A cientista que tem um BabyLab, um laboratório cheio de pais e bebés

Outubro 23, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 12 de Outubro de 2012.

Por Ana Gerschenfeld

Vimos ao mundo já equipados com uma série de sistemas cognitivos de base. Elizabeth Spelke estuda há quatro décadas esses tijolos de construção da mente humana.

Voz suave e expressão doce, cabelos lisos partidos ao meio e roupa descontraída que fazem lembrar a revolução hippie, Elizabeth Spelke, hoje com 63 anos, é mundialmente conhecida pelos seus trabalhos em psicologia cognitiva. Começou na década de 1970 a tentar perceber como é que as crianças pequenas dão sentido ao mundo que as rodeia – e a procurar identificar os nossos “sistemas cognitivos nucleares” inatos. No seu BabyLab da Universidade Harvard, mais parecido “com a sala de uma casa” do que com um laboratório convencional, a sua equipa acolhe dezenas de pais e filhos para tentar avaliar a compreensão que, aos poucos meses de idade, os bebés humanos têm dos conceitos de número ou de espaço geométrico, do comportamento dos objectos e até das interacções sociais. Após a conferência que deu na semana passada no simpósio internacional de neurociências que decorreu na Fundação Champalimaud, em Lisboa, Elizabeth Spelke conversou com o PÚBLICO.

O que faz no seu BabyLab?
Interessa-me a mente humana e o que nos torna capazes de desenvolver conhecimentos tão ricos e sistemáticos acerca do mundo. A minha maneira de abordar estas questões é voltando aos estádios mais precoces do desenvolvimento. Estudo crianças e pergunto-me como é que elas conseguem dar sentido ao mundo, o que compreendem, como os seus conhecimentos crescem e mudam ao longo da infância antes de começarem a escola. Trabalho sobretudo com crianças a partir dos três, quatro meses de idade.

Como se faz esse trabalho?
Temos equipamentos para observar os bebés, registar as suas acções e apresentar-lhes coisas que controlamos com grande precisão. Mas ao mesmo tempo, os pais e as crianças que nos visitam poderiam pensar que estão na sala da uma casa. Volta e meia, retiramos os elementos de distracção para mostrar uma coisa a uma criança e ver a sua reacção. Mas mesmo assim, o BabyLab não parece um laboratório. Não há batas brancas e não treinamos os bebés. Observamos o seu comportamento, as suas capacidades naturais.

Quantas crianças passam pelo laboratório?
Pode haver entre 10 e 15 crianças no laboratório ao mesmo tempo, em diversas experiências. Numa semana carregada, podemos ter 30 ou mais crianças, que ficam lá 30 a 45 minutos de cada vez e participam em vários estudos.

Que capacidades estuda?
As minhas primeiras pesquisas foram sobre a compreensão dos objectos pelas crianças – a capacidade de ver os objectos, de os seguir ao longo do tempo, de pensar neles quando não estão visíveis e de prever o seu comportamento futuro. Prever, por exemplo, que quando um objecto colide com outro, o movimento de ambos vai mudar. Também fizemos estudos de cognição espacial, ou seja de navegação num dado espaço.

Como é que medem o que as crianças percebem?
No caso da navegação espacial, pedimos aos pais para trazerem um brinquedo e pomo-lo numa caixa. Não é preciso ensinar um bebé de 18 meses que tem de ir buscar o seu brinquedo – e nós aproveitamos esse comportamento espontâneo para tentar perceber como é que o bebé apreendeo sítio onde está. Também introduzimos perturbações espaciais, por exemplo fazendo rodopiar as crianças para as desorientar ou alterando aspectos da sala para avaliar as alterações de comportamento.

Qual é o denominador comum do seu trabalho?
Quase toda a minha investigação tem consistido em tentar isolar as capacidades cognitivas que se desenvolvem cedo e das quais precisamos para, mais tarde, raciocinar correctamente na matemática e nas ciências. A minha visão de conjunto é que existe uma série de sistemas cognitivos “nucleares”, com que nascemos já equipados, e que foram apurados ao longo da evolução para desempenhar tarefas, tais como saber onde estamos ou identificar e categorizar os objectos.
Mas nós, humanos, somos a única espécie que consegue combinar essas capacidades de base de formas inéditas para criar novos sistemas de conhecimento e resolver novos problemas com novos conceitos. A minha hipótese é que essa produtividade provém do que é talvez a única capacidade exclusivamente humana: a de utilizar símbolos externos – e sobretudo a linguagem – para representar a informação. A linguagem não serve só para comunicarmos informação aos outros, serve também para formularmos novos conceitos na nossa própria mente, reunindo informação vinda de sistemas cognitivos à partida distintos. Assim, quando os sistemas cognitivos nucleares que partilhamos com outros animais se combinam, gera-se um conjunto de capacidades que são só nossas. Somos os únicos a fazer matemática, ciência, a desenvolver sistemas inteiros de novos conceitos.O que está a estudar agora?
O que me interessa neste momento é a cognição social: como é que os bebés reagem a pessoas que interagem socialmente umas com outras. E os nossos resultados sugerem que, muito cedo no desenvolvimento, por volta dos quatro meses de vida, já existe uma sensibilidade dos bebés à conformidade – ou seja, ao facto de as pessoas interagirem fazendo gestos semelhantes. Estamos a começar a ver se os bebés usam essa informação para compreender quem gosta de quem, quem está ligado a quem.

 

Os bebés já sabem muito quando nascem

Outubro 17, 2012 às 12:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 5 de Outubro de 2012.

A psicóloga Elizabeth Spelke prova que possuímos capacidades cognitivas inatas quando nascemos.

Muitas formas do conhecimento humano são inatas, nascem connosco, revelam as experiências pioneiras feitas no laboratório de Elizabeth Spelke, investigadora e professora de psicologia na Universidade de Harvard (EUA), que foi esta semana uma das oradoras do Simpósio de Neurociências na Fundação Champalimaud, em Lisboa.

Nos últimos 20 anos, Spelke mudou profundamente a maneira como a comunidade científica encara a mente dos bebés, que antes era definida como algo que só adquire conhecimento através da experiência, da educação e da socialização.

Para saber os segredos da cognição humana e da organização da mente, a cientista prefere investigar os bebés e não os adultos. “A mente humana é extremamente complicada, em especial a adulta, onde há uma grande variabilidade nas pessoas que vivem em diferentes culturas e circunstâncias”, justifica a psicóloga. “Mas quando olhamos para as crianças, há menos diversidade e vemos de uma forma mais clara as nossas capacidades cognitivas fundamentais.”

Por outro lado, “os segredos da mente humana só serão revelados através de uma visão multidisciplinar que não inclua apenas a investigação que eu faço”, explica. Para isso é necessário responder a questões cruciais sobre a relação entre a inteligência humana e a de outros animais, porque as técnicas mais poderosas para estudar o cérebro humano só podem ser aplicadas em animais.

Propriedades básicas

“Quando comparamos as capacidades cognitivas de um humano

Elizabeth Spelke diz que investigar a mente dos bebés permite ver as nossas capacidades cognitivas fundamentais adulto com as dos animais, há uma enorme diferença, mas se o fizermos com bebés vemos mais as semelhanças, encontramos as propriedades básicas das nossas mentes, que evoluíram em grande medida antes de emergirmos como uma espécie, e que tornam hoje possível a inteligência e a aprendizagem”, salienta Elizabeth Spelke.

Mas afinal o que sabem realmente os bebés nos primeiros meses de vida, que capacidades inatas possuem? “Consideremos, por exemplo, a capacidade para seguir e reconhecer objetos. Os bebés parecem ter sido ‘construídos’ para dividir o mundo percetível que veem em partes relacionadas que estão separadas uma a uma e que se movem como se estivessem ligadas, de uma forma contínua, mesmo quando estão fora de vista.”

Partilham o nosso esquema conceptual, embora não reconheçam quase todos os objetos numa cena. “Os bebés têm alguma sensibilidade para as faces humanas, para os corpos humanos e dos animais, mas não para simples artefactos como mesas, cadeiras, chávenas, etc. Mostram algumas das nossas capacidades, mas não todas”.

Do concreto ao abstrato

A investigadora esclarece que “isto também é verdade quando nos movemos de um domínio concreto de reconhecimento de objetos percetíveis para domínios abstratos, como os números”. Uma boa parte da investigação que Spelke tem feito é precisamente sobre estes conceitos abstratos e concluiu que “bebés com um ou dois dias de vida, acabados de nascer, são sensíveis aos números, mas apenas a números aproximados”. Conseguem distinguir um grupo de quatro objetos de um conjunto de 12, que diferem numa razão de 3 para 1.

“As nossas experiências provam que a base desta discriminação é o número, embora numa representação muito imprecisa.” Nas experiências são mostradas diferentes imagens aos bebés e deduzem-se quais as mais apelativas pelo tempo que dura a sua atenção sobre elas.

Quando as crianças crescem, a representação fica progressivamente mais precisa e por volta dos quatro anos começam a usar este sistema para construir representações simbólicas únicas dos números. Além de objetos e de números, os bebés também têm noções básicas de geometria — tema da intervenção de Elizabeth Spelke no Simpósio de Neurociências — e de cognição social.

Virgílio Azevedo

vazevedo@expresso.impresa.pt

 


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