Eduardo Sá: “Os professores são super-heróis”

Março 5, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do DN Life a Eduardo Sá no dia 29 de janeiro de 2019.

“Não consigo perceber como é que não se tem a gratidão que os professores precisam de ter. Da tutela às direções de agrupamento.” As palavras são de Eduardo Sá, numa entrevista em que fala das pressões a que os professores estão sujeitos, de decisões mal tomadas e da grande paixão que estes profissionais têm pelo que fazem. “Se fôssemos a medir o retorno que eles têm pelo que fazem, tinham todas as condições para dizer ‘não, obrigado’”, diz o psicólogo.

Entrevista de Paulo Farinha

Visualizar os vídeos da entrevista no link:

https://life.dn.pt/ninguem-disse-que-isto-ia-ser-facil/eduardo-sa-professores-super-herois/?fbclid=IwAR2Sy8dH4wVJ22UayPU49px16mTE19Fxkp65y74IHctVtB_MMqAlqdmtwiA

O brincar no bebé não é feito ao acaso – Eduardo Sá

Outubro 2, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Photo by Åsmund Gimre on Unsplash

Texto de Eduardo Sá publicado no site Pais & Filhos de 24 de outubro de 2017.

O brincar do bebé liga ritmos, regras e rotinas. Conhece. Experimenta. Desafia medos e limitações. Crónica de Eduardo Sá.

Os bebés passam grande parte dos seus primeiros meses a observar. É um observar atento, através do qual estabelecem relações de causa e efeito. Na verdade, eles educam o olhar

Sempre que reparamos na forma como as crianças brincam, é tocante a seriedade com que o fazem e o jeito – quase infatigável – como se entregam ao seu brincar. É claro que, de forma intuitiva, percebemos que o brincar lhes faz bem. Mas talvez paremos pouco para nos perguntarmos porquê. Porque as distrai? Porque as estimula? Porque as diverte? Afinal, porque é que brincam as crianças? E, já agora – porque vivemos num mundo onde o brincar é, cada vez mais, uma atividade de fim de semana; parece estar, na vida delas, perigosamente, “à beira da extinção”; e é vivido como o “líder da oposição” em relação à aprendizagem e à escola – para que serve o brincar?

Brincar é aprender. Na verdade, sempre que uma criança brinca corresponde à curiosidade. Aproxima-se. Toca. Mexe. Desmancha. Reconstrói. Liga. Intui. Compreende. Abstrai. Extrapola. Compõe. Dispõe. Pesquisa. Pensa. Recria. E aprende. Isto é: isola, da realidade à volta dela, um conjunto de fatores que a estimulam; relaciona-os entre si e sintetiza aquilo que os liga; observa, interpreta e compreende; coloca hipóteses e testa-as, em simultâneo; experimenta-as e experimenta-se nelas; formula um problema; deduz; resolve o problema; transforma competências em recursos; conhece; e habilita-se para conhecimentos de complexidade crescente. Mais tarde, através da experimentação, voltará a testar o raciocínio lógico numa infinidade de combinações que a levam a ligar aquilo que conhece, aquilo que vive e aquilo que sente em equações de síntese com as quais pensa mais, pensa melhor e pensa, sobretudo, de forma mais simples, mais acutilante e mais eficaz. Brincar liga complexidade com simplicidade. Sensibilidade com proatividade. Versatilidade com criatividade. E liga corpo, pensamento, vida e mundo. E sempre que liga tudo isto a mais pessoas, exige mais síntese; mais competência para desconstruir a intuição, as imagens e os símbolos em palavras; mais comunicação; e mais destreza para compatibilizar co-mover, con-viver e intencionalidade empreendedora. Haverá, então, alguma atividade escolar que, atendendo aos métodos tradicionais de ensino e aos conteúdos que a escola traz às crianças, seja tão didática e compreensível como o brincar, e que lhes faça uma ponte tão esclarecedora para o mundo à sua volta e para o seu dia a dia? Não! Ou seja: brincar é mais importante do que a escola! Se ligarmos brincar e escola mudamos o mundo. Desligando o conhecimento do brincar, compromete-se a aprendizagem.

Mas se o brincar nas crianças parece ser, ainda, tão desconsiderado, o brincar no bebé nunca se discute. Ora, os bebés utilizam o brincar com a mesma intencionalidade que ele tem nas crianças. Os bebés passam grande parte dos seus primeiros meses a observar. É um observar atento, através do qual estabelecem relações de causa e efeito. Na verdade, eles educam o olhar. Começando pela forma como observam e “escutam” o olhar da mãe. Em tempo real, esperam que ela os leia. Leem-na, em simultâneo. Para que leiam o mundo, a partir dos olhos dela, de seguida. Assim a mãe adeque expressões, gestos e sons àquilo que ele intui, validando o seu conhecimento e expandindo-o para além do seu olhar. Que é, logo de seguida, dirigido para o interior da sua cabeça. Isto é, a curiosidade do bebé transforma-se em capacidade de exploração a partir da forma como, agora, passa do olhar ao dedo indicador e o dirige aos olhos da mãe, ao interior da sua boca, do nariz e das orelhas maternas. Para que, indo do dentro para o fora do colo, passe a explorar o interior das tomadas ou o interior das gavetas e dos armários. Surge, então, o primeiro “braço de ferro” com a mãe.  “Não!”, diz a mãe, de forma firme e “seca”, com um olhar fixo, centrado nos olhos do bebé. Ele testa-a, olhando-a, com surpresa. Para que, depois, esboce um olhar rasgado e projete o rosto sobre o seu ombro, tentando seduzi-la.

Antes disso, foi o bebé experimentando, com uma paciência e uma tenacidade incansáveis, a elevação do pescoço. A rotação do corpo. A coordenação das relações do olho com a mão. E a articulação entre tonicidade, equilíbrio e movimento. Entretanto, foi desafiado para movimentos mais súbitos, mais ruidosos e, sobretudo, mais intimidantes, como as cócegas. Às quais não reage, num primeiro momento, de forma tão sintónica como a mãe desejaria. Para que, depois, sorria. Se ria, logo a seguir. E, finalmente, gargalhe. Transformando aquilo que seria medo num jogo lúdico de aproximação e de vínculo. Ao mesmo tempo, já o bebé reage a expressões visuais, discriminando o bem e o mal, escolhe o bonito em prejuízo do feio, prefere os objetos fofos e calorosos (que representam muitas das qualidades maternas, na ausência da mãe) aos objetos angulosos, e as cores quentes e mornas às frias. Manuseia cubos ou cilindros que se contêm uns aos outros e – de forma aleatória, primeiro, mas dum jeito metódico, logo a seguir – contém os mais pequenos nos pequenos que, por sua vez, são contidos nos cubos médios que, numa sequência lógica, acabam por ser contidos nos maiores. Será uma  espécie de parábola da sua relação familiar que ele transforma em exercícios de classificação, de sequências lógicas e de seriação.
Pelo meio, tenta perceber até onde vai a sua importância, à medida que joga os objetos para o chão, e os observa, depois de cairem (como quem articula raciocínios e ilações) e espera que lhos devolvam, transformando uma descoberta ocasional num jogo, primeiro, e, depois, numa espécie de omnipotência atrevida que aguarda os sinais maternos para que aprenda a regra e os limites.

No entretanto, as “turras” (jogando a sua testa sobre a testa da mãe ou a do pai) são uma forma de se aproximar de quem gosta, de forma súbita e descoordenada (às vezes, quase intimidante) e, depois, dum modo mais contido e equilibrado, ligando agressividade e ternura, e retirando daí ritmos relacionais que consolidam, ao pormenor, o perímetro e a singularidade da relação.  Que, logo depois, se redefine na forma como derruba as torres de cubos que os pais constroem, para que as reconstruam e as derrube uma e outra vez e, assim, se assegure do lado inofensivo dos seus gestos mais agressivos e das competências reparadoras dos pais para conviverem com eles. Para que, a seguir, se inicie no jogo da presença e da ausência (“Não tátá o bebé… Tatá!!!) que, de forma repetitiva, introduz, num jeito lúdico, o afastamento de quem é precioso para ele e traz, com espanto e com surpresa, o seu regresso, que ele, a seguir, reproduz.

Quando um bebé brinca nada se faz ao acaso. O brincar do bebé liga ritmos, regras e rotinas. Conhece. Experimenta. Desafia medos e limitações. Liga. E estabiliza redes nervosas que, quando mais estimuladas forem, de forma coerente e constante, mais passam a ser o “software” a partir do qual ele cresce e conhece. Também no bebé, brincar é aprender. Assim ele possa, com a mesma tenacidade e de forma infatigável, para sempre, brincar.

 

 

O maior dos perigos da adolescência são os pais – Eduardo Sá

Setembro 26, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Redd Angelo Unsplash

Texto de Eduardo Sá publicado no site Eduardo Sá

Perante tantos e tão complexos desafios os pais são absolutamente imprescindíveis

É verdade que o início da adolescência se dá com o início das transformações psicológicas de adaptação à puberdade. E que, em função dela, um corpo que cresce “aos solavancos” e as transformações neutro-endócrinas que a acompanham “desengonçam” os adolescentes, “desarticulam-nos” e introduzem velocidades de crescimento diversas, entre si, que comprometem, em muitas circunstâncias, a sua relação com o grupo de pares e com a família.

É verdade que, logo a seguir, no salto entre os 12 e os 14 anos de idade, a emergência da sexualidade traz à cabeça dos adolescentes tantos sobressaltos e tanto mal-estar que se fecham muito mais sobre si, se tornam muito tensos em relação ao toque, parecem muito pouco simpáticos e ainda menos empáticos: quase como se fossem  “bichos do mato” ou vivessem n’ “a idade do armário”. Alguns, passam a falar em murmúrios e em “grunhidos”. O seu humor sofre oscilações diárias dignas duma “montanha russa”. Talvez por tudo isso, os grupos de pares dão-lhes o suporte que a família, em muitos momentos, regateia. A ligação entre identidade de género, identidade propriamente dita e identidade sexual começa a desenhar-se. E a sua vulnerabilidade, a este nível (e não só), aumenta, de forma vertiginosa, com toda a informação que lhes chegam via online.

É verdade, ainda, que, tal como os seus pais, os adolescentes portugueses gostam de ir para a escola, sobretudo, por causa do recreio. Colaboram, cada vez mais, em contexto escolar, uns com os outros. São quem mais valoriza o trabalho de equipa. São os alunos mais ansiosos entre os alunos dos países da OCDE, face à avaliação. E são os que mais abandonam a escola sem concluir o ensino secundário. E vivem-na como se ela lhes permitisse, sobretudo, downloads. Mais do que, propriamente, os levasse a pensar e a criar.

É verdade que, apesar de tudo isso, os adolescentes portugueses convivem entre si, eles socializam, hoje, sobretudo, online. A um ritmo diário quase absurdo – durante a manhã, no decurso das aulas, às refeições (!) e ao longo da noite – e diante da passividade gritante das famílias. E que circulam por sites, jogos online e redes sociais que – por mais que merecessem o controle, sensato e transparente, dos seus pais – aumentam, de forma exponencial, o contraditório da sua sabedoria, a forma como são manipulados em função dos dados que deixam, como rasto, nas redes e os perigos a que estão expostos.

É verdade que os adolescentes trocam 30 000 sms por ano (não contando com as caixas de conversação online). Gastam 8 dias por ano falando ao telefone, não contando que metade deles tem televisão no quarto.  Que 1/4 dos adolescentes passa mais de 6 horas por dia ligado à internet. Que focam, arrastam ou clicam no telemóvel quase 3 000 vezes por dia. E, mesmo se estiver desligado, têm, na sua presença, uma “atenção parcial” e, por isso mesmo, ficam menos inteligentes. E, se o seu comportamento for idêntico ao dos pais, fazem mais de 3 publicações por dia nas redes sociais; em 90% delas, com conteúdos de natureza pessoal. Sem se darem conta que, com 150 likes, um computador será capaz de os “conhecer” melhor que um membro da sua família.

É verdade, ainda, que a escola está, perversamente, virada, quase em exclusivo para promover a entrada no ensino superior. E que, entre mesadas, propinas, livros, dinheiro de bolso e todas as outras despesas relativas à vida de um filho, qualquer adolescente universitário tem um vencimento mensal muito claramente superior ao ordenado mínimo nacional. E que, talvez por causa de tudo isso, há em Portugal 176 mil jovens com menos de 30 anos que não trabalham, não estudam nem estão em formação.

É verdade, finalmente, que, se se tomar a autonomia de um adolescente em relação à sua família – em termos físicos, psíquicos e financeiros – a maioria dos adolescentes se torna autónoma pelos 30 anos. O que, se, por um lado, releva os aspectos acolhedores dos pais como talvez ele não existisse, de forma transversal, há uma geração atrás, por outro, os transforma numa espécie de “banco popular” e de “prestadores de serviços” que quase eterniza a adolescência.

É verdade, concluindo, que, diante de tantos e tão diversificados desafios, o maior dos perigos dos adolescentes são os pais. Quando se transformam nos melhores amigos dos filhos e se inabilitam para ser pais. Quando convivem e condescendem com comportamentos com que não concordam. Quando não repreendem nem reprimem as atitudes de altivez e de arrogância e as desconsiderações com que eles escondem as suas fragilidades. Quando não definem regras de utilização inequívocas para os telemóveis, para as redes sociais e para o jogo. Quando pactuam com a sua relação com o álcool como se fosse uma atitude de iniciação para a vida adulta sem consequências (quando mais de metade dos adolescentes que o experimentam se tornam consumidores frequentes ou de grandes quantidades e revelam, em função disso, diminuições claras dos seus córtexes frontal e temporal). Quando, à boleia do discurso populista entre drogas pesadas e drogas leves, omite opiniões firmes e regras claras sobre o consumo destas últimas, por mais que aplauda os comportamentos de saúde que os adolescentes têm, cada vez mais, com o tabaco. Quando deixam de ser “a referência” de Lei, de boa educação e de tenacidade e bom senso de que os adolescentes precisam. Quando os protegem demais e os autonomizam de menos. E, por último, quando imaginam que, num mundo em mudança, o seu papel em relação aos filhos será secundário. Quando é, mais do que nunca, imprescindível, insubstituível e indispensável. Por muito, muito tempo!

 

Os divórcios tiram férias? Eduardo Sá

Agosto 19, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado no Público de 7 de agosto de 2018.

Deixemo-nos de coisas: nenhum divórcio “corre bem”. Isto é: nunca se passa por ele sem muitas dores. E, no entanto, todos os divórcios se dão por “mútuo consentimento”. Acontecem! Vamos acumulando pequenos ressentimentos. Em vez de falarmos, amuamos e embirramos. E, a certa altura, o fim-de-semana começa a ser à segunda-feira. Na verdade, divorciamo-nos por dentro muito antes de nos divorciarmos por fora. E são tantas as “pequenas coisas más” que um processo de divórcio aclara no outro que, quando se dá por isso, todos os divórcios, mesmo os “amigáveis”, são… “litigiosos”.

Mas se separar os garfos ou os quadros já é difícil, separarmo-nos dos filhos dói “horrores”. Começando pela forma como lhes dizemos que “a mãe e o pai já não são namorados”. (O que, por outras palavras, quer dizer: “A mãe e o pai vão-te magoar muito porque precisam de ser felizes.”). E acabando na transformação radical d’ “A nossa casa” na casa da mãe e na casa do pai. Todos os divórcios doem muito a todos os filhos. Independentemente da idade. E doem, sobretudo, quando os pais – que até aí pareciam ser a “reserva natural” de bom senso – são, muitas vezes, engolidos por iras e por ódios. E por episódios muito feios de um em relação ao outro que acabam por colocar os filhos em sucessivos conflitos de lealdade onde amar, igualmente, os dois pais parece ser vivido quase como uma traição.

É claro que que todos os filhos, porque são amados, são um bocadinho egocêntricos. Logo, o divórcio dos pais passa por uma perplexidade do género: “Mas, se eu existo, do que é que eles precisam mais?”. Para que, de seguida, quando um dos pais encontra alguém que namore, a questão se colocar outra vez. E quando essa pessoa chega “equipada” com filhos, essa mesma questão voltar a colocar-se. Sobretudo, quando eles passam a estar mais tempo com um dos pais duma criança do que ela própria acaba por passar.

E, depois, é um bocadinho “contra-natura” comunicar a um filho que existe “uma pessoa” com quem se namora. Mesmo que essa pessoa seja, simplesmente, “um amigo da mãe” ou “uma amiga do pai”. Seja como for, há pais que entre um divórcio e a tal pessoa “amiga” a viver lá em casa esperam tempo de menos. E há pais que namoram, na “clandestinidade”, por tempo demais.

Mas, quando chegam as férias, um pouco por tudo isto, nem sempre elas são o descanso com que se sonhou. Porque “as nossas férias” são interrompidas pelas saudades que fazem com que o outro dos pais apareça, de surpresa, “só para dar um beijinho”. Porque, para as crianças mais pequeninas, 15 dias seguidos sem um dos pais é um tempo interminável, que as deixa tristonhas e desconsoladas. Porque as férias arriscam-se a não ser férias tal é o número de coisas difíceis por dizer que os pais e os filhos mais velhos aproveitam para pôr em dia. Porque os telefonemas regulares do pai que não está com a criança são, muitas vezes, vividos como um controle insuportável pelo outro. Porque, ao contrário do que se queria, acaba-se por “levar”, por causa disso tudo, a ex-mulher ou o ex-marido para férias. E porque as férias são as alturas escolhidas para um convívio mais a sério com “a tal pessoa amiga” (que, entretanto, traz os seus filhos, na esperança de que todos sejam amigos, muito rapidamente). E nem sempre isso ajuda.

Dividirmos o melhor de nós com quem passou a ser um “lado feio” da nossa vida não é fácil. Que o pai e a mãe não sejam namorados sempre se entende. Mas que as férias sirvam para descobrir que eles já nem amigos são fica mais difícil de aceitar.

Psicólogo

 

As crianças precisam da autoridade dos pais – Eduardo Sá

Julho 9, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Photo by Allen Taylor on Unsplash

Texto de Eduardo Sá publicado no site https://www.eduardosa.com

Há uma linha que separa a autoridade do autoritarismo. A autoridade é um exercício de bondade; o autoritarismo aquilo que se reclama quando os bons exemplos não coincidem com tudo o que se exige. Porque é que as crianças precisam da autoridade dos pais? Porque se as rotinas dão um perímetro mais ou menos familiar a tudo aquilo que desconhecem, a autoridade dá-lhes “um norte”. Um conjunto de nãos que, todos juntos, lhes trazem as regras que, em conjunto com as rotinas, orientam e estruturam as crianças, mesmo quando elas estão longe dos pais. As rotinas e as regras funcionam como um  “estabilizador de humor” que, quando não são demasiado opressivas, se adequam aos ritmos dos filhos e aquilo que se espera delas em termos sociais, fazendo uma ponte entre o dentro e o fora das crianças e o dentro e fora da família.

As crianças precisam de regras, portanto. As regras, se forem claro para elas, consolidam-se em função da autoridade que as crianças reconhecem aos pais. E a autoridade resulta da coerência dos nãos que elas têm por parte dos pais. Ora, é aqui que, grande parte das vezes, tudo se complica. Os pais entendem que explicar, negociar ou justificar as regras os torna mais democráticos e que isso ajudará a que as crianças, percebendo melhor aquilo lhes é pedido, acatem, de forma muito mais fácil, aquilo que eles esperam do seu comportamento. O resultado é, todavia, completamente ao contrário daquilo que os pais mais desejam. As crianças, sempre que sentem este “furor dialogante” dos pais, interpretam-no como um sinal de insegurança; de quem está a exercer a autoridade numa atmosfera de “desculpa qualquer coisinha”. E as consequências não são, seguramente, as melhores. Ficam mais assustadas, porque lhes falta “o norte”. Ficam muito mais agitadas, porque nem sempre aquilo que os pais esperam delas fica muito claro. E ficam muitíssimo mais desafiadoras, porque lidam com eles como se lhes estivessem sempre a dizer: “ainda está para nascer quem terá mão em mim!…”. Como se isso, só por si, não chegasse, à medida os pais vão saltitando entre os avisos, as ameaças, as explicações, a forma como “falam ao coração” e os desabafos com que capitulam diante de tudo isto, ao mesmo tempo que e os momentos se zangam, com clareza,  há muitas outras vezes em que “varrem para debaixo do tapete” uma asneira, duas asneiras, muitas asneiras… que não são “taxadas”, devidamente, pela sua autoridade. O que faz com que, à sétima ou à oitava asneira, os pais se zangam com “juros, sobretaxas e coimas adicionais” o que os leva a que, inevitavelmente, nunca sejam justos (porque a sua zanga acumulada faz com que sejam desproporcionados em relação a essa “oitava” asneira), para além de serem imensamente confusos (porque deixaram passar asneiras, talvez, mais graves do que essa “oitava” que os filhos terão feito, e acabam a zangar-se diante de uma outra que justificaria muito menos zanga da sua parte. Tudo isto quando, no entretanto, explicaram, justificaram e negociaram as regras, “mil vezes”. E depois de terem ameacado e avisado os seus filhos outras tantas “mil”.

Quando me falam do seu desespero e me dizem: “Eu já tentei tudo”, eu sorrio. Sobretudo porque não duvido que o “tudo” de que me falam é, inequivocamente, verdade. E , sempre que reajo e, tentando ser levemente provocatório, lhes digo que – regra geral – os nãos não se explicam, eles ficam um bocadinho atónitos e respondem: “Já percebi! Ou é assim, ou não é!”, rematando, de seguida: “Devo ser, portanto, autoritário!”. Mas, mal eu aceno com a cabeça, concordando como o “Ou é assim…” enquanto lhes garanto que isso não é ser autoritário, eles ficam confusos. Por mais que lhes garanta que as explicações são mais ruído do que uma mais-valia. Porque as crianças já têm nos exemplos dos pais a razão de ser das suas exigências. Por mais que lhes recorde que as crianças reconheçam aos pais a sua autoridade, baseadas no pressuposto que eles nunca lhes exigirão nada que não sirva para as proteger. E que, aquilo em que falham, é o no modo como, nem sempre, são coerentes nos nãos que impõem aos seus filhos, no tom com que se zangam (que faz com que muitos nãos se transformem em nins) e nas consequências que retiram dos nãos (que, ora tão depressa se transformam em castigos em formatos XXL, ora se resumem a um breve sermão). Às vezes, o embaraço dos pais é tão grande, que me perguntam, então, como é que se devem zangar, depois de avisarem os filhos duma forma um bocadinho “seca” (só duas vezes!!). Habitualmente, eu proponho: “E que tal… passar-se?…”, as mães – sobretudo elas – entram em “modo de alarme”. “Tem noção daquilo que eu sou capaz quando me passo?…”- perguntam-me elas. E eu digo: “Acredite que tenho. À “oitava” asneira ninguém se passa em “português suave””.

Moral da história: o “Ou é assim ou não é” dos pais da actualidade não tem nada a ver com os pais de antigamente. É bondoso, é democrático, traz regras e rotinas e faz os filhos crescer. Eu compreendo que os pais da actualidade tenham passado por muitos em que, à conta do “Ou é assim ou não é” de antigamente, se tenham sentido vítimas do autoritarismo. Mas sempre que ficam presos a isso, na ânsia de serem muito melhores pais, estragam os filhos. Porque não há como eles crescerem sem regras claras. E elas precisam de ser uma espécie de “piloto automático de nãos” com que as crianças façam uma triagem entre o bem e o mal, entre o medo e a coragem, entre o desconhecido e a curiosidade e, já agora, entre o passado e o futuro.

 

 

Nasceu a Escola Amiga da Criança: menos “cultura da nota” e mais recreio

Maio 3, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://observador.pt/ de 17 de abril de 2018.

Ana Kotowicz

“Se andam num furor desenfreado com os rankings, vamos criar outro ranking e olhar para aspectos absolutamente fundamentais dentro de uma escola”, diz Eduardo Sá. Já há 800 escolas candidatas.

O que é que se faz quando se quer subverter os rankings baseados nas notas? Cria-se a Escola Amiga da CriançaO mentor da ideia é Eduardo Sá que desafiou os pais da Confap e a editora Leya a criarem este concurso. As inscrições já fecharam e há 800 escolas candidatas a serem amigas dos seus estudantes. Os resultados serão conhecidos no Dia da Criança, 1 de junho, e a escola que apresentar a ideia mais extraordinária vai ficar com a sua biblioteca recheada de novos livros.

“A escola não pode ser uma linha de montagem de tecnocratas de sucesso, tem de ser muito mais que isso”, diz o psicólogo Eduardo Sá para explicar o que despertou em si esta vontade de lutar contra os rankings instituídos.

Quando teve a ideia de criar esta espécie de bandeira azul da educação, como o próprio lhe chama, Eduardo Sá sentia que a escola estava a perder as coordenadas que pretendemos que ela tenha. “E os pais, na sua bondade de pais, acabam por dar mais importância à escola do que aquela que ela deve ter. De repente, tudo o que não seja a escola parece perder importância na vida das crianças”, ressalva.

Por isso, quis criar um selo alternativo que premiasse os estabelecimentos de ensino que têm projetos e condições realmente amigas dos estudantes. Porque para ser boa, considera o psicólogo, a escola não pode ter apenas um conjunto de alunos com bons resultados escolares, precisa também de ter bons recreios, dar-lhes uma boa alimentação, envolver os pais no projeto educativo e ouvir os estudantes.

“Chegámos a um patamar em que, em primeiro lugar, a escola serve para criar condições para se entrar no ensino superior. Isto não é razoável, a escola é muito mais do que isso. E entrámos numa atmosfera quase de angústia que faz com que se parta do pressuposto que a vida acaba aos 17 anos com a entrada no ensino superior, como se andássemos a produzir corredores de 110 metros de barreiras quando a vida é uma maratona”, diz.

Este cenário é para si muito inquietante por considerar que a escola e a sociedade estão a desprezar questões que fazem parte de uma formação de carácter de jovens que têm de ser perguntadores, curiosos, autónomos e capazes de aprender a estudar, algo que “a escola vai desprezando todos os dias”.

“São tantas as aulas, os trabalhos que, de repente, estudar, pensar, duvidar, perguntar parecem ser bens em vias de extinção. E tornou-se importante criarmos um contraponto àquilo que têm sido os rankings — podem ser importantes porque nos dão uma amostragem nacional que nos deve obrigar a retirar consequências deles”, diz Eduardo Sá.

Mas os rankings, defende, foram subvertidos para uma espécie de controlo de qualidade em que muitas escolas acabam por fazer publicidade enganosa. “E acabam por não aceitar alguns jovens como seus estudantes porque não têm à priori as notas ao nível do que deviam. A ideia era subverter isto. Se andam num furor tão desenfreado com os rankings, nós vamos criar um outro ranking e vamos olhar para um conjunto de aspectos que são absolutamente fundamentais dentro de uma escola”, explica o psicólogo.

Jorge Ascenção, presidente da Confap — Confederação Nacional das Associações de Pais concorda com este diagnóstico: “Como diz o professor Eduardo Sá, é uma revolução silenciosa em relação à forma como a educação está a ser vista e nós, pais, estamos a dar um sinal de que queremos que as coisas sejam diferentes e de que queremos participar na solução.”

A revolução silenciosa passa não só por subverter os rankings, mas também por ter uma escola menos focada na cultura da nota. “Vemos o frenesim à volta dos rankings, e sentimos que isso está a acontecer cada vez mais cedo. Logo no 1.º ciclo já há muita preocupação com as notas. E depois não estamos preocupados se as nossas crianças e os nossos jovens crescem com aquilo que é a vida à volta deles, as questões do dia a dia, os valores. Só pensamos que têm de estar muito quietinhos na sala de aula e a estudar para poder fazer um teste”, argumenta Jorge Ascenção.

Uma Escola Amiga da Criança tem bons recreios

E o que é uma escola amiga da criança para Eduardo Sá? “É uma escola que tem um rosto humano, um fator que se tem vindo a perder. Uma escola que despreza todas as características da humanidade deixou de ser uma escola. Por isso, na Escola Amiga temos de olhar para a  qualidade dos recreios, a qualidade das casas de banho dos alunos, a qualidade da alimentação, a maneira como trazem os pais para a participação nos projetos das escolas… Tudo isto são aspectos que não podiam ser desprezados pelas escolas e que são colocados em segundo plano todos os dias”, defende o mentor da ideia.

Se todas estas características contam, os recreios assumem um papel especialmente importante, não só pela qualidade dos espaços onde se brinca mas também pelo tempo disponível para atividades não letivas.

À luz do Ministério de Educação brincar é uma atividade de primavera-verão, há muitas escolas privadas e públicas que não têm um recreio coberto digno desse nome. E depois têm recreios de 5 ou de 10 minutos entre aulas de 90 minutos. As crianças não podem conviver. Pelo modo como o ministério vê o recreio, nós vemos como ele não percebe de crianças. Então que sejam os pais e os professores a dizer: acordem, aprendam”, defende Eduardo Sá.

Jorge Ascenção concorda: “Há escolas com recreios que quase não existem. E quando os programas não são cumpridos prolongam-se os tempos letivos e diminuem-se os outros. Quase não há tempo para os miúdos poderem conversar entre si, para poderem brincar. E há escolas que nem infraestruturas têm para eles poderem brincar quando chove.”

Por que é que a falta de tempo para brincar é tão preocupante? “Brincar é sobretudo aprender”, explica Eduardo Sá. “Percebo que os pais dêem à escola a importância que ela tem de ter, mas brincar é mais importante do que aprender. Porque brincar implica resolver problemas, fazer perguntas, conviver, aprender a ser agressivo com lealdade e com maneiras, fazer pela vida, é uma espécie de aparelho digestivo do pensamento. E nós andamos a empanturrar as crianças de informação e quando é preciso pôr o aparelho digestivo a funcionar nós não o permitimos”, conclui o psicólogo.

E lembra que o cenário em muitas escolas é preocupante, principalmente na época da chuva: “Conheço jardins de infância que não têm nem um bocadinho de recreio coberto. Em muitas escolas públicas, quando chove, ou as crianças brincam à chuva e são castigadas, ou brincam debaixo dos beirais. E noutras quando chove vão para o ginásio como se o ar livre — poderem conviver com ele e tratá-lo por tu — fosse um bem de segunda necessidade.”

Ao selo Escola Amiga da Criança puderam candidatar-se escolas públicas e privadas, do pré-escolar ao 3.º ciclo. E em cada nível de ensino, ser amiga do estudante poderá ser ligeiramente diferente. Fundamental é que tudo gire em torno das necessidades do aluno.

“Um pré-escolar amigo da criança é aquele que incentiva a criança a perguntar porquê, em que ela está livre no seu espaço, a fazer o que mais gosta. Brinca se lhe apetecer, dorme se lhe apetecer, e tem sempre alguém com uma mão estendida pronta para a apoiar. Dá-lhe segurança, ajuda-a a confiar nos adultos nesta vida que está a começar longe da família. Há regras, mas não de mais. Deixa-as viver e crescer cada uma ao seu ritmo. O pré-escolar influencia as crianças a brincar, incute-lhes alegria de aprender brincando. Não tem de ensinar a letra A nem a B. E no pré-escolar não pode haver a ideia de que as crianças fizeram mal, se pintam o telhado de amarelo não está mal, terão a sua lógica. A nossa tendência é de pensar que estamos cá para os formatar, de condicionar o pensamento deles, a criatividade, e a escola não pode ser isso”, sublinha Jorge Ascenção.

800 candidaturas mostram que as escolas querem mudar

“Se a escola não é como devia ser a responsabilidade não é, com certeza absoluta, dos professores. Há esta ideia de que eles têm um programa para cumprir — que é importante, claro —, mas são tratados como se fossem burocratas da educação e não professores. Um professor ensina pela alma com que transmite aquilo que sabe, não pela forma como faz que um programa se cumpra. Nós só queremos devolver a alma aos professores, a partir do momento em que eles tenham alma, a escola fica um lugar muito melhor”, sublinha Eduardo Sá que se diz muito surpreendido com as 800 candidaturas que receberam.

Nem o mentor da Escola Amiga nem o presidente da Confap esperavam uma adesão tão grande no primeiro ano da iniciativa, mas veem nesses números uma vontade das escolas de mudar.

“Temos cerca de 800 candidaturas, o que é muito bom. A flexibilização curricular do Ministério de Educação só teve 230 escolas no projeto-piloto”, congratula-se Jorge Ascenção.

“Nós temos muito boas práticas nas nossas escolas, mas que não são conhecidas. Este projecto Escola Amiga da Criança vai-nos ajudar a conhecer esses excelentes projetos que já existem, mas também vai ajudar a que outros acreditem que é possível fazer diferente e combater a cultura da notacracia, da escravatura da nota, e humanizar a escola em função da criança”, continua o presidente da Confap.

Um dos exemplos de que fala o presidente da Confap é o de uma professora que fundou a associação de estudantes do 1.º ano do 1.º ciclo. “Aqueles meninos eram tão pequeninos e foram eles que numa assembleia de estudantes se lembraram que na casa de banho das meninas não havia espelho. Estas coisas são tão simples, existem nas nossas escolas, e ensinam as nossas crianças a ser cidadãs desde pequenas”, argumenta Jorge Ascenção.

O papel dos professores para a mudança será também fundamental, mas para isso, como diz Eduardo Sá, é preciso que a classe volte a recuperar a alma. Os bons exemplos serão determinantes para a mudança: “Acho que os professores são desconsiderados todos os dias. Adoram ser professores e trabalham às vezes em condições de uma indignidade que não acho compreensível. Mas quando lhes apresentamos uma ideia como esta, mais ou menos maluca — com as devidas aspas — e pedimos que mostrem aos outros resignados, deprimidos que é possível mudar o mundo com pequenos nadas, a primeira coisa que os professores fizeram foi dizer vamos lá.”

Bandeira da Escola Amiga é para durar

Por esta altura, o presidente da Confap ainda não sabe bem comos será o galardão entregue às escolas. As hipóteses são várias: um selo, uma placa, um emblema e, a sua preferida, uma bandeira que os estabelecimentos de ensino possam hastear no portão de entrada.

A certeza que tem é que seja bandeira ou selo esta iniciativa é para ficar e durar, ideia com que Eduardo Sá concorda lembrando uma outra que pareceu começar como uma brincadeira de ambientalistas e que está enraizada em Portugal: a bandeira azul das praias.

“Tenho a certeza que vai ser uma ferramenta para os pais escolherem a escola dos seus filhos. Os pais começam a perceber que os filhos não têm de fazer tanto por uma nota”, esclarece Jorge Ascenção.

“Gostaríamos que as 800 candidaturas pudessem ter um selo de Escola Amiga da Criança porque ter uma larga centena de escolas que se preocupa para além da nota é muito bom. Não estamos a desvalorizar o conhecimento, o saber é importante e faz parte do processo educativo, mas é preciso ter outras componentes, como os valores, o rigor, o companheirismo, a solidariedade, o saber rir, o sentir-se bem, o gostar da escola. Ter jovens que dizem ‘eu gosto da escola’ é excelente porque é a única forma de aprenderem bem. Se conseguirmos que os miúdos gostem do espaço escolar, provavelmente terão melhores resultados com menor esforço”, defende o presidente da Confap.

E quem vai mudar tudo isto serão as mães. É essa a convicção de Eduardo Sá: “Continuo a acreditar que são as mães que transformam o mundo. Há-de chegar uma altura, quando as mães estiverem a olhar para os projetos educativos que vão dizer assim: ‘E esta escola? Tem a bandeira azul da educação? Se não tem, o meu filho não vai para aqui.’ É magnífico pôr os pais a transformar a escola. É assumirmos que são ideias simples que se transformam em ideias extraordinárias.”

O psicólogo acredita que os pais estão a ter cada vez mais a noção de que os bons alunos não são aqueles que imperativamente tiram boas notas, defendendo que os próprios governos deviam olhar para alguns dados e repensar o caminho a seguir.

“A taxa de abandono do secundário é escandalosamente alta; a taxa de reprovação do primeiro ano da faculdade devia dar que pensar; a taxa de mudança de curso no 1.º e 2.º ano de faculdade devia dar que pensar; o abandono do ensino universitário tem taxas muito inquietantes”, sublinha Eduardo Sá.

E acrescenta: “Se juntarmos estes dados todos, explique-me qual é a ideia de estarmos a criar esta noção de que o mundo acaba aos 17 anos. Não acaba. É que depois estes miúdos fazem tudo menos ter experiência de vida e saem com a designação de mestre — e isso é publicidade enganosa — mas não têm os argumentos da autonomia, da acutilância, de desembaraço, de malandrice que também é necessário, para enfrentarem os problemas com que têm de lidar para crescer em termos profissionais. Às vezes andámos a educar como se eles fossem aristocratas e eles são operários. E é bom sermos operários em relação ao mundo com toda a humildade que isso pode representar. São tão protegidos que parece que estamos a criar uma geração imunodeprimida.”

Por tudo isto, Eduardo Sá diz que é preciso parar para pensar e para ver onde o caminho que a sociedade tem trilhado nos últimos anos nos está a levar. E se não gostamos do que vemos, acredita que está na altura de mudar o mundo com ideias tão simples como a da Escola Amiga da Criança.

“Temos de parar e perceber que os rankings são só só uma amostragem para dar coordenadas a quem pensa a educação. Temos de assumir uma coisa tão simples como esta: se olharmos para o mundo, para Oriente e Ocidente, temos os jovens mais informados que alguma vez a humanidade teve, mais escolarizados, e com mais fontes de informação livres ao seu dispor que alguma vez existiram. E são estes jovens que estão a eleger os líderes mais populistas do mundo. É preciso refletirmos sobre isto”, conclui.

 

 

 

Jornadas literárias ’10 de Letra’ 19 abril na SPA, com Eduardo Sá, Luísa Ducla Soares, José Jorge Letria

Abril 18, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://escritores.online/10-de-letra/

O maior dos perigos da adolescência são os pais – Eduardo Sá

Março 21, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado no site  https://www.eduardosa.com

Perante tantos e tão complexos desafios os pais são absolutamente imprescindíveis

É verdade que o início da adolescência se dá com o início das transformações psicológicas de adaptação à puberdade. E que, em função dela, um corpo que cresce “aos solavancos” e as transformações neutro-endócrinas que a acompanham “desengonçam” os adolescentes, “desarticulam-nos” e introduzem velocidades de crescimento diversas, entre si, que comprometem, em muitas circunstâncias, a sua relação com o grupo de pares e com a família.
É verdade que, logo a seguir, no salto entre os 12 e os 14 anos de idade, a emergência da sexualidade traz à cabeça dos adolescentes tantos sobressaltos e tanto mal-estar que se fecham muito mais sobre si, se tornam muito tensos em relação ao toque, parecem muito pouco simpáticos e ainda menos empáticos: quase como se fossem  “bichos do mato” ou vivessem n’ “a idade do armário”. Alguns, passam a falar em murmúrios e em “grunhidos”. O seu humor sofre oscilações diárias dignas duma “montanha russa”. Talvez por tudo isso, os grupos de pares dão-lhes o suporte que a família, em muitos momentos, regateia. A ligação entre identidade de género, identidade propriamente dita e identidade sexual começa a desenhar-se. E a sua vulnerabilidade, a este nível (e não só), aumenta, de forma vertiginosa, com toda a informação que lhes chegam via online.

É verdade, ainda, que, tal como os seus pais, os adolescentes portugueses gostam de ir para a escola, sobretudo, por causa do recreio. Colaboram, cada vez mais, em contexto escolar, uns com os outros. São quem mais valoriza o trabalho de equipa. São os alunos mais ansiosos entre os alunos dos países da OCDE, face à avaliação. E são os que mais abandonam a escola sem concluir o ensino secundário. E vivem-na como se ela lhes permitisse, sobretudo, downloads. Mais do que, propriamente, os levasse a pensar e a criar.

É verdade que, apesar de tudo isso, os adolescentes portugueses convivem entre si, eles socializam, hoje, sobretudo, online. A um ritmo diário quase absurdo – durante a manhã, no decurso das aulas, às refeições (!) e ao longo da noite – e diante da passividade gritante das famílias. E que circulam por sites, jogos online e redes sociais que – por mais que merecessem o controle, sensato e transparente, dos seus pais – aumentam, de forma exponencial, o contraditório da sua sabedoria, a forma como são manipulados em função dos dados que deixam, como rasto, nas redes e os perigos a que estão expostos.

É verdade que os adolescentes trocam 30 000 sms por ano (não contando com as caixas de conversação online). Gastam 8 dias por ano falando ao telefone, não contando que metade deles tem televisão no quarto.  Que 1/4 dos adolescentes passa mais de 6 horas por dia ligado à internet. Que focam, arrastam ou clicam no telemóvel quase 3 000 vezes por dia. E, mesmo se estiver desligado, têm, na sua presença, uma “atenção parcial” e, por isso mesmo, ficam menos inteligentes. E, se o seu comportamento for idêntico ao dos pais, fazem mais de 3 publicações por dia nas redes sociais; em 90% delas, com conteúdos de natureza pessoal. Sem se darem conta que, com 150 likes, um computador será capaz de os “conhecer” melhor que um membro da sua família.

É verdade, ainda, que a escola está, perversamente, virada, quase em exclusivo para promover a entrada no ensino superior. E que, entre mesadas, propinas, livros, dinheiro de bolso e todas as outras despesas relativas à vida de um filho, qualquer adolescente universitário tem um vencimento mensal muito claramente superior ao ordenado mínimo nacional. E que, talvez por causa de tudo isso, há em Portugal 176 mil jovens com menos de 30 anos que não trabalham, não estudam nem estão em formação.

É verdade, finalmente, que, se se tomar a autonomia de um adolescente em relação à sua família – em termos físicos, psíquicos e financeiros – a maioria dos adolescentes se torna autónoma pelos 30 anos. O que, se, por um lado, releva os aspectos acolhedores dos pais como talvez ele não existisse, de forma transversal, há uma geração atrás, por outro, os transforma numa espécie de “banco popular” e de “prestadores de serviços” que quase eterniza a adolescência.

É verdade, concluindo, que, diante de tantos e tão diversificados desafios, o maior dos perigos dos adolescentes são os pais. Quando se transformam nos melhores amigos dos filhos e se inabilitam para ser pais. Quando convivem e condescendem com comportamentos com que não concordam. Quando não repreendem nem reprimem as atitudes de altivez e de arrogância e as desconsiderações com que eles escondem as suas fragilidades. Quando não definem regras de utilização inequívocas para os telemóveis, para as redes sociais e para o jogo. Quando pactuam com a sua relação com o álcool como se fosse uma atitude de iniciação para a vida adulta sem consequências (quando mais de metade dos adolescentes que o experimentam se tornam consumidores frequentes ou de grandes quantidades e revelam, em função disso, diminuições claras dos seus córtexes frontal e temporal). Quando, à boleia do discurso populista entre drogas pesadas e drogas leves, omite opiniões firmes e regras claras sobre o consumo destas últimas, por mais que aplauda os comportamentos de saúde que os adolescentes têm, cada vez mais, com o tabaco. Quando deixam de ser “a referência” de Lei, de boa educação e de tenacidade e bom senso de que os adolescentes precisam. Quando os protegem demais e os autonomizam de menos. E, por último, quando imaginam que, num mundo em mudança, o seu papel em relação aos filhos será secundário. Quando é, mais do que nunca, imprescindível, insubstituível e indispensável. Por muito, muito tempo!

 

Maltrato com patrocínio – A propósito do programa de televisão Supernanny

Janeiro 23, 2018 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Opinião de Eduardo Sá publicado no https://www.publico.pt/ de 18 de janeiro de 2018.

Estreou, recentemente, na SIC, o programa Supernanny. No contexto de cada episódio, e em presença de uma “ama”, é exposta uma situação problemática da vida diária de uma criança e colocados à discussão os desempenhos dos pais em relação aos seus filhos, com centenas de milhares de pessoas a ver.

É legítimo que uma estação televisiva discuta questões relacionadas com a parentalidade e com a educação e que, com isso, entenda estar a prestar um serviço público. Se bem que não se entende se, no caso de Supernanny ser um programa de informação, por que motivo não cumpre os critérios éticos que deveria respeitar ou, no caso de não o ser, não se percebe de que forma um programa de entretenimento pode ser alimentado com dilemas gravíssimos de famílias e de crianças reais. Em quaisquer circunstâncias, o aspecto mais sensível deste programa poderá resumir-se desta forma: será a exposição pública duma criança, tornando públicos aspectos de si que a comprometem para sempre, ao mesmo tempo que é violado um conjunto de direitos que a deveriam proteger, um maltrato? E, no caso de ser assim, quais as consequências que devem decorrer para quem permite que um filho seja exposto desta maneira e para quem pactua, por omissão, em relação a ela?

Comecemos por supor que estaremos a falar de um reality show alimentado por dramas relacionados com crianças que, eticamente, a SIC devia resguardar, reservar e proteger. Aliás, se uma estação televisiva não pondera os danos que a exposição, sem reserva, de crianças lhes pode trazer, com que autoridade moral cumpre um código deontológico, quando se trata de enquadrar notícias, por exemplo, em função do exercício de humanidade e de rigor que é expectável que tenha quando informa? É claro que se poderá sempre dizer, repito, que não se trata de informação mas de entretenimento. Mas pode um drama real duma criança — no contexto duma exposição que a compromete, para sempre — ser considerado… entretenimento? E como pode um espectador, para efeitos de informação, reconhecer-se numa estação televisiva que, sempre que informa, escolhe não ser tablóide, por mais que, quando se trata de expor a vida das crianças, com a conivência explícita dos seus pais, usa “expedientes de tablóide”, não respeitando o direito à reserva da sua intimidade e da sua vida privada, a par de atentar contra outros direitos de personalidade (como “o direito irrenunciável e intransmissível que todo indivíduo tem de controlar o uso de seu corpo, nome, imagem, aparência ou quaisquer outros aspectos constitutivos de sua identidade”)? Aliás, será sério que, depois duma criança ser exposta sem reserva, no final de um episódio, se esclareça que tamanho maltrato mereceu a autorização expressa dos pais? Não seria responsabilidade da SIC, presumindo que os pais destas crianças tenham sido impulsivos ou irreflectidos ao autorizar tal exposição, protegê-los a eles e a elas, de forma a não se tornarem coniventes, por omissão, num maltrato?

Tentarei ser mais enfático: será uma exposição como aquela que vimos em Supernanny uma negligência ou maltrato? Um maltrato! Porquê? Porque um acto como aquele não só não será motivo de orgulho ou de integridade como, ao contrário, acaba por expor, denegrir e estigmatizar uma criança. No hoje como no amanhã. Por outras palavras: por mais que a intenção dos pais possa não ter ido no sentido de lhe provocar dolo ou danos, acaba por ter essas consequências. Ou seja: quando por ignorância, por precipitação, movidos por pré-juízos ou por preconceitos, ou por dificuldade de se descentrarem de si e se colocarem no lugar dos filhos os pais promovem sofrimentos cumulativos, maltratam. Se, no entretanto, parecem não ter estimado os custos dos seus actos sobre os seus filhos e o que eles possam trazer-lhes de irressarcível ou irreparável, e parecem não compreender a dimensão do sofrimento que lhes trazem, mais acabam por maltratar. Fá-lo-ão por má-fé? Muitas vezes, admito que não. Todavia, pergunta-se se, em circunstâncias como essas, reunirão os requisitos indispensáveis para representarem os seus interesses, patrocinarem os seus direitos e, em consequência disso, para os terem à sua guarda.

Como poderemos, então, considerar doutra forma que não seja como perigosa a atitude destes pais para com estas crianças? Será que, à falta da consciência do maltrato e do perigo que tudo isto representa para os seus filhos, e diante da sua permissão para que a sua exposição se dê em horário nobre, alguém os elucidou ou protegeu? E, perante uma exposição tão grave e tão irreparável, o que faltará mais para que o Ministério Público actue e proteja as crianças expostas, dado que estes pais terão protagonizado, aos olhos de todos, actos susceptíveis de serem interpretados como de negligência e de maltrato que a Lei define como perigo? Quando, por maioria de razão, (a fazer-se fé em notícias, entretanto, divulgadas) terão recebido 1.000€ pelo programa do qual resultou este exercício tão grave?

Já agora, compreende-se que, num contexto destes, esta exposição seja protagonizada por uma psicóloga, desempenhando funções associáveis à prática da psicologia, por mais que se argumente que estará a desempenhar um argumento ou a assumir uma personagem? E não deve um técnico de saúde mental, seja em que circunstâncias for, resguardar a vida das crianças e, acima de tudo, protegê-las? E pode, porventura, reclamar respeito para si e para o exercício da psicologia e, ao mesmo tempo, deixar que uma criança, com o seu patrocínio, seja exposta, publicamente, sem pensar na forma como isso a irá afectar e no modo como isso irá comprometer a sua vida em todos os dias seguintes, após a conclusão daquele programa?

E como entender que uma violação tão grave dos direitos das crianças conte com vários patrocínios que apoiam a respectiva produção? Não teremos todos assistido a um maltrato com patrocínio? Por outras palavras, terão as marcas que se associaram a este acto de exposição pública de uma criança consciência da gravidade daquilo que o seu patrocínio subscreveu? Como podem esperar que, depois, os cidadãos as respeitem e considerem quando, para mais, algumas delas estão associadas às crianças?

E, finalmente, perante tudo isto, não seria sensato que a sociedade civil se manifestasse civicamente e se afastasse da estação televisiva e das marcas que apoiam um maltrato destes? Não devia ser um propósito nobre e sensato de todos nós que as passássemos a declinar e a repudiar? Este artigo foi originalmente publicado no site eduardosa.com

 

O regresso às aulas… dos pais

Outubro 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ no dia 5 de setembro de 2017.

“É o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil”.

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As férias das crianças nunca são demais. Em primeiro lugar, porque as férias dos pais, quando eram pequeninos, seriam maiores. E, depois, porque olhando para as horas de trabalho dos pais e dos filhos, tendo uns e outros a mesma idade, as crianças trabalham na escola e para a escola em demasia. Fosse o mundo mais justo e, para que “as contas” fossem como deviam ser, as férias grandes deviam ser maiores para quem trabalha mais…

”Mas a vida é, hoje, mais dura e mais competitiva”, argumentam os pais, enquanto reclamam por mais escola e vão resolvendo problemas pelos filhos. Não é verdade! A vida sempre foi dura e competitiva. Por outras palavras, a vida nunca foi fácil! Não tanto no sentido trágico de quem vê nas dificuldades o pretexto para se desculpar por tudo aquilo que não ousou fazer, mas, pelo contrário, no sentido de quem as vê como a forma de descortinar nelas problemas que se transformam em oportunidades para novas dúvidas com que, depois de resolvidas, se cresce mais um bocadinho. A vida traz o difícil; a inteligência, a humildade e a perseverança transformam o difícil em simples. E é o simples, depois de descoberto, que (por ser óbvio) parece fácil. Mas, sendo assim, poupar às crianças os problemas que tenham para resolver e fazer da escola um “fast food” em que quase tudo lhes é dado, sem que haja quem as ensine a pensar, é o mesmo que as pôr a crescer sem que seja preciso que elas percebam, minimamente, como isso se faz. É “embrulhar” o difícil no fácil. E iludi-las com a grandiosidade com que “atrofiam” competências que tinham. Por outras palavras: é o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil para as crianças.

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Ainda assim, comparado o mundo em que os pais cresceram com o mundo ao acesso das crianças, tudo parece, hoje, “à primeira vista”, mais difícil. Porque é mais complexo e exige mais escolhas. Mas, com melhor trabalho, será mais amigo de melhor crescimento. Seja como for, o mundo em que as crianças vivem é parecido, em muitos aspetos, com aquele em que os pais cresceram. É igualmente assimétrico, igualmente demagógico e igualmente ganancioso. É verdade! Talvez porque seja igualmente “costurado” por pessoas. Ainda assim, é mais aberto, e mais acolhedor para quem for honesto, imaginativo e inimitável. Logo, é um mundo de mais oportunidades para aqueles que não forem “produtos normalizados”.
Já em relação à escola, ao contrário da das crianças, a escola dos pais foi, garantidamente, mais injusta. Porque dividia os alunos em inteligentes e em “burros”. Porque ensinava ao abrigo de humilhações e de castigos físicos. E porque muitos professores exerciam um poder discricionário que destroçava crianças.

Hoje, a escola é melhor! E se o regresso às aulas parece muito difícil e quase tumultuoso é porque, para além dos conflitos de agenda, os pais veem a escola à imagem da forma como a viveram. E imaginam o mundo como se o deles tivesse sido “cor de rosa” e o das crianças fosse, invariavelmente, cinzentão. E colocam sobre as aulas a responsabilidade que elas não podem ter. E não exercem, tanto como deviam, o seu direito de comparticipar na escolha da escola, da turma, do professor e de tudo o mais que está para além das próprias aulas. E desvalorizam o brincar, o preguiçar, o conviver ou, simplesmente, o imaginar.

 

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As férias estão a chegar ao fim. Mas se não quer que as crianças se estraguem na relação com a escola não se esqueça, por favor, que:
a) Os pais erram sempre. E isso é bom. Sobretudo se aproveitarem os seus erros para serem pais mais humildes. Sem nunca perder de vista que os piores amigos dos pais são “os bons pais”. Aqueles que querem tanto ser bons que olham mais para os seus desempenhos e para os pais que tiveram, competindo com eles, do que para os próprios filhos.

b) As crianças devem ser escutadas mas não podem decidir pelos pais. Seja a propósito da escola que vão frequentar ou das suas atividades extracurriculares. Aliás, como também não podem ser os técnicos a fazê-lo. Simplesmente porque os pais sabem sempre mais que os filhos. Mas não perca de vista que pais exageradamente cuidadosos são filhos de pais ou excessivamente exigentes ou demasiadamente descuidados.

c) Os pais serão mais atentos se tiverem memória. Ou, melhor, se não fugirem de “conversar” com ela. Dizer aos filhos que os tempos, hoje, são outros, faz com que os pais se sintam com legitimidade para exigirem que a relação dos filhos com a escola seja muito diferente daquela que eles, quando alunos e com a idade que as crianças têm, terão tido com ela. Mas será que os pais faziam todos os trabalhos de casa com agrado? E será que, alguma vez, terão achado as férias grandes ou exageradas? E será que tinham os resultados escolares exemplares que, agora, exigem aos filhos?

d) Todas as crianças são sobredotadas e todas têm necessidades educativas especiais. Ao contrário do que devia ser, a escola acarinha mais as áreas onde as crianças são, aparentemente, “sobredotadas”. E ignora, não identifica ou faz por não reparar nas suas “necessidades educativas especiais”. O que não será razoável é que as boas notas das crianças sejam, unicamente, a todas as disciplinas da escola. Ou a algumas, em particular. Porque as boas notas unicamente às disciplinas da escola — alavancadas com trabalho de pais exagerado, com excesso de explicações e com ateliês de tempos livres que existem para que os trabalhos de casa apareçam feitos, não interessa com que proveito, antes de lá se chegar – são úteis para disfarçar necessidades educativas especiais. Quando as necessidades educativas especiais são as melhores amigas da humildade, da tolerância à frustração e da “capacidade de sofrimento” com as quais se aprende a crescer. Cresce-se melhor quando se aprende a viver com algumas dores, com as experiências de tristeza que “tenham de ser” e, sobretudo, com mais tempo para “digerir” a experiência, para experimentar e para pensar, descobrir e inventar. Começa-se a conhecer quando se reconhece a primeira dificuldade

e) As crianças precisam de duas horas de tempo livre todos os dias! Porque quem brinca aprende melhor.

f) Não compita, através do seu filho, com as notas dos amigos deles. Nem confunda os seus sonhos escolares que não concretizou com projetos para ele. Alunos que não erram são crianças em perigo. Ou seja, só quem foge dos erros é que se desencoraja de aprender. Ainda assim, aprender não é fácil nem rápido. Nem se conquista com pouco trabalho. E, claro, não se aprende sempre com boas notas, sem erros e sem derrotas.

g) Não queira saber tudo acerca da escola, todos os dias. Os pais só precisam de ser atentamente distraídos. Tudo o que for para além disto é exagero.

h) Não transforme o regresso às aulas numa oportunidade para entrar num quadro de excelência só para pais. Também em relação à escola, insista em errar! Porque isso significa que não desiste nunca de aprender.

 

 

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