O regresso às aulas… dos pais

Outubro 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ no dia 5 de setembro de 2017.

“É o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil”.

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As férias das crianças nunca são demais. Em primeiro lugar, porque as férias dos pais, quando eram pequeninos, seriam maiores. E, depois, porque olhando para as horas de trabalho dos pais e dos filhos, tendo uns e outros a mesma idade, as crianças trabalham na escola e para a escola em demasia. Fosse o mundo mais justo e, para que “as contas” fossem como deviam ser, as férias grandes deviam ser maiores para quem trabalha mais…

”Mas a vida é, hoje, mais dura e mais competitiva”, argumentam os pais, enquanto reclamam por mais escola e vão resolvendo problemas pelos filhos. Não é verdade! A vida sempre foi dura e competitiva. Por outras palavras, a vida nunca foi fácil! Não tanto no sentido trágico de quem vê nas dificuldades o pretexto para se desculpar por tudo aquilo que não ousou fazer, mas, pelo contrário, no sentido de quem as vê como a forma de descortinar nelas problemas que se transformam em oportunidades para novas dúvidas com que, depois de resolvidas, se cresce mais um bocadinho. A vida traz o difícil; a inteligência, a humildade e a perseverança transformam o difícil em simples. E é o simples, depois de descoberto, que (por ser óbvio) parece fácil. Mas, sendo assim, poupar às crianças os problemas que tenham para resolver e fazer da escola um “fast food” em que quase tudo lhes é dado, sem que haja quem as ensine a pensar, é o mesmo que as pôr a crescer sem que seja preciso que elas percebam, minimamente, como isso se faz. É “embrulhar” o difícil no fácil. E iludi-las com a grandiosidade com que “atrofiam” competências que tinham. Por outras palavras: é o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil para as crianças.

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Ainda assim, comparado o mundo em que os pais cresceram com o mundo ao acesso das crianças, tudo parece, hoje, “à primeira vista”, mais difícil. Porque é mais complexo e exige mais escolhas. Mas, com melhor trabalho, será mais amigo de melhor crescimento. Seja como for, o mundo em que as crianças vivem é parecido, em muitos aspetos, com aquele em que os pais cresceram. É igualmente assimétrico, igualmente demagógico e igualmente ganancioso. É verdade! Talvez porque seja igualmente “costurado” por pessoas. Ainda assim, é mais aberto, e mais acolhedor para quem for honesto, imaginativo e inimitável. Logo, é um mundo de mais oportunidades para aqueles que não forem “produtos normalizados”.
Já em relação à escola, ao contrário da das crianças, a escola dos pais foi, garantidamente, mais injusta. Porque dividia os alunos em inteligentes e em “burros”. Porque ensinava ao abrigo de humilhações e de castigos físicos. E porque muitos professores exerciam um poder discricionário que destroçava crianças.

Hoje, a escola é melhor! E se o regresso às aulas parece muito difícil e quase tumultuoso é porque, para além dos conflitos de agenda, os pais veem a escola à imagem da forma como a viveram. E imaginam o mundo como se o deles tivesse sido “cor de rosa” e o das crianças fosse, invariavelmente, cinzentão. E colocam sobre as aulas a responsabilidade que elas não podem ter. E não exercem, tanto como deviam, o seu direito de comparticipar na escolha da escola, da turma, do professor e de tudo o mais que está para além das próprias aulas. E desvalorizam o brincar, o preguiçar, o conviver ou, simplesmente, o imaginar.

 

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As férias estão a chegar ao fim. Mas se não quer que as crianças se estraguem na relação com a escola não se esqueça, por favor, que:
a) Os pais erram sempre. E isso é bom. Sobretudo se aproveitarem os seus erros para serem pais mais humildes. Sem nunca perder de vista que os piores amigos dos pais são “os bons pais”. Aqueles que querem tanto ser bons que olham mais para os seus desempenhos e para os pais que tiveram, competindo com eles, do que para os próprios filhos.

b) As crianças devem ser escutadas mas não podem decidir pelos pais. Seja a propósito da escola que vão frequentar ou das suas atividades extracurriculares. Aliás, como também não podem ser os técnicos a fazê-lo. Simplesmente porque os pais sabem sempre mais que os filhos. Mas não perca de vista que pais exageradamente cuidadosos são filhos de pais ou excessivamente exigentes ou demasiadamente descuidados.

c) Os pais serão mais atentos se tiverem memória. Ou, melhor, se não fugirem de “conversar” com ela. Dizer aos filhos que os tempos, hoje, são outros, faz com que os pais se sintam com legitimidade para exigirem que a relação dos filhos com a escola seja muito diferente daquela que eles, quando alunos e com a idade que as crianças têm, terão tido com ela. Mas será que os pais faziam todos os trabalhos de casa com agrado? E será que, alguma vez, terão achado as férias grandes ou exageradas? E será que tinham os resultados escolares exemplares que, agora, exigem aos filhos?

d) Todas as crianças são sobredotadas e todas têm necessidades educativas especiais. Ao contrário do que devia ser, a escola acarinha mais as áreas onde as crianças são, aparentemente, “sobredotadas”. E ignora, não identifica ou faz por não reparar nas suas “necessidades educativas especiais”. O que não será razoável é que as boas notas das crianças sejam, unicamente, a todas as disciplinas da escola. Ou a algumas, em particular. Porque as boas notas unicamente às disciplinas da escola — alavancadas com trabalho de pais exagerado, com excesso de explicações e com ateliês de tempos livres que existem para que os trabalhos de casa apareçam feitos, não interessa com que proveito, antes de lá se chegar – são úteis para disfarçar necessidades educativas especiais. Quando as necessidades educativas especiais são as melhores amigas da humildade, da tolerância à frustração e da “capacidade de sofrimento” com as quais se aprende a crescer. Cresce-se melhor quando se aprende a viver com algumas dores, com as experiências de tristeza que “tenham de ser” e, sobretudo, com mais tempo para “digerir” a experiência, para experimentar e para pensar, descobrir e inventar. Começa-se a conhecer quando se reconhece a primeira dificuldade

e) As crianças precisam de duas horas de tempo livre todos os dias! Porque quem brinca aprende melhor.

f) Não compita, através do seu filho, com as notas dos amigos deles. Nem confunda os seus sonhos escolares que não concretizou com projetos para ele. Alunos que não erram são crianças em perigo. Ou seja, só quem foge dos erros é que se desencoraja de aprender. Ainda assim, aprender não é fácil nem rápido. Nem se conquista com pouco trabalho. E, claro, não se aprende sempre com boas notas, sem erros e sem derrotas.

g) Não queira saber tudo acerca da escola, todos os dias. Os pais só precisam de ser atentamente distraídos. Tudo o que for para além disto é exagero.

h) Não transforme o regresso às aulas numa oportunidade para entrar num quadro de excelência só para pais. Também em relação à escola, insista em errar! Porque isso significa que não desiste nunca de aprender.

 

 

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O pai está em vias de extinção – Eduardo Sá

Setembro 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ de 29 de agosto de 2017.

Falta pai à maioria das famílias! Não o pai machista e autoritário de antigamente. Mas um pai que precisa de se reinventar. Com a certeza de que o crescimento e a função do pai se tem apagado…

 1- Talvez como nunca, fará tanto sentido comemorarmos o Dia do Pai. Não que o pai não tenha sido, desde sempre, um “bem de primeira necessidade” para o desenvolvimento de todas as crianças. É claro que foi! Mas receio que, duma forma subtil, e desde há vários anos, o seu papel tenha vindo a tornar-se, na dinâmica das mais diversas famílias, pálido e frouxo em demasia. E que, por isso, precise de ser reinventado.

É verdade que o mundo sempre foi machista. E que ainda será. Não acho que ele tenha ganho tanto assim com isso. Mas reconheço que a biologia e uma escolaridade precária contribuíram, desde sempre, para que os homens e as mulheres tenham vivido numa divisão de papéis que muitos foram tomando como mais ou menos inquestionável. O homem, foi assumindo a força do trabalho e a reunião dos recursos indispensáveis para a sobrevivência e para a defesa da família. A mulher, a maternidade e a gestão dos filhos e da casa. Escusado será dizer que, a par desta aparente fatalidade biológica (e dos constragimentos económicos, sociais e escolares em que ela se foi ancorando), a mortalidade peri-natal ajudou, ainda mais, as mulheres a ficarem “presas” à maternidade. Até porque a discrepância entre os nados-vivos e as crianças duma família foi, desde sempre, assustadora e, monstruosamente, dolorosa.

Com a progressiva medicalização da gravidez, do parto e da saúde do bebé, e com os novos recursos médicos trazidos para o planeamento da gravidez, a maternidade, entretanto, pôde passar a ser planeada. Menos filhos passou a significar melhores pais. Mais oportunidades de planeamento familiar. E melhores condições para que a mulher transformasse a formação escolar em compromissos profissionais e em oportunidades de carreira. Mas o mundo, apesar disso, foi permanecendo machista. E matriarcal. Isto é, foi prevalecendo a tutela do homem sobre a mulher que, em função da confluência de compromissos profissionais, familiares e domésticos, passou a “acumular funções” que a foram tornando mais expedita, mais sagaz e mais preponderante na dinâmica da família.

Evidentemente que um mundo assim se transformou, profundamente, ao longo de todo o século XX. E que, a par da paridade de direitos e de responsabilidades entre o pai e a mãe, os papéis de um e de outro se foram matizando. Melhor: o papel da mãe “apurou-se” e ganhou robustez e versatilidade; e o papel do pai “maternalizou-se”. O que, assumamos, trouxe a magnífica mais-valia de uma criança passar a ter duas “mães”: a mãe, ela-própria, divina e inimitável; e o pai, participando, com “sexto sentido”, em todos os momentos do crescimento de uma criança. Com um protagonismo que se foi “democratizando”, de forma transversal, independentemente das classes sociais ou dos estatutos económicos que, dantes, se iam tornando obstáculos para tamanha revolução da parentalidade. Chegámos, pois, à formula de que mais gosto: a primeira função de um ser humano é ser mãe! Que, por outras palavras, acaba por ser um modo minimalista de afirmar que o instinto maternal não é um “equipamento de base” de todas as mulheres e um “extra” de alguns homens. Será mais “democrático”, felizmente! Com a particularidade – preciosa! – dos desempenhos parentais das mulheres e dos homens terem vindo a melhorar tanto e terem-se tornado tão mais paritários e complementares, nos últimos cinquenta anos, que os filhos têm acumulado exemplos, recursos e oportunidades para se virem a tornar melhores pais.

2 – Há, no entanto, uma constante que, curiosamente, tem vindo a acompanhar estas condições únicas de que as crianças, hoje, dispõem. O modo como parecem ter, cada vez mais, uma relação muito difícil com a autoridade. O que, à primeira vista, não seria expectável. Por maioria de razão, porque nunca houve tão bons pais, tanta escolaridade, tanto contraditório diante dos gestos educativos dos pais e tanta democracia familiar.

Aquilo a que, dantes, se foi chamando “A Lei do Pai” representava uma forma autoritária de definir e de cuidar das regras familiares que, em inúmeras circunstâncias, se acompanhava de desempenhos tirânicos por parte do pai que, para mais, não se faziam acompanhar de atitudes que ligassem com coerência o exigido e o desempenhado. E implicavam medo – muito medo, por vezes – do pai. O que fazia com que o pai, para além de omisso, no dia a dia de uma família, surgisse como um juiz temido, muitas vezes inconstante e, frequentemente, incoerente. Por vezes, alimentado (ora de forma assustada e submissa, ora dum jeito um bocadinho batoteiro) pela mãe, com a célebre insinuação: “Ai quando o pai vier!…”, que transformou muitos pais em pessoas estranhas, aparentemente distraídas, afetuosamente inábeis e, sobretudo, muito trôpegas com as palavras e com os gestos de amor.

Todavia, e apesar dos formatos mais democráticos e mais plurais das famílias, quando perguntamos a crianças de cinco, seis ou sete anos se reconhecem existir uma “função paterna” diferente da “função materna” elas não só não as confundem como, aliás, as caracterizam ao pormenor. Dir-se-á que os modelos familiares pesam nesta caracterização? É verdade que sim. Por mais que não devamos excluir um certo “inconsciente coletivo” que, casando biologia e cultura, terá ajudado a compor, ao longo dos séculos, estas funções.

Só que eu não entendo porque é que, tomando os formatos tradicionais da família, um pai (felizmente) mais maternal terá de ser menos… pai. Porque é que não pode assumir um lado de “rei leão” de forma a que “a lei familiar” não tenha de casar com o autoritarismo? Porque é que na fabulosa transformação da família que estamos a viver, a “função do pai” se encolheu, como se a maioria dos homens parecessem viver tão atormentados pelas omissões e pelos maus desempenhos dos seus próprios pais que, sempre que se trata de serem firmes e serenos, guerreiros mas sensatos, bondosos e “duros”, justos mas escutadores, ora protagonistas ora “segundas figuras”, se baralham e se “perdem”? Como se dar colo a um filho para, depois, o colocar “às cavalitas”, ou ser-se protetor mas, também, amigo da sua autonomia não fosse, facilmente, conciliável. Como se parecesse não ser fácil ser-se maternante mas, todavia, pai!

Sim: falta pai à maioria das famílias! Não o pai machista e autoritário de antigamente. Mas um pai que precisa de se reinventar. Com a certeza de que o crescimento e a função do pai se tem apagado, de tal forma que, por causa destes “pais em vias de extinção”, a Humanidade tem vindo a desencontrar-se e a confundir democracia familiar com “comissões de gestão” familiares. Falta “autoridade de pai”. O desafio será imenso para todos os homens? Não! É fascinante para todas as famílias. Que, a par do modo como o pai se maternalizou, têm de recuperar a sensatez da “função do pai”. Nem que, para tanto, a mãe tenha, ela própria, de se paternalizar.

 

 

Sem berrar, sem rezingar e sem resmungar – crónica de Eduardo Sá

Julho 1, 2017 às 7:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Crónica de Eduardo Sá publicada na http://www.paisefilhos.pt/ de 19 de março de 2017.

Surgem, de vez em quando, livros, programas de treino e “tendências do momento” acerca da imensa vantagem dos pais perderem alguns exageros que todos aqueles que são bondosos e dedicados sempre cometem quando gritam, desabafam ou reclamam, por exemplo. Fala-se do modo como pais que gritam fazem mal às crianças. E dá-se, ainda, a entender que os gritos e o exercício da autoridade parecem não ter muito a ver entre si, a ponto de haver quem afirme que será por isso que muitas crianças, à medida que crescem, se transformam em “pequenos ditadores”.

Ora, eu compreendo a importância duma ajuda técnica dirigida a todos os pais. Mas receio que, muitas vezes, o tom com que ela lhes é dedicada seja um bocadinho áspero (ou, mesmo, repreensivo), parecendo dar a entender que os pais devam ser bucólicos e serenos, didáticos na forma como apresentam as suas condições educativas, e negociadores (hábeis!) quando se trata de trazerem à razão os seus pequenos “príncipes”. Reconheço que, por vezes, as “pestinhas”, os acessos de “mau feito”, o acordar “mal disposto” ou o “segurem-me que eu estou em fúria” de muitas crianças (saudáveis!) parece não entrar tanto como devia nestas “fórmulas” educativas. O que faz com que muitos pais “comprem” essas “receitas de sucesso” e, quais produtos descartáveis, acabem no tradicional “eu já tentei tudo!” que, não se tratasse dos seus filhos, talvez quisesse dizer: “tirem-me daqui!” Ou que reconheçam que os seus “bijous” os “levam ao limite”. Ou que façam uso de qualquer outro desabafo que anteceda uma tremenda rendição.

Mas serão as crianças tão complexas na forma como se agitam, se irritam ou se enfurecem que mereçam programas educativos ou de treino que deem aos pais “competências” para lhes devolver a autoestima ou para os tornar “mais focados” ou “mais motivados” para a “tarefa” de educar? Eu acho que não! Talvez por tudo isso seja importante brincarmos com este lado um bocadinho alarmado com que muitos “especialistas” parecem querer colocar todos os pais num alerta do género: “elas vêm aí!”, que faz com que as crianças pareçam requerer um jeitinho quase laboratorial de lhes darmos colo, regras e autonomia ao mesmo tempo que se mantêm vivas e se vão tornando bem educadas.

Em primeiro lugar, educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar não é bem educar. É querer que os pais não ponham alma em tudo aquilo que dão. O que, valha a verdade, talvez pretenda transformar a paixão que colocam em cada gesto que dedicam aos filhos numa pilhéria de movimentos “robotizados” que os tornem insossos e enfadonhos. E isso é mau!
Aliás, se educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar fosse mesmo para valer seria motivo para se dizer: “Mães de todo o universo, deem um pulo de contentamento, se fazem o favor: estão proibidas de educar!”. O que seria uma perda trágica e irreparável para todas as crianças.

O que eu não entendo mesmo é que vá surgindo a ideia de que os pais ou conversam ou gritam. Pais que conversam não gritam, claro. E pais que gritam estão muito longe de saber conversar – com persuasão e “cheias de maneiras” – com as crianças. O que não é verdade! Quem são os pais que mais gritam? Os que mais conversam! E porquê? Porque as conversas em que se dedicam a explicar, minuciosamente, boas maneiras acabam sempre por ser sentidas pelas crianças como um “desculpa qualquer coisinha”, mais ou menos medroso, o que faz com que elas os “estiquem” sempre um pouco mais, acabando esse braço de ferro numa cena “à italiana”. Como parece que não convém…

A seguir, diz-se por aí que os berros não são amigos da pedagogia. Mas é que não são mesmo! Por isso é que são bons. E porquê? Porque aquilo a que muitos chamam pedagogia parece não tolerar o erro, as asneiras e os remorsos com que todos nós vamos crescendo como pais. Aliás, qual é a principal função dos berros: educar?… Claro que não! É serem amigos do desabafo. Aliviam, portanto. E arejam a alma! Para que, depois de se reconsiderar, haja espaço para a clarividência e para a bondade.

Depois, afirma-se que quem berra, reclama e protesta dá maus exemplos. É verdade que haverá circunstâncias em que as “figuras tristes” não são um “cartão de visita” para qualquer “faça você mesmo” ao alcance de todas as crianças. Mas são um bom exemplo! Porque – imaginando eu que nada disto seja “a regra” mas que se trate de breves repentes de ebulição só ao alcance dos bons pais – as asneiras dos pais demonstram aos filhos que a sabedoria não significa prevenir os erros mas aprender com eles.

Quase a rematar, diz-se que os pais só deviam ralhar quando detetassem alguma maldade nas crianças. Ou que deviam respirar fundo… antes de abrirem a boca. E isso seria mesmo mau! Porque, a ser assim, as boas mães rebentariam quase todos os dias. E nunca chegaríamos a desabafos como “qualquer dia tiro férias de mãe e vocês vão ver!”. Que é dos patrimónios imateriais mais preciosos da Humanidade!

Finalmente, diz-se que os berros trazem (algum) medo às relações das crianças com os os seus pais. E volta a ser verdade. Porque quando os pais definem perigos e interditos, ao fazerem com que as crianças estremeçam com eles e se intimidem um bocadinho, estão a dizer-lhes, por outras palavras: “se tiver que te provocar alguma dor para te poupar dores muito maiores, eu não hesito!”. Ora, haver situações em que as crianças, quase por antecipação, conseguem (só de a imaginarem) ter medo da reação da mãe ou do pai faz com que parem, enquanto é tempo. Ou que se munam de talentos para iludir a competência que todos os pais têm para adivinhar as suas asneiras – antes, ainda, delas serem pensadas – o que, a acontecer, não é para todos! Só mesmo para os filhos de quem, de vez em quando, berra, reclama e protesta…

Para rematar, dá-se a entender que os pais, depois de berros, protestos e reclamações ficam “afanadotes”. E, seja pelo cansaço de tão pouco edificantes “perfomances”, seja pelo exagero com que elas vêm equipadas, a seguir, se tornam “algodão doce”. E dizem “sim!” a quase tudo. E é verdade. Mas dizerem “sim” a quase tudo não significa que se tenham tornado amigos da “totozice”. Mas que tenham prescindido da sua quota-parte da birra e que, em função disso, casem melhor a autoridade com a bondade.

Educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar não será “a Graça de Deus”. Reconheço! Por mais que ande por aí quem confunda bullying com educação. Os pequenos destemperos dos bons pais são bondade e educação. Os registos rígidos a que alguns se obrigam (talvez porque tenham medo de, ao primeiro espirro, perderem a cabeça) são mais bullying do que parece. Porque é que os pais querem muito não gritar, sempre que educam? Porque eles lá sabem do que é que são capazes quando amam. Mas não fossem eles capazes de berrar, de rezingar e de resmungar que podiam ser bons pais, até. Mas faltaria uma pitadinha de alma, um quanto-baste de paixão. E nunca seriam “Os Nossos Pais”!

 

 

 

Eduardo Sá: “As crianças saudáveis também ficam tristes”

Maio 18, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://observador.pt/ a Eduardo Sá no dia 10 de maio de 2017.

Eduardo Sá respondeu às perguntas mais complicadas. Desmistificou a Baleia Azul, criticou a forma como a escola está organizada e pediu aos pais mão dura quando ela é necessária. Leia a entrevista.

 Eduardo Sá, psicólogo, professor, 55 anos, cinco filhos. Esteve na redação do Observador esta manhã numa entrevista coletiva, transmitida em direto, e onde também houve lugar às perguntas dos leitores. Foi esclarecedor, foi provocador, foi polémico. E falou de muita coisa. Desde a Baleia Azul, passando pelas vacinas, educação e dando dicas e truques sobre a difícil temática: como conseguir lidar com os adolescentes?

 Fala muito de pais e filhos. De certeza que há imensos pais e mães pelo país inteiro que costumam lê-lo e ouvi-lo e aposto que eles têm uma pergunta sempre atrás da orelha: “Será que ele consegue ser o pai que diz que nós devemos ser?”
Eu costumo dizer que os bons pais, e sublinhe-se bons, têm três qualidades ou três defeitos consoante a perspetiva que queiram colocar. Têm, invariavelmente, coração grande. Têm a cabeça quente, o que significa que as boas pessoas têm obrigatoriamente mau feitio e falam de mais. E, portanto, numa circunstância dessas, mal seria que eu achasse que deveria ser bacteorologicamente puro. Aliás, eu devo dizer que era engraçadíssimo que, um dia, um jornal como este fizesse uma campanha para transformar o lado esganiçado das mães em património da humanidade, porque eu acho lindíssimo, acho do mais bonito e comovente que existe, quando uma mãe faz aquelas reações acaloradas, fúria de mãe, que culmina sempre com duas pérolas: “Qualquer dia vou-me embora desta casa e vocês vão ver” ou “Não fales assim que sou tua mãe”, que faz com que os filhos fiquem estranhamente tranquilos, porque os filhos balizam-se pelos mesmos indicadores que os pais em relação a eles. Quando um filho sente que uma mãe está estranhamente calada é porque está doente e quando assume aquela postura acalorada que só as mães com um coração muito grandes são capazes de ter, começam: “Pronto, ela está no seu melhor”. Eu penso que os pais por dentro não são diferentes.

Portanto, também se irrita, lá em casa?
Mal seria se não o fizesse.

Tem um bebé de 17 meses… Tem uma diferença muito grande para os outros quatro, não é? Como é que é ter agora um bebé em casa? Vai ser um pai completamente diferente? Pensou muito sobre o assunto?
Não. Eu acho, aliás, que devia ser proibido pensarmos demais quando somos pais. Mas vou ser diferente. Tenho a ideia que num primeiro filho nós somos sempre piores pais. E isto vale para todos, acho eu.

É bastante provável, sim…
Portanto, os nossos primeiros filhos deviam ser sempre considerados crianças em perigoso porque nós, às vezes, lemos demais, às vezes queremos que eles se comportem de acordo com um conjunto de regras que depois têm muito a ver com a nossa história. Nós queremos sempre que um primeiro filho cicatrize muitas experiências da nossa vida. E, portanto, temos um bocadinho a ideia de que, num primeiro filho, acima de tudo, queremos ser melhores do que os pais que nós tivemos, queremos, de preferência não repetir os erros que eles foram repetindo, por mais que nós imaginássemos que eles estavam distraídos e, por ventura, até nem estariam. Queremos que eles peguem os sonhos que nós deixámos mais ou menos pelo caminho. E isto, num primeiro filho, é uma coisa terrível. Qual é a vantagem de um primeiro filho? O álbum do bebé tem as fotografias todas.

Verdade.
E, portanto, à medida que nós vamos sendo pais, vamo-nos reconciliando com o equipamento base com que todos nós lidamos e que muitas vezes desprezamos. Nós temos um sexto sentido absolutamente magnífico. As mães, não é publicidade enganosa, passam a vida a dizer que têm um dedo que adivinha. Só as mães é que descobrem os pacotes de leite debaixo das almofadas do sofá. E, portanto, este lado, que eu acho que é muito bonito, só se vai desenvolvendo à medida que vamos deixando de querer ser bons pais. E eu acho que às vezes, esta exigência de sermos bons pais estraga toda esta capacidade que nós temos para sermos pais, só pais.

Há uma questão preocupante, que temos visto nas últimas semanas, que é a da Baleia Azul. Acha que todas as crianças ou jovens estão sujeitos ao mesmo risco ou só aqueles que são mais problemáticos, à partida é que estão mais expostos?
Tenho medo de algum discurso público sobre os adolescentes, porque tenho medo que, às vezes, seja um bocadinho invejoso. É inacreditável que quando nós falamos dos adolescentes, falamos de riscos, de perigos, e, invariavelmente, esquecemo-nos das mais-valias incalculáveis que eles têm. E, portanto, é muito importante que nós possamos deixar claro para os pais que não há como um adolescente passar a ser um adolescente auto-mutilado, à conta de um jogo. Não vale a pena. Mas isto deve colocar-nos com uma discussão dura em cima da mesa, isto é, continuo a achar que devia ser proibido os pais terem programas espiões dentro dos computadores dos filhos. É batota. Mas acho que os pais são a verdadeira entidade reguladora da vida dos filhos e, portanto, não consigo compreender porque é que os pais se encolhem quando se trata de saber quais são os sites pelos quais os filhos andam a passear, quais são os amigos virtuais que têm, quais são os jogos por onde passam, etc. Não me choca que os pais façam isso na presença dos filhos, fazendo o uso da sua autoridade que é calma, uma autoridade que advém da sabedoria e da bondade dos próprios pais. E, portanto, tenho medo que se tenha falado tudo isto com tanto bruaá, que eu acho inquietante, mas às vezes não consigo perceber outras inquietações que deviam ser igualmente importantes. Há muitos mais adolescentes que entram nas redes sociais e que, de repente, de fotografia em fotografia, estão a tirar a roupa para alguém que está do outro lado. E, quando a determinada altura decidem parar, são advertidos, são ameaçados e as represálias em relação aos seus próprios pais são mais que muitas. Em termos de dimensão, é incomparavelmente superior em relação àquilo que se passa com a Baleia Azul e é uma rede que, de uma forma incompreensível para mim, tem merecido um silêncio que não consigo entender.

Mas, nesse caso, a polícia até já fez um vídeo para avisar os jovens e os pais. O que eu lhe queria perguntar era se está toda a gente sujeita ao mesmo risco?
Não, como é evidente. Não, por favor.

Ou até um jovem que parece mais equilibrado…
Quando vê aqueles filmes de época, em plena segunda guerra, vê o modo como muitas pessoas que estavam sob tortura induziam uma dor aguda de forma a calarem uma dor que, obviamente, a tortura infligia. Portanto, vamos ser claros: a esmagadora maioria dos jovens é incomparavelmente saudável e, comparados com os pais, seguramente mais saudáveis, por uma razão simples: porque os pais têm feito até um bom trabalho. Não vale a pena, no entanto, nós termos a ideia de que todos os adolescentes são saudáveis. Há adolescentes que são de facto muito doentes e que, às vezes, quando entram nesta vertigem, claro que estão à procura de uma dor, mutilam-se para sossegar, como é evidente, e silenciar, quando mais não seja, transitoriamente, uma dor que é muito mais intensa e muito mais regular na vida deles.

E o facto de isto se ter tornado uma onde louca nos meios de comunicação social…
Devia ser proibido.

Acha que isto leva a que haja mais curiosidade ainda e que possa levar a mais casos?
A prova de que talvez a comunicação social não esteja tão sintonizada com os adolescentes são as manchetes sobre manchetes que isto tem dado. A comunicação social, curiosamente, tem uma atitude, uma discrição exemplar em relação aos números de suicídios que vão acontecendo, porque a própria comunicação social tem a noção de que às vezes desencadeia um efeito dominó, que é francamente prejudicial, sobretudo naqueles adultos ou naqueles adolescentes que estão naquele registo quase impulsivo: “Faço ou não faço?”. É evidente que tudo isto fez com que muitos adolescentes, que nem sequer sabiam da existência do Baleia Azul, tenham lá ido ver. Não acho que isto seja razoável ou, pelo menos, é escorregadio. Mas sejamos razoáveis. Tomando em consideração o modo autogestacionário como muitos adolescentes circulam na internet, a percentagem de adolescentes que resvalam para o perigo é absolutamente mínima, tomada em consideração a distração dos pais em relação a isso.

ler o resto da entrevista no link:

http://observador.pt/especiais/eduardo-sa-as-criancas-saudaveis-tambem-ficam-tristes-a-tristeza-e-o-melhor-ansiolitico-do-mundo/

 

Sem berrar, sem rezingar e sem resmungar

Março 28, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ de 19 de março de 2017.

Surgem, de vez em quando, livros, programas de treino e “tendências do momento” acerca da imensa vantagem dos pais perderem alguns exageros que todos aqueles que são bondosos e dedicados sempre cometem quando gritam, desabafam ou reclamam, por exemplo. Fala-se do modo como pais que gritam fazem mal às crianças. E dá-se, ainda, a entender que os gritos e o exercício da autoridade parecem não ter muito a ver entre si, a ponto de haver quem afirme que será por isso que muitas crianças, à medida que crescem, se transformam em “pequenos ditadores”.

Ora, eu compreendo a importância duma ajuda técnica dirigida a todos os pais. Mas receio que, muitas vezes, o tom com que ela lhes é dedicada seja um bocadinho áspero (ou, mesmo, repreensivo), parecendo dar a entender que os pais devam ser bucólicos e serenos, didáticos na forma como apresentam as suas condições educativas, e negociadores (hábeis!) quando se trata de trazerem à razão os seus pequenos “príncipes”. Reconheço que, por vezes, as “pestinhas”, os acessos de “mau feito”, o acordar “mal disposto” ou o “segurem-me que eu estou em fúria” de muitas crianças (saudáveis!) parece não entrar tanto como devia nestas “fórmulas” educativas. O que faz com que muitos pais “comprem” essas “receitas de sucesso” e, quais produtos descartáveis, acabem no tradicional “eu já tentei tudo!” que, não se tratasse dos seus filhos, talvez quisesse dizer: “tirem-me daqui!” Ou que reconheçam que os seus “bijous” os “levam ao limite”. Ou que façam uso de qualquer outro desabafo que anteceda uma tremenda rendição.

Mas serão as crianças tão complexas na forma como se agitam, se irritam ou se enfurecem que mereçam programas educativos ou de treino que deem aos pais “competências” para lhes devolver a autoestima ou para os tornar “mais focados” ou “mais motivados” para a “tarefa” de educar? Eu acho que não! Talvez por tudo isso seja importante brincarmos com este lado um bocadinho alarmado com que muitos “especialistas” parecem querer colocar todos os pais num alerta do género: “elas vêm aí!”, que faz com que as crianças pareçam requerer um jeitinho quase laboratorial de lhes darmos colo, regras e autonomia ao mesmo tempo que se mantêm vivas e se vão tornando bem educadas.

Em primeiro lugar, educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar não é bem educar. É querer que os pais não ponham alma em tudo aquilo que dão. O que, valha a verdade, talvez pretenda transformar a paixão que colocam em cada gesto que dedicam aos filhos numa pilhéria de movimentos “robotizados” que os tornem insossos e enfadonhos. E isso é mau! Aliás, se educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar fosse mesmo para valer seria motivo para se dizer: “Mães de todo o universo, deem um pulo de contentamento, se fazem o favor: estão proibidas de educar!”. O que seria uma perda trágica e irreparável para todas as crianças.

O que eu não entendo mesmo é que vá surgindo a ideia de que os pais ou conversam ou gritam. Pais que conversam não gritam, claro. E pais que gritam estão muito longe de saber conversar – com persuasão e “cheias de maneiras” – com as crianças. O que não é verdade! Quem são os pais que mais gritam? Os que mais conversam! E porquê? Porque as conversas em que se dedicam a explicar, minuciosamente, boas maneiras acabam sempre por ser sentidas pelas crianças como um “desculpa qualquer coisinha”, mais ou menos medroso, o que faz com que elas os “estiquem” sempre um pouco mais, acabando esse braço de ferro numa cena “à italiana”. Como parece que não convém…

A seguir, diz-se por aí que os berros não são amigos da pedagogia. Mas é que não são mesmo! Por isso é que são bons. E porquê? Porque aquilo a que muitos chamam pedagogia parece não tolerar o erro, as asneiras e os remorsos com que todos nós vamos crescendo como pais. Aliás, qual é a principal função dos berros: educar?… Claro que não! É serem amigos do desabafo. Aliviam, portanto. E arejam a alma! Para que, depois de se reconsiderar, haja espaço para a clarividência e para a bondade.

Depois, afirma-se que quem berra, reclama e protesta dá maus exemplos. É verdade que haverá circunstâncias em que as “figuras tristes” não são um “cartão de visita” para qualquer “faça você mesmo” ao alcance de todas as crianças. Mas são um bom exemplo! Porque – imaginando eu que nada disto seja “a regra” mas que se trate de breves repentes de ebulição só ao alcance dos bons pais – as asneiras dos pais demonstram aos filhos que a sabedoria não significa prevenir os erros mas aprender com eles.

Quase a rematar, diz-se que os pais só deviam ralhar quando detetassem alguma maldade nas crianças. Ou que deviam respirar fundo… antes de abrirem a boca. E isso seria mesmo mau! Porque, a ser assim, as boas mães rebentariam quase todos os dias. E nunca chegaríamos a desabafos como “qualquer dia tiro férias de mãe e vocês vão ver!”. Que é dos patrimónios imateriais mais preciosos da Humanidade!

Finalmente, diz-se que os berros trazem (algum) medo às relações das crianças com os os seus pais. E volta a ser verdade. Porque quando os pais definem perigos e interditos, ao fazerem com que as crianças estremeçam com eles e se intimidem um bocadinho, estão a dizer-lhes, por outras palavras: “se tiver que te provocar alguma dor para te poupar dores muito maiores, eu não hesito!”. Ora, haver situações em que as crianças, quase por antecipação, conseguem (só de a imaginarem) ter medo da reação da mãe ou do pai faz com que parem, enquanto é tempo. Ou que se munam de talentos para iludir a competência que todos os pais têm para adivinhar as suas asneiras – antes, ainda, delas serem pensadas – o que, a acontecer, não é para todos! Só mesmo para os filhos de quem, de vez em quando, berra, reclama e protesta…

Para rematar, dá-se a entender que os pais, depois de berros, protestos e reclamações ficam “afanadotes”. E, seja pelo cansaço de tão pouco edificantes “perfomances”, seja pelo exagero com que elas vêm equipadas, a seguir, se tornam “algodão doce”. E dizem “sim!” a quase tudo. E é verdade. Mas dizerem “sim” a quase tudo não significa que se tenham tornado amigos da “totozice”. Mas que tenham prescindido da sua quota-parte da birra e que, em função disso, casem melhor a autoridade com a bondade.

Educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar não será “a Graça de Deus”. Reconheço! Por mais que ande por aí quem confunda bullying com educação. Os pequenos destemperos dos bons pais são bondade e educação. Os registos rígidos a que alguns se obrigam (talvez porque tenham medo de, ao primeiro espirro, perderem a cabeça) são mais bullying do que parece. Porque é que os pais querem muito não gritar, sempre que educam? Porque eles lá sabem do que é que são capazes quando amam. Mas não fossem eles capazes de berrar, de rezingar e de resmungar que podiam ser bons pais, até. Mas faltaria uma pitadinha de alma, um quanto-baste de paixão. E nunca seriam “Os Nossos Pais”!

 

 

Entrevista a Eduardo Sá: “As mães têm sete sentidos”

Novembro 29, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://activa.sapo.pt/ a Eduardo Sá no dia 11 de novembro de 2016.

O psicólogo tem um livro novo – “Querida Mãe” (Ed. Lua de Papel) – que, apesar da doçura do título, apela aos pais – e mães – para que assumam o seu papel. Diz que as crianças não são tão complexas que mereçam programas educativos e que não devemos viver para os filhos. Defende a brincadeira, a alegria, e o esforço. E também diz que o melhor do mundo continuam a ser… as mães.

Catarina Fonseca

– Este título é muito doce, mas depois o livro é um apelo à assertividade dos pais. As crianças estão mesmo a tornar-se chefes de família?

Sim. Tenho medo que os pais tenham crescido em famílias e escolas demasiado autoritárias, e na ânsia de não reproduzirem esse modelo acabam por lidar com a autoridade de forma estranha, como um tabu. Às vezes esquecem-se que a autoridade é um exercício de bondade. Quando os pais não exercem a sua autoridade simplesmente porque sabem mais, na ânsia de serem bons pais, acabam por se demitir da paternidade. E depois esquecem-se que a autoridade funciona como uma caixa de velocidades: é preciso regras, rotinas, atitudes ancoradas em reciprocidade. Deve haver um conjunto de regras, e as crianças podem por vezes não as cumprir. Mas demitindo-se do seu papel, os pais depois encontram nos filhos uma cópia refinada dos seus próprios pais.

– Diz uma coisa tão triste: “Os pais parecem presos aos mimos que imaginem não ter tido – e parecem ter vivido a infância deles tão sozinhos…” Isto é mesmo verdade’

Claro que é. Os nossos pais nunca foram perfeitos, e não é por isso que são menos merecedores de crédito. Mas também é verdade que, em muitos momentos, os nossos pais não foram capazes de pôr legendas em tudo aquilo que era indispensável para nós.

– Nós somos hoje melhores pais do que os nossos pais?

Infinitamente. Não tem comparação possível. Somos mais atentos, somos mais presentes, e se por vezes não conseguimos fazer tudo aquilo que queiramos ou da maneira que queríamos, tentamos com muita vontade. Mas tenho medo que em muitos momentos haja uma ideia muito cor de rosa da infância, que muitas pessoas consideram o paraíso perdido que nunca foi. A infância de muitos pais foi mais infeliz do que eles gostariam de admitir, e é normal que queiram ‘remendar’ nos filhos essas falhas. Eu não questiono por um minuto a generosidade que isto representa, mas tenho medo que pareçam gelatina Royal, que queiram ser pais sem dor.

– E não é possível ser pai sem dor?

Não. Ser pai ou mãe implica responsabilidade, implica perplexidade, implica muito contraditório.

– Diz que as regras não se explicam, não se negoceiam e não se justificam. Porquê?

Porque os pais acham que são as demonstrações quase matemáticas de uma regra que a tornam válida, e isso não é verdade. O que torna uma regra válida é que os pais exijam em função daquilo que fazem, o que muitas vezes não acontece. As explicações não resolvem tudo, precisamos de mostrar como se faz, o que torna tudo mais fácil.

– Porque é que os pais devem ter mais direitos que os filhos?

Porque ser pai é um estatuto. E as responsabilidades vêm equiparadas com direitos: quanto maiores as responsabilidades, maiores os direitos. E portanto, as crianças não devem dominar o comando da televisão, não devem dominar o fim-de-semana com as suas actividades e ocasiões sociais. Mas acho que às vezes os pais se queixam muito mas estão a ser um bocado batoteiros, apresentando os filhos como desculpa daquilo que não são capazes de construir com a pessoa que têm ao lado. É importante lembrar que os filhos são muito importantes, ajudam-nos a crescer como mais ninguém, mas a relação entre os pais é sempre mais importante que os filhos. Os pais, por melhores pessoas que sejam, precisam de ser felizes para serem bons pais. E quando põem os filhos à frente de tudo o resto, é uma maneira hábil de dizer ‘Já que eu não sou amado pela pessoa que tenho ao lado, ao menos que o meu filho me ame’.

– Tentamos compensar com os filhos o amor que não temos em casal?

Às vezes sim. Mas essa não é a função de um filho. Mal estaríamos.

– Também fala no livro sobre ensinar as crianças a não ter medo das dificuldades. Diz que encontrar uma paixão dá muito trabalho. Como é que, num mundo em que tudo é facilitado, se faz a apologia da dificuldade?

Estamos sempre a fazer publicidade enganosa, porque a única coisa verdadeiramente fácil é a estupidez. Tudo o que é verdadeiramente importante dá imenso trabalho. E às vezes não nos damos conta de tudo o que trabalhamos para que alguma coisa pareça fácil. Portanto, andamos a mentir às crianças e depois isso cria problemas. Percebo que as queiramos poupar a dificuldades, mas se as pouparmos a todas as dificuldades, estamos a limitá-las para o engenho de viver, estamos a torná-las frágeis e débeis.

– E para terminar, o que é que faz uma boa mãe?

(risos) Costumo dizer que as mães têm 7 sentidos: os cinco habituais, o sexto que é equipamento de base e que faz com que elas sejam capazes de traduzir por palavras coisas de que nem sequer nos tínhamos apercebido, e depois têm um sétimo, que não é bem um sentido, mas é uma espécie de sensor com que descobrem tudo aquilo que não era suposto que descobrissem. Depois têm um lado esganiçado, que é uma ternura, e fazem-nos cenas fantásticas do tipo ‘Qualquer dia saio desta casa e depois é que vocês vão sentir a minha falta’. Uma mãe é feita de tudo isto. Esta capacidade de serem de uma generosidade à prova de bala. Quando nós percebemos aquilo que se passa numa mãe quando ela dorme exausta e de repente o bebé abre um olho e ela acorda, percebemos tudo. Aquilo que faz uma boa mãe é este sorriso absolutamente transparente que faz com que uma pessoa, diante disso, se sinta Deus com os olhos dela.

– Isso é demasiado poético para algumas mães que eu conheço, mas pronto, vamos aceitar.

(risos) Olhe que a grande maioria das mães são assim. No meio do cansaço, dos desafios, das dificuldades, dos contratempos, das exigências, acho absolutamente fantástico que consigam ser como são. Porque ser mãe não é fácil.

 

 

Os medos das crianças são uma invenção dos pais – Eduardo Sá

Novembro 24, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ de 12 de outubro de 2016.

Junta-se um pouco de pai ou de mãe, nada de perguntar ‘porquê’, acrescenta-se colo, condimenta-se com algum músculo… e já está!

 1 – É verdade que o medo é tão natural como a sede. Mas, apesar disso, os medos das crianças são uma invenção dos pais.
Todas as crianças nascem equipadas para ter medo. E isso é bom. Têm medo de répteis e, regra geral, de todos os animais com uma pupila longitudinal, por exemplo, porque, por mais que o desconheçam, esse medo está muito bem guardado no seu código genético e faz parte duma herança que as torna um bocadinho sábias, desde sempre. Têm medo de animais de grandes dimensões porque, para os seus mais longínquos avós, eles terão sido, literalmente, quebra-cabeças. E têm medo de alguns sons mais agudos ou de cheiros muito exuberantes porque eles habitualmente foram surgindo, noutras vidas antes das suas, associados a experiências muito próximas de perigos graves. Todas as crianças nascem equipadas para ter medo porque, por mais que não pareça, ele as protege dos perigos.

Mas as crianças aprendem, atentamente, muitos mais medos, à medida que crescem. Se a mãe, quando estava grávida, dava – regularmente – grandes saltos de susto por isto ou por aquilo, é natural que um bebé tenha uma personalidade que o puxe para um lado medricas. Se teve, de início, uma experiência complicada de prematuridade, ou foi alvo de procedimentos cirúrgicos muito precoces, a mesma coisa. Se teve uma ama cujo rosto – mal-encarado – rivalizava com o da Cruela, mais ainda. E se – seja com as trovoadas, com os elevadores ou com os estranhos – um dos pais (entre aquilo que viveu, por acidente, ou através do que aprendeu com a sua família) foi, sem querer, uma enciclopédia de medos, eles parecem não dar descanso a ninguém. Vistos assim, todos os medos são tão naturais como a sede. Nunca são estúpidos (por mais que, por vezes, disfarcem bem). E são um autêntico seguro de vida (que, à imagem dum disjuntor num quadro elétrico, disparam primeiro e perguntam… depois).
Apesar disso, os medos são incomodativos. E percebe-se porquê. Imagine que, num momento do maior aperto, reagiu a um perigo mais com o estômago do que a cabeça… É natural que, numa circunstância levemente, semelhante aquela em que tremeu da cabeça aos pés, o seu estômago desvarie e, sem que conscientemente compreenda, o seu medo se arme em herói e… volte outra vez a fazer das suas. (Já agora, para complicar, imagine que a sua mãe ou o seu pai ficaram aflitos com a sua aflição… Pois é: o medo multiplica-se várias vezes).

2 – À escala das nossa capacidades, todos os medos nos deixam um bocadinho… burros. Quando temos medo, muito do sangue que alimenta de “combustível” o nosso cérebro foge para as massas musculares. Noutros tempos, isso ajudava ora a atacar ora a fugir (foi assim que, ao longo dos séculos, se pouparam algumas vidas…). Com menos oxigénio no cérebro ficamos mais perros das ideias e é por isso que, quando temos medo, não dizemos uma coisa esperta que nos orgulhe… Mas se a nossa aflição se multiplica com a dos nossos pais não só temos medo. Passamos a ter medo… de ter medo. (Nós gostamos de chamar a isso fobia… Que é uma forma de dizer que, se os medos fazem bem à saúde, o medo de ter medo dá cabo dos ‘nervos’…) É mesmo verdade que o medo é tão natural como a sede mas só a angústia dos pais, diante dos medos dos filhos, faz com que eles tenham medo de ter medo. E entende-se porquê.

Os pais são os verdadeiros mata-borrões dos medos dos filhos. Vamos a outro exemplo: todas as crianças nascem equipadas para terem medo das trovoadas. Sendo assim, quando são surpreendidas por um relâmpago que lhes entra pelo quarto dentro, pegam na almofada e, mais depressa que o som, enfiam-se na cama dos pais, bem no meio deles. Como, aparentemente, eles continuam com um doce ressonar, uma criança saudável põe as coisas assim: “Se isto fosse muito grave, eles estariam em alerta geral! Como continuam entregues aos seus sonhos então… é de desmobilizar…” Por outras palavras: é a segurança dos pais que sossega os medos das crianças. (É claro que a insegurança deles os atiça… Mesmo que, em milésimos de segundo, diante de uma tarefa nova, elas tirem as medidas aos olhos da mãe, por exemplo, para se certificarem se aquele precioso semáforo está no verde ou no vermelho.) Mas se a mãe fica aflita, mais aflita que uma criança, aquilo que seria um maldito karma (mais ou menos temporário) vira para uma sirene dos bombeiros. E não só uma criança passa a ter medo daquilo que a assustou como passa a sentir que os seus medos fazem mal aos pais. Não só eles não são um super mata-borrão para todos os medos como  parecem partir-se, um pouco mais, com cada medo dos filhos. Em resumo: temos medo do medo quando quem nos devia proteger dele o amplifica, sem querer. E é o medo de quem nos devia proteger do medo que nos torna mais amigos do pânico.

 

3 – Gosto dos pais que, em algumas circunstâncias, assustam as crianças. A brincar, é claro. Porque isso, segundo se diz, as cura do umbigo. Isto é, as torna mais afoitas e destemidas. E gosto, também, daqueles que (exceção feita à chantagem a que deitam a mão quando se trata de as convencer a comer a sopa) lhes falam do ‘homem do saco’ . Entre as bruxas, o homem do saco e os papões, é natural que as crianças temam, sobretudo, os papões. Porque, pior do que os fantasmas (que sem um lençol branco mal fazem pela vida) os papões não têm rosto, nem forma, nem movimento. São da família dos vultos. E todos estes medos – que se jogam nas histórias, no imaginário popular ou nas advertências dos pais – são uma forma de as vacinar, com um quanto baste de prudência, para os excessos de zelo com que a curiosidade das crianças, por vezes, faz das suas. Gosto, também, dos pais que, quando sentem um tremelique ligeiro de uma criança, fazem cara de maus e “rosnam” levemente. Na verdade, isso é uma forma afetuosa de, tecnicamente, acrescentarem um medo a outro. Mas, bem vistas as coisas, serve para lhes dizer que, entre a tremedeira e a ira dos pais, a escolha é dela…

Do que não gosto, mesmo, é dos pais que, diante de um medo, perguntam: “Porque é que tens medo?” (Como, entre os leitores da Pais&filhos nenhum é assim, fico mais descansado…) Porque ainda não entenderam que racionalizar um medo é meio caminho andado para ficar preso a ele. Nem perceberam que aquilo que uma criança procura não é de uma explicação para os medos: mas de alguém que lhos segure. Dos medos nunca se foge! “Eu tenho medo!” é 3 em 1: uma parte de mim, percebe que isto, cá dentro, está a virar para o azar; outra parte de mim, está numa tonteira fora de controle; e, em terceiro lugar: “dá-me colo e não perguntes porquê”. É claro que há sempre uma versão mais… hard, para lidar com os medos duma criança:
– Olha, meu filho, eu não sei o que é o papão mas, se ele, entretanto, chegar, chamas-me, eu aperto-lhe o pescoço e dou-lhe um chuto pelas escadas abaixo, que ele vai ver! (É uma boa fórmula para dizermos, por outras palavras: Se a melhor forma de ficar preso a um medo será fugir-lhe, unidos… vamo-nos a ele).

Basicamente, diante do medo das crianças, não há como inventar: junta-se um pouco de mãe ou de pai, nada de perguntar ‘porquê?’ (ou outras coisas), acrescenta-se colo (em doses cuidadosas), condimenta-se com algum músculo e… já está!

 

 

Eduardo Sá explica “porque é que crianças inteligentes têm más notas”

Novembro 3, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://visao.sapo.pt/ de 21 de outubro de 2016.

jose-carvalho

No seu mais recente livro, ‘Querida Mãe’, o psicólogo clínico e psicanalista Eduardo Sá lembra às mães que elas não têm de ser perfeitas. Que podem arriscar e errar e que, mesmo assim, nunca andarão longe da perfeição.

O psicólogo clínico e psicanalista Eduardo Sá acaba de lançar o livro Querida Mãe (Lua de Papel), dedicado, como o nome indica, às mães portuguesas. Num esforço para lembrar as mulheres que “não percisam de ser perfeitas, só precisam de ser mães”, o autor junta uma vasta série de conselhos para lidar com as inúmeras facetas da maternidade e recorda que “as mães podem arriscar e errar e que, mesmo assim, nunca andarão longe da perfeição”.

Aqui reproduzimos o capítulo “Porque é que as crianças inteligentes têm más notas”, do livro Querida Mãe, de Eduardo Sá

“Mal se chega ao fim de mais um período de aulas, vêm lá as notas.

E chegam as reuniões de pais com os professores e uma ou outra má notícia acerca da avaliação final de alguns alunos. Virá aí, para muitos deles, uma ou outra negativa. Evidentemente que a primeira tentação de todos os pais, numa circunstância como essa, é concluírem que os filhos terão sido “preguiçosos”. Havendo alguns que, numa decisão impulsiva, irão decidir castigá-los. Ora obrigando-os a deixar o futebol, por exemplo. Ora levando até ao fim a decisão de os privar de prendas no Natal. Será isso razoável?

Comecemos pelo princípio: porque é que crianças inteligentes têm más notas? Porque são inteligentes! Eu sei que a resposta pode parecer um desaforo. Mas é verdade. Acreditem que não estou enganado: a tentação de falar de dificuldades cognitivas ou de “deficiência mental”, a propósito das crianças, merece uma imensa ponderação. Mas, vamos por partes.

Não há crianças “burras”! Eu sei que há termos ásperos, como este, para todos nós. Mas é importante que sejamos claros: tirando raríssimas exceções, de crianças com quadros genéticos ou neurológicos muito graves (e que são, realmente, raríssimas!) não há crianças que nasçam “burras” como, desde sempre, se foi imaginando ou formulando. Recordo que algumas das crianças consideradas assim, que viveram a escola de forma penosa, com resultados catastróficos e com experiências humanas humilhantes, se transformaram em grandes empreendedores, grandes empresários e pessoas cuja singularidade trouxe, realmente, mais-valias ao mundo.

Mas, sendo assim, quem transforma crianças inteligentes em maus alunos? De certa forma, todos nós. É claro que para os resultados duma criança na escola faz diferença que ela tenha tido — pelo menos, até entrar no primeiro ano de escolaridade — uma família minimamente equilibrada. Porquê? Porque todas as crianças nascem altamente sensíveis, atentas, intuitivas e inteligentes, a grande dificuldade dos pais passa por se adequarem a essa “esponja” habilitadíssima para os recursos cognitivos (é assim que muitos definem a forma como elas “absorvem” conhecimentos e os multiplicam através de operações mentais que as parecem tornar a todas “matemáticos de fraldas”, não é?). Trata-se de adequar às crianças um conjunto de rotinas que façam com que os seus ritmos (de sono ou de alimentação, por exemplo) não se desorganizem, ligando-as a regras que as façam conjugar aquilo que elas desejam e o que os pais consideram desejável. Mas, para além de regras, rotinas e ritmos, as crianças necessitam da sabedoria dos pais. Porquê? Porque quando as crianças leem o mundo à sua volta, elas têm uma espécie de “instinto de adivinhar” que faz com que, em tempo real, intuam de forma fulgurante aquilo que se passa, por mais que uma imagem que fique duma experiência como essa possa levar trinta anos, por exemplo, a ter a “legenda” apropriada. Isto é: as “legendas” que os pais colocam naquilo que elas intuem servem para as crianças atribuírem palavras àquilo que veem, servem para lhes dar um significado, servem para que elas saibam discernir as operações mentais que as levem a resolver os problemas que a vida sempre lhes traz e servem, sobretudo, para que elas vão aprendendo “coisas” mais complexas e as atinjam duma forma mais simples, mais rápida e mais eficaz. Como se compreende, quando os pais, na ânsia de que elas cresçam mais depressa do que deviam ou esperando que as crianças se adequem a exigências de “agenda” que não são as suas (pensar e aprender exige tempo, tentativas, erros e uma dose generosa de experimentação “autodidática”), não respeitam os seus ritmos, não enquadram os seus ímpetos, não lhes dão um perímetro de segurança esclarecido para aquilo que podem e não podem fazer. Para além do mais, trazem-nas para burburinhos ou conflitos que as magoam – para além de as baralharem ao colocarem “legendas” um bocadinho “ao lado”, considerando aquilo que elas já perceberam – e contribuem muito (contra a sua vontade, sem dúvida) para os maus resultados escolares das crianças. Porquê? Porque a escola é uma espécie de enciclopédia que vai multiplicar os conhecimentos que a própria família já de si gerou. E chegar lá com “as ideias fora do lugar” é meio caminho andado para que tudo o que podia ser simples se transforme numa “confusão”

Para os bons resultados escolares duma criança faz, também, diferença que ela tenha uma educação infantil sensata, pouco apressada e pouco dada à vaidade de conhecimentos que se repetem sem que se perceba como eles funcionam. É claro que se a ausência de educação infantil pode trazer limitações cognitivas a uma criança, uma má-educação infantil não deixará de lhe trazer constrangimentos. Sendo curial que se pergunte o que poderá ser uma má-educação infantil? Aquela que coloca os desempenhos de curto prazo à frente de aprendizagens centradas em áreas de conhecimento que contribuam para que os recursos das crianças se transformem, progressivamente, em aptidões para ligarem palavra, aptidões abstratas, sentimentos e expressividade, autonomia e solidariedade, capacidade lúdica e tolerância à frustração. Escusado será dizer que sobrepor conhecimentos às operações mentais que as crianças ainda não agilizaram, e submetê-las aos ritmos e aos objetivos dos pais e dos colégios (independentemente das distorções de médio e longo prazos que isso traz à versatilidade da sua aprendizagem) é, a médio prazo, amiga das más notas.

Depois, há as escolas, propriamente ditas. E aqui tudo se complica mais. Porque embora haja uma política educativa, ela parece carecer, em muitas circunstâncias, de robustez, de coerência e, sobretudo, de uma ideia do que se pretende para a aprendizagem dos alunos. Não se trata de fazer “cruzadas” contra os critérios de avaliação (nem isso seria sensato), nem de eleger as provas de aferição e os exames como “alvos a abater”.

Mas trata-se de não nos ficarmos, unicamente, na discussão sobre esses aspetos quando se trata de transformar a educação.

Sem perguntarmos o que queremos em cada momento formativo, de ponderarmos se aquilo que se exige das crianças terá em termos de objetivos, de forma e de conteúdos, a metodologia correta (que se irá refletir “no fim da linha”). Como se já não bastasse a ideia de que um pacto de regime acerca da educação nunca ter merecido uma oportunidade política ser inquietante, a construção das turmas, o casamento das disciplinas, a ligação que elas não têm (muitas vezes) com a vida das crianças, ou a interseção entre o lúdico, o expressivo e o aprendido que não se estimula faz com que se torne fácil que a escola estimule as más notas.

E, finalmente, há os professores. Que são preciosos, claro, mas que nem sempre têm a formação indispensável, os recursos exigíveis, a retaguarda de técnicos que os apoiem e protejam, ou os conhecimentos tão agilizados dentro de si que transformem um programa numa tarefa apetitosa para todos os alunos.

E que têm vida própria mas que nem sempre são acolhidos por uma escola com o carinho e o respeito que a sua tarefa exige.

E que têm com o ensino uma paixão quase difícil de se entender mas, ao mesmo tempo, a vão sentindo a burocratizar-se todos os dias, mesmo quando têm diante de si turmas difíceis e exigentes e pais que os desconsideram, por vezes, mais do que deviam. Isto é, nem sempre os professores são – ao contrário do que, seguramente, seria o seu anseio – os melhores amigos das boas notas.

É fácil, portanto, uma criança “tirar” más notas! Porque há sempre um ou vários destes incidentes que se emaranham, num momento qualquer, no seu percurso educativo. Por mais que todas as crianças sejam, de forma ardente e continuada, as melhores amigas dos bons resultados. Tanto assim é que, sempre que eles não surgem, e os pais, os professores, os explicadores e os avós se unem no sentido de as ajudar a pensar — todos de forma diferente a congeminar sobre uma mesma disciplina –, se os maus resultados perduram as crianças baixam os braços. Ou ficam, aparentemente, “burras” de tanto terem medo de não saber, que erram diante de problemas que elas, efetivamente, dominam. Ou desistem e desinvestem, que é uma forma de terem a ilusão de saírem vitoriosas dum confronto onde, geralmente, acabam a perder. Ou “deixam-se andar”, parecendo preguiçosas (ou numa versão mais urbana: parecendo desmotivadas), que é uma forma de desistirem antes de declararem qualquer desistência. Ou foram acumulando “défices” de conhecimentos ou de raciocínio a algumas áreas e como a aprendizagem é um longo puzzle chega a uma altura e não se torna possível contornar por mais tempo essas dificuldades. Ou “encasquetam” que não são aptas para algumas disciplinas por mais que sejam muitíssimo capazes noutras, como se fosse possível ser inteligente e “burro” ao mesmo tempo. Ou estão a viver uma relação difícil com um professor ou com a escola e tudo se complica. Não se pense, no entanto, que as crianças são, unicamente, “vítimas”. Não são. Mas não serão, seguramente, as únicas responsáveis pelos seus maus resultados escolares. Só que, a existirem más notas, elas são, unicamente, suas. Quase todos – pais e professores, à cabeça — reagem como se se sentissem um bocadinho traídos por cada negativa manifestando, até, alguma estranheza pelos maus resultados e castigando-as a elas, unicamente. Como se as notas duma criança não representassem um percurso dum longo trabalho de equipa onde elas não mandam tanto como as suas notas fazem parecer.

Qual será, então, a vantagem de descobrirmos parcerias em cada uma das suas notas? Não tanto o de nos sentirmos levados a estudarmos com elas ou estudarmos por elas, mas percebermos que nem sempre ajudamos as crianças a aprender a aprender. Apesar de isso ser o que elas mais querem e aquilo para o que estão, inequivocamente, mais capacitadas. Terão elas, porventura, mais dificuldades de aprender do que os adultos que as ensinam? Não! Seguramente. Sendo assim, trata-se de aprendermos com erros, percebermos aquilo que estará a gerar as nossas dificuldades e, todos juntos, passarmos das necessidades educativas especiais ao sucesso (que será, ele também, sempre o resultado dum trabalho de equipa).

Em resumo: uma nota negativa existe porque os pais foram complicando a relação com a escola ao contrário das suas genuínas intenções. Porque o “sistema” precisaria dum plano individual de recuperação para deixar de querer positivas sem olhar a meios, em vez de perceber que uma negativa (ou muitas negativas, a determinadas áreas de aprendizagem, por exemplo) são interpelações que o colocam, verticalmente, em causa. Porque as escolas foram insistindo, teimosamente, em normalizar crianças quando as deviam singularizar. E porque alguns professores vão tendo muitas dificuldades para ensinar e para tornarem claros e apelativos, para todos, os conhecimentos que pretendiam partilhar. No final da cadeia, as crianças só não têm mais sucesso porque –às vezes, por azar – foram tendo pais, escolas e professores que, mal começaram a desenhar-se as primeiras dificuldades escolares, lhes atribuíram a elas – e, sobretudo, a elas – “a parte de leão” dessa má notícia. Quando, na verdade, cada “negativa” pressupõe várias “negativas”. Sendo assim, porque é que os menos responsáveis pelas “negativas” são repreendidos, advertidos e castigados e os outros todos… não?”

 

 

 

 

“O sistema educativo português faz mal às crianças?”

Setembro 2, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Teto do site http://www.educare.pt de 26 de agosto de 2016.

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As crianças mudaram, os pais também. O mundo não é o que era dantes. Mas a escola continua quase igual. E não é só em Portugal.

Andreia Lobo

Com o ano letivo prestes a começar, uma família residente no Luxemburgo decide voltar a Portugal a tempo de matricular o filho no primeiro ano do ensino básico. Na bagagem trazem alguns receios. “É verdade que o sistema educativo português faz mal às crianças?” A pergunta é dirigida ao psicólogo Eduardo Sá: “Não, mas tomaria eu que fosse só o português que fizesse mal, significaria que todas as outras crianças da Europa viviam num paraíso.”

As crianças mudaram. Os pais mudaram. O mundo mudou. Mas “em Portugal ainda estamos a funcionar em função do passado”, critica Eduardo Sá. “A formação de professores continua mais ou menos igual e ainda não percebemos que as escolas não servem para construir jovens tecnocratas de sucesso, mas para construir pessoas melhores.”

Ainda assim, tranquiliza o psicólogo, “há cada vez mais escolas que percebem que os professores têm de ser escolhidos a dedo, que os projetos educativos têm de ser construídos em função dos professores e não em função de ideias absurdas”.

O professor da Universidade de Coimbra, acredita que é tempo de parar de “funcionar como se de repente ainda estivéssemos a escolarizar em massa”. Um olhar sobre o modo como os últimos ministérios da educação foram conduzindo algumas políticas leva a uma conclusão obvia: “Ainda não perceberam que a ideia não é entrar num clima de “ó tempo volta para trás””, ironiza.

Com o início do ano letivo é tempo de olhar para a frente. E pensar “como vamos construir um futuro melhor, com os professores e as escolas que temos, nutrindo uma ideia do que temos de criar para a educação”.   Desde logo, importa criar “de facto” escolas inclusivas e plurais começa por dizer Eduardo Sá. Quanto mais não seja, “porque a vida é o que há mais de inclusivo no mundo.” Educar para a inclusão, é um dos grandes desafios que se coloca à educação.

“Se criarmos nas crianças a ideia de que o exclusivo é bom e tudo o resto é atentatório não há sistema educativo por mais sensato que seja que salve as crianças.”

Por outro lado, antes da escola estão os pais, lembra o psicólogo. “Quando os pais fazem escolhas como deve ser, por mais que os sistemas educativos estejam constipadíssimos, as crianças crescem saudáveis.” Assim, aos receios da família que retorna agora do Luxemburgo, Eduardo Sá responde: “Não é por vir para Portugal que vai estragar o seu filho. Mas vai ter de ter um juízo imenso ao escolher o professor a quem os vai entregar. E uma sensatez fora do vulgar ao perceber que uma escola tem de ser um sítio aberto e plural.”

Menos mal

O que foi considerado um dos males do sistema educativo português está definitivamente afastado. Acabaram os exames nacionais do 4.º e do 6.º ano. Apesar de contarem 30% para a nota final, nunca houve consenso na comunidade educativa quanto à sua importância. E todos os anos, a sua realização enfrentava a oposição de pais e professores. Até que foram considerados “prejudiciais” para os alunos e extintos pelo atual Ministério da Educação.

O novo modelo de avaliação externo continua, no entanto, a dividir opiniões. Há quem receie que as provas de aferição façam diminuir o grau de exigência colocado pelos anteriores exames.

Contudo, os dois modelos de avaliação têm um denominador comum. Servem, basicamente, para perceber o que se passa num número significativo de crianças em relação aos seus conhecimentos. A apreciação do que os alunos sabem ou não continua com a realização das provas de aferição. A diferença? Não contam para nota. E realizam-se não no final do ciclo, mas a meio. Ou seja, testam os conhecimentos dos alunos do 2.º, 5.º e 8.º ano. O ano letivo de 2016/2017 inaugura em todas as escolas esta nova etapa.

Polémicas à parte, Eduardo Sá prefere desdramatizar. “Gosto que as crianças fiquem com dores de barriga antes de cada exame, porque à medida que eles vão a jogo é como se deixassem de estar sempre a jogar em casa e passassem a jogar fora. E, com isso, inevitavelmente crescem.”

No entanto, o psicólogo insiste em lembrar que a própria vida é feita de exames. Daqueles que não são forçosamente realizados com papel e caneta. “Às vezes tenho medo que se dê mais importância aos exames escolares que aos de todos os dias. E que as crianças se tornem muito habilitadas para aqueles exames e depois nos outros todos fiquem com carências graves.”

Perguntamos a Eduardo Sá o que não gostava nos antigos exames nacionais? “Não gostava dos professores que a partir de fevereiro infernizavam a vida das crianças por causa dos exames. Das direções de escola que infernizavam a vida dos professores por causa dos exames. E dos pais que empanturravam as crianças de explicações e as privavam de sábados e domingos, antes dos exames.”

Seja na avaliação ou na aferição de conhecimentos, para Eduardo Sá, professores e direções das escolas não podem ignorar as qualidades, nem as dificuldades das crianças e dos jovens que ensinam. “Os alunos são como as colheitas dos vinhos, nem sempre são como desejaríamos.”

 

 

 

Este país não é para anjos – Crónica de Eduardo Sá

Abril 9, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Crónica de Eduardo Sá publicado no site http://www.paisefilhos.pt a 16 de março de 2016.

Se olharmos as crianças partindo da vida dos pais, os exemplos não serão os melhores. Pelo psicólogo Eduardo Sá.

Se olharmos as crianças partindo da vida dos pais, os exemplos não serão os melhores. Os compromissos do trabalho assumem o protagonismo, a que se seguem as preocupações com os filhos e, finalmente, as respetivas relações amorosas.

Durante o século XX as famílias mudaram profundamente. Tornaram-se menos machistas e menos matriarcais. Tornaram-se menos tradicionais e mais nucleares. Tornaram-se mais monoparentais e mais reconstruídas. Relativizaram o poder paternal e elegeram a paridade parental. Do ponto de vista dos interesses das crianças, estas serão as melhores e as mais democráticas famílias que existiram, desde sempre, para elas.

A famílias cada vez mais democráticas têm correspondido crianças mais interpelantes que – ao serem objeto de exigências escolares mais expansionistas, tempos de brincadeira e de recreio mais microscópicos, espaços residenciais e públicos mais espartilhados – vão ficando menos imaginativas e com maior iliteracia emocional.

Mais escola não é, regra geral, para as crianças, melhor escola. Espaços de dez minutos de intervalo (a que correspondem três minutos e alguns segundos para irem à casa de banho, três minutos e alguns segundos para ir ao bar e três minutos e alguns segundos para brincar) entre blocos de noventa minutos de aulas e uma formação extracurricular empanturrante trazem stresse crónico à vida das crianças, que não encontram na atividade física e no brincar espaços de metabolismo da agressividade que as acompanham. É por isso que o stresse crónico é o melhor amigo dos défices de atenção e da hiperatividade

Sempre que há stresse há agressividade. Isto é, sempre que a vida anda muito depressa e não é acompanhada pela nossa capacidade de entendimento do que estamos a viver ou a aprender ficamos assustados. À cautela, a agressividade dispara, automaticamente, e o nosso corpo fica num estado de alerta que nos prepara para agredir ou para fugir. A agressividade faz, portanto, muito bem à saúde. É o melhor ansiolítico e o melhor antidepressivo do mundo! Porque nos protege. Sempre que a utilizamos numa competição desportiva, num espaço lúdico ou rivalizando por um conhecimento, por exemplo, aprendemos a ser agressivos com maneiras. Sem ela não podemos ser ambiciosos, aventureiros ou conquistadores. Não se pode ser vivo, sensível e imaginativo sem se ser agressivo! Mas se geramos agressividade – funciona como uma correia de transmissão do motor que temos cá dentro – e se espartilhamos as crianças, não lhes dando tempo para brincar e para se engalfinharem fisicamente umas nas outras (até que descubram como podem agredir de forma mais leal e menos física) estamos a criar uma geração de anjos. Quanto mais contidas, menos íntegras, mais impulsivas e mais estúpidas as crianças se tornam. Quanto mais se guarda, mais a agressividade se converte em violência, que ora tende a expressar-se de forma impulsiva (como se fôssemos uma panela de pressão) ora se encapsula em sintomatologia depressiva. Isto é: se continuarmos a exigir o que exigimos das crianças estamos a criar uma geração de adolescentes imberbes, violentos ou deprimidos. Como alternativas de crescimento, convenhamos, qualquer uma delas não será do melhor.

Mas se olharmos as crianças partindo da vida dos pais, os exemplos não serão os melhores. Os compromissos do trabalho assumem, para eles, o protagonismo mais significativo, a que se seguem as suas preocupações com os filhos e, finalmente, as respetivas relações amorosas. Esta hierarquia estará invertida: em primeiro lugar, deveria estar a relação dos pais; em segundo, os filhos; em terceiro, os compromissos de trabalho. O quotidiano dos pais acaba por não ser generoso para os valores da família, favorecendo os ressentimentos, o enfado e a hostilidade, o lado hipnótico das rotinas, o desconhecimento mútuo e a solidão. Como se não bastasse, pais assustados desligam o «piloto automático» e ligam um atrapalhador que os deixa, invariavelmente, em falta.

Já num plano social, a revolução francesa trouxe um mundo melhor e mais humano. Trouxe a noção de Estado e criou condições para que a ciência e o conhecimento ocupassem o lugar do obscurantismo que muitos confundiam, unicamente, com a fé. O mundo tornou-se mais racional e melhor. Mas foi favorecendo a tecnocracia e a burocracia. E todas as manifestações da subjetividade humana – a paixão a esperança, o espanto ou a paixão – são, ainda hoje, tomadas como regresso ao mundo de anjos e de demónios que éramos antes do século XVIII.

Nós não queremos crianças: criamos acrobatas. Damos-lhes famílias que as educam melhor que nunca, mesmo que lhes deem maus exemplos quando se trata de definirem prioridades aos carinhos que dão. Damos-lhes mais e melhor escola, menos quando se trata de dar ao brincar a importância fundamental que ele merece. Damos-lhes mais humanidade e mais justiça, menos quando se trata de nos escutarmos uns aos outros. Estamos errados. E os custos de tamanha insensatez serão longos e incalculáveis. Afinal, o mundo das crianças vai aos pulos e avança quando este país não for para anjos.

 

 

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