Nasceu a Escola Amiga da Criança: menos “cultura da nota” e mais recreio

Maio 3, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://observador.pt/ de 17 de abril de 2018.

Ana Kotowicz

“Se andam num furor desenfreado com os rankings, vamos criar outro ranking e olhar para aspectos absolutamente fundamentais dentro de uma escola”, diz Eduardo Sá. Já há 800 escolas candidatas.

O que é que se faz quando se quer subverter os rankings baseados nas notas? Cria-se a Escola Amiga da CriançaO mentor da ideia é Eduardo Sá que desafiou os pais da Confap e a editora Leya a criarem este concurso. As inscrições já fecharam e há 800 escolas candidatas a serem amigas dos seus estudantes. Os resultados serão conhecidos no Dia da Criança, 1 de junho, e a escola que apresentar a ideia mais extraordinária vai ficar com a sua biblioteca recheada de novos livros.

“A escola não pode ser uma linha de montagem de tecnocratas de sucesso, tem de ser muito mais que isso”, diz o psicólogo Eduardo Sá para explicar o que despertou em si esta vontade de lutar contra os rankings instituídos.

Quando teve a ideia de criar esta espécie de bandeira azul da educação, como o próprio lhe chama, Eduardo Sá sentia que a escola estava a perder as coordenadas que pretendemos que ela tenha. “E os pais, na sua bondade de pais, acabam por dar mais importância à escola do que aquela que ela deve ter. De repente, tudo o que não seja a escola parece perder importância na vida das crianças”, ressalva.

Por isso, quis criar um selo alternativo que premiasse os estabelecimentos de ensino que têm projetos e condições realmente amigas dos estudantes. Porque para ser boa, considera o psicólogo, a escola não pode ter apenas um conjunto de alunos com bons resultados escolares, precisa também de ter bons recreios, dar-lhes uma boa alimentação, envolver os pais no projeto educativo e ouvir os estudantes.

“Chegámos a um patamar em que, em primeiro lugar, a escola serve para criar condições para se entrar no ensino superior. Isto não é razoável, a escola é muito mais do que isso. E entrámos numa atmosfera quase de angústia que faz com que se parta do pressuposto que a vida acaba aos 17 anos com a entrada no ensino superior, como se andássemos a produzir corredores de 110 metros de barreiras quando a vida é uma maratona”, diz.

Este cenário é para si muito inquietante por considerar que a escola e a sociedade estão a desprezar questões que fazem parte de uma formação de carácter de jovens que têm de ser perguntadores, curiosos, autónomos e capazes de aprender a estudar, algo que “a escola vai desprezando todos os dias”.

“São tantas as aulas, os trabalhos que, de repente, estudar, pensar, duvidar, perguntar parecem ser bens em vias de extinção. E tornou-se importante criarmos um contraponto àquilo que têm sido os rankings — podem ser importantes porque nos dão uma amostragem nacional que nos deve obrigar a retirar consequências deles”, diz Eduardo Sá.

Mas os rankings, defende, foram subvertidos para uma espécie de controlo de qualidade em que muitas escolas acabam por fazer publicidade enganosa. “E acabam por não aceitar alguns jovens como seus estudantes porque não têm à priori as notas ao nível do que deviam. A ideia era subverter isto. Se andam num furor tão desenfreado com os rankings, nós vamos criar um outro ranking e vamos olhar para um conjunto de aspectos que são absolutamente fundamentais dentro de uma escola”, explica o psicólogo.

Jorge Ascenção, presidente da Confap — Confederação Nacional das Associações de Pais concorda com este diagnóstico: “Como diz o professor Eduardo Sá, é uma revolução silenciosa em relação à forma como a educação está a ser vista e nós, pais, estamos a dar um sinal de que queremos que as coisas sejam diferentes e de que queremos participar na solução.”

A revolução silenciosa passa não só por subverter os rankings, mas também por ter uma escola menos focada na cultura da nota. “Vemos o frenesim à volta dos rankings, e sentimos que isso está a acontecer cada vez mais cedo. Logo no 1.º ciclo já há muita preocupação com as notas. E depois não estamos preocupados se as nossas crianças e os nossos jovens crescem com aquilo que é a vida à volta deles, as questões do dia a dia, os valores. Só pensamos que têm de estar muito quietinhos na sala de aula e a estudar para poder fazer um teste”, argumenta Jorge Ascenção.

Uma Escola Amiga da Criança tem bons recreios

E o que é uma escola amiga da criança para Eduardo Sá? “É uma escola que tem um rosto humano, um fator que se tem vindo a perder. Uma escola que despreza todas as características da humanidade deixou de ser uma escola. Por isso, na Escola Amiga temos de olhar para a  qualidade dos recreios, a qualidade das casas de banho dos alunos, a qualidade da alimentação, a maneira como trazem os pais para a participação nos projetos das escolas… Tudo isto são aspectos que não podiam ser desprezados pelas escolas e que são colocados em segundo plano todos os dias”, defende o mentor da ideia.

Se todas estas características contam, os recreios assumem um papel especialmente importante, não só pela qualidade dos espaços onde se brinca mas também pelo tempo disponível para atividades não letivas.

À luz do Ministério de Educação brincar é uma atividade de primavera-verão, há muitas escolas privadas e públicas que não têm um recreio coberto digno desse nome. E depois têm recreios de 5 ou de 10 minutos entre aulas de 90 minutos. As crianças não podem conviver. Pelo modo como o ministério vê o recreio, nós vemos como ele não percebe de crianças. Então que sejam os pais e os professores a dizer: acordem, aprendam”, defende Eduardo Sá.

Jorge Ascenção concorda: “Há escolas com recreios que quase não existem. E quando os programas não são cumpridos prolongam-se os tempos letivos e diminuem-se os outros. Quase não há tempo para os miúdos poderem conversar entre si, para poderem brincar. E há escolas que nem infraestruturas têm para eles poderem brincar quando chove.”

Por que é que a falta de tempo para brincar é tão preocupante? “Brincar é sobretudo aprender”, explica Eduardo Sá. “Percebo que os pais dêem à escola a importância que ela tem de ter, mas brincar é mais importante do que aprender. Porque brincar implica resolver problemas, fazer perguntas, conviver, aprender a ser agressivo com lealdade e com maneiras, fazer pela vida, é uma espécie de aparelho digestivo do pensamento. E nós andamos a empanturrar as crianças de informação e quando é preciso pôr o aparelho digestivo a funcionar nós não o permitimos”, conclui o psicólogo.

E lembra que o cenário em muitas escolas é preocupante, principalmente na época da chuva: “Conheço jardins de infância que não têm nem um bocadinho de recreio coberto. Em muitas escolas públicas, quando chove, ou as crianças brincam à chuva e são castigadas, ou brincam debaixo dos beirais. E noutras quando chove vão para o ginásio como se o ar livre — poderem conviver com ele e tratá-lo por tu — fosse um bem de segunda necessidade.”

Ao selo Escola Amiga da Criança puderam candidatar-se escolas públicas e privadas, do pré-escolar ao 3.º ciclo. E em cada nível de ensino, ser amiga do estudante poderá ser ligeiramente diferente. Fundamental é que tudo gire em torno das necessidades do aluno.

“Um pré-escolar amigo da criança é aquele que incentiva a criança a perguntar porquê, em que ela está livre no seu espaço, a fazer o que mais gosta. Brinca se lhe apetecer, dorme se lhe apetecer, e tem sempre alguém com uma mão estendida pronta para a apoiar. Dá-lhe segurança, ajuda-a a confiar nos adultos nesta vida que está a começar longe da família. Há regras, mas não de mais. Deixa-as viver e crescer cada uma ao seu ritmo. O pré-escolar influencia as crianças a brincar, incute-lhes alegria de aprender brincando. Não tem de ensinar a letra A nem a B. E no pré-escolar não pode haver a ideia de que as crianças fizeram mal, se pintam o telhado de amarelo não está mal, terão a sua lógica. A nossa tendência é de pensar que estamos cá para os formatar, de condicionar o pensamento deles, a criatividade, e a escola não pode ser isso”, sublinha Jorge Ascenção.

800 candidaturas mostram que as escolas querem mudar

“Se a escola não é como devia ser a responsabilidade não é, com certeza absoluta, dos professores. Há esta ideia de que eles têm um programa para cumprir — que é importante, claro —, mas são tratados como se fossem burocratas da educação e não professores. Um professor ensina pela alma com que transmite aquilo que sabe, não pela forma como faz que um programa se cumpra. Nós só queremos devolver a alma aos professores, a partir do momento em que eles tenham alma, a escola fica um lugar muito melhor”, sublinha Eduardo Sá que se diz muito surpreendido com as 800 candidaturas que receberam.

Nem o mentor da Escola Amiga nem o presidente da Confap esperavam uma adesão tão grande no primeiro ano da iniciativa, mas veem nesses números uma vontade das escolas de mudar.

“Temos cerca de 800 candidaturas, o que é muito bom. A flexibilização curricular do Ministério de Educação só teve 230 escolas no projeto-piloto”, congratula-se Jorge Ascenção.

“Nós temos muito boas práticas nas nossas escolas, mas que não são conhecidas. Este projecto Escola Amiga da Criança vai-nos ajudar a conhecer esses excelentes projetos que já existem, mas também vai ajudar a que outros acreditem que é possível fazer diferente e combater a cultura da notacracia, da escravatura da nota, e humanizar a escola em função da criança”, continua o presidente da Confap.

Um dos exemplos de que fala o presidente da Confap é o de uma professora que fundou a associação de estudantes do 1.º ano do 1.º ciclo. “Aqueles meninos eram tão pequeninos e foram eles que numa assembleia de estudantes se lembraram que na casa de banho das meninas não havia espelho. Estas coisas são tão simples, existem nas nossas escolas, e ensinam as nossas crianças a ser cidadãs desde pequenas”, argumenta Jorge Ascenção.

O papel dos professores para a mudança será também fundamental, mas para isso, como diz Eduardo Sá, é preciso que a classe volte a recuperar a alma. Os bons exemplos serão determinantes para a mudança: “Acho que os professores são desconsiderados todos os dias. Adoram ser professores e trabalham às vezes em condições de uma indignidade que não acho compreensível. Mas quando lhes apresentamos uma ideia como esta, mais ou menos maluca — com as devidas aspas — e pedimos que mostrem aos outros resignados, deprimidos que é possível mudar o mundo com pequenos nadas, a primeira coisa que os professores fizeram foi dizer vamos lá.”

Bandeira da Escola Amiga é para durar

Por esta altura, o presidente da Confap ainda não sabe bem comos será o galardão entregue às escolas. As hipóteses são várias: um selo, uma placa, um emblema e, a sua preferida, uma bandeira que os estabelecimentos de ensino possam hastear no portão de entrada.

A certeza que tem é que seja bandeira ou selo esta iniciativa é para ficar e durar, ideia com que Eduardo Sá concorda lembrando uma outra que pareceu começar como uma brincadeira de ambientalistas e que está enraizada em Portugal: a bandeira azul das praias.

“Tenho a certeza que vai ser uma ferramenta para os pais escolherem a escola dos seus filhos. Os pais começam a perceber que os filhos não têm de fazer tanto por uma nota”, esclarece Jorge Ascenção.

“Gostaríamos que as 800 candidaturas pudessem ter um selo de Escola Amiga da Criança porque ter uma larga centena de escolas que se preocupa para além da nota é muito bom. Não estamos a desvalorizar o conhecimento, o saber é importante e faz parte do processo educativo, mas é preciso ter outras componentes, como os valores, o rigor, o companheirismo, a solidariedade, o saber rir, o sentir-se bem, o gostar da escola. Ter jovens que dizem ‘eu gosto da escola’ é excelente porque é a única forma de aprenderem bem. Se conseguirmos que os miúdos gostem do espaço escolar, provavelmente terão melhores resultados com menor esforço”, defende o presidente da Confap.

E quem vai mudar tudo isto serão as mães. É essa a convicção de Eduardo Sá: “Continuo a acreditar que são as mães que transformam o mundo. Há-de chegar uma altura, quando as mães estiverem a olhar para os projetos educativos que vão dizer assim: ‘E esta escola? Tem a bandeira azul da educação? Se não tem, o meu filho não vai para aqui.’ É magnífico pôr os pais a transformar a escola. É assumirmos que são ideias simples que se transformam em ideias extraordinárias.”

O psicólogo acredita que os pais estão a ter cada vez mais a noção de que os bons alunos não são aqueles que imperativamente tiram boas notas, defendendo que os próprios governos deviam olhar para alguns dados e repensar o caminho a seguir.

“A taxa de abandono do secundário é escandalosamente alta; a taxa de reprovação do primeiro ano da faculdade devia dar que pensar; a taxa de mudança de curso no 1.º e 2.º ano de faculdade devia dar que pensar; o abandono do ensino universitário tem taxas muito inquietantes”, sublinha Eduardo Sá.

E acrescenta: “Se juntarmos estes dados todos, explique-me qual é a ideia de estarmos a criar esta noção de que o mundo acaba aos 17 anos. Não acaba. É que depois estes miúdos fazem tudo menos ter experiência de vida e saem com a designação de mestre — e isso é publicidade enganosa — mas não têm os argumentos da autonomia, da acutilância, de desembaraço, de malandrice que também é necessário, para enfrentarem os problemas com que têm de lidar para crescer em termos profissionais. Às vezes andámos a educar como se eles fossem aristocratas e eles são operários. E é bom sermos operários em relação ao mundo com toda a humildade que isso pode representar. São tão protegidos que parece que estamos a criar uma geração imunodeprimida.”

Por tudo isto, Eduardo Sá diz que é preciso parar para pensar e para ver onde o caminho que a sociedade tem trilhado nos últimos anos nos está a levar. E se não gostamos do que vemos, acredita que está na altura de mudar o mundo com ideias tão simples como a da Escola Amiga da Criança.

“Temos de parar e perceber que os rankings são só só uma amostragem para dar coordenadas a quem pensa a educação. Temos de assumir uma coisa tão simples como esta: se olharmos para o mundo, para Oriente e Ocidente, temos os jovens mais informados que alguma vez a humanidade teve, mais escolarizados, e com mais fontes de informação livres ao seu dispor que alguma vez existiram. E são estes jovens que estão a eleger os líderes mais populistas do mundo. É preciso refletirmos sobre isto”, conclui.

 

 

 

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Jornadas literárias ’10 de Letra’ 19 abril na SPA, com Eduardo Sá, Luísa Ducla Soares, José Jorge Letria

Abril 18, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://escritores.online/10-de-letra/

O maior dos perigos da adolescência são os pais – Eduardo Sá

Março 21, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado no site  https://www.eduardosa.com

Perante tantos e tão complexos desafios os pais são absolutamente imprescindíveis

É verdade que o início da adolescência se dá com o início das transformações psicológicas de adaptação à puberdade. E que, em função dela, um corpo que cresce “aos solavancos” e as transformações neutro-endócrinas que a acompanham “desengonçam” os adolescentes, “desarticulam-nos” e introduzem velocidades de crescimento diversas, entre si, que comprometem, em muitas circunstâncias, a sua relação com o grupo de pares e com a família.
É verdade que, logo a seguir, no salto entre os 12 e os 14 anos de idade, a emergência da sexualidade traz à cabeça dos adolescentes tantos sobressaltos e tanto mal-estar que se fecham muito mais sobre si, se tornam muito tensos em relação ao toque, parecem muito pouco simpáticos e ainda menos empáticos: quase como se fossem  “bichos do mato” ou vivessem n’ “a idade do armário”. Alguns, passam a falar em murmúrios e em “grunhidos”. O seu humor sofre oscilações diárias dignas duma “montanha russa”. Talvez por tudo isso, os grupos de pares dão-lhes o suporte que a família, em muitos momentos, regateia. A ligação entre identidade de género, identidade propriamente dita e identidade sexual começa a desenhar-se. E a sua vulnerabilidade, a este nível (e não só), aumenta, de forma vertiginosa, com toda a informação que lhes chegam via online.

É verdade, ainda, que, tal como os seus pais, os adolescentes portugueses gostam de ir para a escola, sobretudo, por causa do recreio. Colaboram, cada vez mais, em contexto escolar, uns com os outros. São quem mais valoriza o trabalho de equipa. São os alunos mais ansiosos entre os alunos dos países da OCDE, face à avaliação. E são os que mais abandonam a escola sem concluir o ensino secundário. E vivem-na como se ela lhes permitisse, sobretudo, downloads. Mais do que, propriamente, os levasse a pensar e a criar.

É verdade que, apesar de tudo isso, os adolescentes portugueses convivem entre si, eles socializam, hoje, sobretudo, online. A um ritmo diário quase absurdo – durante a manhã, no decurso das aulas, às refeições (!) e ao longo da noite – e diante da passividade gritante das famílias. E que circulam por sites, jogos online e redes sociais que – por mais que merecessem o controle, sensato e transparente, dos seus pais – aumentam, de forma exponencial, o contraditório da sua sabedoria, a forma como são manipulados em função dos dados que deixam, como rasto, nas redes e os perigos a que estão expostos.

É verdade que os adolescentes trocam 30 000 sms por ano (não contando com as caixas de conversação online). Gastam 8 dias por ano falando ao telefone, não contando que metade deles tem televisão no quarto.  Que 1/4 dos adolescentes passa mais de 6 horas por dia ligado à internet. Que focam, arrastam ou clicam no telemóvel quase 3 000 vezes por dia. E, mesmo se estiver desligado, têm, na sua presença, uma “atenção parcial” e, por isso mesmo, ficam menos inteligentes. E, se o seu comportamento for idêntico ao dos pais, fazem mais de 3 publicações por dia nas redes sociais; em 90% delas, com conteúdos de natureza pessoal. Sem se darem conta que, com 150 likes, um computador será capaz de os “conhecer” melhor que um membro da sua família.

É verdade, ainda, que a escola está, perversamente, virada, quase em exclusivo para promover a entrada no ensino superior. E que, entre mesadas, propinas, livros, dinheiro de bolso e todas as outras despesas relativas à vida de um filho, qualquer adolescente universitário tem um vencimento mensal muito claramente superior ao ordenado mínimo nacional. E que, talvez por causa de tudo isso, há em Portugal 176 mil jovens com menos de 30 anos que não trabalham, não estudam nem estão em formação.

É verdade, finalmente, que, se se tomar a autonomia de um adolescente em relação à sua família – em termos físicos, psíquicos e financeiros – a maioria dos adolescentes se torna autónoma pelos 30 anos. O que, se, por um lado, releva os aspectos acolhedores dos pais como talvez ele não existisse, de forma transversal, há uma geração atrás, por outro, os transforma numa espécie de “banco popular” e de “prestadores de serviços” que quase eterniza a adolescência.

É verdade, concluindo, que, diante de tantos e tão diversificados desafios, o maior dos perigos dos adolescentes são os pais. Quando se transformam nos melhores amigos dos filhos e se inabilitam para ser pais. Quando convivem e condescendem com comportamentos com que não concordam. Quando não repreendem nem reprimem as atitudes de altivez e de arrogância e as desconsiderações com que eles escondem as suas fragilidades. Quando não definem regras de utilização inequívocas para os telemóveis, para as redes sociais e para o jogo. Quando pactuam com a sua relação com o álcool como se fosse uma atitude de iniciação para a vida adulta sem consequências (quando mais de metade dos adolescentes que o experimentam se tornam consumidores frequentes ou de grandes quantidades e revelam, em função disso, diminuições claras dos seus córtexes frontal e temporal). Quando, à boleia do discurso populista entre drogas pesadas e drogas leves, omite opiniões firmes e regras claras sobre o consumo destas últimas, por mais que aplauda os comportamentos de saúde que os adolescentes têm, cada vez mais, com o tabaco. Quando deixam de ser “a referência” de Lei, de boa educação e de tenacidade e bom senso de que os adolescentes precisam. Quando os protegem demais e os autonomizam de menos. E, por último, quando imaginam que, num mundo em mudança, o seu papel em relação aos filhos será secundário. Quando é, mais do que nunca, imprescindível, insubstituível e indispensável. Por muito, muito tempo!

 

Maltrato com patrocínio – A propósito do programa de televisão Supernanny

Janeiro 23, 2018 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Opinião de Eduardo Sá publicado no https://www.publico.pt/ de 18 de janeiro de 2018.

Estreou, recentemente, na SIC, o programa Supernanny. No contexto de cada episódio, e em presença de uma “ama”, é exposta uma situação problemática da vida diária de uma criança e colocados à discussão os desempenhos dos pais em relação aos seus filhos, com centenas de milhares de pessoas a ver.

É legítimo que uma estação televisiva discuta questões relacionadas com a parentalidade e com a educação e que, com isso, entenda estar a prestar um serviço público. Se bem que não se entende se, no caso de Supernanny ser um programa de informação, por que motivo não cumpre os critérios éticos que deveria respeitar ou, no caso de não o ser, não se percebe de que forma um programa de entretenimento pode ser alimentado com dilemas gravíssimos de famílias e de crianças reais. Em quaisquer circunstâncias, o aspecto mais sensível deste programa poderá resumir-se desta forma: será a exposição pública duma criança, tornando públicos aspectos de si que a comprometem para sempre, ao mesmo tempo que é violado um conjunto de direitos que a deveriam proteger, um maltrato? E, no caso de ser assim, quais as consequências que devem decorrer para quem permite que um filho seja exposto desta maneira e para quem pactua, por omissão, em relação a ela?

Comecemos por supor que estaremos a falar de um reality show alimentado por dramas relacionados com crianças que, eticamente, a SIC devia resguardar, reservar e proteger. Aliás, se uma estação televisiva não pondera os danos que a exposição, sem reserva, de crianças lhes pode trazer, com que autoridade moral cumpre um código deontológico, quando se trata de enquadrar notícias, por exemplo, em função do exercício de humanidade e de rigor que é expectável que tenha quando informa? É claro que se poderá sempre dizer, repito, que não se trata de informação mas de entretenimento. Mas pode um drama real duma criança — no contexto duma exposição que a compromete, para sempre — ser considerado… entretenimento? E como pode um espectador, para efeitos de informação, reconhecer-se numa estação televisiva que, sempre que informa, escolhe não ser tablóide, por mais que, quando se trata de expor a vida das crianças, com a conivência explícita dos seus pais, usa “expedientes de tablóide”, não respeitando o direito à reserva da sua intimidade e da sua vida privada, a par de atentar contra outros direitos de personalidade (como “o direito irrenunciável e intransmissível que todo indivíduo tem de controlar o uso de seu corpo, nome, imagem, aparência ou quaisquer outros aspectos constitutivos de sua identidade”)? Aliás, será sério que, depois duma criança ser exposta sem reserva, no final de um episódio, se esclareça que tamanho maltrato mereceu a autorização expressa dos pais? Não seria responsabilidade da SIC, presumindo que os pais destas crianças tenham sido impulsivos ou irreflectidos ao autorizar tal exposição, protegê-los a eles e a elas, de forma a não se tornarem coniventes, por omissão, num maltrato?

Tentarei ser mais enfático: será uma exposição como aquela que vimos em Supernanny uma negligência ou maltrato? Um maltrato! Porquê? Porque um acto como aquele não só não será motivo de orgulho ou de integridade como, ao contrário, acaba por expor, denegrir e estigmatizar uma criança. No hoje como no amanhã. Por outras palavras: por mais que a intenção dos pais possa não ter ido no sentido de lhe provocar dolo ou danos, acaba por ter essas consequências. Ou seja: quando por ignorância, por precipitação, movidos por pré-juízos ou por preconceitos, ou por dificuldade de se descentrarem de si e se colocarem no lugar dos filhos os pais promovem sofrimentos cumulativos, maltratam. Se, no entretanto, parecem não ter estimado os custos dos seus actos sobre os seus filhos e o que eles possam trazer-lhes de irressarcível ou irreparável, e parecem não compreender a dimensão do sofrimento que lhes trazem, mais acabam por maltratar. Fá-lo-ão por má-fé? Muitas vezes, admito que não. Todavia, pergunta-se se, em circunstâncias como essas, reunirão os requisitos indispensáveis para representarem os seus interesses, patrocinarem os seus direitos e, em consequência disso, para os terem à sua guarda.

Como poderemos, então, considerar doutra forma que não seja como perigosa a atitude destes pais para com estas crianças? Será que, à falta da consciência do maltrato e do perigo que tudo isto representa para os seus filhos, e diante da sua permissão para que a sua exposição se dê em horário nobre, alguém os elucidou ou protegeu? E, perante uma exposição tão grave e tão irreparável, o que faltará mais para que o Ministério Público actue e proteja as crianças expostas, dado que estes pais terão protagonizado, aos olhos de todos, actos susceptíveis de serem interpretados como de negligência e de maltrato que a Lei define como perigo? Quando, por maioria de razão, (a fazer-se fé em notícias, entretanto, divulgadas) terão recebido 1.000€ pelo programa do qual resultou este exercício tão grave?

Já agora, compreende-se que, num contexto destes, esta exposição seja protagonizada por uma psicóloga, desempenhando funções associáveis à prática da psicologia, por mais que se argumente que estará a desempenhar um argumento ou a assumir uma personagem? E não deve um técnico de saúde mental, seja em que circunstâncias for, resguardar a vida das crianças e, acima de tudo, protegê-las? E pode, porventura, reclamar respeito para si e para o exercício da psicologia e, ao mesmo tempo, deixar que uma criança, com o seu patrocínio, seja exposta, publicamente, sem pensar na forma como isso a irá afectar e no modo como isso irá comprometer a sua vida em todos os dias seguintes, após a conclusão daquele programa?

E como entender que uma violação tão grave dos direitos das crianças conte com vários patrocínios que apoiam a respectiva produção? Não teremos todos assistido a um maltrato com patrocínio? Por outras palavras, terão as marcas que se associaram a este acto de exposição pública de uma criança consciência da gravidade daquilo que o seu patrocínio subscreveu? Como podem esperar que, depois, os cidadãos as respeitem e considerem quando, para mais, algumas delas estão associadas às crianças?

E, finalmente, perante tudo isto, não seria sensato que a sociedade civil se manifestasse civicamente e se afastasse da estação televisiva e das marcas que apoiam um maltrato destes? Não devia ser um propósito nobre e sensato de todos nós que as passássemos a declinar e a repudiar? Este artigo foi originalmente publicado no site eduardosa.com

 

O regresso às aulas… dos pais

Outubro 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ no dia 5 de setembro de 2017.

“É o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil”.

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As férias das crianças nunca são demais. Em primeiro lugar, porque as férias dos pais, quando eram pequeninos, seriam maiores. E, depois, porque olhando para as horas de trabalho dos pais e dos filhos, tendo uns e outros a mesma idade, as crianças trabalham na escola e para a escola em demasia. Fosse o mundo mais justo e, para que “as contas” fossem como deviam ser, as férias grandes deviam ser maiores para quem trabalha mais…

”Mas a vida é, hoje, mais dura e mais competitiva”, argumentam os pais, enquanto reclamam por mais escola e vão resolvendo problemas pelos filhos. Não é verdade! A vida sempre foi dura e competitiva. Por outras palavras, a vida nunca foi fácil! Não tanto no sentido trágico de quem vê nas dificuldades o pretexto para se desculpar por tudo aquilo que não ousou fazer, mas, pelo contrário, no sentido de quem as vê como a forma de descortinar nelas problemas que se transformam em oportunidades para novas dúvidas com que, depois de resolvidas, se cresce mais um bocadinho. A vida traz o difícil; a inteligência, a humildade e a perseverança transformam o difícil em simples. E é o simples, depois de descoberto, que (por ser óbvio) parece fácil. Mas, sendo assim, poupar às crianças os problemas que tenham para resolver e fazer da escola um “fast food” em que quase tudo lhes é dado, sem que haja quem as ensine a pensar, é o mesmo que as pôr a crescer sem que seja preciso que elas percebam, minimamente, como isso se faz. É “embrulhar” o difícil no fácil. E iludi-las com a grandiosidade com que “atrofiam” competências que tinham. Por outras palavras: é o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil para as crianças.

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Ainda assim, comparado o mundo em que os pais cresceram com o mundo ao acesso das crianças, tudo parece, hoje, “à primeira vista”, mais difícil. Porque é mais complexo e exige mais escolhas. Mas, com melhor trabalho, será mais amigo de melhor crescimento. Seja como for, o mundo em que as crianças vivem é parecido, em muitos aspetos, com aquele em que os pais cresceram. É igualmente assimétrico, igualmente demagógico e igualmente ganancioso. É verdade! Talvez porque seja igualmente “costurado” por pessoas. Ainda assim, é mais aberto, e mais acolhedor para quem for honesto, imaginativo e inimitável. Logo, é um mundo de mais oportunidades para aqueles que não forem “produtos normalizados”.
Já em relação à escola, ao contrário da das crianças, a escola dos pais foi, garantidamente, mais injusta. Porque dividia os alunos em inteligentes e em “burros”. Porque ensinava ao abrigo de humilhações e de castigos físicos. E porque muitos professores exerciam um poder discricionário que destroçava crianças.

Hoje, a escola é melhor! E se o regresso às aulas parece muito difícil e quase tumultuoso é porque, para além dos conflitos de agenda, os pais veem a escola à imagem da forma como a viveram. E imaginam o mundo como se o deles tivesse sido “cor de rosa” e o das crianças fosse, invariavelmente, cinzentão. E colocam sobre as aulas a responsabilidade que elas não podem ter. E não exercem, tanto como deviam, o seu direito de comparticipar na escolha da escola, da turma, do professor e de tudo o mais que está para além das próprias aulas. E desvalorizam o brincar, o preguiçar, o conviver ou, simplesmente, o imaginar.

 

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As férias estão a chegar ao fim. Mas se não quer que as crianças se estraguem na relação com a escola não se esqueça, por favor, que:
a) Os pais erram sempre. E isso é bom. Sobretudo se aproveitarem os seus erros para serem pais mais humildes. Sem nunca perder de vista que os piores amigos dos pais são “os bons pais”. Aqueles que querem tanto ser bons que olham mais para os seus desempenhos e para os pais que tiveram, competindo com eles, do que para os próprios filhos.

b) As crianças devem ser escutadas mas não podem decidir pelos pais. Seja a propósito da escola que vão frequentar ou das suas atividades extracurriculares. Aliás, como também não podem ser os técnicos a fazê-lo. Simplesmente porque os pais sabem sempre mais que os filhos. Mas não perca de vista que pais exageradamente cuidadosos são filhos de pais ou excessivamente exigentes ou demasiadamente descuidados.

c) Os pais serão mais atentos se tiverem memória. Ou, melhor, se não fugirem de “conversar” com ela. Dizer aos filhos que os tempos, hoje, são outros, faz com que os pais se sintam com legitimidade para exigirem que a relação dos filhos com a escola seja muito diferente daquela que eles, quando alunos e com a idade que as crianças têm, terão tido com ela. Mas será que os pais faziam todos os trabalhos de casa com agrado? E será que, alguma vez, terão achado as férias grandes ou exageradas? E será que tinham os resultados escolares exemplares que, agora, exigem aos filhos?

d) Todas as crianças são sobredotadas e todas têm necessidades educativas especiais. Ao contrário do que devia ser, a escola acarinha mais as áreas onde as crianças são, aparentemente, “sobredotadas”. E ignora, não identifica ou faz por não reparar nas suas “necessidades educativas especiais”. O que não será razoável é que as boas notas das crianças sejam, unicamente, a todas as disciplinas da escola. Ou a algumas, em particular. Porque as boas notas unicamente às disciplinas da escola — alavancadas com trabalho de pais exagerado, com excesso de explicações e com ateliês de tempos livres que existem para que os trabalhos de casa apareçam feitos, não interessa com que proveito, antes de lá se chegar – são úteis para disfarçar necessidades educativas especiais. Quando as necessidades educativas especiais são as melhores amigas da humildade, da tolerância à frustração e da “capacidade de sofrimento” com as quais se aprende a crescer. Cresce-se melhor quando se aprende a viver com algumas dores, com as experiências de tristeza que “tenham de ser” e, sobretudo, com mais tempo para “digerir” a experiência, para experimentar e para pensar, descobrir e inventar. Começa-se a conhecer quando se reconhece a primeira dificuldade

e) As crianças precisam de duas horas de tempo livre todos os dias! Porque quem brinca aprende melhor.

f) Não compita, através do seu filho, com as notas dos amigos deles. Nem confunda os seus sonhos escolares que não concretizou com projetos para ele. Alunos que não erram são crianças em perigo. Ou seja, só quem foge dos erros é que se desencoraja de aprender. Ainda assim, aprender não é fácil nem rápido. Nem se conquista com pouco trabalho. E, claro, não se aprende sempre com boas notas, sem erros e sem derrotas.

g) Não queira saber tudo acerca da escola, todos os dias. Os pais só precisam de ser atentamente distraídos. Tudo o que for para além disto é exagero.

h) Não transforme o regresso às aulas numa oportunidade para entrar num quadro de excelência só para pais. Também em relação à escola, insista em errar! Porque isso significa que não desiste nunca de aprender.

 

 

O pai está em vias de extinção – Eduardo Sá

Setembro 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ de 29 de agosto de 2017.

Falta pai à maioria das famílias! Não o pai machista e autoritário de antigamente. Mas um pai que precisa de se reinventar. Com a certeza de que o crescimento e a função do pai se tem apagado…

 1- Talvez como nunca, fará tanto sentido comemorarmos o Dia do Pai. Não que o pai não tenha sido, desde sempre, um “bem de primeira necessidade” para o desenvolvimento de todas as crianças. É claro que foi! Mas receio que, duma forma subtil, e desde há vários anos, o seu papel tenha vindo a tornar-se, na dinâmica das mais diversas famílias, pálido e frouxo em demasia. E que, por isso, precise de ser reinventado.

É verdade que o mundo sempre foi machista. E que ainda será. Não acho que ele tenha ganho tanto assim com isso. Mas reconheço que a biologia e uma escolaridade precária contribuíram, desde sempre, para que os homens e as mulheres tenham vivido numa divisão de papéis que muitos foram tomando como mais ou menos inquestionável. O homem, foi assumindo a força do trabalho e a reunião dos recursos indispensáveis para a sobrevivência e para a defesa da família. A mulher, a maternidade e a gestão dos filhos e da casa. Escusado será dizer que, a par desta aparente fatalidade biológica (e dos constragimentos económicos, sociais e escolares em que ela se foi ancorando), a mortalidade peri-natal ajudou, ainda mais, as mulheres a ficarem “presas” à maternidade. Até porque a discrepância entre os nados-vivos e as crianças duma família foi, desde sempre, assustadora e, monstruosamente, dolorosa.

Com a progressiva medicalização da gravidez, do parto e da saúde do bebé, e com os novos recursos médicos trazidos para o planeamento da gravidez, a maternidade, entretanto, pôde passar a ser planeada. Menos filhos passou a significar melhores pais. Mais oportunidades de planeamento familiar. E melhores condições para que a mulher transformasse a formação escolar em compromissos profissionais e em oportunidades de carreira. Mas o mundo, apesar disso, foi permanecendo machista. E matriarcal. Isto é, foi prevalecendo a tutela do homem sobre a mulher que, em função da confluência de compromissos profissionais, familiares e domésticos, passou a “acumular funções” que a foram tornando mais expedita, mais sagaz e mais preponderante na dinâmica da família.

Evidentemente que um mundo assim se transformou, profundamente, ao longo de todo o século XX. E que, a par da paridade de direitos e de responsabilidades entre o pai e a mãe, os papéis de um e de outro se foram matizando. Melhor: o papel da mãe “apurou-se” e ganhou robustez e versatilidade; e o papel do pai “maternalizou-se”. O que, assumamos, trouxe a magnífica mais-valia de uma criança passar a ter duas “mães”: a mãe, ela-própria, divina e inimitável; e o pai, participando, com “sexto sentido”, em todos os momentos do crescimento de uma criança. Com um protagonismo que se foi “democratizando”, de forma transversal, independentemente das classes sociais ou dos estatutos económicos que, dantes, se iam tornando obstáculos para tamanha revolução da parentalidade. Chegámos, pois, à formula de que mais gosto: a primeira função de um ser humano é ser mãe! Que, por outras palavras, acaba por ser um modo minimalista de afirmar que o instinto maternal não é um “equipamento de base” de todas as mulheres e um “extra” de alguns homens. Será mais “democrático”, felizmente! Com a particularidade – preciosa! – dos desempenhos parentais das mulheres e dos homens terem vindo a melhorar tanto e terem-se tornado tão mais paritários e complementares, nos últimos cinquenta anos, que os filhos têm acumulado exemplos, recursos e oportunidades para se virem a tornar melhores pais.

2 – Há, no entanto, uma constante que, curiosamente, tem vindo a acompanhar estas condições únicas de que as crianças, hoje, dispõem. O modo como parecem ter, cada vez mais, uma relação muito difícil com a autoridade. O que, à primeira vista, não seria expectável. Por maioria de razão, porque nunca houve tão bons pais, tanta escolaridade, tanto contraditório diante dos gestos educativos dos pais e tanta democracia familiar.

Aquilo a que, dantes, se foi chamando “A Lei do Pai” representava uma forma autoritária de definir e de cuidar das regras familiares que, em inúmeras circunstâncias, se acompanhava de desempenhos tirânicos por parte do pai que, para mais, não se faziam acompanhar de atitudes que ligassem com coerência o exigido e o desempenhado. E implicavam medo – muito medo, por vezes – do pai. O que fazia com que o pai, para além de omisso, no dia a dia de uma família, surgisse como um juiz temido, muitas vezes inconstante e, frequentemente, incoerente. Por vezes, alimentado (ora de forma assustada e submissa, ora dum jeito um bocadinho batoteiro) pela mãe, com a célebre insinuação: “Ai quando o pai vier!…”, que transformou muitos pais em pessoas estranhas, aparentemente distraídas, afetuosamente inábeis e, sobretudo, muito trôpegas com as palavras e com os gestos de amor.

Todavia, e apesar dos formatos mais democráticos e mais plurais das famílias, quando perguntamos a crianças de cinco, seis ou sete anos se reconhecem existir uma “função paterna” diferente da “função materna” elas não só não as confundem como, aliás, as caracterizam ao pormenor. Dir-se-á que os modelos familiares pesam nesta caracterização? É verdade que sim. Por mais que não devamos excluir um certo “inconsciente coletivo” que, casando biologia e cultura, terá ajudado a compor, ao longo dos séculos, estas funções.

Só que eu não entendo porque é que, tomando os formatos tradicionais da família, um pai (felizmente) mais maternal terá de ser menos… pai. Porque é que não pode assumir um lado de “rei leão” de forma a que “a lei familiar” não tenha de casar com o autoritarismo? Porque é que na fabulosa transformação da família que estamos a viver, a “função do pai” se encolheu, como se a maioria dos homens parecessem viver tão atormentados pelas omissões e pelos maus desempenhos dos seus próprios pais que, sempre que se trata de serem firmes e serenos, guerreiros mas sensatos, bondosos e “duros”, justos mas escutadores, ora protagonistas ora “segundas figuras”, se baralham e se “perdem”? Como se dar colo a um filho para, depois, o colocar “às cavalitas”, ou ser-se protetor mas, também, amigo da sua autonomia não fosse, facilmente, conciliável. Como se parecesse não ser fácil ser-se maternante mas, todavia, pai!

Sim: falta pai à maioria das famílias! Não o pai machista e autoritário de antigamente. Mas um pai que precisa de se reinventar. Com a certeza de que o crescimento e a função do pai se tem apagado, de tal forma que, por causa destes “pais em vias de extinção”, a Humanidade tem vindo a desencontrar-se e a confundir democracia familiar com “comissões de gestão” familiares. Falta “autoridade de pai”. O desafio será imenso para todos os homens? Não! É fascinante para todas as famílias. Que, a par do modo como o pai se maternalizou, têm de recuperar a sensatez da “função do pai”. Nem que, para tanto, a mãe tenha, ela própria, de se paternalizar.

 

 

Sem berrar, sem rezingar e sem resmungar – crónica de Eduardo Sá

Julho 1, 2017 às 7:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Crónica de Eduardo Sá publicada na http://www.paisefilhos.pt/ de 19 de março de 2017.

Surgem, de vez em quando, livros, programas de treino e “tendências do momento” acerca da imensa vantagem dos pais perderem alguns exageros que todos aqueles que são bondosos e dedicados sempre cometem quando gritam, desabafam ou reclamam, por exemplo. Fala-se do modo como pais que gritam fazem mal às crianças. E dá-se, ainda, a entender que os gritos e o exercício da autoridade parecem não ter muito a ver entre si, a ponto de haver quem afirme que será por isso que muitas crianças, à medida que crescem, se transformam em “pequenos ditadores”.

Ora, eu compreendo a importância duma ajuda técnica dirigida a todos os pais. Mas receio que, muitas vezes, o tom com que ela lhes é dedicada seja um bocadinho áspero (ou, mesmo, repreensivo), parecendo dar a entender que os pais devam ser bucólicos e serenos, didáticos na forma como apresentam as suas condições educativas, e negociadores (hábeis!) quando se trata de trazerem à razão os seus pequenos “príncipes”. Reconheço que, por vezes, as “pestinhas”, os acessos de “mau feito”, o acordar “mal disposto” ou o “segurem-me que eu estou em fúria” de muitas crianças (saudáveis!) parece não entrar tanto como devia nestas “fórmulas” educativas. O que faz com que muitos pais “comprem” essas “receitas de sucesso” e, quais produtos descartáveis, acabem no tradicional “eu já tentei tudo!” que, não se tratasse dos seus filhos, talvez quisesse dizer: “tirem-me daqui!” Ou que reconheçam que os seus “bijous” os “levam ao limite”. Ou que façam uso de qualquer outro desabafo que anteceda uma tremenda rendição.

Mas serão as crianças tão complexas na forma como se agitam, se irritam ou se enfurecem que mereçam programas educativos ou de treino que deem aos pais “competências” para lhes devolver a autoestima ou para os tornar “mais focados” ou “mais motivados” para a “tarefa” de educar? Eu acho que não! Talvez por tudo isso seja importante brincarmos com este lado um bocadinho alarmado com que muitos “especialistas” parecem querer colocar todos os pais num alerta do género: “elas vêm aí!”, que faz com que as crianças pareçam requerer um jeitinho quase laboratorial de lhes darmos colo, regras e autonomia ao mesmo tempo que se mantêm vivas e se vão tornando bem educadas.

Em primeiro lugar, educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar não é bem educar. É querer que os pais não ponham alma em tudo aquilo que dão. O que, valha a verdade, talvez pretenda transformar a paixão que colocam em cada gesto que dedicam aos filhos numa pilhéria de movimentos “robotizados” que os tornem insossos e enfadonhos. E isso é mau!
Aliás, se educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar fosse mesmo para valer seria motivo para se dizer: “Mães de todo o universo, deem um pulo de contentamento, se fazem o favor: estão proibidas de educar!”. O que seria uma perda trágica e irreparável para todas as crianças.

O que eu não entendo mesmo é que vá surgindo a ideia de que os pais ou conversam ou gritam. Pais que conversam não gritam, claro. E pais que gritam estão muito longe de saber conversar – com persuasão e “cheias de maneiras” – com as crianças. O que não é verdade! Quem são os pais que mais gritam? Os que mais conversam! E porquê? Porque as conversas em que se dedicam a explicar, minuciosamente, boas maneiras acabam sempre por ser sentidas pelas crianças como um “desculpa qualquer coisinha”, mais ou menos medroso, o que faz com que elas os “estiquem” sempre um pouco mais, acabando esse braço de ferro numa cena “à italiana”. Como parece que não convém…

A seguir, diz-se por aí que os berros não são amigos da pedagogia. Mas é que não são mesmo! Por isso é que são bons. E porquê? Porque aquilo a que muitos chamam pedagogia parece não tolerar o erro, as asneiras e os remorsos com que todos nós vamos crescendo como pais. Aliás, qual é a principal função dos berros: educar?… Claro que não! É serem amigos do desabafo. Aliviam, portanto. E arejam a alma! Para que, depois de se reconsiderar, haja espaço para a clarividência e para a bondade.

Depois, afirma-se que quem berra, reclama e protesta dá maus exemplos. É verdade que haverá circunstâncias em que as “figuras tristes” não são um “cartão de visita” para qualquer “faça você mesmo” ao alcance de todas as crianças. Mas são um bom exemplo! Porque – imaginando eu que nada disto seja “a regra” mas que se trate de breves repentes de ebulição só ao alcance dos bons pais – as asneiras dos pais demonstram aos filhos que a sabedoria não significa prevenir os erros mas aprender com eles.

Quase a rematar, diz-se que os pais só deviam ralhar quando detetassem alguma maldade nas crianças. Ou que deviam respirar fundo… antes de abrirem a boca. E isso seria mesmo mau! Porque, a ser assim, as boas mães rebentariam quase todos os dias. E nunca chegaríamos a desabafos como “qualquer dia tiro férias de mãe e vocês vão ver!”. Que é dos patrimónios imateriais mais preciosos da Humanidade!

Finalmente, diz-se que os berros trazem (algum) medo às relações das crianças com os os seus pais. E volta a ser verdade. Porque quando os pais definem perigos e interditos, ao fazerem com que as crianças estremeçam com eles e se intimidem um bocadinho, estão a dizer-lhes, por outras palavras: “se tiver que te provocar alguma dor para te poupar dores muito maiores, eu não hesito!”. Ora, haver situações em que as crianças, quase por antecipação, conseguem (só de a imaginarem) ter medo da reação da mãe ou do pai faz com que parem, enquanto é tempo. Ou que se munam de talentos para iludir a competência que todos os pais têm para adivinhar as suas asneiras – antes, ainda, delas serem pensadas – o que, a acontecer, não é para todos! Só mesmo para os filhos de quem, de vez em quando, berra, reclama e protesta…

Para rematar, dá-se a entender que os pais, depois de berros, protestos e reclamações ficam “afanadotes”. E, seja pelo cansaço de tão pouco edificantes “perfomances”, seja pelo exagero com que elas vêm equipadas, a seguir, se tornam “algodão doce”. E dizem “sim!” a quase tudo. E é verdade. Mas dizerem “sim” a quase tudo não significa que se tenham tornado amigos da “totozice”. Mas que tenham prescindido da sua quota-parte da birra e que, em função disso, casem melhor a autoridade com a bondade.

Educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar não será “a Graça de Deus”. Reconheço! Por mais que ande por aí quem confunda bullying com educação. Os pequenos destemperos dos bons pais são bondade e educação. Os registos rígidos a que alguns se obrigam (talvez porque tenham medo de, ao primeiro espirro, perderem a cabeça) são mais bullying do que parece. Porque é que os pais querem muito não gritar, sempre que educam? Porque eles lá sabem do que é que são capazes quando amam. Mas não fossem eles capazes de berrar, de rezingar e de resmungar que podiam ser bons pais, até. Mas faltaria uma pitadinha de alma, um quanto-baste de paixão. E nunca seriam “Os Nossos Pais”!

 

 

 

Eduardo Sá: “As crianças saudáveis também ficam tristes”

Maio 18, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://observador.pt/ a Eduardo Sá no dia 10 de maio de 2017.

Eduardo Sá respondeu às perguntas mais complicadas. Desmistificou a Baleia Azul, criticou a forma como a escola está organizada e pediu aos pais mão dura quando ela é necessária. Leia a entrevista.

 Eduardo Sá, psicólogo, professor, 55 anos, cinco filhos. Esteve na redação do Observador esta manhã numa entrevista coletiva, transmitida em direto, e onde também houve lugar às perguntas dos leitores. Foi esclarecedor, foi provocador, foi polémico. E falou de muita coisa. Desde a Baleia Azul, passando pelas vacinas, educação e dando dicas e truques sobre a difícil temática: como conseguir lidar com os adolescentes?

 Fala muito de pais e filhos. De certeza que há imensos pais e mães pelo país inteiro que costumam lê-lo e ouvi-lo e aposto que eles têm uma pergunta sempre atrás da orelha: “Será que ele consegue ser o pai que diz que nós devemos ser?”
Eu costumo dizer que os bons pais, e sublinhe-se bons, têm três qualidades ou três defeitos consoante a perspetiva que queiram colocar. Têm, invariavelmente, coração grande. Têm a cabeça quente, o que significa que as boas pessoas têm obrigatoriamente mau feitio e falam de mais. E, portanto, numa circunstância dessas, mal seria que eu achasse que deveria ser bacteorologicamente puro. Aliás, eu devo dizer que era engraçadíssimo que, um dia, um jornal como este fizesse uma campanha para transformar o lado esganiçado das mães em património da humanidade, porque eu acho lindíssimo, acho do mais bonito e comovente que existe, quando uma mãe faz aquelas reações acaloradas, fúria de mãe, que culmina sempre com duas pérolas: “Qualquer dia vou-me embora desta casa e vocês vão ver” ou “Não fales assim que sou tua mãe”, que faz com que os filhos fiquem estranhamente tranquilos, porque os filhos balizam-se pelos mesmos indicadores que os pais em relação a eles. Quando um filho sente que uma mãe está estranhamente calada é porque está doente e quando assume aquela postura acalorada que só as mães com um coração muito grandes são capazes de ter, começam: “Pronto, ela está no seu melhor”. Eu penso que os pais por dentro não são diferentes.

Portanto, também se irrita, lá em casa?
Mal seria se não o fizesse.

Tem um bebé de 17 meses… Tem uma diferença muito grande para os outros quatro, não é? Como é que é ter agora um bebé em casa? Vai ser um pai completamente diferente? Pensou muito sobre o assunto?
Não. Eu acho, aliás, que devia ser proibido pensarmos demais quando somos pais. Mas vou ser diferente. Tenho a ideia que num primeiro filho nós somos sempre piores pais. E isto vale para todos, acho eu.

É bastante provável, sim…
Portanto, os nossos primeiros filhos deviam ser sempre considerados crianças em perigoso porque nós, às vezes, lemos demais, às vezes queremos que eles se comportem de acordo com um conjunto de regras que depois têm muito a ver com a nossa história. Nós queremos sempre que um primeiro filho cicatrize muitas experiências da nossa vida. E, portanto, temos um bocadinho a ideia de que, num primeiro filho, acima de tudo, queremos ser melhores do que os pais que nós tivemos, queremos, de preferência não repetir os erros que eles foram repetindo, por mais que nós imaginássemos que eles estavam distraídos e, por ventura, até nem estariam. Queremos que eles peguem os sonhos que nós deixámos mais ou menos pelo caminho. E isto, num primeiro filho, é uma coisa terrível. Qual é a vantagem de um primeiro filho? O álbum do bebé tem as fotografias todas.

Verdade.
E, portanto, à medida que nós vamos sendo pais, vamo-nos reconciliando com o equipamento base com que todos nós lidamos e que muitas vezes desprezamos. Nós temos um sexto sentido absolutamente magnífico. As mães, não é publicidade enganosa, passam a vida a dizer que têm um dedo que adivinha. Só as mães é que descobrem os pacotes de leite debaixo das almofadas do sofá. E, portanto, este lado, que eu acho que é muito bonito, só se vai desenvolvendo à medida que vamos deixando de querer ser bons pais. E eu acho que às vezes, esta exigência de sermos bons pais estraga toda esta capacidade que nós temos para sermos pais, só pais.

Há uma questão preocupante, que temos visto nas últimas semanas, que é a da Baleia Azul. Acha que todas as crianças ou jovens estão sujeitos ao mesmo risco ou só aqueles que são mais problemáticos, à partida é que estão mais expostos?
Tenho medo de algum discurso público sobre os adolescentes, porque tenho medo que, às vezes, seja um bocadinho invejoso. É inacreditável que quando nós falamos dos adolescentes, falamos de riscos, de perigos, e, invariavelmente, esquecemo-nos das mais-valias incalculáveis que eles têm. E, portanto, é muito importante que nós possamos deixar claro para os pais que não há como um adolescente passar a ser um adolescente auto-mutilado, à conta de um jogo. Não vale a pena. Mas isto deve colocar-nos com uma discussão dura em cima da mesa, isto é, continuo a achar que devia ser proibido os pais terem programas espiões dentro dos computadores dos filhos. É batota. Mas acho que os pais são a verdadeira entidade reguladora da vida dos filhos e, portanto, não consigo compreender porque é que os pais se encolhem quando se trata de saber quais são os sites pelos quais os filhos andam a passear, quais são os amigos virtuais que têm, quais são os jogos por onde passam, etc. Não me choca que os pais façam isso na presença dos filhos, fazendo o uso da sua autoridade que é calma, uma autoridade que advém da sabedoria e da bondade dos próprios pais. E, portanto, tenho medo que se tenha falado tudo isto com tanto bruaá, que eu acho inquietante, mas às vezes não consigo perceber outras inquietações que deviam ser igualmente importantes. Há muitos mais adolescentes que entram nas redes sociais e que, de repente, de fotografia em fotografia, estão a tirar a roupa para alguém que está do outro lado. E, quando a determinada altura decidem parar, são advertidos, são ameaçados e as represálias em relação aos seus próprios pais são mais que muitas. Em termos de dimensão, é incomparavelmente superior em relação àquilo que se passa com a Baleia Azul e é uma rede que, de uma forma incompreensível para mim, tem merecido um silêncio que não consigo entender.

Mas, nesse caso, a polícia até já fez um vídeo para avisar os jovens e os pais. O que eu lhe queria perguntar era se está toda a gente sujeita ao mesmo risco?
Não, como é evidente. Não, por favor.

Ou até um jovem que parece mais equilibrado…
Quando vê aqueles filmes de época, em plena segunda guerra, vê o modo como muitas pessoas que estavam sob tortura induziam uma dor aguda de forma a calarem uma dor que, obviamente, a tortura infligia. Portanto, vamos ser claros: a esmagadora maioria dos jovens é incomparavelmente saudável e, comparados com os pais, seguramente mais saudáveis, por uma razão simples: porque os pais têm feito até um bom trabalho. Não vale a pena, no entanto, nós termos a ideia de que todos os adolescentes são saudáveis. Há adolescentes que são de facto muito doentes e que, às vezes, quando entram nesta vertigem, claro que estão à procura de uma dor, mutilam-se para sossegar, como é evidente, e silenciar, quando mais não seja, transitoriamente, uma dor que é muito mais intensa e muito mais regular na vida deles.

E o facto de isto se ter tornado uma onde louca nos meios de comunicação social…
Devia ser proibido.

Acha que isto leva a que haja mais curiosidade ainda e que possa levar a mais casos?
A prova de que talvez a comunicação social não esteja tão sintonizada com os adolescentes são as manchetes sobre manchetes que isto tem dado. A comunicação social, curiosamente, tem uma atitude, uma discrição exemplar em relação aos números de suicídios que vão acontecendo, porque a própria comunicação social tem a noção de que às vezes desencadeia um efeito dominó, que é francamente prejudicial, sobretudo naqueles adultos ou naqueles adolescentes que estão naquele registo quase impulsivo: “Faço ou não faço?”. É evidente que tudo isto fez com que muitos adolescentes, que nem sequer sabiam da existência do Baleia Azul, tenham lá ido ver. Não acho que isto seja razoável ou, pelo menos, é escorregadio. Mas sejamos razoáveis. Tomando em consideração o modo autogestacionário como muitos adolescentes circulam na internet, a percentagem de adolescentes que resvalam para o perigo é absolutamente mínima, tomada em consideração a distração dos pais em relação a isso.

ler o resto da entrevista no link:

http://observador.pt/especiais/eduardo-sa-as-criancas-saudaveis-tambem-ficam-tristes-a-tristeza-e-o-melhor-ansiolitico-do-mundo/

 

Sem berrar, sem rezingar e sem resmungar

Março 28, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ de 19 de março de 2017.

Surgem, de vez em quando, livros, programas de treino e “tendências do momento” acerca da imensa vantagem dos pais perderem alguns exageros que todos aqueles que são bondosos e dedicados sempre cometem quando gritam, desabafam ou reclamam, por exemplo. Fala-se do modo como pais que gritam fazem mal às crianças. E dá-se, ainda, a entender que os gritos e o exercício da autoridade parecem não ter muito a ver entre si, a ponto de haver quem afirme que será por isso que muitas crianças, à medida que crescem, se transformam em “pequenos ditadores”.

Ora, eu compreendo a importância duma ajuda técnica dirigida a todos os pais. Mas receio que, muitas vezes, o tom com que ela lhes é dedicada seja um bocadinho áspero (ou, mesmo, repreensivo), parecendo dar a entender que os pais devam ser bucólicos e serenos, didáticos na forma como apresentam as suas condições educativas, e negociadores (hábeis!) quando se trata de trazerem à razão os seus pequenos “príncipes”. Reconheço que, por vezes, as “pestinhas”, os acessos de “mau feito”, o acordar “mal disposto” ou o “segurem-me que eu estou em fúria” de muitas crianças (saudáveis!) parece não entrar tanto como devia nestas “fórmulas” educativas. O que faz com que muitos pais “comprem” essas “receitas de sucesso” e, quais produtos descartáveis, acabem no tradicional “eu já tentei tudo!” que, não se tratasse dos seus filhos, talvez quisesse dizer: “tirem-me daqui!” Ou que reconheçam que os seus “bijous” os “levam ao limite”. Ou que façam uso de qualquer outro desabafo que anteceda uma tremenda rendição.

Mas serão as crianças tão complexas na forma como se agitam, se irritam ou se enfurecem que mereçam programas educativos ou de treino que deem aos pais “competências” para lhes devolver a autoestima ou para os tornar “mais focados” ou “mais motivados” para a “tarefa” de educar? Eu acho que não! Talvez por tudo isso seja importante brincarmos com este lado um bocadinho alarmado com que muitos “especialistas” parecem querer colocar todos os pais num alerta do género: “elas vêm aí!”, que faz com que as crianças pareçam requerer um jeitinho quase laboratorial de lhes darmos colo, regras e autonomia ao mesmo tempo que se mantêm vivas e se vão tornando bem educadas.

Em primeiro lugar, educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar não é bem educar. É querer que os pais não ponham alma em tudo aquilo que dão. O que, valha a verdade, talvez pretenda transformar a paixão que colocam em cada gesto que dedicam aos filhos numa pilhéria de movimentos “robotizados” que os tornem insossos e enfadonhos. E isso é mau! Aliás, se educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar fosse mesmo para valer seria motivo para se dizer: “Mães de todo o universo, deem um pulo de contentamento, se fazem o favor: estão proibidas de educar!”. O que seria uma perda trágica e irreparável para todas as crianças.

O que eu não entendo mesmo é que vá surgindo a ideia de que os pais ou conversam ou gritam. Pais que conversam não gritam, claro. E pais que gritam estão muito longe de saber conversar – com persuasão e “cheias de maneiras” – com as crianças. O que não é verdade! Quem são os pais que mais gritam? Os que mais conversam! E porquê? Porque as conversas em que se dedicam a explicar, minuciosamente, boas maneiras acabam sempre por ser sentidas pelas crianças como um “desculpa qualquer coisinha”, mais ou menos medroso, o que faz com que elas os “estiquem” sempre um pouco mais, acabando esse braço de ferro numa cena “à italiana”. Como parece que não convém…

A seguir, diz-se por aí que os berros não são amigos da pedagogia. Mas é que não são mesmo! Por isso é que são bons. E porquê? Porque aquilo a que muitos chamam pedagogia parece não tolerar o erro, as asneiras e os remorsos com que todos nós vamos crescendo como pais. Aliás, qual é a principal função dos berros: educar?… Claro que não! É serem amigos do desabafo. Aliviam, portanto. E arejam a alma! Para que, depois de se reconsiderar, haja espaço para a clarividência e para a bondade.

Depois, afirma-se que quem berra, reclama e protesta dá maus exemplos. É verdade que haverá circunstâncias em que as “figuras tristes” não são um “cartão de visita” para qualquer “faça você mesmo” ao alcance de todas as crianças. Mas são um bom exemplo! Porque – imaginando eu que nada disto seja “a regra” mas que se trate de breves repentes de ebulição só ao alcance dos bons pais – as asneiras dos pais demonstram aos filhos que a sabedoria não significa prevenir os erros mas aprender com eles.

Quase a rematar, diz-se que os pais só deviam ralhar quando detetassem alguma maldade nas crianças. Ou que deviam respirar fundo… antes de abrirem a boca. E isso seria mesmo mau! Porque, a ser assim, as boas mães rebentariam quase todos os dias. E nunca chegaríamos a desabafos como “qualquer dia tiro férias de mãe e vocês vão ver!”. Que é dos patrimónios imateriais mais preciosos da Humanidade!

Finalmente, diz-se que os berros trazem (algum) medo às relações das crianças com os os seus pais. E volta a ser verdade. Porque quando os pais definem perigos e interditos, ao fazerem com que as crianças estremeçam com eles e se intimidem um bocadinho, estão a dizer-lhes, por outras palavras: “se tiver que te provocar alguma dor para te poupar dores muito maiores, eu não hesito!”. Ora, haver situações em que as crianças, quase por antecipação, conseguem (só de a imaginarem) ter medo da reação da mãe ou do pai faz com que parem, enquanto é tempo. Ou que se munam de talentos para iludir a competência que todos os pais têm para adivinhar as suas asneiras – antes, ainda, delas serem pensadas – o que, a acontecer, não é para todos! Só mesmo para os filhos de quem, de vez em quando, berra, reclama e protesta…

Para rematar, dá-se a entender que os pais, depois de berros, protestos e reclamações ficam “afanadotes”. E, seja pelo cansaço de tão pouco edificantes “perfomances”, seja pelo exagero com que elas vêm equipadas, a seguir, se tornam “algodão doce”. E dizem “sim!” a quase tudo. E é verdade. Mas dizerem “sim” a quase tudo não significa que se tenham tornado amigos da “totozice”. Mas que tenham prescindido da sua quota-parte da birra e que, em função disso, casem melhor a autoridade com a bondade.

Educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar não será “a Graça de Deus”. Reconheço! Por mais que ande por aí quem confunda bullying com educação. Os pequenos destemperos dos bons pais são bondade e educação. Os registos rígidos a que alguns se obrigam (talvez porque tenham medo de, ao primeiro espirro, perderem a cabeça) são mais bullying do que parece. Porque é que os pais querem muito não gritar, sempre que educam? Porque eles lá sabem do que é que são capazes quando amam. Mas não fossem eles capazes de berrar, de rezingar e de resmungar que podiam ser bons pais, até. Mas faltaria uma pitadinha de alma, um quanto-baste de paixão. E nunca seriam “Os Nossos Pais”!

 

 

Entrevista a Eduardo Sá: “As mães têm sete sentidos”

Novembro 29, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://activa.sapo.pt/ a Eduardo Sá no dia 11 de novembro de 2016.

O psicólogo tem um livro novo – “Querida Mãe” (Ed. Lua de Papel) – que, apesar da doçura do título, apela aos pais – e mães – para que assumam o seu papel. Diz que as crianças não são tão complexas que mereçam programas educativos e que não devemos viver para os filhos. Defende a brincadeira, a alegria, e o esforço. E também diz que o melhor do mundo continuam a ser… as mães.

Catarina Fonseca

– Este título é muito doce, mas depois o livro é um apelo à assertividade dos pais. As crianças estão mesmo a tornar-se chefes de família?

Sim. Tenho medo que os pais tenham crescido em famílias e escolas demasiado autoritárias, e na ânsia de não reproduzirem esse modelo acabam por lidar com a autoridade de forma estranha, como um tabu. Às vezes esquecem-se que a autoridade é um exercício de bondade. Quando os pais não exercem a sua autoridade simplesmente porque sabem mais, na ânsia de serem bons pais, acabam por se demitir da paternidade. E depois esquecem-se que a autoridade funciona como uma caixa de velocidades: é preciso regras, rotinas, atitudes ancoradas em reciprocidade. Deve haver um conjunto de regras, e as crianças podem por vezes não as cumprir. Mas demitindo-se do seu papel, os pais depois encontram nos filhos uma cópia refinada dos seus próprios pais.

– Diz uma coisa tão triste: “Os pais parecem presos aos mimos que imaginem não ter tido – e parecem ter vivido a infância deles tão sozinhos…” Isto é mesmo verdade’

Claro que é. Os nossos pais nunca foram perfeitos, e não é por isso que são menos merecedores de crédito. Mas também é verdade que, em muitos momentos, os nossos pais não foram capazes de pôr legendas em tudo aquilo que era indispensável para nós.

– Nós somos hoje melhores pais do que os nossos pais?

Infinitamente. Não tem comparação possível. Somos mais atentos, somos mais presentes, e se por vezes não conseguimos fazer tudo aquilo que queiramos ou da maneira que queríamos, tentamos com muita vontade. Mas tenho medo que em muitos momentos haja uma ideia muito cor de rosa da infância, que muitas pessoas consideram o paraíso perdido que nunca foi. A infância de muitos pais foi mais infeliz do que eles gostariam de admitir, e é normal que queiram ‘remendar’ nos filhos essas falhas. Eu não questiono por um minuto a generosidade que isto representa, mas tenho medo que pareçam gelatina Royal, que queiram ser pais sem dor.

– E não é possível ser pai sem dor?

Não. Ser pai ou mãe implica responsabilidade, implica perplexidade, implica muito contraditório.

– Diz que as regras não se explicam, não se negoceiam e não se justificam. Porquê?

Porque os pais acham que são as demonstrações quase matemáticas de uma regra que a tornam válida, e isso não é verdade. O que torna uma regra válida é que os pais exijam em função daquilo que fazem, o que muitas vezes não acontece. As explicações não resolvem tudo, precisamos de mostrar como se faz, o que torna tudo mais fácil.

– Porque é que os pais devem ter mais direitos que os filhos?

Porque ser pai é um estatuto. E as responsabilidades vêm equiparadas com direitos: quanto maiores as responsabilidades, maiores os direitos. E portanto, as crianças não devem dominar o comando da televisão, não devem dominar o fim-de-semana com as suas actividades e ocasiões sociais. Mas acho que às vezes os pais se queixam muito mas estão a ser um bocado batoteiros, apresentando os filhos como desculpa daquilo que não são capazes de construir com a pessoa que têm ao lado. É importante lembrar que os filhos são muito importantes, ajudam-nos a crescer como mais ninguém, mas a relação entre os pais é sempre mais importante que os filhos. Os pais, por melhores pessoas que sejam, precisam de ser felizes para serem bons pais. E quando põem os filhos à frente de tudo o resto, é uma maneira hábil de dizer ‘Já que eu não sou amado pela pessoa que tenho ao lado, ao menos que o meu filho me ame’.

– Tentamos compensar com os filhos o amor que não temos em casal?

Às vezes sim. Mas essa não é a função de um filho. Mal estaríamos.

– Também fala no livro sobre ensinar as crianças a não ter medo das dificuldades. Diz que encontrar uma paixão dá muito trabalho. Como é que, num mundo em que tudo é facilitado, se faz a apologia da dificuldade?

Estamos sempre a fazer publicidade enganosa, porque a única coisa verdadeiramente fácil é a estupidez. Tudo o que é verdadeiramente importante dá imenso trabalho. E às vezes não nos damos conta de tudo o que trabalhamos para que alguma coisa pareça fácil. Portanto, andamos a mentir às crianças e depois isso cria problemas. Percebo que as queiramos poupar a dificuldades, mas se as pouparmos a todas as dificuldades, estamos a limitá-las para o engenho de viver, estamos a torná-las frágeis e débeis.

– E para terminar, o que é que faz uma boa mãe?

(risos) Costumo dizer que as mães têm 7 sentidos: os cinco habituais, o sexto que é equipamento de base e que faz com que elas sejam capazes de traduzir por palavras coisas de que nem sequer nos tínhamos apercebido, e depois têm um sétimo, que não é bem um sentido, mas é uma espécie de sensor com que descobrem tudo aquilo que não era suposto que descobrissem. Depois têm um lado esganiçado, que é uma ternura, e fazem-nos cenas fantásticas do tipo ‘Qualquer dia saio desta casa e depois é que vocês vão sentir a minha falta’. Uma mãe é feita de tudo isto. Esta capacidade de serem de uma generosidade à prova de bala. Quando nós percebemos aquilo que se passa numa mãe quando ela dorme exausta e de repente o bebé abre um olho e ela acorda, percebemos tudo. Aquilo que faz uma boa mãe é este sorriso absolutamente transparente que faz com que uma pessoa, diante disso, se sinta Deus com os olhos dela.

– Isso é demasiado poético para algumas mães que eu conheço, mas pronto, vamos aceitar.

(risos) Olhe que a grande maioria das mães são assim. No meio do cansaço, dos desafios, das dificuldades, dos contratempos, das exigências, acho absolutamente fantástico que consigam ser como são. Porque ser mãe não é fácil.

 

 

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