Abigail Norfleet James: rapazes e raparigas não aprendem da mesma maneira

Abril 29, 2013 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 20 de Abril de 2013.

abigail

Bárbara Wong

Há crianças que precisam de aprender em escolas separadas para conhecerem o seu verdadeiro eu, acredita a especialista.

Abigail Norfleet James estudou numa escola só para raparigas, a St. Catherine’s School, em Richmond, Virgínia, Estados Unidos. Começou a dar aulas na década de 1970, assim que terminou a licenciatura e sempre se debruçou sobre as diferenças de aprendizagem entre rapazes e raparigas.

Por isso, na sua tese de doutoramento, em 2001, comparou licenciados, do sexo masculino, que frequentaram escolas diferenciadas com os que aprenderam em escolas mistas. Já publicou vários livros sobre o tema. Como ensinar o cérebro masculino e Como ensinar o cérebro feminino são alguns dos títulos.

A especialista em educação está em Portugal a convite da Associação Europeia das Escolas de Educação Diferenciada (EASSE) e, na sexta-feira, fez algumas formações para professores nesta área. O objectivo é que os docentes “adeqúem as suas metodologias aos avanços científicos no que se refere às diferenças do cérebro das raparigas e dos rapazes e Abigail Norfleet James é uma das maiores especialistas nesta área”, justifica Margarida Garcia dos Santos, presidente da associação em Portugal, acrescentando que esta informação pode ajudar a combater o insucesso escolar.

Este sábado, à tarde, no IV Congresso Internacional de Educação Diferenciada, em Lisboa, a investigadora norte-americana vai falar sobre o que os professores precisam de saber sobre os rapazes e as raparigas na sala de aula. Ao PÚBLICO aponta as diferenças de géneros e a importância da liberdade de escolha por parte dos pais para puderem optar por escolas separadas ou mistas.

Elizabeth Spelke, especialista em psicologia cognitiva que trabalha com bebés no seu BabyLab na Universidade de Harvard, diz que não existem diferenças entre as capacidades cognitivas dos rapazes e das raparigas. Concorda?

Abigail Norfleet James  – Não. Sabemos que as raparigas aos 20 meses, em média, têm o dobro do vocabulário do que os rapazes com a mesma idade. Isso significa que, desde o início, elas têm mais capacidades de se expressarem verbalmente. Mesmo que não se acredite neste facto, existem diferenças cognitivas entre rapazes e raparigas e só isso vai fazer com que se desenvolvam diferenças. Sublinho que estou a falar da média dos rapazes e das raparigas e não de crianças individualmente. É provável que não existam diferenças entre uma rapariga e um rapaz, em termos individuais, mas quando olhamos para grupos de crianças, as diferenças existem e os professores trabalham com crianças e com grupos. O problema da neurociência é que observa os indivíduos enquanto na educação se trabalha com grupos e essa pode ser a fonte de discordância nesta área.

Mas não é controverso dizer que os cérebros dos rapazes são diferentes dos das raparigas?

Não há qualquer controvérsia. As diferenças são claras e os investigadores do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos têm vários resultados que vão nesse sentido. Sabemos que no cérebro, o hipocampo (o órgão que torna as memórias de curto prazo em memórias de longo prazo) se desenvolve mais cedo nas raparigas. Isso significa que elas têm melhores memórias do que os rapazes? As evidências baseiam-se em testes de palavras e sabemos que as meninas têm capacidades verbais melhores do que os rapazes, ou seja, o que os testes revelam são as suas capacidades verbais e não da memória. A amígdala (outro órgão do córtex cerebral que nos permite lidar com as emoções fortes) desenvolve-se mais rapidamente nos meninos e isso pode explicar porque é que eles são mais reactivos e mais barulhentos do que elas. Os lóbulos pré-frontais (que nos ajudam a tomar decisões fundamentadas e a controlar os nossos impulsos) terminam de se desenvolver aos 18/20 anos nas raparigas e por volta dos 20/25, às vezes até aos 30 anos, nos rapazes.

As diferenças não podem estar na forma como os educamos – a escolha de brinquedos que os pais fazem para os rapazes pode levá-los a ser mais reactivos e barulhentos? As diferenças entre homens e mulheres não são culturais ou mesmo históricas – o homem caçador e a mulher recolectora – e, por essa razão, influenciarem o modo como cada género se comporta e aprende?

Assume que as diferenças são determinadas pelos pais ou pela cultura. Eu penso que os pais e a cultura estão simplesmente a responder a comportamentos que vemos nas crianças. Os pais dão carros aos rapazes porque os seus olhos respondem bem ao movimento e dão bonecas às raparigas porque elas respondem bem aos rostos. Os pais não sabem isso, mas se dermos uma boneca a um rapaz ele vai virá-la de cabeça para baixo ou tratá-la como se fosse um jogo de construção; ao passo que as raparigas vão dar nomes aos carros e tratá-los como se fossem seres vivos. A ideia da cultura caça/recolha pode ter chegado a nós através do nosso ADN. Um novo campo de conhecimento, a epigenética, dedica-se a observar como é que o nosso comportamento muda as moléculas no nosso ADN e começa a compreender que essas mudanças podem passar para as crianças.

Defende a educação diferenciada a partir de que idade?

Os rapazes e as raparigas são muito diferentes logo no pré-escolar e é aí que se adquirem os hábitos escolares. Normalmente só notamos as diferenças quando chegam à puberdade ou, às vezes, mais tarde.

Os rapazes devem ser ensinados só por homens e elas por professoras?

A investigação diz que não interessa quem os ensina, mas que os professores compreendam como é que cada um dos géneros aprende. Eu sou uma excelente professora de Ciências para rapazes porque sou mais visual e gosto de trabalhar no laboratório. Desenho imenso para ilustrar o que estou a dizer, uso quadros e gráficos com informação porque os rapazes gostam disso, ao passo que as raparigas gostam de saber mais e estão sempre a perguntar.

A escola ideal é a que separa os géneros?

Depende da criança. Algumas precisam de escolas diferenciadas, outras não. O que precisamos, como pais, é de ter liberdade de escolha.

Não é saudável que rapazes e raparigas estejam juntos? Esse modelo existe: escolas onde os alunos são separados por géneros nas salas de aula mas que se encontrem durante o dia?

Nas escolas diferenciadas da Islândia, os rapazes vão às aulas em metade do edifício e a outra metade é para as raparigas. Durante uma hora por dia, eles encontram-se para fazer actividades que não contam para a avaliação, por exemplo, fazer um puzzle, ter uma aula de música ou participar num projecto comunitário. Contudo, não os deixam estar no mesmo recreio porque os rapazes tomam conta das estruturas de escalada e as raparigas fazem actividades de grupo mais calmas. Mas quando as raparigas estão sozinhas no recreio, elas fazem escalada, construções e brincam com mais barulho e à-vontade.

Mas não é importante conhecer e crescer com o outro género?

Sem dúvida, por isso gosto do modelo islandês e recomendo que rapazes e raparigas trabalhem em conjunto. Contudo, as crianças têm mais oportunidades de se desenvolverem se não estiverem a ser constantemente comparadas com o outro género – “eu não sou forte porque não consigo atirar a bola tão longe quanto um rapaz”, esta ideia nunca me ocorreu porque andei numa escola só para raparigas, atirava a bola e pronto. Quando conheci rapazes eu era eu e não uma ideia do que eu pensava que os rapazes queriam de mim.

Está a dizer que a educação diferenciada não promove os estereótipos de género?

Na realidade, a educação mista é que os promove porque as crianças acreditam que certos comportamentos não são próprios do seu género. Nas escolas separadas não há limites sobre aquilo em que cada criança se pode transformar e, por isso, eu sou uma mulher cientista e o meu filho canta música clássica – ambos andámos em escolas separadas.

Actualmente, em Portugal as escolas que existem de ensino diferenciado estão ligadas a uma instituição da Igreja Católica, a Opus Dei, e às Forças Armadas, quer comentar?

Eu gostaria que existissem outras que não tivessem qualquer ligação, mas já é um bom começo. As escolas são diferenciadas não porque pertençam a uma religião ou às Forças Armadas mas porque essas instituições tradicionalmente tinham esse tipo de escolas. No resto do mundo, conheço escolas mistas que pertencem a congregações religiões ou são escolas militares.

No nosso país, a educação diferenciada existiu nas escolas públicas até ao início da década de 1970. Promover esse tipo de sistema não é um regresso ao passado?

Ter já existido não é razão para se deitar fora. O sistema misto não funcionou assim tão bem. O que eu gostaria é que os pais tivessem liberdade de escolha. Na Nova Zelândia, todas as cidades têm, pelo menos, três escolas secundárias – uma mista, uma para raparigas e outra para rapazes. Para onde é que cada criança vai é com os pais. Não é um mau sistema. Há regiões nos Estados Unidos onde as escolas diferenciadas são públicas. O sistema de educação diferenciado é uma escolha maravilhosa para as crianças, mas não devem ser a única opção.

 

 

Quando os rapazes e as raparigas não se encontram nos corredores da escola

Janeiro 16, 2013 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do Público de 2 de Janeiro de 2012.

Liliana Pascoal Borges

Durante os primeiros anos de vida, a escola é o nosso mundo. Aprendemos as letras, os números e, sobretudo, aprendemos a viver com os outros. O PÚBLICO foi conhecer dois colégios onde o mundo dos rapazes e das raparigas não se cruza.

À entrada do Planalto, colégio exclusivamente masculino, está um aluno do 6.º ano sentado numa secretária, com a cabeça pousada no braço, de lápis na mão e com alguns livros à frente. Quando nos vê, levanta-se da cadeira e, do seu lugar, cumprimenta-nos com um “bom-dia”. Não está ali por acaso.

O director António Sarmento chega pouco depois e explica que se trata de uma tarefa que é atribuída diariamente a todos os alunos, com o objectivo de “incutir nos rapazes o sentido de poder e responsabilidade, através de simples tarefas, recados, ou simplesmente serem a cara do colégio”.

Nesta escola de Lisboa estudam só rapazes, do 5.º ao 12.º ano. O ensino diferenciado, em que rapazes e raparigas estão separados, funciona em quatro escolas, duas em Lisboa e duas no Porto, que pertencem à cooperativa Fomento, ligada à Opus Dei; e uma das suas responsáveis, Margarida Garcia dos Santos, foi recentemente eleita para dirigir a European Association Single Sex Education, ou seja, esta é uma experiência que acontece noutros países não só europeus.

Bruno Morais é aluno do 11.º, no Planalto, e até há três anos frequentava uma escola pública. “No início foi um choque”, confessa. “Estava habituado a partilhar a sala de aula com raparigas, o que me deixava mais distraído”, conta. Para o antigo estudante do sistema de ensino misto a experiência no colégio tem-se mostrado mais vantajosa. Bruno diz ter evoluído de um aluno mediano para um bom aluno, com objectivos ambiciosos. “Na minha antiga escola era muito mais cabeça no ar, não me interessava pelas aulas. Hoje quero ser médico”.

A mesma opinião partilha um colega mais velho. De ar descontraído e confiante, mãos nos bolsos e com expressividade e energia no rosto, Tomás de Lobão argumenta: “Nós vivemos numa sociedade em que a pressão dominante é formatarem-nos, [dizerem-nos] que somos todos iguais. Somos diferentes”. No 12.º ano e aluno do colégio desde o 5º ano, Tomás diz sentir que se tira mais partido de um ensino que direcciona as suas estratégias em função do género. “Os rapazes e raparigas têm estados de desenvolvimento e sensibilidades completamente diferentes”, argumenta. Questionado sobre a complementaridade que essa diferença poderá trazer à sua experiência académica e pessoal, Tomás responde saber que no futuro vai estar integrado num mercado misto, mas que nesta fase se sente “mais capaz” a trabalhar em grupos só de rapazes.

Para o director do Colégio Planalto, o modelo de ensino em Portugal foi feito “por mulheres e para mulheres”. Por outro lado, sublinha o director, são leccionados por um maior número de professoras do que professores e por isso todo o contexto de sala de aula e avaliação reflecte-se no geral sucesso das raparigas e no insucesso dos rapazes.

“A ideia é que perante a diferença de progressão de desenvolvimento de cada um, tem de ser diferente também a forma de chegar até eles. Na questão dos programas não podemos diferir muito. A forma de os pôr em prática, essa sim é muito diferente”, afirma António Sarmento.

Para as aulas dos rapazes, o director acredita que o segredo está no modo como são organizadas. Para cativar a atenção dos rapazes e rentabilizar o seu rendimento, as aulas devem ser preparadas com “quantidades, qualidades, responsabilidades e tempos específicos”. “Precisam de ser muito mais estimulados, de sentirem o desafio, de serem puxados por metas pequeninas”. Como? Através de revisões de matéria numa lógica de rápida pergunta-resposta, às vezes têm mesmo de se levantar da cadeira, ou passar uma bola entre os colegas, “coisas que para os rapazes são absolutamente fulcrais”, considera António Sarmento.

Já no que diz respeito às raparigas, a preocupação deve assentar na relação entre aluno e professor, uma vez que “não necessitam tanto desse ambiente de competição e de estímulo”. A diferença poderá estar no contacto visual com a turma a entrar, promover uma relação entre os colegas, quer seja no corredor ou no momento que antecede o inicio da aula, conversando sobre o dia ou aula anterior.

Casos europeus
Segundo dados do último relatório da European Association Single Sex Education (EASSE), de 2008, no top das 100 melhores escolas do Reino Unido, 81 funcionavam com o modelo de educação diferenciada. Na Nova Zelândia, há mais 75 escolas diferenciadas no sector público do que no sector privado. O mesmo acontece na África do Sul, Coreia do Sul e Japão.

Recentemente nomeada presidente da EASSE, Margarida Garcia dos Santos fala dos objectivos da associação em Portugal. Nas suas palavras o modelo “tem provas dadas e vale a pena conhecer” e por isso importa “divulgar o que se pensa só ter existido no passado e que deixou de existir”. Por outro lado, a organização pretende “fomentar estudos junto da comunidade científica, no sentido de que se conheçam melhor as vantagens deste modelo”.

A presidente da associação explica que este modelo “não tem nada a ver” com as opções que nos anos 1950 sustentavam escolas com ensino diferenciado, sublinhando que não se trata de continuar a fazer sentido mas de “voltar a fazer sentido”. O modelo tem inúmeras diferenças “na gestão do currículo, no espaço da escola e dentro da sala de aula”.

No contexto de sala de aula, destaca a falta de formação dos professores, que “dão aulas para uma massa não tendo em conta essas diferenças, acabando por penalizar ou os rapazes ou as raparigas, uma vez que não estão a aproveitar aquilo que são as suas diferentes formas de aprender e as formas de estar”.

“Se as pessoas do marketing percebem perfeitamente como é que têm de alcançar o público feminino e como é que têm de atingir o público masculino, então faz todo o sentido que ao nível da aprendizagem um professor, ainda que esteja numa escola mista, saiba como é que tem de atingir os resultados com os rapazes e como é tem de atingir os resultados com as raparigas”, exemplifica.

Apesar da separação entre géneros, a directora assume-se consciente de que “tem de existir equilíbrio” e “promover os necessários antídotos”, para que não haja uma excessiva estereotipização. “Há um cuidado que é mais pertinente, mais pesado nos rapazes do que nas raparigas. Procura-se muito que haja actividades agregadas à arte, à parte do teatro, da cultura, para desanuviar essa componente mais masculina”, partilha.

Para Margarida Garcia dos Santos, a necessidade não passa por criar mais escolas, mas criar experiências, nas próprias escolas mistas onde “em determinadas matérias, em determinados níveis escolares, se possam separar os rapazes das raparigas, aproveitando os ritmos de aprendizagem e melhorando o rendimento escolar”.

No mundo das raparigas
O Colégio Mira Rio, também em Lisboa – os colégios pertencem a uma cooperativa de pais, a Fomento, com ligações à Opus Dei que tem igual oferta no Porto, os colégios dos Cedros e o Horizonte, para eles e para elas, respectivamente –, está dividido por duas vivendas, com um ambiente mais caseiro e familiar e com menos espaços para actividades físicas.

Aqui é mais difícil receber um “olá”. Em vez disso, sorrisos tímidos e curiosos, distantes da descontracção a que nos habituámos com os rapazes do Planalto. A mesma reacção se repete no momento de falarem com o PÚBLICO. Ao contrário dos rapazes, que preferiram falar a sós, longe da presença dos colegas ou do director, as alunas pedem para falar em conjunto e permanecem na sala, a escutarem as respostas das colegas. Depois de, a algum custo, decidirem qual fala primeiro, todas elas são transversais numa resposta: sentem-se mais à vontade para colocar questões sem a presença de rapazes.

Ultrapassada a vergonha inicial, Maria Almeida, uma das estudantes do 12.º ano, fala das aulas de Inglês que frequenta, fora do colégio Mira Rio. À partilha da sala de aula com rapazes, antes prefere ter aulas só com raparigas. “O facto de sermos só raparigas e só termos professoras permite-nos ter uma forma de aprendizagem semelhante entre todas e que as próprias professoras percebam melhor como funcionamos”, defende. Maria diz-se ainda mais confiante, e afirma que a opção fornece mais ferramentas para conseguirem “ultrapassar as dificuldades” e tornarem-se “mais independentes”.

“Hoje em dia a facilidade de relacionamento e interacção é imensa, não é como na altura dos nossos trisavós e bisavós, e por isso há que aproveitar o ensino diferenciado para sedimentar valores de forma muito sólida”, defende a directora do Colégio Mira Rio, Ana Teixeira Dias.

Questionados sobre o futuro deste modelo, se poderá crescer, a presidente da associação e os dois directores dos colégios assumem algumas reservas, sobretudo devido à instabilidade económica que muitas famílias enfrentam. Estas escolas são privadas e, por isso, pagas.  “Não me parece que seja por falta de provas que é claramente muito bom e um modelo a seguir. Mas adivinho que não seja um futuro muito imediato”, resume a directora do Mira Rio.

Vídeo e comentários dos alunos Aqui


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