“Não há conteúdo pedagógico sério”: o que os especialistas dizem de SuperNanny

Janeiro 17, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 15 de janeiro de 2018.

Ana Cristina Marques

Tânia Pereirinha

Psicólogos e pediatras condenam a exposição das crianças, mas dizem que SuperNanny faz pensar na falta de soluções para apoiar estas famílias. No estrangeiro, houve críticas graves a programas iguais.

Mãe e filha debatem-se na imposição de regras. Chegada a hora de ir dormir, a menina de sete anos faz birra porque não quer ir para a cama. A mãe vê-se forçada a impor um castigo, que passa por sentar a menina no banco durante alguns minutos. A criança esperneia-se, chora e diz repetidamente “não quero ir para o banco”. Tudo isto acontece ao som de uma pianada melancólica e com a supervisão da SuperNanny, a apresentadora do programa emitido no domingo à noite, na SIC, que já levou a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) a emitir um comunicado a alertar para o “elevado risco” de o programa “violar os direitos das crianças, designadamente o direito à sua imagem, à reserva da sua vida privada e à sua intimidade”.

Académicos, psicólogos e pediatras dividem-se. Os diferentes especialistas na área da educação, contactados pelo Observador, falam num tom depreciativo sobre a exposição desnecessária a que a criança foi sujeita, e os conselhos transmitidos por Teresa Paula Marques, a apresentadora que no programa não se assume enquanto psicóloga, geram pouco consenso.

“Ela tem de voltar a formar-se”

“A estratégia do tempo de pausa foi completamente mal utilizada”, aponta Maria Filomena Gaspar, docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade de Coimbra. “Isto é muito mau”, continua, referindo-se precisamente ao momento em que a menina de sete anos é castigada e votada a ficar sozinha, sentada num banco. “Primeiro, não se isola a criança. Segundo, não se faz a criança sentir que está de castigo. O tempo de pausa é o tempo em que a criança se pode acalmar e nunca pode ser superior a cinco minutos”, afirma a docente, que fala ainda numa atitude “completamente desrespeitadora” para com a criança.

Filomena Gaspar, que assistiu ao programa de domingo à noite, refere que Teresa Paula Marques, cuja atuação já foi alvo de queixas recebidas na Ordem dos Psicólogos, “comportou-se como uma especialista”, no sentido em que impôs a necessidade de existirem respostas certas. “Ela é que dava as respostas todas, foi isso o que me chocou mais”, diz, destacando o facto de a SuperNanny não ter tido em conta as competências da mãe.

Maria Filomena Gaspar dá ainda outro exemplo, referindo-se ao momento de confrontação entre mãe e avó, na presença da pedagoga: “Aquilo não é intervenção, não tem nada que ver com terapia familiar. Ela [Teresa Paula Marques] não trabalha nem utiliza os modelos que promovem a mudança. Estes são modelos que dão receitas fáceis e tornam as pessoas dependentes dos especialistas. Não promovem a autonomia nem o crescimento pessoal”. A docente universitária deixa claro que a experiência profissional “não é, nem nunca foi, sinal de eficácia” e atira: “Ela tem de voltar a formar-se”.

Já o pediatra Jorge Amil Dias, presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria, acrescenta que os “princípios gerais subjacentes aos conselhos dados parecem corretos”, ainda que devam ser “enquadrados nos problemas específicos de cada família”. “Há uma simplificação e tentativa de ‘tipificação’ de comportamentos que podem ser gravemente perniciosos”, acrescenta, condenando as “receitas mágicas” que diz estarem muito provavelmente condenadas ao insucesso e que podem ainda potenciar novos conflitos. Jorge Amil Dias defende ainda que o programa parece revelar “uma aparente teatralização de uma situação familiar”.

“O programa mostra a lacuna que existe na educação parental”

Isabel Abreu Lima, docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) prefere sugerir que há diferentes pontos de vista em causa e começa por dizer que não vê nenhuma atuação da psicóloga que seja “passível de recriminação”, apesar de apontar o dedo à exposição da criança de sete anos. “Há aqui um intuito de mediatismo, já não sabemos bem definir o que é público do que é privado, habituados que estamos à devassa total da vida privada. Por outro lado, tenho a dizer que o que a psicóloga está a transmitir aos pais é extremamente útil. É possível que tenhamos muitos pais e mães a identificarem-se com aquela situação”, diz, chamando a atenção para as estratégias positivas apresentadas no programa, isto é, a imposição de regras, a criação de rotinas e a definição de limites.

Dito isto, a mesma docente deixa claro que não é partidária “de fazer estas intervenções sem o devido enquadramento”, admite que a aprendizagem dos conselhos dados não é assim tão direta e imediata, e assegura que não é adequado largar “estas coisas” na esfera pública sem salvaguardar que são bem entendidas. Isabel Abreu Lima fala ainda na necessidade de uma intervenção preventiva face à educação parental: “O programa mostra a lacuna que existe ao nível da formação de pais e da informação dada aos pais. Não tenho dúvidas que a maior parte dos pais precise de ajuda e que ninguém lhes esteja a dar essa mesma ajuda”.

Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica contactada pelo Observador, concorda e fala da probabilidade de uma “mãe profundamente vulnerável” ter recorrido ao programa enquanto solução de último recurso. “Qual é o nível de oferta deste tipo de serviços em Portugal?”, questiona, ao mesmo tempo que defende não existir lugar para uma intervenção emocional nas consultas de psicologia nos hospitais públicos. “Vale a pena pensar, antes de criticar esta mãe e esta produção, qual seria a alternativa”, diz, reconhecendo que a forma do programa “não é perfeita” e que o nível de “exposição valeria a pena ser revisto e ponderado”.

“Este tipo de programas não agoira coisas positivas e embora se diga que só participa quem quer, as pessoas e as famílias que o fazem encontram-se em situações vulneráveis”, garante Miguel Ricou, presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos. É também ele quem diz que “nenhum modelo na psicologia defende a exposição pública”.

Para o pediatra já citado, Jorge Amil Dias, o programa assenta na “exploração ‘modernaça’ de conflitos e ansiedades familiares”, no qual “não há conteúdo pedagógico sério”.

Afinal, quem é a SuperNanny?

Se não fosse psicóloga, diz Teresa Paula Marques num dos vídeos de apresentação do novo reality show da SIC, seria jornalista, “pois tem na comunicação uma das suas paixões”. Aos 51 anos e em SuperNanny, a psicóloga volta a aproximar os dois mundos — há anos que colabora com várias revistas e canais de televisão.

A primeira colaboração foi com a revista Teenager, onde tinha uma espécie de consultório e respondia às dúvidas dos adolescentes. Seguiram-se Bravo, Mariana, TV Mais, Caixa Activa, Ageless, Certa, Professor +, Flash, Viver com Saúde, Abarca, Correio da Manhã e Pais & Filhos. E depois programas de televisão, como Muita Lôco e Queridas Manhãs (SIC) e Rua Segura (CMTV).

Em 1996 publicou o primeiro livro: Cada jovem é um caso. Até 2011, editaria outros quatro, todos relacionados com psicologia infantil ou juvenil: Como lidar hoje com os filhosGuia prático para compreender o seu filhoNinguém me entende! e Clínica da Infância.

Em 25 anos de profissão, trabalhou “num bairro com famílias de etnia cigana”,”com pessoas seropositivas e respetivas famílias”, organizou “sessões de esclarecimento em escolas” e deu “aconselhamento a pais”.

Convidada há já dois anos para protagonizar SuperNanny, a psicóloga garantiu ao Observador, depois da polémica do primeiro episódio, que levou a queixas da Comissão de Proteção de Crianças e da Unicef Portugal, que não está no programa como tal — mas recusou revelar em que outra qualidade aparece.

Em vez disso, no texto da sua apresentação no site de SuperNanny, Teresa Paula Marques, natural do Tramagal, Abrantes, diz que gosta de ir ao cinema, de escrever e de fazer bijuteria — “Quase todos os colares que usa são feitos por si”.

Críticas das Nações Unidas e sentenças em tribunal

Um relatório do Comité dos Direitos das Crianças das Nações Unidas, tornado público em 2008, exortava o governo do Reino Unido, entre outras coisas, a tomar medidas para proteger a privacidade das crianças. Em causa estavam programas como SuperNanny, disse aos media britânicos Lucy Smith, à data membro do comité e professora de Direito na Universidade de Oslo, condenando “a invasão da privacidade das crianças” por formatos do género, que as mostraram “a comportar-se de forma terrível e as retrataram sob uma luz horrível”.

Não foi a única ocasião em que o formato recebeu um parecer negativo: um episódio do alemão “Die Super Nanny”, decidiu o Tribunal Administrativo de Hanover em 2014, após queixas de telespetadores e da Comissão de Proteção de Menores, “violou a dignidade humana”. Em causa estava um capítulo do reality show, emitido três anos antes, onde terão sido exibidas várias cenas de gritos, ameaças e agressões de uma mãe para com os filhos.

Nos Estados Unidos, onde além de SuperNanny foi exibido também o idêntico e concorrente 911 Nanny, os especialistas em psicologia infantil e pediatria criticaram abertamente os formatos, não só por as amas em questão darem conselhos “simplistas” ou até “questionáveis aos pais desesperados”, mas sobretudo pelas consequências deste tipo de exposição.

“A ausência de consentimento por parte das crianças preocupa-me. Quando crescerem estes miúdos vão ver as gravações em que aparecem a comportar-se como fedelhos e vão ficar envergonhados”, disse ao The New York Times, em 2005, Deborah Borchers, membro da Academia Americana de Pediatria.

 

 

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Aconselhamento parental : Saber lidar com os filhos – Formação no ISPA 21 de janeiro

Janeiro 9, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Objectivos

Conhecer modelos e princípios de aconselhamento  parental

Desenvolver competências de aconselhamento a pais numa perspectiva de intervenção em situações de crise

Programa 

O aconselhamento psicológico (definição, objectivos, habilidades fundamentais)

Educação Parental e Aconselhamento parental (definições)

O aconselhamento parental (princípios, objectivos, fases)

Aconselhamento a pais de crianças e aconselhamento a pais de adolescentes (especificidades)

Estilos educativos, práticas parentais, aliança parental , ligação parental (definição e avaliação)

Aconselhamento relativo a problemáticas específicas das crianças e dos adolescentes (birras, luto, divórcio, alimentação, sono, novas tecnologias, controlo dos esfíncteres, mentira, roubo/furto, rivalidade entre irmãos, saídas à noite)

Metodologias 

Expositivas e discussão de casos práticos

Calendarização

Sábado, Janeiro 21, 2017 – 09:30 – 12:30

Sábado, Janeiro 21, 2017 – 13:30 – 16:30

Sábado, Fevereiro 4, 2017 – 09:30 – 12:30

Sábado, Fevereiro 4, 2017 – 13:30 – 16:30

Sábado, Fevereiro 18, 2017 – 09:30 – 12:30

Sábado, Fevereiro 18, 2017 – 13:30 – 16:30

Sábado, Março 4, 2017 – 09:30 – 12:30

Sábado, Março 4, 2017 – 13:30 – 16:30

mais informações:

http://fa.ispa.pt/formacao/aconselhamento-parental

 

A influência do comportamento dos pais na educação dos filhos

Fevereiro 12, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://lifestyle.sapo.pt

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O que mais impacto tem na educação dos nossos filhos não é o que dizemos mas sim o que fazemos. Seja, desde já, a pessoa que quer que o seu filho venha a ser.

Por Ana Amaro Trindade, Psicóloga Clínica Carolina N. Albino, Especialista em Ritmos de Sono do Bebé

A nossa vivência atual acelerada orienta-nos para a procura rápida, e com pouco esforço, de resultados. O que se espera da educação não foge à tendência. Cada vez mais, surgem soluções para resolver as dificuldades que os pais vão sentindo ao educar os filhos, mas poucas apontam para a influência central na educação: as pessoas que os pais são e como se comportam. Procuram-se estratégias isoladas para lidar com a questão X ou Y, foca-se o “problema” na criança e nunca no comportamento dos pais. Torna-se fundamental consciencializar os pais da importância que têm junto dos filhos. É no dia a dia, nas pequenas coisas a que não damos valor, que o mais importante acontece.

O impacto da postura e do comportamento dos pais nos seus filhos começa enquanto estes ainda são bebés. É comum achar-se que, por serem muito pequenos, os bebés não nos compreendem ou não prestam atenção ao que dizemos e à forma como o dizemos, mas isso não é verdade. Os bebés estão muito atentos ao comportamento dos pais. Observam como estes reagem no dia-a-dia, mas também como respondem ao seu choro e ao seu desconforto. É através desta observação e através da “sintonização” com a forma de sentir e de reagir dos pais, que os bebés organizam o seu mundo interno.

Se um bebé está a chorar, espera dos pais uma resposta que lhe alivie o desconforto. Se os pais não mantêm uma postura de tranquilidade, se eles próprios se descontrolam (na respiração que fica acelerada, no tom e no volume da voz, fazendo movimentos bruscos), o bebé terá tendência a sentir-se mais inseguro. Se os pais espelham o desconforto do bebé, estão a intensificá-lo e o bebé não aprende novas formas de reagir nem de lidar com o mal-estar. Transmitir calma pressupõe, da parte dos pais, uma respiração desacelerada, movimentos firmes e lentos e uma postura confiante, combinada com uma comunicação simples e pausada de quem acredita no que propõe. O bebé poderá aprender a acalmar-se sintonizando com o estado de calma dos pais, se estes comportamentos forem demonstrados de forma congruente.

Também as crianças estão muito atentas à postura e ao comportamento dos pais. O exemplo que os pais dão é fundamental na educação e na formação do carácter dos filhos. A aprendizagem de valores é feita por observação – por verem o que os pais e adultos à sua volta fazem, as decisões que tomam e os caminhos que escolhem. É no dia a dia, através do próprio comportamento dos pais, que se ensina o respeito, a compaixão e empatia com os outros, mas também a honestidade e a coragem. Devemos mostrar que tentamos dar sempre o nosso melhor, não só para termos bons resultados, mas também pelo bem dos outros à nossa volta. A importância que damos aos aspetos materiais tem também impacto na formação do carácter da criança – se atribuímos valor às pessoas pelo que possuem, a criança aprenderá a fazer o mesmo. Deve-se ensinar a distinguir aquilo de que precisamos daquilo que queremos, tal como a distinguir o que as pessoas são daquilo que têm.

As histórias que contamos às crianças têm também um grande impacto na aprendizagem de valores, pois, para além de muitas vezes apresentarem uma “moral”, as crianças aprendem com os comportamentos das personagens. Os pais devem discutir as histórias com as crianças, pedindo-lhes que pensem nos valores transmitidos pelas histórias: Porque é que as personagens se comportaram assim? Tinham bons motivos? As decisões foram boas? Como ultrapassaram obstáculos? Quem eram os heróis e porquê? A história acabou bem – bem para quem?

Devemos ainda apresentar às crianças aquilo que esperamos delas em determinada situação e os valores que queremos que respeitem de forma clara, sendo consistentes – se um determinado comportamento não é aceitável, então não é aceitável nunca, e não apenas quando os pais não estão cansados e se sentem com disposição para serem persistentes. As regras devem estar bem definidas, bem como as consequências do seu incumprimento. No entanto, é fundamental que os pais também as cumpram – não serve de muito os pais castigarem a criança porque grita, se eles mesmos, facilmente, levantam a voz quando estão irritados; ou não autorizarem a criança a levantar-se da mesa antes de acabar de comer, se eles próprios se levantam constantemente para atender o telefone.

Nada tem mais impacto na educação de uma criança do que o comportamento dos pais. Muito mais importante do que o que os pais dizem que se deve fazer, é o que os pais mostram que se deve fazer. As palavras são importantes, mas as ações são mais. Devemos mostrar que, enquanto pais, aquilo que exigimos é aquilo em que acreditamos e que, por isso mesmo, vivemos dessa forma.

 

 

Este ano vou educar com amor e limites

Fevereiro 11, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://www.noticiasmagazine.pt de 25 de janeiro de 2016.

Ilustração Filipa Viana Who

Ilustração Filipa Viana/Who

Por: Texto Carolina Viana, Joana Horta e Sandra Pinho/CADIn *

 As regras, os limites e o amor favorecem o desenvolvimento da criança e do adolescente.

Chegado janeiro, surgem as resoluções de ano novo e os hábitos de vida mais saudável pautam os grandes objetivos para os doze meses seguintes. Mais raras são as resoluções relativas à forma como nos relacionamos, em particular na vida familiar, essencial a uma vida efetivamente saudável.  Por que não fazer um compromisso com quem mais ama?

O bem-estar e o equilíbrio psicológico crescem nutridos por dois ingredientes essenciais: o amor e os limites. O amor dá à criança a confiança incondicional de que haverá sempre alguém e algum lugar para partilhar momentos de felicidade e de dor, dúvidas, receios, sucessos e realizações. As regras desenvolvem a convicção de que o respeito pela liberdade dos outros é o único veículo para a nossa própria liberdade.

Entre os desafios da vida profissional e a intensa dinâmica familiar, somos rodeados por solicitações. Mesmo nos tempos livres, cada um com os olhos numa televisão ou num smartphone, perdemos a noção dos (muitos!) minutos retirados ao convívio familiar. Quando foi a última vez que estivemos com os nossos filhos sem ser para fazer os trabalhos de casa? E que jogámos em família? E que lemos uma história ou vimos um filme juntos? Quando é que fomos todos ao parque?

Quantas vezes relegamos a expressão do nosso amor para as ofertas materiais – a consola, o último modelo de telemóvel ou o jogo que saiu esta semana – e dedicamos o fim de semana a uma maratona de estudo para «ver se o miúdo melhora as notas»? Tudo aquilo em que acreditamos em matéria de amor e limites é colocado em prática com muita pressão e acabamos por impor regras de forma inconsistente, oscilando entre a autoridade «mãe-má» e a permissividade «mãe-deixa-tudo».

Desejamos que os nossos filhos sejam felizes, se divirtam muito e que vejam os seus sonhos realizados. Afinal, o que pode valer mais do que aquele sorriso rasgado? Pressionados pela culpa, transformamos o tempo juntos num «parque de diversões sem limites». Quando percebemos que este excesso de liberdade leva a birras e caprichos difíceis de gerir, vamos para o extremo oposto, assumindo um papel autoritário do «quem manda sou eu e não há mais conversas», infelizmente, sem melhores resultados.

A verdade é que as regras e os limites, quando bem definidos – consistentes, negociados, claros e atingíveis –, dão estabilidade, estrutura e segurança, favorecendo o desenvolvimento da criança e do adolescente, aumentando a sua autonomia e qualidade de vida, que é extensível a toda a família.

Este ano reflita no modelo de amor e responsabilidade que quer ser para os seus filhos. Transmita o seu afeto em tempo de qualidade. Mantenha a calma e a assertividade perante as birras e os confrontos. Seja firme nas regras que estabelecer e repita um «não» tantas vezes quanto necessário. Desenhe desafios possíveis de cumprir para o seu filho (e para si!), encoraje-o a resolvê-los sem ajuda e elogie-o, celebrando a sua conquista. Mostre-lhe o quanto os seus pais o amam!

Ano novo, vida nova. Este ano, trabalhe ou aprofunde o trabalho para dar ao seu filho o melhor presente de todos: as ferramentas para, um dia, ser capaz de enfrentar os desafios da vida adulta. Se lhe faltar o ânimo ou a coragem, faça «uma viagem ao futuro» e imagine o orgulho que vai sentir no adulto que ajudou a criar.

Bom ano, cheio de momentos felizes e com respeito em família!


10 RESOLUÇÕES PARA EDUCAR COM AMOR

1. Reserve pelo menos 10 minutos por dia para ouvir o seu filho, sem estar a fazer outras coisas.

2. Acompanhe uma iniciativa espontânea do seu filho para brincar.

3. Mostre-lhe frequentemente que o ama incondicionalmente.

4. Respeite um limite sugerido pelo seu filho e que reconheça como importante para ele.

5. Esteja presente nas ocasiões especiais na vida dele.

6. Valorize e elogie as qualidades do seu filho, aquilo que ele tem de melhor.

7. Planeie um momento especial com ele, só para os dois. Se tiver mais do que um filho, assegure-se de que cada um tem o seu momento especial.

8. Retribua as manifestações de carinho do seu filho.

9. Conte-lhe histórias da infância dele. Recorde-o dos momentos especiais que ele lhe proporcionou.

10. Mostre ao seu filho de que maneira gosta de ser confortado(a) e ajude-o a conhecer-se melhor também.


10 RESOLUÇÕES PARA EDUCAR COM LIMITES

1. Mantenha desde cedo rotinas de alimentação, higiene e sono.

2. Não dê ao seu filho tudo o que pede, mesmo que economicamente não seja um problema.

3. Diga «não» de forma positiva e repita-o quantas vezes for necessário.

4. Ajude-o a compreender quando erra e dê-lhe soluções alternativas.

5. Contribua para a assiduidade e pontualidade do seu filho na escola.

6. Seja consistente nas regras que estabelece. Não as faça depender do seu humor.

7. As regras devem ser as mesmas na casa da mãe, do pai, da tia ou dos avós.

8. Atribua responsabilidades ao seu filho nas tarefas domésticas

9. Diga claramente ao seu filho o que é esperado dele em cada situação.

10. Felicite-o quando corresponde às expectativas.

* Parceria NM/CADIn – Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil. Carolina Viana e Sandra Pinho são Psicólogas Clínicas e Joana Horta é Técnica Superior de Educação Espacial

 

 

 

Deve evitar-se a cama dos pais? – As Perturbações de Sono e Medidas de Educação Parental” – 12 de janeiro

Janeiro 8, 2016 às 10:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Ciclo de Conferências de Pedopsiquiatria com Margarida Crujo

“Deve evitar-se a cama dos pais? – As Perturbações de Sono e Medidas de Educação Parental”.

Dia 12 de Janeiro às 19.00 horas, no Restaurante, Piso 7, do El Corte Inglés de Lisboa.

Às vezes achamos que não queremos ouvir! Outras vezes, fingimos que não é connosco! Mas as causas das nossas preocupações podem permanecer e até piorar com o passar do tempo. Mais vale cortarmos o mal pela raiz. As perturbações que podem pôr em causa o desenvolvimento harmonioso das crianças têm nome e têm tratamento. Venha saber mais sobre elas, conheça estratégias de intervenção, coloque as suas dúvidas, e perceba qual a melhor forma de ajudar o seu filho ou educando.

Margarida Crujo nasceu em Évora há 33 anos. Oriunda de uma família tradicionalmente ligada à saúde, cresceu e viveu em Estremoz até ingressar aos 18 anos na Faculdade de Medicina de Lisboa. Licenciou-se em Medicina e, cativada pelas ciências, pelas relações humanas e pela poesia, sintetizou estes três mundos e fez a especialidade em Psiquiatria da Infância e Adolescência. Mãe entusiasta de dois filhos. É autora e co-autora de trabalhos científicos apresentados em congressos nacionais e internacionais na área de Pedopsiquiatria e dedica-se diariamente à prática clínica, a sua maior motivação.

Inscrições disponíveis no Ponto de Informação, no Piso 0, do El Corte Inglés de Lisboa ou através do e-mail relacoespublicas@elcorteingles.pt

 

Formação Contínua – Aconselhamento parental : Saber lidar com os filhos

Dezembro 22, 2015 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Destinatários 

Educadores de infância, professores, psicólogos, enfermeiros, técnicos de reabilitação e inserção social, técnicos de desenvolvimento comunitário, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais

Finalistas do mestrado integrado de Psicologia e das outras áreas

Finalistas de 2ºs ciclos de Psicologia (desde que habilitados com 1º ciclo em Ciências Psicológicas ou Psicologia)

Objectivos 

Conhecer modelos e princípios de aconselhamento  parental

Desenvolver competências de aconselhamento a pais numa perspectiva de intervenção em situações de crise

Competências 

Conhecer modelos e princípios de aconselhamento  parental

Desenvolver competências de aconselhamento a pais numa perspectiva de intervenção em situações de crise

Programa

O aconselhamento psicológico (definição, objectivos, habilidades fundamentais) Educação Parental e Aconselhamento parental (definições) O aconselhamento parental (princípios, objectivos, fases) Aconselhamento a pais de crianças e aconselhamento a pais de adolescentes (especificidades) Estilos educativos, práticas parentais, aliança parental , ligação parental (definição e avaliação) Aconselhamento relativo a problemáticas específicas das crianças e dos adolescentes (birras, luto, divórcio, alimentação, sono, novas tecnologias, controlo dos esfíncteres, mentira, roubo/furto, rivalidade entre irmãos, saídas à noite)

Calendarização

Janeiro 23, 2016 – Fevereiro 20, 2016

mais informações:

http://fa.ispa.pt/formacao/aconselhamento-parental

Os pais também se educam?

Dezembro 2, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 22 de novembro de 2015.

Andreia Reisinho Costa  Observador

Ana Cristina Marques

Como é ser-se filho? Pode-se trocar de papel e ensinar os pais? Reunimos cinco testemunhos de diferentes idades para mostrar que quem educa não está sempre certo. No fim, uma terapeuta comenta.

Nem sempre é fácil os filhos lidarem com os pais, ou vice-versa. Apesar das boas intenções de parte a parte, este é um terreno pantanoso. Seja porque aos 15 anos o adolescente sente-se controlado e tenta contrariar todas as ordens que recebe, seja porque só mais tarde na vida é que pai e mãe ficam libertos dessa responsabilidade e passam a ser amigos das pessoas que trouxeram ao mundo.

Se é certo que as dinâmicas familiares entre quem educa e quem é educado se alteram ao longo do tempo, também se pode afirmar que os pais, ao contrário de um cliente num restaurante, não têm sempre razão. Posto isto, será que os pais precisam de ouvir mais os filhos, de os tentar compreender e até de aceitar que, às vezes, eles é que estão certos?

Em busca de uma resposta, falámos com filhos de diferentes idades, dos 16 aos 72 anos, para que descrevessem como são (ou foram) as relações com os respetivos pais, os seus desafios e mais-valias. Em suma, para saber se os pais também se educam. No fim dos testemunhos, uma mediadora familiar ajuda-nos a fazer uma leitura da questão.

Inês Fernandes, 16 anos, estudante

“Não me posso queixar muito dos meus pais. São muito compreensivos comigo e com o meu irmão [de 20 anos]. Dá sempre para falar com eles, mesmo que eu não esteja certa. Oiço muitos sermões, mas sinto-me à vontade para falar com eles [mãe e pai]. Não tenho medo de lhes dizer nada. Eles também sempre foram assim com o meu irmão. Mas notava que, quando eu era mais pequena e ele era adolescente, ele levava com mais sermões, não sei se por ser o filho mais velho, se por ter mais responsabilidade — os meus pais tiveram de aprender com ele primeiro. Não me lembro, pelo menos, de ver meu irmão de castigo. Eu é que fiquei de castigo algumas vezes, mas ele também sempre foi mais responsável ou, então, escondia melhor as asneiras.

Vejo que as minhas amigas, que não costumam ter tanto à vontade com os pais [masculinos], têm uma tendência maior para esconder as coisas. Vejo vários pais de amigas minhas que não se sentem à vontade para falar com elas. Mas também tenho amigas em que nem o pai nem a mãe são compreensivos. Fecham-nas muito. Cortam-lhe as asas — quanto mais eles insistem no facto de elas não poderem fazer certas coisas, e quanto mais limites colocam, mais elas acabam por fazer coisas para os desafiar, o que cria mais confusões.”

Maria, 28 anos, estudante

“A minha relação com os meus pais evoluiu imenso. Em pequena a minha mãe era a vilã, o meu pai o herói. Vinte anos depois o papel inverteu-se. Falando no geral, dou-me bem com os dois, mas não tenho com nenhum uma relação perfeita (se é que isso existe). Eu e a minha mãe discutimos imenso. Somos pessoas muito diferentes (ou muito iguais, quem sabe!) e gostamos das coisas de forma diferente. O que é normal. Em pequena a minha mãe era a chata. ‘Leva o casaco. Põe o gorro. Vai pôr a mesa. Já fizeste os trabalhos de casa?’. O meu pai era o companheiro de brincadeiras, de passeios, aquele que dizia: “Deixa lá a miúda em paz, se ela tiver frio veste o casaco.” Com o tempo, fui percebendo que o meu pai não era assim tão perfeito. Pelo contrário. Com isso, aprendi a valorizar mais a minha mãe.

Quando quis mudar de curso, foi com ela que falei. Sempre que tive um problema mais sério, foi sempre à minha mãe que recorri. Por outro lado, ela tem uma necessidade enorme de ser a minha confidente e quer que eu seja a dela, o que para mim é impensável. Mãe é mãe. Uma amiga é uma amiga. Eu tenho as minhas, ela tem as dela. Como é normal, há coisas da minha vida pessoal que não lhe dizem respeito. E vice-versa.

Os pais transmitem-nos valores, educam-nos e é normal que absorvamos alguns gostos e manias deles, mas somos seres diferentes e, por vezes, torna-se complicado fazer com que eles entendam isso. Que já não temos cinco ou oito anos. Ou mesmo 18. Que sabemos o que queremos para nós (ou achamos que sabemos) e isso não tem de ser necessariamente o que eles querem para nós. Temos direito a fazer as nossas escolhas, sejam elas certas ou erradas. Os filhos, tal como os pais, têm o direito a errar.”

João Barbosa, 45 anos, jornalista

“Os meus pais eram pessoas muito diferentes, o que não é nem vantagem nem desvantagem. Penso que, sinceramente, o meu pai nunca se apercebeu bem do seu egoísmo e tirania. Mas era um homem muito honesto em termos de dinheiro, de dar a palavra com honra, amigo do amigo. Um tipo espetacular. A minha mãe era meiga, terna, doce, mas mais castradora.

Até morrer, o meu pai mandou em toda a gente, incluindo nas funcionárias do apoio domiciliário e no resto da família ou amigos. Só eu o punha na ordem. Só eu tinha autoridade. Só a mim obedecia. O meu pai faleceu em fevereiro passado e orgulho-me de lhe ter dado um enorme presente. Sentei-me junto à cabeceira e disse-lhe: O pai não foi bom pai e não foi um bom marido. Mas foi e é um amigo bestial com quem se pode contar para tudo. O meu pai fez um sorriso lindo, como há muitos anos não lhe via. Esse calor irá sempre ligar-nos.

Penso que as relações entre pais e filhos (tenho um que é do relacionamento anterior da minha mulher) têm de ser de verdade, tendo em conta a memória, o entendimento, a idade e a inteligência. Quando dizemos ‘não’ é ‘não’, mas explicamos porque é que é ‘não’. Tentamos dar o exemplo. Ir ao McDonalds, por exemplo: ele comia sempre a sopa e os nuggets e eu comia apenas os nuggets. Um dia perguntou-me porque é que eu não comia sopa e porque é que ele tinha de comer. Dei-lhe razão e passámos os dois a comer sopa.”

Helena Carmo, 52 anos, técnica de reinserção social

“A relação com a minha mãe era muito tensa na adolescência. Vistas as coisas, e eu não fazia nada de extraordinário, ela era muito conservadora. Controlava muito a minha vida fora de casa e fazia isso não só com perguntas, mas vasculhando as minhas coisas. Impunha muito as questões da aparência, dizia-me que não podia usar as calças assim ou ter aquele corte de cabelo. Ela impedia muito a minha sexualização, a forma como me apresentava. Nunca fiz isso à minha filha.

As coisas mudaram muito quando fui mãe, com 30 anos. Ela foi mãe aos 18 e quando foi avó tinha a idade que eu tenho agora [52 anos]. Ela sempre disse que tinha (e tem) um casamento muito feliz, mas fazia muita questão em que eu só me casasse depois do curso — ela casou e não estudou, não teve coragem de voltar estudar, e queria uma história diferente para mim. Hoje tenho uma relação muito forte com a minha mãe. Antes, ela não era propriamente minha amiga. Hoje é menos mãe e já somos iguais. Há muitas coisas em que ela me pede conselhos. Há uma proximidade muito maior, até ao nível dos afetos.

A relação com o pai sempre foi muito tranquila, sempre foi de conversar sobre as coisas e sobre a vida. Sobre livros e cinema. Com o meu pai sempre foi uma relação mais de igual para igual, muito aberta. Sempre me responsabilizou muito. Vim a saber, mais tarde, que os dois discutiam muito sobre a educação que a minha mãe me dava — discutiam às escondidas. A relação com o meu pai foi mais fácil sobretudo na adolescência. E foi paritária ao longo dos anos. Com a minha mãe foi muito mais de ciclos.”

Maria Filomena Mónica, 72 anos, socióloga e historiadora

“A minha relação com os meus pais variou muito ao longo do tempo. Na infância, fui imensamente feliz: sendo a filha mais velha, era adorada pela minha mãe e, embora isso fosse menos claro, pelo meu pai. Tudo mudou com a adolescência, quando lutei por ser independente e a minha mãe teve medo que eu tomasse a rédea nos dentes. Ao proibir-me tantas coisas, acabei por me revoltar: não me suicidei por um triz. No entanto, a luta contra a minha mãe acabou por me enriquecer o caráter. A partir dos 19 anos, quando fui internada num colégio em Londres – de onde viria a ser expulsa, após o que aluguei um quarto — percebi que nada nem ninguém me conseguiria vergar. Se ela não me transmitiu a religião católica, a minha mãe deu-me a noção exata dos meus deveres. Gostaria que a minha mãe tivesse confiado mais em mim.

O papel dos meus pais foi muito importante até aos 20 anos. Depois, e durante décadas, quase desapareceram. No final da vida dos meus pais, aproximei-me deles, até porque, na doença que atacou a minha mãe (Alzheimer), ela precisou de mim. Senti que era meu dever ampará-la até ao fim. (…) O meu pai era temperamentalmente diferente da minha mãe. Dominadora como esta era, os filhos poucas oportunidades tiveram de o conhecer, o que hoje lamento. Gostava de ter tido conversas a sós com ele, o que só sucedeu uma vez na vida: quando ele me foi visitar a Londres em 1962. (…) Ambos já morreram e com o tempo as feridas saram. Hoje, relembro sobretudo as qualidades da minha mãe, tão grandes quanto os seus defeitos. Ao ler há dias algumas cartas que o meu pai me escreveu quando eu estava em Oxford nos anos 1970 fiquei admirada com a doçura do seu tom.”

“Pais e filhos estão em permanente aprendizagem”

Apesar das diferenças de idades, todos os testemunhos apresentam pontos em comum e colocam a tónica na importância da comunicação. Os problemas que moldam a relação entre pais e filhos não são, por ventura, suficientes para quebrar os laços que, segundo a mediadora familiar Margarida Vieitez, são praticamente elásticos e eternos. Vieitez chega ao ponto de dizer que não existem más relações entre pais e filhos, antes uma dificuldade em se encontrarem, “porque estão tão centrados em si próprios, e na sua razão, que não conseguem ver para além disso”. O segredo, diz, está no “crescimento conjunto” de ambos.

“Pais e filhos estão em permanente aprendizagem. Todos estamos”, acrescenta a também terapeuta, não sem antes sublinhar a importância da escuta ativa. Porque é fundamental que os pais oiçam os filhos e, consoante as idades, sejam eles (ou não) a tomar as decisões. Por isso, e para responder à pergunta formulada no título: sim, os pais também se educam.

 

 

 

8 Dicas para criar um filho responsável

Novembro 30, 2015 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Programa ensina pais a lidar com crianças com paralisia

Julho 12, 2015 às 3:12 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do site http://lifestyle.sapo.pt

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Nuno Noronha // Notícias // Lusa

Um programa de educação parental desenvolvido para crianças com hiperatividade e défice de atenção está a ser dirigido em Coimbra a crianças com paralisia cerebral, promovendo, junto dos pais, a chamada “parentalidade positiva”.

Numa relação onde a paralisia ocupa um papel central, os pais podem demitir-se da “imposição de regras e limites” por sentirem que a vida “já castigou demasiado o seu filho”, explica Joana Lobo, psicóloga da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC), instituição que, em parceria com a Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra, decidiu implementar o programa de educação parental “Anos Incríveis”, que desenvolve estratégias para reduzir distúrbios em crianças com hiperatividade, défice de atenção ou agressividade.

“Porque é que estes pais precisam do programa? Porque são pais. A paralisia é uma coisa na vida, mas não é a vida”, sublinha uma das coordenadoras do programa em Portugal, Filomena Gaspar, referindo que as estratégias utilizadas pretendem fazer com que o foco dos pais “não seja no que a criança não faz bem, mas no que faz bem”.

Segundo a também docente da Faculdade de Psicologia, os pais precisam de “se focar no essencial e não gastar tempo no que não interessa”, dando atenção positiva ao mesmo tempo que impõem limites e consequências para desobediências e birras.

Acabar com a frustração e insegurança dos pais

Numa sala da sede da APCC, pais de 13 crianças com paralisia cerebral, dos três aos oito anos, começaram em abril a receber formação deste programa, em que se procura “acabar com a frustração e insegurança” que os progenitores possam sentir, diz à Lusa Joana Lobo.

Durante as formações, que ocorrem uma vez por semana e que são dinamizadas por investigadores da Faculdade de Psicologia, os pais põem-se no lugar dos filhos, aprendem a impor limites e a brincar, numa sala onde reina o pensamento positivo, que segue depois para casa, como conta Susana Pires, mãe da Carolina, de sete anos.

“Foco-me mais nos aspetos positivos, aproveito melhor o tempo que tenho com a Carolina, mas também percebi que estava a fazer algumas coisas bem”, diz a mãe, de 25 anos, da Guarda, que nota sinais de melhoria na sua filha que diz ser “um bocadinho manipulativa”.

O pouco tempo que tem com a filha, devido ao trabalho, aproveita agora “da melhor forma”, refere.

“Não aproveitávamos tanto para brincar. Agora, chego a estar duas horas só a brincar”, salienta Sofia Gouveia, de 39 anos, referindo que está “mais feliz”.

Maria Filomena Gaspar acrescenta: “Custa menos que uma caixa de antidepressivos”.

Miguel Monteiro, pai do David, de seis anos, afirma que a paralisia “é como uma tragédia que se abate” no seio da família.

“Vivemos centrados nesse problema e esquecemo-nos de que são crianças normais. O meu filho é muito acompanhado, está rodeado de técnicos, mas só tem uns pais. Não podemos esquecer a afetividade, temos de lhe dar carinho”, salienta.

“É uma espécie de vacina”, explica a coordenadora do programa.

A formação termina na quinta-feira e a APCC e a Faculdade de Psicologia vão realizar uma segunda fase do projeto, com outras 13 famílias da região Centro, a qual irá arrancar em outubro.

http://www.apc-coimbra.org.pt/

 

Como a pobreza afeta o crescimento do cérebro

Junho 25, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 22 de junho de 2015.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Family income, parental education and brain structure in children and adolescents

D.R.

Se havia indícios nesse sentido, agora sabe-se com certeza científica: as crianças em condição de pobreza têm o cérebro 6% mais pequeno do que as restantes. Agora é preciso apurar as causas.

TEXTO LUCIANA LEIDERFARB

Era conhecido que as crianças sujeitas ao chamado ‘risco ambiental’ — lares desestruturados, contexto socioeconómico desfavorável, fraca intervenção do adulto — podiam apresentar sinais de atraso cognitivo. Sabia-se também que as deficiências nutricionais se faziam sentir nos resultados escolares e nos comportamentos. O que não se sabia era que a pobreza tem efeitos diretos no cérebro desde a primeira infância, senão desde o útero materno.

Em março, um estudo publicado pela revista “Nature Neuroscience” veio demonstrar, sem margem para dúvidas, que as crianças nascidas em famílias com rendimentos muito baixos possuem uma superfície cerebral 6% mais pequena do que as vindas de meios economicamente mais favorecidos.

A descoberta é arrepiante e deve fazer-nos tremer: não abrange apenas o lado do mundo ao qual se costuma colar a etiqueta de ‘miséria’ — África, Ásia ou América do Sul. Abrange também Portugal, onde a pobreza atinge uma em cada cinco pessoas, ou seja, dois milhões de seres humanos.

O estudo, o maior alguma vez realizado neste campo, juntou durante três anos investigadores de nove hospitais e universidades americanas e incidiu sobre um grupo de 1.100 crianças e adolescentes dos 3 aos 20 anos. Estes foram submetidos a testes de ADN e a ressonâncias magnéticas, além de serem considerados os rendimentos das famílias e o seu nível de educação.

Analisado o córtex — a camada exterior do cérebro que controla as funções cognitivas mais sofisticadas, como a linguagem, a leitura ou a capacidade de decisão — e o tamanho do hipocampo — a ‘casa’ das memórias de curto prazo —, concluiu-se que o cérebro das crianças cujas famílias auferiam menos de 25 mil dólares anuais (22 mil euros) era não só mais pequeno, como o seu hipocampo também se afigurava menor.

O contexto molda-nos

“O cérebro é o produto da genética e da experiência, e a experiência é particularmente poderosa para moldar o seu desenvolvimento durante a infância”, disse Kimberly Noble, da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e autora principal do estudo, ao “The Guardian”, continuando:

“Intervenções para melhorar as condições socioeconómicas, a vida em família e as oportunidades em termos de educação podem fazer uma enorme diferença.”

Outra das autoras, Elizabeth Sowell, que dirige o laboratório de imagiologia neurológica e desenvolvimento cognitivo do Children’s Hospital de Los Angeles, comentou no mesmo sentido: “A mensagem não é: ‘se és pobre, o teu cérebro será menor e não há nada a fazer sobre isso’. Melhorar o acesso a recursos que enriqueçam o contexto de desenvolvimento pode mudar as trajetórias do desenvolvimento cerebral, mesmo em crianças e adolescentes da faixa etária que estivemos a estudar.”

A toxicidade da pobreza

Mas como é que a pobreza altera o cérebro? Quais as verdadeiras causas para que tal aconteça? O estudo não fornece uma resposta cabal, mas há anos que é procurada por diversos investigadores, apontando-se a nutrição deficiente ou os altos índices de stress como fatores capazes de deixar marcas severas mesmo antes do nascimento. Patt Levitt, neurocientista que no passado estudou as sequelas da exposição à cocaína em fetos e recém-nascidos, hoje debruça-se sobre os efeitos biológicos da pobreza. E descobriu que situações como “sobrelotação, barulho, más condições de alojamento, violência ou tumulto familiar”, enquanto formas extremas de stress, podem ser tóxicas para o cérebro em fase de crescimento, tal como o são as drogas ou o álcool.

Hoje diretor do National Scientific Council of the Developing Child, Levitt constatou que essas circunstâncias fazem disparar o cortisol, hormona benéfica quando presente em pequenas quantidades, mas cujo descontrolo pode ser desastroso. Na mulher grávida, por exemplo, esta hormona “entra na placenta, influenciando o cérebro do bebé e adulterando os seus circuitos”, disse este mês à revista “The New Yorker”. Mais tarde, esse mesmo bebé continua a ser afetado pelo cortisol produzido pelo seu próprio corpo.

Inverter a marcha

A descoberta de que as condições económicas incidem sobre o tamanho do cérebro é um primeiro passo num caminho de correlações que necessitam de uma causa para se poder agir. Kimberly Noble assim o reconhece:

“Correlação não é causa. Podemos falar de elos entre a educação dos pais, o rendimento familiar e a estrutura do cérebro das crianças, mas não podemos dizer com certeza que essas diferenças são a causa das modificações na estrutura cerebral.”

Por esta razão, a cientista vai agora dar início a uma nova investigação que visa afinar os resultados da anterior. Recrutando 1.000 mães americanas com rendimentos baixos, a ideia é dar a metade uma soma de 333 dólares mensais (293 euros), enquanto as restantes recebem apenas 20 dólares (17 euros), durante três anos. No fim, procurar-se-á aferir em que medida essa mudança influencia o desenvolvimento dos seus filhos nos primeiros três anos de vida. Aquilo que norteia este projeto é a certeza de “nada é imutável” e que “o cérebro é incrivelmente plástico e capaz de ser moldado pela experiência”. E os seus resultados “podem informar diretamente a política pública sobre as vantagens de beneficiar famílias de baixos rendimentos com filhos pequenos”.

 

 

 

 

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