Não publiquem fotos de seus filhos pelados

Setembro 5, 2012 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo publicado no site Youpix no dia 21 de Agosto de 2012.

por Elis Monteiro, jornalista do Telefonia ETC

Mariana* tem 7 anos de idade e um perfil no Facebook. Já criou, com a ajuda da mãe, álbuns de fotos com os pais, amiguinhos, família, de sua festinha de aniversário, registros feitos no shopping, na praia… Há também imagens de passeios, recadinhos deixados pelos padrinhos e colegas de mesma idade ou um pouco mais velhos e, em sua lista de amigos, coleguinhas da turma da escola combinam inclusive a aventura do próximo fim de semana. Mesmo com o autodeclarado controle da mãe, Mariana publicou, em poucos meses de vida online, mais informações pessoais do que muita gente já o fez em toda a vida.

Em poucos minutos analisando a conta da pequena é possível obter todo tipo de informação necessária para traçar um perfil rico e detalhado, envolvendo gostos, movimentos, endereço, atividades, sem qualquer dificuldade. E mesmo que nas fotos de seus álbuns não apareça a logomarca do colégio onde ela estuda, basta dar um pulinho nas fotos dos amiguinhos da Mariana e, eureca!, está tudo lá.

Há vários erros na história da Mariana.

O mais grave e primeiro: não só o perfil dela, mas os de todos os amiguinhos da Mariana são abertos ao público, ou seja, qualquer um pode fuxicar, escrever no mural, vasculhar fotos e pular de perfil em perfil em busca do que quiser. O segundo erro diz respeito à própria política de uso da rede social – o Facebook diz só aceitar pessoas com mais de 13 anos de idade. Assim como ocorria no Orkut, no entanto, basta mudar o ano e… voilá, tudo liberado! Vez ou outra o Facebook promove uma caçada, mas as próprias famílias dão um jeitinho de burlar as regras – ou estou exagerando?

No caso de Mariana, mandei avisar à família: apaguem o perfil da criança ou pelo menos criem filtros de acesso aos álbuns, ao mural, qualquer ferramenta que proteja os dados infantis dos olhos maliciosos do mundo. O terceiro erro é a falta de acompanhamento dos pais, não só do que se troca nas mensagens privadas, mas do que se compartilha – o problema é que os próprios adultos ainda não sabem o que podem e sobretudo o que devem postar em público.

A coisa fica mais grave agora, e como! As crianças estão chegando aos montes às redes sociais outrora dominadas por adultos e os pais não estão se dando conta dos riscos e das transformações que chegam a reboque.

Todos devem se lembrar de quando os pequenos começaram a “invadir” o Orkut. Nos termos de uso do serviço, a recomendação era clara – pessoas com menos de 18 anos não podiam frequentar o espaço! Mas não havia controle algum e, como era de se esperar, adolescentes e pré-adolescentes começaram a se relacionar uns com os outros e com o mundo tendo como meio os lendários scrapbooks.

Agora, no entanto, a coisa é mais complicada: nas atuais redes sociais (e nas futuras), a conversa não se dá mais entre duas pessoas, via “recadinhos”. O Facebook é uma rede social de fato, onde pessoas se encontram nas conversas umas das outras, sem filtros, mesmo que não pertençam às listas particulares. Qualquer amigo de um amigo passa a fazer parte da mesma conversa desde que citado por alguém em comum. E o que fazer agora que as crianças estão participando deste enorme, gigantesco bate-papo, essa mesa de bar que tem quase um bilhão de frequentadores?

Resposta difícil, mesmo para quem tem a mente aberta e está sempre de butuca ligada no que os filhos aprontam. Dia desses, encontrei meu amigo Léo no shopping. Estava super bem acompanhado da filhota – uma fofura de dez anos, inteligente e simpática, como papai e mamãe, ambos frequentadores assíduos do ciberespaço. Disse-me ele que a menina já está no Facebook, assim como a maioria dos amigos. Antes que eu contestasse a informação, Léo emendou com aquilo que seria meu conselho para ele: é preciso usar filtros para conviver com crianças numa rede social.

No caso dele, o primeiro filtro é o do público: quando escreve um post, escolhe quem será o receptor – grupos X, Y e Z, todos devidamente organizados nas configurações da conta. Assim, ele não perde o direito de escrever o que der na veneta e ao mesmo tempo não fica preocupado com o que a filha e os amigos (que passaram a fazer parte da lista dele também) acabem participando de conversas impróprias para a idade.

O perfil da filha do Léo é fechado. Ele controla quem entra na rede dela, o que ela responde e não permite que a menina crie asas dentro do mundaréu que é o Facebook. Ele está certíssimo!!! Sabe com o que está lidando e seu comportamento deve ser seguido, principalmente por aqueles que, por não terem muita intimidade com a Web, não sabem nem direcionar a navegação dos filhos. A internet não é um mundo paralelo, é apenas um pedaço desse aqui que, convenhamos, é defeituoso à beça.

De acordo com pesquisa conduzida pela empresa de segurança Norton, as crianças já costumam ficar conectadas, em média, 18,3 horas por semana. Se já era complicado fiscalizar o vai e vém na era dos desktops, imagina agora com smartphones e tablets! A empresa ouviu 2.800 crianças e descobriu que nada menos que 41% delas aceitam convites de estranhos nas redes sociais. Sim, colocam para dentro de casa pessoas desconhecidas delas e, provavelmente, também dos pais.

É muito fácil para nós, que amamos a internet e estamos sempre plugados, acharmos que “Law and Order SVU” é só ficção. Mas a verdade é que muito do drama acontece do lado de cá também. Vejam só: segundo a ONG Safernet, blogs e redes sociais potencializam o contato com estranhos e a publicação de dados pessoais – em um estudo com 875 jovens brasileiros, a ONG mostrou que 73% deles compartilharam fotos e 80% revelaram o nome.

O quarto erro parte dos pais e para ser imitado pelos filhos nada custa. O fato é que papai e mamãe têm compartilhado mais do que deveriam, incluindo fotos dos filhos com uniforme da escola, dos filhos pelados (juro!), dos carros, dos filhos dos outros, ou seja, não há limite para nada. Pior: misturam o que há de mais perigoso nas redes sem pensar nas consequências para suas famílias. Chegam ao shopping com as crianças e dão check-in no Foursquare ou no Facebook; fazem fotos do computador moderno e/ou do tablet que acabaram de adquirir e mandam pro Instagram; publicam logo em seguida um tweet avisando que estão indo para o lugar tal, levando a criançada – e os bens. Estão dando um mau exemplo para os filhos, que acompanham tudo isso na rede social. Assim, entendem que tudo deve ser exposto e compartilhado. Não é verdade!

As redes sociais nos dão uma falsa impressão de segurança que pode ser muito perigosa – e me desculpem por bancar a chata a tocar nesse assunto. Mas no momento em que as crianças passam a dividir o território conosco, as regras não podem mais ser as mesmas.

Dizer que o filho está no Facebook é legal, é o maior barato unir gerações numa mesma conversa, trocar fotos, deixar os amigos a par do que sua família faz, mas não podemos esquecer (quinto erro) que as crianças não têm maturidade para discernir o certo do errado, o perigoso do seguro; não têm malícia suficiente e são vítimas fáceis para espertinhos de plantão. Mais grave ainda: por terem nascido na era Google, estão construindo um passado digital que os seguirá para sempre, deixando rastros inapagáveis, e não estão aprendendo a valorizar uma palavrinha básica – Privacidade. Infelizmente, ainda não criaram um botão de APAGAR capaz de varrer nossos desvarios do ciberespaço.

A saída? Controle, controle, controle. Ou redes sociais próprias para crianças, com regras e filtros – Club Penguim, Neopets e por aí vai. E muitos NÃOS, que eles fazem um bem danado aos nossos filhos!

*Elis Monteiro é jornalista especializada em tecnologia, telecomunicações e novas mídias e mãe do Gui, que tem 4 anos e ainda não sabe o que é Facebook (ufa!)


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