“Os jovens não têm noção de mortalidade. Ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos”

Julho 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Consumir drogas e perder a virgindade aos 12 anos é uma realidade em Portugal. Quem é o afirma é Francisco Salgueiro, que traça um retrato da adolescência em pleno século XXI. O escritor, autor de vários livros dedicados ao tema, lançou em junho “Sexo, Drogas e Selfies”, e revelou ao Expresso uma realidade que leva muitos jovens a arriscarem a vida para serem populares no grupo de amigos.

Francisco Salgueiro é autor de vários livros sobre um dos períodos mais complexos e exigentes na vida de pais e filhos: a adolescência. Em 2010 publicou o primeiro livro dedicado ao tema “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa” e três anos mais tarde repetia a dose com o 2.º volume – “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Um Adolescente Português”. Este mês lançou “SDS – Sexo, Drogas e Selfies”. Uma visão crua sobre uma realidade que muitos pais continuam a ignorar.

O que é que o levou a escrever um terceiro livro sobre os adolescentes portugueses?
Os pais ainda não acreditam que esta é uma realidade e que acontece aos seus filhos. Continuo a ter muitos pais que me dizem: “também na nossa altura uns fumavam erva, outros cheiravam cocaína e apanhávamos bebedeiras de coma alcoólico”. Não percebem que há muito mais a acontecer. As crianças estão a começar cada vez mais cedo nas drogas, álcool e sexo. Há um mundo diferente que os pais têm de perceber. Os mais novos, de 12 anos, tentam imitar os mais velhos, de 14 e 15 anos.

Este livro é um alerta para os pais?
Sim. Quis passar a mensagem de que na realidade destes jovens não há afetos genuínos, há pessoas descartáveis, pessoas utilizadas pelos seus corpos, relacionamentos de amizade que não o são. Estes miúdos não estão atentos ao que se passa à volta deles e gostam em massa dos mesmos temas sem sequer os discutirem.

Como é que surgiu a necessidade de partilhar estas mensagens?
Sou uma esponja de inspiração, tudo aquilo que posso absorver à minha volta vou absorvendo e há uma altura em que tenho necessidade de partilhar o que andei a recolher. O SDS junta centenas de histórias desde o “Fim da Inocência”. Nos dois primeiros livros, as histórias que contava passavam-se aos 14 anos e os editores da Leya diziam “como é que é possível ser tão cedo? Se calhar temos que indicar outra idade”. Eu dizia-lhes que não, que tínhamos de ser sinceros. Ficaram boquiabertos com as histórias que conto neste livro e que envolvem jovens de 12 anos.

Qual a principal diferença entre este livro e os anteriores?
É a idade, tudo se inicia mais cedo. As selfies, por exemplo, vieram tornar as relações descartáveis. Ter uma conversa pouco importa se tirarmos uma selfie e parecermos muito contentes. Há uma falta de auto-estima muito grande e o ‘fear of missing out’ – o medo de perder alguma coisa. Os jovens vivem na era dos ‘likes’, precisam de fazer algo para serem validados, para terem aprovação social. Os pais não estão lá a dizer “não precisas da aprovação social porque eu estou aqui, eu valido-te, eu gosto de ti”.

Este livro retrata a sociedade ou apenas um estereótipo?
Não posso generalizar que todas as pessoas sejam assim. Mas dei muitas palestras de norte a sul do país e percebi que esta realidade existe de facto, porque há uma coisa comum a todos estes jovens: a internet.

A internet é o pólo agregador dos comportamentos de risco atuais. É lá que os miúdos vêem pornografia desde muito cedo, os ‘youtubers’, que podem comprar droga, é lá que tudo se passa…

Os jovens têm consciência do que estão a fazer?
Muitos miúdos afirmam ter tomado “um comprimido qualquer” que lhes ofereceram e eu pergunto-lhes: “então mas o que é que continha o comprimido? Perguntaram? Fizeram um teste? (existem muitas carrinhas que fazem esse tipo de testes)”. Respondem-me: “não me interessa, era uma coisa qualquer e eu tomei porque achei graça”. Existe a cultura do YOLO – you only live once (só vives uma vez). Não há noção de mortalidade, ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos. Portanto, é um comprimido que pode ter sido feito numa garagem na China e que ninguém faz a mínima ideia do que contém, e para os miúdos é totalmente indiferente tomar este ou outro qualquer.

São os protagonistas das suas histórias que o procuram?
No primeiro livro, foi a Inês que veio ter comigo e que se expôs, contando-me uma série de histórias, nas quais não acreditei desde logo. Encontrei-me com ela, mais tarde, e com o seu grupo de amigos no Bairro Alto e apercebi-me que o que ela contara não era assim tão descabido. Assisti a algumas das histórias relatadas, e se eu que saio à noite não conhecia aquela realidade, como é que os pais haveriam de conhecer? No “Sexo, Drogas e Selfies (SDS)” peguei em histórias de várias pessoas. De repente passei a ser o repositório das histórias que todas as raparigas me queriam escrever e contar porque não têm coragem para falar com os pais.

Há pais que o abordam ou pedem para falar consigo?
Há casos em que vieram falar comigo para me contar uma história que aconteceu, mas geralmente são poucos. Muitos dizem-me que têm medo de ler os meus livros e são eles quem mais precisa de os ler. Alguns acham que por os filhos não saírem à noite estão protegidos mas na verdade não estão. Basta terem um computador em casa, com ligação à internet, e fecharem-se no quarto.

Antigamente era preciso ir para a rua, agora bastam estes comportamentos dentro de casa. Os próprios pais cometem erros nas redes sociais, pelo que tem de haver um crescimento coletivo. Não se pode recorrer ao argumento “eu sou mais velho, sei mais coisas que tu”, até porque provavelmente isso não é verdade, os miúdos sabem muito mais das redes sociais.

Como é que um escritor se transforma (quase) num psicólogo de adolescentes?
Não é fácil. Tento não o ser. Há dois tipos de emails que eu recebo: o mail de exposição, de quem quer falar, desabafar, sem procurar mais. Depois há outras pessoas que querem procurar e precisam, porque não sabem o que fazer à sua vida. Eu não sou psicólogo, mas como já me cruzei com muitas destas histórias procuro dar-lhes força, agir com bom-senso, tentando alertar para os comportamentos de risco.

Como foi sair à noite com estes miúdos e perceber o que se passava?
Depois de terem tomado comprimidos, aconteceu estarem ao telemóvel comigo e dizerem-me “vou-me atirar da janela abaixo, porque é lindo, vou voar”. Como na história do comboio (partilhada no SDS), em que tirar uma selfie para se ser popular é uma prioridade, mesmo quando se está completamente bêbedo (ou quando se ingeriu qualquer coisa), colocando a vida em risco. Os jovens não ganham consciência, procuram cada vez mais imitar os mais velhos. O pensamento é este: “Se os mais velhos cheiram cocaína, eu com 13 anos também quero experimentar, se não lhes acontece nada de especial, porque é que me há-de acontecer a mim?”

A história em que me inspirei para a parte final do livro chocou-me muito, foi-me contada pela irmã da pessoa que passou pelo problema. Foi a que mais me chocou até hoje. Estamos a chegar ao limite, para lá daquilo não há mais nada.

O que falta na relação entre pais e filhos?
Muitas vezes os pais chegam cansados do trabalho e a última coisa que lhes apetece é dar atenção aos filhos e falar com eles. O “Fim da Inocência” trouxe à tona o interesse da comunicação social por estes temas que surgem muitas vezes nas primeiras páginas. Não há desculpa para que os pais não estejam alerta.

Como é que os pais conseguem falar com os filhos sem estes acharem as conversas uma “seca”?
Este tipo de livros e artigos da Comunicação Social podem ser tema de conversa. Tem de haver um espaço dinâmico e de troca de ideias, e não de moralismos. É a pior coisa. Os jovens falam muito comigo porque não sou moralista e tenho um espírito muito aberto. Se um filho diz aos pais “já experimentei”, não o podem colocar de castigo, e têm de desconstruir o problema para que o filho não volte a consumir. Se os pais optam por colocar os filhos de castigo, eles voltam a repetir, porque o fruto proibido é o mais apetecido.

 

Entrevista publicada no jornal Expresso em 2 de julho de 2018

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Entrevista de vida a Mário Cordeiro, um dos pediatras mais conhecidos do país

Junho 26, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Hoje em dia é fácil opinar sobre parentalidade e parece que é preciso tirar um curso para se ser pai. Opina-se demasiado?
Às vezes exagera-se. É bom que se fale, não tenho nada contra. Não gosto de visões redutoras e acho bem que se fale das coisas, mas tem de haver limites. Às vezes sobrecarrega-se o sentimento de culpa dos pais, a responsabilização, a ideia de ser o pai ou a mãe perfeita. Depois, há manuais de instrução uns atrás dos outros, tal como nas dietas. “Deixe de comer açúcar em sete dias”, “Perca peso em seis dias”… Agora também os há para a parentalidade. “Ponha o seu filho a dormir em seis dias”… Encontrei muitos livros com esta fórmula na Feira do Livro. Não era sequer “X dicas para o seu filho dormir melhor”. Não, era “em seis dias”. Essas coisas são tão complexas, pode haver “n“ motivos para uma criança dormir mal, pelo que isso pode dar um complexo de culpa brutal aos pais. Primeiro porque geralmente [esses livros] têm regras tão rígidas que nenhum ser humano consegue aguentar aquilo e, depois, se ao fim dos ditos dias a crianças continuar aos berros à noite, os pais vão sentir-se ainda mais incapazes.

 

Esta é uma citação da entrevista a Mário Cordeiro, realizada por Ana Cristina Marques, em 12 de junho de 2016, para o Observador. Leia na íntegra AQUI.

Crianças ativas no recreio aprendem mais

Março 17, 2016 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, o professor Carlos Neto fala sobre como o recreio pode ser um meio para melhorar os resultados dos alunos.

A importância de uma boa experiência no intervalo das aulas – seja em escolas públicas ou privadas – ainda é subestimada, diz o professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, o português Carlos Neto. Nesse caso, a realidade portuguesa equivale à brasileira, onde o recreio, espremido em parcos 20 minutos, serviria apenas a interesses disciplinares ou de horários de professores, sem dar conta da necessidade da criança de realizar jogos físicos e de socializar. “O intervalo torna-se uma terra de ninguém, algo pouco valorizado por adultos por ser visto como atividade improdutiva”, diz.
Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, o professor fala sobre como deveriam ser os recreios e como as aulas podem ser mais estimulantes e atingir melhores resultados.

GP: Como os alunos enxergam hoje o recreio?
Carlos Neto: Para muitos ele é o último reduto de brincadeiras livres. Porém, ele deveria ser valorizado e estruturado de forma a ser envolvente quer quanto às qualidades de estimulação dos espaços físicos (superfícies, espaços naturais, equipamentos lúdicos, brinquedos) quer quanto ao seu tempo de duração.

GP: Qual a importância desse intervalo para as crianças?
Carlos Neto: Crianças ativas no recreio aprendem melhor em sala de aula. Quem apresenta um jogo de atividade física moderada e mais socialização no intervalo têm mais capacidade de atenção e concentração nas aprendizagens escolares consideradas úteis. Muitos estudos demonstram uma forte relação entre atividade física e lúdica e rendimento escolar. Crianças fisicamente ativas têm cérebros mais ativos e aprendem com mais sucesso as linguagens abstratas. Isso implica revisão e mudança no modelo organizativo do cotidiano da vida das crianças em sala.

GP: E como ele deveria ser?
Carlos Neto: Deveria ser desafiante, permitindo brincadeiras livres sem supervisão exagerada dos adultos (proibição da margem de risco e de atividades de exploração dos espaços existentes), permitindo que as crianças realizem atividades próprias da idade: jogos de corrida, luta e perseguição, ações de trepar, de equilíbrio e vertigem, jogos com bola, jogos tradicionais e simbólicos e de dramatização, e relação com elementos naturais (água, areia, terra, plantas). Estas atividades deveriam enquadrar-se de forma coerente com o projeto educativo da escola.

GP: A agenda das crianças está cheia?
Carlos Neto: As crianças têm hoje uma agenda completamente estruturada em atividades organizadas e na maior parte com caraterísticas sedentárias. Os currículos escolares são cada vez mais extensos e intensos e as crianças passam a maior parte do tempo sentadas. Muitas ficam até 8 horas por dia na escola e ainda frequentam escolas paralelas com atividades extracurriculares. O tempo cotidiano de vida infantil é, deste modo, todo organizado, estruturado e formatado. Este é um problema sério para o normal desenvolvimento das crianças do nosso tempo.

GP: Porque isto ocorre?
Carlos Neto: Os pais são obrigados a “depositar” os filhos na escola durante muitas horas por dia para que esse tempo seja compatível com os seus horários de trabalho. São urgentes políticas públicas e harmonização entre o tempo de trabalho, o tempo escolar e o tempo em família. Muitos países do centro e norte da Europa elaboraram mudanças políticas para fornecer mais qualidade de vida às famílias e mais tempo para os pais brincarem com os seus filhos.

GP: Como seria a aula “ideal” para crianças ativas?
Carlos Neto: Diversas escolas de todo o mundo tentam mudar o paradigma clássico de pedagogia para modelos mais dinâmicos de ensino-aprendizagem, que permitam que as crianças sejam mais ativas dentro de sala. Muitas evidências científicas demonstram que a alternância regular entre estar sentado e ativo melhora a capacidade de aprendizagem e rendimento escolar.

GP: Como isso se daria na prática?
Carlos Neto: A valorização do corpo em movimento dentro da sala de aula passa pela introdução de pausas para atividades de escuta (meditação e respiração) e exercícios de mobilização do corpo (jogo de atividade física). Elas não precisam estar sempre sentadas (inativas) durante a aula e mudar mesas e cadeiras pode fazer com que os saberes possam ser trabalhados e assimilados com mais prazer, mais motivação intrínseca e mais participação em grupo.

GP: Quais os benefícios de aprender com o corpo em ação na sala de aula?
Carlos Neto: Isso permite encontrar várias soluções pedagógicas que serão muito mais gratificantes na infância e permitirão mais sucesso acadêmico. Será necessária uma redefinição dos modelos de uma pedagogia ativa e centrada nas necessidades das crianças e uma nova postura dos professores quanto à definição do projeto educativo da sua escola.

Crianças ativas no recreio aprendem melhor em sala de aula. Quem apresenta um jogo de atividade física moderada e mais socialização no intervalo têm mais capacidade de atenção e concentração nas aprendizagens escolares consideradas úteis.
O recreio deveria ser desafiante, permitindo brincadeiras livres sem supervisão exagerada dos adultos (proibição da margem de risco e de atividades de exploração dos espaços existentes), permitindo que as crianças realizem atividades próprias da idade: jogos de corrida, luta e perseguição, ações de trepar, de equilíbrio e vertigem, jogos com bola, jogos tradicionais e simbólicos e de dramatização, e relação com elementos naturais (água, areia, terra, plantas).
A valorização do corpo em movimento dentro da sala de aula passa pela introdução de pausas para atividades de escuta (meditação e respiração) e exercícios de mobilização do corpo (jogo de atividade física). Elas não precisam estar sempre sentadas.

Gazeta do Povo, 19 de Fevereiro de 2016

A filosofia no quarto dos brinquedos

Setembro 17, 2015 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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O que acontece quando um filósofo é pai? No caso de Francisco Bosco, acontece um livro onde tanto se fala de Lacan como da perda do direito à ressaca. Entrevistámos o autor.

A filosofia aplicada às fraldas. A ligação é inesperada, mas é isso que Francisco Bosco faz em Orfeu de Bicicleta (um Pai no Século XXI), o livro recentemente editado pela Tinta da China. Pai de dois filhos pequenos, o filósofo e colunista do Rio de Janeiro pega em conceitos da psicanálise e da sociologia, e em autores como Freud e Lacan, e aplica-os à sua experiência de noites mal dormidas, birras e pelos brancos prematuros na barba.

“O mundo não se divide entre Ocidente e Oriente, religiosos e tradicionalistas, mas entre pais de crianças pequenas e o restante da humanidade”, começa por escrever o autor, para quem esta classe faz parte da “categoria dos chatos provisórios”, formada por três tipos: “o bêbado, o apaixonado e os pais de recém-nascido. Só os suporta quem está no mesmo estado.” (pág. 37)

Tudo menos chato, o carioca que preside à Fundação Nacional de Artes do Brasil, e cuja tese de doutoramento envolveu uma dissertação sobre Roland Barthes, encontrou uma forma de falar nos velhos temas da paternidade em jeito de ensaio, sendo que esse ensaio é dividido em mais de 80 pequenos textos onde o choro de um bebé é considerado “um prodígio de polissemia” ou é possível encontrar Hegel no quarto dos brinquedos. Porque, afinal, “todos os fenómenos e todas as experiências podem ou não ser filosóficas”, como diz o autor numa entrevista por e-mail ao Observador. “O que torna um objeto filosófico é, justamente, transformá-lo em questão: isto é, desnaturalizá-lo, identificar a espessura de significados que ele contém, e revelá-los. Pode-se lidar com o choro de uma criança à noite apenas oferecendo uma mamadeira [biberão] para aplacá-lo. Mas também se pode perguntar por que chora uma criança à noite. E quando começamos a fazer essas perguntas, perguntas sobre o sentido, já estamos nos aproximando da filosofia.”

Quando é que sentiu que escrever sobre os seus filhos era tão importante ou interessante como fazer uma dissertação sobre Roland Barthes?
Bem, eu suponho que Barthes teria escrito sobre os seus filhos se os tivesse tido. Ele costumava dizer, justamente, que a écriture não faz acepção da futilidade. Ou seja, não é o objeto o que determina o valor ou interesse de uma escrita, e sim aquilo que uma escrita é capaz de fazer com um objeto. Lembremos que é Barthes o autor de ensaios como Structure du fait-divers ou do conhecido texto sobre o tele-catch, para não falar do projeto das mitologias como um todo. De minha parte, o meu ensaísmo tem uma relação forte com a vida, com a experiência concreta. Costumo escrever sobre o que me afeta e transforma (os meus primeiros livros, ingénuos ao ponto do embaraço, são de poesia, e penso que, de certo modo, nunca deixei de ser poeta). Assim, é para mim natural que viria a escrever sobre a experiência da paternidade.

O que pensava sobre a paternidade confirmou-se quando teve filhos ou, pelo contrário, foi pelos ares?
Eu tinha sobretudo ideias morais sobre a paternidade: julgava-me apto a ser pai porque julgava-me apto a educar, ou seja, transmitir um sentido de responsabilidade social, instruir a criança nos labirintos da nossa vida moderna, etc. E, entretanto, hoje penso que a responsabilidade requerida pela paternidade é antes de tudo aquela que toda a relação amorosa requer, só que numa intensidade muito maior: abrir a vida para o outro e reduzir drasticamente o individualismo. Isso é facilitado pelos mecanismos narcísicos que os filhos mobilizam nos pais. Há uma complementaridade perfeita: os egos dos filhos, incipientes ainda, dependem dos dos seus pais; os egos dos pais, assombrados pela sua inconsistência, de repente se sentem plenamente justificados pela dependência dos egos dos seus filhos. Por outras palavras, essa quase perfeição narcísica faz os pais suportarem todos os sacrifícios demandados pelas crianças-majestades de hoje.

Uma conhecida boutade diz que os bebés nascem rechonchudos para serem amortecidos quando os jogarmos na parede, por exaustão. O que nos impede de os atirar na parede é o enamoramento que, como observou Freud, parte do nosso próprio narcisismo, isto é, o facto de amarmos o seu eu como amamos o nosso próprio eu.” (Orfeu de Bicicleta, pág. 36)

Um filho pode ser a resposta para a velha questão filosófica do sentido da vida?
Sim, sem dúvida. E essa velha questão nunca foi tão aguda como na nossa época moderna, desencantada, órfã de Deus (para muitos). Freud tem um texto bonito sobre isso onde usa a expressão “sua majestade o bebé” (creio que é Narcisismo: uma introdução, de 1914). Penso a coisa nos termos de uma ilusória completude imaginária: não é tanto que um filho sobreviverá ao pai, dando-lhe continuidade, e sim que um filho pequeno depende fundamentalmente do pai, dando a esse a sensação ilusória – e provisória, infelizmente – de uma plenitude ontológica, tapando seu buraco, por outras palavras.

Ter alguém tão dependente de você é uma irrefutável justificativa da sua existência. É uma dopamina ontológica.” (Orfeu de Bicicleta, pág. 36)

Um dos textos tem esse título, “sua majestade, a criança”, e na contextualização que abre o livro fala de conceitos como “infantocracia” e overparenting. Como se explica esta importância tão grande das crianças nos nossos dias, pelo menos no mundo ocidental?
Essa é uma longa e interessantíssima história. Basta ir recuando nos séculos para se perceber que não existia a percepção da infância como uma etapa da vida a ser destacada e, menos ainda, valorizada. A descrição do processo de invenção e supervalorização da infância é bastante clara, tem marcos inequívocos – mas o seu sentido não é tão fácil de depreender. Parece-me que a questão demográfica é um ponto decisivo: não havia como valorizar tanto as crianças numa época em que a taxa de mortalidade infantil era altíssima. Mas o início da valorização da infância é anterior às transformações das condições de higiene e da medicina que reduziram radicalmente a mortalidade infantil. Phillipe Ariés, possivelmente o mais importante historiador da infância, aponta outras causas, como o surgimento da família nuclear burguesa (por sua vez ligada à emergência da vida privada) e certos pensadores morais do século XVII, que viram na infância a etapa onde se deveria educar o futuro adulto. Seja como for, é uma história fascinante. No século XVI, nas grandes navegações, os grumetes e pajens eram sodomizados e seviciados nas embarcações. Em casos de naufrágio, as crianças eram preteridas por caixas de biscoitos. Poucos séculos depois e cá estão elas, mimadas e idolatradas.

No livro tão depressa cita o “bico da mamadeira” como Lacan e Freud. Quis fazer um livro mais confessional e quotidiano, ou mais filosófico e conceptual? Ou ambos?
Justamente, o bico da mamadeira é a razão de Freud e Lacan existirem. Deleuze costumava lembrar que um conceito é uma abstração que remonta a um problema concreto. Cunhar um conceito é tentar compreender o que há de comum numa multiplicidade de fenómenos concretos. Um conceito que não nasce de um problema concreto, quotidiano, é uma mera abstração vazia (quem crê que Lacan é isso está muito enganado). Por isso, para mim o conceptual e o quotidiano não são duas coisas apartadas, mas, ao contrário, os dois momentos de um único processo.

O choro de um bebê é um prodígio de polissemia. Um único significante pode ter inúmeros significados: fome, frio, calor, fralda cheia, cólicas, posição desconfortável, sono, dor (que por sua vez podem ser muitas dores diferentes). Nas primeiras semanas de nossa filha, eu e minha mulher nos comportamos como linguistas atormentados, uma espécie de Bouvard e Pécuchet enlouquecidos com a natureza escorregadia daquele significante.” (Orfeu de Bicicleta, pág. 83)

Estar habituado a pensar filosoficamente implica uma maior clarividência? É que no livro faz afirmações que muitas vezes são tabus para os pais, como admitir que os recém-nascidos são “feinhos” ou que o amor por um filho é algo progressivo. Geralmente só os não-pais é que dizem isso.
Para mim a filosofia é inseparável da pergunta-motor dos gregos antigos: qual a melhor forma de viver, e como agir para obtê-la? Nesse sentido, sim, para mim o gesto filosófico não é apenas o de elucidar os problemas, identificando as suas tensões, descrevendo os seus significados, mas também o de ser capaz de se transformar por meio dessa elucidação, no sentido de ser capaz de viver melhor. Ora, não se vive bem com tabus, que são coágulos de medo e obscurantismo.

Tem uma crónica que remete para o título, Orfeu de Bicicleta, mas poderia explicá-lo melhor?
Como se sabe, no mito, Orfeu não pode olhar diretamente para Eurídice, sob pena de perdê-la. Jennifer Senior, que escreveu um belo livro sobre a experiência parental (da classe média estadunidense) contemporânea, observa que as ciências sociais têm uma grande dificuldade de depreender, nos seus estudos, a dimensão da felicidade parental. Penso que isso se deve a que a felicidade é completa, ela não produz signos, ela não impele à produção. Ao escrever o meu livro, sentia que no fundo do meu relato havia uma dimensão fundamental, que é essa mesma da felicidade, que é tão quotidiana, e que é tão difícil de dizer. E entretanto, andando de bicicleta com a minha filha, cada um com uma ponta do headphone, ouvindo e cantando a mesma música, várias vezes eu colhi no olhar dos outros a melhor tradução para o que eu experimentava. E que contudo permaneço sem poder dizer diretamente. Como Orfeu. Um Orfeu de bicicleta.

Posso descrever uma cena. Enquanto pedalo, minha filha está sentada na cadeirinha, de capacete e cinto. A sua cabeça fica na altura do meu peito. Ela canta, ou observa coisas com avidez, ou exclama coisas incompreensíveis. Posso tentar interpretar minha felicidade: a combinação dos elementos de liberdade, movimento, descoberta, com a sensação geral de segurança e proteção. Talvez eu me sinta ali protegendo a sua liberdade, e a combinação dessas duas palavras, desses dois valores, representa pra mim um ideal moral parental. Pode ser.”(Orfeu de Bicicleta, p.92)

Se conseguir fazer esse exercício, qual foi a maior lição que os seus filhos já lhe ensinaram?
Há na paternidade uma dimensão incómoda, estruturalmente análoga à relação que um analisando tem com o seu analista. É que o modo como nos relacionamos com os nossos filhos é incontornavelmente revelador das nossas estruturas psíquicas, das nossas fantasias mais estruturais. Constato os meus mecanismos todos quando estou agindo com os meus filhos, do mesmo modo como um analista identifica as estruturas da fantasia de um sujeito quando esse as atualiza na relação com ele. É incómodo isso. Percebo o meu autoritarismo de fundo, os meus joguinhos amorosos patéticos, coisas assim. É curioso, mas nas relações amorosas entre adultos isso acontece de forma encoberta, me parece. Aí está um ponto para eu entender melhor.

Fonte: Observador, em 24 de Agosto de 2015

“O pilar da parentalidade é as pessoas terem trabalho, remunerado de forma condigna”

Julho 17, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Estabilidade de políticas. Creches mais baratas. Acabar com a culpa, alimentada pelos pediatras portugueses, de deixar os mais pequenos numa instituição para ir trabalhar. Estas são lições simples que, diz Vanessa Cunha, Portugal, país de filhos únicos, podia copiar da França.

França traçou há muito uma meta: ajudar os pais a terem filhos. E tem mantido o rumo ao longo dos anos, independentemente dos governos. Os franceses sabem com o que contar e isso faz a diferença, diz Vanessa Cunha, investigadora no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa e membro da comissão coordenadora do Observatório das Famílias e das Políticas de Família.

Sublinhando que o “pilar da parentalidade” é o trabalho, diz que em tempos de crise, haver “estabilidade” dos apoios do Estado pode dar às pessoas “a possibilidade de continuarem os seus projectos familiares”, em vez de os adiarem para um dia mais tarde. Ou emigrarem. Já aconteceu assim nos países nórdicos, por exemplo.

Esta é a leitura de Vanessa Cunha, uma socióloga que desde 1997 estuda o lugar dos filhos nas famílias portuguesas contemporâneas e está envolvida em vários projectos de investigação sobre baixa fecundidade. Fala ao PÚBLICO no seu gabinete, no ICS, com o relatório do Inquérito à Fecundidade 2013, do Instituto Nacional de Estatística e da Fundação Francisco Manuel dos Santos, em cima da mesa. “A grande diferença entre nós e a França é que temos muito mais dificuldade em fazer a transição para o segundo filho.”

Como é que uma especialista em família olha para um país como França, que tem o maior índice de fecundidade da União Europeia (1,99 filhos por mulher) e como é que o compara com Portugal (1,21)?
A França tem uma longa história de acolhimento de crianças pequenas. Há a ideia de que os indivíduos têm de ser educados pela sociedade desde pequenos e há uma política dirigida para os equipamentos colectivos. Em Portugal há ideia de que a crianças têm de ser educadas em primeiro lugar pela família. Apesar de haver uma grande procura de creches e infantários [para crianças até aos 3 anos] por parte das famílias, há, ao mesmo tempo, a sensação de que as crianças estariam melhor em contexto familiar, só que isso não é possível por causa dos constrangimentos do mercado de trabalho, neste caso da mães… e as creches são vistas como uma segunda escolha.

Há um peso na consciência em deixar as crianças…
Sim. Por isso, há na sociedade portuguesa muitas estratégias para adiar essa entrada no equipamento colectivo. Desde as grandes ginásticas quotidianas entre pais e mães — pais que fazem desfasamento de horários de trabalho, com jornadas contínuas, um e outro, para conseguirem assegurar os cuidados aos filhos até mais tarde; recurso a outros familiares, que também pode estar a trabalhar, e que também se ajustam; avós que se reformam… Há um grande protagonista dessa imagem negativa dos infantários e das creches que são os pediatras. Eles são em Portugal altamente avessos à ideia de pôr uma criança na creche.

Mas em França acha-se que a socialização faz bem, é importante… descomplica-se.
Sim, em França é visto como algo positivo. Aqui só se acha positivo a partir dos 3 anos, é como se até lá fosse mais prejudicial do que benéfico. Diz-se: os infantários são infantários, a crianças estão sempre doentes, precisam de um colo personalizado… e isto cria nos pais uma angústia. É uma diferença cultural.

Por causa disso, as pessoas podem inibir-se de ter filhos?
Acho que não. Muitas vezes as pessoas só são confrontadas com isto quando já estão na primeira consulta com o bebé nos braços. E o pediatra começa a mostrar-lhes o lado negativo do infantário. Por isso, não inibe a vinda de um primeiro filho, mas condiciona muito a vinda de um segundo. Para além de que aí as pessoas já se aperceberam das dificuldades de conciliação e também de todos os custos que acarreta pôr uma criança num equipamento colectivo, principalmente nestas faixas etárias baixas onde há pouca oferta pública. É uma grande fatia do orçamento familiar que se vai com estes custos.

O que mais explica a nossa baixa fecundidade não tem tanto a ver com a vinda do primeiro filho, mas com a vinda do segundo.

Os casais portugueses têm filhos, mas só têm um, é isso?  E em França a média é dois.
Ou três. A grande diferença entre nós e a França é que temos muito mais dificuldade em fazer a transição para o segundo filho.

Qual é o peso das mães de filho único?
Há um indicador que nos dá a descendência final das gerações. Uma geração chega ao final da sua vida reprodutiva e vamos ver quantos filhos é que as mulheres dessa geração tiveram até chegarem ao final da vida reprodutiva (que vai até aos 49 anos). Na sociedade portuguesa, apenas 5% das mulheres nascidas no início dos anos 1960 não tiveram filhos. E este é o valor mais baixo em termos europeus. Nos países com fecundidade elevada, a percentagem de mulheres sem filhos é maior. Em Itália um quarto das mulheres nascidas nos anos 60 não tiveram filhos. Em França, 10,3%.

Ao mesmo tempo, somos dos países com valores mais elevados de filhos únicos: 31,9% das mulheres só tiveram um filho [18% em França]. Nos países com fecundidade elevada, esta é feita à custa dos segundos e terceiros nascimentos.

Já há dados para a geração nascida nos anos 70?
A previsão em Portugal é que haja um aumento do peso do childness [não ter filhos]. À volta de 9%. Há, de facto, um adiamento fortíssimo do nascimento do primeiro filho que pode pôr em causa a possibilidade de se ser mãe ou pai quando se chega aos 40 anos e ainda não se conseguiu ter o primeiro.

Chegámos assim à nossa baixíssima fecundidade. Que, de algum modo, está em contra-ciclo com o que se passou no resto da Europa — tirando os países que também atravessaram esta crise económica, como a Itália e a Espanha, e cuja fecundidade voltou a baixar ligeiramente nos últimos anos. Mas no nosso caso ela nunca parou de descer. Estamos em queda desde os anos 70.

Em França chegou-se aos anos 20 do século passado a proibir a contracepção porque se achava que o país estava em risco de desaparecer com tão poucos bebés que nasciam na altura…
Exactamente e depois tiveram uma recuperação fantástica. E nós estamos aí. Estamos com níveis de fecundidade hoje que, dificilmente, mesmo que agora todos os casais começassem a ter imensos filhos, não conseguiríamos recuperar, porque há muito poucas pessoas em idade de ter filhos. Portanto, a não ser através de movimentos migratórios, a tendência para a nossa população é para declinar.

Nos anos 2000, quando os outros países estavam em recuperação, nós continuámos numa escalada descendente, houve ali num momento, um aumento ligeiro, que pensamos que era o momento de viragem. Mas era uma conjuntura…

Não foi nenhuma política que o país tivesse adoptado?
Não. Foi uma conjuntura demográfica, imigrantes que tinham chegado nos anos 90 e engrossado a população em idade de ter filhos; a chegada à idade de ter filhos da população nascida no 25 de Abril — uma população que era ela mesma mais empolada porque tínhamos tido um pico de nascimentos no 25 de Abril… Quando essa população começou a deixar de ter filhos e começou a haver menos fluxo da população [estrangeira], a nossa fecundidade caiu e quando chegámos à crise foi um literal trambolhão…

Quem é que tem mais filhos em Portugal?
As franjas mais excluídas da população e as classes média altas. Nas classes médias altas acontece algo que a socióloga francesa Martine Segalen observou nos anos 80, em França, precisamente: o factor de distinção social associado ao terceiro filho. Ter uma família numerosa, pode ser visto em determinados meios, como uma evidência de estatuto. Quer-se ter uma família numerosa e pode-se ter. Em Portugal vemos hoje essa lógica: estas famílias têm filhos mais tarde mas mais próximos uns dos outros, todos de seguida, para concretizar o seu projecto de família. É um padrão de fecundidade diferente da maioria da população que aumentou os intervalos entre os nascimentos (as pessoas empurram a decisão do segundo filho para quando o primeiro já está numa solução mais económica do que a creche).

Qual é o peso da imigração na natalidade?
Não fosse essa população e era ainda mais baixa.

O que é que a França fez nas últimas décadas? Que medidas destacaria que possam explicar a evolução que teve? A socióloga Jeanne Fagnani diz que não é a imigração que explica o sucesso deles.
O mais importante do caso francês é a estabilidade das políticas. Ou seja, eles fizeram uma aposta que se manteve estável no tempo e isso cria confiança nas pessoas. As pessoas quando têm filhos sabem que contam com aquele quadro de políticas de família, de conciliação, e portanto tomam decisões tendo em conta esse contexto. É algo que nós não temos em Portugal, que é saber que tomamos hoje uma decisão a prazo, e que pensando nos primeiros anos de vida das crianças há qualquer coisa que se vai manter. Nós não temos esse nesse nível de confiança nos apoios às famílias, pelo contrário, nos últimos anos entrámos num processo de descrédito. Houve avanços e o recuos e…

Em 2009, por exemplo, o Governo anunciou que disponibilizaria mais de 20 milhões de euros por ano no chamado cheque-bebé mas essa medida nunca avançou… é deste tipo de coisas?
Por exemplo. Dizia-se que ninguém ia ter filhos por causa daquilo. São medidas pontuais, não são políticas natalistas propriamente ditas, mas são medidas de bem-estar para as pessoas que decidem ter filhos, que é o que fazem algumas câmaras que têm as suas próprias medidas que passam por esse apoio económico mais pontual. São sinais de reconhecimento da importância da parentalidade, do custo económico da parentalidade, são sinais positivos…

Depois, em 2010, as famílias do 4.º e do 5.º escalão de rendimentos deixaram de receber abono de família…
Isso foi… O abono é um apoio estrutural, dirigido à criança, e na minha perspectiva isso foi uma das grandes machadadas no bem-estar das famílias e na confiança das famílias nas políticas de família. Este gráfico é elucidativo [apresenta um gráfico que mostra como entre 2010 e 2013 há uma quebra de mais de meio milhão de crianças abrangidas].

Nós tivemos um processo de fortalecimento das políticas da família, de enriquecimento dessas políticas, foram-se acrescentando medidas que se percebia serem importantes para as famílias com filhos, caso do investimento na rede pública do pré-escolar, que foi importantíssimo, ou das licenças para os pais… depois… Fizemos um estudo e verificámos que as crianças elas próprias ficaram incrédulas com o que se passou com o abono de família.

Cortou-se o abono. Mas isso leva as pessoas a terem menos filhos?
O pilar da parentalidade é as pessoas terem trabalho, remunerado de forma condigna e com alguma perspectiva de estabilidade. É o factor central na decisão de ter filhos. Uma sociedade que está a ser marcada por desemprego de longa duração, sem fim à vista, onde ficar desempregado é quase uma sentença de desemprego de longa duração… Uma população penalizada assim que perde também a almofada que é o Estado Social, e foi o que aconteceu, é duplamente penalizada. E fica duplamente sobrecarregada com os custo de ter um filho. Não é o abono especificamente, é o contexto em que aconteceu e como aconteceu que levou as pessoas a esperar por melhores dias para ter filhos. Ou a emigrar.

A França tem uma série de subsídios monetários de apoio à família: licenças que permitem ao pai ou à mãe ficar em casa com um apoio que compensa minimamente a redução de trabalho ou a cessão total de actividade; o abono; o subsídio para pagar amas; o subsídio para as primeira despesas com o nascimento; o complemento para as famílias mais pobres, um sem número de apoios… estas almofadas financeiras podem contrariar o impacto de uma crise económica na natalidade?
Podem e nos países nórdicos aconteceu. Em contexto de crise económica — que a tiveram também — a política foi manter o apoio social existente. E isto deu às pessoas a possibilidade de continuarem os seus projectos familiares.

De facto, mais do que se calhar a política A, B ou C da França, essa construção de um conjunto variado de apoios que a França desenvolveu, em que para umas famílias vão ser mais importantes os apoios económicos directos, para outras o facto de haver creches e para outras é outra coisa… o importante é essa construção, essa permanência… manter-se o quadro.

Em França há uma percentagem grande de mulheres em part-time, 30%. O actual Governo português prometeu um programa de apoio ao trabalho a tempo parcial de pais e mães de crianças pequenas até Julho deste ano, com verbas para compensar as perdas de rendimentos das pessoas que optem por essa via. Um país que quer ter bebés tem de promover o part-time?
Não. O part-time, independentemente da bondade da medida, é altamente penalizador das mulheres. Quem quiser e puder, fantástico. Mas o part-time não é promotor de natalidade. Na sociedade portuguesa vai ser usado por determinadas franjas, que já são as mais favorecidas. O part-time em Portugal, do ponto de vista económico para as famílias, não é nada favorável…

Por isso é que o Governo admite dar uma compensação aos pais.
Mesmo que fosse exactamente assim, e que as empresas estivessem dispostas… quando perguntamos às mulheres em que moldes querem elas trabalhar elas respondem: a tempo inteiro. O part-time tem efeitos perversos: os homens não vão conseguir negociá-lo com os seus empregadores. Acha-se que os homens têm estar lá a dar o litro e não têm que ter outras responsabilidades que não sejam profissionais. E há uma certa condescendência em relação à mulheres para assegurar a conciliação. É uma medida desenhada para as mulheres. Por outro lado, em termos da vida do casal vai criar maiores desigualdades.

A mulher fica em casa por isso espera-se que faça tudo e o homem menos…
E se a mulher está em casa, o homem não precisa de conciliar. Naquele dia era o dia dele sair do trabalho às 17h para ir buscar as crianças à escola? Como ela está em casa deixa de ser.

Se as mulheres ficassem em casa tinham mais filhos?
O emprego feminino é um aliado da natalidade. A falta de emprego, ou os constrangimentos do emprego, é que são inimigos da natalidade.

Que recomendações daria ao próximo ministro com a pasta da família em Portugal? Que prioridades?
Políticas de emprego. Emprego com rendimentos condignos. Emprego que as pessoas sintam alguma estabilidade na sua vida profissional. Possibilidade de as pessoas conciliarem a sua vida privada com a sua vida profissional, nomeadamente alargando os equipamentos sociais de apoio à pequena infância, a custos que possam ser suportados pelas família. Reduzir os custos que esses serviços têm para as famílias. E, por outro lado, haver uma política de igualdade a nível familiar e laboral. As mulheres têm tanto direito ao trabalho como os homens. E a terem uma vida profissional. E os homens têm tanto direito como as mulheres a terem acesso aos cuidados aos filhos e a medidas de conciliação entre trabalho e família. É importante haver uma regulação do mercado de trabalho, porque o que nós ouvimos nas entrevistas é isto: muitos homens gostavam de estar mais presentes, de ir à reunião dos pais na escola do filho, ou de levar o filho ao médico, mas no trabalho perguntam: ‘Ouça lá, não há uma mulher que faça isso?’

Mas essa mentalidade não se muda com uma medida do Estado…
Tem de haver uma mensagem. E medidas, como as licenças parentais que mudaram em Portugal em 2009, com o mês extra para os pais-homens, e que foram muito importantes. Foi uma mudança inspirada no modelo nórdico, onde o emprego feminino a tempo inteiro é elevado, tal como em Portugal (e mais do que em França) e as políticas de conciliação são mais plurifacetadas, com uma combinação entre equipamentos para as crianças e a salvaguarda da igualdade de género, com o direito das mulheres ao acesso ao trabalho e o direito dos homens aos cuidados aos filhos, através do sistema de licenças para os pais homens. O modelo francês falha na promoção da igualdade de género.

Andreia Sanches para o jornal Público

Entrevista vídeo com a Relatora Especial das Nações Unidas sobre venda de crianças, prostituição infantil e pornografia infantil – Maud de Boer-Buquicchio

Agosto 11, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do site do Council of Europe de 5 de agosto de 2014.

maud

Mrs Maud de Boer-Buquicchio, former Deputy Secretary General of the Council of Europe, has recently been appointed to serve as UN Special Rapporteur on the sale of children, child prostitution and child pornography. After ending her mandate at the Council of Europe, Mrs de Boer-Buquicchio was elected President of the INGO Missing Children Europe. Her recent appointment as UN Special Rapporteur on the sale of children, child prostitution and child pornography began in May 2014, and she came to the Council of Europe to give an interview on her role and experience in safeguarding children’s rights.

Link to CoE portal item here

View the Journal interview:

http://bit.ly/1tAUy2q

 

Entrevista com Sonia Livingstone sobre segurança na internet

Julho 14, 2013 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Interviewed for Media Literacy and Internet Safety  Series 2013 APA Division 46 Society for Media Psychology and Technology, 5 de Março 2013

New interview with Sonia Livingstone for the American Psychological Society, in which she explains the risk and protective factors that determine the outcomes of online exploration among children and young people. She also discusses the implications for media literacy and parental mediation.

Entrevista de Dulce Rocha à TSF

Março 14, 2013 às 3:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista à Drª Dulce Rocha, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança na TSF no dia 14 de Março de 2013.

tsfOuvir a entrevista Aqui

Crianças cada vez mais preocupadas com a crise

A vice-presidente do Instituto de Apoio à Criança (IAC), Dulce Rocha, revela que muitas crianças ligam para a Linha SOS Criança «dizendo que têm muito medo (…) porque os pais discutem muito» e relacionam essa situação com o desemprego.

Só em 2012, a Linha do IAC recebeu 311 telefonemas de crianças preocupadas também por se verem privadas de bens que antes tinham. Dulce Rocha diz que as crianças têm receio de falar com os pais, temendo agravar as discussões e por isso, recorrem à linha telefónica.

Na maioria, são menores com idade entre os 10 e 12 anos e que ainda se queixam de ficarem sozinhos, trancados em casa, enquanto os pais vão trabalhar.

Crianças expostas à violência podem ser adultos violentos

Janeiro 29, 2013 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia do site Notícias Universidade do Porto de 20 de Janeiro de 2013.

entrevista dada por Teresa Magalhães ao Porto Canal

Eva Pinho / FMUP e Tiago Reis / REIT

O castigo físico, como as bofetadas ou os abanões, pode influenciar o normal desenvolvimento das crianças, pautando de forma negativa o seu crescimento e formação como adultos. O alerta marcou o 3.º Congresso sobre o Abuso e Negligência de Crianças, evento que reuniu, de 18 a 19 de janeiro, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), mais de 250 participantes de diversas áreas de formação.

Para os investigadores, as consequências do castigo físico podem ser distintas: baixa autoestima, comportamentos desviantes, prejuízos a nível psicológico, entre muitas outras. De acordo com Teresa Magalhães, docente da FMUP, diretora da Delegação Norte do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), e coordenadora do congresso, os abanões dos bebés ou de crianças até aos três anos de idade “podem provocar inclusivamente a sua morte, constituindo um dos casos que ocorrem cada vez com mais frequência”.

Já a exposição das crianças à violência doméstica, como as discussões entre os pais, é uma outra forma de abuso infantil. Para além dos efeitos traumáticos, estas situações “podem inclusivamente provocar lesões e até a morte”. Teresa Magalhães afirma ainda que num contexto de violência doméstica, “21% dos casos de mulheres mortas tinham crianças presentes”.

Por fim, a exposição das crianças a imagens violentas, provenientes da internet, filmes, desenhos animados ou telejornais, revela-se como um abuso cada vez mais frequente e que transforma as crianças em adultos violentos.

Apesar da noção que existe atualmente sobre a dimensão deste fenómeno e das suas consequências, os participantes no congresso foram unânimes em considerar que a sociedade ainda se mantém demasiado tolerante face a algumas práticas que levam muitas crianças a sofrer danos graves na saúde. Práticas essas que sempre existiram e foram entendidas como normais ao longo do tempo.

O 3.º Congresso sobre o Abuso e Negligência de Crianças foi organizado pela FMUP, pelo INML e pela Sociedade Portuguesa para o Estudo da Criança Abusada e Negligenciada (SPECAN).

Ciclo de Conferências Riscos (d)e Trauma – Trauma stories – the hidden side of the interview

Novembro 19, 2012 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação, Uncategorized | Deixe um comentário
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Ciclo de Conferências Riscos (d)e Trauma

O Centro de Trauma do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, no âmbito das suas actividades propõe-se realizar um ciclo de conferências proferidas por individualidades de reconhecido mérito, e subordinado aos vastos temas da Prevenção e Intervenção no Trauma Psicológico.
O propósito deste Ciclo assenta no desejo de estimular a discussão e a partilha de conhecimento entre aqueles que intervêm nas áreas da crise, desastre ou catástrofe, reflectindo conjuntamente e congregando leituras interdisciplinares.

Trauma stories – the hidden side of the interview

Gavin Rees (Diretor do Dart Centre Europe | Escola Superior de Jornalismo da Universidade de Columbia/Nova Iorque)

21 de novembro de 2012, 15h00, Auditório do Centro de Informação Urbana de Lisboa, Picoas Plaza, Rua do Viriato, 13 | Lisboa

Resumo

Trauma is news. For a society to function people need to know about the worst things that can befall individuals and their communities. But no area of news coverage arouses greater ambivalence. We may find ourselves gripped by the news, while simultaneously wishing that we had never seen it. What does it take for journalists to navigate this minefield? Portraying the lives of people who have been adversely exposed to traumatic events, such as sexual violence, street crime, armed conflict or other forms of human tragedy, requires research, knowledge and sensitivity – and in some cases genuine personal courage.
Gavin Rees, the Director of Dart Centre Europe, will talk about why trauma awareness for journalists matters and, in particular, will look at the hidden aspects of trauma interviewing that rarely get talked about.
Nota biográfica

Gavin Rees, jornalista e realizador, é diretor do Dart Centre Europe, um projeto da Escola Superior de Jornalismo da Universidade Columbia em Nova Iorque dedicado à promoção de abordagens éticas e inovadoras na cobertura jornalística do trauma e da violência. Gavin Rees é responsável pela implementação na Europa do trabalho do Dart Centre, atuando nessa qualidade como consultor em organizações noticiosas, ONG e escolas de jornalismo para a consciencialização sobre o trauma. Embora a sua carreira tenha iniciado como investigador político, trabalhou durante vários anos para uma grande variedade de meios de comunicação social. Durante cerca de quinze anos produziu notícias nas áreas económica e política para a Financial Times Television, CNBC e notícias internacionais para grupos japoneses. Participou também na produção de filmes e documentários para a BBC e o Channel 4, entre outros.

O seu interesse pelas narrativas traumáticas nasceu das entrevistas que realizou a sobreviventes do ataque nuclear a Hiroshima, no âmbito de um documentário para a BBC, premiado com um Emmy em 2006. Atualmente é investigador visitante da Universidade Bournemouth, onde desenvolve investigação sobre a narrativa jornalística sobre a violência, e é membro da direção da European Society of Traumatic Stress Studies.

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