceber que as férias saudáveis incluem menos tempo só agarrado aos equipamentos digitais. Não quer dizer que não se usem: um GPS pode ajudar a criar um desafio na natureza.

Há professores que partilham que, por vezes, há pais que não querem que a escola feche num feriado ou numa ponte, insistem em ter onde deixar as crianças mesmo que até estejam de folga.

Sim, querem ter os filhos ocupados.

Imagina que, continuando assim, vamos chegar a uma altura em que se tornará incontornável reduzir a duração das férias grandes?

Penso que tudo vai depender da evolução da lei laboral. Hoje existe uma assimetria muito grande entre os países do norte da Europa e os do sul em relação à organização do tempo de trabalho e já seria tempo de Portugal alinhar pelas políticas públicas que dão valor à qualidade de tempo familiar, sobretudo às famílias que têm filhos. Não iria por mais tempo de férias, o que é preciso mudar é o tempo que os pais têm disponível para os filhos e isso passa sobretudo por uma flexibilização dos horários de trabalho, poder sair-se às 16h, 16h30. Nos países do norte da Europa os pais saem do trabalho para ir buscar os miúdos à escola com toda a naturalidade. Aqui agora até se está a pensar na escola a tempo inteiro para o 2.º ciclo, o que para mim é um escândalo. Ter crianças dos 10 aos 12 anos na escola todo o dia não faz sentido.

O que diz é que mesmo estando a trabalhar, se os pais saíssem mais cedo podiam dar outro acompanhamento aos filhos no período de férias.

Sim, mesmo que pudesse haver mais ou menos dias de férias, seriam um fardo menor. Tenho a sensação de que hoje em dia as crianças chegam ao fim de férias com uma certa frustração: não fizeram o que estava nas suas expectativas. E era bom que quando chegassem ao novo período escolar em setembro pudessem ir com a sensação de que viveram um período de férias de forma tão intensa que então vale a pena voltar à escola para aprender. Isso não acontece na maior parte dos casos. As férias devem ser uma oportunidade para os pais conhecerem melhor os seus filhos, aprender a controlar o medo, incentivando as brincadeiras mais arriscadas fora de casa, percursos de autonomia fora de casa, não têm de os acompanhar sempre, mas estar presentes. Não estou a dizer coisas extraordinárias, às vezes é simplesmente passear. Há crianças que nunca saíram de casa à noite com os pais para dar uma volta, descobrir a cidade, a aldeia, a vila. Deve ser um tempo também para os pais gostarem mais de serem pais.

Essas experiências de brincadeira e autonomia vão refletir-se mais tarde no desempenho escolar?

E não só. Hoje não há dúvidas sobre isto: quase todos os indivíduos que tiveram sucesso, foram felizes e empreendedores, tiveram infâncias felizes.

Há aquela ideia de que, por vezes, depois das férias até há mais separações: as pessoas não estão habituadas a tanto tempo juntos.

Não tenho dúvidas: há pais e crianças que vêm das férias completamente exaustos e temos de conseguir inverter isto. Mas isso tem a ver com os pais não estarem habituados por um lado mas também não conseguirem perceber que as férias podem ser tempo de liberdade, de autonomia, de descoberta.

E os primeiros excessos? Nas festas da aldeia, por exemplo, começa-se a beber muito cedo, aos 13, 14 anos

É uma outra realidade, mas hoje muitas dessas diferenças que existiam entre a infância no meio rural e no meio urbano estão esbatidas. Hoje os jovens fazem exatamente a mesma coisa e até há estudos que indicam que as crianças de meios rurais têm maior exposição à televisão do que nos meios urbanos.

Os namoros de verão são outro clássico. É outro campo em que os pais não devem coartar demasiado a liberdade dos jovens?

Deve haver com certeza responsabilidade e regras, mas deve haver oportunidade para isso. Costuma-se dizer que a adolescência é a idade esquecida. Hoje temos políticas para a infância, até para os idosos mas não há nada para os adolescentes, que é uma fase central no desenvolvimento. Os adolescentes precisam de experimentar desafios que não são só físicos mas também de natureza emocional. Ninguém esquece os seus amores de verão e os pais também não os devem esquecer e é natural dar mais liberdade aos adolescentes nas ferias. Deve haver algum controlo mas nada de muito sofrido ou patológico: não se pode aprisionar as crianças e os adolescentes em férias, é preciso libertá-los para que possam viver tudo, inclusive o seu corpo.

Os mais cautelosos argumentarão que o mundo mudou nas últimas décadas, que está mais perigoso.

Sim, mas por vezes há uma perceção errada dessa mudança. Portugal é um dos países mais seguros do mundo. Basta ver o turismo que temos, a forma como o país é amado por quem chega cá. Muitas vezes há uma perceção errónea na cultura portuguesa e nas famílias no geral de que somos um país com problemas de segurança quando, pelo contrario, somos um dos países mais seguros.

Não há mais perversidade?

São os tais medos que se instalaram na cabeça dos pais e, seja como for, as crianças e os jovens têm de saber como reagir às situações.

Que conselhos práticos se pode dar às famílias que agora começam a estruturar as férias? Faz sentido planear as semanas para incluir diferentes atividades, fazer um programa do verão em família?

Acho que pode ser interessante, mas com uma condição: com a participação dos filhos. Deixar que os filhos sugiram as atividades que querem fazer, dar-lhes ouvidos. É uma excelente ideia. Era o que se devia fazer mais nas escolas e não se faz, porque os professores impõem quase tudo. Temos de passar de uma cultura de imposição para uma cultura de participação. Mas, essencialmente, é tentar fazer tudo para inverter os indicadores que mais nos preocupam: cada vez há mais obesidade, mais diabetes. Temos de dedicar mais tempo ao exercício físico, comer melhor, guardar tempo para o descanso.

Guarda boas memórias das suas férias grandes?

Sim, ainda hoje. Acabávamos a escola e havia um período em que os pais ainda estavam a trabalhar, por isso passávamos a maior parte tempo na rua.

Em Lisboa?

Cresci em Leiria, uma cidade maravilhosa, com castelo, rio, tudo o que precisávamos. Mal acabava a escola era uma libertação enorme. Depois vinha a altura de ir para a praia, conhecer novos amigos. Andávamos 15 dias a um mês na praia, com dias muito intensos. Nadávamos, jogávamos à bola. Jogar à bola na praia ou mesmo andar é um desafio fabuloso em termos de educação motora, é um desafio em termos de equilíbrio e adaptação e isto para as crianças pequenas é um estímulo muito bom. Isto além do iodo e do próprio contacto com a água do mar, que é revigorante e ao mesmo tempo uma forma de acalmar. Precisamos urgentemente de estratégias para que os corpos acalmem. Mas as minhas memórias são isto: a liberdade que tínhamos, a autonomia e alegria. A melhor recordação que tenho era não gostar que chegasse a noite porque sabíamos que íamos ter de ir dormir. E ter de ir dormir era improdutivo.

Mas adormecia num instante, não?

[Risos] Verdade, quanto mais cansados melhor é para adormecer. Mas a sensação de que ir dormir é uma chatice, uma perda de tempo, significa que tivemos um dia feliz. E é uma sensação que acho que hoje as crianças não têm. Às vezes veem-se famílias em férias que mais parece uma batalha campal. Torna-se cansativo porque já ninguém está adaptado a ninguém e ao mesmo tempo há cada vez mais uma cultura egocêntrica que faz com que os pais já não tenham o hábito de estar com os filhos a tempo pleno. Costuma-se dizer que cada um de nós tem uma criança dentro de si. Não iria tão longe, mas certamente cada um de nós tem memórias da sua infância. Era preciso retomá-las para descobrir a forma como devemos passar as férias com os filhos.

 

 

 

Se pudessem escolher, as crianças iriam a pé para a escola

Janeiro 18, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 9 de janeiro de 2018.

 

“As cidades não estão pensadas para elas”, diz a autora de estudo da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Samuel Silva

O cenário poderia ser diferente se as crianças decidissem, concluiu Andreia Ramos. Foi perguntado aos participantes qual o meio de transporte que utilizariam na deslocação casa-escola-casa se pudessem escolher. Oito em cada dez disseram preferir fazer o percurso por meios não motorizados.

As crianças evidenciaram uma “grande vontade de terem uma determinada autonomia” nas deslocações de que actualmente não dispõem, diz Andreia Ramos, em declarações ao PÚBLICO.

Na resposta ao questionário que foi aplicado aos estudantes, estes explicam ainda que não se sentem seguros nas deslocações sem supervisão de adultos, apontando como principais motivos aspectos relacionados com o espaço físico como o trânsito excessivo ou o reduzido número de passeios e passadeiras. Só depois destes aparecem nas respostas dos alunos questões relacionadas com a segurança pessoal, como o medo de serem assaltados ou de se perderem.

“Prioridade ao peão”

Estes dados permitem a Andreia Ramos concluir que o escasso uso de meios de transporte não motorizados nas deslocações entre casa e escola tem esta explicação: as cidades “não são pensadas para as crianças”.

“As cidades são projectadas pensando no transporte motorizado. Têm poucas preocupações com os acessos pedonais e são muitas vezes demasiado dispersas”, explica a arquitecta paisagista.

No estudo de Andreia Ramos foram inquiridos 191 estudantes do Agrupamento de Escolas de Rio Tinto, no concelho de Gondomar, dos 1.º e 2.º ciclos — ou seja, crianças entre os 6 e os 11 anos. De modo a evitar que o cansaço ou a falta de atenção afectassem as respostas dos participantes, a investigadora aplicou o questionário por meio de jogos didácticos e visitas de estudo.

“Quando andávamos com eles na rua, eles ficavam maravilhados. Tinham liberdade e não estavam acostumados”, conta a arquitecta paisagista, que trabalha agora no Instituto A Criança na Cidade, com sede em Vila Nova de Gaia. “As crianças parecem conceber a rua como o espaço do automóvel, e, por isso, considera-se urgente recentrar a rua nos peões e especificamente nas crianças, para os casos dos percursos casa-escola.”

Andreia Ramos recomenda, assim, uma maior atenção ao conceito de zonas de coexistência, o que pressupõe a partilha dos espaços urbanos por diferentes utilizadores e tipos de meios de transporte, passando a ser dada “prioridade ao peão” e a outros modos de deslocação não motorizados nos percursos casa-escola.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Mobilidade e interação social da criança na cidade

 

 

Fumar na praia ou nos parques infantis com os dias contados?

Março 24, 2017 às 7:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://rr.sapo.pt/ de 24 de março de 2017.

O discurso de Vytenis Andriukaitis  pode ser consultado em baixo:

EUROPEAN CONFERENCE ON TOBACCO OR HEALTH: TOWARDS A TOBACCO-FREE EUROPE – PORTO, PORTUGAL – 23 MARCH 2017

EPA

Bruxelas defende a proibição do consumo de tabaco em todos os espaços públicos, entre os quais praia, parques infantis e equipamentos desportivos. O anúncio foi feito pelo comissário europeu da Saúde e Segurança Alimentar no Porto, onde participou na VII Conferência Tabaco e Saúde, organizada pela Liga Portuguesa contra o Cancro.

A ideia é que a proibição seja implementada em todos os Estados-membros.

O comissário defendeu ainda, na quinta-feira, a definição de uma idade mínima para se fumar e aumentar a consciencialização nas escolas.

Vytenis Andriukaitis pretende que, com estas medidas, possa ser reduzido o número de mortes devido ao consumo do tabaco. Fumar mata seis milhões de pessoas, por ano, em todo o mundo. Em Portugal, 30 pessoas morrem por dia, vítimas de doenças relacionadas com o tabaco.

O governante europeu alertou também ser necessário seguir com atenção o mercado dos cigarros electrónicos, vistos como uma alternativa para deixar de fumar, afirmando que estes “não se podem tornar numa porta de entrada para novos fumadores”.

“Se os cigarros electrónicos são considerados como uma ferramenta que permite deixar de fumar, então devem ser autorizados como produtos farmacêuticos e vendidos em farmácias”, sublinhou.

Para o responsável, “o tabaco deve parecer e saber a tabaco, não deve parecer um perfume ou um bâton”, sendo que “tudo isto torna [o tabaco] atraente para as crianças começarem a fumar”.

Vantagens de uma embalagem limpa

Vytenis Andriukaitis referiu que “as evidências mostram que as pessoas têm menos probabilidade de fumar” se os maços exibirem mensagens e imagens que alertam para os riscos do tabaco, bem como se não tiverem marcas, logotipos e design de marketing”.

“Este é o motivo pelo qual cinco Estados-membros decidiram tornar obrigatória a embalagem ‘limpa’ nos respectivos países, e é um excelente exemplo para o resto da Europa”, disse.

Para o comissário europeu, ainda há um longo caminho a percorrer no combate ao tabagismo e é necessário que os estados-membros “juntem forças e trabalhem em conjunto” para tornar a Europa numa zona livre de tabaco.

Perante as “consequências devastadoras” do acto de fumar, quer de saúde quer económicas, o comissário desejou ainda que a legislação comunitária ajude os adolescentes “a fazerem a escolha certa de dizer não ao primeiro cigarro”.

Esta conferência é organizada pela Liga Portuguesa Contra o Cancro, em parceria com a associação europeia das ligas contra o cancro, com o Alto Patrocínio da Presidência da República.

No evento, cuja sessão de abertura contou com a rainha de Espanha, estarão presentes até sábado médicos e peritos de Portugal, Espanha e outros países europeus, bem como delegados de toda a União Europeia.

 

 

 

Uma entrevista para pais, dirigentes e treinadores. “Os atletas brincaram muito na rua e foram felizes, não se fabricaram em laboratório”

Março 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Carlos Neto ao http://tribunaexpresso.pt/ de 1 de março de 2017.

marcos-borga

Carlos Neto é professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana e não há ninguém melhor para explicar como a formação desportiva em crianças e jovens deve ser feita. É que a atual, em Portugal, não está adequada às necessidades dos mais novos, explica à Tribuna Expresso, ressalvando também que é urgente formar… os pais

Mariana Cabral

[começa a falar antes da pergunta] Bem, gostava de começar por dizer que, em pleno século XXI, o fenómeno desportivo é um fenómeno social de grande envergadura em termos mundiais, o que significa que nunca o desporto teve tanto impacto na sociedade como nos dias de hoje. Quer de um ponto de vista económico, porque é de facto uma economia gigantesca, como social, porque motiva todas as idades e credos, e ultrapassa fronteiras em todos os espaços geográficos e culturas diferenciadas. De facto tornou-se um fenómeno nunca visto na vida do homem. Significa que tem impacto ao longo da idade, desde as crianças até aos idosos, quer quanto a praticantes, quer quanto a espetadores, quer quanto aos que são agentes relacionados com o desporto, sejam treinadores, dirigentes ou formadores. É um fenómeno de facto fantástico. Hoje em dia temos imensas crianças e jovens a fazer atividade desportiva organizada e estruturada, o que significa que há uma expectativa muito forte destas crianças poderem atingir sucesso.

Tem tudo a ver com o mediatismo do desporto?

Também. É evidente que nas últimas décadas os orgãos de comunicação social são responsáveis por tornar o fenómeno desportivo altamente mediático e altamente participativo em todo o mundo e em todas as culturas. O que significa que de um ponto vista sociológico, de um ponto de vista cultural, de um ponto de vista político, a prática desportiva em crianças e jovens e adultos tornou-se de facto viral. É algo que faz parte da vida, não só em termos de objetivos de saúde, em termos de objetivos pedagógicos, mas também do ponto de vista que é o treino de alto rendimento, o espectáculo desportivo, com todos os seus ingredientes de natureza emocional, de natureza psicológica, de natureza económica, de natureza antropológica. Diria que a prática desportiva faz parte do quotidiano dos portugueses e praticamente de todas as sociedades. O que é interessante aqui analisar é a questão de como a formação desportiva em crianças e jovens deve ser feita.

Pelos clubes ou pelos pais?

Necessariamente a questão da família, a questão do clube, do local onde pratica, que também pode ser na escola. Os pais têm um papel absolutamente fundamental na capacidade de guiar os seus próprios filhos nessa prática desportiva. Nos últimos anos têm vindo a ser feitos alguns estudos no sentido de demonstrar como o comportamento parental é uma variável muito importante neste processo. É claro que podemos discutir esta questão do ponto de vista das perceções que os adultos têm do que deve ser a vida dos filhos. Normalmente os pais têm uma tendência quase patológica de querer colocar nos filhos as frustrações do seu próprio processo de desenvolvimento desportivo e querem que os filhos sejam campeões a qualquer preço, e muitas vezes esquecem-se que eles são seres humanos em crescimento, que necessitam de aprender coisas fundamentais da vida, que necessitam de um acompanhamento escolar como deve ser… E tudo isso está integrado. Significa que há aqui perceções, crenças, valores e imaginários que é preciso compreender, quer do ponto de vista das crianças e jovens, quer do ponto de vista dos pais, quer do ponto de vista dos treinadores. Esta trilogia pais-treinadores-crianças… é absolutamente importante falar nisto hoje em dia. Há um assunto que considero da maior importância, que é, como é que se dá valorização à formação desportiva dos jovens do ponto de vista de criação de valores, de cidadania.

É preciso mais desportivismo e menos competitividade?

O desporto é uma atividade absolutamente fascinante para tornar as pessoas mais cidadãs, com mais humanismo, com mais socialização e com mais capacidade crítica e mais capacidade de perceber o mundo que as envolve. Portanto há aqui constragimentos sociais e políticos que muitas vezes são centrados numa preocupação excessiva de querer uma competitividade fora das características de desenvolvimento da criança e do jovem e por outro lado um sucesso muito rápido e a qualquer preço. Os campeões não se fazem à pressa. Tem que ser respeito o seu processo de desenvolvimento e têm que ser respeitadas as motivações intrínsecas das crianças. E há aqui algumas regras que são absolutamente fundamentais: é preciso ter tempo para crescer. Ainda recentemente, a Telma Monteiro, uma grande atleta olímpica portuguesa, dizia, porque começou a atividade desportiva de judo muito tarde, “deixem as crianças brincar”, e depois então fazer a atividade desportiva. E, de facto, é preciso que as crianças primeiro tenham uma vivência variada do seu próprio corpo, que tenham uma exploração diversa de vários tipos de atividades, que possam construir uma cultura motora básica e fundamental, que seja essencial depois para uma capacidade adaptativa a habilidades e atividades mais específicas mais tarde. Claro que isto varia muito de modalidade para modalidade desportiva, não podemos comparar a aprendizagem na ginástica aos jogos coletivos, são duas dinâmicas distintas. Mas é preciso que as crianças construam primeiro a sua própria identidade, brinquem muito na infância, consigam correr riscos, consigam fazer uma diversidade de atividades, de modo a ganharem essa cultura motora básica, que é o pré requisito para terem sucesso mais tarde, do ponto de vista de atletas.

Puxando o exemplo do futebol, atualmente fala-se muito da necessidade do futebol de rua no desenvolvimento de talentos, mas hoje em dia já não temos futebol na rua, praticamente. Como é que pomos uma criança na rua, a brincar, a subir às árvores?

Vivemos num tempo de grande sedentarismo e as crianças sofrem por isso. É um tempo de analfabetismo motor, porque elas não têm de facto uma literacia corporal adequada, porque o tempo de brincar na rua desapareceu, está em vias de extinção. As crianças hoje não têm tempo para brincar, explorar com os amigos a rua, não jogam à bola – porque uma coisa é jogar futebol, outra coisa é jogar à bola. É preciso dizer que há declínio enorme nas últimas décadas do ponto de vista de tempo e espaço para brincar. Para ter uma ideia, 70% das crianças em Portugal brincam menos de uma hora por dia. As crianças hoje têm menos tempo para brincar do que os prisioneiros nas prisões, que têm mais tempo de ócio fora das celas. Tempo, na infância, passou a ser um treino muito organizado, muito estruturado, muito limitado. Temos currículos escolares muito extensos e intensos, e a criança passa muito tempo sentada e quieta, sem mexer o corpo. É uma criança sedentária por princípio, devido ao facto de se terem criado agendas muito organizadas.

Mas a educação física na escola não tem sido permanentemente desvalorizada? Sim, de facto tem sido completamente desvalorizada. Mas penso que há, no entanto, boas notícias, deste ministério atual e deste governo atual, porque vai ser implementada a educação física no 1º ciclo com um professor coadjuvante que ajuda o professor titular e isso é uma boa medida. Está a ser feita neste momento uma reflexão sobre os objetivos da educação em Portugal e há 30 dias para discussão pública. É uma boa oportunidade. Também foi feita uma revisão das recomendações para o ensino pré-escolar que considero absolutamente fundamental: a motricidade, o movimento, o jogo, são coisas fundamentais nessas idades porque é aí que tudo começa, isto é, a atividade física começa mais cedo do que as pessoas julgam. Não se fazem campeões a partir dos 12, 13, 14 anos. Começa antes, mas é preciso perceber qual é a conceção que se deve trabalhar nas primeiras idades.

Não se deve trabalhar em especificidade, portanto. Primeiro deve haver uma diversidade de atividades, numa atitude lúdica, e mais tarde é que vem a especialização. Porque, repare, a criança tem direitos no desporto. A criança tem direito de expressar, em primeiro lugar, a sua individualidade. Isto é, o pai não pode impor. Quem decide? Esta é a pergunta. Os pais ou as crianças? O pai não pode impor a modalidade desportiva que o filho deve praticar, em função de alguma frustração ancestral. Não pode ser feito dessa forma. Depois as crianças devem ser tratadas como crianças e não como atletas. Deve ser respeitado o seu processo de desenvolvimento. Também devem participar de forma independente, isto é, quando fazem desporto deve ser respeitado o seu nível de habilidade e, obviamente, devem competir com os seus opositores mas em função de valores, daquilo a que se chama o fair play. Tem de haver fair play na formação desportiva, para não acontecer depois aquelas coisas desgraçadas e lamentáveis que acontecem no desporto dos adultos, ao mais alto nível. A criança deve poder decidir quais são as atividades que quer fazer. Conheço imensos jovens que começaram a fazer ginástica, depois foram para o atletismo, depois natação, depois ténis… e se calhar acabaram por ser grandes atletas no futebol, por exemplo.

Quem é muito bom numa modalidade normalmente também tem aptidão para outras modalidades. Exatamente. Há uma cultura motora eclética, uma cultura de rua intensa e uma apropriação de habilidades muito diversificada. Os atletas de alto nível brincaram muito na rua e foram felizes, não se fabricaram em laboratório. Há aqui muitas variáveis em jogo que têm a ver com o local onde vivem, onde crescem, a identidade do lugar… Os estudos biográficos demonstram que o sucesso desportivo ao mais alto nível está diretamente ligado à qualidade de vida que tiveram na infância e à estimulação diversificada que tiveram do ponto de vista motor e do ponto de vista social. Isso é perfeitamente claro. Há crianças que são talentosas e em termos dos clubes não se pode impor desde muito cedo uma prática muito especializada sem explorar primeiro as tendências que essa criança pode apresentar. E isto não é só no desporto, também é nas áreas artísticas.

Mas, às vezes, quando os treinos são mais lúdicos dão a sensação de desorganização e há pais que depois reclamam. Preferem ver filas e obediência.

Uma das maiores prioridades que deve haver é discutir este tema, que recentemente foi promovido pela Panathlon clube, em conjunto com o Comité Olímpico: o papel dos pais no desporto. De facto, é preciso fazer formação parental. É urgente que os clubes façam escolas de formação de pais. Os pais têm de perceber que os seus filhos não podem ter um sucesso a qualquer preço. Têm de respeitar os níveis de envolvimento, têm de respeitar os treinadores e as perspetivas de aprendizagem que eles têm. Os pais têm de compreender bem primeiro que tem de haver uma educação motora básica, um saber inicial fundamental no qual se suporta uma especialização, mais tarde. É um processo progressivo que tem de respeitar várias fases de desenvolvimento. A especialização desportiva deve obedecer a níveis de desenvolvimento e de aprendizagem, a etapas de ensino no processo desportivo. Por isso, as crianças devem ter uma aprendizagem muito lúdica numa primeira fase e depois então quando consolidam essas habilidades motoras específicas é que podem treinar num sentido mais exaustivo. Aliás, há um estudo que foi recentemente publicado pela academia americana de pediatria, em que é demontrado efetivamente que os benefícios de uma criança praticar desporto são enormes, quer do ponto de vista da capacidade de liderança, do prazer que têm em fazer desporto, da autoestima, da autoconfiança, da autoregulação, do sentido de equipa, da capacidade de aprendizagem de capacidades motoras mais complexas e da socialização em pares, que é uma questão fundamental nos tempos de hoje, as crianças têm de ter amigos. Mas também é verdade que se sabe que cerca de 70% destas crianças não chegam ao mais alto nível. Quer dizer que há aqui um fenómeno no meio que é preciso que os pais tenham consciência e a sociedade em geral tenha consciência, é que dos milhares de crianças que fazem prática desportiva organizada durante anos nem todos têm sucesso, nem todos podem chegar ao topo. Quer dizer que pelo caminho perdem-se imensos e esse é um fenómeno que devia ser mais estudado em Portugal e que não está efetivamente bem consciencializado, quer por treinadores, quer por pais, quer por dirigentes, quer por políticos, que é o abandono desportivo. Há muito abandono desportivo em Portugal, provocado por métodos de treino que não estão adequados, que desmotivam as crianças, e por pressões que muitas vezes existem de pais e treinadores para que as crianças tenham sucesso, e não têm.

Neste caso o sucesso entendido apenas e só como a vitória, correto?

Exatamente. Por outro lado, também se sabe que só 30% dos desportistas, uma percentagem muito baixa em Portugal, conseguem continuar os seus estudos nas escolas. O que significa que tem de haver aqui uma preocupação de haver coerência entre o processo desportivo e a escola, porque é fundamental que o cidadão tenha uma formação mínima. E muitas vezes sacrifica-se a formação escolar pela formação desportiva. Isto tem de ser bem pensado em Portugal. As crianças não podem ser vítimas de uma expetativa social e familiar de querer o sucesso a qualquer preço, fazendo disto um negócio em que todos tenham de ser Cristianos ou Messis.

Os piores pais são esses, que querem que os filhos, ainda crianças, sejam jogadores à força toda?

Exato. Como já disse, é preciso fazer a formação dos pais e a primeira mensagem que temos de transmitir é que é importante que a criança tenha uma formação escolar, que o sucesso desportivo não pode ser a qualquer preço, que tem de haver uma variedade de atividades físicas e desportivas numa primeira fase antes da especialização… É preciso que eles compreendam isso. Se você for ver aí, não só no futebol, mas noutras modalidades, quando os pais estão a observar treinos é inaceitável o que se passa, diria mesmo que é uma vergonha. É um atentado à dignidade social e cívica das crianças. Os nomes que os pais chamam, as ofensas que fazem aos treinadores, aos árbitros, aos próprios filhos… Isto não é aceitável em lado nenhum. Quer dizer que tem de haver uma dignificação no que é a formação desportiva, porque não se pode confundir o que é o desporto de alto nível com o que é o desporto de formação. E infelizmente em Portugal tem-se discutido muito pouco, tirando as universidades, que fazem investigação, o que é a formação desportiva de jovens. E não é só no futebol, é em todas as modalidades. Hoje em dia, em todo o mundo, estão em debate duas questões essenciais na formação desportiva: a seleção de talentos e a questão da especialização. Quanto à seleção de talentos, isso já está muito discutido e sabemos que é um fenómeno multifatorial, mas quanto à especialização tem de se saber de uma forma clara, de um ponto de vista cientifíco, que é necessária uma formação motora global, primeiro, e só depois a formação específica. Diria que há quatro fases na formação desportiva: a estimulação motora, que é brincar e adquirir um repertório motor genérico; uma fase em que se associam vários tipos de habilidades e a criança começa a ter uma capacidade de organizar tarefas motoras mais complexas; depois então uma escolha de atividades desportivas até chegar à fase de transição para uma especialização motora, que implica muito trabalho, persistência e resiliência. É preciso muitas horas de prática. Repare, para se ter sucesso desportivo não basta fazer meditação, não é?

É preciso treinar.

É preciso trabalho, muitas horas de prática. E essas horas de prática roubam muito tempo a outras coisas fundamentais na vida. Há muitos atletas que perderam a sua infância e a sua adolescência, e é preciso medir bem isto na balança do que se quer na vida. Os atletas que conseguem sucesso são verdadeiros heróis, porque muitas vezes investiram toda a sua infância e adolescência num objetivo, que é ganhar uma medalha. Mas há estudos muito críticos sobre isso. Uma medalha não vale a vida de uma criança, não é? Mas, enfim, o que interessa aqui é focar esta triangulação pais-jovem-escola. A política desportiva de formação tem de ter em atenção que as crianças e jovens têm direito ao seu desenvolvimento normal, como qualquer cidadão praticante de desporto, e que há que haver um balanço entre a prática desportiva e o tempo escolar.

Há tempo para tudo?

Em Portugal há muitas famílias que vivem um verdadeiro inferno a gerir a vida dos filhos entre o tempo escolar e o tempo de prática desportiva nos clubes, e é preciso suavizar isto. Diria, por exemplo, que é preciso não atirar as culpas todas para cima dos pais, porque de facto a forma como em Portugal se gere o tempo de vida é algo que é inconsistente do ponto de vista dos modelos de qualidade de vida das famílias que existem na comunidade europeia. Porque nós temos pais cansados, que trabalham demasiadas horas e que têm pouco tempo para os filhos. Há uma falta de harmonização entre o tempo de trabalho, o tempo passado na escola e o tempo passado na família, para além do tempo passado no clube. No meu prédio vejo crianças a chegarem a casa às onze da noite, vestidas a rigor dos treinos, e os pais completamente exaustos, e se calhar ainda vão fazer os trabalhos de casa e no outro dia às 7h da manhã já estão a sair de casa. Portanto isto atingiu uma dimensão patológica. É preciso suavizar isto e fazer uma prática desportiva humanista, com uma perspetiva de poder respeitar os direitos da criança no desporto mas também o direito à vida, ao prazer, a ter sucesso escolar. Veja-se o que acontece nas camadas jovens, nos infantis, nos iniciados, nos benjamins, com aquelas classificações todas que existem, em que as crianças já fazem uma competição como se fossem adultos. Acho inaceitável ver crianças a aprenderem a ser guarda-redes com quatro anos de idade, por exemplo. Isto é um disparate conceptual. Os modelos que existem de formação desportiva nos clubes têm de ser repensados. Têm de haver formação especializada para os dirigentes, para os pais, mas também para os treinadores, porque tem de ser perceber o que é uma criança e um jovem em desenvolvimento. Nós precisamos, com as federações, com as associações, com as próprias instituições do Estado – estou a falar do Instituto do Desporto…

Os cursos de treinador em Portugal foram remodelados há pouco tempo.

Sim, já houve coisas interessantes que foram feitas, mas ainda falta fazer muitas coisas. Porque depois temos no desporto um ciclo de influências muito complexo que vai desde a perspetiva dos media até à perspetiva do país em relação ao número de medalhas, ao número de atletas, ao sucesso. Mas nós não podemos ter medalhas fruto do acaso, como tem sido até aqui. Isto tem de ser visto como um sistema que tem de ser bem pensado, sob um ponto de vista de formação de base, de formação intermédia e de formação especializada. E depois há os pais que, como já disse, têm de ter formação.

Um “mau” pai será aquele que pergunta ao filho “ganhaste?” e um “bom” será o que pergunta “gostaste do jogo?”

Sim. Nós temos normalmente quatro tipos de comportamento parental. Temos os pais desinteressados, que têm algumas vantagens – eu sou desse tempo, o meu pai não sabia bem qual era a minha vida desportiva na escola e no clube -, depois temos os pais mal formados, que têm uma visão errónea do desporto e às vezes comportam-se de forma inaceitável de um ponto de vista verbal, não verbal, de pressão sobre as crianças, os treinadores e os árbitros. Depois temos os pais excitados, que se colocam excessivamente na vivência do desporto dos próprios filhos. E depois temos os pais fanáticos, aqueles que querem o sucesso a qualquer preço. Temos vários comportamentos. Há pais que são excessivamente críticos, muito exaltados, aquilo que chamamos de treinadores de bancada. Outros são super protetores e hoje o maior drama da sociedade é a super proteção. Esta super proteção não dá autonomia às crianças e aos jovens. São muito controlados. Isto acontece na escola e no clube. Nós temos hoje muitas crianças que até têm alguma aptidão motora mas depois são demasiadamente frágeis do ponto de vista emocional e cognitivo, porque são super protegidas. Os pais levam-nas aos treinos, vão lá buscá-las, observam tudo o que se passa, perguntam tudo o que acontece… A criança é uma vítima, de algum modo, e não tem autonomia. Para se ter sucesso desportivo é preciso ter-se autonomia, capacidade crítica, capacidade criativa e inovadora. Para se ser campeão tem de se ser também, de algum modo, caótico. Quero crianças e jovens ativos, impertinentes, que façam perguntas, que tenham motivação, que tenham objetivos. Quero crianças selvagens no desporto, porque são essas crianças selvagens que vão ser os verdadeiros campeões do futuro. Não podem ser totós. Nós hoje temos crianças que são rejeitadas pelo próprio sistema desportivo, porque não têm jeito, porque são gordinhas, etc. E isso é muito mau, porque é o reflexo de uma contradição que está a acontecer no desporto e na escola em Portugal, que é por um lado haver uma super proteção dos pais e ao mesmo tempo quererem que eles sejam génios. Esta super proteção é uma das maiores pragas que temos hoje na formação de crianças e jovens no mundo escolar e desportivo.

Quando os pais não os podem levar de carro, há jovens que dizem que não podem ir ao treino.

Que vão a pé. Neste momento o sucesso comanda o processo – e não pode ser. Tem de se respeitar outras coisas, como já disse. Uma formação correta e bem fundamentada do ponto de vista pedagógico, científico e técnico, daí ter de haver formação de treinadores, havendo também formação sistemática nas federações, associações e clubes, com estratégias bem delineadas do que deve ser o perfil de formação em todos os escalões e em todas as fases de desenvolvimento da criança. Ter muito atenção ao abandono desportivo, estudar as razões do abandono, se as crianças quiserem desistir têm esse direito, mas não se podem expulsar a qualquer preço as crianças que não têm jeito. A questão que se coloca da dispensa deixa algumas crianças traumatizadas para toda a vida pelo facto de terem criado uma expectativa que depois não se realiza e ninguém se preocupa com isso, só se preocupam em formar os talentos. Então e aqueles que desistem? É preciso repartir o tempo passado no clube e o tempo passado na família, porque as crianças têm direito a estar com os pais e a ter tempo livre. Em Portugal não houve coragem política até agora de fazer esta harmonização do tempo. Porque se você for a qualquer país nórdico vê que às 16h30 sai toda a gente e vão todos buscar os filhos à escola, todos têm tempo. Aqui, um indivíduo que trabalhe mais do que 12 horas se calhar é considerado um indivíduo altamente competente – e é tudo ao contrário. Não estão a ser respeitados os tempos de sono e de lazer, e está a sacrificar o tempo em benefício do trabalho. E quem paga isto são as crianças e os jovens, porque os pais não têm tempo para eles e eles não têm tempo para brincar. Nós fizemos aqui um estudo recente na FMH sobre a formação desportiva e o bullying, a violentação que acontece entre pares no clube. É uma amostra gigantesca de todas as partes do país, do sexo masculino, em várias modalidades, e verificámos que no contexto desportivo há de facto bullying e isso é muito preocupante. Isto acontece principalmente no balneário, onde não está ninguém e aí os treinadores e pais não têm acesso. Encontrámos 11,5% de agressores e 10% de vítimas, o que é elevadíssimo. E essas crianças dificilmente comunicam o bullying aos adultos. Estas crianças que sofrem bullying no clube mais cedo ou mais tarde abandonam. Fizemos também uma retrospetiva com atletas de alto nível para identificarem situações de bullying no seu processo desportivo. Temos neste momento um projeto com o IPDJ que é o cartão vermelho ao bullying e estamos a criar um projeto dirigido à formação desportiva com linhas condutoras para os treinadores, pais e dirigentes.

Se os clubes identificarem que a criança não está a ter sucesso escolar devem falar com os pais e castigá-la no âmbito desportivo?

Não tem de haver castigos. Acho que tem de haver coerência e diálogo entre os treinadores e os pais, na regulação e no acompanhamento que as crianças devem ter no ponto de vista do treino e no ponto de vista da escola. Não estou a falar das academias onde as crianças já ficam a dormir, com uma grande estrutura que dá apoio. Estou a falar de uma forma mais genérica. Os estudos internacionais mais recentes têm vindo a demonstrar que a tendência é desvalorizar a escola a favor do sucesso desportivo. E nós temos de resolver este assunto, porque a criança tem direito de ser um cidadão bem formado e não se pode dimunuir a a importância da sua formação escolar. Tal como comecei a dizer-lhe no início, o desporto é um fenómeno de grande envergadura atualmente, mas tem depois aspetos muito negativos.

Como por exemplo?

Não lhe posso contar casos concretos que conheço, mas há pais que sacrificaram toda a sua vida para que os filhos tivessem êxito. Mudaram de residência, mudaram de país, endividaram a sua própria vida e depois acabou tudo mal. Há também a situação absolutamente chocante de africanos que vêm para a Europa para fazer desporto de alto nível e que ficam abandonados nas ruas, esquecidos, porque não tiveram êxito. É uma verdadeira vergonha europeia. Até com crianças de sete, oito, nove anos já se fazem contratos porque se pensa que vão ser grandes talentos. E isso acontece um pouco por todo o mundo. O fenómeno tem um lado sagrado, mas também tem um lado perverso. Por exemplo, qual é o nível de participação das crianças na sua formação desportiva? É tudo imposto. Tal e qual como nas escolas, onde têm de estar sentadas, quietas e a ouvir professores cansados, velhos e chatos. O que é que elas gostariam de fazer no treino? Algumas vez os treinadores ouvem as crianças? Os pais ouvem os próprios filhos? A formação de crianças e jovens em Portugal é de uma visão autocrática e isto é mau, porque as crianças do século XXI mereciam outro respeito e um processo mais democrático. Haveria mais participação, um melhor ambiente, mais entreajuda… como acontece nos países que já o fazem de forma mais adequada, como o Canadá e alguns países nórdicos. As crianças não são atletas em miniatura. Eu posso fazer um campeão à martelada. Se repetir exaustivamente, eu chego lá. Só que ele não vai ser criativo, não se vai adaptar, vai morrer cedo. Se eu fizer um atleta inteligente, dinâmico, com capacidade adaptativa, esse é que vai ser um bom atleta, e quero na formação um modelo que forme estes atletas. O Cristiano Ronaldo é um caso exemplar. Vem de uma família pobre, vivenciou muito a sua infância na rua, foi para um clube, teve a sorte de ter uma boa condução no desporto, tem uma boa capacidade pessoal de trabalho parar ter sucesso. Não há milagres no desporto, é preciso muito trabalho. E para uma criança ter muita resiliência é preciso ter uma grande capacidade de autoregulação emocional, autoconfiança e autoestima. Hoje há muitos fatores a jogar contra as crianças, como já dissemos. Elas não têm tempo para ser selvagens. Para se ser um atleta de alto nível tem de se ser selvagem no decorrer da infância e da adolescência. Isto é um bocadinho agressivo, sei que é perigoso o que estou a dizer, mas eu não quero crianças totós no desporto. Quero crianças com uma grande vivência física e emocional, que sejam impertinentes e resolvam problemas. Crianças com energia. Não quero crianças obedientes. É como os meus alunos. Em 40 anos de aulas aprendi isso. Aquela criança que está quieta e em silêncio, à espera que eu a comande… isso não tem sentido. E no desporto começa a passar-se isso.

Mas é muito isso que se valoriza hoje em dia, a obediência e a quietude.

Está a acontecer uma espécie de fabricação de campeões em laboratório, o que é uma ilusão. Tem de haver um trabalho correto ao nível do clube, da escola, do desporto escolar, da educação física… Porque o trabalho no clube e no desporto escolar é para os que têm mais jeito, mas a educação física é para todos. Mas em todos estes casos há que respeitar as tais etapas de desenvolvimento das crianças e dar-lhes autonomia e liberdade de participação. Creio que o desporto em Portugal tem de ser repensado nesta perspetiva, tal e qual como a escola tem de ser repensada e até os clubes – ou seja, todos os locais onde se pratique desporto organizado e intencional. Não é só a escola que precisa de reforma, é necessária também uma reforma na formação desportiva em Portugal. Digo isto com toda a convicção. Dou aulas aqui na universidade e vejo como é que os meus alunos vêm dos clubes. Na formação desportiva o objetivo não é focarmo-nos no produto, marca, resultado, medalha. Temos de nos centrar na qualidade do processo de treino e de formação. Se não o que acontece é que as crianças sofrem e desistem, porque temos um modelo centrado na cabeça dos adultos, centrado em atingir o sucesso a qualquer preço. Mas, como disse, não se fazem campeões à pressa. Qual é a criança que não gosta de brincar? Qual é a criança que não gosta de explorar a sua envolvente? Qual é a criança que não gosta de ter amigos? Qual é a criança que não gosta de ter autonomia? Qual é a criança que não gosta de sair de lá feliz? Qual é a criança que não gosta de correr riscos? É que às vezes nos clubes está tudo sistematizado, tudo organizadinho, e não há nenhum risco a correr. Assim não se faz formação. Como é que vamos resolver isto? Tem de haver uma grande intervenção por parte da tutela, com políticas desportivas bem sistematizadas, no sentido de produzir documentos e informação. Temos de repensar a formação desportiva em Portugal e eu sei que o que estou a dizer vai ser muito criticado e vou levar muita pancada, mas eu digo: a formação desportiva em Portugal precisa de ser remodelada. Ainda ninguém em Portugal pensou como se faz a formação de pais. Os clubes devem ter regulamentos em relação aos comportamentos dos atletas mas também em relação aos pais. Há clubes no estrangeiro em que se os pais têm um comportamento inapropriado, a criança é expulsa do clube. Tal e qual como precisamos de uma reforma do sistema educativo para uma visão mais humanista, nós precisamos de uma revisão do sistema de formação desportiva numa perspetiva mais respeitadora dos direitos das crianças e dos jovens. Esta agora foi bem dita, não foi? [risos]

 

 

 

Como era ser criança no século passado. E se brincava na rua e na lama

Março 7, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 6 de março de 2017.

… enquanto outras testam as leis da gravidade numas escadas numa corridas de caixotes.

Marta Ferreira Leite

Não havia consolas a prender miúdos em casa, ninguém tinha medo da lama nem de partir um braço nos baloiços sem proteção. Do pião aos carrinhos de rolamentos, assim era brincar na rua há umas décadas.

Não havia computadores, consolas ou telemóveis que prendessem os miúdos ao ecrã na sala. Nem mesmo a rádio ou, mais recentemente, a televisão tinham o poder de combater um bom jogo de futebol com duas pedras a fazer de baliza e uma bola de trapos. Brincava-se no meio da lama sem medo de rasgar as calças nos joelhos (para quem não andava de calções e descalço), testava-se o limite da elasticidade com acrobacias no parque e as invenções mais engenhosas nos carrinhos de rolamentos. No século passado, ser criança era brincar na rua sem grandes receios do que acontecia lá fora.

A imaginação era a líder de todas as brincadeiras. Com os grupos de amigos da vizinhança, no intervalo na escola ou com os cães como melhores amigos, estivesse o calor mais abrasador ou a chuva miudinha, a diversão só acabava quando o Sol começava a por-se e as mães iam à janela chamar para jantar. E os miúdos chegavam a casa com a roupa numa desgraça e a cara cheia de terra como testemunhos de um dia bem passado na rua.

O Observador encontrou imagens de como era a infância, em Portugal e no estrangeiro, durante o século passado. Nenhuma tem data nem localização, mas permite fazer uma viagem para o recordar aquelas corridas em carrinhos de rolamentos, dos jogos de berlindes e dos baloiços improvisados. Veja 31 imagens desse tempo na fotogaleria.

fotogaleria:

http://observador.pt/2017/03/06/como-era-ser-crianca-no-seculo-passado-e-se-brincava-na-rua-e-na-lama/

 

 

 

Voltar a brincar na rua

Novembro 14, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.educare.pt/ de 10 de outubro de 2016.

snews

Associação de Leiria lança projeto para que os mais novos brinquem nas ruas e jardins da cidade. São criados grupos comunitários e os adultos são embaixadores do brincar.

Sara R. Oliveira

“Queremos os mais novos a brincar livremente no espaço público, encontrando os amigos de sempre ou fazendo novos amigos, explorando a criatividade e com interferência mínima dos adultos.” Francisco Louro, presidente da associação Ludotempo, de Leiria, explica, em declarações à Lusa, a base do projeto “Brincar na Rua” que pretende recuar aos tempos das brincadeiras ao ar livre. A ideia é que as crianças brinquem nas ruas e jardins, que tenham essa experiência, mas de uma forma adequada aos tempos modernos e com toda a segurança.

O modelo está definido, a iniciativa destina-se a crianças entre os 5 e os 12 anos, e o projeto-piloto será testado num bairro na cidade de Leiria em outubro. Há vontade de replicar o projeto em outras cidades. São criados grupos de brincar comunitários, cada um não deverá ultrapassar as 15 inscrições. Cada grupo será monitorizado por dois adultos formados e certificados pela associação sem fins lucrativos de Leiria. E esses adultos monitores serão os embaixadores do brincar, responsáveis por garantir a segurança dos mais novos, por dinamizar a comunidade. Têm outras tarefas no processo, podem, por exemplo, ativar brincadeiras, mas logo que o façam retiram-se do palco das brincadeiras.

Crescer e aprender a brincar é também um dos motores do projeto. A associação sabe que os mais novos passam muito tempo fechados em casa à volta dos aparelhos tecnológicos e, além disso, auscultou a comunidade local. As conclusões são claras: 85,7% dos pais querem dar prioridade às atividades ao ar livre, 69,8% das crianças gostariam de brincar na rua, 58,9% dos pais querem espaços infantis onde os filhos possam brincar em segurança. Indicações importantes e que dão força à iniciativa.

“O grande bastião do projeto é a segurança das crianças”, refere, à Lusa, o responsável pela Ludotempo. E isso é assegurado por um sistema de geolocalização. “Este sistema permite definir um perímetro de segurança e se por alguma razão extraordinária, a criança se afastar, o sistema emite um alerta imediato e os monitores sabem que a criança saiu do perímetro de segurança e conseguem localizá-la”, explica Francisco Louro.

“Brincar na Rua” é um projeto de inovação social e foi reconhecido como uma das dez melhores iniciativas nacionais de 2016 pela Fundação Calouste Gulbenkian. Está nas mãos da Ludotempo e conta com as parcerias da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria, da câmara local, da União de Freguesias de Leiria e do Instituto Português do Desporto e Juventude.

http://www.ludotempo.pt/

Brincar na rua. Os miúdos querem, os pais têm medo

Novembro 8, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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reportagem do Notícias Magazine de 9 de outubro de 2016.

pedro-correia

descarregar a reportagem no link:

https://ciecum.wordpress.com/2016/10/18/brincar-na-rua-os-miudos-querem-os-pais-tem-medo/

O Bernardo já é hipertenso

Outubro 18, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto publico no http://p3.publico.pt/ de 3 de outubro de 2016.

jenn-richardson

Hoje, as crianças já não podem sair à rua e estão entre as mais sedentárias da Europa. Porquê? Porque é perigoso, porque em cada adulto, um pedófilo, e hoje já não se pode confiar em ninguém, nem nos amigos, nem nos vizinhos

Texto de João André Costa

Eu, quando era catraio e frequentava a preparatória, era na “aldeia dos macacos”, espaço de recreio recheado a pinheiros, caruma, areia e baloiços, que encontrava toda a brincadeira, todas as aventuras no topo das árvores, os joelhos esfolados na areia mais as calças rasgadas de todos os dias, sem que por isso viessem aí as nossas mães de mãos ao ar e credo na boca porque no dito recreio não morava uma caixa de primeiros socorros, um adulto sempre de plantão que nos dissesse o que era permitido, ou não, fazer, e como, um seguro contra todos e uma resma de papel em folha de 25 linhas com todas as medidas a tomar em caso de acidente.

E, se calhar, por não termos a tal resma é que o Francisco partiu a cabeça no 6.º ano quando o Tó lhe mandou uma pedrada à pinha. O Francisco não morreu nem contraiu uma septicemia, foi para os bombeiros e levou três pontos a sangue frio com uma dessas agulhas da caixa de costura, no regresso ainda deu umas lambadas ao Tó e hoje são grandes amigos.

Hoje, a “aldeia dos macacos” foi substituída por um pavimento infantil com placas de borracha, já não há areia nem árvores “derivado ao perigo para as crianças“, ou assim nos disse o presidente da junta, as áreas de recreio foram delineadas a régua e esquadro e no lugar dos baloiços de madeira, cujas farpas insistiam em cravar-se nas mãos e nas pernas, para gáudio do sistema imunitário, temos agora escorregas esterilizados no fim dos quais não há quaisquer hipóteses de nos matarmos e/ou partirmos os dentes, nem que nos atiremos de cabeça, assim logrando todas e quaisquer hipóteses de impressionar as ”garinas“ lá da escola.

Isto, se deixarem as crianças sair à rua. Hoje, as crianças já não podem sair à rua e estão entre as mais sedentárias da Europa. Porquê? Porque é perigoso, porque em cada adulto, um pedófilo, e hoje já não se pode confiar em ninguém, nem nos amigos, nem nos vizinhos, e noutro dia o Paulo teve de dar explicações à polícia por andar de mão dada com o filho num parque.

Não, hoje em dia temos telemóveis com ”touche“, ”tablets“, ecrãs led com ligação à net e computadores, todos ligados ao mesmo tempo para que os catraios não nos chateiem quando chegamos a casa cansados do trabalho, ou da falta dele. Para que, passiva e “ruminantemente”, cresçam e engordem, felizes para todo o sempre. Pelo menos até chegarem à escola onde não existem nem audiovisuais nem quadros interactivos e onde os professores ainda pagam os paus de giz do próprio bolso à senhora contínua, sempre muito incomodada quando a interrompem a meio da leitura da ”Maria“.

E porque hoje as crianças já não podem sair à rua temos ginásios, onde as crianças que ontem corriam na ”aldeia dos macacos“ podem agora aprender a brincar com toda a segurança e conforto. Porque os Bernados deste mundo ainda só têm oito anos mas já são hipertensos e 40 quilos de peso falam sempre mais alto. Mas não só, pois ir ao ginásio também é fino e fica sempre bem dizê-lo em conversa com os amigos ou através daquela ”selfie no “Facebook”. Quando aprendi a andar de bicicleta malhei não sei quantas vezes a saltar por cima das tampas de esgoto. O Miguel, a pedalar freneticamente logo atrás de mim para dar um salto anda maior, ficou com os dentes da frente perdidos entre as gengivas e o volante da “bêémexis”.

De caminho, não deixámos de percorrer em duas rodas todas estas estradas que ainda nos correm no sangue. O teu sobrinho, no entanto, nunca vai poder andar de bicicleta. Da última vez que fomos a casa deixámos-lhe uma bicicleta novinha em folha encostada a um canto para pasto da ferrugem. Entretanto, já ficámos a saber que lá no ginásio tem uma bicicleta de ginástica só para ele. Só nos resta saber quem vai pagar a conta, se tu, se a tua mãe, e eu nunca me lembro de ter pago o que quer que seja para correr na “aldeia dos macacos” ou em cima da bicicleta.

 

 

 

“É inacreditável que hoje se passeiam mais os cães do que as crianças”

Setembro 28, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://www.dn.pt/ a Carlos Neto no dia 26 de setembro de 2016.

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Carlos Neto é professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa | António Pedro Santos / Global Imagens

Ana Bela Ferreira

Há mais de 40 anos que o investigador Carlos Neto trabalha com crianças e está preocupado com o sedentarismo. “Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos”

A falta de autonomia das crianças é culpa das famílias ou das escolas que também as ocupam demasiado tempo?

Eu diria que temos de encontrar um conjunto de fatores para explicar o fenómeno, porque não se pode pôr culpas a ninguém em particular. Veja-se a cidade de Lisboa e o inferno que é às seis da tarde e às oito da manhã e a maneira como as famílias têm de se encarregar de distribuir a vida dos filhos no tempo escolar e para além da escola. Por outro lado, não há uma política habitacional pensada do ponto de vista de criar uma mobilidade saudável no crescimento e no desenvolvimento dos jovens. Só dessa maneira é que se pode compreender o que é que está a acontecer com o baixo índice de mobilidade que temos em Portugal. Os estudos que fizemos em 16 países demonstram que ficámos em 14.º lugar. Muito abaixo dos países escandinavos, onde essa mobilidade é muito elevada, onde têm uma autonomia muito grande e vivem a natureza e o território da cidade de forma plena. Em Portugal, e nos países do Mediterrâneo, a situação é muito complexa, porque há perigos diversos e depois há medos que se instalaram na cabeça dos pais.

Mas esses perigos não existem também nos países nórdicos?

Eles têm uma filosofia de organização do tempo e do espaço completamente diferente. Significa que os nossos jovens e crianças têm muita dificuldade em ter essa autonomia desde muito cedo, porque encontram diversos constrangimentos. Desde o trânsito, o fenómeno da urbanização, a maneira como o tempo escolar e o tempo de trabalho dos pais está organizado. Por outro lado, ganhou-se um medo enorme de as crianças andarem autónomas na rua. A rua desapareceu, está em extinção como local de jogo, de brincadeira, de encontro de amigos. O problema da socialização é uma das questões mais importantes que se colocam hoje na nossa juventude e nas culturas de infância. Temos aqui um problema muito sério que só pode ser resolvido com medidas corajosas e arrojadas do ponto de vista político.

Isso significa facilitar os transportes, criar espaços verdes?

Espaços verdes, política habitacional mais adequada à política educativa e também à gestão do tempo de trabalho dos pais. Está tudo demasiadamente formatado e as crianças e jovens precisam que isso seja desconstruído para a vivência do corpo em situações mais espontâneas e mais naturais, do espaço construído e do espaço natural da cidade. Quando falamos em índice de mobilidade baixa, isso significa que temos de atuar em várias frentes para tornar mais sustentável uma vida feliz e com sucesso das crianças e jovens porque elas merecem. E acima de tudo uma perspetiva de não repressão do corpo em movimento porque o sedentarismo não é só físico, é também mental, social e emocional. A investigação científica tem demonstrado claramente que quem mais faz atividade física, mais brinca na infância, mais tem relação com os amigos, são crianças que normalmente têm mais sucesso no futuro, mais rendimento escolar e obviamente têm um índice de felicidade e de empatia muito maior.

Mas hoje as crianças quase só se relacionam com as outras em atividades organizadas.

Praticamente está tudo organizado quer do ponto de vista das atividades no meio escolar quer nas atividade extraescolares. Se isto ainda não bastasse têm depois uma cultura de ecrã muito agressiva. É muito natural ver crianças à volta de uma mesa de café e não se falam, estão todas a olhar para o iPhone. O corpo em movimento é fundamental para todo o desenvolvimento, não só emocional, também cognitivo, social e emocional. A escola tem de urgentemente mudar o modelo de funcionamento, quer na organização curricular quer na forma como as crianças são mais ou menos participativas. Temos de dar uma espécie de um trambolhão na sala de aula, no sentido de tornar as aulas mais ativas por parte das crianças.

Falta uma política de brincadeira?

Há alguns sinais interessantes do Ministério da Educação de tentar que a vida na escola não seja uma coisa tão formal e tão séria, isto é, de ter tempos mais disponíveis para expressão dramática, educação física, música, dança ou um conjunto de atividades que consigam que o corpo disponibilize maior capacidade expressiva, de empatia, de modo a tornar os cidadãos mais cultos, com maior capacidade de ética e de cidadania e portanto não estar apenas centrado nos rankings. Está provado cientificamente que crianças com maior nível de atividade física e relacional no recreio aprendem mais na sala de aula. Portanto, não podemos querer crianças sedentárias ou a ouvir um conhecimento que muitas vezes não lhes interessa. O ensino não pode ser isto no século XXI.

A gestão do tempo da família também tem de mudar?

Temos de dar um ar fresco a este país, este país não pode estar com esta depressão enorme em que temos pais e professores esgotados, porque as crianças reparam em tudo. Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos, e há professores que já não têm capacidade de perceber a importância dessa atividade espontânea do que é correr atrás de uma bola, subir a uma árvore, fazer um jogo de grupo no recreio ou pura e simplesmente subir o muro e tentar descobrir o que está do lado de lá. Ou ter locais secretos. Como é que nós promovemos a saúde pública e mental numa perspetiva de maior cidadania, de maior empreendedorismo e de maior grau de felicidade? É isso que está em causa quando falamos em promover o corpo em movimento. Nunca foi tão importante o papel dos pais e da família na educação dos filhos no que diz respeito à implementação deste tipo de atividades. Sair com as crianças para a rua e brincar, desfrutar a natureza. Os pais têm de ter mais tempo disponível para fazer este tipo de atividades. É inacreditável que hoje se passeiem mais os cães do que as crianças. Inacreditavelmente faz-se hoje um esforço inadmissível de tornar os robôs mais humanos e ao mesmo tempo estamos a robotizar o comportamento humano.

 

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